
    PARTE II

A Ponte dos Suspiros

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    Recuso-me a perder mais um segundo discutindo o passado. No gosto do passado. No quero saber dele. Como posso lhe contar sobre alguma coisa que no me interessa?
     provvel interess-lo?
    O problema  que muita coisaj foi escrita sobre meu passado. Mas e se voc no tiver lido aqueles livros? E se voc no tiver se espojado nas descries rebuscadas
que o vampiro Lestat fez de mim e de meus pretensos erros e
enganos?
    Tudo bem, tudo bem. Um pouquinho mais, mas s para levar-me a Nova , York,  hora em que vi o Vu de Vernica, para que voc no precise voltar atrs
e ler os livros dele, para que meu livro baste.
    Durante trezentos anos, fui fiel aos Costumes Antigos de Santino, mesmo depois que o prprio Santino desapareceu. Entenda, esse vampiro 
absolutamente no estava morto. Ele apareceu na era moderna, bastante saudvel, forte,
calado e sem se desculpar pelos credos que me enfiou goela abaixo no ano de
15 oo,
antes de eu ser enviado a Paris.
    Eu estava louco nessa poca. Chefiar a assemblia, eu chefei, e de suas cerimnias, suas sinistras ladainhas e seus sanguinolentos batismos
extravagantes, tornei-me o arquiteto e o mestre. Minha fora fsica aumentava ano a ano,
e como acontece com todos os vampiros, e, bebendo avidamente de minhas
vtimas, pois esse era o nico prazer com o qual eu podia sonhar, alimentei meus poderes vampricos.
    Feitios eu podia criar em torno daqueles que eu matava, e, selecionando os bonitos, os promissores, os mais audaciosos e esplndidos para meu banquete, eu todavia
passava para eles vises fantsticas para embotar-lhes o medo do sofrimento.
    Eu estava louco. Sendo-me negados os lugares de luz, o conforto de entrar na menor das igrejas, perfeitamente comprometido com os Costumes Negros, vaguei como
uma
alma penada desinteressante pelos becos mais escuros de Paris, transformando em barulho sua poesia e sua msica mais nobres com a cera
da piedade e do fanatismo com a qual eu tapava os ouvidos, cego  sublime majestade de suas catedrais e seus palcios.
    A assemblia tomava todo o meu amor, com discusses no escuro sobre qual a melhor maneira de sermos santos de Sat, ou se deveramos oferecer nosso pacto demonaco
a um lindo e ousado envenenador e torn-lo um de ns.
Mas s vezes eu passava de um estado de loucura aceitvel a outro do qual s eu conhecia os perigos. Em minha cela de barro, nas catacumbas secretas por baixo do
grande cemitrio Les Innocents em Paris onde estabelecemos nosso covil, todas as noites eu tinha um sonho estranho e insignificante: O que acontecera com aquele
pequeno tesouro que minha me mortal me dera? O que acontecera com aquele estranho objeto de Podil que ela tirara do canto do cone e me pusera nas mos, aquele
ovo pintado, aquele ovo pintado de carmim com a estrela to bem-feita? Agora, onde poderia estar? O que lhe acontecera? Eu no o deixara, bem enrolado em peles,
dentro de um caixo dourado onde eu morava?, ah, ter isso tudo acontecido mesmo?, essa vida da qual eu pensava me lembrar numa cidade de reluzentes palcios revestidos
de pedra branca e canais brilhantes e um grande mar manso e cinzento cheio de navios rpidos e graciosos, manejando seus compridos remos perfeitamente em unssono
como se fossem coisas vivas, aqueles navios lindamente pintados, tantas vezes engalanados com flores, e com as velas mais brancas, ah, isso no poderia ter sido
real, e pensar, uma cmara dourada com um caixo dourado, e esse tesouro especial, essa coisa frgil e encantadora, esse ovo pintado, esse ovo delicado e perfeito,
cuja cobertura pintada encerrava com uma perfeio absoluta uma mistura misteriosa de fluidos vivos - ah, que idias estranhas. Mas o que acontecera com ele? Quem
o encontrara?
Algum encontrou.
Ou isso ou ele continuava l, escondido nos subterrneos de um palazzo naquela cidade flutuante, escondido numa masmorra  prova dgua construda no subsolo encharcado
por baixo das guas da laguna. No, nunca. Nem uma coisa nem outra. No pense nisso. No pense em mos profanas pegando aquilo. E voc sabe, seu mentirosozinho traioeiro,
voc jamais voltou para um lugar assim como a cidade baixa com a gua gelada nas ruas, onde seu pai, certamente uma gura mtica e absurda, bebia vinho de suas mos
e perdoou-lhe por ir tornar-se um pssaro alado negro e forte, um pssaro da noite voando mais alto at do que as cpulas da cidade de Vladimir, como se algum tivesse
quebrado aquele ovo, aquele ovo meticulosa e maravilhosamente pintado que sua me lhe dera com tanto carinho, furado aquele ovo com um dedo perverso, e daquele fluido
podre, aquele fluido ftido, voc nasceu, o pssaro noturno, sobrevoando as chamins fumarentas de Podi I, os domos da cidade de V ladimir, cada vez mais alto, distanciando-se
cada vez mais, sobrevoando as terras selvagens e o mundo
e entrando nessa floresta escura, essa floresta profunda, escura e sem fim da qual voc jamais escapar, essa selva fria e sem conforto do lobo faminto e do rato
voraz, do verme que rasteja e da vtima que grita.
Allesandra vinha.
- Acorde Armand. Acorde. Voc est tendo os pesadelos que precedem a loucura, no pode me deixar, meu f lho, no pode, tenho mais medo da morte do que disso e no
quero ficar sozinha, voc no pode entrar no fogo, no pode ir e me deixar aqui.
No. Eu no podia. Eu no tinha a paixo para um passo desses. No tinha esperana para coisa alguma, embora h dcadas no recebesse qualquer notcia da Assemblia
de Roma.
Mas chegaram ao fim meus longos sculos a servio de Sat.
Vestida de veludo vermelho, a criatura chegou, aquela mesma capa de que tanto gostava meu antigo Mestre, o rei de sonho, Marius. Chegou com afetao e ares superiores
pelas ruas iluminadas de Paris como se Deus a houvesse criado.
Mas era um vampiro criana, como eu, filho do sculo XVIII, conforme se contava que fosse a data, um bebedor de sangue esfuziante, atrevido, cheio de si, risonho
e provocante na pele de um jovem, vindo para apagar o que ainda restasse do fogo sagrado ardendo no tecido cicatrizado de minha alma e espalhar as cinzas.
 Era o vampiro Lestat. No era culpa dele. Tivesse um de ns conseguido derrub-lo uma noite, dilacer-lo com sua prpria espada extravagante e incendi-lo, talvez
tivssemos mais algumas dcadas de nossas miserveis desi luses.
Mas ningum conseguiu. O desgraado era forte demais para ns.
Criado por um renegado poderoso e antigo, o lendrio vampiro chamado Magnus, este Lestat, com a idade de vinte anos mortais, um aristocrata provinciano errante e
sem nquel das terras selvagens da Auvergne, que abandonara costumes e respeitabilidade e qualquer esperana de ambies relacionadas  corte, ambies que de qualquer
forma ele no tinha, j que no sabia ler nem escrever, e era demasiado irreverente para servir a qualquer rei ou rainha, que virou uma celebridade loura e dissoluta
do teatro baixo dos bulevares, um amante de homens e mulheres, uma esp6ie de gnio alegre; otimista, nareisista e cego de ambio, esse Lestat, esse Lestat de olhos
azuis e infinitamente seguro, foi orfanado na prpria noite de sua criao pelo monstro antigo que o criou, recebeu uma herana numa sala secreta de uma torre medieval
em runas, e depois entrou no conforto eterno das chamas devoradoras.
Esse Lestat, sem nada saber sobre Assemblias Antigas e os Costumes Antigos, sobre bandidos encardidos que viviam em subterrneos de cemitrios e achavam-se no direito
de rotul-lo de herege, individualista e bastardo do
Sangue Negro, pavoneava-se pela Paris da moda, isolado e atormentado por seus dons sobrenaturais mas, no entanto, satisfeitssimo com seus novos poderes, danando
nas Tuilerias com as mulheres mais magnificamente vestidas, deleitando-se nas maravilhas do bal e do teatro da alta roda e rondando no s os Lugares de Luz, como
chamvamos, mas perambulando pesaroso pela prpria Notre Dame de Paris, bem em frente ao Grande Altar, sem que o raio de Deus o fulminasse onde ele estava.
    Ele nos destruiu. Ele me destruiu.
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    Allesandra, ento louca como a maioria dos antigos estavam naquela poca, teve uma alegre discusso com ele depois que o prendi obedientemente e o arrastei para
nossa corte subterrnea para serjulgado, aps o que ela tambm entrou nas chamas, deixando-me com o absurdo bvio: de que Nossos Costumes haviam acabado, nossas
supersties eram obviamente ridculas, nossos hbitos negros e empoeirados, tambm, nossa penitncia e nossos sacrifcios eram despropositados, nossas convices
de que servamos a Deus e ao Diabo eram hipcritas, ingnuas e idiotas, nossa organizao era to grotesca para o mundo parisiense alegre e ateu da Idade da Razo
como meu amado Marius veneziano deveria ter achado h sculos.
    Lestat era o destruidor, o risonho, o pirata, que, sem reverenciar qualquer coisa ou qualquer pessoa, logo deixou a Europa para encontrar seu prprio territrio
seguro e agradvel na colnia de Nova Orleans no Novo Mundo.
    Ele no tinha nenhuma filosofia reconfortante para mim, o dicono com cara de criana que sara da priso mais atroz inteiramente descrente para vestir as roupas
elegantes da poca e caminhar de novo pelas ruas nobres como eu caminhara h trezentos anos em Veneza.
    E meus seguidores, aqueles poucos que no consegui dominar e entregar implacavelmente s chamas, quo confusamente se atrapalhavam com aquela nova liberdade - livres
para roubar o ouro dos bolsos de suas vtimas e vestir suas sedas e suas perucas empoadas, e sentar-se maravilhados diante das glrias do palco pintado, da harmonia
resplandecente de cem violinos, das momices de atores poetas.
    Qual seria nosso destino, enquanto circulvamos deslumbrados  noite por bulevares apinhados, casas elegantes e sales de baile suntuosamente decorados?
    Em alcovas forradas de cetim, alimentvamo-nos, e apoiados nas almofadas de damasco de carruagens douradas. Comprvamos belos caixes para ns, extravagantemente
entalhados e acolchoados de veludo, e encerrvamo-nos durante a noite em pores revestidos de mogno dourado.
    O que teria acontecido conosco, dispersos, meus filhos com medo de mim, e eu sem saber ao certo quando ojanotismo e o frenesi da Cidade Luz francesa poderiam induzi-los
a cabriolas imprudentes e destrutivas.
         Foi Lestat que me deu a chave, que me deu o local em que eu podia instalar meu corao enlouquecido e palpitante,
onde eu podia reunir meus seguidores para algo que se assemelhasse a uma sanidade contempornea.         Antes de me deixar atolado nas sobras de meus hbitos antigos,
ele me legou o prprio teatro de bulevar em que ele havia sido o jovem cisne da Commedia dell Arte. Todos os atores humanos haviam desaparecido. Restava apenas a
elegante e convidativa casca, com seu palco de panos de fundo alegremente pintados e o arco dourado do proscnio, as cortinas de veludo e os bancos vazios  espera
de uma nova platia estrepitosa. Ali encontramos nosso refgio mais seguro, vidos para nos esconder atrs da mscara de maquiagem e glamour que disfarava impecavelmente
nossa lustrosa pele branca e nossa graa e destreza fantsticas.         Atores nos tornamos, uma companhia regular de imortais unidos para representar alegremente
pantomimas decadentes para platias mortais que jamais
suspeitaram que ns os mascarados de cara branca fssemos mais monstruosos que qualquer monstro representado
por ns em nossas pequenas farsas e tragdias.         Nascera o Thtre des vampires.         E, a casca sem valor que eu era, vestido como um humano com menos
direito a esse ttulo do que nunca em todos os meus anos de fracasso, tornei-me seu mentor.         Era o mnimo que eu poderia fazer para meus rfos da Antiga
F, levianos e felizes como estavam num mundo espalhafatoso e mpio  beira de uma         revoluo poltica.         Por que governei esse teatro palladiano por
tanto tempo? Por que permaneci
ano aps ano com essa espcie de assemblia? No sei, s sei que precisava
daquilo precisava daquilo
com tanta certeza comojamais precisei de Marius e
de nossa casa em Veneza, ou de Allesandra e da assemblia nos subterrneos do cemitrio
Les Innocents. Eu precisava de um local para voltar antes do amanhecer onde eu soubesse que outros de minha espcie descansavam em segurana.         E posso dizer
sem faltar com a verdade que meus seguidores vampiros precisavam de mim.         Eles precisavam acreditar em minha liderana, e, quando aconteceu o pior, no os
deixei na mo, exercendo algum controle sobre aqueles imortais descuidados que de vez em quando nos punham em perigo com exibies de
poder sobrenatural ou de extrema crueldade, e administrando nossos negcios com o mundo com a habilidade aritmtica de um sbio idiota.         Impostos, bilhetes,
contas, leo para calefao, lmpadas do proscnio, a promoo de fabulistas cruis, eu administrava tudo.
    E, de vez em quando, isso me dava um orgulho e um prazer requintados. Com as estaes, crescemos, assim como cresceram nossas platias, bancos
toscos dando lugar a poltronas de veludo, e pantomimas baratas, a produes mais poticas.
    Muitas noites, enquanto eu me sentava sozinho em meu camarote guarnecido com cortinas de veludo, um cavalheiro de bvias posses vestido com as calas estreitas da
poca, colete cintado de seda estampada e sobrecasacajusta de l vistosa, o cabelo penteado para trs por baixo de uma fita preta ou W almente cortado acima do colarinho
branco alto e duro, eu pensava naqueles sculos perdidos de rituais repugnantes e sonhos demonacos como se pode lembrar de uma longa e dolorosa doena num quarto
escuro em meio a remdios amargos e encantamentos sem propsito. No poderia ter sido real, isso tudo, a peste andrajosa de indigentes predadores que ramos, cantando
Sat na escurido coberta de geada.
    E todas as vidas que vivi e todos os mundos que conheci pareciam at menos substanciais.
    O que havia por baixo de meus babados extravagantes, por trs de meus olhos calmos que no faziam perguntas? Quem era eu? No me lembrava de uma chama mais quente
do que aquela que prateava o sorriso plido que eu concedia aos que me pediam para sorrir. Eu no lembrava de ningum que tivesse vivido e respirado algum dia dentro
de meu corpo que se movia silenciosamente. Um crucifixo com sangue pintado, uma Virgem doce na pgina de um livro de orao ou feita de biscuit pintado em tom pastel,
o que eram essas coisas seno vestgios vulgares de um tempo duro e insondvel em que poderes ora descartados flutuavam no clice de ouro, ou brilhavam assustadoramente
dentro de um rosto sobre um altar aceso.
    Eu no sabia nada dessas coisas. Os crucifixos arrancados de pescoos de virgens eram derretidos para fazer meus anis de ouro. E rosrios eram descartados com outros
brilhantes falsos enquanto dedos de ladro, os meus, arrancavam os botes de diamante de uma vtima.
Desenvolvi-me nessas oito dcadas do Thtre des vampires-agentamos a Revoluo com espantosa resilincia, o pblico clamando por nossas diverses aparentemente
frvolas e mrbidas-e conservei, muito depois do desaparecimento do teatro, at o final do sculo XX, uma natureza calada, discreta, deixando minha cara de criana
enganar meus adversrios, meus futuros inimigos (eu raramente os levava a srio) e meus escravos vampiros.
Eu era o pior dos lderes, isto , o lder frio e indiferente que infunde medo no corao de todos salvo dos irmos para no amar ningum, e conservei o Thtre
des vampires, como o chamvamos at a dcada de 1 87o, quando o filho de Lestat, Louis, apareceu l, procurando as respostas que seu criador insolente
e pretensioso nunca lhe dera para as perguntas antigas: De onde ns vampiros viemos? Quem nos criou e para qu?
Ah, mas antes que eu conte a vinda do famoso e irresistvel vampiro Louis, e sua pequena amante requintada, a vampira Claudia, deixe-me relatar um pequeno incidente
que aconteceu comigo no incio do sculo XIX.
Pode no significar nada; ou pode ser a traio da existncia secreta de algum outro. No sei. S relato isso porque toca fantasiosamente, se no com certeza, algum
que representa um papel dramtico em minha histria.
No posso precisar o ano desse pequeno acontecimento. Deixe-me dizer apenas que a encantadora e sonhadora msica de Chopin para piano era apreciadssima em Paris,
que os romances de George Sand eram a coqueluche do momento e que as mulheresj haviam abandonado as roupas leves e lascivas do Imprio para usar aqueles vestidos
de tafet de cintura apertada, pesados e rodados com os quais aparecem tantas vezes em velhos daguerretipos brilhantes.
O teatro estava explodindo como diriam em linguagem moderna, e eu, o empresrio, cansado de suas representaes, passeava sozinho uma noite no bosque na periferia
de Paris, perto de uma casa de campo cheia de vozes alegres e candelabros acesos.
Foi l que encontrei outra vampira.
Reconheci-a imediatamente por seu silncio, pela ausncia de cheiro e a graa quase divina com a qual ela passou pela mata, segurando uma capa esvoaante e uma saia
farta com mos frias e plidas, tendo como objetivo as janelas convidativas e feericamente iluminadas ali perto.
Ela percebeu minha presena quase to depressa quanto senti a dela; coisa bastante alarmante para mim na minha idade e com os meus poderes. Ela ficou imvel sem
virar a cabea.
Embora os devassos vampiros atores do teatro conservassem o direito de eliminar os individualistas ou os intrusos entre os No Mortos, eu, o lder, aps passar anos
como um santo iludido, no ligava a mnima para essas coisas.
No desejei nenhum mal  criatura, e, displicentemente, lancei um alerta, falando em francs, num tom descontrado e suave.
- Territrio devastado, minha cara. Aqui no h caa que no chame ateno. V para uma cidade mais segura antes do nascer do sol.
Nenhum ouvido humano poderia ter escutado isso.
A criatura no respondeu, o capuz de tafet escorregando quando ela abaixou ostensivamente a cabea. Depois, virando-se, mostrou-se a mim nas longas rstias de luz
dourada que vinham das vidraas da casa.
Eu conhecia essa criatura. Conhecia seu rosto. Eu conhecia.
E num segundo terrvel-um segundo fatdico-percebi que elatalvez me conhecesse, no com esse cabelo aparado a cada noite para essas pocas, no
com essas calas escuras e esse palet sem graa, no nesse trgio momento em que eu posava de homem, to absolutamente diferente da criana exuberantemente enfeitada
que ela conhecera, ela no podia.
Por que eu no gritava? Bianca!
Mas eu no podia entender, no podia acreditar nisso, no podia animar meu corao embotado para exultar com aquilo que meus olhos me diziam ser verdade, que aquele
rosto deslumbrante emoldurado pelo cabelo dourado e pelo capuz de tafet era dela, definitivamente, composto exatamente como poderia estar nessa poca, e era ela,
ela cujo rosto fora gravado em minha alma febril antes e depois de eu ter recebido o Dom Negro.
Bianca. Ela se fora! Durante uma frao de segundo vi seus olhos arregalados e preocupados, cheios de alarme vamprico, mais ameaadores que qualquer humanojamais
poderia evidenciar, e a a figura desapareceu, sumiu do bosque, desapareceu das imediaes, de todos os grandesjardins irregulares que vasculhei, indolentemente,
sacudindo a cabea, resmungando com meus botes, dizendo: No, no pode ser, no, claro que no. No.
Nunca mais tornei a v-la.
At esse minuto no sei se essa criatura era Bianca ou no. Mas agora acredito em minha alma, enquanto estou ditando essa histria, acredito numa alma que est curada
e para quem a esperana no  estranha, era Bianca! Posso visualiz-la perfeitamente quando ela se virou para mim naquele bosque, e nessa imagem est um ltimo detalhe
que me confirma isso-porque nessa noite fora de Paris, ela usava prolas tranadas com o cabelo. Ah, como Bianca gostava de prolas, e como gostava de tran-las
com o cabelo. E eu vira essas prolas no claro da casa, embaixo da sombra de seu capuz, fios de perolazinhas tranadas com seu cabelo louro, e dentro dessa moldura
estava a beleza florentina que nunca poderei esquecer-to delicada em sua brancura vamprica como quando colorida com as tintas de Fra Filippo Lippi.
Aquilo no me fez mal na ocasio. No me abalou. Eu estava muito fraco de alma, muito anestesiado, muito acostumado a vertudo como fantasia numa srie de sonhos
desligados. Muito provavelmente, eu no poderia me permitir acreditar numa coisa dessas.
S agora rogo que seja ela, minha Bianca, e que algum, e voc pode muito bem adivinhar quem seja esse algum, me dizer se era ou no minha querida cortes.
Teria algum membro da odiosa e assassina Assemblia de Roma, caando-a na noite de Veneza, ficado encantado por ela e abandonado seus Hbitos Negros, fazendo dela
sua amante para sempre? Ou teria o Mestre, sobrevivendo quele
incndio medonho, como sabemos que sobreviveu, procurado Bianca pelo sangue fortalecedore atrazido para a imortal idade para assisti-lo na recuperao?
