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O ESTUDO DO PODER
SEGUNDO ADLER
"O medo da morte nos
reforça o desejo de sermos lembrados antes e após a mesma, assim sendo, a
profunda fascinação pelo poder, é uma forma de alguém impor sua lápide pessoal a
toda a humanidade". - ANTONIO CARLOS- PSICÓLOGO
"Se alguém se sente
infeliz por ter sido excluído do poder ou status, pense um pouco em pequenas
coisas, pois logo se tornarão grandes metas- ANTONIO CARLOS- PSICÓLOGO.
Como foi cômodo nestes cem anos
da psicologia acreditar na primazia de um instinto, no caso a sexualidade, em
detrimento do núcleo pessoal e social a que todos estão sujeitos. Pouquíssimas
contribuições temos da psicologia acerca do estudo do poder, excetuando-se a
obra de ALFRED ADLER(1870-1937), inicialmente colaborador de FREUD até 1908,
rompendo com o mesmo por divergências acerca da predominância da sexualidade
como fonte da motivação humana. Quando a sexualidade foi posta no pedestal dos
conflitos humanos, o poder passou completamente da psicologia para outras
ciências, não se estudando mais as influências sociais na psique humana.
ADLER demonstrou como o instinto de poder esconde-se sob a capa da
sexualidade, pois é muito mais fácil discutir perversões ou fantasias sexuais do
que a imensa frustração de não se galgar uma posição de destaque e domínio sobre
outras pessoas. Se como dizia FREUD a sexualidade é a estrela do id(impulsos
sexuais inconscientes), o poder é o centro do ego em nossa sociedade, e pior,
nunca admitido, mas sempre desejado. Não estudar os meandros do poder é uma
tentativa de perpetuá-lo e usa-lo em favor de um determinado grupo favorecido.
Esse invólucro de mistério sobre o tema esconde que o que menos a sociedade
quer dividir é exatamente o poder, não é à toa que os escritos de ALFRED ADLER
permanecem inéditos em nosso país. O exercício do poder por determinado
indivíduo revela não apenas seu lado emotivo, mas toda a sua estrutura de
personalidade, determinando se tal indivíduo encontra-se no que ADLER denominou
de complexo de inferioridade ou superioridade, ambos são compensações de metas
de poder insatisfeitas, sendo que no primeiro a pessoa fracassa em sua
auto-estima e ambição pessoal, para forçar do meio uma atenção e cuidados
especiais, pois dita pessoa não aceita o senso de responsabilidade pessoal ou
independência, no segundo caso, o desejo de superioridade acaba encobrindo
qualquer temor ou inferioridade sentida, pois nada mais óbvio que adquirir poder
para se provar que não se trata de um perdedor.
Neste ponto da teoria de
ADLER, FREUD discordou energicamente, achando que o poder encobria o desejo
inconsciente de se possuir um "pênis maior em comparação com outros", ou o
desejo de obter maior satisfação sexual caso obtenha o poder, sendo o aspecto
social totalmente secundário. É estranha sob todos os pontos de vista tal
afirmação, pois achar que a busca de prestígio é apenas um reflexo da dúvida do
tamanho do órgão sexual, esconde o fato de que somos condicionados não apenas em
função do órgão citado, mas para sempre levarmos vantagem em todos os aspectos
da existência, seja no biológico, psíquico e material. Parece até que a ênfase
exacerbada no pansexualismo serviu de um excelente pretexto para se ocultar
aspectos centrais da personalidade humana, que talvez seriam muito penosos de
serem admitidos.
Outro aspecto essencial a ser lembrado é o de que o poder
jamais é um fator estático, mas puramente dinâmico. Embora quem detenha o poder
na maioria das vezes não tolere críticas ou objeções, há uma ânsia desesperada
para que sempre apareça um opositor, pois o mesmo servirá de válvula de escape
para todos os impulsos agressivos e destrutivos, principalmente se for uma
pessoa frustrada e extremamente infeliz que detenha o poder. Seria interessante
os líderes de qualquer tipo de movimento conhecerem tal aspecto psíquico, pois
talvez eles próprios sejam o prato principal para a função da manutenção do
aparato do poder. Ao observar diversos casos de intensa perseguição política e
ideológica, me deparei com tal aspecto verdadeiramente aterrador e
contraditório- "a pessoa que julga deter o poder espera sua presa como um
verdadeiro animal faminto".
É imperativo haver momentos de caça e
canibalismo, pois não é no inconsciente sexualizado que residem os impulsos
destrutivos, mas como disse acima, é no ego insuflado de desejo de destaque,
superioridade e domínio, que mais rapidamente as pulsões destrutivas podem se
concretizar.
É imperativo haver momentos de caça e canibalismo, pois não é
no inconsciente sexualizado que residem os impulsos destrutivos, mas como disse
acima, é no ego insuflado de desejo de destaque, superioridade e domínio, que
mais rapidamente as pulsões destrutivas podem se concretizar.
