PSICÓLOGO
ANTONIO CARLOS ALVES DE ARAÚJO- ADULTOS, CASAIS E SEXUALIDADE- TATUAPÉ SP-SP
TELS:66980558/ 66921958(SOMENTE EM CONSULTA É POSSÍVEL A ANÁLISE DE SONHOS )
Interpretação de Sonhos e Pesadelos
Acerca de 101 anos atrás SIGMUND FREUD publicava seu histórico livro sobre a
interpretação dos sonhos. Nascia nesse momento o fundamento teórico da
psicanálise: associação livre de idéias - o paciente não censurava nenhum
pensamento que lhe ocorria, e a interpretação dos sonhos do paciente dentro do
referencial criado por FREUD (sendo os pensamentos reprimidos sexuais seu
principal objeto). Essas noções se divulgaram amplamente no decorrer do século
vinte, e não cabe nesse breve estudo levantar aspectos teóricos, mas
principalmente uma comparação histórica daquilo que a psicanálise julgou ser a
raiz do significado do sonho, e se tal estudo permanece válido em nosso
contexto atual.
FREUD salientou basicamente que os sonhos seriam essencialmente a tentativa de
realização de um desejo reprimido que se alojava no inconsciente, sendo que
esse desejo seria primordialmente de natureza sexual ou encerraria aspectos
proibidos pelo contexto moral, como exemplo, o incesto ou o que FREUD veio a
rotular de "complexo de Édipo" (uma ligação neurótica da criança
visando exclusividade na relação afetiva, sem ter que disputar com um dos pais
sua atenção). O sonho era produzido por dois elementos centrais: a
"condensação e deslocamento", que respectivamente significam:
recolher partes de diferentes períodos do desenvolvimento de uma pessoa, e
reproduzi-las através de simbolismos que ocultassem seu verdadeiro significado,
evitando que a pessoa entrasse em contato direto com o material proibido ou do
qual sentia-se culpada.
Outras correntes da psicologia atribuíram metodologias diferentes para a
análise dos sonhos, como por exemplo, o estudo do inconsciente pessoal e
coletivo, formulado por CARL GUSTAV JUNG, que chamava a atenção para elementos
da história da humanidade (mitos ou arquétipos) que representavam elementos
coletivos da mesma, presentes em todos os seres humanos, por exemplo, a idéia
da religião que é aceita praticamente em todas as culturas, bem como
determinados feitos heróicos que são relatados através de inúmeras gerações.
Estes elementos estão sempre presentes no psiquismo humano, determinando sua
direção e resultados. A essência desse estudo é enfatizar o sonho em nossa
realidade atual, como foi descrito anteriormente. E seguindo esse parâmetro,
gostaria de enfatizar que o sonho representa principalmente o drama histórico
que o ser humano vivencia em determinada época, sendo a essência do sentimento
que predomina na alma da pessoa.
Não podemos nos esquecer que o contexto da época de FREUD era marcado pela
extrema repressão sexual, assim sendo, boa parte dos sonhos de suas pacientes
reproduziam toda a miséria afetiva e sexual da época. Em nosso presente
momento, qualquer psicólogo tem a clara noção de que os sonhos de nossos pacientes
atuais refletem principalmente três esferas: solidão, angústia e principalmente
medo. Todo o drama diário pela batalha num mundo de competição inveja e ambição
é retratada periodicamente na elaboração onírica das pessoas. ALFRED ADLER,
contemporâneo de FREUD salientou o complexo de inferioridade e superioridade,
como elementos centrais da personalidade humana. É impressionante como
observamos ditos aspectos nos sonhos das pessoas. O complexo de inferioridade
se manifesta essencialmente através de sonhos de queda, nudez, roubo,
perseguição, estupro, perda de membros do corpo, regressão a etapas anteriores,
como, por exemplo, sonhar que se está de volta ao ginásio, ou outra etapa
qualquer já vivenciada pela pessoa.