No consigo fazer essa pergunta a Marius. Talvez voc consiga. E talvez eu prefira esperar que tivesse sido ela, e no dar ouvidos a negativas que diminuam essa
probabilidade.
Eu precisava lhe dizer isso. Precisava lhe dizer. Acho que era Bianca. Deixe-me voltar agora  Paris da dcada de 187o-algumas dcadas depois - ao instante em que
o jovem vampiro do Novo Mndo, Louis, me procurou, buscando to tristemente as respostas para as terrveis perguntas de por que estamos aqui e para qu.
Que tristeza para Louis que ele me fizesse essas perguntas. Que tristeza para mim.
Quem poderia zombar mais friamente do que eu da idia toda de uma estrutura redentora para as criaturas da noite que,j tendo sido humanas,jamais poderiam ser absolvidas
de fratricdio, de seu banquete com sangue humano? Eu conhecera o fascinante e inteligente humanismo da Renascena, o triste recrudescimento do ascetismo na Assemblia
de Roma e o lgubre ceticismo da era romntica.
O que tinha eu para contar a esse vampiro de rosto doce, Louis, essa criao humanssima do mais forte e mais afoito Lestat, seno que, no mundo, Louis encontraria
beleza suficiente para sustent-lo, e que precisava encontrar em si mesmo coragem para existir, se realmente tivesse optado por continuar vivendo, sem olhar para
imagens de Deus ou do Diabo para lhe dar uma paz artificial ou efmera.
Nunca comparti com Louis minha triste histria; confessei-lhe, todavia, o segredo terrvel e angustiante de que no ano de 1 87o, j existindo h cerca de quatrocentos
anos entre os No Mortos, eu no conhecia nenhum bebedor de sangue mais velho que eu.
A prpria confisso me trouxe uma sensao esmagadora de solido, e quanto olhei para o rosto torturado de Louis, quando segui seu vulto delicado caminhando pela
confusa Paris do sculo XIX, vi que esse cavalheiro de cabelos escuros vestido de preto, to magro, to bem-feito, to sensvel em todos os seus traos, era a encarnao
sedutora da infelicidade que eu sentia.
Ele chorava pela desgraa de uma vida humana. Eu chorava pela desgraa de sculos. Receptivo aos estilos da poca que o forjara - dera-lhe a vistosa sobrecasaca
e o fino colete de seda branca, o colarinho clerical ejabs de linho imaculado -, apaixonei-me perdidamente por ele, e, deixando o Thtre des vampires em runas
(ele o incendiou num ataque de fria por um timo motivo), vaguei pelo mundo com ele at recentemente nessa idade moderna.
O tempo acabou destruindo o amor que sentamos um pelo outro. O tempo murchou nossa intimidade gentil. O tempo devorou todas as conversas ou prazeres que partilhvamos.
Outro terrvel ingrediente inescapvel e inesquecvel entrou em nossa destruio. Ah, no quero falar sobre ele, mas quem de ns vai me deixar calar sobre Claudia,
a vampira criana que todos me acusam o tempo todo de ter destrudo?
Claudia. Quem entre ns hoje, para quem dito essa narrativa, quem entre o pblico que l essas histrias como fico palatvel no tem em mente uma vibrante imagem
dela, a vampira criana de cachos dourados criada por Louis e Lestat numa noite devassa e leviana em Nova Orleans, a criana vampiro cuja mente e cuja alma ficaram
to imensas como a de uma mulher imortal enquanto seu corpo permaneceu o de uma preciosa e perfeita bonequinha francesa de biscuit.
Registre-se que ela foi assassinada por minha assemblia de alucinados atores demnios, pois, quando apareceu no Thtre des Iampires com Louis como seu protetor
pesaroso e corrodo pela culpa, ficou evidente para muitos que ela tentara assassinar seu principal Criador, o vampiro Lestat. Era um crime punvel com a morte,
o assassinato ou a tentativa de assassinato do criador de algum, mas ela se colocou entre os condenados no momento em que se tornou conhecida da Assemblia de Paris,
pois ela era uma coisa proibida, uma criana imortal, muito pequena, muito frgil apesar de todo o seu charme e esperteza para sobreviver sozinha. Ah, pobre criatura
blasfema e formosa. Sua voz suave e monocrdia, saindo de lbios midos e sempre beijveis, h de me perseguir eternamente.
Mas no provoquei sua execuo. Ela teve uma morte mais medonha do que qualquer pessoajamais imaginou, e agora no tenho foras para contar a histria. Deixe-me
dizer apenas que antes de ela ser jogada num poo de ventilao revestido de tijolos para aguardar a sentena de morte do deus Febo, tentei conceder-lhe seu maior
desejo. O de que ela tivesse corpo de mulher, uma forma de acordo com a dimenso trgica de sua alma.
Bem, em minha alquimia estabanada, cortando cabeas e me atrapalhando na hora de transplant-las, falhei. Uma noite dessas em que eu esteja embriagado com o sangue
de muitas vtimas, e mais acostumado a confessar do que agora, contarei isso, minhas operaes grosseiras e sinistras, conduzidas com teimosia de bruxo e estabanamento
de criana, e descreverei com detalhes lgubres e grotescos a catstrofe que surgia a se contorcer e se debater debaixo de meu bisturi e de minha agulha e minha
linha cirrgicas.
Deixe-me dizer aqui, ela voltar a ser ela mesma, terrivelmente ferida, um arremedo remendado da criana angelical que ela era antes de minhas tentativas,
quando foi trancada naquela manh brutal para encontrar a morte com uma mente limpa. O fogo do Paraso destruiu a terrvel evidncia no cicatrizada de minha cirurgia
satnica transformando-a em monumento de cinza. No sobrou nenhuma evidncia de suas ltimas horas na cmara de tortura de meu laboratrio improvisado. Ningum jamais
precisaria saber do que estou dizendo.
Durante muitos anos, ela me perseguiu. Eu no conseguia tirar da cabea a imagem vacilante de sua cabea infantil com aqueles cachos cados presa canhestramente
com linha preta ao corpo cambaleante de uma vampira cuja cabea descartada eu jogara no fogo.
Ah, que grande desastre foi isso, a mulher monstra com cabea de menina sem conseguir falar, danando numa roda frentica, o sangue jorrando da boca trmula, os
olhos revirados, braos batendo qual ossos quebrados de asas invisveis.
Era uma verdade que prometi esconder para sempre de Louis de Pointe du Lac e de todos que me interrogassem. Melhor deix-los pensar que eu a condenara sem tentar
garantir sua fuga dos vampiros do teatro bem como do miservel dilema de sua forma angelical sedutora e mida, com pele aveludada e desprovida de busto.
Ela no estava preparada para ser libertada aps o fracasso de meu trabalho de aougueiro; era uma prisioneira sujeita  crueldade da tortura que s consegue sorrirtriste
e sonhadoramente ao ser levada, dilacerada e miservel, ao derradeiro horror da fogueira. Era uma paciente perdida, no ftido e anti-sptico cubculo mortal de um
hospital moderno, finalmente libertada das mos de mdicosjovens e excessivamente zelosos, para abandonar o fantasma sozinho num travesseiro branco.
Basta. No quero reviver isso. No vou reviver.
Eu nunca a amei. No sabia como.
Eu executava meus planos com desprendimento glacial e pragmatismo fantico. Condenada e, portanto, no sendo nada para ningum, ela era um espcime perfeito para
o meu capricho. Esse era o horror disso tudo, o horror secreto que eclipsava qualquer f que eu pudesse ter alegado depois na coragem ruidosa de minhas experincias.
E assim o segredo permaneceu comigo, com Armand, que testemunhara sculos de crueldades refinadas e indescritveis, uma histria inadequada aos ouvidos tenros de
um Louis ciesesperado, que jamais poderia ter produzido essas descries da degradao ou do sofrimento dela, e que, no ntimo, no sobreviveu verdadeiramente 
morte dela, uma morte cruel.
Quanto aos outros, meu rebanho idiota e cnico, que to lascivamente ficava atrs de minha porta escutando os gritos, que talvez tenham adivinhado a extenso de
minha magia fracassada, esses vampiros foram mortos pela mo de Louis.
Na verdade, o teatro inteiro pagou pela dor e pela fria dele, e talvez merecidamente.
No posso julgar.
Eu no amava aqueles mascarados franceses decadentes e cnicos. Os que eu amava, e os que eu poderia amar, estavam,  exceo de Louis de Pointe du Lac, absolutamente
fora de meu alcance.
Eu precisava ter Louis, era essa a minha injuno. Eu no conhecia outra. Portanto, no interferi quando Louis incendiou a assemblia e o infame teatro, arriscando
a prpria vida, atacando com fogo e foice exatamente no amanhecer.
Por que ele foi embora comigo depois?
Por que no abominou quem ele responsabilizou pela morte de Claudia? "Voc era o lder deles; poderia t-los detido." Ele me disse essas palavras. Por que passamos
tantos anos vagando juntos, entrando, como fantasmas
elegantes com nossas roupas de morto rendadas e de veludo, na era moderna da luz eltrica e dos rudos eletrnicos?
Ele ficou comigo porque precisava. Para ele, era a nica forma de continuar existindo, e, para a morte, ele jamais tivera coragem, e nunca ter.
Ento ele resistiu aps a perda de Claudia, assim como eu resistira aos sculos das masmorras e aos anos dos espetculos de teatro barato, mas acabou aprendendo
a ficar s.
Louis, meu companheiro, secou por livre e espontnea vontade, como uma linda rosa desidratada habilmente com areia para conservar as propores, no, para conservar
at o perfume e a cor. Apesar de todo o sangue que bebeu, ele prprio secou, ficou sem corao, um estranho para si mesmo e para mim.
Compreendendo muito bem os limites de meu esprito deformado, ele me esqueceu antes de me dispensar, mas eu tambm aprendera com ele.
Durante um breve perodo, assombrado e confuso com o mundo, eu tambm prossegui sozinho - talvez pela primeira vez sozinho de verdade.
Mas quanto tempo qualquer um de ns resiste sem outra criatura? Em meus momentos mais negros tive a velha freira dos Hbitos Antigos, Allesandra, ou pelo menos a
tagarelice dos que me achavam um santinho.
Por que, nesta ltima dcada do sculo XX, procuramos uns aos outros nem que seja esporadicamente para ouvir uma palavra e trocar idias? Por que estamos aqui reunidos
neste convento velho e empoeirado com tantas salas de paredes de tijolos para chorar pelo vampiro Lestat? Por que os muito antigos entre ns vm aqui ver a prova
de sua derrota mais recente e mais apavorante?
No suportamos ficar sozinhos. No agentamos, assim como os monges de antigamente no agentavam, homens que, mesmo tendo renunciado a tudo por Cristo, juntavam-se
em congregaes para estar uns com os outros, mesmo
quando se impunham as duras regras das celas solitrias e do silncio total. Eles no suportavam ficar sozinhos.
Somos muito homens e mulheres; somos, porm, formados  imagem do Criador, e o que podemos dizer dele com alguma certeza seno que, seja Ele quem for - Cristo, Jav,
Al -, Ele nos criou, no? Porque nem Ele em Sua infinita perfeio suportou ficar sozinho.
Com o tempo, concebi naturalmente outro amor, um amor por um garoto mortal, Daniel, a quem Louis contara nossa histria, publicada com o ttulo ridculo de Entrevista
com o vampiro, e que eu depois transformei em vampiro pelas mesmas razes que Marius me transformara h tanto tempo: o garoto, que fora meu fiel companheiro mortal,
e s de vez em quando um estorvo intolervel, ia morrer.
Em si, a criao de Daniel no  nenhum mistrio. A solido sempre nos forar a fazer essas coisas. Mas eu acreditava piamente que aqueles que criamos sempre nos
desprezaro por isso. No posso afirmar que nunca tenha desprezado Marius, tanto por ter me criado quanto por nunca ter voltado para mim para me garantir que havia
sobrevivido ao horrvel incndio provocado pela Assemblia de Roma. Eu preferira procurar Louis a criar outros. E, tendo criado Daniel, vi afinal em pouco tempo
realizar-se o que eu temia.
Daniel, embora vivo e errante, embora corts e gentil, j no suporta minha companhia comoj no suporto a dele. Equipado com meu sangue poderoso, ele pode brigar
com qualquer um que caia na tolice de interromper seus planos para uma noite, um ms ou um ano, mas no pode brigar com minha companhia constante, nem eu com a dele.
Transformei Daniel de romntico mrbido em verdadeiro matador; tornei real nas clulas naturais de seu sangue o horror que ele tanto imaginava entender no meu. Empurrei
seu rosto na carne do primeiro jovem inocente que ele precisou matar por causa de sua sede inevitvel, e assim ca do pedestal no qual ele me colocara em sua cabea
mortal sempre exuberante, excessivamente imaginativa e febrilmente potica.
Mas eu tinha outros em volta de mim quando perdi Daniel, ou antes, quando ganhei Daniel como cria, perdi-o como amante mortal e aos poucos comecei a solt-lo.
Eu tinha outros porque, por razes que no posso expl icar a mim mesmo nem a ningum, criara mais outra assemblia - outra sucessora da Assemblia de Paris de Les
Innocents, e do Thtre des vampires, e esta era um esconderijo moderno e metido a besta para os mais antigos, os mais cultos, os mais resistentes de nossa espcie.
Era uma colmia de quartos luxuosos escondida no prdio que mais coisas oculta - um hotel resort e um palcio de compras moderno numa ilha, ao lado de Miami, Flrida,
uma ilha onde as luzes nunca se apagavam e a
msica nunca parava de tocar, uma ilha onde homens e mulheres chegavam aos milhares vindos do continente em barquinhos para olhar as butiques caras, ou fazer amor
em decadentes, suntuosas e sempre elegantes sutes e quartos de hotel.
"A Ilha da Noite", essa foi criao minha, com seu prprio heliporto e sua prpria marina, seus cassinos clandestinos, seus ginsios revestidos de espelhos e piscinas 
superaquecidas, suas fontes de cristal, suas escadas rolantes prateadas, seu emprio de fascinantes objetos de consumo, seus bares, tabernas, sagues e teatros onde 
eu mesmo, vestido com elegantes palets de veludo, calas jeans apertadas e pesados culos escuros, cabelo aparado todas as noites (pois diariamente ele cresce at 
o comprimento da Renascena), podia vagar anonimamente e em paz, f(utuando nos murmrios suaves e acariciantes dos mortais  minha volta, procurando quando a sede 
determinava aquele indivduo que realmente me desejava, ou aquele indivduo que, por motivos de sade, pobreza ou sanidade, desejava ser tomado nos braos hesitantes 
e jamais opressivos da morte e ser sugado at se ver despojado de todo o sangue e de toda a vida.
Eu no ficava com fome. Largava minhas vtimas nas guas profundas, limpas e quentes do Caribe. Abria as portas para qualquer No Morto que limpasse as botas antes 
de entrar. Parecia que os velhos tempos de Veneza, com o palazzo de Bianca aberto a todas as damas e todos os cavalheiros, de fato, a todos os artistas, poetas, 
sonhadores e intrigantes que ousassem se apresentar, tinham voltado.
Bem, no tinham voltado.
No precisava de nenhum punhado de vagabundos vestidos de preto para dispersar a Assemblia da Ilha da Noite. Na verdade, aqueles que se escondiam ali por uma curta 
temporada simplesmente iam embora sozinhos. Vampiros no querem muito a companhia de outros vampiros. Eles querem o amor de outros imortais, sim, sempre, e precisam 
desse amor, e precisam dos laos profundos de lealdade que inevitavelmente crescem entre aqueles que se recusam a ficar inimigos. Mas no querem a companhia.
E meus esplndidos sales de vidro da Ilha da Noite logo ficaram vazios, e eu mesmoj comeara h muito tempo a passar semanas, e at meses, vagando sozinho.
Continua l, a Ilha da Noite. Continua l, e de vez em quando volto l, sim, e encontro um mortal solitrio que acabou de se registrar, como dizemos nos tempos modernos,
para ver como as coisas vo indo com o resto de ns, ou com algum outro que l esteja de visita. A grande empresa, vendi-a por uma fortuna mortal - mas ainda sou
proprietrio da manso de quatro andares (um clube privado chamado Il Villagio), com suas criptas subterrneas s quais todos de
nossa espcie so bem-vindos. Todos de nossa espcie.
No h muitos. Mas deixe-me contar-lhe quem eram eles. Deixe-me contar- lhe agora quem sobreviveu aos sculos, quem reapareceu aps centenas de anos de ausncia
m isteriosa, quem se apresentou para ser contado no censo no escrito        , dos Mortos-Vivos modernos. L est Lestat, em primeiro lugar, o autor de quatro livros 
sobre sua vida e          suas aventuras compreendendo tudo o que lgum dia voc possa querer saber sobre ele e sobre ns. Lestat, sempre o individualista e o alegre 
vigarista. Um         metro e oitenta e dois de altura, um jovem de vinte anos incompletos, de olhos azuis enormes e quentes e vasta cabeleira loura, queixo quadrado, 
a boca generosa e bem desenhada e a pele bronzeada aps uma estada no sol que teria matado um vampiro mais fraco, um galanteador, uma fantasia oscarwildeana, o espelho 
da moda, s vezes o vagabundo mais audacioso, sem interesse e sem considerao, solitrio, nmade, destruidor de coraes e sabicho, cognominado "Prncipe Moleque" 
por meu velho Mestre-, imagine s, meu Marius, , meu        ` Marius, que realmente sobreviveu aos archotes da Assemblia de Roma -         , cognominado por 
Marius o "Prncipe Moleque" embora da corte de quem e pelo Direito Divino e o Sangue Real de quem, eu gostaria de saber. Lestat, alimentado        ; com o sangue 
dos mais antigos de nossa espcie, na verdade o prprio sangue da        ," Eva de nossa espcie, sobrevivendo de cinco a sete mil anos ao den dela, um perfeito 
horror que, emergindo do enganador ttulo potico de Rainha Akasha dAqueles Que Deviam Ser Guardados, quase destruiu o mundo. Lestat, no um mau amigo para se ter, 
e algum por quem eu daria minha vida imortal, algum cujo amor e companheirismo j supliquei tanto, algum que acho enlouquecedor e fascinante e intoleravelmente 
irritante, algum sem quem eu no posso existir. Chega de falar dele. Louis de Pointe du Lac,j descrito anteriormente mas sempre engraado de analisar: esguio, 
ligeiramente mais baixo que Lestat, seu criador, cabelos pretos, pele branca e macilenta, com dedos incrivelmente longos e delicados, e ps absolutamente silenciosos. 
Louis, cujos olhos verdes so emotivos, o prprio espelho do sofrimento paciente, voz macia, muito humano, fraco, com apenas duzentos anos de existncia, incapaz 
de ler mentes ou de levitar ou de enfeitiar outros seno inadvertidamente, o que pode ser hilariante, um imortal por quem os mortais se apaixonam. Louis, um assassino 
que mata indiscriminadamente, porque no consegue saciar sua sede sem matar, embora seja fraco demais para correr o risco de que a vtima morra em seus braos, e
por no ter orgulho nem vaidade que o levem a uma hierarquia de vtimas planejadas, e, portanto, toma aquelas que cruzarem seu caminho, independentemente de idade,
dotes fsicos        =5 ou bnos com as quais a natureza ou o destino as tenha aquinhoado. Louis, um vampiro mortfero e romntico, o tipo de criatura romntica
que fica pelos cantos
escuros da pera para escutar a Rainha da Noite de Mozart cantar sua cano penetrante e irresistvel.
Louis, que nunca desapareceu, que sempre foi conhecido dos outros, que  fcil de seguir e difcil de abandonar, Louis que no criar outros depois de seus erros 
trgicos com crianas vampricas, Louis que j ultrapassou a busca de Deus, do Diabo, da Verdade e at do amor.
Doce e desinteressante Louis, lendo Keats  luz de uma vela. Louis em p na chuva, numa rua escorregadia e deserta do centro da cidade olhando atravs da vitrine 
da loja o brilhante jovem ator Leonardo DiCaprio como o Romeu de Shakespeare beijando sua terna e encantadora Julieta (Claire Danes) na tela de um televisor.
Gabrielle. Ela est por a agora. Estava l na Ilha da Noite. Todo mundo a odeia. Ela  me de Lestat, e o abandona durante sculos, e de alguma forma no consegue 
atentar para seus gritos frenticos de socorro inevitveis e peridicos, os quais, embora ela no pudesse receber, sendo cria dele, podia certamente tomar conhecimento 
deles por outras mentes vampricas que se acendem pelo mundo inteiro com a notcia quando Lestat est em apuros. Gabrielle, ela  igual a ele, s que  mulher, inteiramente 
mulher, ou seja, de feies mais definidas, cintura fina, busto grande, olhos doces da maneira mais enervante e desonesta, deslumbrante de vestido de baile negro 
e cabelo solto, mais freqentemente sem graa, assexuada, vestida de couro macio ou cqui cintado, uma andarilha assdua, e uma vampira to esperta e fria que j 
esqueceu o que  ser humana e sofrer. Na verdade, acho que esqueeu 1Q j para a pQite, s  qu um dia soube o que era isso. Enquanto mortal, era uma daquelas 
criaturas que sempre ficavam imaginando o que os outros estavam fazendo. Gabrielle, falando baixo, desintencionalmente corrompida, glacial, desagradvel, egosta, 
uma peregrina das florestas nevadas do extremo norte, uma matadora de ursos e tigres brancos, uma lenda indiferente para tribos selvagens, algo mais parecido com 
um rptil prhistrico do que com um humano. Bela, naturalmente, cabelo louro preso numa trana cada s costas, quase majestosa num casaco safri de couro cor de 
chocolate e um chepeuzinho de aba mole, uma espreitadora, rpida para matar, uma coisa impiedosa e aparentemente atenciosa mas eternamente misteriosa. Gabrielle, 
praticamente intil para qualquer pessoa a no ser ela mesma. Uma noite dessas ela vai dizer alguma coisa para algum, suponho.
