O inverno chegou. Toda aquela neve me fez sentir muito melhor. Eu
gostava de sentir o ar frio passar pelo meu rosto, me lembrava de quando era
criança, da época em que eu brincava de guerra de bolas de neve... E era o que
os alunos mais novos faziam lá fora nos jardins.
-
Professor Snape?
-
Sim? - respondi me virando
para o salão.
-
Gostaria de conversar com o
senhor.
-
Alguma razão extrema para que
você me dirija a palavra, Potter?
-
Bem... não exatamente... -
respondeu ele espantado - É sobre... Hermione...
-
O que tem a senhorita
Granger? - perguntei erguendo uma das sobrancelhas.
-
Ela... ela anda estranha...
-
E o que eu tenho haver com
isso? - respondi parecendo irritado.
-
Bem, ela está diferente desde
que fez aquelas entrevistas com os professores... acho que aconteceu alguma
coisa.
-
E eu tenho cara de ser o pai
dela ou algo do tipo, Potter? A diretora da Grifinória é McGonagall se me
lembro.
-
Mas é que... bem... ela anda
falando dormindo...
Meu olhos se arregalaram sem meu comando.
-
Onde quer chegar?
-
Ela fala sobre o senhor!
-
Sobre mim? - gaguejei - O que?
-
Nada que faça sentido...
-
O que está tentando insinuar,
Potter? Que eu fiz algo a senhorita Granger? - vociferei fazendo-o dar um passo
atrás.
-
Alguém fez algo porque ela
não sai do quarto! Ela vive chorando!
-
Veio até aqui para me acusar?
É isso que estou entendendo?
-
Quero saber o que aconteceu
entre o senhor e Hermione.
-
Ora seu pivete, como se
atreve? Saia da minha frente! - disse empurrando-o e saindo do salão.
Eu sei o que tinha acontecido. Eu não havia marcado um lugar para
me encontrar com ela e a deixei desconsolada. Mas eu havia prometido a
Dumbledore que nada aconteceria entre nós! Entretanto, daquele dia em diante,
Potter e Weasley não largaram do meu pé. Viviam me seguindo, se é que se
poderia chamar aquilo de seguir, já que eu sabia que eles estavam ali. Resolvi
esclarecer as coisas com a senhorita Granger e acabar com tudo aquilo. Redigi
um longo pergaminho contando a ela sobre minha conversa com Dumbledore e depois
sobre a conversa com Potter. A resposta foi quase imediata.
“Querido professor Snape,
não sabe como ver sua letra e receber palavras suas me deixa feliz. Sim, andei
deprimida, mas agora entendo o seu lado da situação. Seria difícil para todos
aceitarem uma relação como a nossa já que sou muito mais nova que o senhor, mas
eu o amo e não posso mudar isso! O senhor poderia ao menos me deixar vê-lo,
poderíamos nos encontrar na torre de astronomia tarde da noite ou algo assim...
eu só queria beijá-lo mais uma vez.
Quanto a Dumbledore, ele me
procurou também e eu lhe contei tudo. Eu não pude esconder nada dele, sabia que
ele compreenderia. Foi ele quem me fez ver seu lado da história. Me pediu para
ter paciência e disse que às vezes nos enganamos com nossos sentimentos, às
vezes pensamos que sentimos as coisas. Não sei se ele quis que eu esquecesse o
senhor ou se ele quis que eu o deixasse em paz... mas não posso. Quero que o
senhor prove que também não pode... o baile de Inverno está perto, gostaria de
ir com o senhor. Por que não me convida?
Agora, quanto a Harry, pode
deixar que eu mesma vou dar uma lição nele. Sei que ele está preocupado comigo,
mas não tem o direito de se meter na minha vida! Sempre Hermione Granger. ”
Convidá-la para o baile? Seria como sentenciá-la? Mas também seria
uma forma de mostrar que não fiz nada de errado com ela! Pois se eu tivesse
feito, ela nunca aceitaria meu pedido. Sim, era isso mesmo, era isso que eu
faria.
Depois do jogo de quadribol, o qual a Sonserina venceu, todos os
alunos foram a Hogsmeade. Eu também. Esperei que a senhorita Granger e seus
dois amigos, Potter e Weasley, estivessem juntos e me dirigi até eles.
-
Boa-tarde, senhores, se
divertindo? - perguntei vendo que cada um tinha os bolsos cheios, só deveriam
ser de doces, e as mãos ocupadas com grandes taças de sorvete. Eles olharam
para mim espantados.
-
Boa-tarde, professor Snape. -
respondeu-me a senhorita Granger - Passeando em Hogsmeade também? É seu
aniversário, por acaso?
Haviam uns seis alunos naquela mesa e todos eles seguravam a
respiração.
-
Não, não é meu aniversário.
Mas para dizer a verdade é um dia especial. - respondi sorrindo. Os olhos dos
alunos estavam quase saindo de órbita, por certo era pelo sorriso que acabara
de sair dos meus lábios.
-
Um dia especial? O que tem de
mais no dia de hoje senão um usual Sábado em Hogsmeade? - retrucou a senhorita
Granger fazendo expressão de monotonia.
