Era manhã de Sábado, dali há algumas horas um importante (não para
nós, sonserinos) jogo de quadribol, Corvinal versus Grifinória, estaria sendo
disputado. Eu estava na biblioteca, escondido. Não gostava de ouvir a euforia
dos grifinórios. Eles eram tão... detestáveis. Estava lendo a última edição do
Profeta Diário, nada de mais, quando a senhorita Granger entrou. Ela olhou em
volta e pregando seus olhos em mim, veio caminhando com um sorriso malicioso e
cheio de soberba. Um agouro estranho passou pelo meu corpo.
-
Bom-dia, professor Snape! -
disse ela sorridente.
-
Bom-dia, senhorita Granger.
Algum problema? - perguntei.
-
Problema nenhum. A professora
Minerva me disse que o senhor estaria aqui. É que eu queria entrevistá-lo.
-
O QUÊ? - sem perceber eu
gritei. Foi Granger quem me alertou que eu gritara, ela sussurrou e balançou a
mão num sinal pedindo que eu falasse mais baixo, afinal, estávamos na
biblioteca.
-
Eu formulei algumas questões,
se quiser respondê-las agora, seria melhor para mim!
-
Res-responder agora?
-
Sim. Eu lhe faço a pergunta e
o senhor responde. - disse ela irritada. Ah, garota sabichona, como seu eu não
soubesse o que era um entrevista.
-
Me dê essa folha de
perguntas! - disse envergonhado, mas com ar de quem estava ironizando. Dei uma
rápida olhada nas perguntas e me assustei. Com certeza as respostas não seriam
fáceis, não que eu não conseguisse, mas se eu me atrapalhasse (o que era bem
provável que acontecesse, com ela ali me olhando) seria uma tragédia! - Irei
respondê-las e entrego a folha a você quando terminar.
-
Como o senhor quiser! - ela
deu meia volta e saiu calmamente.
Era três perguntas. Três. Porém parecia que eu teria de responder
a um inquérito!
Um mês se passou. A senhorita Granger não estava mais me
atormentando com olhares observadores. Mas ela ainda esperava que eu lhe
devolvesse a folha de perguntas com as devidas respostas. Se fossem para
qualquer outra pessoa, eu já as teria devolvido porque eu já tinha respondido,
mas parecia que nada que eu escrevesse seria entendido pela senhorita Granger.
Eu queria impressioná-la. Queria que ela sentisse o que é ser professor ali em
Hogwarts e ter que dar aulas a todos aqueles pestinhas!
Eu a via constantemente conversando com outros professores,
provavelmente estaria entrevistando-os aos poucos, conforme suas dúvidas
aparecessem. Poderia ter sido assim comigo também, mas o senhor Me-Dê-A-Folha-Que-Eu-Mesmo-Respondo
teve que aparecer! Resolvi entregar a ela uma das respostas. Deixei um bilhete
sobre a mesa dela na aula de poções. Ela foi a primeira a chegar e quando viu
minha assinatura no bilhete, abriu um largo sorriso, mas não leu naquela hora.
Neste ponto ela era muito correta. Tinha uma hora para tudo. Quando era hora de
estudar era hora de estudar e nada mais!
Depois do almoço, a vi sair rápido do salão principal. Ela correu
até a biblioteca, jogou os materiais sobre a mesa e abriu meu bilhete
apressadamente.
“Cara, senhorita Granger,
desculpe a demora em lhe entregar a resposta, mas como deve saber um professor
tem muitas outras tarefas além de ensinar. Quanto à primeira pergunta, se eu já
havia pensado em ser professor, bem, nunca pensei. Minhas intenções iam contra
qualquer coisa que envolvesse voltar a Hogwarts. Não que eu não gostei de
estudar aqui, mas as companhias não me foram as melhores. Andei muito por esse
mundo depois de me formar. Fiz coisas das quais não me sinto muito orgulhoso,
mas por outro lado ganhei muito com elas, principalmente experiência! O diretor
Dumbledore viu em mim alguém em quem poderia confiar quando me deu este
emprego. Ele sabia do que eu era capaz. E provei isso deixando que nenhum aluno
passasse por mim sem aprender. Bem, não contando com o senhor Longbotton, é
claro! Lecionar é algo que me faz enxergar além do que eu enxergava. Apesar de
não ser muito paciente com os alunos, eu acho que cumpro com meu dever!