Pandora, filha de dois milnios, consorte de me amado Marius mil anos antes de eu nascer. Uma deusa, feita de mrmore sangrento, uma beleza poderosa vinda da alma
mais profunda e mais antiga da Itlia romana, impetuosa com a fibra moral da velha classe senatorial do maior imprio que o mundo ocidental j conheceu. No a conheo.
Seu rosto oval brilha sob um manto de cabelos castanhos ondulados. Ela parece bela demais para fazer mal a algum. Tem voz
macia e inocentes olhos splices, o rosto impecvel instantaneamente vulnervel e caloroso, cheio de empatia, um mistrio. No sei como Marius pde deixla. Com
uma tnica curta de seda fina, um bracelete de cobra no brao nu, ela  maravilhosa demais para machos mortais e para a inveja das mulheres. Com aqueles vestidos 
mais longos e ocultadores, ela anda como uma assombrao pelos quartos prximos como se eles no fossem reais para ela, e ela, o fantasma de uma danarina, procura 
um cenrio perfeito que s ela pode achar. Seus poderes certamente rivalizam com os de Marius. Ela bebeu da fonte do den, isto , o sangue da Rainha Akasha. Conseguejogar 
objetos secos para alimentar o fogo com a fora de sua mente, levitar e desaparecer no cu escuro, matar os jovens bebedores de sangue se eles a ameaarem, e no 
entanto parece inofensiva, sempre feminina embora indiferente aos gneros, uma mulher lnguida e queixosa que desejo estreitar em meus braos.
Santino, o velho santo de Roma. Ele chegou aos desastres da era moderna com a beleza imaculada, ainda aquele homem corpulento, pele cor de oliva agora mais clara 
com os efeitos do ardente sangue mgico, cabelos pretos ondulados e volumosos em geral aparados todas as noites na hora do pr-do-sol talvez por amor ao anonimato, 
desprovido de futilidade, perfeitamente vestido de preto. Ele no diz nada a ningum. Olha para mim em silncio, como se nunca tivssemos conversado sobre teologia 
e misticismo, como se ele nunca tivesse destrudo minha felicidade, reduzido minhajuventude a cinzas, impelido meu Criador para uma convalescena secular, isolado-me 
de todo conforto. Talvez ele nos imagine como colegas vtimas de uma poderosa moralidade intelectual, de um fascnio pela idia de propsito, dois perdidos, veteranos 
da mesma guerra.
s vezes ele parece perverso e at odioso. Sabe muita coisa. No superestima os poderes dos antigos, que, fugindo da invisibilidade social de muitos sculos, agora 
circu(am entre ns com total desenvoltura. Quando ele me olha, seus olhos negros so firmes e passivos. A sombra de sua barba, fixada para sempre nos plos rapados 
embutidos em sua pele,  linda como sempre foi. Considerando tudo, ele  convencionalmente viril, camisa branca engomada aberta no colarinho para mostrar a poro 
dos plos pretos e enroscados que cobrem seu peito, uma sedutora penugem preta semelhante cobrindo a pele visvel de seus braos e pulsos. Ele gosta de casacos pretos
lisos mas pesados, com lapela de couro ou de pele, carros baixos que andam a duzentos por hora, um isqueiro de ouro recendendo a fluido que ele vive acendendo s
para olhar para a chama. Onde ele realmente mora, e quando vai aparecer, ningum sabe.
Santino. No sei mais do que isso sobre ele. Mantemo-nos a uma distncia cavalheiresca um do outro. Desconfio que o sofrimento dele tenha sido terrvel. No estou
procurando quebrar a reluzente e elegante carapaa preta de seu
comportamento para descobrir alguma tragdia erua e sangrenta por baixo. Para conhecer Santino sempre h tempo.
Agora deixe-me descrever para os leitores mais virgens o meu Mestre, Marius, como ele  agora. H tanto tempo e tantas experincias a nos separar que  como se houvesse 
uma geleira entre ns, e nos fitamos cada um de um lado dessa imensido branca e intransponvel, conseguindo falar apenas em tom baixo e polido, amabilssimos, a 
criaturajovem que pareo ser, com uma cara meiga demais para convencer informalmente, e ele, sempre o sofisticado mundano, o erudito do momento, o filsofo do sculo, 
doutor em tica do milnio, historiador de todos os tempos.
Ele  alto como sempre foi, com porte imperial ainda em sua moda sbria do sculo XX, usando cortes de veludo antigo para fazer seus palets, que podem dar uma plida 
idia do esplendor com que ele se vestia a cada noite. Agora ele corta de vez em quando o longo cabelo louro que to orgulhosamente ostentava na antiga Veneza.  
sempre rpido de raciocnio e de respostas e ansioso por solues razoveis, dotado de uma pacincia inesgotvel e uma curiosidade insacivel e recusando-se a perder 
as esperanas em seu destino ou no nosso ou no desse mundo. Nenhum conhecimento consegue derrot-lo; temperado pelo fogo e pelo tempo, ele  muito forte para os 
horrores da tecnologia ou os encantos da cincia. Nem microscpios nem computadores abalam sua f no infinito, embora aqueles seus custodiados outrora solenes - 
Aqueles Que Devem Ser Guardados, que preservavam essa promessa de significao redentora - h muito foram derrubados de seus tronos arcaicos.
Tenho medo dele. No sei por qu. Talvez porque eu pudesse am-lo de novo, e amando-o, acabaria precisando dele, e precisando dele, eu acabaria aprendendo com ele, 
e aprendendo com ele, eu voltaria a ser seu fiel aluno em todas as coisas, s para descobrir que a pacincia dele para comigo no substitui a paixo que antigamente 
brilhava em seus olhos.
Preciso dessa paixo! Preciso dela. Mas chega de falar dele. Dois mil anos ele sobreviveu, entrando e saindo do circuito principal da vida humana sem pesar, um grande 
praticante da arte de ser humano, carregando eternamente a graa e a dignidade discreta da Era de Augusto da Roma aparentemente invencvel, onde ele nasceu.
H outros que no esto aqui agora comigo, embora estivessem na Ilha da Noite, e tornarei a v-los. H as gmeas ancis, Mekare e Maharet, guardis da fonte de sangue
primal de onde flui a nossa vida, as razes da trepadeira, por assim dizer, sobre a qual florescemos to teimosa e lindamente. Elas so as nossas Rainhas dos Condenados.
Depois h Jesse Reeves, uma cria do sculo XX feita por Maharet, a mais velha de todas e portanto um monstro fascinante, que eu no conheo mas por
quem tenho grande admirao. Trazendo consigo para o mundo dos No Mortos um inigualvel conhecimento de histria, dos fenmenos paranormais, de filo- sofia e lnguas,
ela  o desconhec ido. Ir o fogo consumi-la como consumiu tantos outros que, cansados da vida, no podem aceitar a imortalidade? Ou ir seu                 esprito 
do sculo XX lhe dar alguma armadura radical e indestrutvel para as                 mudanas inconcebveis que hoje sabemos que devem nos esperar?         Ah, 
h os outros, os errantes. Ouo a voz deles de tempos em tempos na noite. H aqueles distantes que nada sabem sobre nossas tradies e nos intitularam, antipatizando 
com nossos escritos e divertindo-se com nossas cabriolas, "A Assemblia dos Articulados", estranhos seres "sem registro" de pocas, foras, atitudes variadas, que, 
s vezes, ao ver um exemplar de O                 vampiro Lestat numa prateleira, pegam o livro e o reduzem a p com suas mos                 poderosas e desdenhosas. 
        Talvez eles emprestem sua sabedoria ou sua inteligncia  nossa crnica em algum futuro imprevisvel. Quem sabe?         Por ora, s h mais um ator que 
precisa ser descrito antes que minha histria possa avanar.         Este ator  voc, David Talbot, que eu mal conheo, que escreve com uma                 velocidade 
furiosa todas as palavras que saem lentamente de mim enquanto eu o observo, mesmerizado em algum nvel pelo simples fato de esses sentimentos que h tanto tempo 
puderam arder dentro de mim serem agora registrados na pgina aparentemente eterna.         Onde est voc, David Talbot - com mais de sete dcadas de educao mortal, 
um erudito, uma alma profunda e amorosa? Como algum pode dizer? O que voc foi em vida, com a experincia da idade, fortalecido pelas calami- dades rotineiras e 
aprofundado por todas as quatro estaes da vida de um        : homem na terra, foi transportado intacto com toda a memria e conhecimento para o corpo maravilhoso 
de um homem mais jovem. E depois esse corpo, um precioso clice para o Graal de sua prpria pessoa, que conhecia to bem o valor        . de ambos os elementos, 
foi ento atacado por seu amigo mais ntimo, o monstro                 amoroso, o vampiro que teria voc como companheiro de viagem na eternidade com ou sem a 
sua licena, nosso amado Lestat.         No consigo imaginar uma violao dessas. Estou muito distante de toda a humanidade, sem nunca ter sido um homem totalmente 
desenvolvido. Em seu rosto, vejo o vigor e a beleza do anglo-hindu de pele bronzeada de cujo corpo voc goza e, em seus olhos, a alma calma e perigosamente bem-disposta
do velho.         Seu cabelo  preto e macio e bem aparado embaixo das orelhas. Voc se veste com uma grande vaidade submetida a uma forte noo de estilo britnica.
Voc me olha como se sua curiosidade fosse me fazer baixar a guarda, uma coisa dessas no  verdade.
Magoe-me e eu o destruirei. Pouco me importa quo forte voc seja, ou que sangue Lestat lhe tenha dado. Sei mais do que voc. Porque lhe mostro a minha dor, no 
necessariamente gosto de voc. Fao isso por mim e por outros, pela idia mesma dos outros, por qualquer um que fosse saber, e para meus mortais, aqueles que reuni 
a mim recentemente, aquelas duas criaturas preciosas que passaram a ser o cronmetro de minha capacidade de prosseguir.
Sinfonia para Sybelle. Esse bem pode ser o nome dessa confisso. E depois de fazer tudo o que eu podi fazer por Sybelle, fao tudo por voc tambm. J no chega 
isso do passado? J no  isso um prlogo suficiente para o
momento em que vi em Nova York o Rosto de Cristo no Vu? A comea o ltimo captulo de minha vida recente. No h mais nada a acrescentar. Voc tem todo o resto 
e o que precisa vir agora  apenas um breve relato doloroso do que me trouxe auai.
Seja meu amigo, David. Eu no pretendia lhe dizer essas coisas terrveis. Meu corao di. Preciso de voc s para me dizer que eu preciso continuar. Ajude-me com 
sua experincia. Isso no basta? Posso continuar? Quero escutar a msica de Sybelle. Quero falar dos amados libertadores. No posso avaliar as propores dessa histria. 
S sei que estou pronto... Cheguei do outro lado da Ponte dos Suspiros.
Ah, mas  minha deciso, sim, e espere para escrever o que vou dizer. Bem, agora deixe-me passar ao Vu.
Deixe-me ir agora para o Rosto de Cristo, como se eu estivesse subindo u n morro naquele longnquo inverno cheio de neve em Podil, embaixo das torres quebradas da 
cidade de Vladimir, para procurar dentro do Mosteiro das Covas a tinta e a madeira nas quais o visse tomar forma diante de mim: o Rosto Dele. Cristo, sim, o Redentor, 
o Senhor vivo mais uma vez.

PARTE I II

Appassionata

-- 17 --

Eu no queria ir ao encontro dele. Era inverno, e eu estava satisfeito em Londres, rondando os teatros para ver as peas de Shakespeare e passando as noites a ler 
as peas e os sonetos. At agora eu s pensava em Shakespeare. Lestat dera-o a mim. E quando minha barriga se enchia de desespero, eu abria os livros e comeava 
a ler.
Mas Lestat estava chamando. Lestat estava, ou pelo menos afirmava estar, com medo.
Eu precisava ir. Da ltima vez em que ele esteve em apuros, eu no estava livre para ir socorr-lo. H uma histria ligada a isso, mas nada to importante quanto 
a que estou contando.
Agora eu sabia que minha paz de esprito conquistada a duras penas podia ser abalada pelo simples contato com ele, mas ele queria que eu fosse, ento fui. Encontrei-o 
primeiro em Nova York, embora ele no soubesse disso e, nem
se tentasse, poderia ter-me levado a enfrentar uma tempestade de neve pior. Ele matou um mortal naquela noite, uma vtima por quem se apaixonara, como era seu costume 
ultimamente - escolher essas celebridades que cometiam crimes graves e assassinatos hediondos e segui-las antes da noite do festim.
Ento o que ele queria de mim, pensei. Voc estava l, David. Poderia tlo ajudado. Ou assim parecia. Sendo cria dele, voc no ouviu diretamente o seu chamado, 
mas ele o alcanou de alguma forma, e vocs dois, cavalheiros to distintos, encontraram-se para discutir baixinho, num tom sofisticado, os ltimos temores de Lestat.
Quando o alcancei depois, ele estava em Nova Orleans. E foi claro e simples comigo. Voc estava l. O Diabo lhe aparecera em forma de homem. O Diabo podia mudar 
de forma, ora sendo medonho e horripilante com asas como teias de aranha e ps de bode, ora sendo um homem normal. Lestat ficava louco com essas histrias. O Diabo
lhe oferecera uma proposta pavorosa, para que ele, Lestat, passasse a ser seu ajudante no servio de Deus.
Voc se lembra com que calma reagi  histria dele, s suas perguntas, a seus pedidos de conselho? Ah, eu disse a ele categoricamente que era loucura seguir esse
esprito, acreditar que qualquer coisa desencarnada fosse lhe dizer a verdade.
Mas s agora voc toma conhecimento das feridas que ele abriu com essa fbula estranha e maravilhosa. Ento o Diabo faria dele um ajudante infernal e assim um servo
de Deus? Eu poderia ter rido na hora, ou chorado, jogando-lhe na cara que euj havia me considerado um santo do mal, esfarrapado e tiritando de frio quando seguia
minhas vtimas no inverno parisiense, tudo pela honra e pela glria de Deus.
Mas ele sabia disso tudo. No havia necessidade de feri-lo mais, de tir-lo da ribalta de sua prpria histria, ribalta essa em que Lestat, sendo o brilhante astro,
precisava sempre estar.
Embaixo de carvalhos cheios de musgos pendentes, conversamos em tom civilizado. Voc e eu lhe suplicamos que tivesse cuidado. Naturalmente, ele ignorou tudo o que 
dissemos.
Estava tudo misturad com Dora, a fascinante mortal que estava morando exatamente nesse prdio, esse velho convento de tijolos, e era filha do homem que Lestat seguira 
e matara.
Quando ele nos obrigou a prestar ateno nela, fiquei irritado, mas no muito. Eu j me apaixonara por mortais. Tenho aquelas histrias para contar. Estou apaixonado 
por Sybelle e Benjamin, os quais chamo de filhos, e fui um trovador secreto para outros mortais no passado obscuro.
Pois bem, ele estava apaixonado por Dora, deitara a cabea num seio mortal, quera o sangue uterino dessa mulher o qual no seria uma perda para ela, ele estava 
enamorado, enlouquecido, incitado pelo fantasma do pai dela e cortejado pelo Prncipe do Mal em Pessoa.
E ela, o que hei de dizer sobre ela? Que possua o poder de Rasputin por trs de um rosto de postulante ao noviciado, quando na verdade ela  uma teloga experiente
e no uma mstica, uma lder eloqente e exaltada, no uma visionria, cujas ambies celestiais fariam as de So Pedro e So Paulo juntas parecerem pequenas, e
que, naturalmente, ela  igual a qualquer flor que Lestat jamais colhera no Jardim Selvagem desse mundo: uma criatura das mais perfeitas e encantadoras, um espcime
glorioso da Criao de Deus - com cabelos negros, boca carnuda, faces de porcelana e membros vigorosos de ninfa.
Decerto eu sabia exatamente a hora em que ele deixara esse mundo. Senti isso. Eu j estava em Nova York, muito perto dele e sabendo que voc tambm estava l. Ns
dois no queramos, se possvel, perd-lo de vista. Ento chegou a hora em que ele desapareceu na tempestade, em que foi sugado da atmosfera terrestre como se jamais
houvesse estado aqui.
Sendo cria dele, voc no pde ouvir o silncio absoluto que reinou quando ele desapareceu. No pde saber quo completamente ele foi retirado de todas as coisas
minsculas porm materiais que antes ressoavam com o pulsar de seu corao.
Eu sabia, e acho que foi para nos distrair que propus procurarmos a mortal que devia ter fcado abalada com a morte do pai nas mos de um monstro louro e bem-apessoado
que sugava sangue e a tornara sua confidente e amiga.
No foi difcil ajud-la nas noites curtas e rep(etas de acontecimentos que se seguiram, quando horrores se acumulavam, o assassinato de seu pai descoberto, sua
vida srdida logo transformada em fofoca global pela magia da mdia.
Parece que foi h um sculo, e no h to pouco tempo, que nos mudamos para esses quartos no sul, o legado do pai dela de crucifixos e esttuas, de cones que eu
manuseava com tanta frieza, como se nunca tivesse amado esses tesouros.
Parece que foi h sculos que me vesti decentemente para ela, encontrando numa dessas lojas elegantes da Quinta Avenida um palet de veludo vermelho antigo, uma
camisa de poeta, como se diz agora, de algodo engomado e renda farta, e, para realar isso, calas de boca estreita de l preta e botas reluzentes que abotoavam
no tornozelo, tudo isso para melhor acompanh-la na identificao da cabea mutilada de seu pai sob as luzes fluorescentes de um necrotrio imenso e apinhado de
gente.
Uma coisa boa dessa ltima dcada do sculo XX  que, com qualquer idade, o homem pode usar o cabelo de qualquer comprimento.
Parece que foi h um sculo que penteei o meu cheio e ondulado e, pela primeira vez limpo, s para ela.
Parece que foi h um sculo que estvamos to firmes ao lado dela, na verdade at abraamos essa fascinante bruxinha de pescoo comprido e cabelo curto quando ela
chorou a morte do pai e nos crivou de perguntas febris e loucamente inteligentes e desapaixonadas sobre nossa natureza sinistra, como se um grande curso relmpago
sobre a anatomia do vampiro pudesse de certa forma fechar o ciclo de horror ameaando sua integridade e sua sanidade e de certa forma trazer de volta seu perverso
pai sem conscincia.
No, na verdade, no foi pela volta de Roger que ela rezou; ela acreditava piamente demais na oniscincia e na misericrdia de Deus. Ademais, ver uma cabea mutilada
de homem  um tanto chocante, mesmo se a cabea estiver congelada, e um cachorro tiver abocanhado Roger um pouco antes de ele ser descoberto, e com as regras rgidas
de "no tocar" da percia moderna, ele foi at para mim - uma viso e tanto. (Lembro-me da assistente do legista dizerme comovida que eu era terrivelmente jovem
para ter de presenciar uma coisa daquelas. Ela achou que eu fosse o irmozinho de Dora. Que mulher doce ela era!
Talvez valha a pena fazer uma incurso ao mundo oficial de vez em quando para ser chamado de "verdadeiro ator" em vez de "anjo de Botticelli", que passou a ser o
meu refro entre os No Mortos.)
Era com a volta de Lestat que Dora sonhava. O que mais poderia permitir que ela se livrasse do nosso feitio seno uma bno final do prprio prncipe coroado?
Fiquei na janela do apartamento alto, olhando para os montes de neve da Quinta Avenida, esperando e rezando com ela, desejando que a grande terra no estivesse to 
vazia de meu velho inimigo e pensando em meu insensato corao que, com o tempo, esse mistrio de seu desaparecimento seria esclarecido, como eram todos os milagres, 
com tristeza e pequenas perdas, apenas com pequenas revelaes que me deixariam como sempre fui deixado desde aquela longnqua noite em Veneza quando o Mestre e 
eu nos separamos para sempre, simplesmente um pouco mais esperto e fingindo ainda estar vivo.
Eu no estava com medo por causa de Lestat, no realmente. No tinha esperanas para a aventura dele, salvo que ele apareceria mais cedo ou mais tarde e nos contaria 
alguma histria fantstica. Seria aquela sua conversa de sempre, pois ningum exagera como ele suas aventuras absurdas. Isso no  para dizer que ele trocava de 
corpo com humanos. Sei que ele fazia isso. No  para dizer que ele no acordou nossa temvel deusa me, Akasha; sei que acordou. No  para dizer que ele no arrasou 
com minha assemblia supersticiosa nos anos extravagantes antes da Revoluo Francesa. J lhe contei que arrasou.
