Severo Snape, um garoto de dezesseis anos,
observava com atenção a cachoeira que havia logo à entrada da Floresta Negra,
era preciso ultrapassar hibiscos emaranhados para chegar até ela, mas isso não
era problema, pois seu corpo magro passava por qualquer espaço. Aquele era seu
refúgio, ia lá para se esquecer de tudo, ia lá quando não se sentia bem, e
naquela manhã não fora diferente. Ele vivia sendo perseguido por garotos de sua
classe, que o faziam passar vergonha em frente a toda a escola. Severo
sentou-se numa pedra e descalçou os sapatos, mergulhando em seguida os pés
n’água, estava gelada, mas se sentia bem fazendo aquilo. Então levantou os
olhos para admirar o pequeno arco-íris formado pelo sol e pela névoa que saía
da queda d’água quando viu algo muito interessante: uma garota tomando banho. Não
a conhecia, nunca a vira na escola antes, mas ela tinha os cabelos escuros com
leves reflexos vermelhos e a pele muito branca.
Mesmo
sabendo que nunca a vira antes, poderia se enganar facilmente, estava à muitos
metros de distância. Desceu rapidamente da pedra de onde a avistara, foi para o
meio dos arbustos e ficou observando-a sem preocupação, tentando descobrir que
era ela. Mas a observava tão concentrado que perdera a noção do tempo e quando
se deu conta disso, descobriu que havia cabulado a aula da professora que mais
odiava, Minerva McGonagall. Naquele instante, o susto acelerou seu coração, a
atenção que tinha na garota se esvaiu como se nunca estivesse existido. Ele
correu o máximo que pôde até chegar ao castelo, mas parou subitamente, apoiando
seus braços nos joelhos ofegando de cansaço. O que diria à professora? Nenhuma
desculpa a faria esquecer uma detenção. Ele nem ao menos estava machucado.
“Sim... é isso!” - murmurou ele para si mesmo e
voltou para a orla da floresta observando o que poderia usar para se machucar,
porém, era difícil, qualquer que fosse sua idéia uma explicação lógica provável
aparecia. A professora não se deixaria enganar facilmente. Se entrasse na
floresta e se machucasse lá, ficaria em detenção por ter entrado nela. E ele
não poderia se machucar dizendo apenas que havia caindo ou que alguma poção ou
feitiço seu não dera certo, McGonagall nunca acreditaria nisso e iria rir na
cara dele, a professora sabia que Severo era um garoto muito inteligente. Severo
esfregou o rosto com as mãos, quando voltou a olhar para o chão viu um porco
espinho, sorriu largamente e correu, tomando muito cuidado para que ninguém o
visse, até o depósito onde eram guardados os materiais de quadribol e das aulas
de vôo. Pegou uma das vassouras e voltou para a orla da floresta. Montou na
vassoura e subiu o mais alto que pôde e de lá se desequilibrou, por querer, e
caiu estatelado no chão.
– Ai que dor! - resmungou ele em voz alta sem
conseguir se levantar.
Eram sete horas da noite, Madame Pomfrey ainda
cuidava de Severo, havia quebrado um braço, uma perna e algumas costelas, e sua
cara estava toda arranhada, também pudera, havia caído de uma altura de quinze
metros direto sobre um salgueiro, que por sorte não era lutador.
– Não sei como conseguiu fazer isso menino, mas
sorte que o achamos logo, você poderia ter morrido! - Severo rosnou baixinho
amaldiçoando as mulheres.
Na manhã seguinte, a professora McGonagall
estava muito irritada.
– Por onde você andou, mocinha? - perguntou a
professora Minerva - Você já perdeu um dia de aula importante ontem e hoje
chega meia hora antes de terminas as aulas?
– Humfr, um dia a mais ou a menos não vai fazer
mudar muita coisa... tenho dois anos aqui ainda! - respondeu a garota desinteressada.
– Não responda para mim, mocinha! Enquanto
estiver aqui irá seguir as regras de Hogwarts!
– Como se fizesse alguma diferença para mim!
Aqui ou ali chegamos todos ao mesmo lugar!
– Cale-se! Está denegrindo a imagem de Grifinória
agindo dessa forma! Agora sente-se!
– Casas estúpidas, por que dividir as pessoas em
classes? - disse a garota olhando em volta - Os “mais” inteligentes vão para
Corvinal, os “mais” aventureiros para a Grifinória, os “mais” poderosos para
Sonserina e os “mais”... ou “menos?” vão para Lufa-lufa. Humfr! Até parece que
as pessoas...
