Cientista revela história obscura da Monsanto

João Alexandre Peschanski

A Monsanto não tem limites diante de suas pretensões empresariais. Faz acordos com o Exército estadunidense para produzir armas químicas, contamina cidades inteiras, compra indústrias no mundo todo para garantir o monopólio sobre a criação de transgênicos, vende agrotóxicos que têm efeitos perigosos em seres humanos e animais. Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, o professor estadunidense Brian Tokar, que estuda a história da corporação há 15 anos, aponta essas estratégias da Monsanto e explica o crescimento da transnacional que se tornou uma das mais ricas empresas do mundo.

Brasil de Fato – Por que o senhor começou a pesquisar a história da Monsanto?

Brian Tokar – No início, interessei-me mais pela Monsanto como ativista político do que como acadêmico. No final dos anos 80, em Vermont, Estados Unidos, pequenos agricultores estavam preocupados com o hormônio de crescimento bovino – um produto geneticamente modifi cado criado pela Monsanto, que estava prestes a ser aprovado como uma droga para forçar vacas a produzir mais leite. Os pequenos fazendeiros já estavam em uma situação muito difícil e temiam que a aprovação os forçasse a abandonar suas terras, por não terem como competir com os grandes proprietários que fizessem uso do hormônio. Tudo isso ocorreu antes mesmo de descobrirmos que a droga da Monsanto causava problemas de saúde em animais e homens. Comecei então, com outras pessoas, a lutar para que o hormônio não fosse aprovado e, caso fosse, que os produtos que o contivessem fossem rotulados.

BF – Em 1901, quando foi criada, a Monsanto era uma pequena usina de produção de sacarina (substância usada como substituto do açúcar). Quarenta anos depois, já era a maior indústria química do mundo. Hoje é uma das mais poderosas corporações, com atuação em dezenas de países. O que desencadeou esse crescimento?

Tokar – A Monsanto começou a crescer vertiginosamente durante a Primeira Guerra Mundial, quando provia o Exército estadunidense de matérias-primas como ácido nítrico e tolueno (usado como solvente). Durante a guerra, os lucros da empresa foram multiplicados por cem. A partir daí, começou a comprar pequenas indústrias químicas. Dos anos 40 até hoje, a Monsanto se tornou uma das mais poderosas empresas do Estados Unidos, diversifi cando sua produção – de materiais usados na indústria a agrotóxicos. A empresa foi uma das pioneiras na pesquisa e produção de herbicidas e pesticidas, muitos dos quais foram proibidos em 1972, por causar danos à saúde. Nos anos 60, criou produtos para desenvolver o famoso Agente Laranja, usado pelo Exército dos Estados Unidos para destruir florestas na guerra do Vietnã. No final dos anos 90, a Monsanto começou a comprar companhias de produção e comercialização de sementes no mundo todo, como forma de promover suas novas tecnologias de engenharia genética. Gastou 8 bilhões de dólares para fazer essas aquisições, incluindo a empresa Sementes Agroceres, a principal produtora de sementes de milho do Brasil.

BF – Qual é o lucro anual da empresa?

Tokar – Em 2002, a Monsanto faturou 4,7 bilhões de dólares. Isso representa um declínio de um bilhão de dólares em relação a dois anos atrás. Aproximadamente dois terços do lucro vieram da venda de agrotóxicos; o restante, de sementes geneticamente modifi cadas. O relatório de 2003 da empresa aponta subsidiárias em países com Argentina, Brasil, Índia e México.

BF – A Monsanto detém o monopólio de algum produto?

Tokar – A empresa teve a patente do herbicida glifosato, chamado Roundup, até que esta foi extinta em 2000. A partir daí, optou por aumentar a produção e o uso do Roundup, principalmente em milho e soja, porque o preço do Roundup caiu pela metade, com a extinção da patente e o surgimento de versões genéricas. A Monsanto é a única proprietária do hormônio de crescimento bovino o que leva os fazendeiros interessados em usá-lo a se submeter às pressões da corporação. No caso dos organismos geneticamente modificados, a Monsanto tem 90% das seqüências genéticas das sementes comercializadas.

