QUEM REALMENTE SOFRE DE UMA DOEN�A MENTAL?(AN�LISE PSICOL�GICA DA PATOLOGIA E COMO A DIAGNOSTICAR)
Analisar qualquer dist�rbio mental em nossa era requer uma abordagem global do funcionamento da mente de um indiv�duo, deixando de lado todos os par�metros fixos da psiquiatria; n�o que se desmere�a seu valor, mas � fundamental uma compreens�o sist�mica do indiv�duo perante todas �s conting�ncias individuais e sociais. Todo dist�rbio mental ou de personalidade sempre est� intrinsecamente associado � quest�o do tempo (passado, presente e futuro), e como o indiv�duo suporta mentalmente todas as representa��es elaboradas em seu psiquismo acerca dessa temporalidade. Uma das caracter�sticas b�sicas do funcionamento da mente � a necessidade de prote��o contra a repeti��o de eventos traum�ticos, e a forma como a mesma se desenvolve � que ir� determinar o tipo de dist�rbio mental que acomete a pessoa. A medida exata para a an�lise � o tipo de escolha que o indiv�duo elege nas diferentes �reas( profissional, afetiva e social), e o quanto de prazer e frustra��o s�o decorrentes das mesmas. A doen�a mental cr�nica e estratificada � um conceito ultrapassado nos moldes de uma psicologia atual, pois historicamente a medicina elegeu o que foge apenas do padr�o como sin�nimo de doen�a, omitindo que o valor de determinada cultura est� ligado � historicidade da mesma. O psic�logo e psiquiatra devem se ater n�o a um modelo r�gido do funcionamento mental, mas qual afec��o inunda o universo di�rio da pessoa. Assim como um computador pode ser infectado por determinado v�rus, nossa mente est� exposta ao mesmo processo; n�o que deseje comparar a mesma com uma m�quina; mas apenas salientar que a abordagem global implica que o homem constr�i sua cultura projetando mecanismos ps�quicos n�o resolvidos em seu cotidiano. Assim sendo, devemos perceber o que mais vivenciamos diariamente em nossa mente: raiva, �dio, desejo, saudade, medo, dentre outras emo��es quase que incontrol�veis.
A psiquiatria e medicina insistem no estudo das doen�as mentais � apenas comportamentos demasiados patol�gicos, sem uma conceitua��o no universo corriqueiro do indiv�duo. * MICHEL FOUCALT j� alertava que n�o era a psiquiatria a cura da loucura, mas que a primeira s� se sustentava pela presen�a desta �ltima, n�o criando nenhuma concep��o nova acerca da elimina��o do sofrimento ps�quico. Com toda a medica��o desenfreada em nossos tempos, fica patente que o intuito n�o � o percebimento profundo das mazelas psicol�gicas que afligem o indiv�duo, mas t�o somente a narcotiza��o do sofrimento, que sempre t�m origem na inadequa��o do sujeito de potencializar suas metas pessoais e sociais. A doen�a mental ronda a todos como qualquer infec��o vir�tica, e s� um tolo para achar que quem a possui � um indiv�duo transtornado ou pass�vel de interna��o. A doen�a mental � um combate di�rio perante determinadas exig�ncias que n�o conseguimos concretizar, lan�ando m�o de todos os mecanismos defensivos para a prote��o do ego ou auto estima. Mais do que pensar em comportamentos obsessivos, depend�ncia qu�mica, introvers�o ou qualquer ritual patol�gico, a doen�a mental � muito mais o tipo de mecanismo( dinheiro, sedu��o ou narcisismo), que usamos para nos proteger da exclus�o imposta pelo modelo social.
Assim como no modelo econ�mico h� o surgimento de diferentes classes sociais, na esfera psicol�gica o processo � similar. Temos de descobrir em qual categoria nossa afetividade se inclui( riqueza, dificuldade ou miserabilidade); sendo esta compreens�o a ess�ncia da psicologia social. A an�lise de determinada patologia � justamente perceber o que n�o temos conseguido resolver ao longo de nossa vida, sendo que a fun��o do profissional � dar o direito ao paciente da consci�ncia acerca de sua mol�stia, evitando a simplicidade da narcotiza��o do caos ps�quico. A doen�a mental possui como base o "medo", sempre no �pice de sua potencialidade, jogando todas as outras fun��es da pessoa para um plano secund�rio. A fantasia cronificada do pavor se torna a certeza da realidade devido a um hist�rico de aus�ncia de gratifica��o, prazer e anseios pessoais. A mente presa em uma individualidade extremada, n�o s� ir� adoecer, mas ter� como meta b�sica � explora��o de todos os rec�nditos de p�nico e desespero poss�veis.