A compensação de toda essa inferioridade sentida, ou o desejo de superioridade
se reproduz em sonhos do tipo: voar, viagens a lugares desconhecidos,
experiências místicas de ausência do próprio corpo, contatos com seres
extraterrestres, mas, sobretudo em sonhos onde a manipulação e o poder são os
elementos dominantes. O próprio sonho de natureza sexual ou de orgasmo, muitas
vezes acompanha elementos de poder ou idolatria descritos pelos pacientes. É
interessante notar que a simbologia descrita por FREUD de natureza
eminentemente sexual nos sonhos, como por exemplo: guarda-chuva, fechaduras,
obeliscos, cavernas, etc, foi substituída por elementos da opressão e fracasso
social sentidos pela pessoa. Em suma, parece que nosso inconsciente em nossos
tempos está sobrecarregado do vazio e carência, e esse espaço cada vez mais é
preenchido pelo medo ou pânico. Nesse exato ponto podemos falar do pesadelo.
O próprio FREUD se deparou com uma contradição em sua teoria dos sonhos, pois
se os mesmos eram a realização de desejos, como ficaria a questão dos pesadelos?
Sua resposta para essa questão ocorreu quando o mesmo elaborou a teoria do
masoquismo, teoria esta que diz que o prazer se manifesta na dor, numa
tentativa de aliviar a tensão e culpa (sendo a essência do masoquista ter que
se punir por desejar ou querer o prazer, e dita punição o liberaria para
vivenciar seus desejos recalcados), e mais tarde em sua teoria do instinto de
morte, sendo este um instinto acionado que visava o retorno ao inanimado, a
destruição da vida e do prazer, em suma, destruir a si próprio.
FREUD com bastante perspicácia percebeu mais tarde que o pesadelo era uma
tentativa do ego de controlar um material reprimido que causava extremo
sofrimento à pessoa. Nesse ponto podemos falar da questão temporal dos
pesadelos, pois para a pessoa que sofre com os mesmos, fica a sensação de
perseguição de algo passado que sempre retorna, uma verdadeira tortura mental
que nunca se esgota. Porém se observarmos atentamente a direção de determinados
pesadelos descobriremos que seu sentido não está apenas ligado ao passado, mas
também ao futuro, ou seja, a meta de vida que a pessoa pretende realizar, pois
o pesadelo coloca em cheque através de dolorosa angústia, determinadas atitudes
que a pessoa precisa tomar para resgatar seu prazer pessoal e social; como se
fosse uma espécie de alerta para determinado problema que necessita de solução
urgente. O pesadelo apenas se concretiza no espaço vago deixado pela ausência
de prazer e realização pessoal, sendo que o resultado será a tirania de imagens
ou vivências dolorosas. Em suma, o pesadelo ocorre numa personalidade onde a
fonte diária de prazer não depende de sua vontade ou controle, sendo o terror
noturno a conseqüência lógica de tal mecanismo. A ansiedade e expectativa por
determinadas experiências gratificantes são transformadas em angústia e
decepção através dos sonhos.
Ilustrarei tais conceitos através da análise de alguns pesadelos de pacientes.
"Sonhei que era uma criança e tinha sido enterrada viva, e meu túmulo foi
violado por saqueadores; chorava e ao mesmo tempo começou a jorrar leite de meu
corpo". O conteúdo sexual desse sonho é praticamente explícito, pois se
tratava de um paciente que sofria de extrema solidão e carência no lado afetivo
e sexual. Porém, é muito comum a categoria de sonhos onde a pessoa está sendo
enterrada viva, e quase sempre isso representa determinado potencial que nunca
foi utilizado ou aproveitado, sendo que no caso do paciente descrito
anteriormente, ficou nítida sua decepção por enterrar algo que ainda estava
vivo, e a violação representava um direito negado ao mesmo. O pesadelo nesse
caso tinha a intenção de revelar a pessoa que algo de sua humanidade não estava
sendo efetivado, sendo que não poderia abrir mão do potencial afetivo sem a
tortura de um pesadelo ou uma neurose.
