Cada um paga a sua conta de água
Agência Nacional de Águas
Os moradores de prédios e
condomínios residenciais devem se preparar para conviver com uma nova
realidade: em vez de dividir a conta de água com os demais moradores, cada um
vai pagar o que gastou. Quem quitava o consumo de água junto com a taxa de
condomínio vai acertar os valores diretamente com a Companhia de Saneamento do
Distrito Federal (Caesb). Os prédios antigos, cujos
hidrômetros são coletivos, terão cinco anos para se adequar.
Substitutivo a dois
projetos de lei aprovado pela Câmara Legislativa e que
está prestes a ser sancionado pelo governador Joaquim Roriz
obriga a instalação de um hidrômetro para cada unidade habitacional. A medida
ainda será regulamentada, mas os custos das obras de adaptação deverão sair do
bolso do proprietário do imóvel. Só estarão livres da obrigação as unidades
habitacionais em que a mudança for tecnicamente inviável. Após a publicação da
lei, o governo terá 60 dias para regulamentá-la.
O diretor de Produção e
Comercialização da Caesb, João Batista Fernandes,
explicou que a determinação atende a uma reivindicação de moradores de prédios
residenciais. O projeto do Executivo previa a individualização apenas para
novas projeções. Os deputados distritais Chico Vigilante (PT) e Benício Tavares (PMDB) apresentaram substitutivo estendendo
a medida a todas as unidades habitacionais, independentemente do ano em que
foram criadas.
Os custos para instalação
de hidrômetros individuais em prédios e antigos ainda não foram orçados.
Síndica do primeiro bloco construído na primeira quadra da Asa Norte, o Bloco D
da SQN 312, Cristina Zanoni está apreensiva com a
nova lei. Não tenho idéia de quanto teremos que gastar. Mas que é justo
individualizar o hidrômetro, isso é, comentou.
O encanador José de Souza
Porto, conhecido na quadra, disse que só a troca dos canos de um bloco com 72
moradores custou ao prédio R$ 70 mil. E perguntou: E se a obra tiver que ser
feita de novo, dessa vez cada morador pagando pela instalação do hidrômetro
individual? Ele acredita que os custos serão altos e vai haver proprietário
reclamando.
Economia de 40%
O principal argumento do
governo ao enviar a mensagem foi o da necessidade de uso racional da água e de
correção da injustiça verificada com a cobrança global nos condomínios
verticais, onde quem gasta menos paga por quem gasta mais.
O assunto é discutido
também em nível federal. A Câmara dos Deputados analisa projeto de lei, de
autoria do deputado Júlio Lopes (PP/RJ), que
determina a cobrança individual em todo o país. A Agência Nacional de Águas
(ANA) é favorável à medida, apontando que experiências internacionais mostram
que há economia de água em até 40%. Na proposta de Júlio Lopes, aos prédios
antigos a adaptação será facultativa.
O diretor João Batista
Fernandes entende que a medida permitirá que se controle mais o uso do produto.
Hoje, a conta é faturada de forma comum. Não se distingue aquele que gasta
mais. Há apartamentos com apenas um morador pagando a mesma taxa de condomínio
que aqueles onde moram quatro pessoas, por exemplo, afirmou.
Baixar a taxa
A professora Harriete Lucena, 39, defende a individualização da conta de
água, mas só se reduzir o valor do seu condomínio, que é de R$ 155. Não vai ter
sentido cobrarem a mesma quantia. Se tirar a conta da água da taxa, vai ter que
diminuir, defendeu. Além de Harriete, moram mais três
pessoas no apartamento.
Outra que gostou da
individualização dos hidrômetros foi a aposentada Rosa
Araújo. Ela mora com dois filhos em um apartamento de dois quartos no bloco D
da 312 Norte, mas eles só aparecem para dormir. Tem
gente com cinco pessoas em casa, e outros que trazem para
lavar a roupa da filha que mora em outro lugar, reclamou.
A síndica Cristina Zanoni ouviu o comentário dela. É isso que todos vão dizer.
Mas não podemos diminuir muito mais o valor do condomínio, um dos mais baixos
da quadra, afirmou. A conta de água representa, em média, 20% das despesas do
prédio.
