PSICÓLOGO
ANTONIO CARLOS ALVES DE ARAÚJO(TERAPIA DE CASAL; INDIVIDUAL; SEXUALIDADE;
INSEGURANÇA. C.R.P 31341/5. RUA ENGENHEIRO ANDRADE JÚNIOR, 154,
TATUAPÉ- SÃO PAULO- SP. TELS: 66980558/93883296. EMAIL: [email protected]
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O
PSICÓLOGO (O QUE É FAZER TERAPIA E A ANÁLISE DO
PAPEL PROFISSIONAL PERANTE O SOFRIMENTO PSÍQUICO)
Seria de extrema utilidade uma reflexão profunda
acerca da missão e papel do psicólogo nos dias atuais, e perante todos os
desafios e conflitos que nossa era nos coloca. Como todos sabem, nos primórdios
da psicanálise de SIGMUND FREUD a questão da sexualidade era total primazia,
devido a enorme repressão sexual da era vitoriana. FREUD elaborou vários
conceitos da personalidade a partir da observação das pacientes histéricas (que
classificou como transtornos oriundos das repressões dos afetos; uma espécie de
psicosomatização da época.) As coisas mudaram bastante, e hoje assistimos
outros elementos que substituem as neuroses sexuais, tais como: solidão,
ansiedade, depressão e tédio como exemplos. Há também a questão grave que boa
parte das pessoas já não desejam analisar as causas de seu sofrimento
psicológico, mas tão somente almejam sedar o mesmo. Não estou dizendo que não
sejam fundamentais as descobertas da farmacologia no tratamento das desordens
psiquiátricas e psicológicas, mas infelizmente assistimos uma banalização da
medicação, com conseqüências graves no quadro da neurose. Sedar apenas o
conflito é mantê-lo vivo permanentemente. Os interesses econômicos falam
alto, e como todos tem pressa de se desvencilharem de suas mazelas emocionais,a tendência é que tudo isso se agrave a cada dia.
O psicólogo tem como tarefa primordial saber
manipular com eficiência determinadas emoções ou sentimentos que estimule a
reflexão, crítica e busca do paciente. Citando alguns exemplos destacaria a
receptividade, disponibilidade e o uso correto da agressividade. Esta última
se tornou um tabu na psicologia, pois se teima em vestir o psicólogo num papel
cândido, de ternura absoluta, se esquecendo que boa parte da angústia do
paciente advém de sua incapacidade para lidar com emoções negativas.
Obviamente estou dizendo de uma agressividade que nada tem a ver com violência,
mas com o uso preciso do poder do terapeuta, que sempre deve personificar tal
papel para atingir as estruturas arcaicas ou reprimidas do paciente. Jamais o
psicólogo deveria se preocupar em tentar ser alguém mais resolvido do que a
maioria; mas já daria um bom passo para o desenvolvimento de sua arte se aceitasse que seu trabalho é uma constante luta e contradição com o paciente.
O sofrimento psicológico é um tipo de inventário
consciente e inconsciente de emoções contidas. O mais estranho é que a pessoa
encara tal núcleo como uma espécie de poupança ou acervo pessoal que não pode
ser mexido. Isto seria o correlato do processo de resistência na terapia que
FREUD salientava; sendo uma luta entre o material reprimido que tentava vir à
tona e as barreiras impostas pelo próprio sujeito ou moralidade. O desejo de não
se curar para FREUD tinha como meta abastecer o material reprimido infantil
eternamente. Embora esse inconformismo histórico de desejos ou vivências não
efetuadas seja bastante presente na análise, o que a psicanálise suprimiu de
tal estrutura é seu cunho social. Não são apenas os afetos reprimidos que
sustentam uma estrutura neurótica, mas o próprio paciente os encara como uma
posse íntima e pessoal que não lhe pode ser roubada, como observei acima, sendo
a extensão de seus bens materiais; assim sendo, o núcleo máximo do desespero
é se sentir “vazio”, assim como a sociedade exclui quem não possui bens
materiais; o que importa é a posse, mesmo que seja do mais puro sofrimento. A estrutura mental embora seja extremamente criativa, na maioria das vezes é mera cópia do modelo social.
