ÁGUA, MEIO
AMBIENTE E SAÚDE
Ewerton de Oliveira Pires - UEL - e-mail:
[email protected]
José Paulo Peccinini Pinese
– Depto Geociências - UEL - e-mail: [email protected]<o:p></o:p>
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Introdução
Atualmente, muito
se fala em qualidade de vida. Tal discussão perpassa desde a mídia de massa até
as pesquisas científicas, passando pelo ensino oficial. Diversos são os fatores
abarcados por essa perspectiva. A boa habitação, ou ao menos digna, o direito
ao emprego, ao lazer, etc. Porém, não há dúvidas de que nesse contexto de busca
de qualidade de vida, o fator preponderante é a saúde, o direito à uma vida saudável e o acesso à medicina, quando
necessário.
Quando destaca-se o assunto boa saúde, logo pensa-se
em ausência de doenças, o que rapidamente remete a tentar evitar o contato com
os agentes transmissores de enfermidades, como insetos, animais, bactérias,
vírus, fungos.
Porém, ao menos no nível do senso comum, poucas preocupações se direcionam
sobre as influências do ambiente sobre a saúde humana.
Diversas são as interações entre o meio ambiente e o homem, o que certamente
reflete-se na saúde. Basta considerar que os elementos básicos à nossa
sobrevivência nada mais são do que o meio ambiente adaptado ao nosso consumo,
como a água e os alimentos, bem como o ar, o qual deveria ser consumido por nós
livre de interferência humana, inalterado em suas
características naturais.
Com o desenvolvimento industrial, assinalam-se inúmeras alterações no quadro
ambiental, sendo que é grande o contexto de degradação da água, do ar, dos
solos, o que se reflete em doenças à população, sobretudo à de baixa renda, à
qual não têm acesso à locais privilegiados de moradia,
nem à produtos de alta qualidade, com menores possibilidades de contaminações.
Porém, existem interferências negativas do meio ambiente sobre a saúde que
ocorrem em decorrência de características naturais, independendo da ação antrópica (também denominada tecnogenética).
Várias são as ciências que buscam, cada uma sob seu foco específico,
compreender tais questões. Entretanto, pela complexidade do tema, a saída mais
eficaz está em ações coordenadas entre as áreas de conhecimento, buscando na
interdisciplinaridade as soluções, o que trará grandes benefícios às populações.
Dessa forma, o presente trabalho pretende em um primeiro momento trazer uma
revisão bibliográfica acerca dos temas saúde e meio ambiente, tendo a água como
elo de ligação entre ambos. Em um segundo momento, traremos
o caso do município de Itambaracá-PR, o qual se situa
em área de anomalias geoquímicas relacionadas à problemas de saúde coletiva na
região (PINESE et al., 2002).
Concepções e conceitos sobre a saúde
Os estudos da evolução histórica de um determinado campo de conhecimento
permite uma melhor compreensão das questões à ele
correlatas, contribuindo para o desenvolvimento de um senso de análise mais
crítico. Desta forma, antes de iniciarmos a discussão acerca das inter-relações
entre o meio ambiente e a saúde, tendo como interseção, nesse caso, a água, nos
ocuparemos a traçar um sucinto panorama das diferentes concepções e conceitos
sobre a saúde.
Desde os primórdios da humanidade, podemos imaginar que a pergunta “o que
é ter saúde” habitava no imaginário das pessoas.
A princípio, quando os homens viviam em pequenos grupos e eram nômades,
ao ocorrer a escassez de determinado elemento, como
comida, água ou abrigo, deslocavam-se para garantir a sobrevivência. Como
demonstram Gutierrez e Oberdiek (2001), o que
acontecia com os seres humanos era até então explicado do ponto de vista
mágico, religioso e sobrenatural. Assim,
a chegada do outono ou inverno que trazia a falta de determinados frutos ou
caça, ou pesca, era atribuída aos deuses que sopravam o vento
frio, causador da falta destes elementos, porque estavam irados por
determinados comportamentos ou atitudes dos homens. Caso alguém morresse de
frio, por falta de alimento ou por doença, essa era a
vontade desses deuses que se cumpria (GUTIERREZ e OBERDIEK, 2001, p. 1-2).
Com o passar do tempo o homem foi se distribuindo espacialmente, se
diversificando e se especializando, o que lhes permitiu o domínio de técnicas,
ainda que rudimentares de cultivo da terra, possibilitando a sua fixação
territorial, bem como a criação e disseminação de distintas culturas e
tradições para lidar com a questão da saúde.
