Capítulo
10
Desentendimentos
A ante-sala do ministro da Defesa era bem decorada e as
paredes eram pintadas em tons pastéis. Malfoy deixou Antoine ali e seguiu para
resolver outros negócios pelas redondezas, seria uma segunda-feira cheia para
ele, mas voltaria para buscá-la mais tarde. Antoine esperou por alguns minutos,
até a macérrima e prepotente secretária conduzi-la ao gabinete do ministro.
– Sente-se mais perto senhorita
Dimanchè! - disse Trevor que estava sentado, numa cadeira presidencial, atrás
de uma majestosa mesa de madeira totalmente adornada.
– Pois não, senhorr, o que deseja?
Trevor levantou
e se aproximou lentamente.
– O seu sotaque chamou muito a minha
atenção.
– E o que há de interressante nele?! -
respondeu ela cortando-o.
– Estou muito interessado... em você!
– Outrro interressado em meu nome? Se
fosse grrande coisa minha família não terria parrado de prraticarr magia!
– Eles nunca entenderam bem disso,
mas não fique tão desapontada, existem outros Dimanchè que adorariam recebê-la!
– E-existem? - perguntou Antoine
mudando a expressão no rosto.
– Sim. Falei de você para eles ontem
mesmo, depois do jantar. Gostariam que fosse passar um dia na casa deles!
Antoine
tinha um sorriso brilhante nos lábios. Era sincero e cativante.
– Eu poderia levá-la até eles, se me
permitir.
– Como é que nunca ouvi falarr deles?
- questionou ela mudando de expressão reppentinamente, encarava-o com o canto
dos olhos, a sobrancelha erguida.
– São muito reservados, não usam o
nome Dimanchè, usam D’Mark.
– Mas... porr que está querrendo me
ajudarr? - perguntou desconfiada.
– Bem, não posso negar que tenho certas
intenções... pensei que gostaria de sair comigo, para nos conhecermos melhor!
Antoine
olhou para a mesa e viu muitos papéis, uma caneta dourada, provavelmente de
ouro, mas nenhum porta-retratos, nenhuma foto.
– Isso é uma afirmação? - perguntou
ao vê-la silenciar - Eu lhe darei tratamento especial, tratamento que o jovem
Malfoy não pode lhe dar.
– Está falando de dinheirro? -
perguntou ela.
– Estou falando de tudo que possa lhe
ser útil, estou lhe oferecendo uma união ao nome Ivengreyt! - exclamou de
braços abertos.
Antoine
baixou a cabeça. “Serrá que tudo acontece comigo?”,
pensou ela. Teve vontade de estuporá-lo. Não queria casamento por dinheiro, não
queria ser tratada com tanto arcaísmo! Gostava de receber elogios, galanteios,
mas era absurda a forma como mulheres bruxas ricas eram tratadas por seus
maridos! Não queria ser como a mãe de Draco: submissa às palavras do marido,
acorrentada a casa como um escravo ao pelourinho, como um elfo à cozinha.
– Ouça. - disse ele adiantando-se e
impedindo a passagem dela, que já havia se posto de pé há muito - Acha que vai
ter um futuro mais promissor com Draco? Posso lhe encher de jóias e dinheiro...
– É isso que pensa! Acha que me
casarria com Drraco pelo dinheirro?
– Pelo que sei, você não tem onde
cair morta! - sibilou irônico e foi uma alfinetada e tanto.
– Senhor Ivengeryt... - suspirou ela
- posso serr um zerro à esquerrda, mas teenho amigos!
Ele riu alto. Parecia muito engraçado
para Trevor a situação da moça.
– Escute, senhorr Ivengreyt III, se
quiserr me levarr parra conhecerr minha família, sem qualquerr ganho em trroca,
lhe serrei grrata. Se não quiserr, paciência! Eles poderriam terr me
procurrado, mas não o fizerram, então, que se virrem se quiserrem me conhecerr!