Outro fato extremamente complicado é a percepção
do paciente acerca de sua condição. Devido à falta de contatos sociais
profundos, quase todos infelizmente têm a macabra sensação de que seu problema
é totalmente descomunal perante seus pares. Isto pode ser interpretado como uma
tentativa narcisista de obter poder e atenção através do sofrimento pessoal.
Porém, quanto mais se explora a atenção através de determinada neurose, maior
será o domínio da mesma na personalidade do sujeito, adiando indefinidamente
sua solução. O sofrimento apenas diminui quando ousamos não sacralizar seu
caminho ou conteúdo. A origem deste tormento remonta ao sentimento de culpa
oriunda das históricas contendas familiares. É impressionante como as pessoas se
queixam da angústia mas preservam sua origem. A função primordial do psicólogo
é conscientizar o paciente de que construiu uma espécie de altar ou devoção
para com suas mágoas; sendo que a própria neurose nada mais é do que uma micro
religião mental perniciosa que reclama cuidado extremo o tempo todo. A
neurose não se desmonta com qualquer tipo de interpretação fenomenal, mas
quando o psicólogo diminui o patamar da “vergonha” do paciente, sendo este o
núcleo do sofrimento afetivo que a psicologia ainda não alcançou com uma
abordagem mais prática. A mesma sempre irá incorrer em erro se apenas a
função central é a eliminação do conflito ou angústia, pois os distúrbios
psíquicos têm a qualidade da mutação muito mais do que qualquer vírus estudado
pela medicina. O que temos de fazer é mapear todas as pequenas vergonhas ou
pudores do paciente, que irão nos fornecer um sólido caminho para sabermos o
por que de ainda não ter encarado seu dilema. Reforçando o que disse
anteriormente, vergonha é sinônimo de poupar, guardar e manter, tendo a
característica única de uma espécie de egoísmo que atinge inicialmente seu
próprio possuidor.
Faz-se necessária uma distinção entre timidez e
vergonha. A primeira como reforcei em diversos outros estudos é um transtorno
de caráter onde a pessoa simplesmente odeia trocar algo íntimo, pretendendo
apenas seguir os papéis sociais impostos. O tímido deseja obter lucro social se
isentando da obrigação de sua participação pessoal. Mantém sempre um ar de
mistério seja sobre seu lado material ou pessoal, se tornando uma espécie de
estelionatário social. A vergonha diz muito mais de um retraimento, sendo que a
pessoa não deseja repetir experiências passadas de humilhação ou exclusão. O
núcleo central desse sentimento é a preservação da dor. Alguns perguntariam
neste ponto se tal processo se assemelharia ao masoquismo. A resposta seria
amplamente incorreta, pois o paciente em questão não está buscando reproduzir
os traumas passados, mas o que teme é em essência uma “acareação” com as reais
figuras que produziram seu sofrimento, sejam os pais ou cônjuges. Na
vergonha não há espaço para qualquer tipo de conteúdo desconhecido, o principal
é fugir da tarefa que causa horror à pessoa.
O que proponho não é uma racionalização
infundada sobre a natureza do conflito, mas que o paciente perceba que insiste
em exacerbar seu sentimento numa direção única. A mente possui o intelecto,
cognição e reflexão, então não podemos aceitar a unicidade ou primazia de
determinada sensação. Esta se alastra numa mente que não soube adotar as
medidas profiláticas que salvaguardem a auto-estima. Um dos aspectos mais
importantes de uma psicoterapia é a imposição de uma trégua ao paciente na sua
certeza de derrota no contexto coletivo e pessoal, e que tal encontro a dois restaure
ou agilize o núcleo citado do amor próprio que não obteve na história de suas
batalhas internas. Embora muitos possam fazer a crítica de que a
reestruturação da personalidade se dá mediante um determinado pagamento, não
cabe nem a defesa de que o serviço é profissional e o psicólogo merece receber,
mas que psicologicamente isto se torna necessário pelo fato de que o sujeito
tropeçou em seus contatos anteriores justamente por não conseguir estabelecer
um patamar de troca ou retorno. Toda frustração emotiva se assemelha a qualquer
ambição material não concretizada.
