MINER, Horace. “Ritos corporais entre os Nacirema”. A.K. Romney e P.L. De vore (eds.). You and Others - Introductory Anthropology. Cambridge : Winthrop Publishers, 1973, pp. 72-76

Reprodução para fins didáticos.

 

RITOS  CORPORAIS   ENTRE   OS   NACIREMA

 

            O antropólogo está tão familiarizado com a diversidade das formas de comportamento que os diferentes povos apresentam em situações semelhantes que é incapaz de surpreender-se, mesmo em face dos costumes mais exóticos. De fato, embora nem todas as combinações de comportamento logicamente possíveis tenham sido descobertas em algumas partes do mundo, o antropólogo pode suspeitar que elas devam existir em alguma tribo não descrita. Deste ponto de vista, as crenças e práticas mágicas dos Nacirema apresentam aspectos tão inusitados que parece apropriado descrevê-los como um exemplo dos extremos a que pode atingir o comportamento humano.

        

Foi o professor Linton, vinte anos atrás, o primeiro a chamar a atenção dos antropólogos para o ritual dos Nacirema, mas a cultura deste povo permanece insuficientemente compreendida ainda hoje. Pouco se sabe sobre sua origem, embora sua tradição relate que vieram do Leste. Conforme a mitologia dos Nacirema, um herói cultural, Notgnihsaw, deu origem a sua nação.

        

A cultura Nacirema caracteriza-se por uma economia de mercado altamente desenvolvida, que evoluiu em um rico habitat natural. Apesar do povo dedicar muito de seu tempo às atividades econômicas, uma grande parte dos frutos destes trabalhos e uma considerável  porção do dia são despendidos em atividades rituais. O foco destas atividades é o corpo humano, cuja aparência e saúde assomam como interesse dominante no ethos deste povo. Embora tal tipo de interesse não seja, por certo, raro, seus aspectos cerimoniais e a filosofia a ele associada são singulares.

        

A crença fundamental do sistema parece ser a de que o corpo humano é repugnante e que sua tendência natural é para a debilidade e a doença. Encarcerado em tal corpo, a única esperança do homem é desviar estas características através do uso de poderosas influências do ritual cerimonial. Cada moradia tem um ou mais santuários devotados a este propósito. Os indivíduos mais poderosos desta sociedade têm muitos santuários em suas casas, e, de fato, a alusão à opulência de uma casa, muito freqüentemente, é feita em termos do número de tais centros rituais que possua. Muitas casas são construções de madeira, toscamente pintadas, mas as câmaras de culto são das mais ricas paredes de pedra. As famílias mais pobres imitam as ricas aplicando paçocas de cerâmica às paredes de seu santuário.

        

Embora cada família tenha pelo menos um de tais santuários, os rituais a ele associados não são cerimônias familiares, mas privadas e secretas.  Os ritos normalmente são discutidos apenas com as crianças e, neste caso, somente no período em que estão sendo iniciadas em seus mistérios. Eu pude, contudo, estabelecer contato suficiente com os nativos para examinar estes santuários e obter descrições dos rituais.

        

O ponto focal do santuário é uma caixa ou cofre embutido na parede. Neste cofre são guardados os inúmeros encantamentos e poções mágicas, sem os quais nenhum nativo acredita poder viver. Estes preparados são conseguidos através de uma série de profissionais especializados, os mais poderosos dos quais são os médicos-feiticeiros, cujo auxílio deve ser recompensado com dádivas substanciais. Contudo, os médicos-feiticeiros não fornecem a seus clientes as poções de cura, só decidem quais devem ser seus ingredientes e então escrevem em uma linguagem antiga e secreta. Esta escrita é entendida apenas pelos médicos-feiticeiros e pelos ervatários, os quais, em troca de outra dádiva, providenciam o encantamento necessário.

        

Abaixo de cada caixa-de-encantamentos, existe uma pequena pia-batismal. Todos os dias, cada membro da família, um após o outro, entra no santuário, inclina sua fronte ante a caixa-de-encantamentos, mistura diferentes tipos de águas-sagradas na pia-batismal e procede a um breve rito de ablução. As águas sagradas vêm do templo da Água-da-Comunidade, onde sacerdotes executam elaboradas cerimônias para tornar o líquido ritualmente puro.

