ATO II
Asseguro que fui o primeiro a conhecê-la. Fui o primeiro a bater
os olhos nela e colocar as mãos em seu corpo. Fui aquele a quem ela procurou
com mais freqüência e o que ela sempre cumprimentava. Falo aqui de homens
comuns, como nós, o mestre era um caso a parte, ele tinha mais poderes do que
todos nós juntos, poderia qualquer coisa e não me surpreendi quando aquela
linda mulher adentrou a sala com os brancos dentes cintilando para ele.
Passaram pelas criaturinhas asquerosas, os elfos, e pararam metros adiante,
perto do grande portal de entrada. Ele me chamou por meu nome de batismo e nos
apresentou: “Lúcio, esta é Aubrey Wildsmith. Este
é Lúcio Malfoy, minha cara!”. Fitamo-nos, eu e ela. Seus lábios sorriram de
um jeito diferente, os olhos grandes e marrons me analisaram; levei segundos
para deixar de admirá-la, foi o mestre quem me trouxe à realidade depois de rir
alto da minha cara. E foi duro e áspero o chão em que caí... Havia feito meus
votos, estava casado, jamais poderia ser inteiramente dela.
Vou dizer-lhes o porquê de tamanha admiração por aquela mulher.
Tudo teve início numa tarde amena de agosto, porém devo explicar que, havia
meses, nosso mestre, Lorde Voldemort, andava mais irritadiço do que de costume,
nada o saciava, ou correspondia às suas exigências, ou sequer o animava. Não
hesitava em culpar o primeiro que lhe aparecesse à frente pelas derrotas ou
perdas que tínhamos. Quando adentrou a mansão, naquela manhã, com a notícia de
que havia recrutado um montante razoável de novos seguidores, mas que ainda
assim não se contentava com o irrisório contingente, suamos frio. Dizia-nos o
quão insatisfeito estava com o pensamento dos bruxos naqueles tempos, preferiam
ser subjugados, torturados e até terem parentes mortos antes de se unirem a ele
ao invés de simplesmente lhe dizerem sim e seguirem-no em busca de um novo
mundo, onde apenas bruxos existiriam e governariam. Não que o mestre negava-se
a obrigar alguém a se juntar a ele, não, isso nunca! Estava apenas aborrecido
porque, apesar da péssima reputação, a comunidade bruxa ousava ignorá-lo! E
nosso Lorde mostrava seu poder, sem pena ou piedade, assolava lugares e
pessoas! Será que os tolos que ouviam falar do Lorde das Trevas não percebiam
quanto o estavam enlouquecendo por o ignorarem quando trucidava tudo pela
frente apenas pelo desejo de realizar suas visões? Praguejando, esperou até o
meio-dia pela resposta de um secretário do Departamento de Supervisão aos
Trouxas, e de outros dez funcionários, confirmando seu ingresso em nossas forças
anti-trouxas. Nenhuma coruja
apareceu. Nenhum mensageiro ou elfo também. Blasfemou e andou até a porta
principal com a varinha nas mãos. Sabíamos que alguém sofreria as
conseqüências, só não sabíamos quem seriam os desgraçados... até
ele abrir a porta. Se eu estivesse na Rússia, nu em plena praça, ainda assim
não teria tremido como tremi naquele instante: uma figura longilínea
transpareceu pela claridade, rindo graciosamente e estendendo a mão para o
mestre. Ele estancou, petrificado como eu, olhando para a mulher a sua frente.
Ele sorriu belamente. “Afrodite em vida aparecera!”, se fôssemos gregos era o
que teríamos dito.
And
We tripped the light and danced together to the moon, but where was
No it never came around if it did it never made a sound,
Maybe I was absent or was listening to fast, catching all the words, but then
the meaning going past.
Karkaroff apareceu branco em minha frente, idiota! Só ele mesmo
para pensar que milorde iria acabar com algum de nós, mas o russo era assim
mesmo, cheio de medos, transpareciam a todo instante. E agora estava ali, duro feito uma pedra, na minha frente, atrapalhando meu
caminho. Empurrei-o para longe e segui na direção do hall, ia ter com milorde
antes que fosse tarde, já o estavam procurando pelos arredores de Londres e
mais uma aparição na cidade naquele dia não iria dar em boa coisa. Foi então
que vi outro com a cara branca, quase transparente, era Lúcio. Minha paciência
não custava nada a se ir, ainda mais rodeado de perdedores como aqueles que se
babavam por mulheres em vestidos ajustados demais. Parei atrás do milorde, com
os olhos no chão e pedi licença. Ele virou-se para mim. “O que foi, Severo?”, perguntou ele, “Olhe para mim!”, e o fiz.
Arrependi-me, pouco depois, de ter me aproximado. O largo sorriso em seus
lábios me fez perceber que já não tinha a intenção de sair da mansão, e o ar
suicida não habitava mais seus olhos. Ainda rindo abertamente, puxou-me pela
mão e pôs-me defronte a mulher que Lúcio acabara de cumprimentar. Maldita! A
hora e a mulher! Duas coisas diferentes, mas igualmente odiosas! O tempo porque
jamais parava quando precisávamos dele e a mulher porque era a serpente em
vida, a traição em pessoa... a perdição!
O nome “Voldemort” era evidenciado e temido mais do que
nunca, ninguém o pronunciava. O Lorde das Trevas era chamado de inominável
agora. Nenhum de nós admitia, nem mesmo o Lorde, mas ela, Aubrey, era a
responsável. Desde que aparecera naquele começo de tarde, as coisas mudaram.