A notícia dos hidrômetros
individuais agradou ao síndico do Residencial Plaza, um condomínio na QI 23 do
Guará II. Francisco Braga procurou a Caesb para fazer
um levantamento sobre a viabilidade da instalação dos equipamentos, mas sabe
que vai ter que discutir o assunto com os condôminos. Não podemos fazer nada
sem que seja aprovado em assembléia. Mas certamente vamos ter problemas com os
custos. Resta saber onde colocar os 120 hidrômetros individuais nos prédios,
comentou.
A conta de água do bloco em
dezembro foi de R$ 8 mil. O valor foi rateado entre os 120 moradores e incluído
na taxa de condomínio de R$ 250 de cada apartamento, que são de dois quartos,
com um reversível. A média é de quatro pessoas por unidade.
Se o condomínio resolver
instalar o aparelho no interior das unidades, terá que arcar com a conta caso o
proprietário não pague pelo consumo. A determinação, apontada por Braga como
abusiva, consta no documento da Caesb Condições
Básicas para Individualização de Ligações de Água em Condomínios Residenciais
Verticais na Área de Atuação da Caesb. É uma forma de
pressionar os síndicos a instalar os hidrômetros nas áreas externas do prédio,
para facilitar a leitura pelos funcionário da empresa.
Mas essa cláusula poderá ser revista pela direção da Caesb,
segundo o diretor João Batista Fernandes.
Há apartamento com apenas
um morador pagando a mesma taxa que aqueles onde moram quatro pessoas
Proibido tirar o ar
do cano
Outro assunto relacionado a
hidrômetros também vem causando polêmica em todo no Distrito Federal. É a
instalação de eliminadores de ar. Equipamentos para isso, acoplados aos
hidrômetros para retirar o excesso de ar que se acumula nos canos, são
permitidos pela Lei Distrital 2.977/2002. A passagem de ar pela tubulação,
principalmente durante períodos de corte no abastecimento, faz o ponteiro se
movimentar e acusar consumo como se fosse de água.
A Caesb
reconhece que pode ocorrer a entrada de ar na
tubulação, mas argumenta que raramente falta água no DF e o problema é mínimo.
Mesmo com a lei em vigor a empresa não permite a instalação dos aparelhos para
a retirada do ar, alegando que falta regulamentação. Ela tem multado
condomínios que os instalam e argumenta que existe recomendação da Procuradoria
Distrital dos Direitos do Cidadão para que proíba o uso deles. O Ministério
Público do DF se baseou em parecer do Ministério da Saúde de que há risco de
contaminação da água porque os sugadores de ar criam uma vulnerabilidade no
sistema de abastecimento de água potável, introduzindo riscos à saúde pública.
A deputada Érika Kokay, membro da Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara
Distrital, contesta o parecer do ministério. Ela diz que o laudo foi induzido
pela Caesb, que elaborou e enviou relatório à
Fundação Nacional de Saúde (Funasa). Na opinião de
Érika, não há elementos para se dizer que faz mal.
Quem se sentir lesado pode
procurar a Caesb, segundo o diretor de Produção e
Comercialização da empresa, João Batista Fernandes. Temos como emitir uma nova
conta caso fique comprovado que o consumo aumentou por causa do ar, explica. A
companhia tem 120 dias para certificar a eficácia dos eliminadores de ar, que
ainda não foram aprovados pelo Inmetro. A tendência é
pela proibição do uso deles.
Tribunais
O assunto já chegou aos
tribunais. Os síndicos que utilizam o equipamento estão recorrendo à Justiça.
As decisões dos juízes de primeira instância têm sido desencontradas. É o caso
de dois prédios com as mesmas características em Taguatinga. Em um deles, o
síndico conseguiu liminar para mantê-lo. No outro, não. No prédio Albert Sabin,
em Taguatinga Sul há um ano a síndica Maria das Dores Oliveira recebeu multa de
R$ 1 mil menos de 24 horas depois de ter instalado um aparelho. O fornecedor
trincou um cano da Caesb durante a instalação e eu
chamei o órgão para trocá-lo. Fui ofendida e chamaram até policiais,
resignou-se. Ela tentou liminar para manter o eliminador, mas não conseguiu.
A discussão foi acirrada na
Câmara Legislativa do DF, no dia 14 de dezembro último, durante audiência
pública para ouvir a população sobre o assunto. Há casos de síndicos mostrando
que teve redução de até 30% a 40% na conta de água, números que são contestados
pela Caesb.
Para a síndica Cristina Zanoni, houve redução de 10%. Segundo ela, o eliminador de
ar custou R$ 1.500. Instalado há um ano, até agora ele não apresentou defeito
ou vazamentos.
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