ENCHENTES: O CRUCIAL FATOR GEOLÓGICO

Geól. Álvaro Rodrigues dos Santos  
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Ex-Diretor da Divisão de Geologia e de Planejamento e Gestão  do IPT; Consultor em Geologia de Engenharia, Geotecnia e Meio Ambiente; Autor dos livros “Geologia de Engenharia: Conceitos, Método e Prática” e “A Grande Barreira da Serra do Mar”   

Em resumo, mas sem prejuízo da precisão, a equação básica das enchentes da Região Metropolitana de São Paulo (certamente similar para outras regiões metropolitanas do país), pode ser assim expressada: 

Volumes crescentemente maiores de água, em tempos sucessivamente menores, sendo escoados para drenagens naturais e construídas progressivamente incapazes de lhes dar vazão, tendo como palco uma região geológica já naturalmente caracterizada por sua dificuldade em dar bom e rápido escoamento às suas águas superficiais.”

Nesse contexto, o combate às enchentes na região metropolitana paulista deve, para garantir resultados confiáveis, atacar indispensavelmente cinco frentes técnicas, combinada e concomitantemente: as quatro primeiras frentes dizem respeito a medidas hidráulicas estruturais,  quais sejam as obras de alargamento e aprofundamento da calha do Tietê (que não podem mais sofrer descontinuidades), o permanente desassoreamento de todos rios, córregos e drenagens construídas, a eliminação de pontos de estrangulamento representados por pontes, galerias e sistemas de drenagem antigos que já não suportam mais as vazões a que são submetidos, e a construção de reservatórios de detenção (piscinões) em pontos estrategicamente escolhidos.

A quinta frente técnica, e sem o sucesso da qual todas as outras medidas ficam comprometidas em seus resultados, diz respeito justamente aos trabalhos ditos não estruturais,  fora das calhas hidrográficas, no caso especialmente aqueles voltados a reduzir ao máximo o assoreamento das drenagens naturais e construídas através da redução da erosão nas frentes de expansão metropolitana, do lançamento irregular do lixo urbano e do entulho de construção civil e do desgaste precoce de pavimentos urbanos.

Na Região Metropolitana de São Paulo, a perda média de solos por erosão está estimada em algo próximo a 15 toneladas de solo por hectare/ano, o que implica na produção anual  de algo em torno de 3.570.000 m3 de sedimentos e sua decorrente liberação para o assoreamento da rede de drenagem.

Importante ressaltar que o poder público, através dos imensuráveis e  intermináveis serviços de  desassoreamento das calhas dos principais rios da Região Metropolitana, obras onde já foram aplicados ao longo de décadas recursos na ordem de alguns bilhões de reais, tem até hoje se batido exclusivamente com as conseqüências dos processos erosivos. Com a implementação de medidas corretivas e preventivas de redução da erosão e do assoreamento (sedimentos, lixo, entulho de construção civil, material de desgaste de pavimentos), especialmente nas áreas médias e de cabeceira das sub-bacias hidrográficas afluentes, em intervenções sugestivas de centenas de pequenos contratos com pequenas e médias empresas locais, pela primeira vez o poder público estaria armando-se para atacar a causa do problema, o que, a médio prazo, minimizaria suas conseqüências e permitiria trabalhar-se com sistemas de manutenção e ampliação das calhas principais mais circunscritos e menos problemáticos e dispendiosos.

Ao mesmo tempo, a necessidade do constante desassoreamento destes rios  impõe um fantástico nível de gastos ao poder público metropolitano retirando sua capacidade de investimentos em soluções mais racionais e definitivas para o problema geral de enchentes na região, ou mesmo no atendimento de outras necessidades da população metropolitana. 

Mais recentemente, o mesmo fenômeno de aporte de sedimentos e lixo tem implicado no violento assoreamento dos piscinões, retirando-lhes em momentos cruciais a capacidade de bem cumprir sua função projetada de retenção temporária de volumes expressivos da água proveniente de episódios de chuvas intensas.

De uma forma geral, a ocupação urbana da metrópole paulista desenvolveu-se até meados do século XX no interior do vértice dos rios Tietê e Pinheiros, e ao longo de alguns eixos estratégicos, ocupando preferencialmente terrenos sedimentares (terciários) de topografia suave e de características geológico-geotécnicas favoráveis à ocupação urbana. Com o crescimento explosivo após a metade do século, vêm sendo progressivamente ocupados, e sem nenhum critério técnico diferenciado, os terrenos mais periféricos, de relevo mais acidentado e com solos de alteração de rochas cristalinas extremamente mais vulneráveis à erosão (os solos de alteração de rochas cristalinas são até 100 vezes mais erodíveis que os solos superficiais laterizados e os solos argilosos dos sedimentos terciários). Assim, a expansão urbana vem se processando, via-de-regra, através de intensas e extensas terraplenagens que retiram a capa protetora de solos superficiais mais argilosos (e portanto mais resistentes à erosão) implicando em exposições cada vez maiores e mais prolongadas dos solos de alteração (mais profundos, menos argilosos, mais erodíveis) aos processos erosivos, em uma prática nociva e nada criativa do ponto de vista técnico, pela qual persistentemente se privilegia a adaptação dos terrenos aos projetos ao invés de adequar os projetos às características naturais dos terrenos.

Os municípios envolvidos na RMSP, em suas operações de desobstrução e limpeza de drenagens naturais e construídas gastam anualmente algo na ordem de R$200.000.000,00.

Outra enorme despesa, mas também muito difícil de ser contabilizada, refere-se à imobilização patrimonial de extensas áreas públicas hoje utilizadas para a disposição do material resultante das operações de desassoreamento; que levam consigo, aliás, enorme carga poluidora para esses locais.

E perceba-se que no caso somente está-se considerando o assoreamento promovido pelas frações mais arenosas dos sedimentos, e que se depositam nos próprios leitos dos rios. As frações mais finas (siltes e argilas) que a água leva em suspensão e são depositadas mais à frente, ou em regime de águas paradas como agora nos piscinões, é de volume muitíssimo maior. Vejam como exemplo desse material mais fino a lama que resta em enormes volumes nos piscinões ou em ruas e residências atingidas por enchentes.

Ou seja, além dos benefícios diretos na redução das enchentes, para cada real aplicado na redução do assoreamento (através do combate às suas causas), teríamos uma enorme economia nas despesas públicas hoje implicadas no enfrentamento das conseqüências do assoreamento (entre elas, as enchentes) e na recuperação urbana de áreas erodidas.

Em conclusão, um corajoso e amplo programa preventivo e corretivo de redução do aporte de sedimentos e lixo para a rede metropolitana de drenagem constitui hoje ação indispensável e condicional para o sucesso das medidas de combate às enchentes.
Do ponto de vista gerencial, torna-se a cada dia mais evidente a necessidade de se constituir um Grupo Executivo de Combate às Enchentes na RMSP, que reúna todas as instâncias envolvidas, sejam elas municipais, estaduais e federais. Esse Grupo Executivo, de caráter metropolitano e multidisciplinar, formado especialmente por técnicos de reconhecida experiência, teria como responsabilidade maior definir, programar, coordenar e supervisionar todas as ações regionais voltadas ao combate às enchentes, de forma a harmonizar e potencializar seus resultados.

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