"Sonhei que perfurava um poço em minha casa, e apenas jorrava terra, sendo
que fiquei apavorado que aquilo invadisse todos os ambientes da casa".
Novamente o tema da não efetivação de um potencial aparece, pois de acordo com
as discussões feitas com o paciente, determinado pesadelo representava que sua
angústia afetiva e emocional lhe atormentava quase que diariamente, sendo que
não poderia esquecer ou abandonar algo que permanecia vivo em seu íntimo, o
desejo da satisfação amorosa, e mais uma vez, não poderia liquidar algo que
clama por satisfação, sendo que a terra representava deixar de lado algo que
não estava disposto a abandonar, mas estava enfrentando graves dificuldades
para lidar com um emocional tão carente e debilitado.
"Uma mulher estava deitada numa cama, e estava pegando fogo, tentando me
puxar, vi a figura de um homem ao meu lado, a mulher se carbonizou por
completo, e fiquei apenas chamuscada".
Esse pesadelo é extremamente interessante, como resposta do inconsciente à
resolução de determinado conflito psíquico. Tratava-se de uma pessoa que na
infância havia sido molestada sexualmente, sendo que por diversas vezes sua
vida correu real perigo, pois sua agressora a segurava pela mão a beira de um
poço, ameaçando lhe arremessar para baixo. Apesar da gravidade do trauma
citado, sua vida afetiva e sexual permanecia intacta, sendo que seu pesadelo
representava claramente o final de seu conturbado histórico infantil, e assim
sendo, estava livre para prosseguir sua jornada afetiva, com o mínimo de
resquícios de suas dolorosas vivências. Alguém poderia dizer que o homem no
sonho da paciente acima descrito representaria a relação terapêutica, no
sentido de depositar no elemento masculino suas esperanças de reparação e
alívio emocional. Embora tal análise tenha algum mérito, a realidade é que dita
experiência manteve intacto o sentimento de poder da paciente, como dizia o
psicólogo ALFRED ADLER, e nada mais justo que tal fato ocorresse, pois o
próprio psiquismo encontra maneiras de compensar os danos sofridos na
trajetória do desenvolvimento. A autocomiseração foi substituída pela urgência
de ser reconhecido o evento traumático na própria terapia, que sempre deve ser
conduzida para resgatar o potencial do paciente não apenas por ter sobrevivido
a tal evento, mas, sobretudo para lhe dar uma dimensão superior, no intuito de
libertar a pessoa em todos os sentidos, e provando para a mesma que suas
energias ainda continuam presentes e a disposição de algo maior e melhor, e o
sonho acima descrito é a prova contundente do poder de reparação que o pesadelo
possui, assinalando que o poder pessoal da paciente citada anteriormente
permanecia vivo e a espera de ser mobilizado.
EXEMPLOS DE SONHOS E PESADELOS QUE REVELAM A NECESSIDADE DE AJUDA TERAPÊUTICA
Muitos têm uma idéia errônea acerca dos pesadelos, achando que sua gravidade varia conforme o tema ou o tipo de reação produzida. Embora a sensação emotiva após um pesadelo ou sonho seja a base central que devamos nos apoiar, nem sempre tal conduta é fidedigna na apuração do inconsciente da pessoa. Não há regras fixas na análise e interpretação dos sonhos, e como disse acima, só o estreito contato com o paciente e conhecimento do mesmo pode nos fornecer bases seguras para descobrirmos os intrincados caminhos ocultos dos sonhos. Assistimos nos dias de hoje, mais uma tentativa dos laboratórios lucrarem com os distúrbios do sono, se montando uma verdadeira parafernália científica para provar que os pesadelos são de origem eminentemente fisiológica, descartando a própria origem da psicologia que foi baseada na análise dos sonhos por SIGMUND FREUD. Não se trata aqui de fincar tese em nenhum tipo de corporativismo, mas, ser honesto o suficiente para perceber o drama das relações e núcleo econômico de nossa sociedade como fatores de contaminação de nosso íntimo. Imputar distúrbios psíquicos somente a fatores químicos ou hormonais é no mínimo sabotar a possibilidade de mudança do ser humano. Tudo também é um reflexo ou conseqüência de um modelo de vida que adotamos ou fomos obrigados a incorporar. Obviamente não estou contra a pesquisa médica, mas, apenas ressalto que a mesma deve ter a suficiente humildade para se integrar em outras áreas, coisa que nem sempre acontece.
