ATO FINAL
Voltei para a mansão do
Lorde das Trevas vários dias depois. Estive engajado em um serviço altamente
secreto juntamente a Avery, sabíamos que nosso retorno deveria vir acompanhado
por ótimas notícias, caso contrário, o mestre ficaria realmente zangado. No entanto,
além de não se preocupar muito com os aliados que trouxemos, o mestre estava
diferente. Tudo na casa estava diferente. Nas reuniões com os Comensais era
explícito que nenhuma esposa, que não fosse Comensal, permanecesse na casa, Malfoy,
porém, aparecia sempre de braços dados à dele. E Karkaroff não estava mais
presente, fora mandado à Bulgária em busca de aliados. Ninguém parecia se
importar com Aubrey, pois era óbvio que o mestre a tinha afastado de todos,
apenas eu temia por ela, temia pelo jeito como Voldemort deveria estar
tratando-a. Apesar disso, surpreendi-me com o caminhar das coisas. Nenhuma
reunião era feita na grande sala, agora as reuniões agora eram realizadas no
porão. Os assuntos subdivididos em hierarquias de maior ou menor confiança.
Nunca mais de cinco pessoas permaneciam na presença do mestre. Voldemort estava
muito cauteloso. Demais. Ninguém desconfiava do por quê.
Seguramente digo que, no momento em que Aubrey pisou na cozinha,
naquela repugnante e fria manhã de domingo, cuja madrugada fora lastimável,
enfurnados num casebre, em tocaia aos aurores, eu soube que nada seria o mesmo
naquela casa. Eu soube exatamente qual era o motivo da prudência do mestre. Aubrey
tinha os olhos pequenos, as escleras completamente vermelhas, indicando pouco ter dormido durante a noite, ou então chorado muito. A
princípio optei pela primeira opção, o mestre foi quem me mostrou a verdade.
― O
que houve, minha querida? - perguntou Voldemort
interessadíssimo nas feições de Aubrey.
― Não
foi nada, milorde - respondeu baixando o rosto, pegando qualquer xícara sobre a
mesa e servindo-se do café. Ele não se deu por convencido, forçou o corpo sobre
o dela, prendendo-a contra a mesa.
― O
que foi? - perguntou inquieto, segurando-a pelo queixo, obrigando-a a
encará-lo. - O que aconteceu?
Ela sorriu brevemente para ele, a xícara tremendo tanto quanto as
mãos, mas foi para mim que olhou, implorando por uma saída, uma ajuda.
― Olhe
para mim! - ordenou Voldemort. E os dois cruzaram os olhares em absoluto
silêncio durante minutos. Por fim, ela respirou profundamente e as lágrimas lhe
correram pela face rosada. - O quê? - urrou ele em seguida. - Como é? Não! Não
pode ser?! - e a empurrou para o lado, afastando-a de perto de si como se fosse
um objeto sem valor.
Pela primeira vez pude ver que ele a repudiava,
que a queria bem longe de si e daquela casa, e de sua vida, mas não teria
acreditado se eu mesmo não o tivesse presenciado, se não fosse tão receptivo às
coisas mágicas. Naquela manhã, o Lorde leu a mente de Aubrey e, acredito, nunca
o tenha feito antes, mas naquele dia, ela não era a mesma mulher, não era nem
sombra da bela e forte mulher que sempre se mostrara ser, estava preocupada,
desolação era o que demonstrava sua aparência, permanecera acordada noite
adentro remoendo um breve sonho.
“Alguém observava uma casa pequena de dois pavimentos pelo lado de
fora, pelo outro lado da rua. A luz no andar de cima estava acessa, nenhum
barulho vinha de lá, mas vez ou outra um vulto aparecia por entre as cortinas
alaranjadas. Um cachorro latiu quando, longe dali, uma lata de lixo caiu.
Outros cachorros latiram também, dando início a um coro. Então, um encapuzado
se aproximou do portão de madeira que dava acesso a casa, fazendo-o ranger
baixinho ao ser aberto, e caminhou pela calçada de pedras até a porta de
entrada. Um brilho saiu das mãos do encapuzado e mostrou uma varinha apontada
para a fechadura da porta. Silenciosamente entrou e fechou a porta atrás de si!
Um breu invadiu tudo por dois segundos e então um quarto apareceu. Uma mulher
com uma criança nos braços. Um pedido, uma súplica. Mais uma morte e se
seguiria uma terceira se a varinha não tivesse emitido tanta claridade cegando
quem quer que estivesse no quarto! Tudo desapareceu.
Apenas um fiapo de vida sobrou e evaporou daquela maldita casa! Não havia mais
varinha, corpo ou mágica, somente desespero e dor! Semivida
e fim! Voldemort desaparecera!”
Voldemort andou para a porta balançando a cabeça negativamente,
não acreditando naquilo. Desapareceu corredor acima, sem aceitar qualquer
explicação ou opinião.