Severo Snape.”
Na aula de poções seguinte, ela me agradeceu e disse que esperava
ansiosa pelas outras respostas. À partir daquele momento, passei a vê-la de
outra forma. Ela não era muito diferente de mim. Éramos os dois inteligentes e
aplicados, discretos e sérios. Granger se diferenciava de mim por querer se
exibir quando se tratava de responder perguntas dos professores, enquanto eu,
ficava no meu canto, sabendo tudo, mas não me vangloriando.
Passada mais uma semana, entreguei a ela a segunda resposta.
Mandei através de uma coruja. Ela deve ter recebido à noite, imagino que a lia
enquanto estudava debaixo dos lençóis, da mesma forma que eu fazia!
“Cara senhorita Granger,
vejo que pensou bastante nas perguntas que me faria. Fez as mesmas aos outros
professores ou personalizou-as? Bem, pensei muito sobre como via Hogwarts e
seus habitantes. Minha infância aqui não foi uma das melhores, como já havia
citado. Os sonserinos naquela época era perseguidos por causa de Voldemort e
comigo não foi diferente. Não via a hora de me formar e sair daqui. Mas o
destino foi tão irônico, ele me ajudou, hoje sou eu quem persigo. Porém, faço
isso com um propósito, acentuo o defeito de cada um para que a própria pessoa
se corrija. Eu não sou uma pessoa que demonstra o que sente através de
sentimentos. Sou sempre o mesmo, todos os dias, ninguém pode dizer que sou
falso, duas caras. Não sou hipócrita! Se não gosto de alguém esta pessoa saberá
e não há jeito de eu tratá-la de forma falsa. Não há muitas pessoas que eu
goste em Hogwarts. Há as que convivo e as que ensino, ajo conforme cada uma age
comigo. Como qualquer outra pessoa que vive aqui, passo muito mais tempo em
Hogwarts do que em minha casa, sendo assim, é difícil não se apegar. Podemos
nos considerar pessoas de muita sorte, pois Dumbledore não deixa faltar nada! E
até realiza desejos especiais! Hogwarts é muito melhor que qualquer outro lugar
no mundo. Aqui se tem um pouco de cada coisa. Se tem paisagens maravilhosas,
lagos, rios, florestas e o principal, um castelo! Eu perco horas nos jardins
caminhando e observando sua magnificência! E quem mais viveria num castelo
senão reis e príncipes?
Severo Snape.”
Algo pareceu ter acontecido com a senhorita Granger. Ela, agora,
passava por mim nos corredores e me cumprimentava sorrindo!! Fiquei realmente
impressionado com o poder de poucas palavras. Mas o que mais me impressionou
foi a carta que recebi duas noites depois do dia que entreguei a ela a segunda
resposta.
Um gatinho amarelo apareceu na minha
porta naquela noite. Ele trazia um pedaço de papel na boca. Assim que eu me
abaixei para acariciá-lo, ele pulou no meu colo e deixou cair o bilhete nas
minhas mãos. Acariciei seu sedoso pêlo e ele começou a ronronar, mas assim que
eu tentei fechar a porta, o gatinho correu para fora, desaparecendo pelo corredor
escuro. Sorri pensando no quanto eu gostava dos animais. Pelo menos eles não
falavam, só ouviam! Sentei na beirada da cama e abri o bilhete. Era da
senhorita Granger.
“Professor Snape,
respondendo à sua pergunta, eu formulei questões adequadas a cada professor. O
que mais eu poderia perguntar ao professor Binn senão o que ele considerava ser
professor eternamente?”
Eu tinha que admitir, ele era tão irônica quanto eu quando queria!
“Não há muito o que saber
sobre o professor Binn, ele não quer falar da vida... enquanto estava vivo! Eu
teria muitas outras coisas para perguntar. Bem, quanto aos outros professores,
não foi difícil, me dou muito bem com eles e até me ajudaram com as perguntas.