Estávamos mais fortes, com mais sorte. O mestre, muito mais confiante. Coberto
de honras, vivia dando festas exacerbadas, cheias de
pompa. A mansão era meu lar, havia colocado de lado meu trabalho no Ministério,
minha esposa, que tanto queria me dar um filho, já que a união Black-Malfoy foi muito comemorada. Estava cego pela fartura
naquela mansão, saciava-me de tudo ali, especialmente de Aubrey. Não, porém,
quando o mestre estava em casa. Não,
nunca quando ele estava em casa porque ao Lorde ela pertencia e somente a ele
se entregava. Ela fazia questão de mostrar isso trajando os melhores vestidos,
comportando-se maliciosamente, deixando-nos em ponto de bala. Foi assim naquela
noite, depois de uma longa reunião sobre os próximos passos para a destituição
de Alvo Dumbledore junto ao Conselho Bruxo e à diretoria de Hogwarts, o ponto
inicial do plano do mestre. O mestre rondava a sala, alto, esbelto, cheio de
si, a soberba em pessoa. Os cabelos castanho-escuros brilhavam muito refletindo
a suave luz das velas já bem derretidas. Seus olhos também castanhos, mas que
puxavam para o mel, convidavam para uma conversa, e sabendo o quão bem ele
articulava, quão bem expunha suas idéias, todos o queriam perto de si. E ele
era de todos, era apaixonado por todos, ou apaixonado por si mesmo e motivado a
cativar. Mas era maravilhosamente lindo, poderoso, o centro de tudo. Quem me
dera ser como ele. O medo me impedia.
― Conte-nos outra vez sobre sua
visita à casa do Ministro, meu caro, Rodolfo. Divirto-me cada vez mais com tal
história!
― Ora,
mestre, foi como a sorte ser minha mulher! - Largas gargalhadas encheram o
salão. As chamas das velas balançaram rápido, acalmando-se segundos depois.
“Era tarde, não achei que ele estaria sozinho, já que sua fama não
é das melhores. Mulherengo ao extremo! Mas entrei de qualquer forma. Peguei-o
com as mãos na massa... literalmente! Mas não com quem eu esperava! Lá no chão,
de quatro, estava o ministro sendo cavalgado por seu secretário baixinho e
ruivo!” - As gargalhadas se tornaram mais fortes. Alguns até se engasgaram. -
“Eu não pude deixar de olhá-los por alguns segundos! Não que eu estivesse
apreciando, mas a coisa é estranha em si... um baita saco batendo ritmado no
seu traseiro...” - Novamente o gargalhar ecoou. Alguém deixou um capo cair no chão,
risos tiraram sarro do pobre coitado, zoando dele por estar aficionado à
história de Rodolfo.
“Juro que estava prestes a dar meia-volta e sumir dali, esquecer
que aquela aberração de ministro existia, mas daquele momento em diante eu
teria vergonha de ser bruxo, de ter um homem desses no comando de nossas
forças! E minha varinha tremia no bolso, queria ser usada. Empunhei-a, ela
flamejava, e pigarreei. Se pudesse ter tirado alguma foto da cena nem teria
matado aqueles miseráveis! Admito que a comida voltava
pela garganta, mas as expressões deles... ah, que satisfação em vê-las! Os dois
deram um pulo e ao tentarem se pôr de pé, permaneceram grudados... ” - Já não
era possível para alguns continuar a ouvir, os soluços e engasgos provocados
pela graça da história eram quase mais barulhentos que as gargalhadas do
próprio mestre. - “Fui obrigado a rir da situação, mesmo envergonhado. A demora
em se separarem foi tanta que eu não tive paciência, matei-os como estavam:
grudados!”
Por um tempo mais demorado o salão se encheu de gargalhadas,
sussurros e zoeira. Era impossível saber quem achava mais graça naquele
momento. Apenas foi possível dizer quem havia se calado por primeiro quando uma
mulher apareceu na sala. Foi anunciada pelo toque dos saltos de seus sapatos
sobre o mármore negro da escadaria de entrada. Adentrou o salão sorrindo,
envolta em um grosso casaco de peles. Os homens se afastavam para deixá-la
transcender entre a entrada e o centro do salão, onde estava o mestre, de forma
igualmente satisfeito, os olhos âmbar, ambiciosos por aquela que se aproximava.
― Minha cara - cumprimentou o
mestre.
― Milorde - sussurrou lhe
estendendo a mão, reverenciando.
― O que a atraiu? - quis saber o
homem a quem todos fitavam.
― O senhor - murmurou dando as
costas para ele numa meia-volta. Tirou lentamente o casaco, com o auxílio dele,
e jogou-o sobre uma das poltronas. Os olhos do mestre ficaram presos nela, que
mesmo de costas lhe observava e sorria. Assim que girou o corpo sobre os pés,
de forma delicada e suave, os cabelos negros, grossos e longos dançaram pelo
ar, todos puderam descobrir o que chamara a atenção do mestre. O vestido de
cetim vinho ajustava-se como uma luva naquela mulher, e não continha costas,
era exageradamente aberto; a cintura do vestido sobrepunha-se pouquíssimo acima
da linha dos ossos do quadril.
Os joguinhos novamente. Frívola dos diabos! E como o mestre
gostava daquilo, da reação que ela provocava em todos. Sentia prazer em nos
fazer pecar. Quem me dera não ter que ver isso, Spinner’s End jamais a atrairia e eu estava tentado e lhe dizer que
era lá minha casa!
Ah, esplendor, teu nome é mulher... Aubrey, sangue puro correndo
nas elegantes veias. Lúcio, Lúcio, isso tudo é seu, espere só até a noite após
o mestre deixar a casa e você a terá!
Cegos estão meus olhos, cheios de vergonha igualmente, que por tal
visão ousaram passar em frente a tantos outros homens! Ai, de mim! Ai, de mim,
que não sei oclumência! E me chamam de grande Karkaroff!
And
I never knew her, but I loved her just the same, I loved her name.