― Precisa
convencê-lo a aceitar, Severo! - era ela aos meus pés agora. Nem a havia notado
ali. Ainda estava com os olhos na porta por onde o mestre passara tão alterado.
Aubrey me encarava, os olhos marejados, as mãos trêmulas. - Ele precisa
desistir desse plano! Por favor, faça-o enxergar isso! - choramingou com a voz
tremida.
Não me abaixei para consolá-la, apenas a fitei e pude ler sua
mente outra vez e rever tal tormento. Não havia como saber se aquilo fora um
sonho ou uma premonição, os acontecimentos recentes causavam a todos nós
pesadelos e noites de insônia. Eu queria acalmá-la, queria lhe dizer que tudo
ficaria bem, mas ela se apresentava totalmente desarmada quanto ao mestre,
mostrava o quanto o amava e se preocupava com ele. Eu a odiei naquele momento.
Eu até mesmo achei que ela merecesse sofrer daquele jeito.
― Ele
está decidido, mulher. Não há nada que nenhum de nós possa fazer! - foi apenas
o que lhe disse, da forma mais brusca e ofensiva que pude buscar dentro de mim.
― Não!
- ela berrou agarrando minhas vestes com mmais força. - Diga a ele! Você sabe
que é verdade...
Abalei-me mais. Como podia uma mulher amar um homem daqueles? Era
certo que todos éramos desumanos, não tínhamos um pingo de amor no coração, mas
ela amava o mestre, amava aquele monstro. Eu dei um passo para trás e a olhei
de lado.
― Não
sei de nada! Você teve um sonho que pode ou não se realizar. Levante-se e vá
descansar em seu quarto. O mestre já estava nervoso antes de saber sobre seu
sonho. Espere-o se acalmar e converse com ele mais tarde.
Aubrey pareceu consentir quando
baixou os olhos e saiu soluçando da cozinha. Queria confortá-la, apesar de
estar ciente que eu era mesmo um joguete naquelas mãos, porém, o mestre
precisava de mim. Segui para a sala de estar e parei perto da lareira onde ele
estava. Encaramos-nos, mas ele não disse uma palavra sequer. Sentou-se e fechou
os olhos. Fiquei de pé até outros aparecerem e relatarem sobre o andamento do
plano. A manhã surgiu devagar, a chuva não queria deixar o dia clarear.
Estávamos novamente no porão. Passamos a noite em claro, o mestre nos obrigou,
já que ele mesmo não pregou os olhos. Eu sabia que o motivo era Aubrey. Ele nem
ao menos a recebera na madrugada quando ela quis lhe falar. Acredito que ele a
via como um agouro depois de tudo. Entrementes, a mantinha ainda na mansão.
Os planos, nos dois meses que se seguiram, foram executados à
risca, não poderia haver falhas. Logo, muitos aurores, alguns dos mais
renomados, e adoradores de trouxas foram exterminados. Não houve piedade. E o
mestre se deleitava quando reconstituímos as histórias para ele. Na verdade, eu
jamais entrei naquele aposento quando Voldemort e os Comensais se reuniam para
saborear as vitórias daquela forma. Mas eu sabia bem que um dos Comensais
preferidos dele era Belatriz Lestrange, que torturara uma família inteira,
deixando-os à beira da loucura e vegetando para o resto de suas vidas
medíocres.
Finalmente voltei. Ah, que resplendor! O sol brindava-me o
regresso à mansão do mestre.
Iluminava-me o caminho até onde ela estava. No entanto, somente tormento encontrei quando a vi de longe, brincando com as
plantas entre os dedos macilentos. Estava pálida e doente, a tristeza a
dominara por completo e despedaçou-me o coração não poder acalentá-la.
Encontrei Severo ao pé da escadaria, também com os olhos nela, mas quando me
viu, desviou o olhar e me fez perguntas sobre a Bulgária. Não as respondi. Pela
primeira vez na vida, o enfrentei.
― O que está acontecendo?! Tudo isso está fugindo ao controle dele, não é? - o peguei pelo
braço, puxando-o para o vestíbulo, ele arregalou os olhos, totalmente espantado
com minha atitude.
― Karkaroff, eu não sei o que deu em você...
― Estou farto disso tudo! Estou farto de ficar longe dela! -
respondi com voracidade. Eu não deveria, mas realmente estava descontrolado.
― Aubrey pertence ao mestre. Sempre soubemos disso. Nunca mais fale
nela desse jeito, muito menos do mestre... Não quero nem imaginar o que lhe
aconteceria. Agora, largue-me! - foi o que me respondeu. E então apontou o dedo
na direção do jardim e, sob a treliça onde uma trepadeira florida sombreava um
banco largo e confortável, o mestre tomava a mão de Aubrey. Eu o soltei. Eu o
deixei seguir em frente, continuar a obedecer ao Lorde das Trevas. E não fiz
nada em relação à mulher que amava. Desejei que Severo tomasse uma atitude,
sabia que ele era capaz e muito corajoso, porém, ele mesmo se encontrava
diferente. Parecia mais cuidadoso do que de costume, mais discreto, mais
restrito às palavras. Taciturno. Parecia premeditar os acontecimentos. Queria
ser um inseto para poder ouvi-los lá no jardim.