Mas em relação ao senhor, como deve saber, foi o único que se prontificou a
responder manualmente às questões. Ambos sabemos que nossa relação é
estritamente professor-aluno e olhe lá, por isso, achei melhor mesmo o senhor
responder dessa forma.
Agradeço mais uma vez!
Hermione Granger.”
Então ela não se sentia confortável comigo. Hum! Eu nunca dei
chance! Mas também, ela é uma grifinória e não seria bom que nos vissem juntos,
pelo menos não fora da sala de aula. Rapidamente, peguei um pergaminho e
escrevi. Isso não ficaria assim. Ou eu responderia a última pergunta a ela como
todos os outros professores ou não me chamaria Severo Snape.
Era Sexta-feira, tinha a última aula da tarde com a classe de
formandos. Esperei ansioso pela resposta da senhorita Granger, mas ela foi a
última aluna a entrar na classe. Estava com os olhos vermelhos e os cabelos
levemente desarrumados. O que quer que tenha acontecido, deve tê-la deixado
acordada a noite toda, porque ela mal se mexeu naquela aula. Eu só a via
escrever, escrever e escrever. Tentei espiar o que ela escrevia, mas foi difícil
com tantos olhos me seguindo. Aproveitei o momento em que o senhor Longbotton
fez besteira, mais exatamente a hora em que Granger o ajudou, para dar uma
olhada no que ela tinha sobre a mesa. Meio escondido entre folhas soltas,
estava meu pergaminho da noite passada e, logo abaixo, a resposta que ela
queria me enviar, rabiscada em certas partes!
“Professor Snape, acho
que o senhor me entendeu mal quando disse que o senhor se prontificou,
se prontificou não foi? a me responder manualmente. Não quis dizer que
queria que respondesse oralmente. Eu quis dizer que foi uma opção, cada um faz
suas escolhas... Não estou querendo
ser grosseira e não querer que responda...”
Esse foi o trecho que consegui ler. Me afastei rapidamente da
carteira dela, mas ela me olhava assustada, deduzindo que eu havia lido o
bilhete. O que ela fez a seguir me deixou em maus lençóis em frente ao resto da
classe, pois eu não reagi de nenhuma forma e toda sala percebeu que algo estava
acontecendo. Granger jogou todo seu material dentro da mochila e gritou para
mim antes de sair:
-
Professor Snape, como pôde?
Eu fiquei ali parado sem saber o que dizer, mas finalmente gritei:
-
SAIAM TODOS! - e me sentei em
minha mesa escondendo minhas mãos, pois elas estavam tremendo.
Eu não jantei naquela noite. Enquanto caminhava pelo castelo,
fiquei imaginando o porque dela não querer sem encontrar comigo para que eu
respondesse pessoalmente a sua pergunta. Era óbvio para ela e, mesmo querendo
me enganar, era óbvio para mim. Ela nunca pretendeu uma aproximação com a minha
pessoa. Ela me odiava por eu tratar os amigos da forma que eu tratava, com
desprezo. Eu não a culpei, mas ela deveria saber que amigos são amigos e
negócios são à parte! Ela preferiu perder a chance de me perguntar qualquer
outra coisa que quisesse por causa dos amigos, por medo de a verem em minha
companhia... nada que eu também não quisesse, afinal, o que os sonserinos
diriam ao ver o diretor da casa sentado no jardim com a senhorita Sabe-Tudo?
Dei meia volta e retornei ao meu quarto, me joguei na cama e tentei não pensar
naquele assunto.
BAM-BAM-BAM! Acordei assustado! Que diabos, eram cinco horas da
manhã, nem mesmo os pássaros haviam acordado! Abri a porta um tanto sonolento,
poderia ser Dumbledore precisando de algo. Mas não era.
-
Senhorita Granger?
-
Des-desculpe vir assim! -
disse ela sem olhar no meu rosto - É bem cedo, ninguém irá acordar até as sete
horas...
-
Com certeza. - afirmei
irônico.
Foi quando ela olhou para mim com os olhos mais vermelhos do que o
dia anterior. Senti um aperto no peito. Como é que eu pude fazer algum mal a
uma criatura como aquela? Dei um passo à frente e olhei para os dois lados do
corredor. Ninguém a vista, então pedi a ela que entrasse.
