Eu havia ficado afastado das minhas
aulas durante duas semanas. À pedido de Dumbledore, havia ido à Londres
resolver umas questões financeiras de Hogwarts, mas fui atropelado por um
trouxa maluco em uma motocicleta. Socorreram-me imediatamente, mas fui obrigado
a ficar internado num hospital da cidade. Eu quase implorei para que me
deixassem voltar para casa, mas os médicos não me liberaram, tinham medo que
algo me acontecesse, já que eu havia batido a cabeça e ficado desacordado
durante algumas horas. Aquilo não era nada comparado aos acidentes que eu havia
sofrido! Aquele, em particular, seria facilmente tratado pela madame Pomfrey, ao
contrário dos trouxas que me enfaixaram toda cabeça e me deixaram isolado em
uma sala muito branca, que me dava náuseas. Tornou-se impossível me comunicar
com Dumbledore durante essas duas semanas porque os trouxas não me deixavam
fazer nada, nem ao banheiro eu podia ir, tinha que usar uma coisa estranha que
parecia um pequeno caldeirão todo amassado. Ah, que tortura. Que semanas!
Quando apareci em Hogwarts e
Dumbledore me viu todo cheio de hematomas, ele ficou pálido como a neve, apesar
de já ser muito branco, o velhote. Eu disse a ele que não era preciso se
preocupar com o assunto ao qual ele me confiara, pois, por sorte, eu o tinha
concluído antes de sofrer o acidente. Mas Dumbledore nem deu bola para aquilo,
me levou direto para a enfermaria onde Madame Pomfrey me tratou. Como foi bom.
Era bom estar nas mão de quem entendia!
Naquela noite mesmo, eu estava
curado. Voltei para meu quarto e o cheiro peculiar das masmorras me aconchegou.
Abri a pequena janela e deixei a brisa noturna invadir o lugar, mas não foi só
ela quem entrou. Uma coruja minúscula apareceu toda aloprada. Ela deixou cair
um envelope e saiu do meu quarto tão rápido quanto entrou. Eu nem precisei ler
para saber de quem era aquela carta. O perfume que emanava do papel já havia
falado por si.
“Caro professor Snape, todos em Hogwarts
estavam muito preocupados com o sumiço do senhor. Chegamos a pensar coisas
absurdas sobre o que talvez lhe tivesse acontecido. Ainda bem que o senhor está
bem! Hermione Granger ”
Eu sabia que não era o certo a
fazer, mas eu precisava fazê-lo. Peguei um pedaço de pergaminho e respondi
imediatamente.
“Gentil
senhorita Granger, obrigado pela palavras tocantes, mas duvido que alguém, além
de Dumbledore tenha se importado com a minha ausência. Cordialmente, Severo
Snape. ”
Na manhã seguinte, recebi um olhar
de pura indignação. Eu conhecia bem aquele olhar. Ela o lançara para mim
inúmeras vezes quando a tratei por senhorita Sabe-Tudo. Assim que minha aula
terminou, um vulto se formou em minha frente, estava parado, apertando os
livros contra o corpo.
-
Algum problema, senhorita
Granger?
-
Sim, professor! -
respondeu-me ela ferozmente - Dumbledore não foi o único a se preocupar com o
senhor!
-
Bem, talvez não. Pomfrey e
McGonagall sempre me apoiaram...
-
O senhor não enxerga mesmo,
não é?
-
Não enxergo o que, senhorita
Granger? Uma garota apaixonada por seu professor? Aquele que é odiado pelo
resto da escola? Ou o próprio professor apaixonado por sua aluna?
Ela não ficou parada em minha frente por mais de dois segundos. Saiu
em disparada porta da classe afora! Eu apoiei meus cotovelos na mesa e escondi
minha cabeça entre as mãos, me arrependendo do que acabara de falar. Nada que
eu dissesse ou fizesse iria mudar aquela confissão. Entretanto, eu sabia que
ela sentia o mesmo. Eu queria que ela sentisse.
Os dias que se seguiram foram os piores para mim. Além de ter que
vê-la, eu sentia seu desprezo, sua indiferença. Ela não se pronunciava mais nas
minhas aulas e nem mesmo levantava os olhos. Eu ficava imaginando que a razão daquilo
eram Potter e Weasley, que a tinham influenciado. Eu queria acreditar naquilo,
seria algo razoável, algo aceitável. Mas eu sabia, lá no fundo, que ela não
queria ser vista comigo, não daquela forma, como... como... sua namorada.
Eu já não aguentava mais aquela agonia. Faltavam três meses para a
formatura e se eu não tomasse uma atitude logo, nunca mais a veria! Naquela
noite, redigi uma carta me desculpando pelo que havia dito. E na manhã seguinte
veio a resposta... “Encontre-me no jardins de Herbologia na tarde do próximo sábado.”
Foi uma tortura esperar. Mas a tarde do Sábado chegou e eu
encontrei a senhorita Granger sentada num dos bancos atrás das estufas. Me
aproximei, cumprimentei-a e parei dois metros distante dela. Ela deu uns
tapinhas no banco indicando o lugar onde queria que eu me sentasse. Aquele
momento estava se tornando insuportável.
-
Deixe-me falar, professor. -
iniciou ela olhando-me nos olhos - Eu... eu não pensei que o senhor sentisse
algo por mim. Achei que estava sendo gentil ao me tratar daquele jeito.
-
Foi uma estupidez falar
aquilo, eu não queria...
-
Mas já estava mais que na
hora de um de nós se expressar!
