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O casamento em nossa era
Qualquer discussão séria sobre a questão do casamento deve levar em conta não apenas os fatores emocionais de determinada relação, mas, sobretudo o contexto social onde se insere a instituição do matrimônio.
Talvez o erro mais grave cometido por milhares de casais seja a falsa crença de que o casamento é a apropriação da parte afetiva do outro para a satisfação das nossas necessidades emocionais. Embora todos procurem o privado, jamais o casamento fugirá como disse anteriormente do contexto social. Excetuando a erradicação da miséria ou justiça social, diria que não há uma outra área que o ser humano fracassa tanto quanto a questão do matrimônio.
O que no começo parece ser a garantia de prazer e atenuante da terrível solidão humana, logo se transforma no pesadelo dos conflitos e total falta de sintonia. Casar e procriar são a vivência do lado biológico do ser humano, porém, poucos conseguem vivenciar a essência humana de uma relação a dois, que se caracteriza pelo deleite máximo da troca, certeza de constante apoio e se sentir diariamente saciado internamente. Na ausência dos elementos citados ocorre a conversão do lado emocional para o material, pois quanto maior a sensação íntima de não se sentir investido no lado afetivo, maior será a necessidade da compensação através do consumismo, fato este extremamente conhecido por todos.
Discutir o casamento inevitavelmente passa pela compreensão do poder nas relações humanas, pois do contrário sobrará apenas a alienação como herdeira do relacionamento. Justificando tal conceito, pensemos na questão da paixão, e não iremos nos surpreender quando descobrirmos que a mesma é a prova máxima do poder de outra pessoa internalizado em nosso mais íntimo desejo. Nosso complexo de inferioridade e desamparo são ativados imediatamente ao descobrirmos que não somos os timoneiros daquilo de que mais necessitamos. Indo um pouco mais a fundo no conceito citado, pensemos também na questão da saudade. Esta muitas vezes passa a ser um dos mais dolorosos sentimentos humanos, pela simples questão da mesma ser desprovida do sentimento do orgulho.
A saudade é o mais fiel balanço das nossas mais profundas carências e necessidades, e obviamente ficamos muito consternados quando somos expostos de forma tão nítida. A evolução da saudade como sentimento corrosivo da alma humana para algo construtivo ocorre quando a pessoa utiliza tal sofrimento como uma medida ou estímulo para a busca daquilo que realmente irá preencher sua alma.
Voltando ao ponto do casamento, o mais importante é cada um descobrir o que mais coloca dentro de uma relação. Uns entram com toda a sua neurose passada, obrigando o outro a ser testemunha de toda a sua incapacidade para o prazer e satisfação; outros semeiam a indiferença absoluta como prova de sua suposta superioridade afetiva ou emocional perante o parceiro; há ainda os que impõem padrões rígidos de exigência e comportamento, reforçando totalmente seu individualismo, provando que estão insatisfeitos com a vida a dois.
Outro erro fatal numa relação é priorizar os ciúmes em detrimento de outros pontos construtivos. Na troca entre seres humanos jamais podemos nos fixar num determinado ponto, pois necessitamos constantemente da ampliação num relacionamento. Apenas sexo, companheirismo ou dependência jamais sustentarão o casamento. É preciso se evitar de todas as maneiras o “resumo” de uma união conjugal. Felicidade e prazer nunca estão apenas em um ponto, mas tão somente a obsessão e apego. Mesmo a forma mais rudimentar do amor implica o desenvolvimento de mais de uma potencialidade na troca afetiva.
Um problema muito sério na questão do casamento é o de como os casais lidam com a questão do tempo. Se observarmos pessoas com conflitos conjugais logo se visualiza a seguinte pergunta: por que tanto tempo para se conhecer alguém? A resposta é que a maioria das pessoas prefere a fixação nas imagens pretéritas do outro, ocultando o desenlace do relacionamento. A posse nada mais é do que o descrito acima, não abrir mão da imagem ou desejo fixado no passado.