– O chapéu seletor é um instrumento muito
confiável! Ele nunca errou... Não se atreva a falar mais nada ou vai ter que
tomar suas aulas na minha sala particular! - berrou a professora. A garota
ergueu a sobrancelha e um ar de indignação e ódio surgiu em seu rosto - Srta.
Evans, acompanhe a senhorita Del Buharro até o dormitório.
Lílian Evans era a monitora da Grifinória e a
aluna mais querida de Minerva. Ela se levantou e esperou por Del Buharro na
porta de saída. Mas esta estava tão furiosa que seus dentes rangiam, ela tinha
os punhos cerrados como se fosse atacar a professora. Del Buharro virou-se
repentinamente para trás e um vento pareceu emanar dela e fez com que muitos
pergaminhos e penas voassem pelos ares. Andou quase furando o chão na direção
de Lílian e ao ouvir risinhos sarcásticos olhou na direção deles. Um garoto de
cabelos muito brancos e olhos azuis prendeu a respiração quando recebeu o olhar
penetrante de Del Buharro, era Lúcio Malfoy. A garota mostrou os dentes e saiu
ao lado de Lílian.
– Não fique assim! - murmurou Lílian no caminho
para a torre de Grifinória - O primeiro dia em Hogwarts é difícil para todos,
imagine para você que veio de outro país e não está acostumada com nosso ritmo!
– E o que você sabe?
– Só quis ser amigável...
– Pois não precisa, estou vendo que não vou
gostar nada dessa casa... Grifinória. Vocês todos parecem bonecos que são
mandados e desmandados!
– Ei... - disse Lílian indignada.
– E me deixe em paz, sei muito bem o caminho! -
o que não era propriamente uma verdade.
Lílian desacelerou o passo, mas continuou
seguindo a garota. Pelo caminho, outros alunos da Grifinória apareceram e
seguiram também em direção ao dormitório, mostrando a Del Buharro o caminho sem
que ela precisasse pedir.
– Ela é muito antipática! - disse Lílian sentada
na sala comunal, naquela noite, ao lado de seus amigos grifinórios: Tiago
Potter, Remo Lupin, Pedro Petigri e Sirius Black - Tem que ter sempre a última
palavra!
– A gente não pode julgar uma pessoa sem
conhecê-la! - disse Remo olhando para a lareira - Quem sabe o que aconteceu que
a trouxe a Hogwarts?
Os cinco amigos se calaram e não comentaram mais
sobre o assunto. Na manhã seguinte Lílian bateu na porta do quarto de Del
Buharro.
– O que você quer? - perguntou a garota já
vestida.
– Só queria ter certeza que não vai se atrasar
para a aula de hoje.
– Pareço que vou me atrasar?
– Não, não... - Lílian tentou consertar.
– A professora mandou você me seguir, é?
– Claro que não! É que você faz parte de
Grifinória e nós nos importamos!
– Nós quem? Então tem mais gente envolvida?
– Sou Lílian! - disse a garota de longos cabelos
alaranjados estendendo a mão, tentando quebrar o gelo e não querendo deixar Del
Buharro iniciar outra discussão.
– Sou Anrika... - e a garota ergueu a
sobrancelha, jogou um olhar frio sobre Lílian, mas apertou a mão da colega.
As duas entraram juntas na aula de
Transfigurações, Minerva as olhou desconfiada, entretanto, voltou a olhar para
o livro de chamadas logo começando a fazê-la. Anrika ficou quieta durante a
aula e não levantou os olhos. Ela apenas fazia o que a professora mandava:
transfigurar objetos. Foi a primeira a terminar todas as transfigurações e
assim que as fazia deitava sua varinha na mesa e cruzava os braços, esperando a
próxima orientação da professora.
– Como último teste, vocês transformarão duas
pedras em dois bonecos das pessoas que mais gostam. - disse a professora em
seco - Desta forma - e a professora mostrou, num movimento de varinha e com
duas palavras, como se fazia aquele feitiço.
Lílian fez um boneco de Tiago e outro de Remo.
Tiago fez dois bonecos de Lílian. Anrika pegou sua varinha e olhou para as
pedras, sorriu e fez dois bonecos de si mesma.
