ATO VI - TUDO PASSA
Os tempos foram difíceis naquela época, talvez mais do que hoje,
mas nada mais me preocupava, eu estava perdido de amores, era protegido por
olhos nublados da verdadeira versão do Lorde das Trevas. Quem sabe eu mesmo
houvesse bloqueado minha visão para não fazer sofrer a consciência com as
tremendas barbaridades que cometíamos. Quem sabe eu estivesse muito apaixonado!
Tão apaixonado e feliz que não sobrava espaço para maus sentimentos. Nem eu
mesmo sei o que me acontecia na alma, na mente ou no coração! Eu estava cego!
Ainda era um dos melhores do mestre, era um dos mais procurados e um dos mais próximos.
Minha fama se conhecia há distâncias inimagináveis. Meu nome era grande:
Karkaroff. Porém, nada dura para sempre. Momentos felizes devem ser vividos ao
extremo antes que se dissipem com o vento ou que se percam por entre os dedos
como grãos de areia. Eu os vivi, tenho certeza, porém, Aubrey partiu cedo de
meu coração, deixando um grande rombo nele.
Foi um longo ano aquele, havia muitos altos e baixos, mas com
Aubrey acalentando-me os sentimentos tudo era simplesmente esquecido. O mestre estava
ciente do poder dela e conhecia cada detalhe de nós, o que o tornava magnânimo.
Acreditava que ele não possuía sentimentos como o ciúme e amor, mas alguém que
é tão extremo vive oscilando entre muitos sentimentos, especialmente os de
posse. E eu não era nada discreto. Aubrey sempre me alertara sobre isso, mas eu
não lhe dava ouvidos. Nunca fui advertido pelo mestre, entretanto jamais me
passou pela cabeça que ela pudesse ser. Foi Snape quem me fez ver a verdade
quando, certa manhã, me puxou pelo casaco e depois comprimiu minha cara contra
a fresta na porta de serviço da biblioteca. “Veja, Malfoy, o que seus impulsos
causam!” E diante de meus olhos, estreitados pela pequena fenda, estava Aubrey
prensada contra a parede e o mestre metendo-lhe o ferro à força, machucando-a
mais psicológica do que fisicamente ao proferir frases ofensivas.
― É
assim que ele a trata? - rosnava ele apertando-a, enfiando-se nela
energicamente. - Ele te faz sentir assim? Olha-te como se fosse devorá-la... e por que? O que você dá a ele?
― Mi...
milor... de
- ela apenas gemia.
― Pede para ele parar? Isso o deixa excitado? - Ele se metia nela
com mais voracidade. - O maldito te faz sofrer e você gosta?
― Nã...
não.
― Claro que gosta! Tanto é
que quer mais! Eu sinto! - ele rosnava como louco, os lábios bem na orelha
dela, humilhando-a. - Nem pede a ele que se controle! Você o deixa agir assim
porque gosta que eu a trate desta forma, não, Aubrey?
― Per... doe...
me, milor... de!
― Sim, a perdôo! - e mexeu-se
com muito mais intensidade. - Perdôo!
Então parou. Afastou-se fechando
o zíper e afivelando o cinto, enquanto Aubrey caía de joelhos, de frente para a
parede, completamente envergonhada.
― Prestou atenção, idiota! -
Snape proferiu quase inaudível. - Saia daqui agora! E pense melhor da próxima
vez, ao lançar esses olhos asquerosos sobre ela! - E fui-me, mas daquele dia em
diante não mais a toquei, nem mesmo a olhei. Eu é que estava envergonhado.