Mas  a forma como ele descreve o que acontece com ele que me enlouquece, a forma como ele liga um incidente a outro como se todos esses acontecimentos aleatrios 
e medonhos fossem de fato elos de uma corrente significativa. No so. So extravagncias. E ele sabe disso. Mas ele precisa dramatizar a topada que leva.
O James Bond dos vampiros, o Sam Spade de sua prpria histria! Um cantor de rock lamentando-se num palco mortal durante duas horas e, graas a isso, aposentando-se 
com um monte de discos que at hoje lhe rendem lucros imundos pagos por agncias humanas.
Ele tem jeito para fazer tragdia das tribulaes e para se perdoar por tudo em qualquer pargrafo que escreve.
No posso censur-lo, realmente. S no posso deixar de odiar o fato de ele estar em coma aqui no cho dessa capela, olhos vidrados num silncio imperturbado, apesar
das crias que o cercam - exatamente pelo mesmo motivo que eu, para ver com os prprios olhos se o sangue de Cristo de alguma forma o transformou e ele no representa
alguma manifestao magnfica do milagre da Transubstanciao. Mas logo chegarei a isso.
Esbravejei, colocando-me numa pequena enrascada. Sei por que estou to sentido com ele, e me d um grande alvio bater em sua reputao, esmurrar com os dois punhos 
a sua imensido.
Ele me ensinou demais. Trouxe-me a este exato momento, aqui, em que estou lhe ditando meu passado com uma coerncia e uma calma que seriam impossveis antes que 
eu fosse junto com o seu precioso Memnoch, o Diabo e sua vulnervel Dorazinha lhe dar assistncia.
H duzentos anos ele me deixou sem iluses, mentiras, desculpas, e atiroume nu no meio da rua em Paris para procurar voltar para uma glria no estrelato que eu j 
havia conhecido e dolorosamente perdera.
Mas enquanto espervamos finalmente no belo apartamento por cima da Catedral de St. Patrick, eu no tinha idia do que mais ele poderia tirar de mim, e s o odeio 
porque no consigo imaginar minha alma sem ele agora, e, devendo a ele tudo o que sou, nada posso fazer para despert-lo de seu sonho gelado.
Mas deixe-me tratar de uma coisa de cada vez. O que h de bom em voltar a essa capela aqui e encostar as mos nele de novo e implorar que ele me oua, quando ele 
jaz como se todos os sentidos o tivessem abandonado mesmo para nunca mais voltar.
No posso aceitar. No vou aceitar. J perdi a pacincia. Perdi o entorpecimento que era o meu consolo. Acho esse momento intolervel.
Mas preciso lhe contar coisas.
Preciso lhe contar o que aconteceu quando vi o Vu, e quando o sol bateu em mime, mais desgraadamente para mim, o que vi quando afinal alcancei Lestat e cheguei 
to perto dele que podia beber-lhe o sangue.
Sim, v em frente. Agora sei por que ele faz a corrente. No  orgulho, ?  a necessidade. A histria no pode ser contada sem que um elo seja ligado ao outro, 
e ns, pobres rfos do tempo cronolgico, no conhecemos outra forma de medir seno os de seqncia. Jogado numa escurido nevada, num mundo pior que um vcuo,
tentei pegar uma corrente, no? Ah, Deus, o que eu daria naquela terrvel descida para me segurar numa corrente de ferro!
Ele voltou to de repente - para voc, para Dora e para mim.
Era a manh do terceiro dia, e no suficientemente antes da aurora. Ouvi as portas batendo l embaixo na torre de vidro, e depois aquele barulho, aquele barulho
que a cada ano fica mais m isteriosamente alto, o palpitar de seu corao.
Quem foi o primeiro a levantar da mesa? Eu continuava com medo. Ele chegou depressa demais, e havia aqueles perfumes rsticos a envolv-lo, de floresta e de terra.
Ele rompeu todas as barreiras como se estivesse sendo perseguido por aqueles que o raptaram, mas no havia ningum atrs dele. Ele entrou sozinho no apartamento,
batendo a porta ao passar e depois postando-se
 nossa frente, mais terrvel do que eu jamais podia imaginar, mais desfeito dc que eu jamais havia visto em qualquer uma de suas pequenas derrotas passadas
Com um amor total, Dora correu para ele, e, com uma urgncia desesperada que era bem humana, ele a agarrou to furiosamente que achei que fosse destru-la.
- Agora voc est a salvo, querido - gritou ela, esforando-se para fazlo entender.
Mas bastava olhar para ele para saber que aquilo no havia terminado, embora dissssemos as mesmas palavras vazias diante do que vimos.
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Ele chegara do turbilho. Estava com um p calado, o outro descalo, o palet rasgado, o cabelo desgrenhado, cheio de espinhos e folhas secas e pedaos de flor.
Abraava um embrulho chato de pano como se estivesse carregando todo o destino do mundo bordado ali.
Mas o pior, o pior de tudo, era que um olho havia sido arrancado de seu lindo rosto, e as plpebras vampricas franziam e tremiam tentando esconder a rbita, recusando-se 
a reconhecer este desfi uramento medonho do cor o tor
g p nado perfeito para sempre quando ele foi transformado em imortal.
Eu queria tom-lo nos braos. Queria consol-lo, dizer-lhe que, aonde quer que ele tivesse ido e o que quer que tivesse acontecido, agora ele estava novamente em 
segurana conosco, mas nada conseguia sosseg-lo.
Uma profunda exausto salvou-nos a todos da histria inevitvel. Precisvamos buscar nossos cantos escuros para nos esconder do sol que chegava, precisvamos esperar 
at a noite seguinte quando ele viria nos encontrar e nos contar o que acontecera.
Ainda agarrado ao embrulho, recusando qualquer ajuda, ele se fechou com seu ferimento. No tive outra escolha seno deix-lo.
Naquela manh, afundando em meu lugar de repouso, seguro na limpa escurido moderna, chorei como uma criana por causa do que eu vira. Ah, por que eu fora acudi-lo?
Por que precisava v-lo to por baixo assim quando eu levara tantas dcadas para firmar meu amor eterno por ele.
Certa vez, h cem anos, ele apareceu cambaleando no Thtre des Iampires atrs de suas crias renegadas, o doce e gentil Louis e a criana condenada, e a no tive
pena dele, todo cheio de cicatrizes da tentativa estabanada e insensata de Claudia de mat-lo.
Eu o tinha amado, sim, mas este fora um desastre fsico que seu sangue maligno curaria, e eu sabia pela nossa velha histria que, no processo de cura, ele ganharia
ainda mais fora do que poderia ganhar com o tempo sereno.
Mas o que eu havia visto agora era uma devastao da alma em seu rosto angustiado, e a viso daquele olho azul solitrio, brilhando com tanta vivacidade em seu rosto
riscado e miservel, fora insuportvel.
No me lembro de termos falado, David. S lembro que a manh nos fez ir embora depressa, e se voc tambm chorou, eu no escutei, no pensei em escutar. Quanto ao 
embrulho que ele abraava, o que poderia ser? Acho que nem pensei nisso.
A noite seguinte:
Ele chegou calmamente na sala do apartamento quando a escurido baixou, estrelada por alguns preciosos momentos antes da terrvel nevasca. Estava vestido e de banho 
tomado, o p ferido e ensangentado sem dvidaj curado. Estava de sapatos novos.
Mas nada poderia minimizar a imagem grotesca de seu rosto dilacerado onde as marcas de uma garra ou de unhas rodeavam as plpebras franzidas e vazias. Calmamente, 
ele se sentou.
Olhou para mim, e um plido sorriso encantador iluminou-lhe o rosto. -No tenha medo por mim, Armand, seu diabinho. Tenha medo por todos ns. Agora no sou nada. 
No sou nada.
Baixinho, contei-lhe meu plano.
- Deixe-me ir l embaixo na rua roubar de algum mortal, algum ser perverso que tenha desperdiado todos os dons fsicos que Deus lhe deu, um olho para voc! Deixe-me 
coloc-lo aqui na rbita vazia. Seu sangue escorrer nele e o far enxergar. Voc sabe. Voc j viu esse milagre uma vez com a anci, Maharet, na verdade, com um 
par de olhos mortais boiando em seu sangue especial, olhos que podiam ver! Vou fazer isso. Um instante s, e terei o olho na mo e serei o mdico e colocarei o olho 
no lugar. Por favor.
Ele s sacudiu a cabea. Deu-me um beijo rpido no rosto.
- Por que voc me ama depois de tudo o que lhe az? - perguntou. Era inegvel a beleza de sua pele lisa e bronzeada pelo sol, at enquanto o furo escuro da rbita
parecia me espiar com um poder secreto para transmitir sua viso ao corao dele. Ele estava lindo e radioso, com um brilho avermelhado emanando do rosto como se
tivesse contemplado um mistrio poderoso.
- , mas fz - disse ele, e comeou a chorar. - Fiz, e preciso lhe contar tudo. Acredite em mim, como acredita no que viu ontem  noite, as flores ainda grudadas
em meu cabelo, os cortes, olhe, minhas mos, elas se regeneram mas no suficientemente rpido, acredite em mim.
Voc interveio ento, David.
- Conte-nos, Lestat. Ns iramos esper-lo aqui a vida inteira. Conte-nos. Aonde esse demnio Memnoch o levou? - Como sua voz soou confortadora e
racional!, exatamente como agora. Acho que voc foi feito para isso, para raciocinar, e foi dado a ns, se posso especular, para nos obrigar a ver nossas catstrofes
sob o novo prisma da conscincia moderna. Mas podemos falar dessas noites por muitas noites daqui para a frente.
Deixe-me voltar  cena, ns trs sentados naquelas cadeiras chinesas de laca ao redor da mesa de vidro grosso, e Dora entrando, imediatamente, impressionada com 
a presena dele, da qual seus sentidos mortais no lhe haviam dado nenhuma pista, uma linda pintura com seu cabelo preto luzidio cortado num pajem curto para revelar 
a delicada nuca de seu pescoo de cisne, seu corpo esguio e gil vestido num camisolo arroxeado delicadamente pregueado em volta dos seios pequenos e das coxas 
delgadas. Ah, que anjo do Senhor, esse, refleti, essa herdeira da cabea mutilada do pai rei da droga. A cada passo, ela ensina doutrinas que fariam os deuses pagos 
da luxria canoniz-la alegremente.
No pescoo doce e alvo, ela usava um crucifixo to pequeno que parecia um mosquito dourado pendurado numa corrente de elos minsculos tecidos por fadas. O que so 
agora esses objetos sagrados, caindo em seios leitosos com tamanha desenvoltura, seno quinquilharias de feira? Meus pensamentos eram implacveis, mas eu era s 
um catalogador indiferente de sua beleza. Seus seios redondos, o vale sombrio entre eles aparecendo bastante na costura simples de seu vestido escuro e decotado, 
falavam mais sobre Deus e sobre a Divindade.
Mas o que mais a enfeitou nesses momentos foi o amor triste e vido que sentia por ele, a falta de medo do rosto mutilado dele, a graa de seus braos brancos quando 
ela o abraou de novo, to segura de si e to grata pela aproximao consentida do corpo dele. Eu estava gratssimo porque ela o amava.
- Ento o Prncipe das Mentiras tinha uma histria para contar, tinha? perguntou ela. No conseguiu eliminaro tremorda voz.-Ento ele o levou para o Inferno dele 
e o mandou de volta? - Ela segurou o rosto de Lestat e virou-o para ela. - Ento conte-nos o que era esse Inferno, conte-nos por que precisamos ter medo. Conte-nos 
por que voc teve medo, mas acho que estou vendo em voc uma coisa muito pior do que medo.
Ele balanou a cabea para concordar. Empurrou a cadeira chinesa para trs e, torcendo as mos, comeou a andar de um lado para o outro, o indefectvel preldio
de sua narrao.
- Ouam tudo o que eu disser, antes de ular - falou, fitando a ns trs ali em volta da mesa, uma pequena platia ansiosa, disposta a fazer o que quer que ele
pedisse. O olhar dele se demorou em voc, David, em voc, o ingls erudito com seu palet masculino de tweed, que, apesar do amor transparentssimo, olhava-o com
um olho crtico, pronto para avaliar as palavras dele com sua sabedoria inata.
Ele comeou a falar. Falou durante horas. Durante horas as palavras sararr de sua boca, inflamadas, corridas, s vezes aos borbotes, de modo que elc precisava 
parar para tomar flego, mas ele nunca chegou realmente a fazer uma pau.sa, despejando noite adentro aquela histria de sua aventura.
Sim, Memnoch, o Diabo, o levara para o Inferno, mas era um Infernc inventado por Memnoch, um local de purgao em que as almas de todos os quE haviam vivido eram 
acolhidas depois de sair espontaneamente do turbilho da morte que as herdara. E nesse Inferno de purgao, confrontadas com tudo o que haviam feito, elas aprendiam 
a lio mais horrvel de todas, as conseqncia; interminveis de cada ato que cometeram. Assassino e me, criana errante morta em aparente inocncia e soldados 
banhados de sangue dos campos de batalha, todos eram admitidos nesse lugar tenebroso de fumaa e fogo de enxofre, mas s para ver as chagas dos outros feitas por 
suas mos furiosas e inconscientes, para sondar as profundezas de outras almas e outros coraes prejudicados por elas!
Todo horror era uma iluso nesse lugar, mas o pior de todos era a pessoa de Deus Encarnado, que autorizara esta Escola Final para aqueles que seriam dignos de entrar 
em Seu Paraso. E isso tambm Lestat havia visto, o Paraso vislumbrado milhares de vezes por santos e vtimas moribundas, com rvores sempre floridas e flores eternamente 
doces e infinitas torres de cristal com seres felicssimos, totalmente desencarnados e afinal cantando em unssono com inmeros coros de anjos.
Era uma velha histria. Velhssima. Fora excessivamente contada essa lenda - do Paraso com seus portes abertos, e Deus Nosso Criador enviando Sua luz inesgotvel 
para aqueles que subissem a escadaria mtica a fim de reunirse para sempre  corte celestial.
Quantos mortais despertando de um sono prximo da morte esforaram-se para descrever as mesmas maravilhas?
Quantos santos afirmaram ter vislumbrado esse den indescritvel e eterno? E com que inteligncia esse Diabo Memnoch exps o seu caso, pedindo a compaixo dos mortais 
pelo pecado de ter sido o nico a se opor a um Deus impiedoso e indiferente, suplicando a essa Divindade que olhasse com olhos misericordiosos para uma raa carnal 
de seres que, graas a um amor generoso, conseguiu gerar almas dignas do interesse Dele?
Isso, ento, foi a queda de Lcifer como a Estrela da Manh do cu - um anjo suplicando que os Filhos e Filhas dos Homens tivessem agora o semblante e o corao
de anjos.
- Dai-lhes o Paraso, Senhor, quando eles tiverem aprendido em minha escola a amar tudo o que criastes.
Ah, um livro j foi escrito com essa aventura. Memnoch no pode ser condensado aqui nesses poucos pargrafos injustos.
Mas foi esse o resumo do que ouvi ali sentado nessa sala gelada em Nova York, olhando de vez em quando para a neve branca que caa l fora, enquanto a figura frentica 
de Lestat andava de um lado para o outro, abafando os barulhos da cidade l embaixo com sua retumbante narrativa, e lutando contra o medo terrvel que eu sentia 
de desapont-lo no clmax da narrativa. Preciso lembr-lo de que ele no fez mais do que conceber de uma forma mais palatvel ajornada mstica de mil santos.
Ento  uma escola que substitui aqueles crculos de fogo descritos pelo poeta Dante com tanta intensidade que enjoa o leitor, e at o terno Fra Anglico sentiu-se 
compelido a pintar, onde mortais nus inundados pelas chamas deviam sofrer por toda a eternidade.
Uma escola, um local de esperana, uma promessa de redeno suficientemente grande para acolher at a ns, os Filhos da Escurido, que contavam entre seus pecados 
tantos assassinatos quanto os dos antigos hunos ou mongis.
Ah, era muito doce essa imagem da vida no alm, os horrores do mundo natural entregues a um Deus sbio porm distante, e a loucura do Diabo reproduzida com uma inteligncia 
to requintada.
Quisera que isso fosse verdade, quisera que todos os poemas e todas as pinturas do mundo fossem apenas um reflexo desse esplendor esperanoso. Isso poderia ter-me 
entristecido; poderia ter-me abatido, deixando-me envergonhado, sem poder olhar para ele.
Mas um nico incidente desta histria, um incidente que para ele foi um encontro passageiro, avultou-se para mim com propores maiores que o resto e ficou em minha 
mente, de modo que, enquanto ele prosseguia, eu no conseguia tirar aquilo da cabea: que ele, Lestat, bebera o prprio sangue de Cristo a caminho do Calvrio. Que 
ele, Lestat, falara com esse Deus Encarnado, que, por sua prpria vontade, caminhara para aquela horrvel morte no Glgota. Que ele, Lestat, uma testemunha tmida 
e trmula, fora obrigado a ir para as ruas de terra de Jerusalm para ver Nosso Senhor passar, e que esse Senhor, Nosso Senhor Vivo, com a cruz amarrada aos ombros,
oferecera a garganta a Lestat, o pupilo escolhido.
Ah, que fantasia essa loucura, que fantasia. Eu no esperava ficar to magoado com alguma coisa nessa histria. No esperava que isso me deixasse com o peito ardendo
tanto, com um aperto na garganta que no deixava passar nenhuma palavra. Eu no queria isso. A nica salvao para meu corao ferido era pensar em como era curioso
e insensato que um quadro desses -Jerusalm
 a rua de terra, o povo irritado, o Deus sangrando, agora flagelado e mancando sob o peso da cruz-devesse incluir uma lenda antiga e doce de uma mulher com
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ANNE RICE
um vu estendido para enxugar o Rosto ensangentado de Cristo, e assim receber para sempre a Sua Imagem.
No  preciso ser erudito, David, para saber que esses santos foram feitos por outros santos nos sculos seguintes como atores e atrizes escolhidos para um Teatro 
da Paixo de uma cidade de interior. Vernica! Vernica, cujo nome significa cone Verdadeiro.
E nosso heri, nosso Lestat, nosso Prometeu, com aquele vu dado a ele pela prpria mo de Deus, fugiu desse grande e medonho reino de Cu e Inferno e das Estaes 
da Cruz gritando no! e no vou! e voltou, esbaforido, correndo como um louco pelas ruas de Nova York, s querendo estar conosco, dando as costas para tudo isso.
Minha cabea girava. Havia uma guerra dentro de mim. Eu no conseguia olhar para ele.
Ele foi prosseguindo, examinando aquilo, tor,ando a falar do cu de safira e da msica dos anjos, discutindo consigo mesmoe com voc e com Dora, e a conversa parecia 
muito com vidro quebrado. Eu no estava agentando.
O Sangue de Cristo dentro dele? O Sangue de Cristo passando por seus lbios, lbios impuros, seus lbios No Mortos, o Sangue de Cristo fazendo dele um Cibrio monstruoso? 
O Sangue de Cristo?
- Deixe-me beber! - exclamei de repente. - Lestat, deixe-me beber de voc, deixe-me beber seu sangue que contm o sangue Dele! - Eu no podia acreditar em minha 
prpria honestidade, meu violento desespero. - Lestat, deixe-me beber. Deixe-me procurar o sangue com minha lngua e meu corao. Deixe-me beber, por favor; voc 
no pode me recusar esse nico momento de intimidade. E se foi Cristo... se foi... - no consegui terminar.
-Ah, criana louca e alucinada-disse ele.-Se cravaros dentes em mim , voc s vai ficar sabendo o que vemos nas vises que temos com todas as nossas vtimas. Vai
ficar sabendo o que achei ter visto. Vai ficar sabendo o que achei que me foi dado a conhecer. Vai ficar sabendo que meu sangue corre em minhas veias, coisa que
voc sabe agora. Vai ficar sabendo que acredito que era Cristo, mas nada mais que isso.
Ele balanou a cabea desapontado enquanto me fuzilava com os olhos. - No, eu saberei. - Levantei-me da mesa, as mos trmulas. - Lestat ,
me d s esse abrao e nunca mais lhe pedirei nada. Deixe-me pousar os lbios em sua garganta, Lestat, deixe-me testar a histria, deixe!
- Voc me corta o corao, seu tolinho-disse ele com lgrimas nos olhos. - Sempre cortou.
- No me julgue! - protestei.
Ele prosseguiu, falando s para mim, em pensamento e tambm com a voz. Eu no sabia se algum mais ali sequer o estava ouvindo. Mas eu estava. No esqueceria nenhuma
palavra.
-E se isso fosse o Sangue de Deus, Armand-perguntou ele-, e no parte de uma mentira gigantesca, o que voc encontraria em mim? V  primeira missa da madrugada 
e pegue suas vtimas daquelas que estiverem saindo da Mesa de Comunho! Que belo jogo seria, Armand, alimentar-se para sempre s de comungantes! Voc pode ter o 
seu Sangue de Cristo com qualquer comungante. Eu lhe digo, no acredito nesses espritos, Deus, Memnoch, esses mentirosos; eu me recuso! Eu no quis ficar, fugi 
daquela maldita escola deles, perdi a vista lutando com eles, eles me arrancaram o olho, aqueles anjos perversos me agarrando quando fugi! Voc quer o Sangue de 
Cristo, ento v  missa do pescador l naquela igreja escura e tire o padre sonolento do altar, se quiser, e tome o clice de suas mos consagradas. V, faa isso!
