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Danielle
Jordan / AmbienteBrasil
O momento político conturbado que o país atravessa encobre diversas ações que
deveriam ter destaque para evitar prejuízos ainda maiores. Essa é a avaliação
da advogada e ambientalista Sulema Mendes de Budin,
que lamenta a falta de atenção da mídia para "temas
importantíssimos", entre os quais a construção da Usina Hidrelétrica de
Barra Grande, tido por muitos ecologistas como um grave crime ambiental.
A Usina, situada no Rio Pelotas - na divisa entre os estados de
Santa Catarina e Rio Grande do Sul -, teve a licença para o
funcionamento cedida pelo Ibama no início deste mês. Cerca de seis mil
hectares de floresta serão inundados, cedendo espaço a um lago com 94
quilômetros quadrados. Ambientalistas alertam para importância dos
remanescentes da Floresta de Araucárias, que são de fundamental importância
para a preservação da biodiversidade. Espécies endêmicas, (que ocorrem em determinadas
regiões) estão em risco, entre elas a Dyckia distachia Haaler,
bromélia rara listada como uma das espécies brasileiras em extinção. Técnicos
decidiram pela total remoção da população das plantas existentes no local,
que serão levadas a viveiros e, lá, reproduzidas.
Sulema faz um apelo falando da decisão final liberando o funcionamento da
Usina: ”eles vão abrir as comportas e daí será tarde demais para o que é
fundamental: impedir a devastação”. Lúcia Ortiz, coordenadora geral do Núcleo
Amigos da Terra Brasil analisa, porém, que nada mais pode ser feito: o lago
da barragem já começou a encher e em dois ou três meses deverá atingir seu
limite. “O estrago já foi feito e nada mais poderá reverter”, diz,
ressaltando: “mesmo que algum juiz dê parecer a nosso favor”. Algumas ações
civis públicas estão em julgamento, mas continuam sem resposta.
Lúcia diz que os estudos realizados pela empresa responsável pelo relatório
de impacto ambiental, a Engevix, não levaram em consideração diversos
aspectos da biodiversidade local, apresentando dados fraudulentos. Para ela,
estudos mais aprofundados certamente revelariam novas espécies ameaçadas,
tanto na flora quanto na fauna da região. "Apesar de tudo isto não houve
um procedimento por parte do governo para a paralização e reinício dos
estudos”.
Adriano Becker, vice-presidente e conselheiro da Amigos
da Terra, comenta o estranho fato do levantamento ter sido
realizado em apenas um mês e vinte dias, tempo insuficiente para a análise
dos impactos sociais e ambientais de um empreendimento dessa magnitude. “Um
absurdo total e completo”, conclui. Mesmo tendo sido mencionada a existência
de mata primária, quem lê o estudo não consegue imaginar a vegetação
existente na realidade, segundo ele. Semana passada Adriano esteve na área e
diz que a água ainda não atingiu a mata primária nem o Parque Municipal de
Encanados, em Vacaria/RS. Agora é só uma questão de tempo. Até outubro toda a
região deverá estar alagada sendo que a primeira turbina deve começar a gerar
energia no final do mês. Em janeiro do próximo ano, a usina estará
trabalhando com potência máxima.
Adriano e Lúcia dizem que a ONG ainda mantém sua luta, mesmo sendo derrotada
nesta batalha. A Amigos da Terra acompanha todos os processos de
licenciamento de hidrelétricas no Rio Uruguai. E briga para que a Usina de
Paiquerê, em fase de licenciamento pelo Ibama, seja barrada e se torne uma
unidade de conservação, para compensar os danos causados por Barra Grande. De
acordo com Lúcia, esta seria a última área similar em termos de importância
para a preservação da floresta.
Os problemas causados pela inundação da barragem vão além de questões
ambientais. Cerca de 2.500 famílias, de pequenos e médios agricultores e de
trabalhadores rurais sem-terra, serão diretamente atingidas. André Sartori,
presidente do Movimento dos Atingidos por Barragens - MAB -, afirma que
muitas destas famílias dependem da região para o sustento. Elas tiveram que
abandonar o local, “mas a sua criação ainda está lá”, diz, referindo-se aos
animais e as plantações. André confirma que o alagamento teve início no dia 5
de julho e que 40% da área já foi atingida. Ele diz que a tradicional
enchente que ocorre entre os meses de setembro e outubro, conhecida como
"enchente de São Miguel", deve completar o limite da barragem.
A Baesa, empresa que detém a concessão da usina, defende-se dizendo que as
acusações que vem sofrendo por ONGs ambientalistas não levam em conta os
dados científicos e técnicos levantados em cinco anos de estudos e pesquisas,
além do Plano Básico de Análise Ambiental implantado no
projeto. Em seu site, a empresa divulga uma nota intitulada
“Esclarecimentos sobre as ações ambientais realizadas no empreendimento”. (veja
no link abaixo)
Municípios que serão afetados:
Santa Catarina: Anita Garibaldi, Cerro Negro, Campo Belo do Sul, Capão
Alto e Lages.
Rio Grande do Sul: Pinhal da Serra, Esmeralda, Vacaria e
Bom Jesus.
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década
“Esclarecimentos
sobre as ações ambientais realizadas no empreendimento – Baesa”
Legislação associada:
Dispõe
sobre Licenciamento Setor Elétrico – CONAMA.
*Crédito da foto: Adriano Becker - ONG Amigos da Terra.
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