― Milorde, que bom que veio me ver.
― Não se empolgue, minha cara - ele disse sem rodeios -, eu quero
que você me diga... foi apenas um sonho, não foi?
― O senhor quer ouvir a verdade? Ou quer que eu lhe diga o que
deseja ouvir...
― Mulher tola! - berrou ele lhe dando as costas.
― Por favor, mestre, ouça-me. Entenda que só lhe peço para ter mais
paciência. Não haja imprudentemente...
― Tenho que seguir o plano! É preciso destruir todos! - ele tinha
os olhos vidrados. - Eu quero o poder absoluto!
― Mas, milorde, o senhor domina muitos e é temido por milhões!
Descanse um pouco. Dê um tempo e então retorne com mais força...
― NÃO! - berrou esbofeteando-a. - Saia da minha frente! Não quero
vê-la mais!
― Milorde - ela implorou.
Voldemort ergueu a cabeça, girou sobre os pés e afastou-se da
mulher. Não havia retorno. Ele a rejeitara definitivamente. Aubrey, porém, não
agiu com discernimento. Correu atrás do mestre e o alcançou nos primeiros
lances da grande escadaria.
― Milorde! - chamou ofegante, apoiando-se no corrimão.
Ele estava impassível. Continuou subindo os degraus.
― Milorde, por favor! - impetrou num tom mais alto.
Nós o conhecíamos muito bem, súplicas, por mais insistentes que fossem,
o deixavam unicamente com mais ânimo para o pior. Eu vi os olhos de Severo
marejaram ao som da voz dela. O mestre seguia subindo a escadaria sem
demonstrar qualquer afeto. Então ela gemeu alto, com as mãos no ventre. Eu
arregalei os olhos, Severo correu até ela, o mestre parou e se voltou para
fitá-la.
― Você está bem?
― Severo, convença-o! Por favor!
― Ah, mulher - rosnou Snape revoltado -, cale-se ou vai perder a
criança. Vou levá-la para seu quarto.
― Não, Severo - era a voz do mestre, vinda de trás dos dois -,
deixe-a ai mesmo.
― Aq... Como?! - gaguejou Snape. -
Deixá-la... aqui?! Seu filho...
― Severo, meu caro, eu sou Voldemort! Eu sou o único! - estava
implícita a ordem. Snape se pôs de pé lentamente, sem tirar os olhos de Aubrey.
― Milorde... - ela suplicou uma última vez ainda, as mãos apertando
o próprio corpo, o sangue correndo pelas pernas.
― Implora para que a ouça. Vejam! - riu o mestre. - Mas ela não
entende que não aceito discordâncias. Seguirei meu plano, com ou sem você,
Aubrey - e voltou a subir a escadaria, deixando-nos sem poder fazer nada, ele a
queria morta.
Eu não fui homem o suficiente para desacatá-lo. Nem mesmo Severo
foi. Ele apenas pôs a mão sobre a boca, abafando o desespero e o choro, os
olhos mantidos fechados a todo custo. Uma única coisa, porém, não podíamos
impedir a nós mesmos de fazer: ouvir os gemidos cada vez mais abafados dela,
que desapareciam em fiapos, juntamente à respiração e
ao sangue.
Ó, dia fatídico! Dia da perdição. Carregarei comigo a maldição de
ser eternamente malvado. Nem mesmo o próprio Deus poderá me absolver de tamanha
crueldade que deixei acontecer. Hoje sei que jamais fui merecedor do amor
daquela beldade. Que me adiantou desejar desesperadamente tal mulher se nada pude
lhe dar? Nada poderia ainda que tivesse sido minha! Mais do que qualquer homem
eu a quis, aspirei viver a seu lado... Todavia, jamais poderia satisfazê-la.
Ela era muito! Mais que isso! Era o infinito, o
impossível! O que ambicionava ia além de qualquer sonho mortal! A viver outra
vida aprendi, enquanto vivi sob o sabor dela. Por Merlin, como sinto sua falta!
Sinto, em suma, jamais ter espalhado ao mundo que foi minha, porque em um breve
momento verdadeiramente foi!
O sonho se tornou realidade. A premonição dela foi sua sentença de
morte. O bastardo também morreu, um pequeno consolo.
Mas eu o servi. Pior! Eu o servi e venho pedir clemência ao inimigo dele, um
homem cujos olhos vêm o que não está em sua frente, um homem que sabe que para
sempre impregnada em mim estará a lembrança de que não
mereço ser chamado de humano, e sim de monstro. Carregarei a morte por onde
caminhar, jamais esquecerei que deixei inocentes
morrer, e por tal irredimível ação, seguirei acreditando que nenhuma remissão posso
merecer.
But God I miss the girl and I’d go a
thousand times around the world just to be closer to her than to me.
But how I miss the girl and I’d go a million times around the world just to say
she had been mine for a day.