Voltando ao tema
dos pesadelos, a pergunta que todos se fazem é quando os mesmos realmente são
indicativos de um distúrbio psicológico? A primeira resposta passa pelos
chamados sonhos recorrentes, com uma mesma temática seguidas vezes. Como
exemplo cito o sonho de estar de volta a escola, colegial ou faculdade, sendo
que o indivíduo já completou tal etapa. No primeiro texto falei que esse tipo
de sonho revela alguma incompletude da pessoa, ou um processo inacabado. O fato
é que tal sonho irá “martelar” a mente do indivíduo até que o mesmo perceba sua
fuga de um processo que teme ou teima em não resolver. O simbolismo da volta ao
aprendizado escolar é mais do que claro, sendo que a pessoa “cabulou”
literalmente “um evento traumático de extremo sofrimento ou angústia. Notem que
este tipo de sonho não possui nenhum conteúdo apavorante, mas revela a inércia
da pessoa perante seu medo ou complexo de inferioridade. O psiquismo passa a
punir alguém que acha que pode tranqüilamente se furtar de determinada operação
não concluída. É até um processo lógico, se pararmos para refletir mais
detalhadamente. Mas quais pontos não resolvidos este tipo de sonho mostra?
Geralmente eventos de inveja e comparação perante o meio do sujeito, sendo que
o mesmo fugiu efetivamente de uma situação de prova que talvez não pudesse
assimilar. Sonhar com uma etapa anterior significa também que a pessoa acumulou
um exacerbado sentimento de culpa perante uma situação, regredindo oniricamente
ao evento traumático. Os sonhos são
a prova psíquica de que não usamos nosso potencial mental na vida consciente.
Eles nos oferecem desconhecimento e uma certa excitação para aquele que
empreende efetivamente sua jornada interior.
Sonhar com
perseguições de assaltantes, seqüestros, armas de fogo; caso tais
acontecimentos não tenham realmente acontecido na realidade, denotam medo e
insegurança da pessoa no tocante a perder algo valioso. Antigamente este tipo
de sonho era muito interpretado em conflitos de ordem afetiva, se relacionando
assalto ao medo de perder alguém especial. Embora isto possa ocorrer, creio que
este tipo de sonho têm hoje em dia um aspecto eminentemente social, revelando
principalmente o pânico do desemprego e miséria econômica. Não podemos nos
esquecer que o simbolismo psíquico altera ou se mantém conforme os valores
ditados pela sociedade. Se pudesse ser feita uma pesquisa em cima deste
conceito, descobrir-se-ia que este tipo de sonho citado ocorria em demasia no
final da década de 20, no transcorrer do crack da bolsa de valores que causou
enorme depressão econômica. Sonhos de caráter erótico quase nunca revelam
distúrbios psicológicos, mas, ao contrário do que muitos pensam, não dizem
necessariamente de uma tentativa inconsciente de satisfação sexual; alertam
para o fato de que a pessoa está carenciada e insatisfeita nessa área.