-
Como é? - perguntei curioso.
-
Eu sei que o que sinto -
disse ela pegando minha mão - é amor. Mas não sei o poder que ele pode ter
sobre mim. - continuou ela levando minha mão até seu coração e me fazendo
senti-lo - Contudo, gostaria que o senhor pudesse me mostrar.
Não era o momento para palavras
serem ditas, mas minha boca foi mais rápida. Que meus desejos.
-
Senhorita Granger, eu... -
contudo, fui abruptamente interrompido por um beijo doce e singelo.
Foi como ir ao céu e voltar. Como estar numa vassoura a mais de
cem quilômetros por hora... foi... Eu não pude me conter. Apertei-a contra mim
e a beijei mais forte. Acariciei seus cabelos, seu rosto e seus ombros. Beijei
seus lábios, seu rosto e seu pescoço. Eu não quis parar. Mas a realidade era
outra, a qualquer momento alguém poderia aparecer e eu não gostava daquela
sensação de estar fazendo algo de errado! Me afastei dela e a encarei. Os olhos
dela queriam saber o por quê.
-
Não aqui! Não quero que
pensem mal de você! - murmurei levantando-me.
-
É só isso? Esse tempo todo
para receber apenas isso? - perguntou ela impaciente e decepcionada.
-
Senhorita Granger, eu não
posso expô-la dessa forma...
-
Hermione! Meu nome é
Hermione!
Parei subitamente de falar, sorri e acariciei o rosto dela.
-
Hermione... - minha voz
tremeu ao falar seu nome - ...há muito o que saber antes que qualquer coisa
aconteça entre nós...
-
Não quero saber do que se
passou, eu vivo agora!
-
Certamente, mas há coisas
que...
-
Não! - disse ela tocando meus
lábios com seus dedos - Escolha outro lugar para nos encontrarmos, onde você
acha que é seguro.
-
Não há tal lugar em Hogwarts.
E não posso levá-la para fora do castelo!
-
Mas eu quero saber o que há
aqui dentro. - disse ela tocando meu peito e alisando-o.
Eu baixei a cabeça e dei as costas a ela.
-
Muito bem. Me dê alguns dias
e eu terei a resposta.
-
Alguns dias? Quantos? Já não
esperamos tanto tempo?
-
Alguns dias não farão diferença,
minha cara.
Ela não respondeu. Saiu cabisbaixa e desapareceu entre os altos
arbustos. Eu voltei ao castelo, era hora do jantar. Não estava com fome, mas
precisava estar presente. Não levantei os olhos naquela noite. Eu não queria
vê-la me encarando, querendo saber quando e onde nos encontraríamos.
Depois do jantar, fui tomar um ar fresco. Me debrucei sobre o
balcão de uma das varandas e pensei na minha mãe. Pensava nela quando estava
deprimido. Então senti uma mão pesar sobre meu ombro. Me virei bruscamente e
Alvo Dumbledore estava ali, parado, me olhando como que entendendo o que eu
sentia.
-
Professor Dumbledore. - disse
cumprimentando-o.
-
Observando as estrelas,
Severo?
Não respondi.
-
Também gosto de observá-las.
Elas dizem muita coisa.
-
Há algum problema, professor?
- perguntei tentando não falar sobre mim.
-
Me diga você, Severo.
Meu coração disparou. Ele sabia, era óbvio. Olhei para frente e
segurei firmemente o batente na sacada, não queria que ele visse minhas mãos
tremendo.
-
Acho que há algo de errado
comigo. - comecei - Tenho esses sentimentos... por... - eu não poderia
confessar, não - alguém...
-
Sentimentos? Bem vindo ao
clube! - disse Dumbledore rindo - Ninguém nunca imaginou que você pudesse
sentir algo! O que acha do que sente?
-
O que acho? - perguntei
espantado - Há o que achar?
-
Ora, Severo, bem se vê que
você está diferente, porém tenho a impressão de que Minerva e eu fomos os
únicos que notaram!
-
Mc-McGonagall?
-
Sim, foi ela quem me fez ver.
Há meses que você entra no salão principal sem sequer dar bola para a algazarra
dos alunos. Imaginei que ou você havia ficado surdo ou algo muito importante
tirava sua atenção das crianças.
-
Sim, claro... é algo
importante, mas não sei se tem muito futuro... bem, ela não é do nosso meio...
-
Tem certeza, Severo?
-
Não totalmente.
-
Então não é empecilho, já é
um começo! - disse ele mais sorridente ainda - É bom sentir-se assim, não? Um
calor invade o peito, o sorriso não sai dos lábios, seu coração vive
disparando... Ver a pessoa amada pode alegrar o coração mais triste. - e ele
parou dando um suspiro - É assim que você se sente, Severo?
-
Professor Dumbledore...
-
Não precisa se envergonhar.
Eu só peço que não a magoe, Severo, ela tem uma vida toda pela frente, qualquer
problema agora pode acabar com uma vida inteira...
-
Mas eu.... não...
-
Confio em você, meu amigo.
Sei o quão responsável e honesto você é, mas nós somos homens e somos fracos. -
aquilo soou como se ele já tivesse vivido um momento como aquele.
Eu balancei a cabeça, afirmando a ele que nada aconteceria entre
eu e minha amada, não até que ela estivesse pronta. Nem que fosse preciso
esperar anos! Dumbledore sorriu, deu um leva tapinha no meu rosto, como que
zombando da minha cara e me deixou sozinho.