| Nesta parte estarão as mais belas nênias dedicadas à Deusa. Abrirei um espaço para os, também belos poemas, de escritores natos como idem aos imortais e malditos da Literatura Universal. Desejo-lhes uma bela leitura e se possível, terno desvaire. Peço-lhes que se ao mavioso momento dese- jarem imprimir uma lembraça a vós, guardem com carinho o nome do au- tor da obra e, encarecidamente, não cometam o plágio, este ato só reflete a incapacidade e derrotra humana diante da própria personalidade e auto- estima. |
![]() |
![]() |
| Soneto Perdoa-me, visão dos meu amores, Se a ti ergui meus olhos suspirando!... Se eu pensava num beijo desmaiando Gozar contigo uma estação de flores! De minhas faces os mortais palores, Minha febre noturna delirando, Meus ais, meus tristes ais vão revelando Que peno e morro de amorosas dores... Morro, morro por ti! na minha aurora A dor do coração, a dor mais forte, A dor de um desengano me devora... Sem que última esperança me conforte, Eu - que outrora vivia! - eu sinto agora Morte no coração, nos olhos morte! A. Azevedo |
| O Soneto Já da morte o palor me cobre o rosto, Nos lábios meus o alento desfalece, Surda agonia o coração fenece, E devora meu ser mortal desgosto! Do leito embalde no macio encosto Tento o sono reter!... já esmorece O corpo exausto que o repouso esquece... Eis o estado em que a mágoa me tem posto! O adeus, o teu adeus, minha saudade, Fazem que insano do viver me prive E tenha os olhos meus na escuridade. Dá-me a esperança com que o ser mantive! Volve ao amante os olhos por piedade, Olhos por quem viveu quem já não vive! A. Azevedo |
| Boa-Noite Boa-noite, Maria! Eu vou-me embora. A lua nas janelas bate em cheio. Boa-Noite, Maria! É tarde... é tarde... Não me apertes assim contra teu seio. Boa-noite!... E tu dizes - Boa-noite, Mas não mo digas assim por entre beijos... Mas não mo digas descobrindo o peito, - Mas de amor onde vagam meus desejos. Julieta do céu! Ouve... a calhandra Já rumoreja o canto da matina. Tu dizes que eu menti?... Pois foi mentira.... ...Quem cantou foi teu hálito, divina! Se a estrla d'alva os derradeiros raios Derrama nos jardins do Capuleto, Eu direi, me esquecendo d'alvorada: "É noite ainda em teu cabelo preto..." É noite ainda! Brilha na cambraia - Desmanchando o roupão, a espádua nua - O globo de teu peito entre arminhos Como entre as névoas se balouça a lua... É noite, pois! Durmamos, Julieta! Recende a alcova ao trescalar das flores, Fechemos sobre nós estas cortinas... - São as asas do arcanjo dos amores. A frouxa luz da alabastrina lâmpada Lambe voluptuosa os teus contornos... Oh! Deixa-me aquecer teus pés divinos Ao doudo afago de meus lábios mornos. Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos Treme tua alma, como a lira ao vento, Das teclas de teu seio que harmonias, Que escalas de suspiros, bebo atento! Ai! Canta a cavatina do delírio, Ri, suspira, soluça, anseia e chora... Marion! Marion!... É noite ainda. Que importa os raios de uma nova aurora?!... Como um negro e sombrio firmamento, Sobre mim desenrola teu cabelo... E deixa-me dormir balbuciando: - Boa-noite! - formosa Consuelo!... C. Alves |
| Pedro Ivo II Dorme, cidade maldita, Teu sono de escravidão!... Dorme, vestal da pureza, Sobre os coxins do Sultão!... Dorme, filha da Geórgia, Prostituta em negra orgia, Sê hoje Lucrécia Bórgia Da desonra no balcão!... Dormir?!.. Não! Que a infame grita Lá se alevanta fatal... Corre o champagne e a desonra Na orgia descomunal... Cadeia de ouro no braço, De pérola um baraço, - Adornos da Saturnal! Louca?... Nem sabe que as luzes, Que acendeu pra as Saturnais, São do enterro de seus brios Tristes círios funerais... Que o seu grito de alegria É o estertot da agonia, A que responde a ironia Do riso de Satanás!... Morreste... E ao teu saimento Dobra a procela no céu. E aos astros - olhar dos mortos - A mão da noite escondeu. Vê!... Do raio mostra a lampa Mão de espectro, que destampa Com dedos de ossos a campa, Onde a glória adormeceu. (...) C. Alves |