– Tomem! - disse Anrika entregando um boneco a
Malfoy e outro a Goyle - Vocês não pararam de olhar para mim durante a aula
toda, então levem estes para seu quarto e façam o que bem entenderem com eles!
Os olhos de Lúcio se arregalaram e uma
gargalhada sarcástica se ouviu no fundo da sala. Todos olharam para trás.
– Sr. Snape, isso não foi nada engraçado! Dez
pontos a menos para a Sonserina! - Severo crispou os lábios por um instante, formando
uma engraçada careta e parecia que ia morder a professora, mas logo depois continuou
a sorrir enquanto guardava seu material e saía da sala de Transfiguração, pois
aquela aula terminara por hora.
No resto daquele dia, Anrika não dirigiu a
palavra a mais ninguém, apesar de ter tido dificuldades na aula de Herbologia,
que a deixou muito exausta e agitada. Odiava mexer com plantas vivas, achava
repugnante ter que replantar mandrágoras asquerosas e gritantes ou então
conversar com uma flor sobre como era bonita... flores não tinham a mínima
importância para Anrika, não naquele momento de sua vida. Só de pensar em
coisas boas ou doces Anrika tinha vontade de vomitar. Deu graças pelo dia ter
passado rápido. Estava cansada de receber olhares indagadores, não queria saber
de responder mais perguntas, de onde viera já às haviam feito o suficiente. No
jantar, Anrika sentou-se na ponta da mesa Grifinória, mas não comeu nada. Ficou
olhando para o prato e passeando por seus pensamentos, que eram cruéis, e
aliados aos olhares que continuava a receber ela não agüentou, levantou da
cadeira e foi para seu quarto, atirando-se à cama onde desatou a chorar.
Aquela seria uma ótima manhã, sua aula favorita
estava por vir e ela entrou na sala de Poções antes mesmo que a professora
chegasse. Anrika ficou observando os vidros de ingredientes, eram bem
diferentes dos de seu país.
– Que interessante... achei que a encontraria
aqui! - disse a professora.
– Queria ver os ingredientes...
– Quero lhe dizer que... apesar de ter sido
colocada naquela casa... o que não acho correto pois não foi o chapéu quem
escolheu colocá-la lá, e estou a sua disposição para qualquer esclarecimento. -
disse a professora sentando - Além disso, vou recorrer a essa decisão.
Dumbledore vai ter que por o chapéu na sua cabeça!
Anrika parecia ter se confortado com as palavras
da professora, sem dúvida era a única pessoa com a qual ela se identificara
desde que chegou, há três dias.
– Agora, sente-se! Alguns alunos costumam chegar
cedo!
Anrika sentou e cruzou os braços esperando a
aula começar. Mas no corredor Severo Snape e Lúcio Malfoy estavam pasmos,
haviam escutado a conversa da professora de Poções com a aluno nova.
– Eu não posso acreditar, Snape! O que é que deu
na Figg?
– E eu lá sei?
– Ela nunca agiu dessa forma com ninguém... nem
com um sonserino! Nem... comigo que sou um Malfoy!?
– Lúcio... - disse Snape puxando o amigo para
longe da porta da sala de Poções - ela não é sonserina... mas se Figg vai
recorrer... então quer dizer que alguma coisa de estranha está acontecendo! Por
que Dumbledore colocaria a garota propositalmente na Grifinória!
Lúcio não tinha uma resposta para dar a Severo.
Os dois entraram na sala sem olhar para a professora e muito menos para a
garota.
– Vocês dois! - disse Figg e um calafrio passou
pelas espinhas de Snape e Malfoy - Sentem-se... separados! Não quero
conspirações em minha classe hoje! - Severo respirou aliviado e se sentou duas
cadeiras atrás da aluna nova. Malfoy sentou-se ao lado direito dela. Anrika
olhou para trás e observou Snape. Ele era muito cuidadoso com seu material.
Tirou-o com muito zelo de dentro do caldeirão e o dividiu minuciosamente sobre
a mesa.
Após aquela aula, Anrika foi para a biblioteca,
queria saber mais sobre Hogwarts. Sentou-se no chão perto da última estante de
livros e abriu um grosso livro: Hogwarts, uma história.
– Se escondendo? - era Severo Snape que também
havia pego alguns livros.
– Que lhe importa? - disse ela ríspida.
– Se quer ficar sozinha tudo bem! - disse ele
olhando para o livro dela e saindo. Anrika não queria se envolver com ninguém já
que não pretendia ficar em Hogwarts por muito tempo.