Entraremos agora na difícil questão da arte de
mudar. Pensando mesmo na esfera biológica concluiremos que sempre uma mudança
gera um desconforto inicial para o ser humano, que tem sempre como meta à
adaptação. O problema maior é tentar “demitir” um sujeito de sua influência
perante si mesmo ou terceiros do sofrimento que utiliza como centro de seu
poder, como sempre pontuou ALFRED ADLER, inicialmente colaborador de FREUD, e
que desenvolveu os conceitos de complexo de inferioridade e superioridade. O
que mais surpreende é a desistência de um futuro de bem estar e desenvolvimento
perante a continuidade de algo doloroso. A resposta é simples e objetiva; o
ódio que quase sempre aparece dissimulado, seja através de uma saudade ou
tentativa da pessoa ainda receber o que sempre achou que merecia. O culto as
épocas remotas representa toda a libido não no sentido sexualizado, mas que o
potencial do sujeito travou literalmente devido a todo o ódio que não pode
expressar ou atuar. Isto se agrava mais quando a pessoa tem uma
característica pacífica ou desenvolveu uma polidez acentuada de caráter; todo o
processo acima se torna um conflito mortal entre ter de perdoar o tempo todo e
ao mesmo tempo arcar com todo o prejuízo em vista do retorno do ódio contra a
própria pessoa.
Mas como
realmente aprender a se gostar? Se fosse apenas uma questão de estética com
toda a certeza não haveria a anorexia nervosa em pessoas com alto padrão de
beleza. Em primeiro lugar a pessoa tem de desenvolver um poder em certa área,
seja na estética citada, intelectualidade ou relacionamento afetivo. Obviamente
isso se torna um estereótipo, que em determinada altura não funciona mais,
devido à corrosão causada pela comparação e competição. Nenhum talento
individual escapa da agonia da aprovação alheia ou dos ditames sociais
impostos. Então a questão crucial não é o desenvolvimento de alguma habilidade
especial, mas tão somente sua influência e durabilidade, não se tratando logicamente
da ilusão de uma eternidade, mas por quanto tempo à própria pessoa se sustenta
perante o potencial que acha que possui. O que conseguiu conquistar; quanto
consegue dividir e quanto o caminho percorrido em sua vida apagou os entraves
ou complexos do passado; estas são as perguntas centrais no processo
terapêutico. Saber ou aprender realmente a viver é aceitar o completo
dinamismo da vida; carregando o passado muitas vezes de sofrimento ou prazer,
devendo refletir e raciocinar sobre o mesmo, e saber simultaneamente o apagar
quando este ameaça macular o crescimento ou desenvolvimento da pessoa.
O papel do psicólogo é forçar num primeiro
momento a diminuição do medo do paciente em conhecer não somente suas
fraquezas, mas principalmente seu potencial destrutivo que atua de forma
inconsciente, seja através da depressão, ansiedade, atos ou transtornos
obsessivos dentre outros. O corpo treina indefinidamente a frustração que
jamais pode ser expressa. Devemos escutar atentamente todas nossas queixas
internas, analisando quais são procedentes e às que apenas teimam em atrapalhar
nossa vida, por isso novamente condeno o uso da medicação desenfreada. O grande
erro de muitas terapias ou assistência psiquiátrica é apenas se deparar com os
sintomas trazidos pelo paciente, se esquecendo que por trás dos mesmos há uma
histórica incompletude em determinada área (trabalho, casamento ou família). O
sintoma na maioria das vezes serve para cegar tal fato. Vamos analisar a partir
de tais considerações os diferentes tipos de personalidade que procuram a
psicoterapia:
·
A pessoa que não conseguiu efetuar um compromisso em
determinada área (carência ou frustração econômica e profissional; dificuldade
de relacionamento e solidão)
·
A pessoa que no transcurso da vida não soube administrar
o que obteve (conflitos conjugais; profissionais; ansiedade e insatisfação)
·
Pessoas que insistem em não efetuar seu potencial, ou
que abdicam plenamente de sues talentos (crises de angústia; choro compulsivo,
negação da auto-estima).