-Sangue de Cristo! -prosseguiu ele, o rosto um enorme olho fixando-me em seu feixe implacvel. - Se algum dia esse sangue sagrado esteve em mim ,
ento o meu corpo dissolveu-o e queimou-o como a cera da vela devora o pavio. Voc sabe disso. O que resta de Cristo na barriga dos fiis quando eles saem da igreja?
- No - eu disse. - No, mas no somos humanos! - murmurei p , rocurando usar o tom delicado para abafar sua irritao inllamada. - Lestat,
eu saberei! Era o sangue Dele, no po e vinho transubstanciados! O sangue Dele, Lestat, e saberei se esse sangue estiver dentro de voc. Ah, deixe-me beber ,
eu lhe suplico. Deixe-me beber para poder esquecer todas essas malditas coisas que voc nos contou, deixe-me beber!
Eu mal conseguia me conter para no agarr-lo e subjug-lo  minha vontade, sem fazer caso de sua fora lendria, seu gnio medonho. Eu o agarraria e faria com que 
ele se entregasse. Tomaria o sangue...
Mas essas idias eram tolas e fteis. A histria dele inteira era tola e ftil, porm eu me virei e, enfurecido, soltei-lhe essas palavras:
- Por que voc no aceitou? Por que no foi com Memnoch se ele poderia t-lo tirado desse Inferno horrvel que partilhamos, por qu?
- Eles o deixaram escapar - voc disse a ele, David. Voc interveio, acalmando-me com um pequeno gesto de splica.
Mas eu no estava com pacincia para nenhuma anlise e nenhuma interpretao inevitvel. No conseguia tirar a imagem da cabea, Nosso Senhor Sanguinolento, Nosso
Senhor com a cruz amarrada aos ombros, e ela, Vernica, essa imagem doce, segurando o Vu. Ah, como foi possvel o engodo dessa fantasia chegar to fundo?
- Afastem-se todos de mim - gritou ele. - Tenho o Vu. Eu lhes disse. Cristo me deu. Vernica me deu. Trouxe-o comigo do Inferno de Memnoch, quando todos os diabos
dele tentaram tir-lo de mim.
Eu mal ouvia. Vu, o Vu verdadeiro, que truque  esse? Minha cabea doa. A missa do pescador. Se houvesse uma coisa dessas l embaixo em St. Patrick, eu queria
ir. Estava cansado da sala dessa torre de vidro, isolado do sabor do vento e da umidade selvagem e refrescante da neve.
Por que Lestat encostou-se na parede? Por que tirou o casaco? O Vu! Um tcuque de mau gosto para selar toda essa obra-prima de violncia?
Ergui os olhos, contemplando a neve caindo no escuro l fora e s aos poucos encontrando seu alvo: o pano aberto que Lestat segurava cabisbaixo, o pano revelado 
com a mesma reverncia que Vernica deve ter tido.
- Meu Senhor! - murmurei. O mundo desaparecera em espirais imponderveis de som e luz. Vi-O ali. - Meu Senhor.
Vi o Rosto Dele, no pintado, impresso ou caprichosamente estampado de alguma outra forma nas minsculas fibras do fino tecido branco, mas ardendo com uma chama 
que no consumia o veculo de seu calor. Meu Senhor, meu Senhor o Homem, meu Senhor, Meu Cristo, o Homem com uma coroa preta de espinhos afiados. E cabelos castanhos 
compridos e enrolados to medonhamente grudados de sangue, e grandes olhos pensativos a itar-me, as doces e vivas portas da Alma de Deus, to radiantes com seu amor 
incomensurvel que toda a poesia morre diante delas, e uma boca macia e sedosa de uma simpl icidade que no pergunta nemjulga, aberta para tomar um alento silencioso 
e agonizante no momento exato em que o Vu chegou para aliviar esse sofrimento atroz.
Chorei. Tapei a boca, mas no consegui conter as palavras.
- Ah, Cristo, meu Cristo trgico - murmurei. - No feito por mos humanas! -exclamei.-No feito por mos humanas! -Quo miserveis as minhas palavras, quo fracas, 
quo cheias de dor! -O Rosto deste Homem, este Rosto de Deus e Homem. Ele est sangrando. Pelo amor de Deus Todo-Poderoso, olhem!
Mas eu no emitira nenhum som. No conseguia me mexer. No conseguia respirar. Cara de joelhos chocado e indefeso. No queria mais tirar os olhos daquilo. S queria 
olhar para Ele, e O vi, e voltei no tempo, a sculos passados, e vi o Rosto Dele  luz da lamparina de barro ardendo na casa em Podil, o Rosto Dele a me fitar do
quadro entre meus dedos trmulos em meio s velas do escritrio do Mosteiro das Covas, o Rosto Dele como eujamais o vira naquelas paredes gloriosas de Veneza ou
Florena onde eu passara tanto tempo procurando-o to desesperadamente.
O Rosto Dele, Seu Rosto de homem infundido com o Divino, meu Senhor trgico fitando-me dos braos de minha me h muito tempo, numa rua coberta de neve enlameada
em Podil, meu Senhor amoroso em Majestade sanguinolenta.
No me interessou o que Dora disse.
No me interessou que ela gritasse o Santo Nome Dele. No me interessava. Eu sabia.
E quando ela fez sua profisso de f, quando arrancou o Vu das mos de Lestat e fugiu do apartamento com aquilo, fui atrs, correndo atrs dela e atrs do Vu - 
embora no refgio de meu corao eu no tivesse me mexido. Fiquei sempre parado.
Uma grande calma dominara minha mente, e meus membros j no importavam.
No importava que Lestat lutasse com ela, e a alertasse para no acreditar naquilo, e que ns trs estivssemos na escada da catedral e que a neve casse como uma 
bno esplndida dos Cus invisveis e insondveis.
No importava que o sol estivesse para nascer em breve, uma bota gnea prateada para alm da cobertura de nuvens que se dissolviam.
Agora eu podia morrer.
Eu O havia visto, nada mais importava - nem as palavras de Memnoch e seu Deus fantasioso, ou os apelos de Lestat para que fssemos embora, para que nos escondssemos 
antes que a manh nos devorasse.
Eu podia morrer agora.
- No feito por mos humanas - murmurei.
Foi-se formando um ajuntamento de pessoas  nossa volta na porta da igreja. Uma deliciosa corrente de ar quente veio l de dentro. No importava.
- O Vu, o Vu - gritavam as pessoas. Elas viram! Elas viram o Rosto Dele.
Os gritos splices e desesperados de Lestat estavam morrendo.
A manh desceu com sua estrepitosa claridade quente, rolando pelos telhados e coalhando a noite em mil paredes de vidro e lentamente soltando sua glria monstruosa.
-Sejam testemunhas-disse eu. Estendi os braos para a luz cegante, essa morte prateada fundida. - Esse pecador morre por Ele! Esse pecador vai para Ele.
Jogue-me no Inferno,  Senhor, se for essa a Vossa vontade. Vs me destes o Paraso. Vs me mostrastes o Vosso Rosto.
E o Vosso Rosto era humano.

-- 19 --

Subi como um foguete. A dor que senti foi absoluta, destruindo totalmente a vontade ou o poder de escolher o mpeto. Uma exploso interna me enviou aos cus, para 
dentro da luz perolada quejorrara de repente, como semprejorra, de um olho ameaador, inundando a cidade com seus raios infnitos, numa gigantesca onda de claridade 
leve e fundida, derrubando tudo o que era grande e pequeno.
Fui subindo cada vez mais, girando como se a intensidade da fora da exploso interior no estancasse, e, horrorizado, vi que minhas roupas haviam sido queimadas 
e meus membros soltavam uma fumaa que era engolida pelo turbilho do vento.
Tive uma viso total de meus membros, meus braos e minhas pernas abertos, delineados contra a luz ofuscante. Minha carnej estava carbonizada, negra e lustrosa, 
colada aos tendes de meu corpo, enrugada no emaranhado de msculos que envolviam meus ossos.
A dor chegou ao auge de minha capacidade de suportar, mas como explicar que isso no me importava; eu estava a caminho de minha prpria morte, e esta tortura aparentemente 
interminvel no era nada, nada. Eu podia suportar tudo, at a ardncia nos olhos, a cincia de que eles logo iriam derreter ou explodir nessa fornalha de luz solar, 
e que tudo o que eu era desencarnaria.
Bruscamente, a cena mudou. O rugido do vento passara, minha vista estava calma e focada, e ouvia-se de todos os lados um grande coro de hinos familiar. Eu estava 
num altar, e, ao levantar os olhos, vi uma igreja  minha frente coalhada de gente, as colunas pintadas erguendo-se como muitos troncos de rvore numa selva de bocas 
cantantes e olhos admirados. Por todos os lados, eu via essa congregao imensa e interminvel. A igreja no tinha paredes para delimit-la, e at os domos altos, 
decorados com santos e anjos do ouro mais puro e mais brilhante, recuavam para o grande cu finssimo e sem fim.
O cheiro de incenso me encheu as narinas.  minha volta, os sininhos dourados tocavam em unssono e com refres delicados sobrepondo-se rapi
damente. A fumaa me ardia nos olhos mas muito docemente, enquanto o ^ perfume do incenso me enchia as narinas e me fazia chorar, e minha viso se unia
a tudo o que eu saboreava, tocava ou ouvia.
Abanei os braos, e vi compridas mangas brancas debruadas de ouro a cobrilos, caindo de pulsos recobertos com aqueles plos masculinos naturais e macios. Eram as 
minhas mos, sim, mas minhas mos anos depois do ponto mortal em que a vida fora fixada em mim. Eram mos de homem.
De minha boca saiu uma cano, ecoando ruidosa e destacadamente pela congregao, e ento suas vozes se elevaram em resposta, e mais uma vez cantei minha certeza, 
a certeza que me dominara at a medula.
- Cristo chegou. A encarnao comeou em todas as coisas e em todos os homens e mulheres, e continuar para sempre! - Isso parecia uma cano to perfeita que as 
lgrimas escorriam de meus olhos, e quando abaixei a cabea e cruzei as mos vi o po e o vinho  minha frente, o po redondo esperando para ser abenoado e partido 
e o vinho no clice dourado ali para ser transformado.
- Este  o Corpo de Cristo, e este  o Sangue derramado por ns agora e antes e para sempre, e em cada momento em que estivermos vivos! - Cantei. Segurei o po e 
ergui-o, e um grande feixe luminosojorrou dali, e a congregao entoou o seu hino de louvor mais doce e mais alto.
Segurei o clice nas mos. Elevei-o enquanto os sinos repicavam nas torres, torres e torres grudadas s torres dessa igreja imponente, espalhando-se em todas as 
direes, o mundo inteiro tendo-se tornado essa floresta de igrejas, e aqui ao meu lado os sininhos dourados tilintavam.
De novo as lufadas de incenso. Ao pousar o clice, olhei para o mar de rostos que se estendia  minha frente. Virei a cabea de um lado para o outro e depois olhe 
para o cu, para os mosaicos fundindo-se com as nuvens brancas e agitadas que iam subindo.
Vi as cpulas douradas embaixo do Paraso. Vi os telhados sem fim de Podil.
Eu sabia que era a cidade de Vladimir em toda a sua glria, e que eu estava no grande santurio de Santa Sofia, tendo sido retirados todos os biombos que me separavam
das pessoas, e todas aquelas outras igrejas que eram apenas runas em minha infncia longnqua agora estavam magnficas depois de restauradas, e os domos dourados
de Kiev bebiam a luz do sol e a refletiam com a fora de um milho de planetas aquecidos eternamente com o fogo de um milho de estrelas.
-Meu senhor, meu Deus! -exclamei. Olhei para o bordado esplendoroso de minhas vestes, o cetim verde e seus fios de ouro metlico.
 minha direita e  minha esquerda estavam meus irmos em Cristo, barbados, olhos brilhando enquanto me ajudavam, enquanto cantavam os hinos
que eu cantava, enquanto nossas vozes se misturavam, prosseguindo vigorosamente de hino a hino em notas que eu quase podia ver subindo aos cus diante de mim.
- Dem-lhes esse po! Dem-lhes esse po porque eles tm fome - gritei. Parti o po com as mos. Parti-o ao meio, e depois em quartos, e os quartos em pedacinhos 
que encheram o prato reluzente de ouro.
A congregao em massa subiu os degraus, mozinhas rosadas e macias pegando os pedaos, que distribu o mais rpido possvel, um de cada vez, sem derramar uma s 
migalha, o po dividido entre dezenas, e depois vintenas, e depois centenas de pessoas que se adiantavam, as ltimas mal deixando as que j haviam sido alimentadas 
voltarem para seus lugares.
As pessoas iam chegando. Mas os hinos no paravam. Vozes, quietas no altar, silenciadas enquanto deglutiam o po, logo explodiam novamentej ubilosas. O po era eterno.
Eu ficava partindo sua crosta grossa, depositando-a naquelas mos espalmadas ou graciosamente fechadas em concha.
- Tome, tome o Corpo de Cristo! - eu dizia.
Vultos escuros vacilantes erguiam-se  minha volta, brotando do cho refulgente de ouro e prata. Eram troncos de rvores, e seus galhos balanavam para cima e para..baixo 
em minha direo, e folhas e frutos caam desses galhos no altar, no prato de ouro e no po consagrado agora partido numa grande quantidade de pedaos.
- Colham tudo! - exclamei. Catei as folhas verdes e macias e os frutos perfumados e os coloquei naquelas mos vidas. Olhei para as minhas mos e vi gros escorrendo 
de meus dedos, gros que ofereci a lbios abertos, gros que despejei em bocas abertas.
O ar estava coalhado de folhas verdes que caam silenciosamente, tanto que tudo em volta ganhou um brilhante reflexo esverdeado, todo cortado de repente por um bando 
de passarinhos a voar. Um milho de pardais voaram para o cu. Um milho de tentilhes subiram, o sol fulgurante faiscando em suas asinhas abertas.
-Agora e para todo o sempre, sempre em cada clula e cada tomo -orei. - A Encarnao - eu disse. - E o Senhor est no meio de ns. - Minhas palavras ressoaram de
novo como se um teto nos cobrisse, um teto onde minha cano podia ecoar, embora agora nosso teto fosse apenas o cu.
As pessoas iam entrando com presso. Elas rodearam o altar. Meus irmos haviam se retirado, milhares de mos puxando delicadamente suas vestes p ,
uxando-os da mesa de Deus. De todos os lados chegavam esses famintos que pegavam o po que eu distribua, o gro, os frutos aos punhados, e at as folhas verdes
e tenras.
Ali estava minha me ao meu lado, minha me linda e melanclica, uma touca finamente bordada enfeitando seu volumoso cabelo grisalho, com seus olhinhos enrugados 
grudados em mim, e nas mos trmulas, com dedos ressecados e tmidos, ela segurava a mais esplndida das oferendas, os ovos pintados! Vermelhos e azuis, amarelos 
e verdes, e decorados com tiras de diamantes e correntes de flores do campo, os ovos faiscavam em seu esplendor laqueado como se fossem gigantescas jias polidas.
E bem no centro de sua oferenda, esta oferenda que ela erguia com mos trmulas e enrugadas, estava exatamente o ovo que ela h tanto tempo me confiara, o ovo leve 
e cru to deslumbrantemente pintado de vermelho rubi com a estrela dourada no centro, esse precioso ovo que certamente era sua melhor criao, a melhor realizao 
de seu trabalho com a cera quente e a tinta fervente.
No estava perdido. Nunca estivera. Estava ali. Mas havia alguma coisa acontecendo. Eu podia ouvir. Mesmo com a multido cantando num tom altssimo,eu podia ouvir 
o barulhinho dentro do ovo,o barulhinho trmulo,o gritinho.
-Me-eu disse. Peguei o ovo. Segurei-o com as duas mos e pressionei a casca frgil com os polegares.
- No, meu filho - gritou ela. Ela gemia. - No, meu filho, no!
Mas era tarde demais. A casca laqueada quebrou em minha mo, e dos cacos surgiu um pssaro, um lindo pssaroj adulto, um pssaro de asas brancas como a neve, um 
biquinho amarelo e olhinhos negros e brilhantes como pedaos de azeviche.
Soltei um longo suspiro.
O pssaro saiu do ovo, abrindo as asas brancas perfeitamente emplumadas, o biquinho aberto emitindo subitamente um guincho. Saiu voando esse pssaro, livre da casca 
vermelha quebrada, subindo, cada vez mais alto, sobrevoando a congregao, atravessando a chuva de folhas e pardais alvoroados a girar, atravessando o clamor glorioso 
dos sinos que repicavam.
Os sinos das torres tocavam to alto que sacudiam as folhas que caam girando, to alto que as colunas altaneiras estremeciam, as pessoas balanavam e cantavam com 
mais vigor como se em unssono com os retumbantes carrilhes de garganta dourada.
O pssaro voara. O pssaro estava livre.
- Cristo nasceu - murmurei. - Cristo subiu. Cristo est no Paraso e na terra. Cristo est conosco.
Mas ningum conseguia ouvir minha voz, minha voz ntima, e o que importava isso, se o mundo inteiro cantava a mesma cano?
Uma mo agarrou-me. Grosseiramente e com maldade, puxou minha manga. Virei-me. Tomei
flego para gritar e fiquei paralisado de medo.
Um homem, surgido do nada, estava a meu lado, to perto que nossos rostos quase se tocavam. Ele me fuzilou com os olhos. Eu conhecia aquele cabelo e aquela barba
vermelhos, aqueles olhos ardentes e diablicos. Eu sabia que ele era meu pai, mas ele no era meu pai e sim uma presena medonha e poderosa infundida no rosto de
meu pai, e ali, ao meu lado, um colosso, olhando para mim, ridicularizando-me com seu poder e seu tamanho.
Ele bateu com o dorso da mo no clice de ouro. O clice bambeou e caiu, o vinho consagrado manchando os pedaos de po, manchando a toalha de fios de ouro do altar.
- Mas no pode! Olhe o que voc fez! - Ningum me ouvia com aquela cantoria? Ningum me ouvia com aquele repicar dos sinos?
Eu estava sazinho.
Estava numa sala moderna. Embaixo de um teto de estuque branco: Numa sala domstica.
Eu era eu mesmo, um homem mido com aquele meu antigo cabelo desgrenhado at os ombros, casaco de veludo prpura ejab de renda branca. Estava encostado na parede.
Atordoado e quieto ali, eu s sabia que cada partcula daquele lugar, cada partcula minha, era to concreta e real como fora uma frao de segundo antes.
O tapete embaixo de meus ps era to real como as folhas que haviam cado como flocos de neve na imensa Catedral de Santa Sofia, e minhas mos, minhas mos sem plos
e infantis, to reais como as mos do padre que eu fora um segundo antes  partira o po.
Um soluo terrvel me subiu na garganta, um grito terrvel que eu mesmo no agentei ouvir. Eu no conseguiria mais respirar se no o soltasse, e esse corpo, maldito
ou sagrado, mortal ou imortal, puro ou corrupto, certamente explodiria.
Mas uma msica reconfortou-me. Uma msica lentamente se articulou, limpa e requintada, e totalmente diferente do coro uniforme e magnfico que eu acabara de ouvir.
Do silncio, saltavam essas notas perfeitamente formadas e discretas, essa multido de sons cascateantes que pareciam falar de maneira direta e animada, como se 
desafiando lindamente a inundao de som de que eu tanto gostara.
Ah, pensar que apenas dez dedos podiam tirar esses sons de um instrumento de madeira, em que os martelos, com um movimento determinado e rgido, batiam numa harpa
de bronze de cordas esticadssimas.
Eu conhecia essa msica. Conhecia a sonata para piano, e alis gostava dela, e agora sua fria me paralisava. Appassionata. As notas cresciam e decresciam em deslumbrantes
arpejos retumbantes, troando nos graves para ribombar em staccato e logo subindo nos agudos e tornando a disparar. A melodia alegre
continuava, eloqente e exaltadora e absolutamente humana, exigindo ser sentida alm de ouvida, exigindo ser acompanhada em todas as suas intrincadas circunvolues.
Appassionata. Na torrente furiosa de notas, ouvi ressoar um piano de madeira; ouvi a vibrao de sua enorme harpa de bronze. Ouvi o palpitar de suas numerosas cordas. 
Ah, sim, sem parar, cada vez mais alto, mais forte, mais puro e mais perfeito, retinindo torcidas como se uma nota pudesse ser um chicote. Como mos humanas podem 
criar este encanto, como podem tirar dessas teclas de marfim esse dilvio, essa beleza retumbante e movimentada?
A msica parou. Minha agonia foi to grande que s consegui fechar os olhos e gemer por ter perdido essas notas lmpidas e aceleradas, gemer por ter perdido essa 
intensidade prstina, esse som sem palavras que assim mesmo falou comigo, implorando que eu testemunhasse, que compartilhasse e entendesse o furor intenso e absolutamente 
exigente de outra pessoa.