| En gran coita, senhor, que peior que mort' é, vivo, per bõa fé, e polo vosso amor esra coita sofr' eu por vós, senhor, que eu vi pelo meu gran mal D. Dinis |
| Gran: grande. peior: pior. polo: pelo. |
| Un tal ome sei eu, ai ben-talhada, que por vós ten a sa morte chegada; vedes quen é seed'én nembrada: eu, mia dona. Un tal ome sei eu que preto sente de si morte chegada certamente; vedes quen é e venha-vos em mente: eu, mia dona Un tal ome sei eu: aquest'oide: que por vós morr' e vo-lo en partide; vedes quen é e non xe vos obride: eu, mia dona. D. Dinis |
| ome: homem. ben-talhada: bem-feita, formosa. sa: sua. seed'en nembrada: não vos esqueçais; lembrai-vos. preto: perto. aquest'oíde: ouvi isto; a expres-são tem a função de chamar a atenção da mulher. morr': morre. vo-lo en partide: vós o afastais de vós, no sentido de 'deixá-lo partir', 'afastar-se'. non xe vos obride: não vos es-queçais dele. |
![]() |
![]() |
| A musa enfêrma Ah, minha musa, o que tens esta vez? Teus olhos ocos são todos visões noturnas E alternativamente refletes na tez Loucura com horror, as sombras taciturnas. Sôbre ti, róseo duende e súcubo esverdeado Derramaram o mêdo e o amor de suas urnas? O pesadelo, o punho despótico e irado, Afogou-te no fundo de incerto Minturnas¹? Quisera que, exalando o aroma da saúde, Fôsse teu seio só a fôrça e a juventude, Que o teu sangue cristão fôsse fluxos marítimos Como o inúmero som dêstes antigos ritmos Em que alternam seu reino o inventor da cantiga Febo e o divino Pã, osenhor da áurea espiga. C. Baudelaire |
| (1) Minturnas: Cidade do Lácio, nos pântanos da qual Mário afogou-se até o pescoço. |
| No mundo non me sei parelha, mentre me for' como me vai, ca ja moiro por vós - e ai mia senhor branca e vermelha, queredes que vos retraia quando vos eu vi en saia! Mao dia me levantei, que vos enton non vi fea! E, mia senhor, des aquel di', ai! me foi a mi muin mal, e vós, filha de don paai Moniz, e ben vos semelha d'aver eu por vós guarvaia, pois eu, mia senhor, d'alfaia nunca de vós ouve nem ei valia d'ua correa. Paio Soares de Taveirós |
| No mundo ninguém se assemelha a mim enquanto a minha vida continuar como vai por que morro por vós, e ai minha senhora de pele alva e faces rosadas, quereis que vos descreva (retrate) quando vos eu vi sem manto (saia: roupa intima) Maldito dia! me levantei que não vos vi feia (ou seja, a viu mais bela) E, minha senhora, desde aquele dia, ai tudo me foi muito mal e vós, filha de don Pai Moniz, e bem vos parece de ter eu por vós guarvaia (guarvaia: roupa luxuosa) pois eu, minha senhora, como mimo (prova de amor) de vós nunca recebi algo, mesmo que sem valor. (correa: coisa sem valor) |
![]() |
| Tôda Inteira O Diabo, em meu quarto um dia, Apareceu para me ver, Pensando que me confundia, Disse-me: "Eu quisera saber, De tôdas as coisas formosas, Que fazem com que a queiras tanto, De tôdas as noites e rosas, Que de seu corpo são o encanto, Qual é a mais doce?" - Oh minha alma! Respondeste ao Escarnecido: "Pois que ela é um bálsamo de calma¹, Nada ela tem de preferido. E meu ser sempre ao vê-la ignora, Em que encantos dos seus se acoite. Ela fascina como a aurora, Ela consola como a noite. Mas esta harmonia é imprecisa Que o seu belo corpo governa. A nossa visão que a analisa Não vê sua beleza eterna. Ó metamorfoses tão mística Que os meus sentidos já resume! O seu hálito faz a música E sua voz faz o perfume! C. Baudelaire |
| (1) No original dictame. Houve quem, se impressionando pelo que se chama em tradução de "falsos amigos", traduzisse o têrmo por.. dictame. Mas aqui é nome de planta, o dictamno pertencente à familia das vulnerárias, como pus no texto. |
