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O
grande número de cachorros soltos em Curitiba começa a se tornar um sério
incômodo. Da população de 240 mil cães, estipulada pela Coordenação de
Controle de Zoonozes da prefeitura, mais da metade
está nas ruas. Somente 20% desses animais (48 mil) têm domicílio e outros 20%
vivem em situação de semidomicílio – só retornam à
casa do proprietário para dormir ou se alimentar. Já a maioria, 60% (144
mil), está totalmente abandonada.
Com a média de um cachorro para sete habitantes, Curitiba está superou a taxa
considerada ideal pela Organização Mundial da Saúde (OMS): um para dez
pessoas. Assim, os problemas começam a surgir. Não só de saúde, como também
de gastos com a manutenção desses cães. Os apreendidos no canil municipal
consomem 1,3 tonelada de ração por mês, com o custo próximo de R$ 2,6 mil,
fechando em torno de R$ 31,2 mil ao ano.
Em relação às patologias, os cães podem transmitir 80 tipos de doenças ao
homem. Entre elas raiva, verminoses e doenças de pele. Porém o que mais
preocupa são as mordidas.
Por ano, os hospitais de Curitiba notificam 8 mil casos de mordidas, média de
21 por dia. Contando as situações não registradas, o número é ainda maior.
Dessas vítimas, 70% (5,6 mil) necessitam tomar vacina anti-rábica. Como cada
paciente toma no mínimo uma dose dupla, o custo somente com vacina antirábica no município chega a
pelo menos R$ 8.176 – cada dose custa R$ 0,73. Tal valor pode ser maior, já
que em casos mais graves são necessárias até cinco doses. Fora gastos com
curativos, suturas de cortes, além de outros medicamentos.
Segundo a veterinária da Coordenação de Zoonozes,
Cláudia Lysenki Fagundes, apesar das campanhas, a
população ainda não se conscientizou da importância não só de manter o animal
dentro de casa, como também do controle de natalidade. Tanto que em grande
parte dos cachorros apreendidos pela carrocinha os proprietários alegam que o
animal sai todos os dias para dar uma voltinha – o que não é nada
recomendável.
As crendices também atrapalham. Claudia explica que é comum
as pessoas pensarem que a cadela tem de procriar ao menos uma vez.
Fora o fato de que muitos acreditarem que a esterilização causa danos. “Tem
gente que pensa o cachorro esterilizado perde a virilidade e não protege mais
a casa”, ressalta a veterinária.
A maior parcela de culpa de tantos cães estarem soltos recai justamente sobre
o proprietários. Conforme explica o voluntário da
organização não-governamental Clube das Pulgas, que organiza projetos sociais
como castramentos gratuitos de animais, José Cesar Valeixo Neto, as pessoas
não se dão conta de que o animal é um ser vivo, não um objeto. “No começo, o
cachorro é bonitinho e interessa. Depois, quando começa a dar trabalho, a
pessoa se livra do animal, levando para bairros distantes ou dando para a
empregada, que nem sempre tem condições de cuidar”, critica Valeixo.
Além de mal ao próprio animal, o abandono, segundo Valeixo,
gera problemas também para a sociedade – ponto de vista ausente em muitos proprietário, segundo o voluntário. Assim, explica Valeixo, a situação acaba virando um ciclo. “A cadela
entra no cio a cada seis meses. Se ela estiver na rua, vai procriar. Cada
ninhada gira em torno de seis a dez filhotes, sendo metade
fêmeas, que vão procriar novamente”.
Portanto, antes de adquirir um cachorro, Valeixo
afirma que a pessoa tem de ter total noção de que o animal vai viver em torno
de dez anos e que gera custos (alimentação, veterinário
e vacinas, além de danos, como objetos roídos). É a chamada posse
responsável. “As pessoas infelizmente não pensam nisso. Pensam que podem se
livrar do animal a qualquer momento”, ressalta.
(Fonte: Marcos Xavier Vicente / Gazeta do Povo)
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