Eu havia presenciado muitas
cenas de ciúmes do Lorde em relação à Aubrey. Algumas até muito violentas, mas
como ela era bruxa, as conseqüências podiam ser facilmente remediadas. A
mulher, porém, parecia não se intimidar apesar de sempre ter agido sorrateiramente
em relação aos nossos encontros. Exceto pelo escandaloso do Malfoy, o único
outro homem que a possuía, além de mim, era Karkaroff. Esse era um grande
estúpido, encontrava-se completamente apaixonado, cego pelo tratamento que ela
lhe dava. Não o culpo, claro, sempre foi um fraco,
contudo Karkaroff era ignorante o suficiente para pensar que Aubrey poderia
escolhê-lo algum dia. Algo me dizia que a história não terminaria bem. Nada
terminava bem nas mãos de Voldemort. E como era impossível fugir dela, nos
envolvemos. Ela passava infinitas horas, se eu lhe permitia, contando-me
diversas coisas, desde sua infância até aqueles dias. Eu apenas a ouvia, não
fazia esforço para responder ou opinar, só me esforçava quando ela me oferecia
seu corpo porque era impossível lhe dizer um não, mesmo que este soasse bem
alto. Bem, não era em nada um esforço, era uma irresistível vontade de
possuí-la. E assim como eu a sentia, Voldemort deveria sentir.
― O
que está me dizendo, querida Aubrey? - Voldemort falou meio que aos tropeços. -
Que esperas um filho meu?
― Sim,
milorde - respondeu ela desprovida de qualquer sentimento, os olhos baixos, nas
mãos do mestre.
― E
pode provar que é meu, minha cara? - ele foi direto, sabia intimidar como
ninguém da mesma forma que sabia ofender. No caso, eram as duas coisas, todos
sabiam quem era Aubrey.
Ela o olhou, segura de si, e disse sem
rodeios:
― O filho que espero foi concebido na noite anterior àquela na qual
o senhor ordenou a entrada dos comensais na casa de nosso Ministro. A criança nascerá no dia 14 de setembro, às 19 horas. Terá uma marca
igual à... à que o senhor tem sob o braço esquerdo,
sobre as costelas.
Voldemort sorriu com a precisão dela. Aubrey retornou a baixar os
olhos.
― Assim sendo, teremos um filho - murmurou ele não passando muita
confiança a mim. Aubrey lhe deus as costas, mas então Voldemort continuou: -
Contudo, como carrega um bem tão precioso, nenhum outro homem, a não ser eu, de
hoje em diante, poderá tocá-la!
― Sim, milorde - respondeu calmamente, mas seu interior deveria
estar explodindo. Bem o sei porque eu sabia como ele
geralmente a tratava quando estavam sozinhos. Ela nos deu as costas e saiu da
sala. Fez-se um breve silêncio, e Voldemort foi quem o quebrou.
― Saia, Severo! Quero ficar sozinho.
― Sim, mestre - respondi de imediato. E ao fechar as portas da
biblioteca, pude vê-lo encostado com os cotovelos sobre o batente da lareira,
as mãos entre os cabelos, certamente ruminando sobre o que Aubrey lhe
confessara. Em seguida, quase corri corredor afora à procura de Aubrey.
Encontrei-a na cozinha, de pé, encarando o nada. Pus-me defronte a ela e só
segundos depois de tocá-la foi que me viu.
― O que aconteceu?
― Eu tive uma visão - ela disse simplesmente, seca. - Meu filho não
irá nascer! - murmurou.
― Como assim não irá nascer? Por que não? - indaguei, estava pouco
ligando para a resposta, preocupava-me com ela.
― Ele não irá nascer porque irei...
morrer bem antes de minha barriga crescer! - lançou
ela.
― O quê, mulher? - Eu a
sacudi bruscamente. - O que está dizendo? Não seja tola! Previsão! Humfr! Previsão raríssimas vezes dão em alguma coisa!
Entretanto, ela apenas
fechou os olhos, deu-me as costas e saiu. Eu estava petrificado ao chegar a
minha casa com a possibilidade de perdê-la. Não queria ser pessimista, mas
Aubrey sempre ajudou Voldemort com suas previsões e o que raramente ocorriam a
elas eram erros!
And
But who’s to blame?
For a love that wouldn’t bloom, for the hearts that never played in tune.
Like a lovely melody that everyone can sing take away the words that rhyme it
doesn’t mean a thing.