-
Bem, como devem saber, o
baile de Inverno é no próximo Sábado e todos já devem ter seus pares, não estou
certo?
Ouvi alguns murmúrios de entusiasmo e outros não.
-
Ainda não arranjaram pares? -
perguntei muito irônico - Ora, vocês não são formandos? Não são os maiorais? -
e ri - Pelo menos alguém desta mesa vai ter par! - continuei e pude ver os
olhos de Granger brilharem mais do que o normal - Se a senhorita Granger
aceitar, é claro!
-
A-aceitar? - repetiu ela se
levantando e pegando no meu braço.
-
Como é seu último ano e como
alguns boatos... nada verdadeiros andam correndo pela escola, eu achei que
deveria convidá-la para ser meu par no baile. Acha que pode com o maldoso
professor de poções? - brinquei sarcasticamente.
Os outros alunos quase desmaiaram, enquanto Granger se conteve
para não pular de alegria.
-
E por que não, professor?
Nada mais justo que eu o acompanhe, já que sabemos quem é que andou inventando
tais boatos. - respondeu Granger olhando diretamente para os amigos.
-
Muito bem, então. Vou
deixá-los acabar a sobremesa, mas realmente espero que ela não lhes faça mal!
Deixei-os e pude ouvi-los conversar indignadamente com Granger.
Não me preocupei, pois naquele momento descobri que ela sabia muito bem o que
queria e não iria deixar ninguém impedi-la de conseguir.
Pois lá estava eu, Severo Snape, o professor mais odiado de toda
escola, vestido a rigor, esperando uma garota, uma aluna, para acompanhá-la ao
baile. O que é que eu fui fazer para merecer isso? Bem... acho que fiz muito,
mas já paguei o preço! E eu odeio festas. Uma bando de hipócritas no mesmo
salão, fingindo se gostar e uns tentando sobressair-se aos outros. Era muita
bobagem para uma noite. Eu queria desistir, mas estaria decepcionando a
senhorita Granger, pois ela havia esperado muito por aquele baile. Peguei um
copo de cerveja amanteigada da mesa à minha frente, voltei para o hall de
entrada e andando pelo corredor, vinha uma mulher muito bonita. Olhei novamente
e percebi que meus olhos me haviam pregado uma peça! Era nada mais, nada menos
que a senhorita Granger, inacreditavelmente linda naquele vestido de festa. Os
cabelos estavam presos e seus olhos estavam evidenciados por uma contorno preto
forte, mas muito bonito.
-
Senhorita
Granger!
-
Pelo que
mostra sua cara deve estar impressionado! - disse ela.
-
Muitíssimo.
-
Era o
que eu queria! - murmurou perto da minha orelha.
Ela sorriu maliciosamente e continuou
andando, me deixando ali plantado com cara de bobo. Eu a segui rapidamente e
lhe estendi o braço. Ela o tomou e entramos no salão principal. Fomos sentar na
mesa dos professores perseguidos por olhares curiosos.
Aquela noite a deixou mais radiante do que
qualquer outro dia. Nem mesmo quando ela recebia as notas máximas ela ficou
feliz daquele jeito. Dançamos várias músicas e conversamos bastante. Ela se
mostrou outra pessoa, não tinha nada de uma adolescente irritante e
impertinente. Parecia mais madura, não sei se era aquela roupa ou se foi aquele
ano que a fez amadurecer. Agindo daquela forma, ela me fazia sentir como se eu
não fosse tão mais velho e me deixava à vontade, muito à vontade. Eu até toquei
o rosto dela. Não deveria tê-lo feito no baile, pois aquele gesto atraiu muitos
olhares e me deixou muito embaraçado, contudo, eu não conseguia me conter. Ela
estava se mostrando cada vez mais tentadora, cada vez mais parecida com a
mulher que sempre desejei ao meu lado, com a mulher ideal para mim!
Granger dançou com Potter, Weasley,
Dumbledore... pareceu muito alegre com ele. Provavelmente, o diretor e ela
estavam falando sobre mim. Mas desde que ela estivesse feliz, nada mais
importava. É, eu estava mesmo apaixonado. Era só ouvir o que eu estava
falando...
Ela quis que eu a acompanhasse até o jardim
depois do baile, era muito tarde e eu respondi que não. Cada um deveria ir
dormir já que a semana seguinte seria um exaustiva semana de exames finais...
para ambos. Granger não gostou. Me deu as costas e escondeu o rosto nas mãos.
Parecia estar chorando. Me aproximei por trás e a toquei nos ombros.
-
Hermione...
posso lhe dar algo para se lembrar durante a semana. Mas não quero que perca
muito tempo pensando em mim. Esta semana é muito importante para você, vai
ajudá-la em seu futuro.
Ela se virou e tocou meu peito. Não estava
chorando.
-
Pensar
em você não é perder tempo, Severo!
Ouvir aquilo foi como ouvir uma suave música.
Eu a beijei e a abracei, apertando-a por alguns minutos. Até que ela me
afastou.
-
Sabe o
que Dumbledore me disse?
-
Para
tomar cuidado comigo, pois eu poderia magoá-la?