Cerca de 3000 a.C., conforme Gutierrez e Oberdiek
(2001), Egito, Índia e China estruturaram sistemas teóricos empiristas para
tratar a questão da saúde, fundamentados em complexas filosofias, relegando-se
ao segundo plano os elementos mágico-religiosos. Assim, a saúde é vista como
um estado de isonomia, ou seja, de harmonia perfeita entre os quatro elementos
que compõem o corpo humano: terra, ar, água e fogo. A doença aparece como
conseqüência da ação de fatores externos que provocam, no organismo, uma disonomia entre os elementos (GUTIERREZ e OBERDIEK, 2001,
p. 04)
Entre os séculos VI e IV a.C., viu-se emergir a civilização que mais nos
influenciaria: trata-se da Grécia, que teve sua cultura difundida por todo o
Ocidente pelo Império Romano.
Os gregos, de acordo com os já citados autores,
concluem que a observação empírica, como a importância do ambiente, a sazonalidade, o trabalho, a posição social do indivíduo,
dentre outros, são entendidos como fundamentais para o surgimento das doenças
(GUTIERREZ e OBERDIEK, 2001, p. 04).
A partir dessa visão, destaca-se Hipócrates como seu grande expoente, o qual é
considerado o “pai” da Medicina Moderna. A linha hipocrática
buscava valorizar mais o prognóstico, sendo as doenças vistas dentro do quadro
de cada indivíduo. Ressalta-se que a ênfase é dada no prognóstico, como é o
modelo clássico da medicina ocidental.
Na Idade Média, houve uma espécie de regressão no pensamento acerca da
saúde, já que a ocorrência das doenças tinham
basicamente, duas interpretações: para os pagãos eram devidas à possessão do
diabo ou feitiçarias, enquanto para os cristãos eram vistas como sinais de
purificação e expiação dos pecados.
Ao despontar a Idade Moderna, através do Renascimento todas as concepções
ideológicas e científicas foram revistas, sendo que com a saúde não ocorreu de
forma diferente, o que resultou em grandes e significativos avanços, advindo
dessa época a base da ciência médica vigente.
Existem atualmente diversas definições para o conceito de saúde. Para a
Associação Médica Americana (apud Campos et al.,
1987, p. 08), a saúde depende:
do funcionamento normal dos tecidos e órgãos do corpo; da compreensão prática
dos princípios básicos da maneira saudável de viver; e do ajuste harmônico ao
ambiente físico e psicológico; contribuindo tudo isso para uma vida mais rica e
mais útil à humanidade.
Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), a saúde é conceituada como “estado de
perfeito bem estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença
ou enfermidade” (apud Campos et al., 1987, p. 08).
Além dos citados, existem inúmeros conceitos de saúde. Apesar dessa
multiplicidade de definições, a saúde é garantida como um direito à todos pela Declaração Universal dos Direitos do Homem,
aprovada em 1948 pela Organização das Nações Unidas. Assim diz o artigo XXV:
“Toda pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para assegurar a sua
saúde, seu bem estar e o de sua família [...]”.
Porém, nos moldes atuais do capitalismo neoliberal, “a capitalização da
medicina orientou o tratamento da saúde mais para a cura da enfermidade do que
para a prevenção, chegando a perverter a ética médica” (LEFF, 2001, p. 310).
Visando minimizar esse quadro, a Conferência das Nações
Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio-92) incluiu em sua
pauta de discussões a questão da saúde. O documento final desse encontro, a
Agenda 21, dá ênfase na atenção primária à saúde, sobretudo em áreas rurais,
bem como na prevenção antes que na correção e tratamento das doenças e na
redução dos riscos para a saúde, derivados da contaminação e dos perigos
ambientais:
Os seres humanos constituem o centro das preocupações relacionadas com o
desenvolvimento sustentável. Têm direito a uma vida
saudável e produtiva em harmonia com a natureza (Agenda 21, apud LEFF, 2001, p.
313).
Essa concepção abre caminho e mostra a importância de pesquisas
interdisciplinares para analisar os efeitos conjuntos das exposições à diferentes riscos ambientais e acerca do contato de
populações com substâncias contaminadoras e/ou
tóxicas. Nesse âmbito, adiante citaremos uma pesquisa que vem sendo realizada,
a qual busca identificar as relações entre a água de consumo e a ocorrência de
doenças na população, visando, como nos preceitos da Agenda 21, promover “uma
atenção primária à saúde”.