-
Sente-se. - eu disse
apontando uma poltrona ao lado da lareira.
Ela se sentou com os braços cruzados. Percebi imediatamente que
era por causa do frio. As masmorras eram assim, muito úmidas e frias, mas eu já
estava acostumado, tão acostumado que estava apenas com a calça do pijama, de
pés descalços e sem camisa. Oh, sem camisa!? O que é que ela iria pensar ao ver
o professor totalmente despido? Peguei rapidamente o lençol e me embrulhei
nele, pois não havia uma camisa sequer jogada no chão ou sobre a cômoda para me
cobrir naquela hora. Com um leve movimento da varinha, acendi a lareira e o
calor voltou a invadir o quarto. Sentei-me à frente dela e a encarei.
-
Eu não quis fazer aquilo na
classe, professor! - ela começou dizendo - Desde que estou fazendo esse
trabalho de entrevista e observação as coisas têm mudado de ângulo...
principalmente em relação ao senhor!
-
Em relação a mim? Mas não me
lembro de ter escrito nada tão perturbador ou...
-
E não escreveu, mas tenho
falado com outros professores sobre o senhor!
-
Têm? - perguntei incrédulo -
Por... que? Quero dizer, para quê?
-
Bem, descobri coisas sobre o
senhor... que me impressionaram.
-
Nem tudo da vida são flores,
senhorita Granger. - respondi levantando, fazendo alguma idéia do que ela
queria dizer. Andei até a lareira e continuei, de costas - Não tenho orgulho
das atrocidades que ajudei a cometer e muito menos de não ter me dado conta do
que Dumbledore tentou me ensinar enquanto estive em Hogwarts, mas não preciso
ouvir suas besteiras adolescentes! Você tem muito mais a aprender do que eu
tive na sua idade!
Falei tão rápido que nem mesmo me lembrei de tudo o que disse e
quando me voltei para ela, sua cabeça balançava negativamente.
-
Eu soube coisas boas sobre o
senhor. - disse ela com a voz tremendo - De pessoas que imaginei não gostarem
do senhor!
Sacudi a cabeça.
-
Vivendo e aprendendo! -
respondei erguendo os braços - Então veio aqui para se desculpar por agir
daquela forma na classe. Muito bem, está desculpada. Agora, se me dá licença...
-
Professor... - ela se
levantou repentinamente e se aproximou de mim - Tudo isso que eu estou sentindo
é novo para mim! É estranho ter uma imagem de alguém e descobrir que ela não
tem nada de verdadeira!
-
E...
-
Bem... acho que estou pronta
agora para ouvia a resposta que o senhor tem para me dar!
Fui obrigado a rir. Foi a gargalhada mais gostosa que já dei, se é
que me lembro de ter dado alguma. Ela riu também, mas parou subitamente ao me
ver encará-la.
-
Me dá um minuto? - pedi a
ela.
-
Claro, professor.
Pensei em pedir para que ela virasse de costas, mas não precisei,
ela o fez instantaneamente. Foi estranho me trocar na presença de alguém! Fazia
tempo que isso não acontecia. Fico imaginando o que ela tenha sentido. Depois
de pronto pigarreei e saímos do quarto, seguindo na direção da biblioteca, que
seria um lugar neutro para ambos.
-
É muito cedo ainda, acho que
não há perigo de fazer um rápido jogo de palavras! - disse ela sentada em
frente a mim - Vejo que o senhor não entendeu! Bem, os trouxas costumam chamar
entrevistas assim de pingue-pongue! Eu direi uma palavra e o senhor me diz o
que lhe vem à mente!
Ergui as sobrancelhas franzindo a testa, sem continuar entendendo
onde ela queria chegar com aquilo. Mas já que estava ali...
-
Pronto, professor?
-
Claro. - respondi
ingenuamente.
-
Hogwarts.
-
Um lugar de paz e reflexão!
-
Ótimo! - riu-se ela, ri também
- Poções.
-
Uma das coisas que faço
melhor!
-
Feitiços.
-
Devem ser usados com cuidado!
-
Varinha.
-
Tem muita gente por aqui que
não deveria andar com uma!
-
Quadribol.
-
Ótimo divertimento, mas
também um bom exercício para aprender a agir em conjunto!