Num primeiro olhar parece que
o primeiro tipo citado é o mais problemático por justamente não ter vivenciado
determinada etapa ou conquista, embora isto seja bastante relativo. Mas é a
partir desses dados que o psicólogo deve começar a atuar em diferentes papéis,
de conformidade com o caso, seja através de uma palavra que abrande o
sofrimento, ou usando um tom enérgico que estimule o paciente a lutar com
dignidade perante a certeza histórica de sua infelicidade. Outro conflito
histórico se dá na análise da ética pessoal. Infelizmente o ser humano pensa
quase que exclusivamente na “adição”, ou em algum ganho pessoal, por se sentir
merecedor único e exclusivo. Porém, a própria essência da felicidade é
exatamente o desprendimento de não temer compartilhar, doando algo na certeza
de que não somente seu ego jamais poderá ser comprometido, mas também tendo a
convicção da inviolabilidade de seu fluxo pessoal de energia e criatividade.
Sempre iremos ganhar se colocarmos nosso potencial a serviço de alguém
plenamente comprometido e responsável por uma mudança ou crescimento.
É fato notório na psicologia que reproduzimos quase que fielmente
todos os fantasmas ou “entidades” de nosso passado; o que fica difícil corrigir
é exatamente qual conduta tomar para que tais acontecimentos não se alastrem na
personalidade do sujeito. Será que realmente podemos ter um destino diferente
de nossos antepassados? O grande empecilho para tal meta talvez seja a culpa
negativa que todos carregam desde a infância, sendo que a tônica de tal
sentimento é lembrar sempre que estamos em dívida e abafar concomitantemente o
prazer. O ódio surge como conseqüência inevitável desse mecanismo, e a seguir
se trava a luta entre os direitos naturais que uma pessoa deve ter e a culpa
resultante de investir em seu ego. O problema é que o próprio ódio não deixa de
ser um mecanismo de defesa para um sentimento tão tenebroso quanto ele; a
mesquinhez, que delata que a pessoa se tornou sórdida, usando talvez o direito
a algo para esconder sua tentativa de avareza ou insensibilidade. Quase nenhum
outro sentimento humano tem a qualidade de provocar uma reação tão traumática
quanto o citado. A verdade é que não há cláusulas definitivas ou contratos
sérios quando se trata de sentimentos. Determinada problemática inevitavelmente
arrasta a pessoa para algo mais doloroso. A mesquinhez é se sentir desditoso,
quase corroborando a tese de que alguém será infeliz pelo resto da vida. O
conflito surge na certeza pessoal de que a pessoa está sendo explorada e quando
almeja a reação advém a culpa intolerável, ou a crença de que cometerá uma
injustiça irreparável. A
impermanência da existência sempre irá gerar conflito com o sentimento de
posse; revelando a equação máxima do sentido da vida. Historicamente se
pensarmos na excentricidade dos egípcios de enterrarem seus mortos com bens
materiais, assistimos na atualidade o correlato das pessoas buscarem fama e
poder para satisfazer seu desejo de imortalidade.
Seria interessante
analisarmos a questão da escuta em terapia. A mesma se tornou uma espécie de
utopia no tratamento, pois se pensa que em determinado momento o paciente irá
se trair e revelar o núcleo do material reprimido. O que se esquece é o que
disse anteriormente da preservação
neurótica de algo doloroso, mas que se mantém pelo desejo da posse.
Logicamente o processo terapêutico demanda a necessidade de um espaço para um
sujeito ser realmente escutado, sem ser interrompido pelo desinteresse ou
impaciência de outra pessoa. infelizmente a sociedade nos ensina que nada se
ganha pelo fato de escutar ou dedicar um tempo a alguém; todos almejam apenas o
despejo de sua dor. O papel do terapeuta é intervir e arquitetar determinada
ação que o paciente jamais ousou. A espera da escuta deve ser trocada pela
espera da ação em certos casos. É absolutamente um mito a questão das
pessoas temerem o psicólogo por acharem que o mesmo é sinal de loucura. O ponto
exato da dificuldade de aceitar o tratamento é a revelação da covardia ou
inaptidão para se fazer o que há muito o sujeito sabe que seria a definição. A
“eternidade” do sofrimento representa uma intrincada defesa psicológica de
substituir a essência da vida que é a finitude, pela imortalidade da dor.