| Lacrimosa Amei-te entre os anjos que dormiam Em mil floreios deslumbrantes E as gotas que de meus olhos caiam Banhavam minh'alma com quente sangue, Sobre as luas que teus olhos refletiam Em lençóis de estrelas decadentes. Oh! Meu anjo etéreo do sepulcro Quando tocar-me-ás os lábios dormentes Há noutes decaio por teu mórbido vulto Em desmaios flébeis de um coração silente Nas manhãs, no semblante abate-me o luto De ir-se com a noute teus beijos frios Ah! Bela fulgura de anjos mortos Desfaleço ao soar de teu suspiro, Que é baixo, que é doce e melancólico. Derramando lágrimas em teu vestido, Nos joelhos macios em que me recosto E no colo fremido de mórbidos ais! Embebedem tua tez em suave fremido A Bela face lacrimosa em ademãs diz - Mais! Com voz langue e suave que sucede gemidos Tão doces! Tão puros! Tão leves - Decai... Por este palor que recobre fronte lacrimosa Qu'em noturnas - derramei ao peito - lágrimas, Cheirando o vaporoso perfume da morte a rosa. E maculando na face, deste amor, a mortalha, Noite que, desvaira o coração trespassar No leito sombrio da virgem airosa. Lindas pomas borrifadas por respingos de amor, Meus lábios gemicantes, queimosos balbuciam. Inda mais alva em reflexos do lunar palor, Na rósea pele clareava em olhares que morriam, Como seus negros cabelos soltos, ao langor Dos meus suspiros, a minha face escurece... L. Fab. |
| "O todo sem a parte não é todo; A parte sem o todo não é parte; Mas se a parte o faz todo, sendo parte, Não se diga que é parte, sendo o todo. Em todo sacramento está Deus todo, E todo assiste inteiro em qualquer parte, E feito em partes todo em toda parte, Em qualquer parte sempre fica todo..." Gregório de Matos Guerra X Por esta solidão que não consente Por esta solidão que não consente Nem do sol, nem da lua a claridade; Ralado o peito já pela saudade Dou mil gemidos a Marilia ausente. De seus crimes a mancha inda recente Lava Amor, e triunfa da verdade; A beleza, apesar da falsidade, Me ocupa o coração, me ocupa a mente. Lembram-me aqueles olhos tentadores, Aquelas mãos, aquele riso, aquela Boca suave, que respira amores... Ah! Terazei-me, ilusões, a ingrata, a bela! Pintai-me vós, ó sonhos, entre flores Suspirando outra vez nos braços dela. Bocage |
| O Vinho dos Mortos Cantai pois! que a vida nesta imunda fibra não há mais de existir Que antes, neste peito onde viste sereno leito amores alvorecer E nua a virgem nua... lânguida, infante e pura. Ei-la em etéreo elixir Evaporando feminis olores quais murchas, frouchas flores em seu corpo a jazer Um canto de alegria a esta pele que se faz fria mas inda quente há de suprir Lágrimas de beijos febris, almas de desejos vis, suspiros que hei de gemer... Bebei pois! d'sta mente a lampa mas retirai da lúrida campa óssea taça! Erguei-a! e admirai teu fim, um brinde à morte - tintim - que então possa brilhar Em ti o que feneceu em mim: o fogo, vívido carmim requeimando pálida fronte. "Tua mão se fez cabeceira e da alma do vinho enchera o vão que vermes enlaça Teus lábios úmidos em sabor entornou-se-lhes túmido langor da virgem o manar Tanta vida heis de ferver, esvair... neste jazigo desfalecer frenesis o vinho esconde." Gozai pois! a carne das ninfas bêbedas que apetece ao que desejas oh, sê pã: - Tocai a flauta e acompanhai o cântico de gemeres gozos enânticos, quantos deleites Em teus suspiros de branda névoa quais em lençól que se entregam ninfas por delicias Quantos deleites, vertigens... bebendo do leite das virgens ao osso da taça louçã (...) L. Fab. |
| Lembrança de Morrer ____________________ No more! o never more! SHELLEY Quando em meu peito rebentar-se a fibra Que o espírito enlaça à dor vivente, Não derramem por mim nem uma lágrima Em pálpebra demente. E nem desfolhem na matéria impura A flor do vale que adormece ao vento: Não quero que uma nota de alegria Se cale por meu triste passamento. Eu deixo a vida como deixa o tédio Do deserto, o poento caminheiro - Como as horas de um longo pesadelo Que se desfaz ao dobre de um sineiro; Como o desterro de minh'alma errante, Onde fogo insensato a consumia: Só levo uma saudade - é desses tempos Que amorosa ilusão embelecia. Só levo uma saudade - é dessas sombras Que eu sentia