Jornal do Comércio, 11 de novembro de 2004.

Seção Geral

 

AMBIENTE

Especialista prevê guerra mundial pela água

 

Italiano pede união de cinco países para pressionar os mais ricos

 

“A água será um bem tão precioso e caro quanto o petróleo. É o ouro negro contra o ouro azul. Este é o fenômeno da petrolização da água”. Com esta afirmação, o economista italiano Riccardo Petrella, uma das maiores autoridades mundiais em gestão de recursos hídricos e secretário-geral do Comitê Internacional para o Contrato Mundial da Água. Petrella, que também é professor da Universidade católica de Louvain (Bélgica), traçou um futuro caótico para a humanidade caso não sejam tomadas medidas drásticas quanto à preservação dos recursos hídricos. “O mundo se dirige para o caminho da guerra total. Mas isso pode ser evitado com a conscientização da humanidade sobre a importância da água”, disse Petrella em sua palestra de ontem no II Fórum Internacional das Águas, sendo aplaudido de pé pelo público do Centro de Eventos do Plaza São Rafael, em Porto Alegre.

        O economista propõe a união de cinco países que possuem grande potencial – África do Sul, China, Índia, Jordânia e Brasil – para pressionar os ricos do Hemisfério Norte para o aumento da preservação do recurso hídrico. “Esses países podem tomar a iniciativa de fazer a distribuição de água para todos”, disse.

        Outras ações necessárias para evitar uma guerra, segundo ele, seriam a criação de um observatório mundial de direitos humanos para água e a fixação de uma taxa para a utilização da água na agricultura e  indústria. “A agricultura é responsável pela metade do uso dos recursos hídricos no mundo. Cabe aos países do Sul dizerem aos do Norte que isso não pode continuar”, salientou. O estabelecimento de um Tribunal Mundial da Água, nos mesmos moldes que ocorre em Valência, na Espanha, também é uma das propostas levantadas por Petrella.

        Ele também criticou a Organização Mundial do Comércio (OMC), que afirma que só conseguirá erradicar a pobreza em 2050. “Pensamos que as diferenças sociais fazem parte da nossa natureza. Isso não é verdade e não pode continuar”, disse. Para exemplificar, ele lembra que 18 milhões de crianças no mundo inteiro não vão à escola porque têm que andar diariamente dezenas de quilômetros em busca de água.

        O Fórum continua hoje, com destaque para a conferência “Tribunal das águas de Valência: 1044 Anos em Defesa da Vida”, com a presença do presidente do Tribunal, Vicente Nacher.

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