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TIMIDEZ: O QUE SE ESCONDE POR TR�S DA MESMA?
Em outros trabalhos (vide site central), enfatizei a diferen�a entre timidez e retraimento. Este �ltimo t�m como caracter�stica a dificuldade de express�o no �mbito interpessoal ou nos relacionamentos, gerando medo e vergonha na pessoa, perante situa��es banais ou corriqueiras. Sua origem se baseia nas antigas rela��es familiares, marcadas geralmente por barreiras na troca afetiva, e na falta de est�mulo para a crian�a se relacionar com o meio. A timidez embora confundida com o exposto acima, faz parte de um dist�rbio neur�tico, onde a pessoa deliberadamente foge de qualquer troca emocional mais profunda. Seu sil�ncio e omiss�o visam obter vantagens do meio social atrav�s da n�o exposi��o, ou que o psic�logo ALFRED ADLER chamava de: "fuga da situa��o de prova". Estas pessoas al�m de serem categorizadas de reservadas, s�o uma total inc�gnita para seus amigos e parceiros. Embora estejam dentro de um relacionamento, procuram a esquiva ou afastamento em diferentes situa��es do cotidiano. As pessoas ao seu redor se queixam de sua falta de participa��o e troca genu�na. Estranhamente o t�mido cultua a coisa mais pavorosa da era moderna: a solid�o. N�o gostam da divis�o de forma alguma, se tornando ego�stas do ponto de vista social e econ�mico. � aquela pessoa que geralmente a esposa reclama que jamais sabe quanto o marido ganha ou possui, criando segredos que s�o uma defesa perante o v�nculo emocional que teme a todo o momento. O t�mido embora n�o demonstre, sempre busca a superioridade de formas veladas, pois a disputa franca n�o faz parte de seu dicion�rio pessoal. Assim sendo, sua meta de vida � a eterna cria��o de um "fundo de reserva", seja pelo dinheiro ou intera��o afetiva que n�o almeja trocar. A economia em todos os �mbitos � sua m�xima. Geralmente s�o pessoas ao contr�rio do que se pensa, extremamente bem sucedidas financeiramente, pois o dinheiro � sua defesa ou certeza contra o complexo de inferioridade pessoal que carrega por toda sua vida e tenta esconder a todo custo.
Qualquer psic�logo ou soci�logo atento perceber� que a timidez � a neurose mais fiel ao sistema s�cio-pol�tico vigente, reproduzindo todas as caracter�sticas de exclus�o e falta de oportunidade com rela��o ao meio social. Lembrando a famosa frase: "a multid�o solit�ria"; o t�mido n�o apenas aceita tal fato, como tamb�m obt�m satisfa��o quando est� sozinho, se sentindo diferente e at� superior perante os que trocam. Esta � a fic��o que sua mente produziu perante seu p�nico � rejei��o. O t�mido � o campe�o absoluto das apar�ncias, enganando a todo o momento a percep��o do meio acerca de sua pessoa. Pode n�o parecer, mas s�o pessoas extremamente sedutoras, apesar de suas atitudes recatadas; seu apurado instinto de observa��o capta a ess�ncia da necessidade do outro, come�ando ent�o o jogo de sedu��o e manipula��o. ADLER chamava tamb�m a aten��o para o fato de que a falta da fala do t�mido amplia sua percep��o, assim como determinada defici�ncia amplia outro sentido como forma de compensa��o. No jogo da sedu��o citada, o parceiro do t�mido fica geralmente espantado com a rapidez com que o mesmo se retira da rela��o, deixando seu rastro de insensibilidade e at� crueldade. Diariamente recebo em meu consult�rio queixas desse tipo; pessoas que me contam como a rela��o estava boa e de repente o outro simplesmente "cai fora"; sem nenhuma explica��o mais detalhada. Esta � mais uma caracter�stica da timidez; deixar uma heran�a de saudade que muitas vezes beira a tortura. O t�mido se retira por completo ap�s ter recebido o dep�sito afetivo de algu�m.Como no sistema banc�rio, saca rapidamente seu pagamento, sem deixar nenhum tipo de v�nculo.