Um grito me sacudiu. Abri os olhos. A sala era ampla e atulhada de objetos ricos colocados a esmo, quadros at o teto, tapetes loridos estendendo-se selvagemente 
embaixo das pernas retorcidas de mesas e cadeiras modernas, e o piano ali, o grande piano de onde essa msica viera, reluzindo bem no centro desse caos, com sua 
longa faixa de teclas brancas sorridentes, que triunfo do corao, da alma, da mente!
Diante de mim, havia um menino ajoelhado no cho, rezando, um menino rabe de cabelos curtos encaracolados e lustrosos e um bem cortado djellaba, isto , uma tnica 
de algodo usada no deserto. Ele estava de olhos fechados, o rostinho redondo virado para cima, embora sem me ver, o cenho franzido e os lbios movendo-se freneticamente, 
as palavras saindo aos borbotes em rabe:
-Que algum demnio ou algum anjo venha det-lo, que saia alguma coisa da escurido, qualquer coisa, qualquer coisa poderosa e vingativa, qualquer coisa, venha, saia 
da luz e da vontade dos deuses que no suportaro ver a opresso dos pecadores. Detenha-o antes que ele mate a minha Sybelle. Detenha-o, aqui  Benjamin, filho de 
Abdulla, que o invoca, leve minha alma, leve minha vida por causa disso, mas venha, venha, quem for mais forte do que eu e salve minha Sybelle.
- Silncio! - gritei. Eu estava sem flego. Sua carinha bizantina redonda podia ter sado admirada da parede da igreja, mas ele estava ali e era real e me viu e
eu era o que ele queria ver.
-Olhe, seu anjo! -gritou ele, a vozjuvenil realada com o sotaque rabe. -No consegue enxergar com esses seus olhes bonitos!
Enxerguei.
Toda a realidade daquilo veio de uma vez. Ela, ajovem Sybelle, brigava para ficar no piano, para no ser arrancada do banco, as mos lutando para alcanar as teclas, 
a boca fechada, e um terrvel gemido pressionando seus lbios fechados, o cabelo louro esvoaando em volta dos ombros. E o homem que a sacudia, que a puxava, que 
gritava com ela, dando-lhe de repente um murro que a derrubou do banco do piano e ela deixando ento escapar um grito e se estatelando desajeitadamente no cho acarpetado.
-Appassionata, Appassionata- grunhiu ele para ela, parecendo um urso com seu gnio megalomanaco. -No quero ouvir essa msica, no quero, voc no vai fazer isso 
comigo, com minha vida.  a minha vida! - Ele rugia como um bfalo. -No vou deix-la continuar.
O menino deu um pulo e me agarrou. Segurou meus pulsos e quando me desvencilhei dele, olhando-o espantado, ele segurou meus punhos de veludo. -Detenha-o, anjo. Detenha-o, 
diabo! Ele no pode mais bater nela. Ele vai
mat-la. Detenha-o, diabo, detenha-o, ela  boa!
Ela se ajoelhou, o cabelo desgrenhado escondendo-lhe o rosto. Uma grande mancha de sangue seco cobria um lado de sua cintura fina, uma mancha que impregnava o tecido 
florido.
Enfurecido, vi o homem se retirar. Alto, cabea raspada, olhos saltados, ele tapou os ouvidos e amaldioou-a:
- Sua cadela louca e idiota, sua egosta. Eu no tenho vida? Eu no tenho justia? No tenho sonhos?
Mas ela j estava de novo com as mos no piano. Tocava o Segundo Movimento daAppassionata como se no tivesse sido interrompida. Suas mos batiam nas teclas. Uma 
torrente furiosa de notas aps a outra, como se escritas com o nico propsito de responder a ele, de desafi-lo, como se para gritar: No paro, no paro...
Vi o que estava para acontecer. Ele se virou e a fuzilou com os olhos esbugalhados, um esgar aflito na boca, mas s para deix-la no auge da raiva. Um sorriso assassino 
formava-se nos lbios dele.
Para frente e para trs, ela balanava no banco do piano, cabelos esvoaantes, uma expresso alegre, a mente desprezando ver as notas que tocava, plotar o curso
de suas mos que corriam de um lado para o outro, sem perder o controle da torrente.
De boca fechada, ela cantarolava baixinho, acompanhando as melodias que jorravam das teclas. Ela se curvava e abaixava a cabea, o cabelo caindo no dorso de suas
mos cleres. E continuou penetrando na melodia ribombante, na certeza, na recusa, no desafio, na afirmao, sim, sim, sim.
O homem partiu para cima dela.
O menino nervoso, deixando-me desesperado, correu para apart-los, e o homem deu-lhe um bofeto com tamanha violncia que o menino se estatelou no cho.
Mas antes que as mos do homem alcanassem os ombros da moa, antes que ele sequer conseguisse toc-Ia- e ela comeou a tocar de novo o Primeiro Movimento, ah, ah,
aaah! a Appassionata toda de novo em toda a sua fora -, eu o segurara, e o virara de frente para mim.
- Voc vai mat-la? - murmurei. - Bem, veremos.
- Sim! - gritou ele, o rosto suado, os olhos saltados brilhando. - Matla! Ela me levou  loucura, foi isso o que ela fez, e vai morrer! -Furioso demais at para 
questionar minha presena, ele tentou me empurrar, os olhos grudados novamente nela. - Sybelle, sua desgraada, pare de tocar essa msica, pare!
A melodia e os acordes estavam novamente tonitruantes. Jogando o cabelo de um lado para o outro, ela prosseguia.
Empurrei-o para trs com a mo esquerda, e, com a direita, levantei seu queixo para poder chegar  sua garganta, rasguei-a e deixei o sangue me entrar na boca. Estava 
escaldante e rico e cheio do dio dele, cheio de rancor, cheio dos sonhos desfeitos e das fantasias vingativas dele.
Como era quente! Tomei-o em sorvos profundos, vendo tudo, como ele a amara, cultivara-a, ela, sua irm talentosa, ele, o irmo inteligente, ferino e desafinado, 
guiando-a para o pinculo de seu universo precioso e refinado, at que uma tragdia comum interrompera a ascenso dela e a enlouquecera, deixando para trs o irmo, 
a memria, a ambio, trancada para sempre no luto pelas vtimas daquela tragdia, seus pais amorosos e aprovadores, mortos numa estrada sinuosa que atravessava 
um vale distante e sombrio na vspera de seu grande triunfo, sua estria como gnio do piano para o mundo inteiro.
Vi o carro deles chacoalhando e correndo na escurido. Ouvi o irmo no banco traseiro conversando, a irm ao lado dele ferrada no sono. Vi o carro bater no outro. 
Vi as estrelas assistindo caladas quela cena cruel. Vi os corpos feridos e sem vida. Vi o rosto atordoado dela, que estava ilesa, a roupa toda rasgada, na beira 
da estrada. Ouvi o irmo gritar horrorizado. Ouvi-o praguejando, sem querer acreditar. Vi vidros quebrados. Vidro quebrado por todo canto faiscando lindamente 
luz dos faris. Vi os olhos dela, azul-claros. Vi seu corao de perto.
Minha vtima estava morta. Escorregou de minha mo. Estava to sem vida quanto seus pais naquele deserto quente.
Ele estava morto e enrugado ejamais poderia machuc-la de novo, puxarlhe os cabelos louros e compridos, bater nela ou impedi-la de tocar.
A sala estava docemente quieta, seno pelo piano tocando. Ela voltara ao Terceiro Movimento e balanava delicadamente com seu incio mais calmo, seus passos polidos
e comedidos.
O menino danava de alegria. Com aquele fino djellaba, descalo, a cabea redonda coberta com um cabelo preto e grosso todo cacheado, ele era o anjo rabe pulando, 
danando e gritando:
- Ele est morto, ele est morto, ele est morto. - Batia palmas, esfregava as mos, tornava a bater palmas, jogava as mos para o alto. - Ele est morto, est morto, 
est morto, no vai mais machuc-la, no vai mais aborrec-la, ele j est duplamente aborrecido para sempre, est morto, est morto.
Mas ela no o ouvia. Continuava tocando, passando por essas notas baixas e sonolentas, cantarolando de boca fechada e depois abrindo a boca para entoar uma cano 
monossilbica.
Eu estava cheio daquele sangue. Sentia-o me percorrer todo. Adorei-o, adorei cada gota. Recobrei o flego do esforo de t-lo consumido to depressa, e fui andando 
devagarinho, fazendo o mnimo de barulho, como se ela pudesse ouvir, quando no podia, e fiquei na ponta do piano, olhando para ela.
Que rostinho terno o dela, to infantil com olhos azul-claros grandes e fundos. Mas olhe as equimoses em seu rosto. Olhe os arranhes em suas faces. Olhe o campo 
pontilhado de feridinhas sangrando em sua fonte onde uma mecha de cabelo foi arrancada pela raiz.
Ela no ligava. Os hematomas esverdeados em seus braos nus nada significavam para ela. Ela continuava tocando.
Que delicado era seu pescoo, mesmo com a marca escura deixada pelos dedos dele, e que graciosos eram seus ombros magros, mal segurando as mangas de seu vestido 
de algodo fino e florido! Suas sobrancelhas fortes de um louro acinzentadojuntavam-se na mais doce expresso de concentrao enquanto ela olhava para frente, contemplando 
apenas sua msica alegre e cheia de extremos, sendo os seus dedos longos a nica coisa que evidenciava sua fora titnica.
Ela deixou o olhar vagar para mim e sorriu como se tivesse visto algo que momentaneamente a agradasse; baixou a cabea uma, duas, trs vezes no compasso rpido da 
msica, mas como se o gesto fosse dirigido a mim.
-Sybelle-murmurei. Levei os dedos aos lbios, beijei-os e soprei o beijo para ela, que continuava tocando.
Mas a sua viso se enevoou, e ela ficou de novo ausente, o Movimento exigindo velocidade, elajogando a cabea para trs com o esforo de seu ataque s teclas. E
a sonata entrou novamente em seu ritmo mais triunfante.
Algo mais poderoso do que a luz do sol me engoliu. Era um poder to absoluto que me cercou completamente e me sugou para fora do quarto, para fora do mundo, para
fora do som do piano que ela tocava, para fora de meus sentidos.
- Naaao, no me leve agora! - gritei. Mas uma escurido atroz e vazia
engoliu o som.
Eu estava voando, leve, com os braos e as pernas esturricados abertos, e num Inferno de dor cruciante. Este no pode ser o meu corpo, solucei, vendo a carne preta 
colada nos msculos como se fosse couro, vendo cada tendo de meus braos, minhas unhas curvas e pretas como se fossem pedaos de chifre queimado. No, no o meu 
corpo, gritei, me, ajude-me, ajude-me! Benjamin, ajude-me...
Comecei a cair. Ah, ningum podia me ajudar agora seno um Ser. -Deus, dai-me coragem-gritei.-Deus, se isso tivercomeado, dai-me coragem, Deus, no posso abandonar 
minha razo, Deus, dizei-me onde estou, Deus, deixai-me entender o que est acontecendo, Deus, onde est a igreja, Deus, onde esto o po e o vinho, Deus, onde est 
ela, Deus ajudai-me, ajudai-me.
Fui caindo, passando por flechas de vidro, por grades de janelas cegas, por telhados e torres pontiagudas. Ca no meio do vento violento e uivante da nevasca pungente. 
Passei pelajanela em que a inconfundvel figura de Benjamin estava com a mozinha na cortina, os olhos negros fixos em mim por uma frao de segundo, a boca aberta, 
anjinho rabe. Fui caindo cada vez mais, a pele de minhas pernas murchando e encolhendo de modo que eu no podia dobr-las, a do rosto tambm, de modo que eu no 
podia abrir a boca, e, com uma exploso agonizante de dor, bati na neve dura.
Meus olhos estavam abertos e o fogo os inundava. O sol j ia alto.
-Morrerei agora. Morrerei! -murmurei. -E nesse derradeiro momento de paralisia ardente, quando o mundo inteiro acabou e nada mais resta, ouo a msica dela! Ouo-a
tocando as ltimas notas da Appassionata! Ouo-a. Ouo sua msica tumultuada.
2o
  No morri. Absolutamente.
Acordei e ouvi-a tocando, mas ela e seu piano estavam muito longe. Nas primeiras horas depois do crepsculo, quando a dor estava no auge, eu usava a msica dela,
usava a procura dessa msica, para impedir que eu gritasse desesperado porque nada fazia a dor passar.
Profundamente envolvido na neve, eu no conseguia me mexer nem enxergar, a no ser o que minha mente podia ver se eu decidisse us-la, e, desejando morrer, eu no
usava nada. S ficava escutando a Appassionata, e s vezes cantavajunto com ela em meus sonhos.
Passei a primeira noite e a segunda a escut-la, isto , quando eta se dispunha a tocar. Ela parava durante horas, para dormir, talvez. Eu no podia saber. Ento
ela recomeava e eu recomeava com ela.
Acompanhei os Trs Movimentos at sab-los de cor, como ela devia saber. Eu sabia as variaes que ela imprimia  msica; sabia como nunca tocava uma frase musical
da mesma forma.
Escutei Benjamin me chamando, ouvi sua vozinha animada, falando muito depressa e muito  moda de Nova York, dizendo:
- Anjo, voc no terminou conosco, o que devemos fazer com ele? Anjo, volte. Anjo, vou lhe dar cigarros. Anjo, estou cheio de cigarros bons. Volte. Anjo, isso 
s uma brincadeira. Sei que voc pode arranjar seus prprios cigarros. Mas  realmente irritante voc deixar esse cadver, Anjo. Volte.
Havia horas em que eu no ouvia nenhum deles. Minha mente no tinha fora para alcan-los telepaticamente, s para v-los, um pelos olhos do outro. No. Esse tipo
de fora acabara.
Fiquei deitado mudo e quedo, queimado tanto por tudo aquilo que eu vira e sentira quanto por qualquer luz do dia, ferido e esvaziado, a mente e o corao mortos,
exceto por meu amor por eles. Isso era faclimo, no? Na dor mais atroz amar dois lindos estranhos, uma menina louca e um garoto malandro que gostava
dela. O meu assassinato do irmo dela era uma ao sem histria. Bravo, e acabou. A dor de tudo o mais tinha quinhentos anos de histria.
Havia horas em que s a cidade falava comigo, a grande cidade barulhenta, agitada e dinmica de Nova York, com seu trfego sempre ruidoso, mesmo na pior das nevascas, 
com suas vrias camadas superpostas de vozes e vidas elevando-se at o plat onde eu estava deitado, e depois ultrapassando-o, indo bem mais alm em torres como 
o mundo jamais havia visto antes.
Eu sabia de coisas mas no sabia o que fazer com elas. Eu sabia que a camada de neve que me cobria ficava cada vez mais espessa e mais dura, e no entendia como 
 que algo como o gelo podia me esconder dos raios do sol.
Obviamente, eu precisava morrer, pensei. Se no naquele dia que chegava, ento no seguinte. Pensei em Lestat segurando o Vu. Pensei no Rosto Dele. Mas o zelo me 
abandonara. A esperana me abandonara totalmente.
Vou morrer, pensei. Manh aps manh, vou morrer. Mas no morri.
Na cidade l embaixo, ouvi outros de minha espcie. No tentei realmente ouvi-los, logo no eram seus pensamentos que chegavam a mim, mas de vez em quando suas palavras. 
Lestat e David estavam l, Lestat e David achavam que eu estivesse morto. Lestat e David choravam por mim. Mas horrores muito piores aligiam Lestat porque Dora 
e o mundo haviam tomado o Vu, e a cidade agora estava repleta de crentes. A catedral mal controlava as multides.
Outros imortais chegaram, os jovens, os fracos e, s vezes, o que era mais apavorante, os muito. velhos, querendo ver esse milagre, entrando na igreja  noite com 
os fiis mortais e olhando o cu com olhos enlouquecidos.
s vezes eles falavam do pobre Armand ou do bravo Armand ou do Santo Armand, que, em sua devoo ao Cristo crucificado, imolara-se exatamente na porta dessa igreja!
s vezes eles faziam o mesmo. Ejusto antes de o sol estar para nascer de novo, eu tinha de ouvi-los, ouvir suas ltimas preces desesperadas enquanto esperavam pela
luz fatal. Eles se deram melhor que eu? Encontraram refgio nos braos de Deus? Ou estavam gritando de agonia, agonia como a que eu sentia, insuportavelmente queimado
e incapaz de me separar daquilo, ou estavam to perdidos quanto eu, remanescentes em becos ou telhados distantes? No, eles iam e vinham, fosse qual fosse o destino
deles.
Quo apagado estava aquilo tudo, quo distante. Eu estava tristssimo por Lestat no ter se dado ao trabalho de chorar por mim, mas eu devia morrer ali. Eu devia
morrer mais cedo ou mais tarde. Fosse o que fosse que eu tivesse visto naquele momento em que entrei no sol, aquilo no tinha importncia. Eu devia morrer. Era s
isso.
Na noite nevada, vozes eletrnicas falavam do milagre, que o Rosto de Cristo num Sudrio de linho curara os doentes e deixara sua impresso em outros panos prensados 
contra ele. Ento veio uma discusso dos clrigos e dos cticos, uma confuso perfeita.
Eu no acompanhava o sentido de nada. Sofria. Ardia. No conseguia abrir os olhos, e, quando tentava, as pestanas os arranhavam e a agonia era insuportvel. No escuro, 
eu esperava por ela.
Mais cedo ou mais tarde, sem falhar, chegava sua magnfica msica, com todas aquelas novas e maravilhosas variaes, e nada me importava ento, nem o mistrio de 
quem eu era, nem o que eu pudesse ter visto, nem o que Lestat e David pretendiam fazer.
S depois da stima noite, talvez, recuperei totalmente os sentidos e compreendi plenamente o horror de meu estado.
Lestat se fora. David tambm. A igreja fora fechada. Pelo que os mortais cochichavaln, logo percebi que o Vu fora levado embora.
Eu podia ouvir as mentes da cidade inteira, um barulho que era insuportvel. Fechei-me para aquilo, temendo o imortal errante que viria me pegar se captasse uma 
nica centelha de minha mente teleptica. Eu no podia suportar a idia de uma tentativa de resgate por parte de estranhos imortais. No podia suportar a idia de 
suas caras, de suas perguntas, sua possvel preocupao ou sua indiferena implacvel. Escondia-me deles, encolhido em minha pele rachada e esticada. Mas eu os ouvia, 
como ouvia as vozes mortais em volta deles, falando de milagres, de redeno e do amor de Cristo.
Ademais, eu j tinha muita coisa em que pensar para considerar aquela minha situao atual e como ela acontecera.
Eu estava deitado num telhado. Foi onde ca. Mas no sob o cu aberto, como eu poderia ter esperado ou suposto. Ao contrrio, meu corpo cara numa chapa de metal 
inclinada, alojando-se embaixo de um telheiro furado e enferrujado, onde fora sepultado por vrias camadas de neve trazida pelo vento.
Como eu chegara ali? Eu s podia fazer conjeturas.
Por minha prpria vontade, e com a primeira exploso de meu sangue na luz do sol da manh, eu fora impelido para cima, talvez o mais alto aonde eu pudesse chegar.
Durante sculos, eu soube subir nas alturas e deslocar-me ali, mas nunca forcei isso at um limite concebvel, mas, com meu zelo pela morte, eu me esforara ao mximo
para subir aos cus. Minha queda foi da altura mxima.
O prdio embaixo de mim estava vazio, abandonado, perigoso sm aquecimento ou luz.
No vinha um s barulho dos poos ocos de suas escadas de metal ou de suas salas dilapidadas. Na verdade, o vento de vez em quando soprava aquela estrutura como
se ela fosse um rgo de tubos, e, quando Sybelle no estava ao
piano, era essa msica que eu escutava, abafando a cacofonia rica da cidade que se espraiava em todos os sentidos.
De vez em quando, mortais entravam nos primeiros andares do prdio. Senti de repente uma esperana angustiante. Algum seria suficientemente tolo para vir aqui em 
cima no telhado onde eu podia agarr-lo e beber o sangue de que eu precisava apenas para sair daquele telheiro que me protegia e assim me entregar ao sol sem nenhuma 
proteo? Como eu estava agora, o sol mal chegava em mim. S uma claridade fraca me chamuscava atravs da mortalha de neve em que eu estava enrolado, e, com o passar 
das noites, essa dor recm-infligida se fundiria com o resto.
Mas ningum jamais subiu l.
A morte seria lenta, muito lenta. Talvez tivesse de esperar at o tempo quentc chegar e a neve derreter.
Assim, cada manh, enquanto desejava morrer, acabei aceitando que eu acordaria, mais queimado talvez do que nunca, mas ainda mais escondido pela tempestade de inverno, 
como sempre estive escondido, das centenas dejanelas acesas que davam para aquele telhado.
Quando o silncio era mortal, quando Sybelle dormia e Benji acabava de rezar para mim e conversar comigo najanela, vinha o pior. Pensei, com frieza e desnimo, naquelas 
coisas simples e estranhas que me aconteceram quando eu estava caindo no espao, porque no conseguia pensar em mais nada.
Quo absolutamente real fora o altar de Santa Sofia e o po que parti com as mos. Eu soube de coisas, tantas coisas, coisas que euj no conseguia mais lembrar 
nem colocar em palavras, coisas que eu no poderia articular aqui nessa narrativa nem ao procurar reviver a histria.