Era tarde de sábado e os alunos estavam saindo
para Hogsmeade. Lílian bateu na porta do quarto de Anrika.
– Não vai a Hogsmeade?
– Não.
– Precisa conhecer, é um lugar muito divertido!
– Não gosto de diversão.
Lílian sentiu que algo não estava certo.
– Quer conversar?
– Não. Seus amigos já estão indo, vão esperá-la
se demorar muito?
– Se quiser, posso passar o sábado com você!
– Não, prefiro ficar sozinha! - disse Anrika
tentando fechar a porta.
– Tem alguém aí?
– Não. E não quero que ninguém entre! - disse
Anrika alterando a voz.
– Estou vendo que modificou o quarto! - disse
Lílian curiosa.
– É, não preciso de mais cinco camas se sou a
única que durmo aqui!
– Posso ver?
– Já disse que não quero ninguém aqui!
– Certo, certo. Conversamos no jantar. Vou
trazer uns docinhos para você! Até! - Anrika fechou a porta e encostou-se nela.
Não queria que Lílian a visse chorando. Ou melhor, não queria explicar o porque
de estar chorando.
Às sete horas, Anrika estava no salão principal
sentada à mesa Grifinória. Além dela apenas alguns alunos segundo anistas
estavam ali.
– Que é que a professora Figg queria com você? -
perguntou uma voz arrastada e zombadora. Anrika olhou para trás e viu o garoto
de cabelos louros e olhos azuis que rira dela no outro dia.
– Acho que interessa apenas a nós duas!
– Se vier para Sonserina será de meu interesse
também!
– Andou ouvindo atrás das portas? É desse jeito
que os sonserinos vencem seus adversários?
– Não deixamos passar nada - retrucou Lúcio.
– Que humilhante deve ser.
– O que foi que disse? - perguntou ele em alto
tom.
– Que hu-mi-lhan-te de-ve ser! - repetiu ela
enfatizando cada sílaba.
– Ora sua...
– Nem ouse me chamar disso! Sou muito mais sangue
puro que você! - Aquilo fez Malfoy morder sua língua. E as gargalhadas de
Sirius o fizeram ficar vermelho. Lílian e Tiago se puseram ao lado de Anrika
enquanto Remo e Sirius ficaram atrás dela.
– Vejo que sua companhia não é das melhores! -
disse Malfoy dando um passo atrás - Se quiser ir para Sonserina terá que ser muito
melhor do que eles! - e dizendo isso, Malfoy foi se sentar ao lado dos
sonserinos. Os grifinórios sentaram-se próximos a Anrika.
– O que é que ele quis dizer com aquilo? -
perguntou Tiago.
– Esquece. - respondeu Lílian - Toma Anrika,
estes são feijões de todos os sabores, são deliciosos, mas cuidado, se pegar
algum com cor estranha não coma, pode ter um gosto horrível!
Anrika não falou nada, puxou o pacote de feijões
de perto de si e fixou seus olhos no prato cheio de comida. Mas não comeu
novamente, tomou apenas um copo de suco de abóbora.
Naquela tarde, depois de mais uma péssima aula
de Transfiguração das manhãs de segunda-feira, Anrika correu para a floresta. A
professora McGonagall tinha sido dura com ela em frente a todos. Ela queria se
esconder, desaparecer. Voltou à cachoeira em que tomou banho no primeiro dia.
Sentou-se numa pedra e pôs as pernas dentro da água. Não demorou muito para lágrimas
rolarem pelo seu rosto.
– Ela é uma bruxa velha, trata todos daquele
jeito!
– Está... me seguindo? - perguntou olhando para
Snape e secando as lágrimas rapidamente.
– Na verdade... este é um dos meus lugares...
Anrika o olhou de modo diferente, como se
estivesse invadindo a privacidade dele.
– Ah... bem... eu achei que ninguém vinha aqui!
– Eu também. - disse Severo sorrindo.
– Me lembra muito minha casa, este lugar!
– De onde você vem?
– Da América Latina, Colômbia para ser mais
exata.
– Bem longe! - disse Severo vendo-a levar a mão
ao peito - Sente falta?
– O lugar onde se está não importa, sinto falta
das pessoas.
Severo soube que havia feito muitas perguntas
sobre um assunto que Anrika não queria mencionar uma palavra sequer, quando ela
lhe deu as costas e respirou fundo.