        

Os médicos-feiticeiros têm um templo imponente, o Latipsoh, em cada comunidade de certo porte. As cerimônias mais elaboradas, necessárias para tratar de pacientes muito doentes, só podem ser executadas neste templo. Estas cerimônias envolvem não apenas o taumaturgo, mas um grupo permanente de vestais que, com roupas e toucas específicas, se movimentam serenamente pelas câmaras do templo.

        

As cerimônias Latipsoh são tão cruéis que é de surpreender que uma boa porção de nativos realmente doentes que entram no templo se recuperem. Sabe-se que crianças pequenas, com uma doutrinação ainda incompleta, resistem às tentativas de levá-las ao templo, porque “é lá que se vai para morrer”. Apesar disto, adultos doentes não apenas querem, mas anseiam por sofrer os prolongados rituais de purificação, quando possuem recursos para tanto, não importa o quão doente esteja o suplicante ou qual seja a emergência. Os guardiões de muitos templos não admitirão um cliente se ele não puder dar uma dádiva valiosa para a administração. Mesmo depois de ter-se conseguido a admissão, e sobrevivido às cerimônias, os guardiões não permitirão ao neófito abandonar o local  se não fizer ainda outra doação.

        

O suplicante que entra no templo é primeiramente despido de todas as suas roupas. Na vida cotidiana, o Nacirema evita a exposição de seu corpo e de suas funções naturais.  As atividades excretoras e de banho, enquanto parte dos ritos corporais, são realizadas apenas no segredo do santuário doméstico. Da perda súbita do segredo do corpo, quando se entra no Latipsoh, podem resultar traumas psicológicos. Um homem cuja própria esposa nunca o viu em um ato excretor acha-se subitamente nu e auxiliado por uma vestal, enquanto executa suas funções naturais em um recipiente sagrado.  Este tipo de tratamento cerimonial é necessário porque os excretos são usados por um adivinha, para averiguar o curso e a natureza da enfermidade do cliente. Clientes do sexo feminino, por sua vez, têm seus corpos nus submetidos ao escrutínio, manipulação e aguilhoadas dos médicos-feiticeiros.

        

Poucos suplicantes no templo estão suficientemente bons para fazer qualquer coisa além de jazer em duros leitos. De tempos em tempos, o médico-feiticeiro vem ver seus clientes e espeta agulhas magicamente tratadas em sua carne. O fato de que estas cerimônias de templo possam não curar, e possam mesmo matar o neófito, não diminui de forma alguma a fé das pessoas no médico-feiticeiro.

        

Como conclusão, deve-se fazer referências a certas práticas que têm suas bases na estética nativa, mas que decorrem da aversão perversiva ao corpo natural e suas funções. Existem jejuns rituais para tornar magras as pessoas gordas, e banquetes cerimoniais para tornar gordas pessoas magras. Outros ritos são usados para tornar maiores os seios das mulheres que os têm pequenos, e torná-los menores quando são grandes. A satisfação geral com o tamanho dos seios é simbolizada no fato da forma ideal estar virtualmente além da escala de variação humana. Umas poucas mulheres, dotadas de um desenvolvimento hipermamário, são tão idolatradas que podem levar uma vida boa simplesmente indo de cidade em cidade e permitindo aos embasbacados nativos, em troca de uma taxa, contemplarem-nos.

        

Já fizemos referência ao fato de que as funções excretoras são ritualizadas, rotinizadas e relegadas ao segredo. As funções naturais de reprodução são, da mesma forma, distorcidas. O intercurso sexual é tabu enquanto assunto, e é programado enquanto ato. São feitos esforços para evitar a gravidez, pelo uso de substâncias mágicas ou pela limitação do intercurso sexual a certas fases da lua. A concepção é, na realidade, pouco freqüente.

        

Nossa análise da vida ritual dos Nacirema certamente demonstrou ser este povo dominado pela crença na magia. É difícil compreender como tal povo conseguiu sobreviver por tão longo tempo sob a carga que impôs sobre si mesmo. Mas até costumes tão exóticos quanto estes aqui descritos ganham real significado quando encarados sob o ângulo relevado por Malinowski quando escreveu:

 

“Olhando de longe e de cima, de nossos altos postos de segurança na civilização desenvolvida, é fácil perceber toda a crueza e irrelevância da magia. Mas sem seu poder de orientação, o homem primitivo não poderia ter dominado, como fez, suas dificuldades práticas, nem poderia ter o homem avançado aos estágios mais altos da civilização.”

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