A seguir, relatarei
pesadelos ou sonhos que afetaram em demasia os pacientes, e tentarei fazer sua
análise para que este estudo possa abranger o maior número possível de pessoas
e situações. Novamente observo o fato de que não é o tema ou susto que dá a
dimensão do problema psicológico, mas tão somente como se insere na vida do
indivíduo.
“Sonhei que
minha casa possuía cômodos que eu desconhecia; comecei então a fazer uma visita
aos mesmos, num misto de alegria e preocupação com o que poderia acontecer ou o
que iria encontrar. Meu medo de insetos ou outros animais era muito grande;
subindo na parte de cima da casa, notei que um determinado cômodo estava para
despencar; só me regozijava o fato de ter descoberto que poderia ter mais um
quarto”. O paciente tinha este sonho com certa freqüência, e passou a se
incomodar com o mesmo por não perceber seu significado. Medo de insetos ou
determinados animais, remonta à infância, sendo que é algo comum, desprovido de
maiores detalhes psicológicos. O interessante é o próprio indivíduo no sonho
desconhecer a capacidade física ou os recursos de que dispõe. Este sonho o
alerta para uma estagnação em sua vida, e o quanto poderia crescer, caso
expandisse seu conhecimento ou atuação. O cômodo que ameaça despencar reflete o
medo de mudar ou iniciar algo, está em cima da casa inclusive, o que denota
simbolicamente arrojo ou algo mais expansivo. Finalmente a satisfação de um
quarto maior, reflete embotamento afetivo e limitação de seus sonhos ou
projetos, pois está encerrado em determinado lugar.
O pesadelo a
seguir é impressionante no tocante ao sofrimento que causou à pessoa:
“Tive uma certa
discussão e fui parar num hospital psiquiátrico; senti uma tremenda injustiça;
e por mais que argumentasse sabia de que nada adiantaria. Planejava minha fuga;
mas acabei contido por diversas vezes; sendo que ia ser medicado e tomar
eletrochoques. Fui levado a sala de uma psiquiatra que com toda a frieza do
mundo nem quis saber de minhas explicações. O mais estranho é que quando olhava
em volta não haviam pessoas com distúrbios psicológicos, mas indivíduos que não
aceitaram humilhações impostas pela sociedade. Num vacilo da segurança consegui
chegar até o portão de entrada, não encontrei guardas; apenas alguns internos
esperando para sair. Notei que havia uma lista na parede, do tipo daquelas de
um resultado de vestibular, e percebi que meu nome constava entre os primeiros.
Num primeiro momento sabia que aquilo tudo era um pesadelo e que iria acordar,
mas, sentia que novamente a imagem daquele terror invadia minha mente.”
Realmente é incrível como nosso inconsciente pode ser tão torturante em
determinadas situações, e o simbolismo da psicose ou loucura incubada no mesmo
soava como uma horrenda humilhação. A extrema politização da temática é
interessante, sendo que não nos causa estranheza todo tipo de injustiça e
violência que se comete num lugar desses, em nome do enquadramento social. Mais
incrível ainda é não encontrar o tipo “lunático”, mas pessoas comuns que
simplesmente ousaram questionar determinadas regras; é quase que o roteiro de
um filme dramático e real. O fato de estar nas primeiras colocações numa lista
de vestibular revela a lendária dicotomia entre a loucura e genialidade, e a
própria pessoa acaba não distinguindo qual das duas é sua verdade interna.
