|
Ter por
perto um cemitério pode ser sinônimo de problema, mas a realidade é bem
diferente dos filmes de terror. O que coloca medo em cientistas e engenheiros
é o impacto ambiental provocado por esses locais. Na tentativa de diminuir
efeitos como contaminação de lençóis freáticos, o primeiro Simpósio Nacional
de Engenharia de Cemitérios analisa, até esta quarta-feira (10), alternativas
e a importância da adequação aos regulamentos estabelecidos pelo poder
público.
A engenheira agrônoma Elma Romanó,
do IEP - Instituto de Engenharia do Paraná, coordena o evento. Ela também é
chefe do escritório de Ponta Grossa do IAP - Instituto Ambiental do Paraná e
foi responsável, há duas semanas, pela interdição de um dos cemitérios da
cidade, o São Sebastião. Lá, o cenário era digno de uma cena do clássico
"Poltergeist": a erosão provocada pela
água da chuva chegou a deixar à mostra caixões abertos.
Elma explica que a decomposição dos corpos produz
dois ácidos potentes. Sem impermeabilização adequada, eles podem descer até
os lençóis freáticos – fontes de água para a população. Outras fontes de
contaminação podem ser os metais pesados de caixões e a radioatividade em
pessoas que morreram de câncer e passaram por tratamentos de radioterapia.
"Ainda pode haver problemas com mau cheiro e até o impacto psicológico
de morar ao lado de um cemitério", completa.
"Existe uma resolução de alcance federal com regras para cemitérios, mas
o governo do Paraná a achou insuficiente e emitiu uma regulamentação mais
restritiva", explica Elma. No entanto, o prazo
de 90 dias para os cemitérios irregulares solicitarem licença ambiental, e de
180 dias para os regularizados pedirem exame ambiental, já expirou há muito
tempo, sem resultados. "O provável é que demos novo prazo", diz a
engenheira, acrescentando que a maioria dos 24 cemitérios de Curitiba,
inclusive públicos, está irregular.
Elma aponta como modelo o Cemitério Vertical de
Curitiba. "Se eu fosse escolher um local para ser enterrada, seria
lá", diz. Ela conta que os caixões são colocados sobre um recipiente de
PVC, que impede a passagem dos ácidos da decomposição. "Quando há
impermeabilização, não existe impacto ambiental", resume. Como contraste,
a engenheira comenta a situação do Cemitério Santa Cândida, também na
capital, em que havia 3 mil corpos em área de várzea. O problema está sendo
corrigido pela prefeitura. Ela estima que seriam necessários pelo menos R$ 20
mil por cemitério para que todos estivessem de acordo com a regulamentação.
Os temas do seminário incluem aspectos legais, geológicos e químicos
relativos ao impacto ambiental de cemitérios. A bioquímica e farmacêutica
Célia Wada, das Secretarias Municipais de Saúde e
do Verde e Meio Ambiente de São Paulo, pretende levar a idéia para a capital
paulista em poucos meses. "Em São Paulo, o problema é muito grave. O
evento é importante para abrir os olhos dos responsáveis", diz. O fim
definitivo da preocupação, para Elma, passa por uma
solução não de cinema, mas de novela. "O ideal seria que ninguém
morresse", brinca. "Como isso não é possível, a cremação seria uma
alternativa, mas entendo que muitos possuem restrições de ordem
religiosa", completa a engenheira. (Marcio Antonio Campos -
Gazeta do Povo/PR)
|