A timidez reflete uma gama de neuroses interligadas por uma raz�o muito simples; historicamente tanto a psiquiatria como a psicologia tem tentado catalogar toda afec��o ou dist�rbio ps�quico. A ess�ncia de qualquer neurose � em suma sua pr�pria manuten��o ou sobreviv�ncia; assim sendo, nada mais conveniente que camuflar v�rias coisas num conjunto de comportamentos discretos, que passar�o desapercebidos da cr�tica e cura. Ningu�m ir� atacar aquele que num primeiro momento n�o deseja competir. O conceito citado da fuga da situa��o de prova � exatamente tal quest�o; ganhar n�o atrav�s de uma competi��o aberta, mas criando uma regra unilateral. "Brilhar no ofuscamento"; "dominar na aus�ncia"; "exercer poder sem o r�tulo da autoridade"; "ser lembrado pelo n�o comparecimento"; "despertar curiosidade sem nenhuma marca vis�vel de algum feito pessoal"; "conseguir uma esp�cie de triunfo renegando o hero�smo da participa��o e erro"; todas estas express�es fazem parte do cotidiano do t�mido, e s�o sua fuga dos mais variados testes da vida.
O t�mido � um retrato fiel de nossa era justamente pela aus�ncia de mitos ou her�is. Engana-se quem sempre pensou que o "covarde" nunca almejou o poder; apenas os esfor�os para tal consecu��o sempre foram forjados na dissimula��o. O t�mido � um estelionat�rio e clandestino quando o assunto � a participa��o social. O objetivo deste estudo n�o � denegrir ou ofender ningu�m, embora muitos t�midos tomar�o tais palavras com m�goa e rancor. O fato � que a cada dia a aus�ncia da participa��o individual para um projeto de uma sociedade melhor, tem se tornado um c�ncer no desenvolvimento humano. Que quase todos foram criados para uma competi��o impiedosa, sede de poder e lucro, � fato mais que not�rio; assim como o t�mido � a bandeira velada de tal projeto social e cultural. Se o mesmo percebesse que uma mudan�a de atitude geraria uma verdadeira revolu��o pessoal e coletiva, ao inv�s de ser o baluarte da manuten��o de uma estrutura que visa o distanciamento, certamente a esperan�a estaria novamente acesa. Se refletirmos em termos sociais, nossa sociedade vive em uma ditadura velada, que tem como emblema: "cale-se, caso n�o deseje ter trabalho ou perder seu conforto e seguran�a pessoal".Nos tornamos comerciantes ou vendedores de todas as esferas da exist�ncia; seja dinheiro, beleza ou amizade. A cada dia assimilamos passivamente todo tipo de injusti�a social, e quando h� algum tipo de protesto, este geralmente n�o possui nenhum direcionamento social, apenas uma explos�o s�bita de raiva. O t�mido leva todo esse paradigma ao extremo, pois seu lema � a pregui�a ou indol�ncia face �s �rduas tarefas que o mundo coloca sobre todos que desejam se relacionar.
Uma quest�o curiosa que fica por ser esclarecida � como numa sociedade onde a influ�ncia da opini�o alheia � t�o forte, pode uma pessoa passar desapercebida das cobran�as sociais? O t�mido escapa da cobran�a social n�o apenas pela aus�ncia, mas o significado inconsciente de sua conduta de isolamento � desativar sua sensibilidade para os deveres humanos (solidariedade, compaix�o e troca). Ent�o jamais podemos classificar a timidez como um sin�nimo da fobia social, pois a quest�o crucial n�o � o medo, mas uma resist�ncia di�ria para n�o encarar a tarefa da sociabilidade. O t�mido sempre � um pregui�oso quando algu�m invoca sua presen�a. A maior de todas as m�scaras que utiliza � fazer com que ele e todos ao redor acreditem no medo do palco ou p�blico; embora tal comportamento seja rotineiro, o pavor m�ximo � a exposi��o perante seu companheiro, na situa��o de intimidade. Seu p�nico social camufla e amplifica seu bloqueio afetivo pessoal, portanto, temos de tomar muito cuidado com o diagn�stico da fobia social, que geralmente induz a erro. A avalia��o minuciosa deve se ater aos seus relacionamentos �ntimos.