velar nas noites minhas... De ti, ó minha mãe, pobre coitada Que por minha tristeza te definhas! De meu pai... de meus únicos amigos, Poucos - bem poucos - e que não zombavam Quando, em noite de febre endoudecido, Minhas pálidas crenças duvidavam. Se uma lágrima as pálpebras me inunda, Se um suspiro nos seios treme ainda É pela virgem que sonhei... que nunca Aos lábios me encostou a face linda! Só tu à mocidade sonhadora Do pálido poeta deste flores... Se viveu, foi por ti! e de esperança De na vida gozar de teus amores. Beijarei a verdade santa e nua, Verei cristalizar-se o sonho amigo... Ó minha virgem dos errantes sonhos, Filha do céu, eu vou amar contigo! Descansem o meu leito solitário Na floresta dos homens esquecida, À sombra de uma cruz, e escrevam nelas - Foi poeta - sonhou - e amou na vida.- Sombras do vale, noites da montanha Que minh'alma cantou e amava tanto, Protegei o meu corpo abandonado, E no silêncio derramai-lhe canto! Mas quando preludia ave d'aurora E quando à meia-noite o céu repousa, Arvoredos do bosque, abri os ramos... Deixai a lua prantear-me a lousa! A. Azevedo |
| Por que mentias? Por que mentias leviana e bela? Se minha face pálida sentias Queimada pela febre, e minha vida Tu vias desmaiar, por que mentias? Acordei da ilusão, a sós morrendo Sinto na mocidade as agonias. Por tua causa desespero e morro... Leviana sem dó, por que mentias? Sabe Deus se te amei! Sabem as noites Essa dor que alentei, que tu nutrias! Sabe esse pobre coração que treme Que a esperança perdeu por que mentias! Vê minha palidez- a febre lenta Esse fogo das pálpebras sombrias... Pousa a mão no meu peito! Eu morro! Eu morro! Leviana sem dó, por que mentias? Amor ______________________ Quand la mort est si belle, Il est doux de mourir. V. HUGO. Amemos! Quero de amor Viver no teu coração! Sofrer e amar essa dor Que desmaia de paixão! Na tu’alma, em teus encantos E na tua palidez E nos teus ardentes prantos Suspirar de languidez! Quero em teus lábio beber Os teus amores do céu, Quero em teu seio morrer No enlevo do seio teu! Quero viver d’esperança, Quero tremer e sentir! Na tua cheirosa trança Quero sonhar e dormir! Vem, anjo, minha donzela, Minha’alma, meu coração! Que noite, que noite bela! Como é doce a viração! E entre os suspiros do vento Da noite ao mole frescor, Quero viver um momento, Morrer contigo de amor! A. Azevedo |
![]() |
| Noite Ar ardente Noite fria ao som dos fluidos da noite, o bela escuridão divina que embeleza o rosto seu clamou a perdoa sua testura a provar o olhar da lua que nos cerca o valor do luto que se reserva ao momento da Deusa que em momentos clama por mim que me chama a escandalecer a escuridão de seu manto Oh Deusa Morta suas vertes me encanta sua beleza de criança que me faz adormecer Tarde fria que revela A Ventania que vem de longe que me faz um ser Que releva a sua tristeza em cada enoitecer... Senhorzinho |
| Desejo Ah! que eu não morra sem provar, ao menos Sequer por um instante, nesta vida Amor igual ao meu! Dá, Senhor Deus, que eu sobre a terra encontre Um anjo, uma mulher, uma obra tua, Que sinta o meu sentir; Uma alma que me entenda, irmã da minha, Que escute o meu silêncio, que me siga Dos ares na amplidão! Que em laço estreito unidas, juntas, presas, Deixando a terra e o lodo, aos céus remontem Num êxtase de amor! Gonçalves Dias. |
| "Um túmulo aberto, a virgem descansa... Enquanto meu corpo suspira n'airosa trança Ante meus lábios que expiram de febre, Oh, quão gélidas as maçãs descoradas Quão bela da lua nos palores As madeixas que o rescender exala Na palidez, meu peito d'amores Vibra na fibra exausta. Eia! tão virgem... uma flor desmaiada! Qu'adormece no leito por alma embalada No teu seio suspiram desejos tão puros Q'uem teu seio de amada minha vida padece É noute e a noute a veste de fada... Oh quanto amor requeima a febre: ... - Oh, virgem dengosa retirai a mortalha! Pois teus beijos inda frios minha alma aquece ..." L. Fab. |
![]() |