Os
olhos de Trevor estavam vidrados nela.
– Eu estudei muito, fui a melhorr
aluna de todos os tempos e não subjugarrei meu conhecimento parra levarr uma
vidinha mediocrre de “madame”! Posso serr melhorr do que qualquerr um de vocês
homens! - e dizendo isso, cerrou os punhos, mas mudando de idéia quanto ao que iria fazer, voltou a olhar para
Trevor, agora, porém, com profundidade e ironia - Esperro que este “encontrro”
não tenha nenhuma influência sobre a resporta que o senhorr irria darr a Drraco
sobrre o emprrego, não gostarria de terr que voltarr aqui e lhe fazerr mudarr
de idéia!
Antoine saiu do gabinete enraivecida.
Trevor jogou-se sobre o sofá, sentia-se pasmo, estranho, os olhos dela falavam
mais do que as palavras. Ao sair do prédio, Antoine voltou ao mundo real. A um
mundo ao qual não estava acostuma. Nunca esteve num lugar assim antes! A
confusão de gente, todos amontoados indo e vindo de lugar algum. Não sabia
quando Lúcio viria pegá-la e não sabia voltar à mansão. Arrependeu-se de ter
tratado Trevor daquela forma, mas algo se apoderara de seu corpo, era um lado
que não conhecia de si mesma, tinha um lado autoritário e ameaçador... será que
era isso que seus pais haviam pressentido e por causa disso a trancavam naquele
porão? Bem, agora era tarde, já havia feito o que achara certo e não iria
voltar atrás. Perambular por entre toda aquela gente era um martírio, mas
Antoine resolveu que era isso que iria fazer. Lembrou-se que Lúcio falara em
visitar um amigo num local chamado Towerfield. Parou ao lado de um homem
vendendo pãezinhos com um molho estranho por cima e o observou.
– A senhora quer um cachorro-quente?
- perguntou o vendedor rapidamente.
– Ah, não, obrrigada, apenas gostarria
de saberr onde é que fica um local chamado Towerrfield.
Está
com sorte, é aquele prédio ali na frente! - disse o homem apontando para o mais
alto e brilhante prédio dos arredores. Ela sorriu, agradeceu e caminhou até lá.
O prédio era majestoso, muito mais bonito que o do ministério. Ao entrar, foi
atendida por um rapaz vestido com um uniforme de azul, cheio de botões, mas o
rapaz não conhecia nenhum Lúcio Malfoy, e levou-a até o balcão da recepção,
onde uma mulher loura e muito bonita a atendeu. Conhecia Lúcio e o vira ali de
manhã cedo, mas não sabia informar se ainda estava no prédio. A moça conseguiu
o nome do amigo que Lúcio
visitara ali, Oscar Beneth. Então, Antoine tinha uma
única opção: ir até o escritório do tal Oscar e pedir se alguém poderia
conseguir localizar Lúcio. Entrou no elevador e apertou o botão de número 40,
conforme a recepcionista lhe indicara. Gostava tanto de viver no mundo dos
bruxos que ela não fazia idéia de que havia umas regrinhas do mundo trouxa: ter
sempre em mãos o número de telefones de emergência, um celular ou um cartão
telefônico... ou pelo menos algum dinheiro! Antoine
entrou por um portal adornado com anjos, que levava a um saguão onde havia
muitos sofás e mesinhas e muita gente carregada de papéis, indo de um lado para
outro. Procurava por alguém para lhe dar informações, mas parecia que ninguém a
estava vendo.
– Querida? - chamou uma mulher de
formas sinuosas e avantajadas - Você não vai conseguir nada com esses aí! São
estressados e só se importam com eles mesmos!
– Ah, obrrigada!