Sempre sonhamos com alguém nos proporcionando o prazer, mas na maioria das vezes nutrimos a competição e desejo de superioridade num relacionamento.
Temos de pensar também no contexto histórico e social das relações; antigamente havia uma preparação para a durabilidade da relação, sendo positiva ou não; em nossa era já estamos totalmente prontos para as relações descartáveis, pois quase nunca temos vontade de investir no outro.
Jamais podemos falar em tipos de casamento, mas tão somente qual imagem fixada determinada pessoa deseja efetuar. Alguns almejam que o seu parceiro seja uma espécie de “estimulante” para compensar todas as suas frustrações pessoais, vendo o outro quase como uma droga que possa usar a qualquer hora para fugir de seu embotamento psíquico. Outros se satisfazem com a competição e inveja direcionado ao parceiro, pois desta forma se esquivam de uma análise profunda de seu íntimo. A grande maioria é absolutamente negligente para com as necessidades do outro, devido ao individualismo social transportado para as relações afetivas.
A maior problemática de uma relação afetiva talvez seja tomar o passado como medida do prazer atual. A lembrança de algo que nos causou grande prazer é apenas uma referência de que determinada pessoa pode combinar com nossos anseios. A dinâmica diária de uma relação exige movimento e principalmente participação. Todos sabemos que o ponto máximo da solidão é o erro da escolha e conseqüente sentimento de impotência por não conseguirmos reparar tal fato. Boa parte de nossa autoestima advém de nos sentirmos capazes de construir experiências que nos proporcionem prazer absoluto perante nossas reais necessidades emocionais. Jamais tal experiência é um jogo de poder, mas a certeza absoluta de que se não temos ninguém para depositar o melhor de nós,sofremos da miserabilidade afetiva e psíquica de nosso tempo.
Infelizmente quando aprendemos algo sobre relações é quase sempre na dor ou sofrimento. Este último quando o sentimos no crepúsculo de uma relação, é a medida mais dura e fiel acerca da nossa ruína afetiva.
O que todos devem refletir diariamente é que nenhum sentimento afetivo ou de ternura deixa de ser alvo do desejo de poder ou controle de outro ser humano. A ingenuidade ou a mágoa oriunda de experiências pretéritas é o que há de mais nocivo para uma relação dar certo. Seria desnecessário neste breve estudo discorrer sobre todas as formas sutis ou não de manipulação e controle dentro de um relacionamento. O mais importante é cada um ter em mente o que atrapalha verdadeiramente um casamento, e identificando tais elementos tomar iniciativas restauradoras da relação.
Também é totalmente desnecessário falar o quão retrógrada é a postura das religiões acerca de todos os problemas citados. Fica evidente que para o dito homem religioso é muito mais importante a preservação de um dogma estúpido do que a felicidade e prazer de um casal. Neste sentido a religião apenas se soma aos muitos obstáculos oferecidos pela sociedade para impedir uma satisfação que deveria ser primária. Já passou muito da hora das pessoas acordarem; nenhuma instituição jamais poderá legislar sobre o prazer, sob o risco do indivíduo perder seu último reduto de liberdade íntima neste mundo extremamente ditatorial, embora tudo seja feito veladamente.
Qualquer orientação honesta para que um casamento se desenvolva de forma saudável, deve conter reflexões sociais, políticas e principalmente objetivar a discussão desimpedida acerca da natureza afetiva do ser humano.

Antonio Carlos Alves de Araujo - Psicólogo - C.R.P: 31341/5
ENDEREÇO: RUA ENG. ANDRADE JÚNIOR-154
TATUAPÉ-SÃO PAULO
SÃO PAULO –BRASIL.
CONTATOS, PALESTRAS OU CURSOS, TELS: (011) 66980558, 66921958
* APENAS PESSOALMENTE A ORIENTAÇÃO É EFETIVA.
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