Havia algum tempo que
eu não se sentia assim, tão vazio, tão solitário. Apesar de ter um ótimo
emprego... se é que trabalhar num lugar como Hogwarts pode se considerar estar
empregado! Na verdade nem vejo como um trabalho, vejo como uma obrigação, como
um favor que devo a um amigo, um amigo muito bom e fiel. Eu faço o que gosto -
tenho um sonho de consumo nada impossível, mas está muito difícil de alcançá-lo
- e ainda, moro num castelo, muito bem cuidado e com todas as mordomias
possíveis, além das mais incríveis paisagens que somente a mãe terra poderia
criar.
Mas
este ano, algo está me incomodando. Eu deveria estar feliz, muito feliz, porque
a escola estará livre de certas pessoas à partir do ano que vem! É certo que
até o ano que vem falta muito, mas só de pensar que o Potter não estará mais
aqui, todo esse peso, essa dor que sinto, deveria desaparecer. No entanto, ela
continua latejando, como um enxaqueca crônica em meu peito. É uma dor estranha!
Olho em volta mas não acho a resposta! Nem mesmo nos dias em que estou longe da
escola, longe dessas pestes que me tiram do sério, eu não consigo descobrir o
que é! Já revivi toda a minha vida e uma única vez eu senti uma dor igual a
essa! Não senti dor tão grande ao levar o susto idiota que o Black e seus
amigos me deram quando me fizeram seguir o Lupin Salgueiro Lutador adentro!
Não, aquilo estava longe de ser dor. Também não foi ao saber que todos na
escola eram mais populares do que eu! Ser popular nunca levou ninguém a merecer
algo...
Nem no dia em que
encontrei o Lorde das Trevas senti medo. Senti... que poderia qualquer coisa.
Senti que ninguém poderia nada... nada contra mim! Mas eu estava errado! Ah, a
dor que sinto agora só se compara à dor que senti quando a pessoa que mais me
amou nesse mundo partiu da minha vida.
Minha... minha mãe, se eu soubesse que a senhora... eu fui tolo à pensar
que todos se sentiriam honrados como eu me sentia, ao trabalhar para um
facínora como Voldemort. Se eu soubesse que a senhora iria morrer de
desgosto...
Olhando agora para esse lugar, o
grande lago onde a lula gigante desliza sobre a água, me lembro do quanto a
senhora quis para mim! Todo aquele orgulho de mãe atirado ao vento, como se eu
não me importasse com nada que a senhora pensava! Tudo aqui em Hogwarts é
maravilhoso! Queria que a senhora visse o quanto eu mudei!
-
Professor Snape? - era a voz
de um aluno - O que o senhor acha?
-
Está pensando que eu me
esqueci de vocês, senhores? Posso sentir o cheiro das poções dando errado há
quilômetros e acho que ninguém desta sala sabe o que está fazendo! Voltem à
página cinco! TODOS!
Aquela turma de primeiro ano não parecia nada inspiradora, como
todas as outras que vieram antes dela. Exceto por uma. Não gostava de admitir,
mas a turma que iria se formar este ano subiu muito em meios conceitos. Tirando
a figura do Potter, aquele garoto insuportável, que todos pensam ser um modelo
de aluno, aquela turma é muito próspera.
-
Leiam todos juntos, em voz
alta, o que é que diz a página cinco! - resmunguei impaciente, como podiam ser
tão estúpidos? Nunca em minha vida colegial deixei de saber algo sobre o que o
professor estava ensinando!
-
Poção Redutora - começaram a
ler os alunos em coro - O efeito da poção redutora é o de regressão. A pessoa
volta a ser jovem. Quanto mais beber, mas vai rejuvenescer. Ingredientes: duas
raízes de margaridas picadas em pedacinhos do mesmo tamanho. Um pinhão
descascado. Duas lagartixas fatiadas. Um baço de rato e um nadinha de sumo de
sanguessuga.
-
Exatamente. Um nadinha de
sumo de sanguessuga. Alguém pode me dizer o que é um nadinha? - bradei com
ferocidade, mas ninguém ergueu o braço ou falou algo - Um nadinha é espremer
algo entre o polegar e o indicador e não poder ver o que tem ali! - e então
gritei - VOLTEM ÀS POÇÕES!
Terminei
a aula experimentando uma das poções, a que deu mais errado, no pior aluno!
Para minha infelicidade não era Longbotton.