A
mulher andou até outro portal e passou para trás de um balcão de madeira clara,
Antoine a seguiu. A sala era muito elegante, ao centro havia uma enorme porta
da mesma madeira também talhada com motivos angelicais, nela estava escrito com
letras garrafais: Oscar Beneth. Antoine sorriu e
voltou-se para a moça. Ela se apresentara, seu nome era Grace. Era uma moça
muito bonita, como todas as que tinha visto na cidade,
tinha a pele clara, os cabelos negros que pareciam ser lisos, mas estavam
amarados em um coque e seus verdes olhos eram os maiores que Antoine já vira em
sua vida.
– Quem você está procurando? -
perguntou Grace.
– Bem, na verrdade, não é ninguém que
trrabalha aqui! Procurro porr Lúcio Malfoy.
– Lúcio? - Grace parecia surpresa -
Bem, ele esteve aqui esta manhã, mas já saiu faz uma hora! - explicou
interessada em Antoine, que bufou e voltou o olhar para a porta do elevador
abrindo e fechando.
– Algum problema? - Grace tornou a
perguntar.
– Sim. O senhorr Malfoy me deixou num
prrédio aqui em frrente e disse que virria me buscarr, mas não aparreceu e
eu... bem... fui estúpida o bastante para sairr sem dinheirro. Não tenho como
encontrrá-lo e não faço a mínima idéia de como voltarr parra a casa dele.
– Isso não é uma coisa que se vê
todos os dias! - brincou Grace. Antoine riu forçado - Talvez eu possa
encontrá-lo. Espere um instante! - Grace mexeu num macinho de papéis, tirou um
deles onde estava escrito o nome e o telefone de Lúcio e discou o número -
Senhor Malfoy? Desculpe incomodá-lo, é Grace, secretária do senhor Beneth. -
ela parou um momento, ele deveria estar falando algo - Oh, não, não se
preocupe. O caso é que há uma moça aqui, chama-se Antoine... - e foi
interrompida - Sim, ela está aqui na minha frente! - parou de falar mais uma
vez - Claro, pode deixar! - e desligou. A cara dela não era muito boa, ergueu
rapidamente as sobrancelhas e sorriu brevemente, depois pediu que Antoine se
sentasse para esperar, Lúcio estava vindo buscá-la - Você é parente dos Malfoy,
querida?
– Não, não sou!
– Por que é que ele ficou tão
nervoso?
– Não faço a mínima idéia! -
respondeu Antoine sentando-se. Grace sentou-se ao lado dela.
– São uma família e tanto, não?
– Sim.
– Quando vêm aqui esse lugar pára.
Parece que todos querem agradá-los. Conhece o filho dele?
– Drraco? - disse Antoine sorrindo -
Ele deve adorrar esse assédio.
– Humfr! Ele é um esnobe, mal olha
para os lados quando vem aqui! - disse Grace rindo.
– Este é o Drraco!
– Vocês se conhecem? - perguntou
Grace servindo uma xícara de chá a Antoine.
– Estudamos juntos durrante sete
anos, acabei de me forrmar e vim passarr uns dias na casa dele. Há dois dias em
Londrres e já me perrco... bem, não estou acostumada com toda essa agitação!
– De que parte da França você vem?
– Borrgonha.
Naquele
momento Lúcio irrompeu carrancudo a saleta. Tinha o olhar congelante. Antoine
levantou e se aproximou dele.
– Suponho que o senhorr já esteja
sabendo. - murmurou ela.
– Sim, Ivengreyt me ligou! O que está
fazendo? - disse em baixo tom, mas repressivo - Não pode chegar e arruinar tudo,
Draco precisava daquele cargo!
– Então ele não vai trrabalharr no
ministérrio?
– Acho que não! - respondeu Lúcio se
aproximando sem dar bola à Grace que havia ido para trás do balcão - Como se
pode desejar que um filho seja alguém quando pessoas próximas estragam os
planos de uma vida?
– Eu não fiz nada que manchasse a
honrra de sua família, senhorr Malfoy. Eu somente recusei sairr com ele! Acho
que quem está estrragando os planos de uma vida é o senhorr! Sabia que Trrevorr
irria me fazerr tal prroposta e nem se imporrtou. O que seu filho falarria se
soubesse?
