ATO I
Os dias não eram mais os mesmos. A casa estava vazia sem aquela
voz, sem as altas gargalhadas que ecoavam pelo salão de festas e acabavam nos
estreitos corredores que levavam aos nossos quartos. Ainda podia ouvi-la chamando
meu nome, melodiosa, querendo algo mais do que aparentava querer. E sempre
queria. Sempre conseguia. Nem mesmo meu proposital mau humor a desviava de seu
caminho, de seu objetivo. Era energética, decidida, não aceitava não como
resposta. Por isso me perseguia se
excitando com minhas constantes negativas. Eu me protegia - tentava, pelo menos
-, mas ela insistia em me desafiar, insisttia em tentar quebrar a “carapaça na
qual eu vivia me escondendo” - era o que ela afirmava sobre mim. Eu, Severo
Snape, enganado sobre mim mesmo? Nunca. Não. Mas o som de um quase inaudível não
a transformava em outra mulher, e aí, meu amigo, você pagaria por todos os seus
pecados, ao mesmo tempo em que incluiria mais alguns em
conta.
Presto a atenção a tudo sempre que passo pelo jardim de inverno. Especialmente
quando as janelas envidraçadas estão abertas. O ar me parece melhor, mais
respirável. Sinto o perfume dela e a vejo ali, onde adorava estar, observando a
paisagem, onde passava seu tempo rodeada por todos.
Todos, sem distinção, mesmo quando em companhia de desprezíveis elfos, não
distinguia, não conhecia tal palavra, mas como era distinta! Ah! Os simples
gestos, toques, a forma como bebia o vinho. Todos a admiravam, a bajulavam e
adulavam, entre infindáveis outras formas de agrado... Fazíamos também, nós, o
grupo seleto, mais do que os outros, sem sentir vergonha por mostrar quem éramos quando deveríamos aparentar não sermos. E relacionado
a isso eu tinha muita vantagem sobre todos, pois aprendi desde cedo a aparentar
ser algo que não sou. Bem, como um Malfoy, eu realmente sou muitas coisas:
poderoso, influente, rico, sangue puro, mas escondo tantas outras coisas que
até mesmo eu tenho vergonha de ser.
Era certo que todos sabiam sobre nossos joguinhos, nossas
aventuras com aquela mulher, mas só alguns, um número restrito de homens,
contados apenas nos dedos de uma mão, compartilhava dela. Em verdade, ela nos
compartilhava, nos fazia de tolos, nos humilhava e continuávamos aos seus pés.
Era inevitável, garanto. Mas por vezes, quando sozinho, dizia a mim mesmo que
não mais a deixaria se aproximar. Faria com que ela percebesse que eu não era
um joguete, que eu era um homem, e diferente de todos ali, ao qual deveria
respeitar e apenas socializar-se, nada mais, nada menos. Pobre de mim o dia em
que ela percebeu o que eu pretendia. Afirmo que se não a conhecesse há tempo,
pensaria que ela me amava... e muito. Tolo, eu apenas
alimentara outra fantasia daquela mente perversa, cheia de vontades
insaciáveis, quem sabe comandadas pelo próprio mestre para testar ou tentar seu
mais fiel comensal: Severo Snape.
Para cada dia naquela mansão, eu precisava recuperar um ano da
minha vida! O que eu jamais conseguiria porque não se pode voltar atrás, não se
pode mudar o que está escrito sem destruir muito ao redor. E eu já tinha me
perdido, estava casado com uma boa mulher de sangue puro, de uma das famílias
mais antigas que existiam, os Black. Contudo, eu morria cada vez que pisava
naquela mansão e olhava dentro dos olhos da mulher que ladeava o mestre, como
se ele fosse o único que valesse a pena. Ela sempre parecia absorta das longas
conversas cheias de falsidade, às quais eu era um dos mais ativos. Era preciso,
tinha que me precaver ou seria rebaixado a um simples subordinado. Não que eu
fosse o grande braço direito de meu mestre, também não estava longe de sê-lo, mas
havia muitos de nós, muitos seguidores, cheios de encanto pelas novas idéias, cheios
de soberba para segui-las à risca e com muita vontade para lutar pelo que
achávamos ser certo e justo. Nosso mestre nos vislumbrava com suas idéias, e
cegados pela beleza de um mundo melhor, abraçávamos tudo a nossa frente. Mesmo
que estivéssemos, de início, duvidosos ou desconfiados do rumo que tomariam
certas atitudes, o mestre conseguia convencer-nos de que tudo terminaria bem...
E para os poucos de quem, acredito hoje, ele suspeitava que duvidassem um pouco
mais, mostrava seus desejos e realizações de forma baixa e vil: através dela - da
mulher, da rainha daquele mundo criado por Voldemort -, passávamos a concordar
com todas as palavras que ele dizia.
Rogo pelo fim dos meus dias, para que com ela possa me encontrar
no lugar onde se encontram as almas que nos corpos já não habitam mais.
Encontrar-me-ei com aqueles brilhantes olhos castanhos, que me contavam os
piores, porém, devaneadores segredos. E mesmo que, durante sua ausência eu
fosse devastado da face do meu ser, assim que ela a mim se dirigia tudo voltava à tona, meus pés conduziam-se pela senda que ela
criara para seu escravo me tornar! Ó afortunado escravo fui,
com uma senhora cheia de comiseração e de afeições que me elevavam à condição
de rei. Mas desgraçado foi o ser que dela me afastou, arrancando de mim tudo o
que havia de bom, atirando-me novamente ao inferno desta vida. E não importa
que me cuspam sobre a face: “Ó, Karkaroff, quão grande tolo fostes por jamais
pensar em ti mesmo, por viver uma vida estúpida e inócua!”. Não mudaria nada
nesta reles existência por saber que, se assim o fizesse, indubitavelmente não
a teria conhecido e o vazio que assolaria meu pobre coração em tempo algum
seria preenchido. Minha senhora sempre esteve em primeiro lugar. Precisamente como
nosso mestre ordenava, e sujeitávamos-nos a sua vontade, assim igualmente ela
nos administrava. Éramos subjugados a sua cobiça, suas delinqüências, as suas
necessidades... Lindamente era a dona de tudo em mim, e se me ordenasse o pior,
eu o teria feito... e fiz, levado por meu mestre,
inconscientemente ordenado por ela. Sim, admito hoje que eu fiz.
And
But who’s to blame?
For a love that wouldn’t bloom, for the hearts that never played in tune.
Like a lovely melody that everyone can sing take away the words that rhyme it
doesn’t mean a thing.