Não importa o tempo que leve, mas a função da terapia é mostrar o conflito, não
impondo a mudança para não aumentar o mesmo, mas desenvolvendo no paciente a
certeza de sua probabilidade de ação.
O paciente que nos procura
clama para se livrar da dor sem desejar pagar determinado “preço” afora o valor
da consulta, esta é a mais pura verdade e o primeiro elo neurótico que devemos
investigar a fundo. Como alguém em nossa sociedade busca ajuda? Extrema
humildade; raiva ou incômodo; intenso sofrimento; racionalizando o problema.
Todas essas categorias fornecerão pistas seguras acerca do centro do caráter do
indivíduo e suas reais metas terapêuticas. Como salientei a pouco, devemos
analisar o que e por que a pessoa não conseguiu efetuar algo, mas não na esfera
única de um desejo irreal ou inflado, e sim refletindo sobre um prazer possível
que não consegue colocar em prática. Devemos ajudar o paciente a se
conscientizar de que muitas vezes sua dor psíquica é a mais pura prova do
desperdício, sendo a ansiedade o alerta máximo dessa condição neurotizada.
Um projeto de psicologia profunda deve penetrar no centro da prisão do
indivíduo, seja em seus aspectos sexuais não realizados, passando por sua fala
contida com medo da crítica e rejeição, ou o temor de ser abandonado. Fica em
aberta a questão de como trabalhar algo psíquico quando a sociedade só invoca
os valores supremos: dinheiro e beleza, aliás, ambos quase sempre caminham
juntos. A verdade sempre foi que as pessoas descobrem que os mesmos são
efêmeros quando se deparam com a extrema solidão, ou a torturante sensação de
ser escravizado por simplesmente representar um troféu; no caso da beleza. É
bem estranho como todos acabam correndo atrás de algo que certamente
escravizará o psiquismo. Jamais saberemos o tempo que nos resta, este é o
mistério da vida, apenas podemos atuar no que desejamos preencher em relação ao
dilema proposto, que também é extremamente subjetivo.
O problema do amor em terapia
praticamente é a tônica da mesma, e quase todas as escolas de psicologia se
dedicam amplamente à esfera afetiva. Do ponto de vista histórico, o amor já foi
sacralizado, castrado, romantizado e tantas outras coisas. FREUD acreditava que
a origem do amor era uma espécie de renúncia ou sublimação do desejo sexual.
Outro autor da psicanálise OTTO FENICHEL, dizia que a origem do amor é a
preocupação maior com a satisfação do outro do que com seus desejos pessoais.
Penso que é complicado imputar uma descrição eterna a algo tão volátil, pois o
amor espelha sempre o drama da época. O amor em nossa era diz da extrema agonia
da solidão; esta é o espelho mais fiel da certeza da perda ou morte pessoal.
Quase ninguém agüenta ficar sozinho, nem por um curto espaço de tempo
necessário à reflexão pessoal, sendo assim o amor é compensação para este
drama. Podemos também agregar diversos sentimentos ao problema do amor: prazer,
ciúme, dor, angústia e tédio. Notem como o romantismo hipócrita sobre o tema
cede ao primeiro sinal de uma análise mais pormenorizada. Refletindo um
pouco mais sobre o amor nos dias atuais, diria que quem não o vivencia é
obrigado a carregar uma tristeza de não ter sido poupado da agonia de ver
certos processos de forma “bruta”, sem lapidações, pois o amor também não deixa
de ser uma certa distração contra a dor existencial. O amor é sinônimo de
potência para o enfrentamento de adversidades cotidianas, tais como: tédio,
rotina, cansaço, amargura e insegurança. Que todos precisamos nos escorar em
algo ou alguém é fato notório, a questão é a qualidade do poder de troca que
conseguimos efetuar. Claro que todo o conceito citado não pode de forma alguma
ser generalizado, até porque conheço felizmente casais que conseguem viver
quase que a plenitude do sentimento descrito, o que desejo enfatizar é que a
estrutura social de posse e competição empurra o amor para ser uma espécie de
suborno contra a solidão.