-
Colegas de trabalho.
-
Ah!
-
Sem palavras, professor?
-
Palavras além da conta, minha
cara! Acho que... um bando de debilóides, exceto por McGonagall.
-
Hum-hum. - murmurou ela
escrevendo algo no final da página - Alvo Dumbledore.
-
Alvo Dumbledore? - repeti
refletindo no que poderia falar de tal figura? Certamente ele saberia o que
aconteceu ali, dias depois. Ele sempre sabia das coisas - Dumbledore -
murmurei, tantas palavras e nenhuma perfeita para qualificá-lo. Só o que pude
fazer foi sorrir para ela.
-
O senhor gosta dele, não é?
-
Quem não gosta? - perguntei -
Ele é a pessoa mais correta e irreverente que o mundo mágico poderia ter!
-
Então o senhor gosta de
alguém. - ela repetiu - remexendo nos papéis. Por um instante as perguntas
cessaram. Na verdade, ela queria me fazer mais perguntas, mas estava com
vergonha.
-
É só isso, senhorita Granger?
- perguntei tentando estimulá-la.
-
Bem, eu...
-
Continue então! - indiquei
com o dedo o papel que ela segurava.
-
Um mestre.
-
Dumbledore.
-
Um ídolo.
-
Dumbledore.
-
Uma pessoa inesquecível.
-
Mi-minha mãe. - disse
fechando os olhos.
-
Ela morreu?
-
Sim.
-
Sinto muito. - ela expressou
seu pesar colocando a mão quente sobre a minha que parecia ter rapidamente
congelado, mas Granger não deu importância, parecia mais triste do que eu.
-
Faz muito tempo, senhorita Granger.
-
Eu não sei o que faria se
perdesse minha mãe. Eu a amo muito!
-
Não fui um exemplo de filho.
Talvez minha mãe não me amou do jeito que a sua a ama!
-
Como pode dizer tal coisa? O
que ela diria se o estivesse observando agora?
-
Senhorita Granger, se não se
importa, podemos terminar a entrevista outra hora? - disse me levantando.
Nem deixei que ela argumentasse. Me senti... desnorteado! Não,
não, senti mais do que isso, algo que me indicava que minha mãe estava mesmo
conosco, nos observando e cuidando com o que eu iria dizer. Saí da biblioteca
sem olhar para trás. Voltei para meu quarto, me atirei na cama e me cobri com
dois cobertores, mas minhas mãos continuavam mais geladas do que nunca e eu não
conseguia aquecê-las. Foi então que soube, minha mãe realmente estava comigo,
porque um calor envolveu minhas mãos e elas se aqueceram novamente. E isso
minha mãe sempre fazia. Quando eu ficava triste ou nervoso, fosse qual fosse o
motivo, a primeira coisa que acontecia era o esfriamento das minhas mãos. Minha
mãe sempre percebia quando eu não estava bem e me abraçava envolvendo minhas
mãos com as dela. As mãos dela eram quentes e sempre curavam meu espírito.
Uma gritaria me acordou na manhã seguinte. Eram gritos de garotas.
Levantei zangado e parei em frente à porta do meu quarto com a expressão mais
azeda que pude fazer. Todas as garotas ficaram quietas.
-
Vocês não têm nada melhor a
fazer do que me acordar?
-
Desculpe professor! - disse
uma delas se aproximando de mim - Mas uma garota do terceiro ano disse que viu
o senhor com uma grifinória na biblioteca! Eu não pude deixar isso ficar assim!
Eu tinha que defendê-lo!
-
Mas eu vi sim! - gritou uma
outra garota, que tinha a camisa rasgada.
-
Senhoritas, por favor!
Obrigado por me defender, senhorita Pavarti, mas sua colega está certa. Eu
estive mesmo na biblioteca com uma grifinória.
Foi até engraçado falar aquilo e ver a reação delas, todas levaram
a mão à boca tentando abafar seus gritinhos agudos.
-
Acalmem-se. Ela é aluna do
último ano e está entrevistando TODOS os professores para seu trabalho final!
Quanto a vocês... CIRCULANDO! E NADA DE BARULHO!