A fic��o em todo esse processo � uma luta sem tr�gua n�o apenas pelo afastamento social, mas, para jamais ser posto a prova novamente. O t�mido possui uma mem�ria de g�nio frente �s experi�ncias de desilus�o; por�m, o inv�lucro da prote��o contra o contato � totalmente revestido pelo material que mais o incomodou: dor e amargura, sendo a contradi��o gritante de seu esfor�o. A Ess�ncia da neurose que o t�mido carrega al�m da perda ou desilus�o passada � o medo da morte. Sua arrog�ncia e gosto pelo poder absoluto se revelam de uma forma total nesta quest�o. "Qual o motivo para tanto investimento emocional se tudo ir� acabar?" Ouvi diversas vezes essa frase proferida pelo t�mido na psicoterapia; ou seja, o mesmo coloca uma condi��o absurda para sua abertura: a imortalidade. A constru��o de uma auto imagem segura e receptiva � sem d�vida a principal tarefa, heran�a e obriga��o dos pais no processo de desenvolvimento da crian�a. Poucos ainda se deram conta de t�o important�ssima miss�o. Os pais cuidadosamente deveriam acompanhar as decep��es vivenciadas pelos filhos, os estimulando a continuidade de suas tarefas independentemente do resultado, se evitando a forma��o da crosta de medo e bloqueio que futuramente gera a timidez. Exigir que seu filho seja o "g�nio" ou o melhor competidor em tudo, � t�o nocivo quanto n�o acompanhar a crian�a. As situa��es de prova aparecer�o em todas as etapas da vida, e estar� preparado �quele que sente que foi investido de apoio, amor e respeito. O que a crian�a precisa sempre n�o � de mimos ou regalias materiais que s� compensam a aus�ncia dos pais; mas, sobretudo, que demonstrem acreditar nela nos mais alegres e tortuosos momentos de seu crescimento.
A timidez sob esta �tica � a revolta por n�o obter a seguran�a existencial citada. O t�mido muitas vezes se porta como a crian�a adotada que n�o se conforma com sua condi��o, se julgando um ser de segunda categoria, ou que lhe deram as sobras. A supera��o desta condi��o neurotizada � fundamental para o restabelecimento de sua capacidade de troca e prazer.
N�o poderia deixar de fazer uma analogia entre a timidez e a inform�tica de nossa era moderna. A internet � uma luva quase que perfeita na m�o fechada de quem n�o almeja o real relacionamento. � s� observarmos os chats, sites de namoro, blogs para constatarmos que o t�mido encontrou um porto seguro perante seu problema. Seu desafio pessoal � totalmente mascarado e encoberto como sempre desejou. Agora o mesmo pode se aventurar pelo mundo da doentia intera��o virtual, pois a n�o exposi��o e o anonimato lhe s�o conferidos pela tecnologia. N�o que pretenda atacar os benef�cios da internet ou da comunica��o global, muito pelo contr�rio, devemos comemorar uma das poucas portas que se abriram para a socializa��o da informa��o, embora todos saibam da falta de conte�do e seu car�ter pernicioso quando vemos pedofilia e outras coisas que agridem nossos filhos e jovens. O ponto que fa�o alus�o � em rela��o ao t�mido, e como a inform�tica agora � um de seus senhores supremos.
Qualquer pessoa j� percebeu que o problema da timidez s� ir� se agravar dentro do rol oferecido pela internet. Alguns, imbu�dos de ignor�ncia ou m� f�, t�m o desplante de afirmar que o exerc�cio do teclado no contato virtual � o treino para que o t�mido transporte tal pr�tica no futuro para uma situa��o real. Por acaso algu�m aprende a amar, ou se relacionar atrav�s do v�deo game? O sistema econ�mico age com uma "tremenda cara de pau", ao tentar lucrar com um dos bloqueios mais s�rios de nossa atualidade. A inform�tica � a overdose de prosac para algu�m temeroso de sua pessoa. Ali�s, h� muitos anos venho observando sem generaliza��es, que na inform�tica se escondem �s pessoas mais retra�das e com graves dist�rbios de relacionamento. N�o podemos classificar tal fen�meno como uma nova neurose, mas um atalho esperto que a mesma trilhou para sua sobreviv�ncia como disse anteriormente. A inform�tica apenas fornece uma nova capa � velha energia do problema pessoal. Se for existir uma cura, a mesma se d� no confronto ou exposi��o da situa��o. Portanto, a timidez � a nega��o absoluta de qualquer tipo de mudan�a interior. Sendo assim, todos os recursos tecnol�gicos ou materiais ser�o utilizados para a perpetua��o da neurose.
