No começo olhei com
estranheza, medo e até pena...
Sara Vicelli
de Carvalho
Primeiro, senti pena das mulheres que
eram obrigadas a juntar-se apenas a um homem e com apenas este ficar o resto de
suas vidas. Para esta união ser aprovada pelos demais membros deste povo, este
homem devia parecer detentor de poder, mesmo que não fosse: a aparência era
tudo. Era de muita importância ele parecer dominante e vigoroso perante os
outros, um dos motivos era a perpetuação da sua espécie, por isto vigoroso e
dominante pra manter as tradições. Tradições estas ditadas por um grande chefe,
que as repassava para seus aprendizes, que eram encarregados de repassá-las ao
povo. Cada povoado tinha um representante (o aprendiz) ou até vários dependendo
do tamanho do povoado. O chefe era detentor de muitos bens, bens estes em sua
maioria tomados de outros povos que não aceitaram seus costumes e tradições,
assim tornando-se muito rico e poderoso (o poder era fator predominante nesta
sociedade, muitas vezes a confirmação deste era
baseada na quantidade de terras ou na maneira de suas
vestimentas).
A mulher não podia ser chefe, nem aprendiz,
não podia também escolher seu marido, sua função era gerar filhos e cuidar para
que eles não se desencaminhassem das tradições e costumes. A mulher não podia
manifestar qualquer tipo de prazer ou vontade própria, seja no ato da
consumação dos filhos ou na forma de fazê-los, no entanto sentia-se útil e
prestativa, afinal era parte fundamental da sociedade carregando em seu ventre
os que levariam a verdade e salvação aos demais povos do mundo.
Nesta
sociedade, a mulher também tinha que demonstrar algumas coisas para ser digna
dessas funções: tinha que saber e praticar todas as tradições, costumes e,
acima de tudo, freqüentar todos os rituais realizados pelos aprendizes e
chefes.
Quando tive contato com um ritual fiquei apreensiva e até um pouco
enojada, primeiro um grande objeto era usado para comunicar que a cerimônia
iria começar, este objeto fazia um grande barulho que podia ser escutado de
grandes distâncias e as pessoas corriam com a família toda reunida e com suas
melhores roupas para a ocasião, os aprendizes já estavam no local à espera,
tinham em mãos um tipo de pergaminho da verdade que só os chefes compreendiam e
repassavam para os seus aprendizes o que deviam dizer e a maneira de ser dito.
Durante
a cerimônia diziam coisas em uma língua estranha, que ninguém dos que estavam ali sabia exatamente o que queria dizer, no entanto, o
povo repetia sempre, pois o chefe havia ensinado que era a língua da origem e o
que era dito eram palavras mágicas que revelavam a verdade aos corações;
os chefes, antes de assim tornarem-se, precisavam ser aprendizes e estudar os
pergaminhos. Diziam eles que os pergaminhos haviam sido escritos por homens
escolhidos para este fim – levar a verdade e salvação – mas como não viveriam
eternamente, escreveram para que outros pudessem conhecer a verdade do mundo.
No meio
do ritual fiquei assustada ao ver as pessoas comendo e bebendo o que eles
afirmavam ser a carne e o sangue do homem iluminado que havia lhes ensinado o caminho
a ser seguido. Comiam, pois acreditavam que assim estariam mais próximas dele e
da única verdade. Mas comer e beber não era privilégio
de qualquer um, e sim daqueles que seguiam com rigor as tradições e não
cometiam erros, se cometessem tinham que sacrificar-se de diversas formas,
reconhecendo assim seu erro e voltando a ser digno (o tamanho do sacrifício era
relativo ao tamanho do erro). Era de muita importância poder compartilhar da
“comilança”, pois assim mostrava-se aos demais que estavam dentro das tradições
e que eram honrados. Depois do ritual não importava o que acontecesse em suas
casas, desde que ninguém soubesse poderiam cometer erros e se alguém ficasse
sabendo, era só sacrificar-se, porém, o mais importante era guardar segredo,
pois assim não precisariam expor-se à desonra e sacrifícios.
Achei
tudo isso aterrorizante e bárbaro, pois comer a carne e beber o sangue do que
consideram o iluminado é enojador e cruel. Também achei muito penoso, porque
para serem considerados dignos de qualquer coisa tem sempre que parecer estar
em perfeita ordem com as tradições ditadas pelo grande chefe, mesmo que não
estejam.
Relato feito por um “alienígena” que
foi exposto a certos costumes e rituais religiosos de uma tribo do ocidente
terrestre.