– A McGonagall quer que sejamos adultos... como
ela, discretos, calados e obedientes! Não vejo nada de errado nisso, mas o
jeito mordaz que ela nos trata...
Severo
viu que Anrika continuava de costas e balançando os ombros. Ele se levantou e
foi até ela.
–
Vai passar...
–
Me deixe sozinha! - respondeu ela - Você não sabe de nada e não quero envolvê-lo!
Ele
deu alguns passos para trás e esperou durante minutos, mas ela não voltou-se ou
falou uma palavra sequer. Então, ele seguiu de volta para o castelo. Na manhã
seguinte, Severo foi um dos primeiros a chegar na aula de Herbologia. Sorriu ao
entrar na estufa número quatro.
–
Olá! Chegou antes de mim?
–
Bom-dia! - respondeu Anrika - Então você é o aluno mais aplicado de Hogwarts?
–
Ao seu dispor! - disse ele fazendo uma reverência em deboche.
–
Vai ter que me perdoar, deve ser o último a saber: bati seu lugar esta semana!
Os
dois caíram na gargalhada e seus olhos se cruzaram. Um súbito e constrangedor
silêncio os envolveu. Anrika respirou fundo. Severo sentiu uma pulsação
inconfundível no baixo ventre, mas daquela vez, sentiu algo em seu peito também.
Era uma sensação de totalidade, de que algo estava completo.
–
Ele está te incomodando, Anrika? - era a voz de Sirius Black, que acabara de
entrar na estufa seguido por Tiago, Pedro, Lílian e Remo - O que você quer com
ela, morcegão?
–
Não é da sua conta, Black! Estávamos apenas conversando.
–
Sei, conversando com um grifinório, você, Snape!? Conta outra! - disse Sirius
chegando perto de Severo. Os dois se olharam furiosos.
–
Calma aí, pessoal, - interveio Lílian - se Snape diz que estavam conversando...
–
Vamos indo, Anrika. Você não deve se misturar com a podridão! - disse Sirius
pegando no braço dela.
–
Por que é que vocês não me deixam em paz? - rosnou Anrika em voz alta olhando
para os grifinórios e para o sonserino - O que é que querem comigo? Vocês mal
me conhecem! - todos eles a olharam espantados - Se eu quisesse alguma coisa
com vocês eu os teria procurado! - e ela saiu andando para perto da professora.
–
Obrigado. - disse Severo com uma voz cortante - Ela estava falando comigo,
idiotas, se não interrompessem quem sabe eu poderia ter descoberto algo sobre
ela! - e se afastou batendo os pés.
–
Morcegão desprezível! - gritou Sirius.
–
Calma, lá, amigo! - disse Remo.
–
Por que é que ela é tão grossa e estúpida?
–
Sirius, cada um tem um problema! - tentava explicar Remo.
–
Ah, claro, mas nem por isso precisa tratar as pessoas desse jeito! - concluiu
Tiago - Acho que ela está escondendo algo.
Lílian
e seus amigos não estavam entendendo a reação de Anrika, mas ela agia daquela
forma com todos. Não deixava que ninguém se aproximasse.
Aquela
manhã parecia bastante calma para Anrika, finalmente conseguira que ninguém a
aborrecesse com perguntas bobas. Também pudera, já estava em Hogwarts havia
bastante tempo agora, e os demais alunos desistiram de tentar algum tipo de
amizade. E a aula de Poções a deixava mais contente, pois aquela era sua matéria
favorita e a professora era a melhor de Hogwarts. Porém, quase no final da aula
daquele dia, anrika não se sentia bem. Tinha a impressão de algo estava para
acontecer, mas não sabia explicar de onde vinha tal sensação. Foi quando a
professora Minerva pediu licença à professora Figg, dizendo que Anrika
precisava acompanhá-la até a sala de recepção, pois alguém queria vê-la, que
Anrika se deu conta do problema. Segurando o caldeirão com muita força, quase o
derrubando, a professora Figg a sentiu nervosa, Anrika a olhava como que
implorando para não liberá-la da aula.
–
Pode ir, senhorita Del Buharro, mas não se esqueça do pergaminho de duas
páginas a ser entregue na próxima aula sobre a poção que executamos hoje.
Anrika
saiu da sala sem nenhuma material e com uma expressão de desgosto e tristeza. O
resto dos aluno também saiu pouco tempo depois, aquela aula havia terminado.