A água e o meio ambiente
Ao analisarmos a superfície do Planeta Terra
constataremos que a sua constituição é de cerca de 70% de água. Desse total,
aproximadamente 97,5% são águas salgadas; ou seja, no máximo 2,5% são doces, as
quais estão assim distribuídas: calotas polares (68,9%), aqüíferos subterrâneos
(29,9%), rios e lagos (0,3%) e outros reservatórios (0,9%). Assim, apenas 1% da
água doce do planeta é aproveitável para a humanidade, o que equivale a 0,007%
de toda a água da Terra (HIRATA, 2000).
Entretanto, embora uma fração muito pequena da água possa ser aproveitada
pelo homem, não existe dúvida de que a água se caracteriza como elemento
indissociável e vital ao meio ambiente, seja o ambiente natural (geogenético) ou o ambiente antrópico
(tecnogenético), de modo que a presença de água é um
dos principais elementos para a caracterização dos diversos ambientes
terrestres.
Conforme Branco (2002, p. 227),
o principal papel que a disponibilidade de água desempenha em relação às
estruturas e funções dos ambientes – notadamente os ambientes terrestres – diz
respeito ao fornecimento da substância em estado líquido para a
sobrevivência de plantas e animais.
Dessa forma, torna-se claro que para o desenvolvimento e manutenção dos
ecossistemas é necessária a disponibilidade de água.
Para o homem não é diferente. Grande parte de nosso corpo é constituída de
água, o que nos remete a pensar em dois fatores: quantidade e qualidade da água
para abastecimento humano. A seguir, nos deteremos a discutir a qualidade da
água como forma de prevenção de doenças e promoção da saúde.
Água e saúde: apontamentos teóricos e
o caso de Itambaracá-PR
O homem, assim como ocorre com todos os seres, necessita de água para a
manutenção de suas funções vitais. Além do consumo da água para “saciar a
sede”, a usamos para uma infinidade de tarefas, como a higienização
corporal, lavagem de roupas, louças e calçadas, combate a incêndios, produção
industrial e transporte de dejetos.
Assim, sobretudo nos dois últimos casos, a água pode se transformar no
veículo de toda sorte de impurezas, seja na forma de substâncias tóxicas ou de
microorganismos patogênicos.
Como demonstra Branco (2002), ao entrar em contato com o corpo humano
interno ou externo, essa água contaminada pela ação tecnogenética
pode transmitir-nos uma série de estados mórbidos, o que, obviamente é
indesejável.
Visando neutralizar os efeitos nocivos da contaminação das águas, as
mesmas passam, ou ao menos deveriam passar, por um processo de eliminação de
microorganismos patogênicos, sendo atualmente utilizada em larga escala a
filtragem e a cloração antes da distribuição desta água, denominada potável.
Dentre as doenças que são transmitidas pela água contaminada por
microorganismos, destacam-se as infecções entéricas, muito graves em regiões
onde o saneamento é insuficiente, como áreas do Norte e Nordeste brasileiro,
onde essa má qualidade da água de abastecimento se reflete nos elevados índices
de mortalidade infantil, uma vez que as crianças são mais susceptíveis às
infecções desse tipo.
Entretanto, além das contaminações que o homem pode causar à água
(contaminações antrópicas ou tecnogenéticas),
a água pode apresentar-se contaminada naturalmente (impacto geogenético).
Trata-se de regiões onde existem anomalias geoquímicas, ou seja, pela
composição litológica natural, elementos químicos são disponibilizados,
sobretudo na água em concentrações elevadas, acima das que o organismo humano
necessita, o que pode causar doenças. Nesse caso, citamos, de acordo com
Martins Jr e Pinese (2003), a contaminação por
Arsênio de uma população rural de Bangladesh, a qual resultou em conseqüências
gravíssimas à saúde. Outro exemplo de anomalia geoquímica resultando em
problemas para a saúde da população, é o caso da anomalia multielementar
do Norte do Paraná, a qual destacamos a do Flúor em Itambaracá
(PINESE et al., 2002).
O município de Itambaracá está localizado na região
sul do Brasil, no chamado Norte Pioneiro do Estado do Paraná. Situa-se na
região limítrofe entre os estados do Paraná e São Paulo, separados pelo rio
Paranapanema. Possui como demais limites divisórios, ao sul o município de
Bandeirantes, tendo como divisor o rio das Cinzas; a leste limita-se com Andirá e a oeste, com o município de Santa Mariana. A sede
do município está a 402 metros acima do nível do mar, tendo como coordenadas
geográficas: latitude 23º 02’ 00’’ sul e longitude 50º 22’ 00’’ oeste; distando
110 km de Londrina, principal cidade da região e 462 km da capital, Curitiba
(PIRES e PINESE, 2002).