O paciente contou que teve este sonho após se encontrar no mesmo dia com uma
pessoa que considera infeliz e negativista, sendo que acreditou numa espécie de
influência negativa contra sua pessoa, isto seria possível? A psicologia
tradicional advoga que o sonho é posse exclusiva de quem o teve, excluindo
qualquer tipo de influência citada. Penso ser este um conceito racional e
limitado, pois assim como um vírus é transmitido para milhares de pessoas, o
mesmo acaba acontecendo com o processo psíquico. Se a pessoa se encontra
debilitada ou sua sensibilidade não possui canais de contenção, fatalmente
absorverá literalmente o “lixo” do processo mental do outro. A própria
psicologia historicamente descreveu este processo como contratransferência-
sendo os sentimentos do terapeuta em reação ao que o paciente lhe passa,
causando distúrbio e conflito no primeiro. A questão da negatividade passa por
forçar que o outro seja uma espécie de receptor para os conflitos não
resolvidos da pessoa, e a única solução é manter um certo desinteresse ou
distanciamento quando sentirmos nossa limitação em poder efetivamente fazer
algo pelo outro. Não se trata de ausência de compaixão, mas mantermos também
nossa saúde psíquica. A sabedoria também passa pela conscientização de quando
realmente podemos ser úteis.
“Sonhei que
estava num determinado lugar; haviam vários equipamentos eletrônicos de toda
espécie, porém, não conseguia os desligar, e uma senhora muito idosa apontava
todas as falhas nas engenhocas; percebi então que aquela casa tinha sido minha
há várias décadas ou em outra reencarnação”. Novamente vemos o duelo dos
opostos neste sonho. A tecnologia moderna, mas sempre falhando versus alguém
antigo mas cheio de sabedoria. A senhora no sonho tinha o significado para este
paciente de que sua capacidade afetiva não tinha sido realizada até o presente
momento. Na elaboração em consultório o mesmo se conscientizou que os anos se
passaram e nunca tinha experenciado uma relação profunda. Notem que o retorno a
casa ou crença na reencarnação é exatamente o ponto que estava discutindo
acima, enquanto determinado conteúdo psíquico não for resolvido, seu retorno
virá sob os mais variados temas e disfarces. A dívida mental nunca expira.
“Sonhei que
tinha sido escolhido para ser visitado por um grande astro de cinema; quando o
mesmo chegou começou um grande tornado; notei que parte de minha casa estava
destruída e a água começava a entrar; logo comecei uma luta corporal com o
astro citado; depois tudo se acalmou e nos tornamos amigos. Ele foi embora e
contei para todos os meus conhecidos a sorte de ser visitado por uma
celebridade; foi quando notei que a assessora do mesmo não tinha ido embora, e
tomei uma enorme bronca por estar relatando detalhes íntimos do ator”. Este
sonho têm muito a ver com o distúrbio psicológico chamado de “neurose de
êxito”. Já acompanhei centenas de pessoas que lutam incansavelmente por uma
promoção ou cargo, e assim que o obtém, entram numa espécie de “choque ou
paralisia psíquica”, temendo a perda a todo o momento, ou achando que não
conseguirão desempenhar satisfatoriamente a nova função. Muitos atribuem esse
processo a uma culpa internalizada; apenas acrescento uma incrível dificuldade
de lidar com a inveja ou competição. A terapia é primordial nestes casos, pois
há elementos inconscientes que irão sabotar qualquer progresso do sujeito.
“Estava junto de
uma antiga namorada, que foi praticamente a única pessoa que considero que
realmente amei ou que no mínimo queria sua presença o tempo todo; começamos a
trocar afeto e senti uma ternura indescritível; de repente ela começou a mexer
em meu relógio e descobriu uma série de recursos que eu não tinha notado. Tudo
mudou, ela se tornou agressiva e distante; havia uma festa e tentei me servir
de comida e bebida, porém, notei que todos tinham apanhado seu prato e não
localizava o lugar onde poderia me servir. Notei que a casa era do tipo
daquelas mansões mal assombradas de filmes. Comecei a ficar preocupado com o
meu retorno, pois era um lugar distante e o caminho de volta era perigoso. Ela
reclamou de extremas dificuldades econômicas, e simplesmente lhe agradeci por
ter tido a possibilidade de lembrar que sua pessoa me proporcionou os melhores
momentos de minha vida”. Este é um sonho que toca a fundo o centro afetivo de um
ser humano. O simbolismo do relógio e seus variados recursos prova como o tempo
é uma fração de segundos na memória que sempre se mantém viva quando foi
sensibilizada em determinada ocasião. Novamente o tema do retorno. Quase
podemos concluir que 90% de um sonho é a mais pura saudade. O inconsciente
clama pela volta de uma satisfação ou gozo, assim como deseja também repetir a
dor de um trauma. Enfim, nossa mente é um misto do mais puro gozo e horror.