Anrika seguiu McGonagall até a sala de recepção. A professora abriu a porta
para que a garota entrasse e depois a fechou, seguindo para a sala dos
professores.
–
Como está indo por aqui? - perguntou um homem alto, de cabelos negros, que
ainda vestia a capa de viagem.
–
B-bem. - respondeu Anrika sem encará-lo.
–
Não foi o que a diretora da sua casa me disse...
Anrika
engoliu em seco, seu pai estava ali apenas para repreendê-la, sem querer saber
o porque das coisas que lhe aconteceram, como sempre.
–
Você tem sido muito rude e mal-educada.
–
Tenho sido eu. - murmurou ela.
–
Eu não a eduquei para tratar as pessoas com grosserias. - disse ele alterando o
tom de voz - É uma vergonha eu ter que vir até aqui para lhe chamar a atenção!
O que acha que dirão as pessoas de nosso meio social?
–
Como vou saber se não estou com elas?
Aquela
resposta foi revidada com um tapa forte e ferino na cara de Anrika.
–
Tenho certeza de que esse assunto será encerrado hoje e aqui nesta sala! -
disse ele de costas - Pelo menos tenho um consolo, sua diretora me disse que
você é uma aluna muito aplicada e que está à frente dos outros alunos.
Anrika
não respondeu, olhava para as mãos cruzadas.
–
Não está me desapontando no todo... apesar de já tê-lo feito antes.
–
Veio aqui só para me lembrar disso?
O
homem se virou bruscamente e caminhou até a filha com os olhos em brasa
–
Ele não estava aos seus pés! Você merece o melhor!
Anrika
respirou fundo, seu corpo todo tremia de medo, mas queria enfrentar seu pai.
–
Não há mais nada que você possa fazer, a não ser estudar e se formar! Mostre um
pouco do bom comportamento que lhe ensinei, seja uma Buharro e não uma bruxa
qualquer! Agora volte para a aula, não deve ter perdido muita coisa, aulas de
vôo são entediantes e pouco utilizáveis hoje em dia!
Anrika
apertou mais as mãos, olhou para o pai, mas ele desviou o olhar para a janela.
–
Papai...
–
Sim. - disse ele de costas. Ele era alto, tinha os cabelos negros, olhos muito
escuros e a pele morena. Andava sempre bem vestido com ternos caríssimos e
escuros. Era um homem imponente, assim como seu nome: Pablo Castilho Del
Buharro. Ele se voltou para saber o que a filha queria, mas ela já não estava
mais na sala. Pablo olhou para o chão e suspirou.
A
aula de vôo foi realmente baldada. O único que parecia se preocupar com ela era
Severo Snape, o garoto de cabelos oleosos que tentara conversar com Anrika dias
atrás. Ele parecia muito amedrontado ao ter que enfrentar a vassoura velha e
difícil de ser controlada da escola.
–
Quer usar a minha? - perguntou Anrika estendendo a vassoura a Snape.
–
Eu... - ele a olhou intrigado, mas sorrindo por dentro - ...aceito sim,
obrigado!
–
Vai em frente, não estou me muito sentindo bem mesmo para ficar voando.
Ao longe, Tiago cutucou Sirius e os dois viram
quando Anrika entregou a Snape a vassoura. Ela foi se sentar em um dos bancos
enquanto Snape montava no último modelo de vassoura produzido naquele ano. E
ele voou muito bem, certamente a vassoura fazia diferença num vôo.
– Não acho uma boa idéia, Lydia, o pai dela não
aprovaria...
– O quê? Colocar a filha na casa que fará jus ao
nome dele?
– Lydia...
– Dumbledore, quero aquela garota na minha casa
e sei que o chapéu irá mandá-la para mim!
– Acho que as companhias de Anrika são melhores
na Grifinória!
– Não aceitarei não como resposta! Se todos os
alunos têm de passar pela seleção, esta também terá!
Dumbledore
afagou a longa barba amarronzada e olhou para a professora de Poções.
–
O pai de Anrika foi muito convincente ao dizer que queria a menina longe de más
companhias...
–
E desde quando você tem medo de alguém?
–
Não foi o que eu disse. Além do que, não sei se Minerva irá concordar!
–
Ela não gosta da menina!
–
Sim, Lydia, mas nem por isso abrirá mão dela!