ALFRED ADLER costumava dizer que a paran�ia ou doen�a mental era uma tentativa final e desesperada da pessoa em adquirir alguma import�ncia ou cuidado num mundo que a desprezou por completo. Equiparava tal conceito ao "mimo", que diferentemente do que estamos acostumados a pensar, n�o � dar todas as regalias para determinada pessoa, mas uma tentativa do ego de for�ar uma aten��o do meio para si pr�prio, lan�ando m�o da doen�a ou at� mesmo comportamento anti-social para ocupar posi��o de destaque. Realmente tal conceito � extremamente atual, e logo percebemos que a press�o do desamparo ou aus�ncia de apoio no desenvolvimento da personalidade sobrepujam todas as medidas morais ou educativas, retirando do indiv�duo n�o apenas o senso de uma poss�vel "normalidade", mas a confian�a numa meta de vida que o satisfa�a, fator crucial para encaminharmos nossa vida diariamente.
Enfim, o leitor far� a pergunta fat�dica: o que � ser normal? FREUD no final de sua vida respondeu que era a pessoa que ama e trabalha; para ADLER seria o indiv�duo que constitui fam�lia, assegurando n�o apenas a sobreviv�ncia do n�cleo familiar, mas tamb�m o desenvolvimento do sentimento comunit�rio(conjunto de a��es que visariam � ajuda e erradica��o da mis�ria econ�mica e social da sociedade); para WILHEM REICH, a normalidade seria a plena satisfa��o genital, pois a pessoa que obteve o prazer m�ximo da fun��o org�stica combateria todas as situa��es profissionais e pessoais de desprazer, unindo esfor�os para a obten��o da plenitude de vida, que seria o treino di�rio da satisfa��o. Penso que todas essas concep��es s�o totalmente ver�dicas e atuais, sendo nosso dever as esmiu�ar para que possamos progredir em nossa ess�ncia e exist�ncia. Apenas gostaria de contribuir com mais algumas reflex�es sobre t�o delicada quest�o. A normalidade � a perda do medo de dividir seu hist�rico pessoal, pois durante toda a minha vida profissional tenho cobrado que o al�vio e at� poss�vel cura de determinada neurose seria a capacidade da pessoa de dividir profundamente seu sofrimento e experi�ncia obtida com tal processo. As obsess�es pelo segredo, timidez e aus�ncia s�o os mais fortes ind�cios da aten��o totalmente concentrada em um hist�rico pessoal de dor, que � sin�nimo de dist�rbio mental. Utilizar o material pessoal, por mais complicado que o mesmo seja � a sa�da mais criativa e digna de determinado impedimento. Ter a coragem di�ria de dividir e se preocupar genuinamente com o outro � a ess�ncia da sa�de mental, ao inv�s da medi��o di�ria de nosso ego�smo, que fazemos analisando o que devemos dar ao outro pelo merecimento do mesmo em rela��o � satisfa��o ou n�o de nossas expectativas que t�nhamos com tal pessoa.
A sa�de mental � a intelig�ncia da percep��o pessoal acerca do que determinado modelo social almeja de nosso �ntimo. Pensemos nesse conceito do ponto de vista hist�rico. At� meados do s�culo passado, boa parte do planeta estava condicionada ao nazismo e fascismo, sendo o apogeu desse processo a segunda guerra mundial. Se pud�ssemos analisar as fun��es mentais do indiv�duo da �poca, descobrir�amos uma mescla de �dio, desilus�o, revolta e excita��o pela possibilidade do confronto.
Nem HITLER OU ST�LIN teriam obtido �xito no processo de domina��o se n�o contassem com o terreno f�rtil da hostilidade humana. A lideran�a mais genu�na � aquela que explora o mais puro sentimento de �dio de determinada pessoa. Assim sendo, a doen�a mental daquela �poca(�dio) permaneceu totalmente camuflada pelas ideologias totalit�rias citadas, n�o dando a m�nima chance do indiv�duo perceber que seu mal pessoal foi expropriado para uma finalidade b�lica. Talvez a maior prova de poder de toda a hist�ria humana foi a utiliza��o de um dist�rbio ps�quico para uma finalidade ideol�gica. O que quero deixar claro com este racioc�nio � que a doen�a mental sempre ser� um produto de determinado momento hist�rico. Seja no p�nico do inferno da idade m�dia, at� a viol�ncia brutal das guerras do �ltimo s�culo temos de entender quais s�o os agentes da doen�a mental. Arriscaria dizer que em nossos dias s�o todos os sentimentos que exacerbam uma negatividade da pessoa perante outro ser humano: solid�o, medo da opini�o alheia, culpa, ci�mes, inveja, inseguran�a econ�mica e pessoal.