Esta é a dialética máxima do inconsciente. O mais interessante é a evolução
do paciente no tocante a uma experiência de rejeição ou fracasso. Admitiu não
só sua paixão, mas reconheceu o poder que outra pessoa teve sobre sua história
emocional. Precisamos parar de sentir raiva ou ódio perante o fracasso deste
tipo de vivência, e admitir que somos influenciados ou até “enfeitiçados”
quando nosso desejo foge do controle. Faz parte do íntimo humano. Devemos estar
preparados para abrir mão do desejo de poder sobre uma gratificação que
almejamos e o destino sublinhou que não seria possível. A morte ou finitude soa
alto na mais pura experiência de excitação ou felicidade.
“No fundo do
quintal de minha casa estavam construindo um prédio; minha ex-namorada e a mãe
dela estavam comigo e íamos comprar um apartamento; em outro sonho ela tinha
engravidado de outra pessoa e assim mesmo pedia para que voltássemos”. Este
relacionamento acabou de uma forma extremamente dolorosa para o paciente, fato
que o motivou a procurar a terapia. Seu sofrimento na época era quase que intolerável,
se somando extensas crises de angústia. Teve este pesadelo quando já havia se
recuperado, provando que seu inconsciente ainda o mantinha numa espécie de
expiação ou penitência que insistia em o atormentar. Seria mais do que óbvio
falarmos aqui de posse ou apego, sendo que a partir do momento que sua vaidade
ou narcisismo foram atacados, começou a contra reação de profundo sofrimento. O
paciente em questão já tinha encontrado outra namorada, onde segundo seu relato
conseguia mais prazer e satisfação. Mas então por que as lembranças do passado
ainda o atormentavam? A resposta não é o fato da perda, mas um auto punição
constante por sentir que errou em determinada etapa do relacionamento e não
conseguir superar tal fato. Parece redundante, mas boa parte do sofrimento não
têm necessariamente relação com quem nos feriu, mas nosso próprio julgamento
implacável de não tolerar uma falha pessoal. Não se trata do perdão próprio, e
sim abdicar do severo juiz internalizado em nosso inconsciente. Devemos refletir
sempre nosso precário equilíbrio psíquico, e como sentimos tanto medo numa
dimensão temporal tão pequena que é nosso dia.
O próximo sonho é fantástico no tocante ao
tema: “Sonhei que estava num avião a caminho de um país que não distinguia bem
o nome, me pareceu(etti); havia muita discussão a bordo; de repente houve uma
forte explosão e senti que todos morremos. Na última visão enxerguei cerca de
umas 50 pessoas desesperadas”. Este sonho me foi contado por um colega de
faculdade no dia 03 de janeiro de 1986. Por volta do dia 18 do mesmo mês e ano,
li uma reportagem que dizia que ocorreu um desastre aéreo na ETIÓPIA no dia
anterior, sendo que 54 pessoas morreram, e a causa suposta do acidente talvez
fosse um atentado contra o governo marxista daquele país na época. A princípio
a reação foi como se fosse um comum filme de suspense, mas os fatos falam por
si mesmo, e como disse anteriormente cabe a cada um a escolha sobre o que
acreditar.
ANTONIO CARLOS ALVES DE ARAÚJO- PSICÓLOGO
C.R.P. 31341-5
ENDEREÇO: RUA ENGENHEIRO ANDRADE JÚNIOR, 156- BELÉM-SÃO PAULO- CAPITAL
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