Real. Tangvel. Eu sentira a toalha do altar e vira o vinho sendo derramado, e, antes disso, o pssaro saindo do ovo. Ouvi o barulho da casca quebrando. Ouvi a voz 
de minha me. E tudo mais.
Mas minha mente j no queria mais isso. No queria essas coisas. O zelo mostrara-se frgil. Acabara, como as noites com o Mestre em Veneza, como os anos na companhia
de Louis, como os meses festivos na Ilha da Noite, como aqueles sculos vergonhosos com os Filhos da Escurido em que eu fora um tolo, um tolo completo.
Eu podia pensar no Vu, no Paraso, em mim, ali no Altar, operando o milagre com o Corpo de Cristo nas mos. Sim eu podia pensar nisso tudo. Mas a totalidade era
terrvel demais, e eu no estava morto, e no havia nenhum Memnoch instando para que eu me tornasse seu ajudante, e nenhum Cristo de braos abertos contra o pano
de fundo da luz infinita de Deus.
Era muito mais doce pensar em Sybelle, lembrar que seu quarto vermelho com tapetes turcos azuis e quadros escuros e exagerados erato real quanto Santa
Sofia de Kiev, pensar em seu rosto oval e branco quando ela se virou para olhar para mim, pensar no brilho sbito de seus olhos midos e rpidos.
Uma noite, quando meus olhos realmente se abriram, quando as plpebras realmente deixaram descobertas as rbitas de meus olhos possibilitando que eu enxergasse atravs 
daquele bolo branco de gelo em cima de mim, percebi que estava sarando.
Tentei dobrar os braos. Consegui levant-los muito ligeiramente, e o gelo que me envolvia quebrou; que barulho eltrico espetacular!
O sol simplesmente no podia me alcanar ali, ou no o suficiente para agir contra a fria preternatural do poderoso sangue que meu corpo continha. Ah, Deus, imagine 
s, quinhentos anos tornando-me cada vez mais forte, e, antes de mais nada, nascido do sangue de Marius, um monstro, desde o incio, um monstro que nunca soube a 
fora que tinha.
Por um instante parecia que minha raiva e meu desespero no poderiam aumentar mais. Que a ardncia em meu corpo todo no poderia piorar.
Ento Sybelle comeou a tocar. Comeou a tocar a Appassionata e nada mais me importou.
E no importaria novamente at ela parar de tocar. A noite foi mais quente do que de hbito; a neve derretera ligeiramente. Parecia que no havia nenhum mortal por 
perto. Eu sabia que o Sudrio fora mandado para o Vaticano em Roma. Agora no haveria motivo para os imortais virem c, haveria?
Pobre Dora. O noticirio da noite diz que lhe tomaram o prmio. Roma precisa examinar esse Sudrio. Suas histrias de estranhos anjos louros foram matria de tablides, 
e ela mesma j no estava mais ali.
Num momento de coragem, prendi meu corao  msica de Sybelle, e, fazendo um esforo com a cabea dolorida, enviei minha mensagem teleptica como se ela fosse uma 
parte carnal minha, uma lngua exigindo energia, para ver, atravs dos olhos de Benjamin, o quarto onde os dois moravam.
Numa linda nvoa dourada, eu vi, vi as paredes cobertas de quadros com molduras pesadas, vi a minha bela com um roupo branco felpudo e chinelos
velhos, os dedos trabalhando duro. Quanta imponncia no mpeto da msica! E . Benjamin, o pequeno aflito, carrancudo, fumando um charuto preto, mos atrs
das costas, andando descalo de um lado para o outro, abanando a cabea . enquanto resmungava consigo mesmo.
- Anjo, eu lhe disse para voltar.
Sorri. As rugas de meu rosto doam como se tivessem sido riscadas com a ponta de uma faca afiada. Fechei o olho teleptico. Deixei-me adormecer com os crescendos
acelerados do piano. Ademais, Benjamin sentira alguma coisa; sua mente, no distorcida pela sofisticao ocidental, captara algum vislumbre de minha espionagem.
Bastava.
Ento, tive outra viso, muito forte, muito especial e incomum, algo que no seria ignorado. Virei de novo a cabea e fiz o gelo rachar. Fiquei de olhos abertos. 
Eu via difusamente umas torres iluminadas.
Algum imortal l na cidade estava pensando em mim, algum que estava longe, a muitas quadras da catedral fechada. De fato, senti logo a presena distante de dois 
vampiros poderosos, vampiros que eu conhecia, que sabiam de minha morte e lamentavam-na amargamente enquanto executavam uma tarefa importante.
Isso agora era uma coisa arriscada. Tente v-los e eles podem captar muito mais do que aquele lampejo de minha pessoa que Benjamin captou to rpido. Mas no havia 
bebedores de sangue na cidade exceto eles, pelo que eu podia imaginar, e eu precisava saber o que os fazia andar com tanta determinao daquele modo to furtivo.
Uma hora se passou, talvez. Sybelle estava em silncio. Eles, os vampiros poderosos, continuavam ocupados. Decidi arriscar.
Aproximei-me com minha viso desencarnada, e logo percebi que podia enxergar atravs dos olhos do outro, mas que o inverso no funcionava.
A razo era simples. Agucei minha viso. Estava olhando atravs dos olhos de Santino, meu antigo Mestre da Assemblia de Roma, Santino, e o outro que vi era Marius, 
meu Criador, cuja mente estava trancada para mim para sempre.
Era num amplo prdio pbl ico que eles vinham andando com cautela, ambos vestidos como cavalheiros modernos, com roupas azul-escuras, inclusive com colarinhos brancos 
engomados e gravatas de seda estreitas. Ambos haviam cortado o cabelo de acordo com a moda empresarial. Mas no era uma empresa aquilo que eles estavam rondando, 
nitidamente escravizando inofensivamente qualquer mortal que tentasse perturb-los. Era um prdio ligado  rea mdica. E logo adivinhei o que eles deviam estar 
fazendo.
Era no Instituto Mdico Legal da cidade que eles estavam circulando. E, embora tivessem juntado calmamente os documentos que colocaram em suas pesadas pastas, eles 
agora corriam para retirar dos compartimentos refrigerados os despojos daqueles vampiros que, seguindo meu exemplo, entregaram-se  merc do sol.
Obviamente, estavam confiscando o que o mundo agora tinha de ns. Estavam recolhendo os vestgios. Em sacos de plstico simples, eles colocaram os restos que tiraram
de gavetas semelhantes a caixes e reluzentes bandejas de ao. Ossos inteiros, cinzas, dentes, ah, sim, at dentes eles enfiaram nos saquinhos. E agora retiravam
dos arquivos amostras embrulhadas em plstico de restos de roupas.
Meu corao pulou. Mexi-me dentro do gelo e o gelo respondeu-me de novo. Ah, fique quieto, corao. Deixe-me ver. Era a minha renda, a minha renda
mesmo, aquela de ponto rosa veneziano grossa, chamuscada nas pontas, e com uns farrapos de veludo prpura! Sim minhas pobres roupas que eles tiraram do compartimento 
etiquetado da gaveta do arquivo e enfiaram nos sacos.
Marius parou. Voltei a cabea e a mente para outro lugar. No me veja. Vejame e venha c, ejuro por Deus que eu... eu o qu? Nem sequer tenho foras para me mexer. 
No tenho foras para fugir. , Sybelle, por favor, toque para mim, preciso fugir disso.
Mas ento, lembrando que ele era meu Mestre, lembrando que ele s podia me encontrar atravs da mente mais fraca e mais confusa de Santino, senti meu corao se 
acalmar.
Do banco da memria recente, saquei a msica dela, emoldurei-a com nmeros, cifras e datas, todos os pequenos detritos que eu trouxera comigo atravs dos sculos 
para ela: que Beethoven escrevera aquela doce obra-prima, que era a Sonata n 23 em F Menor, Opus 57. Pense nisso. Pense em Beethoven. Pense numa noite de faz-de-conta 
na fria Viena, faz-de-conta pois eu no sabia realmente nada sobre essa noite, pense nele escrevendo msica com uma pena ruidosa, que ele mesmo talvez no conseguia 
ouvir. Pense nele sendo pago em pitanas. E pense com um sorriso, sim, com um sorriso dolorosamente cortante que faz seu rosto sangrar, em como levaram piano aps 
piano para ele, to poderoso ele era, to exigente, to ardentemente ele tocava.
E ela, a linda Sybelle, que boa filha era para ele, seus dedos poderosos batendo nas teclas com um poder terrvel que certamente o teria encantado, tivesse ele visto 
no futuro remoto, entre seus frenticos alunos e admiradores
, especificamente essa menina enlouquecida.
Essa noite estava mais quente. O gelo derretia. No havia como negar. Cerrei os lbios e tornei a erguer a mo direita. Agora existia uma cavidade na qual eu podia 
mexer os dedos da mo direita.
Mas eu no podia esquecer aquela dupla improvvel, aquele que me criou e aquele que tentou destruir este, Marius e Santino. Precisava conferir. Cautelosamente, enviei
meu raio experimental de pensamento perscrutador. E num instante, flxei-os.
Eles estavam diante de um incinerador no interior do prdio ejogavam para dentro daquela boca de fogo todas as evidncias que reuniram, saco aps saco retorcendo-se
e estalando nas chamas
Que estranho. Eles no queriam olhar esses fragmentos no microscpio? Mas certamente outros de nossa espcie haveriam de ter feito isso, e por que olhar os ossos
e dentes daqueles que torraram no Inferno quando voc pode cortar um pedao de tecido claro de sua prpria mo e colocar isso na lmina de vidro enquanto sua mo
se regenera milagrosamente, como eu estava me regenerando agora mesmo?
Demorei-me na viso. Vi o poro enevoado em volta deles. Vi as vigas baixas acima deles. Colocando todo o meu poder em meu olhar projetado, vi o rosto de Santino, 
perturbadssimo, suave, o mesmo que destruiu a nicajuventude que eu algum dia poderia ter tido. Vi meu antigo Mestre olhando quase melancolicamente para o fogo.
- Acabamos - disse Marius com sua voz calma e autoritria, falando perfeitamente em italiano com o outro.-No consigo pensar em mais nada que devamos fazer.
- Arrombar o Vaticano e roubar o Sudrio - respondeu Santino. - Com que direito eles reivindicam uma coisa dessas?
S pude ver a reao de Marius, seu choque repentino, depois seu sorriso educado e sereno.
- Por qu? - perguntou ele, como se no guardasse nenhum segredo. O que  o Sudrio para ns, meu amigo? Acha que esse Vu o far recuperar o juzo? Desculpe-me, 
Santino, mas voc  muito jovem.
O,juzo, faz-lo recuperar ojuzo. Isso tinha de se referir a Lestat. No havia outra referncia possvel. Forcei a sorte. Vasculhei a mente de Santino  procura 
de tudo o que ele sabia. Fiquei horrorizado, mas concentrei-me firmemente no que estava vendo.
Lestat, meu Lestat - pois ele nunca foi deles, foi? -, meu Lestat estava enlouquecido em conseqncia de sua terrvel saga, e era mantido preso pelo mais velho de 
nossa espcie com a sentena definitiva de que se no parasse de perturbar a paz, o que obviamente significava o nosso sigilo, ele seria destrudo, da forma como 
s os mais velhos podem destruir, e ningum poderia defendlo de irma alguma.
No, isso no podia acontecer! Fiquei me contorcendo. Os choques da dor me percorreram, vermelho e violeta, e pulsando com uma luz laranja. Eu no via essas cores 
desde que cara. Minha mente estava voltando, e voltando para qu? Lestat prestes a ser destrudo! Lestat preso, como estive h sculos nos subterrneos de Roma, 
nas catacumbas de Santino. Ah, Deus, isso  pior do que o fogo do sol, pior que ver aquele irmo bastardo bater na cara roxa de Sybelle e arrancla do banco do piano, 
 uma raiva assassina que estou sentindo.
Mas o estrago menor est feito.
- Venha, precisamos sair daqui - disse Santino. - H alguma coisa errada, estou sentindo alguma coisa que no consigo explicar.  como se algum estivesse bem atrs
de ns sem estar perto; como se algum to poderoso quanto eu ouvisse meus passos a quilmetros e quilmetros.
Marius parecia indulgente, curioso, despreocupado.
-Nova York  nossa essa noite-disse ele despreocupado. Ento, com um pouco de receio, ele olhou uma ltima vez para a boca do incinerador. - A
menos que algum esprito de vida muito tenaz continue preso s rendas e ao veludo que usou.
Fechei os olhos. Ah, Deus, deixe-me fechar minha mente. Deixe-me fechla bem.
Sua voz continuou, penetrando na casquinha de minha conscincia onde eu tanto a amolecera.
-Mas nunca acreditei nessas coisas -disse ele. - Somos como a prpria Eucaristia, em certo sentido, no acha? Sendo Corpo e Sangue de um deus misterioso s enquanto 
nos mantivermos na forma escolhida. O que so mechas de cabe(o avermelhado e renda chamuscada e esfarrapada? Ele se foi.
-No o entendo-confessou Santino delicadamente.-Mas se pensa que nunca amei aquela criatura, est redondamente enganado.
-Ento vamos-disse Marius.-Nosso trabalho est feito. Cada vestgio de cada um deles est apagado. Mas me prometa nessa sua velha alma catlica romana que no vai 
procurar o Sudrio. Um milho de pares de olhosj olharam para ele, Santino, e nada mudou. O mundo  o mundo e crianas morrem de fome e sozinhas em todos os quadrantes 
da face da terra.
Eu no podia me arriscar mais.
Fui embora, vascu(hando a noite como um farol alto, procurando os mortais que poderiam v-los sarem do prdio em que eles terminaram aquele trabalho importantssimo, 
mas sua retirada foi muito clandestina, muito rpida para isso.
Senti-os indo embora. Senti uma sbita ausncia de sua respirao, de sua pulsao, e sabia que os ventos os haviam levado embora.
Afinal, uma hora depois, deixei meu olho rondar pelas mesmas velhas salas por onde eles haviam circulado.
Tudo estava calmo com aqueles pobres e confusos tcnicos e guardas a quem espectros de cara branca de outro reino haviam delicadamente enfeitiado enquanto se desincumbiam 
daquela tarefa medonha.
De manh, o roubo e todo o trabalho por fazer seriam descobertos, e o milagre de Dora sofreria mais um triste insulto, retirando-se ainda mais rpido do tempo corrente.
Eu estava irritado; chorei um pranto seco e roo, sem conseguir sequer chegar s lgrimas.
Acho que uma vez vi minha mo no gelo faiscante, uma garra grotesca, mais como uma coisa esfolada do que queimada, e mais preta e lustrosa do que eu me lembrava
ou j tinha visto.
Ento um mistrio comeou a me afligir. Como eu poderia ter matado o irmo perverso de meu pobre amor? Como poderia essa justia horrenda ser qualquer outra coisa
seno uma iluso, quando eu estivera subindo e caindo sob o peso do sol da manh?
E se isso no tivesse acontecido, se eu no tivesse chupado todo o sangue daquele horrvel irmo vingativo, ento minha Sybelle e meu pequeno beduno tambm eram 
sonho. Ah, por favor, seria esse o horror final?
A noite bateu sua pior hora. Ouviam-se as badaladas de relgios em salas pintadas. Ouviam-se rodas amassando a neve. Tornei a erguer a mo. Ouviu-se o inevitvel 
estalo. O gelo quebrado caiu em volta de mim como se fosse vidro!
Olhei para estrelas lmpidas e faiscantes. Que lindo isso, essas flechas de vidro sentinelas com todos os seus quadrados de luz dourados cortados em fileiras verticais 
e horizontais para marcar a escurido leve da noite de inverno, e eis que chega o vento tirano assobiando nos cnions cristalinos dessa cama abandonada onde jaz 
um demnio esquecido, olhando com a viso gatuna de uma grande alma para as luzes realadas da cidade nas nuvens l no alto. Ah, estrelinhas, como as odiei e invejei 
por poderem traar com tanta determinao esse seu curso obstinado no horrvel vcuo.
Mas agora eu no odiava nada. Minha dor era como um purgante para tudo o que no valia a pena. Vi o cu se encobrir, brilhar como um diamante por um instante calmo 
e deslumbrante, e novamente aquela nvoa branca e suave aceitou o brilho dourado das luzes da cidade e respondeu com uma levssima queda de neve.
A neve tocava em meu rosto. Tocava em minha mo estendida. Tocava em todo o meu corpo, enquanto seus floquinhos mgicos iam derretendo.
- E agora o sol vir - murmurei, como se um anjo da guarda estivesse abraado comigo-, e at aqui embaixo desse telheiro de zinco vai me encontrar atravs dessa 
cobertura furada e levar minha alma a dores ainda mais profundas.
Uma voz protestou. Uma voz suplicou que no acontecesse isso. A minha voz, pensei, claro, por que no esse auto-engano? Sou louco de achar que consigo agentar a 
dor das queimaduras que sofri e que suportaria de bom grado tudo de novo.
Mas no era a minha voz. Era a de Benjamin, Benjamin rezando. Projetando meus olhos desencarnados, vi-o. Estava ajoelhado no quarto enquanto ela estava deitada dormindo
como um pssego maduro e suculento entre as cobertas macias e amarfanhadas.
-Ah, anjo, Dybbuk, ajude-nos. Dybbuk, vocj veio uma vez. Ento volte. Fico irritado por voc no vir!
Quantas horasfaltam para o sol nascer, homenzinho?, eu disse na conchinha de seu ouvido, como se eu no soubesse.
- Dybbuk- gritou ele. -  voc, fale comigo. Sybelle, acorde, Sybelle. Ah, mas pense antes de acord-Ia. Isso  uma tarefa horrvel. No sou o ser resplandecente
que voc viu e que bebeu todo o sangue de seu inimigo e se encantou com a beleza dela e com a sua alegria..  um monstro que voc
vem
buscar se pretende pagar o que me deve, um insulto a seus olhos inocentes. Mas esteju certo, homenzinho, que serei seu para sempre se me fizer essa bondade, se vier 
para mim, se me socorrer, se me ajudar, porque minha vontade est me deixando, e estou sozinho, e eu me recuperaria agora e no posso me conter, e meus anos agora 
nada significam, e estou com medo.
Ele se levantou. Ficou olhando para a janela ao longe, a janela atravs da qual, sonhando, eu o havia visto vislumbrar-me com seus olhos mortais, mas atravs da 
qual ele no tinha a possibilidade de me ver agora, meu anjo. Endireitou os ombrinhos, e agora, o cenho franzido, numa expresso perfeitamente sria, ele era a prpria 
imagem da parede bizantina, um querubim menor do que eu.
- Diga, Dybbuk, vou busc-lo! - declarou ele, cerrando o forte punho direito. - Onde est voc, Dybbuk, o que voc teme que no possamos conquistar juntos! Sybelle, 
acorde, Sybelle! Nosso Divino Dybbuk voltou e precisa de ns!
as
21
Eles estavam vindo me buscar. Era o prdio ao lado do deles, uma runa abandonada. Benjamin o conhecia. Em alguns fracos murmrios telepticos, eu lhe pedira que 
viesse com uma marreta e uma picareta para quebrar o restante do gelo e trouxesse cobertores grandes e macios para me enrolar.
Eu sabia que no pesava nada. Torcendo penosamente os braos, quebrei um pouco mais da coberta transparente. Com mirtha mo semelhante a uma garra, senti que meu 
cabelo voltara, grosso e avermelhado como sempre. Segurei um cacho na luz, mas depois meu brao no conseguiu mais agentar a dor escaldante e deixei-o cair, sem 
conseguir fechar ou mexer meus dedos secos e tortos.
Eu precisava fazer um feitio, pelo menos quando eles chegassem. Eles no podiam ver essa coisa que eu era, esse monstro preto e coriceo. Nenhum mortal poderia
suportar essa viso, fossem quais fossem as palavras que sassem de meus lbios. Eu precisava esconder-me de alguma forma.
E, sem espelho, como saber qual era o meu aspecto ou o que eu tinha de fazer precisamente? Eu tinha de sonhar com aquela poca em Veneza quando eu era lindo e conhecia
muito bem o meu rosto do espelho do alfaiate,e tinha de projetar uma viso bem na mente deles mesmo se isso exigisse toda a minha fora; sim,
isso, e eu precisava lhes dar algumas instrues.
Fiquei quieto, olhando para a neve fina que caa, to diferente das terrveis nevascas anteriores. No ousei usar minha inteligncia para rastrear o progresso deles.
De repente, ouvi o estrondo de uma vidraa se quebrando. Uma porta bateu l embaixo. Ouvi os passos irregulares dos dois subindo as escadas de ferro, arrastando-se
pelos patamares.
 Meu corao bateu com fora, e, com cada pequena convulso, a dor era bombeada atravs de meu corpo, como se meu prprio sangue estivesse me escaldando.
De repente, a porta de ao do telhado se abriu. Ouvi os dois correrem em minha direo. Naquela claridade fraca e onrica das torres altas ali em volta, vi seus 
pequenos vultos, ela, a fada, ele, a criana de no mais de doze anos, talvez, correndo para mim.
Sybelle! Ah, ela saiu sem casaco no telhado, o cabelo escorrido, que horror, e Benjamin em situao no muito melhor com aquele djellaba de linho ino. Mas os dois 
tinham uma grande colcha de veludo para me cobrir, e eu precisava criar uma viso.