–
Estou indignada, isso é uma injustiça! Sonserina já perdeu muito nos últimos
anos por causa de suas preferências, Alvo! Não vou perder essa aluna, não vou!
- bradou Figg batendo com a mão fechada sobbre a mesa - Eu mesma falarei com
McGonagall, me aguarde!
Anrika
estava sentada em uma das poltronas na sala comunal, alheia, como sempre, a
tudo o que acontecia ali ou à vida particular de cada aluno. Iria completar cinco
meses de estudos em Hogwarts naquela semana e ainda não havia feito um amigo
sequer. Conversava com Lílian algumas vezes, mas detestava o jeito como a
garota queria resolver tudo, era sempre polida e prestativa. E os amigos dela?
Tiago sempre cumprimentando esperando uma deixa para poder perguntar algo.
Sirius sempre invocando com quem Anrika falava, esta era definitivamente uma
amizade que ela não queria. Entretanto, Remo era um pessoa diferente. Ele tinha
diferentes perspectivas de ver e entender as atitudes das pessoas. Ele
conversava mas sem entrar em detalhes que pudessem constranger ou desconfortar
as pessoas. Anrika gostava de conversar com ele, e passava algumas horas
envolta em discussões sobre as ações humanas e suas decorrentes situações.
Na
última semana antes do Natal, os alunos se preparavam para voltar para casa,
estavam alvoroçados, já pensando nos presentes. Era difícil prestar atenção nas
aulas, muitos professores permitiam certas liberdades, mas Anrika não as
aceitava. E naquela aula de Transfiguração mostrou isso. Era uma aula em
conjunto com a Sonserina. Anrika gostava das aulas com eles, pois eram quietos
e muito estudiosos, raramente professores chamavam a atenção de alunos daquela
casa, em compensação os alunos de Grifinória não escapavam a uma aula sequer.
Tiago
e Sirius estavam impossíveis sentados ao lado de Anrika. Ela tentava entender
como a professora transfigurara uma cobra em dois potes decorados, era preciso
muita concentração para dividir um material.
–
Será que vocês dois não tem algo melhor para fazer ao invés de atrapalhar a
aula?
–
Ah, pega leve, Anrika, sexta-feira partiremos para casa! É Natal!
–
Sexta, Sirius, sexta e não hoje!
–
Qual é o problema? - perguntou ríspida a professora.
–
Eles, professora! - apontou Anrika à Tiago e Sirius - Se a senhora não se
incomoda com a algazarra que eles estão fazendo durante sua aula não está se
importando se aprenderemos algo ou não!
Minerva
fulminou Anrika com o olhar.
–
O senhor Potter e o senhor Black estão um tanto empolgados com o Natal, não me
surpreendo, mas nada que impeça você de realizar sua transfiguração. Volte ao
exercício! - disse Minerva retornando à mesa central.
Malfoy cutucou Snape
e os dois ficaram olhando os grifinórios conversarem. Anrika mostrou os dentes
e fechou os olhos, mas ainda assim não conseguia se concentrar porque os dois
garotos que estavam sentados ao seu lado falavam e riam de propósito tentando
não deixar que ela realizasse a transfiguração.
– Ferula! - murmurou Anrika e ataduras deram
voltas em torno das bocas de Tiago e Sirius.
– Senhorita Del Buharro! - gritou a professora -
O que pensa estar fazend...
E
naquele instante Anrika transfigurou a cobra em dois jarros enormes e colocou
Tiago e Sirius dentro. Toda a classe caiu na gargalhada.
–
Senhorita Del Buharro!! - disse Minerva horrorizada - Saia já desta sala!
Anrika
saiu lançando um último olhar a Lúcio que ria dos grifinórios. Por aquilo,
Anrika recebeu uma detenção até o feirado tendo que lustrar todos os troféus
existentes
Snape
parecia preocupado nos últimos três dias. Andava de um lado a outro observado
tudo e todos, mas sem ser notado, o que pregava sustos em alguns de seus
companheiros sonserinos. No entanto, Anrika era a única que pegava o macilento
garoto sonserino em suas espiadelas, divertia-se com as tentativas de Snape de
se esconder, de desviar o olhar dela quando percebido, de inventar qualquer
coisa para que ela não pensasse que estava sendo observada. Anrika fingia, por
vezes, que não via Snape, mas ria sozinha pensando o quão importante deveria
ser descobrir algo sobre ela. Era bem verdade, Snape queria descobrir mais
sobre Anrika, mas nada que ele descobrisse seria revelado, o garoto queria
apenas conhecê-la e tornar-se seu amigo. Agora, que não estava mais encontrando
Anrika pelos corredores, tentava descobrir o porquê.