O município obtém sua água para abastecimento público através de mananciais
subterrâneos confinados do aqüífero Serra Geral e em menor escala, dos
mananciais do aqüífero livre ou freático, já que esse tipo de recurso hídrico
pode ser considerado confiável, de baixo custo e com grande disponibilidade.
Entretanto, estudos recentes demonstraram que o município de Itambaracá se encontra na periferia de uma anomalia hidrogeoquímica multielementar
onde se inclui a do Flúor (PINESE et al., 2001 e LICHt et al, 1997). A partir de
levantamentos epidemiológicos locais, constatou-se a ocorrência freqüente de fluorose dentária grave na população, sobretudo nas
crianças de 6 a 17 anos (MORITA et al, 1998).
A circulação das águas subterrâneas locais é condicionada por 7 famílias de
fraturas com direções preferenciais E-W (27%), N-S (22%), N35º-50ºE
(21%), N20º-30ºW (10%), N60º-70ºE
(9%), N40º-60W (8%) e horizontal (3%), onde se
constatou relação entre os poços com valores anômalos de Flúor, ou seja,
aqueles acima de 0.7 mg/L (máximo recomendado pela
Organização Mundial da Saúde – O.M.S. - para países de clima tropical) e as
famílias N40º-60W e N-S (PINESE et
al., 2002).
Foram realizadas coletas sistemáticas de águas subterrâneas e superficiais da
área, as quais após análise química laboratorial demonstraram a existência de
quatro valores anômalos quanto a flúor na região. Através de técnicas de
processamento digital de imagens, foi elaborado o mapa de tais anomalias,
identificando-se três localidades geográficas com concentrações de flúor acima
do recomendado pela O.M.S., que é de 0.7 mg/L. Tais
localidades são: a sede do município, o distrito de São Joaquim do Pontal
e o patrimônio de Raul Marinho.
Os locais identificados com concentrações anômalas de flúor coincidem com as
áreas de ocorrência de fluorose dentária, onde os
levantamentos epidemiológicos realizados constataram grande número de casos de fluorose dentária grave, o que torna possível a correlação
entre a ocorrência das altas concentrações do elemento com os altos índices de
manifestação da doença.
Considerações Finais
Como verificado, a questão saúde é bastante complexa, sendo que há discórdia e
alterações freqüentes até mesmo em suas definições e conceitos. São diversos os
fatores que influenciam a saúde, os quais vão desde os patogênicos até os
ambientais, passando pelos sociais. Procuramos aqui nos centrar nos de ordem
ambiental, sobretudo no que diz respeito à água.
Nesse contexto, destaca-se a relevante contribuição que pode oferecer a
Geografia que, através da chamada Geografia Médica (ou da Saúde) há tempos tem
trabalhado a relação meio ambiente – saúde, já que desde cedo os
epidemiologistas enfocam em suas pesquisas o espaço e o lugar, que são
categorias de análise geográfica. Tal contribuição é potencializada quando associa-se à Geografia a Geologia, Geoquímica e outras
ciências na busca constante da melhora da saúde coletiva.
Atualmente a Geografia não pode ser considerada como apenas uma ciência
auxiliar às ciências da saúde, assumindo papel de
maior contribuição, voltando suas ações para o planejamento, sendo grande sua
capacidade de identificação e monitoramento de áreas de risco à saúde.
As relações entre ambiente e a corrente alimentar humana são
controlados por fatores de ordem geográfica e geológica (litologia e mineralogia das rochas, o tempo, o clima, e
etc) e processos geoquímicos relevantes, controladores da transferência dos
elementos químicos ao solo, às plantas, à água e aos homens, considerando a
passagem “intermediária” pelos animais, sendo que as águas superficiais e
subterrâneas representam o mais importante meio de conexão entre a geoquímica
das rochas, o solo e a fisiologia humana.
Em tais estudos, ganha grande importância a
contribuição da Geoquímica, uma vez que os constituintes químicos do meio,
sobretudo da água, quando em quantidades anômalas, podem trazer sérios
prejuízos à saúde humana e animal.
Dessa forma, o conhecimento e a representação cartográfica da distribuição
espacial e dos mecanismos de migração dos elementos químicos disponíveis no
ambiente, bem como de outras variáveis ambientais e epidemiológicas são
fundamentais para as pesquisas em Epidemiologa, em
Geologia e em Geografia da Saúde, sendo assim a Geoquímica um instrumento
de grande valia para as ações que visem a mitigação
dos impactos negativos no ambiente sobre a saúde coletiva.
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