O
passeio a Hogsmeade foi muito diferente de todos os que Snape já havia feito.
Ao invés de seguir direto para a loja de ervas ou seguir Lúcio por todo lugar,
estava sentado no Três Vassouras conversando com a garota cuja vida era
curiosidade de todos: Anrika. E saboreava cada minuto, especialmente quando os
idiotas grifinórios estavam por perto. Adorava ver a cara de Sirius Black
enrubescendo, provavelmente de vontade de socá-lo contra a coisa mais dura
possível. Apesar de saber que poderia ser pego a qualquer momento pelo
grupinho, Snape se extasiava e não tinha o menor medo de rir da cara deles.
– Aquele asqueroso - era o que Black mais dizia
-, se aproveitando dela só pra poder se escconder da gente! Ainda vai se ver,
morceguinho...
Mas era a última de suas preocupações. E como
não andava mais sozinho, não tinha muita coisa que preocupava Snape. Anrika era
grifinória, logo, seus amiguinhos se manteriam longe enquanto ela e Snape
estivessem juntos. E sempre estavam. A qualquer hora que os vissem, os dois estavam
juntos, seja estudando, conversando ou apenas passando pelos corredores
seguindo para a próxima aula.
Na
noite antes do Natal Snape mandara a Anrika uma coruja, escrevia pedindo que o
encontrasse no lago, na cachoeira onde se falaram pela primeira vez. Queria
comemorar a data a seu modo, já que toda aquela melação não lhe agradava em
nada. Ele tinha um ás na manga: sabia perfeitamente que Anrika também não
gostava muito de comemorações cheias de afeto.
Era
numa noite de lua cheia. Quando chegou ao lago, Anrika se encantou: por sobre a
água apinhavam-se velas multicoloridas criando uma atmosfera muito romântica,
ainda mais com o sedoso e fofo tapete de peles que pairava por sobre a água, bem
ao meio do lago, flutuando magicamente.
– Severo, o que é isso?!
- perguntou com um ar irônico.
– Eu... bem... foi o
único jeito... acho eu... - estava muito sem graça, arrependido de ter feito
tudo aquilo.
– O lugar está lindo
- disse sorrindo e se aproximando dele -, mmas não acha que exagerou um
pouquinho?
– Er... bem, achei
que... como é Natal... - balbuciou ele fazendo-a rir de seu modo envergonhado
de falar.
– Estou brincando.
Mas espero que ninguém nos veja! - riu pegando a mão dele para tomar apoio e
subir no tapete, que agora estava na beira do lago, esperando para ser
utilizado.
Snape riu por
dentro. Segurou fortemente a mão dela e depois que Anrika se acomodou, subiu
também. Conversaram sobre os presentes que trocaram e sobre como a noite estava
ajudando, porém, Anrika percebeu que ele estava diferente.
– O gato comeu sua
língua, Severo?
Ele riu alto,
nervoso.
– Algum problema?
– Não, não há
problema... bem...
– Então diga o que
quer me dizer, oras!
– É que eu... queria
saber... se você quer namorar comigo! - disse de olhos fechados, com o rosto
virado para o lado.
– Na... namorar? -
gaguajou Anrika.
– Sim.
Depois
de longos minutos de silencio Snape olhou ao redor e ergueu os braços.
– Acha que fiz isso
tudo outras vezes? - perguntou ele sorrindo. - Se algum dos meus amigos nos
visse agora eu seria motivo de chacota para o resto da vida!
Anrika
tinha os olhos vidrados em Snape.
– Eu gosto muito de
você, Anrika.
– Severo, você não
sabe nada sobre mim!
– Por que não me
conta um poucoo então? - disse aproximando-se e tocando o rosto dela.
– Eu... poderia...
mas não quero! - disse Anrika mudando rapidamente de expressão. Parecia zangada
agora.
– Então não fale
nada. - sussurrou Snape aproximando seus lábios dos de Anrika e lhe deu um
suave beijo. - Quero ficar com você!
– Eu não posso lhe
prometer isso!
Ele dicou quieto por
instantes, encarando-a.
– Não gosta de mim?
– Gosto, muito, mas
meu pai...
– Você ficaria
comigo se não fosse por ele?