Ela riu.
-
Ele me
disse que eu deveria cuidar muito bem de você, pois você é uma preciosidade!
-
Eu? -
murmurei rindo.
-
Você
nunca me magoaria, Severo, pois eu estou em você, mais do que pensa. Estou
aqui! - disse ela apertando meu peito bem sobre meu coração.
Minha respiração ficou pesada e levei meus
olhos para longe dos dela, ela tinha certeza do que acabara de falar e eu nem
havia me declarado ainda, não verbalmente. Voltei a olhar para ela, que me
puxava de volta para o castelo. Seguimos na direção das masmorras. Eu não
queria nem pensar no que ela pretendia, me puxava com tanta determinação. Ela
sabia o que queria muito mais do que eu!
Paramos em frente ao meu quarto. Ela sorriu
girando a maçaneta.
-
O que
acha que está fazendo?
-
O que
ambos queremos!
-
Hermione,
eu... não posso!
-
Você
disse que me daria algo para me lembrar de você durante a semana...
-
Sim, mas
não foi nisso que pensei.
-
Achou
que eu me contentaria com um beijo? - confessou ela irônica.
Eu estava pasmo.
-
Eu estou
preparada, Severo, não quero fazer isso porque acho que devo a você... quero
fazer porque eu quero saber com é estar com você!
-
Você já
sabe como é estar comigo, oras, eu...
-
Não. -
disse ela colocando a mão sobre minha boca - Eu quero saber como é que você
trata uma mulher!
Agora eu estava surpreso.
-
Eu quero
ser tocada, quero te mostrar meu corpo... quero ver o seu... apesar já tê-lo
visto, ih, ih!
Espremi os olhos e sorri. Puxei-a para dentro
do meu quarto e a beijei. Sabia que daquele momento em diante as coisas seria
muito diferentes para nós dois, mas seriam piores se eu não cumprisse com as
expectativas que ela tinha sobre mim. Entretanto, eu não iria agir de forma
diferente a que sempre agi, eu não precisava provar nada a ninguém, eu era quem
era, se alguém iria me amar, era por eu ser eu mesmo e fingir ser outra pessoa
não iria funcionar comigo.
Eu afastei-a de mim, interrompendo o beijo
que ela havia me dado. A olhei de cima a baixo. Toquei seus cabelos e corri
minhas mãos pelo rosto, pescoço, ombros e pela cintura dela. Hermione respirava
profundamente e tinha as mãos no meu peito.
-
Eu só
posso ser o que sou, não me peça para fingir ou aturar...
-
Severo,
me mostre quem você é!! - disse ela impaciente.
Então a tomei nos braços, deitei-a na cama e
a beijei. Foram longas horas de calmaria e fúria, de sussurros e suspiros, de
beijos e carícias... até que ela adormeceu nos meus braços.
Acordei tarde na manhã seguinte, me sentindo
cansado, mas feliz. Me espreguicei e deitei de lado na cama. Meu travesseiro
tinha um perfume diferente, tinha o perfume de Hermione.
-
HERMIONE?!
- gritei espantado saltando da cama.
Eu mal acreditei no
que estava vendo. Uma névoa saía do meu banheiro, por entre ela eu podia ver
Hermione, que estava dentro da banheira, lavando seu corpo com a minha esponja.
Levantei, caminhei até lá, parando à porta e a observei. Ela encontrava-se
alheia ao que estava ao seu redor, nem havia escutado meu berro a pouco.
Observei tudo ao seu redor e pude concluir
que ela era justamente do jeito que eu havia imaginado, muito minuciosa. Sobre
a pia haviam cremes e outras coisas (de mulher), as quais nem fazia idéia de
que existiam ou o que eram... e todas estavam dispostas uniformemente. Até a
escova de dentes estava preparada para quando saísse do banho.
Entrei e me encostei na parede em frente a
ela. A esponja continuava a deslizar pelo seu corpo, contornando-o, enquanto
ela olhava para mim com um sorriso maroto. Seus cabelos estavam soltos, os
cachos úmidos, caíam sobre seus ombros. Me agachei, tomei a mão dela e a beijei.
Hermione se aproximou e tocou meu rosto. Meus lábios se abriram, eu quis dizer
o que sentia, o quanto a amava, mas não deu tempo e nem foi preciso, ela me
beijou e me puxou para dentro da banheira.
Pensando bem agora, Hermione teve o controle
em todas situações em que eu estava presente e naquela não foi diferente. Ela
me olhava, brincava comigo como se soubesse que eu não passava de um
cachorrinho, o seu cachorrinho, pois ela tinha certeza que se pedisse algo eu rastejaria aos pés dela...
sim, eu era um bonequinho nas mãos dela. Nunca pensei que uma mulher
conseguiria de mim tudo o que quisesse, não da forma que Hermione
conseguia. Porém, quem a visse se
banhando daquela forma, não faria a mínima idéia do que ela era capaz, do quão
convincente e persuasiva ela poderia ser... de quanto poder ela tinha sobre
mim. Mas eu, somente eu, sabia que ela era mais frágil do que uma flor, que nas
minhas mãos ela era a mais feliz das mulheres.