Foi impossível voltar a dormir. Rumei para o salão principal,
tomei café de pé mesmo, estava com pressa, e segui em direção às estufas.
Precisava de um ingrediente emprestado da professora Sprout, uma descurainia
que ela havia colhido para mim na lua cheia.
-
Aqui está, Severo! A mais
bonita de todas. - disse Sprout entregando a frutinha com todo cuidado para
mim.
-
Obrigado. Desculpe pela
interrupção!
Eu não gostava de incomodar os professores em seus horários de
aula, mas era difícil falar com Sprout em outra hora, ela sempre estava
embrenhada na mata tentando encontrar mudas de plantas.
Entrei na sala de poções, coloquei a descurainia sobre minha mesa
juntamente com todos os outros ingredientes e os observei. Tudo pronto para
começar a próxima aula. Eu mesmo executaria aquela poção porque duvidava da
capacidade dos alunos fazerem, exceto por... sim, por ela, a senhorita Granger.
-
Mas o que é isso? - me
perguntei quando vi uma livro sobre minha mesa que, com toda certeza, não era
um dos meus. Com raiva, atirei-o contra a parede do quadro, ele caiu dentro da
caixa onde estavam guardados outros materiais esquecidos por alunos - Quem
diabos esqueceu esse livro aqui que procure-o sozinho!
No entanto, um pequeno papel saltou de dentro do livro. Ele caiu
lentamente no chão. Ajuntei, amasse e o atirei na lata de lixo, depois, voltei
ao que estava fazendo. Mas algo me fez olhar novamente para a lixeira. Caminhei
até ela, ajuntei o papel e o abri.
“Caro professor Snape, me
peguei pensando mais uma vez no senhor e não pude deixar de escrever estas
palavras que, há alguns meses atrás, soariam ao senhor como uma peça a ser
pregada, mas hoje, o senhor sabe o que elas significam na verdade... Pois bem,
eu não quis fazer o senhor se sentir mal ao falar sobre sua mãe. Me desculpe.
Eu senti mesmo pelo senhor... Me desculpe também por ter pego na sua mão, se
foi por isso que deixou a biblioteca sem terminar a entrevista. Sei que não
gosta de intimidades, mas só quis expressar o meu pesar. Eu peço que esqueça o
que eu fiz e me encontre na biblioteca, na tarde do próximo Sábado, depois das
aulas, para terminarmos a entrevista. Agradeço desde já, Hermione Granger. ”
Quando a encontrei na biblioteca, uma semana depois, descobri que
havia algo mais naquela intenção de me ver, havia um motivo claro que não era a
entrevista.
Os alunos autorizados foram passear em Hogsmeade enquanto o
impiedoso e maldoso professor de poções esperava a melhor aluna de Hogwarts na
biblioteca. Ela chegou calmamente, sentou-se e olhou para mim sorrindo. Ela
estava radiante. Não vestia o feio uniforme grifinório e sim um belo vestido.
Sentei-me em frente a ela. Um perfume suave entrou por minhas narinas, era doce
e me trouxe lembranças muito felizes de minha infância com minha mãe.
-
A que devo a honra de tê-la
tão bonita à minha frente, senhorita Granger?
Foi uma frase impensada que a deixou embaraçada.
-
Obrigada, professor. -
respondeu ela prontamente, mas olhando para o caderno - Achei que o senhor não
ia querer me ver com o uniforme da Grifinória num Sábado em que a Sonserina
venceu o jogo! - ela me surpreendeu.
-
Certamente. - respondi rindo.
Conversamos com descontração a tarde inteira. Nada sobre
entrevistas, apenas sobre nós. Sobre o que gostávamos ou deixávamos de gostar.
E aquele foi o último dia em que nós nos encontramos, pois a entrevista tinha
sido concluída. Depois disso ela não me procurou mais, nem mandou um cartão.
No entanto, eu perdia horas observando-a debruçada sobre livros na
biblioteca ou deitada no jardim sobre a grama fofa, aprimorando um feitiço. Ela
parecia não me ver. Porém, quando nos encontrávamos nos corredores, ela me
cumprimentava e até parava para me dirigir algumas palavras, mas ela estava
sempre rodeada por aqueles dois... seus amigos...