Às
sete horas fui jantar. Fui a terceira pessoa a entrar no salão principal. A
primeira é claro, era Dumbledore. Ele sempre chegava aos lugares antes de
todos. E lá estava ele, sentado na cadeira mais alta e mais decorada. Eu não o
encarei. Nunca gostei de fazê-lo, pois sempre que o fiz, ele parecia que lia a
minha mente. Sentei, baixei os olhos e tentei não pensar, mas aquele sentimento
de vazio me invadia, principalmente à noite!
-
Boa-noite, Severo. Como está
hoje?
-
Como sempre. - respondi em
seco, tentei me convencer, em vão, de que Dumbledore não viria falar comigo, no
entanto, ali estava ele. Sempre presente quando alguém não está bem - Me sinto
um pouco indisposto.
-
Sei... - e lá vinha ele com a
mão no meu ombro, pronto para sentar ao meu lado e me dar conselhos. Mas isso
era exatamente o contrário do que eu queria agora - ... você sabe muito bem o
que é, Severo, mas tem medo de admitir!
Eu apenas olhei para ele, com os olhos esbugalhados e me senti
como se fosse desmoronar. Comi tão rápido depois que ele deu os avisos
habituais, que meu estômago continuava doendo horas depois do jantar. Mas ele
estava certo. Eu sabia que a dor que eu sentia era o vazio de amar alguém e não
ser correspondido. Eu queria uma pessoa ao meu lado, alguém em quem eu pudesse
confiar, compartilhar alegrias e tristezas. Eu nunca me preocupei com isso
antes, nunca precisei muito das mulheres. Elas sempre me pareceram tão emotivas
e neuróticas... bem, pelo menos as que eu conheci eram assim. Todas elas
exigiam mais do que queriam na verdade e isso me irritava. Por que é que para
mim tinha que ser de tal forma e para elas não? Por isso, entre outras razões,
eu não me envolvia. Saí com mulheres pelo simples motivo carnal que qualquer
outro homem sai, mas sempre fui muito claro com elas quanto a esse assunto.
Entretanto, nenhuma nunca me chamou a atenção. Nenhuma delas tinha aquele quê
que eu estava procurando... Começo a achar que nenhuma mulher o tem, já que não
a encontro em lugar algum! Só queria uma mulher calma, discreta e
inteligente... não precisa ser um exemplo de beleza... mas exijo que seja
alguém que não queira saber do passado!
Aquela era uma típica manhã de Sábado,
todos os alunos estavam excitados com a visita à Hogsmeade, principalmente os
do terceiro ano, já que seria a primeira vez deles àquele vilarejo divertido.
Eu já não achava mais isso muito eufórico. Não podia negar que Hogsmeade era a
cidade mais divertida de todas as cidades bruxas, mas como algo me faltava, eu
perambulava pelas calçadas, apenas observando por onde andavam os alunos, pois
eles não deveriam se afastar muito do vilarejo.
Naquela manhã, parei em frente à
loja de roupas e bijuterias que ficava ao lado da Dedosdemel. Na vitrine estava exposto um lindo casaco
preto. Gostei dele, não era chamativo, era escuro e tinha um corte reto, com
discretos botões pretos. Resolvi entrar, mas antes olhei para ver se havia
muita gente na loja. Eu não gostava e ainda não gosto de fazer compras com
gente me olhando, principalmente com alunos bisbilhoteiros me olhando. Foi
então que a vi. Era minha aluna, Hermione Granger. Ela estava na loja provando
vestidos juntamente com outras garotas. Eu não pude ver muito bem o rosto dela,
porque agora o sol refletia no vidro da vitrina e ofuscava minha vista, mas ela
estava muito diferente. Entrei na loja e não pude tirar os olhos dela. Era o
vestido mais bonito que eu já havia visto e se aquele seria sua escolha, ela
certamente seria um arraso no baile de Inverno.
-
Pois não, senhor? - era uma
vendedora.
-
Gostaria de provar o casaco
que está na vitrina, por favor. - pedi polidamente a ela, que prontamente me
trouxe o casaco e me levou até um provador. Como se eu precisasse, era só tirar
meu casaco e experimentar aquele.
-
Aqui o senhor terá mais
privacidade. - disse a vendedora me empurrando para dentro do cubículo.
