A Fonte da Vida
Luiz Eduardo Cheida
Secretário do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná.
e-mail: [email protected]
O rato-canguru é um pequeno
mamífero que, mesmo vivendo no deserto, passa a vida inteira sem tomar uma gota
dágua sequer. Logo, imagina-se que a água não é
necessária para a sobrevivência deste minúsculo roedor. Ledo engano: para o
rato-canguru, a água é tão indispensável quanto para você ou para mim. Como num
passe de mágica, ele a extrai de sementes ricas em lipídeos, que ingere.
Pode-se dizer que ele fabrica a própria água, através de seu inusitado
metabolismo. Entretanto, sabemos que a planta de cuja semente ele se alimenta
não vive sem água. Dessa forma, embora o rato-canguru passe a vida sem beber,
ele "bebe" a semente que bebeu do solo. Então, até este
pequenino vivente que por aparência, despreza a água, não suportaria viver sem
ela um dia sequer!
Assim, somos todos, os que vivemos neste planeta. Sem a água, não haveria nele
nenhuma forma de vida das que hoje conhecemos. Como neste último 22 de março,
comemorou-se o Dia Mundial da Água, é bom refletir um pouco sobre esta que pode
ser tida, sem exageros, como a fonte de toda a nossa vida. A água é um bem
finito e esgotável. Portanto, enquanto água própria para a vida, pode tornar-se
escassa ou até acabar.
Torna-se escassa quando a
vegetação de uma nascente ou das margens de um rio é retirada por completo. Se
isso acontece, os lençóis subterrâneos fogem para as camadas mais profundas do
solo, tornando-se quase inacessíveis. Acaba, quando a poluição é tamanha que a
despoluição torna-se impraticável. Há poluentes que comprometem
irreversivelmente a potabilidade da água.
As cidades abrigam 65% da
população mundial. Os dejetos de tanta gente amontoada, quase sempre acabam
dentro dos rios. São o esgoto das casas, dos hospitais, das indústrias e o lixo
das ruas lavadas pelas chuvas. No campo, onde vive os 35% da população,
escassez e poluição agem de forma combinada. A primeira, em razão do desmate. A
segunda, pelo uso dos agrotóxicos que, também pela chuva e pelo vento, vão
parar dentro dos rios. Com o desmate, o solo fica à mercê da chuva e do vento.
A cada ano, o mundo perde 75 bilhões de toneladas de terra para dentro de
lagos, rios e oceanos. Perde-se duas vezes: a água altera sua qualidade e o
solo perde sua fertilidade.
Água poluída é um eficiente
veículo de disseminação de doença. No Brasil, de cada 10 episódios de doenças,
7 estão relacionadas com a água. Dados oficiais, de 2002, assinalam que nosso
país investiu 0,02% do orçamento federal em saneamento básico (água e esgoto).
Ou seja,
nada.
Se
mais escassa a água, maior a venda da água engarrafada. Hoje, um litro de água
mineral custa mais que um litro de gasolina. A escassez é ruim para uns e
estupidamente boa para uns outros. Não é à toa que a privatização das estatais
de água está em plena ascensão. Sem dúvida, este será um dos mercados mais rentáveis
nos próximos anos. A água como um bem público, fora do comércio é a bandeira
dos que pretendem um ambiente saudável e de oportunidades iguais para todos.
Porém, em matéria de água, parece que estamos cutucando a onça com vara curta.
E, é bom a gente não brincar com coisa séria.
Como diz o arquiteto americano Buckminster Fuller: "o fato mais importante a
respeito da espaçonave Terra: ela não vem com manual de instruções.
Sábias palavras...
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