– Você poderia sair com Ivengreyt e
ganhar muito, Draco não pode lhe dar o que ele lhe daria! E Draco não
precisaria ficar sabendo!
Antoine
fechou os punhos e perguntou com fúria:
– Sua mulherr também fez isso com o
senhorr?
– O quê?
– Isso mesmo que o senhorr ouviu! -
disse Antoine olhando dentro dos olhos azuis dele, que estavam flamejando -
Desculpe-me, mas não fui eu quem pediu parra me pegarrem na estação, o senhorr
aparreceu porrque sabia que eu estarria lá e sozinha!
Lúcio
olhou para os lados, viu Grace, mas ela estava sentada mexendo em papéis numa
gaveta.
– Resolveremos este assunto em minha
casa!
– Porr que é que meu nome é tão
evidenciado?
Naquele
instante apareceu Oscar Beneth.
– Lúcio? Esqueceu algo?
– Não, não... - riu ele - Estou de
saída! Bom-dia! Vamos, Antoine.
Ela
se despediu de Grace e seguiu Lúcio até o elevador. Foram calados até o
vigésimo andar porque o elevador estava cheio, mas quando os dois ficaram
sozinhos, Lúcio advertiu:
– Não quero mais nenhuma gracinha! Eu
a respeito porque seu nome é muito influente na sociedade bruxa, mas não abuse
de minha paciência.
Quando
chegaram a casa, Antoine foi direto ao quarto, nem desceu para jantar. Draco
sentiu falta dela, mas nada perguntou sobre o que acontecera, notara que o pai
não estava num de seus melhores dias. Quando todos estavam dormindo, bateu à
porta do quarto de Antoine. Ela o deixou entrar, tinha os olhos muito vermelhos
havia chorado.
– O que foi que aconteceu? Meu pai
está intragável - Draco queria explicações.
– Estrraguei suas chances de entrrarr
no ministérrio. - respondeu cabisbaixa - Só isso!
– Como é?
– Você me conhece, Drraco, sabe que
não gosto que me forrcem a fazerr o que não querro!
– Meu pai...
– Nem sei se deverria contarr a
você... - mas os olhos de Draco pediam - Trevor querria que eu saísse com ele e
eu disse não, além de falarr umas poucas e boas! - ela engoliu em seco -
Desculpe!
– Desculpe nada, velho safado!
Antoine
acariciou o rosto de Draco. Ele estava muito diferente, mais maduro, o rosto
quadrado, a barba que antes era rala agora estava bem mais grossa. Só seus
olhos estavam mais cansados, as feições do menino de treze anos, que Antoine
conhecera em Hogwarts, continuavam aparentes.
– Era um importante cargo, mas não
por esse preço, alguma coisa me dizia que o velho ia tentar isso, ele não pode
ver um rabo de saia!
– Seu pai não teve um ataque porrque
estávamos na frrente de uma secrretárria...
– E ainda consegue ser ponderado, se
fosse comigo... teria amassado a cara de Trevor!
– Vou emborra amanhã, Drraco, acho que não
é cerrto ficarr aqui! Dumbledorre me deu um enderreço, se puderr fazerr a
gentileza de me levarr até lá!
– Não, não, você vai ficar aqui, a
não ser que não tenha aceitado meu repentino pedido!
– Noivado... - murmurou ela.
– Sim. Não quero perdeu um minuto
mais!
– E onde irremos morrarr?
– Vai depender do emprego que eu
conseguir!
– Você terria corragem de morrarr em
um lugarr como a casa de Hagrrid?
Draco arregalou os olhos.
– E por que moraríamos num lugar como
aquele?
– Bem, porrque nem eu nem você temos
condições de pagarr porr um lugar como sua casa! Com toda essa morrdomia!
Draco teve muito em que
pensar naquela noite, mal conseguiu dormir. Todos notaram as olheiras dele no
café da manhã.
CONTINUA