Vanessa Caroline da Cruz
Numa
nação que existe em algum lugar do tempo, toda cultura se
baseia na adoração de deuses, homens com mentes superdotadas capazes de criar e
destruir coisas com suas palavras, que habitam as regiões superiores da terra,
suas leis são muito rígidas, mas seus servos as obedecem diligentemente, a mais
importante delas é que nesse país não podem existir espelhos, dizem os deuses
que isso seria uma tentativa de recriação, coisa que só eles podem
fazer, os nativos têm imagens de seus senhores e alcança o sucesso na vida quem
consegue ser a imagem e semelhança dos deuses.
Não
cultivam para si, tudo o que é produzido ali é enviado para as regiões superiores,
é oferta para os deuses, os nativos se alimentam das sobras, mas em troca
“recebem” bênçãos: toda sorte de objetos magníficos criados pelas divindades
vindas direto lá de cima.
As
mulheres desse país são as que mais se esforçam para imitar suas deusas, mesmo
que por serem mortais e imperfeitas isso signifique
anos de sacrifício alisando os cabelos, colorindo-os de amarelo-pálido-desbotado
ou usando lentes de contato.
Músicas
nativas não são permitidas. E quem desobedece é punido não pelos deuses, mas
pelos próprios nativos que não as ouvem, pois são músicas profanas, preferem
ouvir os cânticos sagrados de adoração, que de tão perfeitos são ininteligíveis
aos nativos. Nos centros cerminoniais exibem-se, por
bons preços, cenas, pequenos retratos da vida cotidiana das cidades dos deuses,
que os nativos apreciam muito pois isso os faz sonhar
com o dia em que, por suas boas obras, possam ir morar lá em cima.
Os
políticos-sacerdotes têm uma função muito importante: manter o povo sempre
crendo que é bom tributar aos deuses para “agradecer” tantas dádivas deles
recebidas. Os nativos trabalham alegremente quatro meses de cada ano para pagar
seus tributos. Em troca de seu esforço os políticos-sacerdotes têm o direito de
apropriar-se de parte das ofertas para seu sustento e quando se aposentam podem
viver numa terra especial preparada para eles, em seu galardão, uma ilha
toda...
Nas
escolas, as crianças nativas estudam a história de seus deuses e de como eles
desceram a essa terra miserável por misericórdia de nós, trazendo-nos a chance
de ser como eles, aprendem também sua ciência e resquícios de suas línguas para
que aprendam desde cedo porque devem amar esses senhores.
Mas contudo, alguns nativos se desviaram por terem
acidentalmente olhado para espelhos e visto que são tão sublimes quanto os
deuses, desde então se tornaram parias da sociedade, vivem de acordo com suas
próprias regras, têm sua própria aparência, produzem música própria, e as vezes
até alguns retratos de como é a vida em sua tribo. Continuam
tributando, mesmo a contragosto, para não serem descobertos. Estão
infiltrados em cada lugar da sociedade, inclusive no político-sacerdócio, pois esperam, estáticos, por uma revolução, vinda de algum lugar
em seu meio que libertará seu país da adoração desses deuses sanguinários,
quando fundaram uma nação de adoradores de sua própria identidade...