Compra e venda livre

Benigno Masterson Santos

 

         Um cheiro que misturava várias essências, cujo odor poderia ser característico de vários tipos encontrados na natureza. Eles pareciam não se incomodar, transitando por entre amontoados de caixões suspensos, por cavaletes mal cuidados.

 

         A cena era quase indescritível, animais mortos, esquartejados (dado seu tamanho), outros espetados, “enganchados”, suspensos por cordas. Também tinha os vivos, amarrados, dependurados, engaiolados, envolto em um cheiro de esterco e urina, com restos de capim e serragem.

 

         Tudo isso protegido por lonas multicoloridas, o que de certa forma dava uma beleza  quase bucólica aquele lugar.

 

         Os primeiros a chegar nesse local eram os respectivos donos “do ponto” que adquiriam uma licença por meio de pagamento ao governo local, que alugava e determinava regras a algo que aos olhos de um espectador forasteiro não tinha nem de longe uma organização razoável. Gritos, chamados, apelos, alguns paravam outros continuavam indo e vindo, carregando cargas ou adquirindo mais. Cheiro de fritura, gordura quente, massa elástica frita na hora com recheio de qualquer coisa comível. Nem todo estômago suportava, mesmo assim fazia sucesso.

 

         O mais deprimente eram aqueles que se aproveitavam da situação para tirar proveito. A vítima normalmente idosa ou obesa, carregada com várias sacolas, não tinha como reagir, isto quanto percebia o que lhe acontecera. Na maioria das vezes, só se dava conta quando procurava sua mixaria. Quando ocorria de algum desses donos do alheio serem pegos, acontecia quase um linchamento sem a intervenção das autoridades competentes, que, ao tomar conhecimento, devido a sua morosidade recolhia a vítima, ou melhor, o réu moribundo ao hospital.

 

         E o que dizer do som quase estridente daquelas caixinhas mal acopladas ou mal sintonizadas? Com vários tipos de repertórios, principalmente aqueles de gosto duvidoso, mas que fazia sucesso entre o populacho. Era ilegal tal prática, mas quem se importava?  Podia ser até crime, mas até a lei adquiria o que lhe era conveniente. Tudo isso sobre a anuência do poder público e careta. 

 

         Mas no fundo tudo era “alegria” misturada com vários sabores, quem podia levava, quem não tinha pechinchava, mas todos lucravam, assim era a feira livre daquela pequena cidade do nordeste brasileiro.

 

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