Lucilene
da Fonseca
O
local não é de fácil acesso. Depois de passar por inúmeras curvas que ladeiam
as imensas pedreiras separadas por árvores esparsas e retorcidas, um caminhante
desavisado surpreende-se ao se deparar com um grupo de casas ao longo de uma
estrada de pedras verdes e pontiagudas, que se perde ao longe em morros e
lagos.
A
primeira impressão é de uma “cidade de mortos”. O silêncio reina,
ameaçado raramente pelo latido de um cão ou o som de uma ave.
Aos
poucos vai-se descobrindo algo além. Atrás de pequenas
janelas de madeira é possível perceber toda a movimentação curiosa do “Povo das
Pedras”. Nada escapa a seus olhos e ouvidos.
Assim
que amanhece, ascendem pequenas fogueiras nos recintos onde vivem, cuja fumaça
provoca uma névoa estranha e impregnante. Em poucos
minutos os ruídos de dentro dos ambientes fechados tomam conta de tudo e a luz
refletida sobre a estrada verde de pedra, parece aquecer aqueles que vivem nos
recintos. Estes, rapidamente saem para suas atividades cotidianas. Em pequenos
grupos, cuidam de crianças, plantas, pedras e animais. Ao longo do dia, vozes
femininas vindas de todos os cantos falam de tudo e de todos.
A
rotina só se altera no horário das refeições, no qual o “Povo das Pedras” se
junta em pequenos grupos familiares em amplos espaços. Comem quietos. Primeiro
as crianças e os idosos se alimentam. Posteriormente os demais.
Iniciando-se
a tarde, a rotina de trabalho é retomada. Com ela, o
barulho ensurdecedor das máquinas de pedra, que estilhaçam grandes blocos,
transformando-os em pequenas placas que, posteriormente, serão comercializadas.
Esta, juntamente com a agricultura nos terrenos envoltos por cercas
pontiagudas, é o que rende a esse povo seus ganhos comerciais.
O
barulho só cessa quando o Sol se põe. Rapidamente voltam para suas casas, se
alimentam, arrumam-se com as melhores vestimentas, e, em seguida, rumam para o
Templo branco no alto da colina. É lá, que exercem sua fé, entoando longas
preces e cantos. Outros, porém, principalmente os mais jovens, seguem para o
local, mas se dedicam a conversas e voltas em torno do Templo branco.
Apesar
de ser esse o centro da fé do “Povo das Pedras”, no final da noite, ao seguirem
para suas casas, contam estórias repletas de seres místicos e assustadores, nas
quais acreditam piamente. E antes de entrarem em suas casas e cerrarem as
portas, ascendem velas junto a soleira, repleta de
símbolos e amuletos coloridos. E é a luz dessas velas que iluminam a noite
silenciosa.