Provei o casaco e ele ficou muito bom. Era difícil isso acontecer
porque sou muito exigente com o que compro. Mas o casaco caiu como uma luva,
não tive dúvidas. Saí do provador com os dois casacos pendurados no braço. Mas
não fui muito além dali, pois dei de cara com a senhorita Granger. Ela provava
outro vestido, muito mais bonito do que o anterior. Era preto e deixava seus
ombros à mostra.
-
Pro-professor Snape? -
gaguejou ela.
Ouvir
meu nome me fez voltar a realidade da situação. Eu estava ali parado,
observando o corpo daquela garota que sempre me irritou. Ela olhava espantada
para mim, como se não entendesse o que eu estava fazendo ali.
-
Bonito vestido, senhorita
Granger. - foram as únicas tolas palavras que saíram da minha boca. Ah, que
criatividade, Snape!
-
O-obrigada, professor. O
senhor também está comprando algo para ir ao baile?
-
Bem... não... exatamente. Nem
sei se vou...
-
Oh, claro. - respondeu ela
tirando os olhos de mim - Bem, preciso voltar a Hogwarts, tenho muito o que
fazer.
Ela pagou pelo vestido e saiu porta afora com pressa. Eu passei o
resto da tarde lastimando pelas palavras certas não saírem da minha estúpida
boca.
A semana seguinte foi muito estranha. Não sei se foi por minha
obsessão pela senhorita Granger se acentuar ou se foi por ela não largar do meu
pé.
Na primeira aula daquela semana, com a turma do último ano, como
sempre, a senhorita Granger terminou sua poção antes do resto da classe.
Reparei que ela olhava para mim mais do que o normal. Aquilo me deixou um tanto
inquieto. O pior é que eu não conseguia fazê-la parar, chamar sua atenção ou
berrar com ela não faria sentido algum já que ela não estava fazendo nada de
mais a não ser me encarar. E isso quase todos os aluno faziam!
As outras aulas da semana foram iguais. Eu não estava aguentando
aquilo. E se os outros alunos desconfiassem. Bem, desconfiar de quê? Nada
estava acontecendo, a não ser para a senhorita Granger que não parava de me
observar. Mas aquela agonia terminou na aula da Sexta-feira. Esperei até todos
saírem da sala. Sabia que ela sempre demorava a arrumar seu material e era a
última a sair. Fiquei sentando em minha mesa, com os olhos nas anotações
daquele dia, esperando o momento certo para abordá-la. Seria assim que ela
passasse em minha frente.
-
Não cansou de admirar minha
beleza, senhorita Granger? - perguntei muito irônico.
-
C-co-como professor?
-
Você me entendeu, Granger e
muito bem. Qual o motivo de me observar tanto durante aulas?
-
Ah, isso? - ela suspirou
aliviada - É o meu trabalho de final de curso! Estou observando e analisando
todos os professores. Vou fazer um relatório final sobre a personalidade de
cada um!
Naquele momento me dei conta de quão estúpido um homem pode ser,
quando não pensa... com a cabeça certa!
-
Um... um trabalho sobre os
professores?
-
Sim, senhor. Achei que
deveria ser feito. Ninguém nunca fez nada parecido!
-
E acha que vai conseguir?
-
Não está sendo difícil. - ela
respondeu balançando os ombros.
-
Observar e analisar não é
difícil. As conclusões é que são. - respondi colocando os dois cotovelos sobre
a mesa e cruzando os dedos - Você vai falar com os professores também ou vai
simplesmente observá-los e depois escrever sobre o que pensa deles?
-
Bem... eu... não pensei
nisso? Achei que uma observação seria...
-
Mais fácil? - perguntei
sarcástico. Foi então que os olhos dela anuviaram e mudaram de meigos para
furiosos.
-
Eu não estou fazendo isso por
ser fácil. Estou fazendo porque acho que os professores também merecem atenção!
- disse ela nervosa. Mas como num passe de mágica, seu rosto voltou a ser
meigo. Eu sabia que era o medo que eu impunha que estava agindo.
-
Pois bem. Faça o que sua
consciência lhe disser. Mas fique sabendo que quem avaliará os trabalhos finais
serei eu!
Aquela não poderia ter sido notícia pior para os alunos e se
espalhou pela escola como a ar. Mas o resultado estava sendo engraçado. Minhas
aulas ficaram silenciosas e nenhum aluno se atrevia a errar uma poção. Gostei
muito. Contudo, eu não perdi por esperar com o que estava por vir. Ah, se eu
tivesse ficado de boca fechada!