Era
cedo da manhã daquela sexta-feira cheia de entrega de tarefas, mas Snape
conseguira uma brecha entre o café da manhã e a primeira aula para espionar a
professora Minerva enquanto conversava na sala dos professores.
–
Não me importo o que é que pensa dessa garota, pode se ver bem quem é se olhar
nos olhos dela! - era Minerva erguendo a voz de forma muito alterada.
–
Ora, querida, como se fizesse alguma diferença para você...
–
Faz! E muito, Lydia! - respondeu - Por que é que tem tanto interesse nela?
–
Não é interesse nela exatamente. É só justiça. O chapéu não foi colocado e ela
não está na casa em que deveria estar.
–
Ora, vamos parar, garotas... - era o professor de História da Magia, Binns - O
que Dumbledore decidiu está decidido.
As duas se afastaram e a sala ficou em silêncio.
Snape ajeitou o cabelo que caía sobre os olhos e virou-se para o corredor que
levava ao pátio, queria sair o mais rápido dali, antes que alguns dos
professores o pegassem, mas já era tarde.
– Querendo conversar com algum professor,
Severo?
Snape olhou para cima, lá no alto, brilhantes
olhos azuis o encaravam. Quando a testa de Snape franzia, depois de longos
segundos, indicando que não havia conseguido achar nenhuma resposta para aquela
pergunta, o diretor, Alvo Dumbledore continuou.
– Acho que era com Minerva sua conversa, não?
– NÃO! - respondeu rápido, se envergonhando em
seguido do tom de voz pronunciado em frente ao diretor - É... eu só queria
saber...
– Bem, se queria saber de Anrika, é com a
professora Minerva que deve falar - repetiu Dumbledore indicando a professora
com o dedo, ela estava parada ao lado deles. Snape petrificou - Acho que Severo
quer ter uma palavrinha com você, Minerva. Vou deixá-los à sós. Bom dia.
– Bom dia, Alvo - respondeu Minerva - E então,
senhor Snape, vai falar ou não?
– Ah... é que eu emprestei para Anrika um
livro... e não tenho visto ela por aí... - gaguejou sem jeito - ...para pedi-lo
devolta.
– Ah, sim! Um livro - ironizou ela, encarando-o
dos pés à cabeça. Riu em seguida - Ela estará livre para ir à Hogsmeade amanhã.
Snape soltou um sorriso amarelo e deu as costas
à professora logo depois, correndo para longe antes que ela retomasse a
conversa. Sua primeira aula naquele dia seria Feitiços, Anrika estaria lá
também. Sentou-se bem ao fundo da sala, sabendo que ela sentaria logo na
primeira fila, e escorregou pela cadeira, escondendo-se. À medida em que a sala
foi enchendo-se de alunos, ele se erguia, até estar sentado por completo e
endireitado. Retirou então o grosso livro de Feitiços da bolsa e passou à lê-lo
com determinação, fazendo anotações aqui e ali sobre algo interessante ou então
uma idéia. Absorto em pensamentos, ouviu um hum-hum pelos arredores de sua
mesinha, mas não foram suficientes para tirá-lo de sua concentração, porém,
quando um rosto arredondado apareceu diante de seus olhos, o garoto soltou um
berro. Todos olharem em sua direção.
– Desculpe. Não tive a intensão de te assustar,
mas você não me ouvia!
E então Snape se deu conta de que Anrika estava
ali a centímetros de distância. Gaguejou por instantes, primeiro porque ela o
encarava, segundo porque o resto da sala também. Até ela sorrir e chamar seu
nome pela segunda vez.
Hã? - foi o que ele disse tentando não parecer
bobo, já havia falado com ela antes, e se saíra muito bem.
– A professora Minerva disse que você queria
falar comigo. Algo sobre um livro...
– Ela disse?
– Sim.
– Bem, na verdade não tem assunto nenhum - disse
ele finalmente perdendo o medo - Eu não a vi mais por aí e fui até a sala de
professores ver se pescava alguma coisa.
– Oh - disse ela sorrindo e se sentando na mesa
ao lado. Mas nada mais disse. Os dois prestaram atenção na aula entre um e
outro olhar.