Voltando a
questão dos movimentos sociais, percebemos que a tentativa de exercício do poder
instiga elementos inconscientes reprimidos, como, por exemplo, quando há um
movimento de luta por uma causa, seja numa empresa ou instituição e não ocorre
um mínimo de adesão. Esse é o problema histórico de todos os movimentos, mas um
aspecto que gostaria de ressaltar, é que essa falta de adesão não é somente
causada por medo ou temor de represálias, mas há latente um mecanismo de inveja
e ódio por quem está liderando, pois este último mostra essencialmente a
inferioridade dos demais, e estes não toleram presenciar alguém fazendo aquilo
que tanto temem ou deveriam fazer, já que sempre são barrados por sua total
impotência.
Na questão da violência vemos o reflexo dos valores vigentes,
pois quando lemos que traficantes que antes recrutavam adolescentes para
transporte de drogas, e agora se utilizam de crianças, somos obrigados a fazer
um paralelo com as agências de modelo que a cada ano diminuem a idade
requisitada das concorrentes ao referido cargo. Enfim, o exemplo da estrutura do
poder é sempre imitado. Porém o poder não pode ser visto apenas na ótica da
destrutividade, pois ele é fundamental no aspecto da segurança pessoal do
indivíduo, sendo que a meta de vida de cada pessoa, passa pelo fato da mesma ter
ou não poder para realizar tal finalidade.
ADLER citava sempre o sentimento
de comunidade como sendo a mais nobre meta humana a ser alcançada, e nesse
sentido o poder passaria de um aspecto egóico ou narcisista, para algo que
contribuísse para o desenvolvimento da coletividade humana. Alguns dizem
inclusive que a criação dos A. A (alcoólicos anônimos), foi inspirada na teoria
ADLERIANA, após este ter feito uma viagem a América. Um dos pressupostos
centrais dos A.A. transcrito da obra de ADLER, fala que a pessoa deve ajudar o
outro, mesmo que ela própria não tenha superado sua dependência, isso é um ótimo
exemplo do descrito acima sobre a transformação do poder egóico em social.
Muitos podem pensar como esse conceito ainda é possível em nossa sociedade
totalmente corrompida, mas essa é a questão básica, pois ser diferenciado ou
inteligente, não passa nunca por uma vestimenta ou posse material, mas tão
somente por não ser um reflexo ou espelho de uma estrutura social falida. Cada
um deveria refletir cuidadosamente se sua alma está atrelada ao gregarismo e
medo da exclusão, ou a criatividade e espontaneidade.
O egoísta ou
narcisista sabe que no fundo ele é um absoluto miserável, não quer dividir nada
por saber que seu produto é totalmente efêmero, ele sempre precisa tomar as
coisas de alguém, sua esterilidade ou apatia social é apenas uma reação ou
vingança em relação à pujança de criatividade de outro ser humano. Seu
passatempo predileto é torcer e verificar pelo fracasso de seu círculo de
conhecidos, jamais tem amigos, apenas acompanhantes em determinados eventos, sua
principal carência é de não poder compartilhar seu íntimo com alguém, pelo temor
de se expor, como tem a consciência de que jamais obterá amizades genuínas, usa
o recurso da exploração ou sedução para obter seus objetivos.
O estudo do
aparelho psíquico inconsciente é de fundamental importância, porém é mister
levarmos a cabo uma análise do ego frente aos mecanismos sociais aos quais está
exposto, pois caso contrário teremos uma psicologia totalmente fragmentada e
alienada das verdadeiras fontes de motivação humana. Finalizando o presente
estudo, gostaria de ressaltar a teoria do reflexo do poder de ADLER, onde
ressalta que no ambiente familiar à criança irá reproduzir todo o esquema de
poder do lar, isso é extremamente atual, principalmente para os psicólogos que
trabalham com crianças.
Todos sabem que os conflitos infantis refletem
aspectos negados do psiquismo dos adultos, mas a observação clínica de diversos
casos, não deixa dúvidas que a criança se orienta por dois caminhos
fundamentais: 1) Caso sinta-se amada ou acolhida, reproduz em seu comportamento
o foco central do conflito psíquico de um ou ambos os pais, no intuito de até
ajuda-los, expondo o que não foi resolvido e dramatizando aquilo que se
necessita resolver. Qualquer distúrbio infantil só será plenamente compreendido
se percebermos o histórico psíquico ou a ontologia da própria neurose. 2) Caso a
criança sinta o ambiente hostil, ou como dizia ADLER "sentir como se vivesse num
país inimigo", a tendência é exacerbar o conflito dos pais, tomando para si toda
a carga da neurose, numa tentativa alucinada de provar que é fruto de algo ruim,
ou rejeitando qualquer tipo de orientação ou estímulo para seu desenvolvimento.
A necessidade de se marginalizar passa a ser um protesto da criança que como
salientou ADLER, gostaria de ser amplamente mimada, então aquilo que no passado
era um sentimento de rejeição, transforma-se agora numa imposição tirânica de
conquistar a atenção de todos pela força, dessa maneira a criança reproduz as
estruturas mais autoritárias e sectárias de poder e controle social, que tanto
conhecemos na organização de nossa sociedade. Penso que os elementos
apresentados nesse estudo devem conduzir para que todos possamos se concentrar
no essencial, naquilo que realmente nos afeta e poderá traçar nosso destino.
BIBLIOGRAFIA: O CARÁTER NEURÓTICO-ALFRED ADLER- EDITORA PAIDÓS 1937
ANTONIO CARLOS ALVES DE ARAÚJO- PSICÓLOGO
C.R.P
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