Anrika
sorriu maliciosamente e Snape teve sua resposta.
– Ninguém vai ficar
sabendo disso, a não ser que você queira, Anrika.
Ela
sorriu e o abraçou, pedindo por mais um beijo.
Nada
mudou ao voltarem do feriado natalino, o ano correu daquele jeito. Os
grifinórios, não conseguindo a amizade de Anrika, importunavam-na o quanto
podiam. A professora Figg tentou mais de cinco vezes recorrer à decisão de
Dumbledore de continuar mantendo Anrika na Grifinória, todas as vezes sem
sucesso. Enquanto Anrika e Snape se encontravam escondidos de todos e ninguém
desconfiava.
Desde
o dia em que chegou, até o último, Anrika não se mostrou diferente com as
outras pessoas, a não ser com Remo Lupin e Severo Snape. Não mudou de casa,
como queria a professora Figg e passou por muitas humilhações da professora
McGonagall, que não gostava nem um pouco dela. Mas nada a atingia, ela tinha
Snape para consolá-la. Tinha a bibloteca toda, sempre que quisesse, graças aos
seus fortes feitiços, e lá, podia pensar sossegada no que mais gostava na
Sonserina: o garoto de cabelos negros e escorridos, Snape, que era muito
inteligente e sarcástico, parecidíssimo com ela. Fora interessante como tudo
acontecera muito rápido, mas haviam se tornado grandes amigos. Encontravam-se
na biblioteca para discutir sobre os trabalhos e passavam horas escrevendo.
Também encontravam-se na cachoeira preferida de Snape. Lá conversavam sobre os
mais variados assuntos e até praticavam algumas magias e feitiços. Mas tudo isso
era apenas desculpa para o que realmente os unia: o amor.
O
ano letivo, porém, chegou ao fim.
Na
segunda-feira da última semana do período letivo, Anrika estava na biblioteca, tinha
em mãos o grosso livro sobre a história da magia de Hogwats, ainda não
conseguira terminar de lê-lo.
– Alguma coisa a perturba?
Anrika
olhou para cima e a sua frente estava Alvo Dumbledore, o diretor da escola de
magia.
– Eu conheço cada sentimento existente no
interior das pessoas, Anrika. O que você está passando já foi e anda será
vivido por outras pessoas. Você não é a única.
Anrika baixou a cabeça e soltou o livro, entre
as páginas estava disposto um pergaminho extenso. Era de seu pai e comunicava
que voltariam à Colômbia assim que ela se formasse. Dizia também que ele viria
até Hogwarts para buscá-la no dia seguinte ao do baile.
– Eu não aguento essa pressão. Tendo que ser
sempre a melhor, sempre a primeira! Eu gostaria de fazer outras coisas,
diferentes das que faço!
– Então faça!
– Ah, eu não posso. Meu pai nunca aprovaria! Ele
diz que viemos de uma das poucas famílias de sangue puro... nem pode imaginar
que eu pense tal coisa!
– Ele irá entender, se for o que você realmente
quer!
– Nunca! O senhor não o conhece!
– Que mal ele pode lhe fazer? - perguntou
Dumbledore sorrindo.
– A mim nenhum, jamais me machucaria... mas aos
que estão ao meu redor...
– É por isso que não se aproxima de ninguém? Não
quer dar motivo para seu pai não aprovar suas amizades?
Anrika
riu.
–
O senhor não sabe com quem está lidando...
– Seu pai não pode ser tão mau assim, Anrika...
– Do que é que o senhor sabe? - disse ela
explodindo em lágrimas. - Ele acabou com a pessoa que eu mais amava!
– Mais amava? Mas você só tem dezesste anos!
– Para mim era amor, mas se ele achou que não,
por que matá-lo?
– Como? - indagou o diretor. A garota estava aos
prantos agora. Tentava secar as lágrimas, mas não conseguia vencê-las.
– Sim, professor, meu pai matou o garoto que eu
amava por não ser a pessoa certa para mim!
– É uma acusação muito grave! - disse o diretor.
– Sim, aqui na Inglaterra, mas não na Colômbia
onde todos morrem de medo de nosso nome!
