Mazelas no rio Paraíba do Sul
Guilherme Souza
Diretor Geral do Projeto Piabanha;l Empreendedor Social da Ashoka -
Itaocara - RJ
Site: www.projetopiabanha.org.br
e-mail: [email protected]
Preocupados
com a pesca predatória e a proteção dos cardumes de peixes do rio Paraíba do
Sul, o presidente e o vice-presidente da Colônia de Pescadores Artesanais de São
Fidélis, a Z-21, entraram em contato com o Projeto Piabanha convidando o
diretor-presidente e biólogo do Projeto para conhecer a cachoeira do Salto.
Aceito o convite, na deslumbrante manhã do dia seguinte, Guilherme Souza,
dirigiu-se para São Fidélis.
A cachoeira do Salto é mais uma beleza desconhecida dos cariocas e
fluminenses, inclusive dos próprios habitantes da região. Munido de uma pequena
tarrafa para pescar piabas, Dominguinhos, o vice-presidente da Colônia,
capturou na parte baixa da cachoeira, num só lance, 97 peixes com
aproximadamente 10 cm de comprimento cada um, pertencentes às seguintes
espécies: piau branco (60), lambari-do-rabo amarelo (15), lambari-do-rabo
vermelho (8), sairú (6), bocarra (4), curimatã (3) e uma bela piabanha. Só então
pôde ser compreendido o motivo do telefonema-convite – possivelmente se tratava
de uma situação ainda não estudada e descrita devidamente pela ciência,
relacionada à migração de peixes do rio Paraíba do Sul. Centenas
de milhares de alevinos (filhotes de peixe) originários da última desova
(dezembro de 2004) encontravam-se em processo de migração e na tentativa de
vencer o desnível da cachoeira para povoamento rio acima, e assim continuar o
ciclo de vida tornando-se juvenis e, mais tarde, reprodutores.
Entretanto, para muitos peixes o ciclo acabava ali mesmo. Enquanto eram
selecionados pequeninos peixes, a fim de formar um novo lote de reprodutores
para o Projeto Piabanha, centenas de pessoas, dentre os quais muitos pescadores
artesanais profissionais, capturavam milhares de alevinos para serem
posteriormente servidos fritos como aperitivo ou usados como isca viva para
capturar peixes maiores como a traira, o dourado e o robalo. O semblante de
Joacy, presidente da Colônia, era de perplexidade e indignação. Ao seu lado
estampava -se o olhar triste e consternado do seu vice.
Uma visão mais ampla se volta para o extenuante trabalho e programas de
conscientização e preservação do Projeto Piabanha e da Colônia de São Fidélis,
aprisionados entre as tramas de inúmeras tarrafas. Indivíduos que dependem
exclusivamente da atividade pesqueira – fiéis a
lei do “Se Eu Não Pegar Outro Vai Pegar Mais Adiante” – capturavam e
exterminavam de forma predatória gigantescos cardumes, em franca migração.
Diante daquele panorama antipático e caótico surgia a pergunta: será que é por
fome, ignorância, simples lazer, ou descaso generalizado? A presença dos órgãos
ambientais fiscalizadores, tais como a Secretaria Municipal de Meio Ambiente de
São Fidélis, a Polícia Florestal e o IBAMA transmutaram-se mais uma vez na
única ação conhecida: invisível aos olhos da população. A omissão é
caracterizada no Código Penal como passível de pena e prisão dos responsáveis.
Como havia uma carga muito preciosa, e ali não era o local nem o momento para
uma conscientização ambiental, foram embalados os peixes capturados por
Dominguinhos, em sacos com água e oxigênio, transferidos para o núcleo do
Projeto Piabanha, em Itaocara.
Sem considerar outras mazelas cotidianas que assolam o rio Paraíba do Sul da
nascente até a foz, esta, por si só, já é um grande motivo para congregar as
entidades civis, o Poder Público e programar uma ação efetiva para a
conservação e o ordenamento pesqueiro, dado que já foram instituídas
todas as leis e decretos necessários, sempre violados, e definidas as
estratégias de gestão sócioambiental que jamais foram cumpridas. Afinal de
contas, o desenvolvimento sustentado compreende uma forma contemporânea de uso
dos recursos naturais, preconizada, utilizada e difundida exaustivamente
através do planeta em alto e bom som. Aproximadamente, ao longo do Paraíba do
Sul, 1.200 pescadores artesanais localizados entre os municípios de Carmo e São
João da Barra, mantêm suas famílias com a pesca artesanal neste precioso corpo
hídrico.
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