BF – O que exatamente é o Agente Laranja? Quais foram as conseqüências de seu uso?

Tokar – É um poderoso herbicida, criado a partir da mistura de dois produtos da Monsanto, o 2,4-D e o 2,4,5-T, altamente tóxicos e causadores de terríveis conseqüências para o meio ambiente e para os humanos. Por causa dos efeitos do agente, em 1984 a Monsanto teve que pagar 81,9 milhões de dólares a soldados estadunidenses que haviam participado da guerra do Vietnã (1961-1975). Por enquanto, a Monsanto nada fez para compensar e ajudar os milhões de vietnamitas que também foram vítimas da exposição ao agente.

BF – A Monsanto ainda cria produtos usados militarmente?

Tokar – A empresa produz uma nova forma do Roundup, o Roundup Ultra, cem vezes mais potente do que a usada por fazendeiros. O produto está sendo usado pelo Exército estadunidense para destruir plantações de coca na Colômbia e acaba também sendo usado para agredir rebeldes na região. O despejo aéreo de toneladas do Roundup Ultra levou à destruição de diversas outras plantações locais, como mandioca, banana, cana-de-açúcar e milho, além do envenenamento de rios e lagos.

BF – Em diversos países do mundo, principalmente nos Estados Unidos, a empresa foi acusada de promover mortes e catástrofes ambientais. Há alguma documentação desses acontecimentos? Quais foram os mais graves?

Tokar – É impossível resumir os casos, pois foram centenas. O mais recente aconteceu no Alabama, Estados Unidos. A cidade inteira de Anniston foi devastada por causa da contaminação do solo pelos herbicidas que a Monsanto produziu no local por mais de 40 anos. A empresa foi considerada culpada e acusada de "ultraje". Em Alabama, o crime de "ultraje" é um dos mais graves, pois se considera que o crime é tão "ultrajante" que ultrapassa todos os limites da decência e precisa então ser visto como uma atrocidade, intolerável para toda a sociedade. Os advogados imediatamente fizeram um acordo em que acertaram o pagamento de uma multa de 700 milhões de dólares, 600 milhões dos quais iriam diretamente para os habitantes da cidade.

BF – No Brasil, há cada vez mais produção e consumo de organismos geneticamente modificados. Que conselhos o senhor daria para o povo e o governo brasileiro sobre os transgênicos e a Monsanto?

Tokar – Espero que o governo brasileiro tenha o bom senso de banir novamente os organismos geneticamente modificados. Pessoas no mundo todo estavam olhando para o Brasil como uma fonte de produtos não-transgênicos, mas alguns fazendeiros iniciaram o uso de Roundup para ter lucro imediato, sem se preocupar com as conseqüências a longo prazo. Nos Estados Unidos, muitos agricultores descobriram que quanto mais organismos geneticamente modificados usam, menos lucros têm, por causa da contaminação da terra e da dependência a algumas empresas. Nossos fazendeiros tiveram que aprender do jeito mais difícil e espero que, em outros lugares do mundo, não seja do mesmo modo.

Brian Tokar é professor do Instituto de Ecologia Social, em Vermont, Estados Unidos, e ativista político. Autor de diversos livros, como Earth for Sale e The Green Alternative (do inglês, Terra à Venda e A Alternativa Verde), desde o fi nal dos anos 80 ele pesquisa a história e as estratégias da corporação estadunidense Monsanto. Em maio, nos EUA, ele vai publicar Gene Traders: Biotechnology, World Trade and the Globalization of Hunger (Comerciantes de Genes: Biotecnologia, Comércio Mundial e a Globalização da Fome).

Fonte: EcoTerra

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