– Você não pode se afastar das pessoas por causa
de seu pai! Ele acha que pode te proteger pelo resto da vida, mas você tem que
aprender por si mesma!
– Eu já disse isso a ele, professor... - afirmou
Anrika mais calma, mas ainda chorando - ...ele não me ouve.
– Então terei de tomar uma providência.
– NÃO!
Até mesmo Dumbledore se espantou com o tom de
medo na voz da garota.
– Vou conversar com ele.
– Não, professor. São só mais cinco dias. -
disse ela balançando a cabeça negativamente. - Não precisa se preocupar!
Voltarei à Colômbia e...
– Não vai se envolver em nenhuma amizade?
Anrika
não respondeu.
– Você é tão inatingível assim? - perguntou
Dumbledore.
– Conversar com as pessoas não quer dizer que eu
vá envolvê-las à ponto de meu pai ter que intervir!
– E Severo Snape?
– O que tem ele? - perguntou ela erguendo uma
sobrancelha.
– Não acha que ele corre algum risco?
– P... por que? - perguntou olhando fixamente
nos olhos do diretor.
– Eu sei que vocês dois andam se encontrando!
Anrika fez menção de falar. “Como é que ele pode
saber? Tomamos muito cuidado!”
– Seu pai não vai descobrir sobre vocês dois, os
poderes dele não podem com Hogwarts.
– E o que temos Severo e eu? Só porque somos de
casas diferentes e nos encontramos na biblioteca...
Dumbledore olhou em volta e falou baixinho:
– Aquele pedido de namoro lá no lago foi algo
muito original, não foi?
– Q... que?
– Eu sei de tudo o que acontece em Hogwarts,
Anrika. Mas não sou fofoqueiro. Seu segredo está seguro comigo - riu o velhote.
– Eu... eu...
– Não pôde evitar. Claro que não! É uma coisa
natural se apaixonar!
Anrika tampou o rosto com as mãos.
– Severo sabe que seu pai matou seu amigo?
– N... não!
– E quando vai contar a ele?
Anrika passava a mão pelo rosto impacientemente
enquanto um medo incomensurável a fazia tremer.
– Professor...
– Anrika, se isto tudo está sendo uma brincadeira
para você, acho que merece o que seu pai fez! Mas se não, precisa contar a
Severo. Ele é um garoto de futuro, se isso for empatar a vida dele, você
precisa libertá-lo!
Anrika recostou-se na cadeira. Queria muito
ficar com Severo, mas o medo de apresentá-lo a seu pai era tão grande que ela
não pôde evitar aquele sentimento de perda. Preferia deixar Snape partir ao
vê-lo correr o risco de morrer por ela!
Na noite daquele dia, Anrika pediu a Snape que a
encontrasse na biblioteca depois que todos fossem dormir.
– Estou esperando! - disse ele depois de dez
minutos ao lado de Anrika sem que ela falasse qualquer palavra.
– É difícil...
– Acha que não percebi? - resmungou ele. Anrika
o encarou. Snape ergueu uma sobrancelha - Então?
– Vou voltar para a Colômbia depois que me
formar.
– Eu pensei nisso!
– Pensou, é?!
– Sim. Vou falar com seu pai, me apresentar,
dizer a ele que estou disposto a qualquer coisa por você!
Anrika começou a respirar forte. Aquele
costumeiro medo, aterrador e incontrolável, começou a tomar conta de seu corpo.
– Não acho uma boa idéia!
– Por que não? É o certo a fazer! Eu te amo!
Ela
empalideceu, as mãos tremiam, era difícil esconder.
– Severo...
– Eu tenho dezoito anos, pelo amor de deus! Sou
um adulto agora... não acho que ele não vá falar comigo!
– Não é isso, Severo!
– Vou falar com ele você querendo ou não!
– Eu não quero... ficar com você! - disse Anrika
engasgando. A frase tomou a atenção de Snape, que lançou nela um olhar que lhe
seria muito peculiar no futuro: um olhar de desprezo, indignação.
– O que foi que disse? - rosnou espremendo os
olhos.
– Que não quero ficar com você!