Novamente tentando n�o cometer o abuso da generaliza��o, o t�mido corriqueiramente receia na constitui��o de fam�lia ou filhos. Sua independ�ncia � racionalizada a todo o momento com frases do tipo: "Por que deixaria um filho neste mundo t�o doente?" A quest�o n�o � a raz�o objetiva, biol�gica ou social de se ter ou n�o um filho, devendo obviamente ser uma op��o pessoal; o fato � que tais pessoas baseadas em sua constante independ�ncia e dificuldade da troca racionalizam ou compensam a maternidade ou paternidade atrav�s da maximiza��o da capacidade de trabalho. Confesso que muitas vezes me espanto ao ver o grande n�mero de mulheres, principalmente as que atingiram a maturidade e seguran�a econ�micas, solteiras e sem nenhum projeto de constitui��o familiar, assim como v�rios homens. Muitos podem pensar que se trata de uma observa��o preconceituosa; por�m, apenas gostaria que a reflex�o imperasse neste fen�meno moderno.
Algumas �reas da psiquiatria falam que a energia contida no t�mido � muito mais forte do que sua for�a de vontade para se destravar, insistindo que o mesmo deve tomar medica��o espec�fica. O que esta abordagem se esquece � que exatamente neste ponto devemos trabalhar com o t�mido; seu bloqueio intranspon�vel est� na raz�o direta da economia e guarda de seu potencial de troca. Apenas com muito di�logo e advert�ncia sobre o comprometimento da qualidade de sua vida, o t�mido perder� o �dio ou receio de falar de si pr�prio.
Como quase ningu�m se importa, a continuidade do comportamento neurotizado � facilmente estimulada no conv�vio social di�rio. O apelo consumista de nossa era � absolutamente tolo, se pensarmos no cotidiano de nossas necessidades. Obviamente necessitamos gastar aquilo que recebemos, pois do contr�rio n�o haveria nenhum valor ou recompensa para nossos esfor�os. O problema � o implante de desejos artificiais que o sistema acaba inculcando na mente de todos. A reten��o possui o significado hist�rico de uma reserva para qualquer tipo de emerg�ncia. O t�mido orbita psiquicamente nessa esfera, pois sua ansiedade brutal o faz viver diariamente como se estivesse numa "guerra", e seu receio do contato ou de ser explorado faz com que adote a postura citada da economia, transpondo-a para sua afetividade em geral. Vive em estado de alerta constante contra o medo de que algu�m descubra seu trancamento emotivo.
Todas as reflex�es citadas visam � preven��o de algo que literalmente corta a capacidade de envolvimento. O t�mido sente que em algum momento de sua vida foi "abandonado", ou que lhe retiraram um momento ou etapa preciosa de satisfa��o pessoal. A solu��o � que aceite n�o apenas a psicoterapia, mas, que se conscientize de que a mesma ser� no in�cio um processo dif�cil e extremamente chato, pois, seu referencial abomina qualquer tipo de interven��o externa, principalmente quando a regra � falar de si pr�prio. Ir� cobrar resultados imediatistas, e sua postura ser� sempre desafiadora e baseada na desconfian�a. O sucesso do tratamento n�o apenas se baseia na for�a de vontade, mas, sobretudo, em se permitir vivenciar num ambiente controlado os par�metros do conv�vio pleno, que s�o a confian�a, humildade e senso pessoal da import�ncia da presen�a constante do outro.
Bibliografia:
ADLER, ALFRED. O car�ter neur�tico. MADRID: Editora PAID�S, 1932.
COLABORADORES:
ANTONIO DE P�DUA VELOSO GARCIA(PSIC�LOGO)
IRINEU FRANCISCO
BARRETO J�NIOR(SOCI�LOGO)
SIMONE JORGE (SOCI�LOGA)
POR RAZ�ES �TICAS, QUALQUER
ORIENTA��O S� � POSS�VEL PESSOALMENTE E ATRAV�S DE CONSULTA PSICOL�GICA.
Antonio Carlos Alves de Araujo - Psic�logo -
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