A an�lise da doen�a mental n�o � um diagn�stico passivo de dist�rbio de comportamento imposto pela psiquiatria como disse anteriormente, mas a busca profunda pelo mecanismo defensivo perante o estado de sofrimento ps�quico da pessoa, sendo que sua ess�ncia � a tentativa de compartilhar o sofrimento ps�quico e individual com a coletividade. N�o se trata de julgamento do car�ter de determinada pessoa, mas, a percep��o da incapacidade da mesma de gerir seu conflito pessoal. A doen�a mental n�o � apenas um pedido desesperado de socorro, mas a fal�ncia m�ltipla das fun��es e cren�as pessoais perante a inunda��o dos sentimentos negativos exacerbados. O medo sempre ser� a raiz central, sendo que a paran�ia ir� o acompanhar. Devemos perceber que como disse em todo este estudo, a doen�a mental em nossos tempos raramente se manifesta em comportamentos alucinat�rios, embora sempre vamos ter casos desse tipo; por�m, um dos sinais t�picos de desequil�brio mental em nossos dias � a extrema "somatiza��o" dos conflitos internos( ins�nia, pesadelos, terror noturno e sintomas sem uma comprova��o org�nica). Jamais ser� no obscurantismo de um hospital psiqui�trico que iremos compreender a doen�a mental, mas a perceber como companheira constante no nosso travesseiro, ou nas noites de tormento conforme citado. Este � o fardo mental do homem contempor�neo, a exposi��o pessoal e p�blica de sua fragilidade perante um conjunto emotivo do qual teme profundamente e nunca foi treinado para lidar. Podemos remeter at� a quest�o sociol�gica sobre este ponto, pois se pensarmos do ponto de vista social e hist�rico iremos descobrir que a quest�o da loucura nunca foi um fator de desequil�brio social, se comparada a toda desigualdade econ�mica e social que imperam em nossa sociedade.
Qualquer pessoa que consultar um psiquiatra ir� obter alguns diagn�sticos de comportamentos obsessivos ou algum transtorno de personalidade. A banaliza��o nosogr�fica e diagn�stica t�o disseminada nas faculdades de medicina e psicologia � uma pirotecnia pseudocient�fica que esconde a incapacidade da an�lise dos mais profundos problemas comportamentais e sociais. Tratar a mente num modelo estritamente organicista � o totalitarismo m�ximo de determinada ci�ncia que nega as condi��es de vida de uma popula��o. A medica��o desenfreada � o alerta m�ximo de que n�o mais importa a sa�de mental na sua totalidade, mas apenas a explora��o econ�mica de um transtorno causado por esse mesmo modelo. A loucura assim como toda e qualquer neurose � uma converg�ncia de v�rios sentimentos ou emo��es que prendem o indiv�duo numa determinada rota de vida onde sente que j� n�o atua em conformidade com sua vontade pessoal, mas que se desenvolveu uma esp�cie de "entidade ps�quica" que divide a mesma aten��o e cuidados. A palavra entidade, n�o possui aqui qualquer conota��o m�stica ou religiosa, mas se refere a uma determinada fun��o mental que tem como caracter�stica reunir todo o atavismo psicol�gico de determinado n�cleo familiar, sendo necess�ria sua reprodu��o fiel por parte da gera��o atual. Tal processo tem a fun��o b�sica de desviar determinados conflitos pessoais dolorosos, incorporando comportamentos patol�gicos de outras pessoas do �mbito familiar, expelindo dessa forma sua parte destrutiva. A diferen�a desse processo com a repress�o psicanal�tica � que nesta �ltima o sujeito oculta em seu psiquismo o material negado, sendo que no processo descrito acima h� n�o uma repress�o, mas uma fus�o daquilo que � recalcado com outros recalques que absorve do meio, para que possa os atuar.
O modelo mental de FREUD correspondia � era VITORIANA de repress�o e ocultamento de caracter�sticas sexualizadas. Na atualidade vemos um modelo mental neur�tico com uma voracidade imensa de atua��o a qualquer custo, devido �s caracter�sticas narcisistas e competitivas de nossa era. Se no s�culo de FREUD a doen�a mental era algo que ficou no anonimato do inconsciente, sobrevivendo �s expensas da insatisfa��o sexual, hoje podemos conceber que a mesma � algo que luta pelo poder completo sobre a vida pessoal e social do indiv�duo, reproduzindo fielmente o modelo social de status, inveja e gan�ncia � que fomos submetidos desde o nascimento. Hoje a doen�a luta pela manifesta��o completa e reconhecimento de que o medo � o timoneiro m�ximo da alma humana.
Bibliografia:
ADLER, ALFRED. O car�ter neur�tico. MADRID: Editora PAID�S, 1932.
FOUCALT, MICHEL. Doen�a mental e psicologia.
REICH, WILHEM. Psicopatologia e sociologia da vida sexual. S�O PAULO: GLOBAL EDITORA.
FREUD, SIGMUND. BBC INTERVIEWS. LONDON: 1939.
COLABORADORES:
OSCAR EDUARDO TEM�NCIO ESP�NOLA
IRINEU FRANCISCO
BARRETO J�NIOR(SOCI�LOGO) SIMONE JORGE (SOCI�LOGA)
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Antonio Carlos Alves de Araujo - Psic�logo -
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