Snape crispou os lábios, era a primeira vez que
sentia-se culpado em sua vida. Sentia-se culpado por se deixar levar por
alguém... por uma garota. Deu as costas a ela, sem dizer uma palavras sequer e
saiu pisando forte. Anrika suspirou sentindo-se partir em mil pedaços, mas
daquela forma ninguém se machucaria.
No dia anterior ao da formatura, o pai de Anrika
estava sentado à escrivaninha do diretor da escola. Os dois conversavam sobre
as potencialidades de Anrika. Dumbledore chegou a mencionar o medo que a garota
sentia se desapontasse o pai, mas Del Buharro desconversou dizendo que aquele
tipo de educação, uma educação através do medo, era a certa para os jovens
desta geração que não sabiam medir a língua e muito menos os atos. Conversaram
durante uma hora. Depois, o pai de Anrika quis dar uma palavra com a filha
antes de partir. Saiu pelo corredor e esperou por lá, até Dumbledore ir chamar
a garota.
– Senhor Del Buharro? Com licença! - disse Snape
polidamente, interceptando o pai de Anrika assim que cruzou o corredor para
observar os arredores do castelo.
– Pois não? - disse o homem com sua grossa e
feroz voz.
– Sou Severo Snape - e ele estendeu a mão. Del
Buharro deu uma boa olhada no jovem, que tinha uma boa postura, era um tanto
magro, mas quando se é novo isso é quase inevitável, uma característica.
– Snape, você disse? - perguntou ele apertando a
mão de Severo.
– Sim. Eu queria lhe pedir... desculpe ter de lhe
contar isso assim, mas Anrika insistiu para que eu não o encontrasse!
– Diga, garoto.
– Eu gostaria de ter sua permissão para namorar
Anrika. Namoramos nestes dois últimos anos aqui em Hogwarts...
– Você e minha filha o quê? - perguntou ele
elevando o tom de voz.
– Namoramos desde o começo d...
– ORA GAROTO, VÊ SE SE ENXERGA! - gritou Anrika
que chegava correndo - JÁ NÃO LHE DISSE PARA NÃO FICAR INVENTANDO ESSAS
BOBAGENS?
Del Buharro voltou-se para Anrika assustado,
depois de quase fulminar Snape com o olhar.
– Vê se tem cabimento, pai! - disse Anrika
enlaçando seu braço ao dele - O maluco da escola namora comigo há dois anos e
eu só soube ontem!
O pai de Anrika deu uma última olhada no garoto
antes de lhe dar as costas e seguir em direção à porta de saída. Os dois se
despediram sorridentes, pai e filha, e
Anrika viu seu pai partir orgulhoso. Snape tinha a impressão de que seu peito
iria arrebentar tamanha era a raiva que estava sentindo. E Anrika passou por
ele encarando-o como se ele realmente fosse o maluco da escola. Aquilo foi o
estopim. Ele a agarrou pela gola do casaco e a puxou para dentro de uma sala.
Empurrou-a contra a mesa e Anrika caiu entre as cadeiras.
– Apenas me diga o por quê!
Simples - disse ela levantando-se e massageando
o braço -, não acho que você possa me dar um bom futuro! Você não tem
dinheiro...
– Pare! Não diga bobagens! Qual é o verdadeiro
motivo? - os olhos de Snape estavam profundamente negros e grossas veias
transpareciam em sua testa parecendo saltar.
– Esse é o motivo, acredite ou não! Agora me
deixe sair, tenho de me arrumar, preciso estar muito bem para a formatura.
– Precisa é? E quanto a mim? Acha que estarei
bem na formatura?
– Não seja bobo, Severo. Achou mesmo que eu iria
deixar tudo o que tenho para ficar com você?
Ele tinha os punhos cerrados, Anrika olhava para
eles.
– Eu tenho tudo aos meus pés. Não vou precisar
estudar mais para chegar onde quero! É só eu pedir e meu pai me dá! Já você...
vai ter que batalhar por si mesmo! Eu seria apenas um empecilho. Acho que você
tem mais potencialidade... sozinho!
– Eu não entendo...
– Abra a porta! Não há o que entender. É isso e
pronto!
Snape abriu os braços, com um olhar de
incompreensão e desacreditado deixou Anrika passar. Na noite da formatura foi a
última vez que Snape a viu.