Por fim, gostaria de falar de
um tema pouco estudado na psicologia, mas que afeta em demasia o profissional
da referida área. No começo do estudo citei a questão da resistência em terapia
e os mecanismos envolvidos na mesma. Tudo isso é muito claro para a pessoa que
resiste em mudar. Mas o que dizer de alguém que teve a prova do êxito da
terapia e mesmo assim a abandona subitamente? ADLER abordou este problema de
forma primorosa em sua obra, pois enfatizava que a disputa de poder social
adentra completamente o ambiente terapêutico. A inveja de alguém supostamente
mais equilibrado, a raiva de admitir precisar da ajuda, quebrando a mentalidade
cristã da fé interior como elemento que tudo supera, o incômodo de conversar
abertamente sobre sentimentos negados, anulando a formalidade hipócrita, tudo
isso forma o cenário da sabotagem que o paciente poderá produzir, este é sem
dúvida o dilema central de todo psicólogo realmente comprometido com a
transformação psicológica. A atitude máxima de um infantilismo ou
imaturidade é punir o outro através da ausência, fugindo da troca de idéias
salutar para o desenvolvimento da personalidade. Compete obviamente a cada um a
reflexão e escolha do que pretende atuar, reter ou proteger, seja a
possibilidade de desenvolvimento ou o lado mais sombrio de seu ser; afinal de
contas quem pode afirmar que todo ser humano irá efetuar a tarefa da evolução
psicológica?No atendimento de casais já presenciei diversas desistências de um
dos cônjuges, apenas pela percepção do mesmo que caso seu parceiro também fizesse
terapia, talvez tivesse maior êxito, se perdendo o objeto no qual coloca sua
raiva ou a desculpa para continuar em seu núcleo de sofrimento. A própria mudança parece que também é algo
elitista e para poucos; fazendo um paralelo com os ditames econômicos, essa é a
mais pura verdade em nossa profissão, embora reafirme sempre que ao contrário
da questão material todos tem a chance, por se tratar de algo que apenas
depende do indivíduo, e não da capacidade de competir. Se a verdade se torna
veneno ou sinônimo da dor, o resultado já é conhecido; a permanência e
conservação do caos pessoal. Um grande colaborador de meus textos, o doutor
em sociologia IRINEU FRANCISCO, sempre pontuou que ao término de uma sessão de
psicoterapia, o paciente recebe uma grande carga de energia que o deixa
excitado tanto positiva quanto negativamente; se não ocorre uma mudança
comportamental por parte do sujeito, a tendência é a dissipação dessa força no
transcorrer da semana, tornando o processo terapêutico uma espécie de ritual
meramente religioso, se perdendo a chance da emoção realmente cristalina e
transformadora.
BIBLIOGRAFIA:
ADLER, ALFRED. O CARÁTER NEURÓTICO. 2ª
EDIÇÃO, BUENOS AIRES: EDITORA PAIDÓS, 1912.
FREUD, SIGMUND. TEORIA GERAL
DAS NEUROSES, 1916-1917. OBRAS COMPLETAS. MADRID (ESPANHA): BIBLIOTECA NUEVA,
1981.
FENICHEL, OTTO. TERAPIA
PSICANALÍTICA DAS NEUROSES. EDITORA ATHENEU, 2004.
AGRADECIMENTOS:
IRINEU FRANCISCO BARRETO
JÚNIOR: DOUTOR EM SOCIOLOGIA.
SIMONE JORGE: SOCIÓLOGA.
QUALQUER REPRODUÇÃO SOMENTE
MEDIANTE AUTORIZAÇÃO DO AUTOR.
SÃO PAULO, 17 DE AGOSTO DE
2005.