D-me o menino que eu era, d-me o cetim verde mais fino ejabs superpostos de renda extravagante, d-me meias e botas debruadas, e deixe meu cabelo estar limpo 
e lustroso.
Lentamente abri os olhos, olhando de um daqueles rostinhos plidos e enlevados para o outro. Como dois vadios da noite, eles estavam embaixo da neve fina que caa.
-Ah, mas Dybbuk, voc nos deixou muito preocupados-disse Benjamin, com sua voz excitadssima -, e olhe para voc, voc est lindo.
- No, no pense que isso  o que voc est vendo, Benjamin - disse eu. - Ande logo com essas ferramentas, quebre o gelo, e me cubra com a colcha. Foi Sybelle quem 
pegou a marreta de ferro e cabo de madeira e, com as duas
mos, desceu-a, quebrando imediatamente a macia camada superior de gelo. Benjamin golpeava o gelo com a picareta como se fosse uma pequena mquina, batendo  esquerda 
e  direita sem parar, mandando estilhaos pelos ares.
O vento fazia o cabelo de Sybelle aoitar-lhe os olhos. A neve grudava em suas plpebras.
Segurei a imagem, uma criana indefesa vestida de cetim, com mos rseas e macias viradas para cima e incapaz de ajud-los.
-No chore, Dybbuk-disse Benjamin, pegando com as duas mos uma enorme lasca de gelo. - Vamos tir-lo da, no chore, voc agora  nosso. Ns o temos.
Jogou de lado a faiscante lmina denteada, depois pareceu congelar, mais duro que qualquer gelo, fitando-me, sua boca formando um perfeito O de espanto.
- Dybbuk, voc est mudando de cor! -exclamou. Esticou o brao para tocar meu rosto ilusrio.
- No faa isso, Benji - disse Sybelle.
Era a primeira vez que eu ouvia a voz dela, e agora vi a calma corajosa e determinada de seu semblante plido, o vento fazendo-a chorar, embora ela continuasse firme.
Ela tirou o gelo de meu cabelo.
Senti uma friagem terrvel, aplacando o calor, sim, mas levando-me s lgrimas. Seriam lgrimas de sangue?
-No olhem para mim - disse eu. - Benji, Sybelle, olhem para o outro lado. Ponham-me s a coberta nas mos.
Ela me fitou apertando os olhos, desobedientemente, uma das mos fechando a gola da camisola fina de algodo para proteger-se da friagem, a outra acima de m im.
-O que lhe aconteceu desde que veio para ns?-perguntou ela com a voz mais meiga. - Quem fez isso com voc?
Engoli em seco e fiz a viso voltar. Fiz com que sasse de todos os meus poros, como se meu corpo fosse um nico rgo respiratrio.
-No, no faa mais isso-disse Sybelle.- Isso o enfraquece e voc sofre demais.
- Posso sarar, minha doura - eu disse. - Prometo que posso. Eu no serei sempre assim, nem por pouco tempo. S me tire desse telhado. Tire-me desse frio e leve-me 
aonde o sol no possa me pegar de novo. Foi o sol que fez isso. S o sol. Leve-me, por favor. Eu no posso andar. No posso me arrastar. Sou uma coisa noturna. Esconda-me 
no escuro.
- Chega, no fale mais nada - exclamou Benji.
Abri os olhos e vi uma onda de um azul brilhante estender-se em cima de mim como se um cu de vero tivesse descido para me cobrir. Senf i o plo macio do veludo, 
e at isso era dor, dor na pele ardida, mas era uma dor que podia ser suportada porque eu tinha as mos zelosas deles pousadas em mim, e por isso, por seu toque, 
por seu amor, eu suportaria qualquer coisa.
Senti que me levantavam. Eu sabia que estava leve, no entanto, como era horrvel ser to indefeso, enquanto eles me enrolavam.
-No sou sufcientemente leve para vocs me carregarem?-perguntei. Minha cabea havia cado para trs e eu podia ver a neve de novo, e imaginei que, quando aguasse 
a viso, poderia tambm ver as estrelas no cu esperando alm da nvoa de um pequeno planeta.
- No tenha medo - murmurou Sybelle, os lbios junto  coberta. O cheiro do sangue deles de repente era rico e denso como mel.
Os dois me levantaram nos braos e correramjuntos pelo telhado. Eu estava livre da neve e do gelo incmodos, quase livre para sempre. No podia me deixar pensar
no sangue deles. No podia deixar esse corpo voraz impor sua vontade. Isso era impensvel.
Descemos pela escada de ferro, dando uma volta atrs da outra, os ps deles batendo nos degraus frgeis, meu corpo chocado e latejando de agonia. Eu podia ver o
teto ali em cima, e ento o cheiro do sangue dos dois misturado me acabrunhou, e fechei os olhos e cerrei os dedos queimados, ouvindo a carne coricea estalar quando
fiz isso. Enterrei as unhas nas palmas da mo.
Ouvi Sybelle em meu ouvido.
-Estamos com voc, estamos segurando voc com fora, no vamos deixlo ir embora. No  longe. Ah, Deus, mas olhe s para voc, olhe o que o sol fez com voc.
-No olhe! -disse Benji irritado. -Apenas corra! Acha que um Dybbuk poderoso como esse no sabe o que voc pensa? Seja sbia, ande logo.
Eles haviam chegado ao andar trreo e  janela quebrada. Senti Sybelle pegando-me no colo e ouvi a voz de Benji vindo de mais longe,j sem ecoar em paredes fechadas.
- Pronto, agora pode me dar o Dybbuk, eu agento! = Quo furioso e excitado ele parecia, mas ela pulara ajanela comigo, posso dizer isso, embora minha cabea de 
Dybbuk inteligente estivesse completamente esgotada, e eu no tivesse conscincia de mais nada seno dor e sangue e mais dor e sangue e que eles estavam correndo 
por um beco escuro de onde no dava para ver nada do Paraso.
Mas que doce era aquilo! Aquele balano, o vaivm de minhas pernas queimadas e o toque macio dos dedos doces de Sybelle atravs do cobertor, tudo isso era perversamente 
maravilhoso. J no era mais dor, era apenas sensao. A coberta caiu em meu rosto.
Eles iam andando depressa pela neve. Benji escorregou uma vez e gritou, e Sybelle segurou-o. Ele recobrou o flego.
Que esforo era para eles andar assim naquela neve. Eles precisavam sair dessa.
Entramos no hotel onde eles moravam. Um bafo de arquente e pungente saiu para nos envolver assim que as portas comearam a se abrir e antes que se fechassem, as 
batidas secas dos sapatinhos de Sybelle e o arrastar apressado das sandlias de Benji ressoando pela portaria.
Com uma sbita exploso de agonia percorrendo minhas pernas e minhas costas, senti-me dobrado em dois, a cabea prxima aos joelhos, quando entramos no elevador. 
Segurei o grito na garganta. Nada poderia ter menos importncia. O elevador, cheirando a motores velhos e leo de verdade, iniciou sua sacudida viagem para cima.
-Chegamos em casa, Dybbuk-disse Benji com aquele hlito quente em meu rosto, sua mozinha me segurando atravs da colcha e apertando dolorosamente meu couro cabeludo. 
- Estamos a salvo agora, capturamos voc e o temos.
Tilintar de fechaduras, passos em assoalho de madeira, cheiro de incenso e velas, de um perfume forte de mulher, de verniz rico para coisas finas, de telas antigas
com a pintura a leo rachada, de lrios brancos frescos e excessivamente doces.
Meu corpo foi colocado delicadamente na cama de baixo, o cobertor afrouxado de modo que afundei em camadas de seda e veludo, os travesseiros parecendo derreter embaixo 
de mim.
Era exatamente aquele ninho amarfanhado onde eu a vislumbrara com o olho da mente, dourada e dormindo com sua camisola branca, e ela o cedera para esse horror.
-No tire a coberta-disse eu. Eu sabia que meu amiguinho queria muito fazer isso.
Sem se intimidar, ele delicadamente a puxou. Lutei para peg-la, para puxla novamente com a mo que estava se refazendo, mas s consegui dobrar meus dedos queimados.
Os dois ficaram ao lado da cama, olhando para mim. A luz girava em volta deles, misturados com o calor, essas duas criaturas frgeis, a macilenta menina de porcelana, 
j sem as equimoses na pele branca como ieite, e o arabezinho, o menino beduno, pois agora eu percebia que ele era isso mesmo. Sem medo, eles ficaram olhando para 
o que devia ser uma viso inefvel para olhos humanos enxergarem.
- Voc  to lustroso! - disse Benj i. - Di?
- O que podemos fazer! - disse Sybelle, to baixinho, como se sua voz pudesse me fazer mal. Ela tapava a boca com as mos. As mechas rebeldes de seu cabelo liso 
e claro balanavam na luz, e seus braos estavam roxos da friagem da rua, e ela no conseguia deixar de tiritar. Pobre ser magro, to delicado. Sua camisola estava 
amassada, algodo branco fino, com florezinhas aplicadas e debruada com uma renda resistente e fina, uma camisola de virgem. Seus olhos transbordavam simpatia.
-Conhea a minha alma, meu anjo-disse eu. - Sou uma coisa m. Deus no me quis. E nem o Diabo. Entrei no sol para que eles pudessem ter a minha alma. Foi uma coisa 
amorosa, sem medo do fogo do Inferno nem da dor. Mas essa terra, essa terra aqui tem sido a minha priso purgatorial. No sei como cheguei a voc antes. No sei 
que poder me deu esses breves segundos para estar aqui no seu quarto e me interpor entre voc e a morte que assomava como uma sombra sobre voc.
- Ah, no! - murmurou ela com medo, os olhos faiscando naquela claridade fraca do quarto. - Ele nunca me mataria.
-Ah, mataria sim! -disse eu, e Benjamin disse exatamentea mesma coisa junto comigo.
- Ele estava bbado e no se preocupava com o que fazia - disse Benj i furioso. - E as mos dele eram grandes, desajeitadas e ms e ele no se preocupava com o que
fazia, e, depois da ltima vez em que bateu em voc, voc
Ficou duas horas imvel feito morta nessa cama mesmo! Acha que um Dybbuk mata seu irmo por nada?
- Acho que ele est lhe dizendo a verdade, minha linda - disse eu. Era dificlimo falar. Com cada palavra eu tinha de levantar o peito. Louco de desespero, de repente 
eu quis um espelho. Agitei-me e virei-me na cama, e me contra de dor.
Os dois entraram em pnico.
-No se mexa, Dybbuk, no! -protestou Benj i. - Sybelle, a seda, pegue todos os lenos de seda e enrole-o com eles.
- No! - murmurei. - Cubram-me com a colcha. Se precisam ver meu rosto, deixem-no sem nada, mas cubram o resto de meu corpo. Ou...
- Ou o que, Dybbuk, diga?
- Levantem-me para que eu possa ver como estou. Ponham-me diante de um espelho comprido.
Eles se calaram perplexos. O cabelo louro de Sybelle caa escorrido sobre seu busto farto. Benji mordia o beicinho.
O quarto inteiro girava colorido. Veja a seda azul grudada  argamassa das paredes, as pilhas de travesseiros ricamente enfeitados em volta de mim, olhe a franja 
dourada, e mais adiante os pingentes balouantes do lustre, de todas as cores brilhantes do espectro. Imaginei ouvir uma msica de vidro tilintando quando esses 
pingentes encostavam uns nos outros. Em minha cabea fraca e perturbada, parecia que eu nunca vira um esplendor to simples, que eu havia esquecido quo brilhante 
e refnado era o mundo.
Fechei os olhos, guardando no corao uma imagem do quarto. Inspirei a doce fragrncia dos lrios para no sentir o cheiro do sangue deles.
- Vocs me deixariam ver essas flores?-perguntei. Estariam meus lbios carbonizados? Podiam eles ver minhas presas, e estariam elas amareladas do fogo? Eu flutuava 
em cima daquelas sedas. Flutuava e parecia que agora podia sonhar, a salvo, a salvo mesmo. Os lrios estavam perto. Tornei a esticar o brao. Senti as ptalas em
minhas mos e as lgrimas escorreram. Seriam de sangue? Tomara que no, mas ouvi a franca exclamao de espanto de Benj i e o sussurro macio de Sybelle para faz-lo
calar-se. - Eu era um rapaz de dezessete anos
 acho eu, quando isso aconteceu - falei. - Foi h centenas de anos. Eu era jovem, mesmo. Meu Mestre, amoroso. No acreditava que fssemos coisas ms. Achava que
podamos nos alimentar dos maus. Se eu no estivesse morrendo
 aquilo no teria acontecido to cedo. Ele queria que eu conhecesse coisas, que estivesse preparado.
Abri os olhos. Eles estavam enfeitiados! Viram de novo o rapaz que fui. Eu fizera aquilo sem inteno.
- Ah, to bonito - disse Benji. - To maravilhoso, Dybbuk. i
-Rapazinho-suspirei, sentindo a frgil i luso ao meu redor desmancharse no ar -, chame-me pelo meu nome de agora em diante. Eu no me chamo Dybbuk. Acho que vocs 
tiraram esse nome dos hebreus da Palestina.
Ele riu. No se esquivou quando voltei  minha forma medonha. - Ento diga o seu nome - pediu.
Eu disse.
- Armand - disse Sybelle. - Diga, o que podemos fazer? Se no lenos de seda, ento ungentos, babosa, babosa h de curar as suas queimaduras. Ri, mas baixinho, 
uma risada s de gentileza.
- Minha babosa  sangue, menina. Preciso de um homem mau, um homem que merea morrer. Agora, como hei de ach-lo?
-O que o sangue dele vai fazer?-perguntou Benji. Ele estava sentado ao meu lado, debruando-se sobre mim como se eu fosse o mais fascinante dos espcimens. - Sabe,
Armand, voc  preto como piche,  feito de couro preto,
! parece aquelas pessoas que eles pescam nos pntanos na Europa, todas brilhantes, com tudo grudado por dentro. Eu podia ter uma aula sobre msculos olhando
para voc.
-- Benj i, pare - disse Sybelle, lutando com a desaprovao e o susto. Precisamos pensar em como pegar um homem mau.
- Est falando srio? - perguntou ele, olhando para ela. Ela estava de mos postas, como se estivesse rezando. - Sybelle, isso no  nada. O difcil  nos livrarmos
dele depois. - Ele olhou para mim. - Sabe o que fizemos com o irmo dela?
Ela tapou os ouvidos e abaixou a cabea. Quaritas vezes eu fizera essa mesma coisa quando parecia que uma torrente de palavras e imagens iria me destruir completamente.
-Voc estto lustroso, Armand-disse Benji. -Mas posso lhe arranjar um homem mau sem problema, no  nada. Quer um homem mau? Vamos fazer um plano.
Ele se debruou em cima de mim, como se estivesse tentando espiar dentro do meu crebro. Percebi de repente que ele estava olhando as minhas presas. - Benji - eu
disse. - No se aproxime mais. Sybelle, leve-o embora. - Mas o que eu fiz?
- Nada - disse ela. Baixou a voz, e disse desesperadamente: - Ele est com fome.
- Levante de novo as cobertas, qtrer fazer isso?-perguntei. - Levante-as e olhe para mim e deixe-me olhar nos seus olhos, e deixe que isso seja meu espelho. Quero
ver a gravidade disso.
- Humm, Armand - disse Benj i. - Acho que voc  louco.
Sybelle abaixou-se e, com as mos cautelosas, levantou a colcha e jogou a de lado, expondo meu corpo todo.
Entrei na mente dela.
Aquilo era por do que eu imaginara.
O horror brilhante de um cadver tirado do lodo, como Benj i havia dito, era absolutamente verdadeiro, a no ser pelo horror da cabea com aqueles cabelos avermelhados
e aqueles imensos olhos sem plpebras, uma dentadura perfeita de dentes brancos atrs dl lbios totalmente murchos. O rosto de pele preta e chupada como uma passa
coricea estava riscado com o sangue das lgrimas que eu havia chorado.
Bati a cabea na cama e afundei-a no travesseiro macio. Senti a colcha me cobrir.
 - Isso no pode continuar para vocs, mesmo que pudesse para mim disse eu. - No  algo que eu queira que vocs vejam mais um pouco, pois quanto mas conviverem
com isso, mais probabilidade tero de conviver com qualquer coisa. No. Isso no pode continuar.
- Qualquer coisa - disse Sybelle. Ela se abaixou ao meu lado. - Minha mo  fresca se eu a colocar na sua testa?  delicada para tocar em seu cabelo? Olhei para
ela com um olho s que era um rasgo apertado.
Seu pescoo esguio era parte de seu encanto trmulo e macilento. Seus seios eram voluptuosos e armes. Mais adiante, naquele reflexo aconchegante do quarto, vi o
piano. Pensei nesses dedos longos e delicados tocando as teclas. Escutei mentalmente o palpitar da Appassionata.
Ouviu-se barulho metlico, uma frico, um estalo, e o ar ficou impregnado com um cheiro de fumo de boa qualidade.
Benji andava de um lado para o outro atrs dela, com o cigarro na boca. - Tenho um plano - anunciou, discursando sem esforo com o cigarro
firmemente seguro entre os lbios. - Saio na rua. Encontro logo um cara mau.  Digo a ele que estou sozinho aqui nesse apartamento de hotel com um sujeito
totalmente bbado e temos um monte de cocana para vender e no sei o que fazer
e preciso que algum me ajude.  Comecei a rir apesar da dor.
O pequeno beduno encolheu os ombros e ergueu as mos, soltando a fumaa  do fumo preto que se enroscava em volta dele como uma nuvem mgica.
-O que acha? Vai funcionar. Olhe, sou um bomjuiz de carter. Agora voc, Sybelle, no atrapalhe e me deixe conduzir esse saco de imundcie miservel, esse bandido
que eu atrair para a minha armadilha at essa cama aqui, e lhe dar um murro na cara, assim, passar-lhe uma rasteira, e ele cair, toim, bem nos seus braos, Armand,
o que acha disso?
- E se der errado? - perguntei.
- Ento a minha linda Sybelle lhe senta uma marretada na cabea.
- Tenho uma idia melhor - disse eu -, embora Deus saiba que o que voc acaba de imaginar  de uma inteligncia insupervel. Voc diz a ele, obviamente, que a cocana 
est em saquinhos plsticos bem arrumadinhos embaixo da colcha, mas se ele no acreditar e vier aqui para ver com os prprios olhos, ento deixe nossa linda Sybelle 
simplesmente me descobrir, e quando vir o que tem mesmo nessa cama, ele vai dar o fora daqui sem pensar em fazer mal a ningum!
- isso a! -exclamou Sybelle. Ela bateu palmas. Seus olhos azul-claros estavam arregalados.
- Mas preste ateno, no saia com nenhum tosto no bolso. Se ao menos tivssemos um pouquinho desse p branco nocivo para atrair a fera.
- Mas ns temos - disse Sybelle. - Temos s isso, um pouquinho que tirei do bolso do meu irmo. - Ela me olhou pensativa, sem me ver mas passando o plano pela espiral
apertada de sua mente dcil. -Tiramos tudo dele para que, quando o largarmos para ser encontrado, no achem nada com ele. Tanta gente  largada assim em Nova York.
Naturalmente deu um trabalho arrast-lo.
- Mas temos esse p nocivo, sim! -disse Benji, segurando subitamente o ombro de Sybelle e sumindo de minha vista para voltar num segundo com uma pequena cigarreira
prateada.
-Ponha isso aqui, onde eu possa cheirar o que tem dentro-disse eu. Deu para ver que nenhum deles sabia ao certo.
Benji abriu a caixa fina de prata. L dentro, num saquinho de plstico impecavelmente dobrado, estava o p exatamente com o cheiro que eu queria que tivesse. No
precisei prov-lo com a lngua, na qual o acar teria um sabor igualmente estranho.
- Est timo. Mas joguem fora a metade na pia, para sobrar s um pouquinho, e deixem a cigarreira aqui, seno vocs ainda topam com algum idiota que os matar por
causa dela.
Sybelle estremeceu visivelmente com medo. - Benji, vou com voc.
- No, isso seria a maior insensatez - disse eu. - Ele pode fugir de qualquer pessoa muito mais depressa sem voc.
-Ah, voc est certssimo! -disse Benj i, dando a ltima tragada no cigarro e apagando-o num grande cinzeiro de vidro ao lado da cama, onde uma dzia de outras guimbas
brancas amassadas aguardavam aquela. - E quantas vezes eu digo isso a ela quando saio no meio da noite para comprar cigarro? Ela ouve?
Ele saiu sem esperar pela resposta. Ouvi a gua escorrendo da torneira. Ele estavajogando fora metade da cocana. Deixei meus olhos percorrerem o quarto, afastando-se 
daquele anjo da guarda terno cheio de sangue.
- Tem pessoas boas por natureza - disse eu -, que gostam de ajudar os outros. Voc  uma delas, Sybelle. No descansarei enquanto voc viver. Estarei ao seu lado. 
Estarei mpre presente para guard-la e retribuir o que fez por mim. Ela sorriu.
Eu estava espantado.
Seu rosto magro, com aqueles lbios plidos e bem-feitos, abriu-se no sorriso mais fresco e mais sadio, como se o descaso e o sofrimento nunca a tivessem corrodo.
- Voc ser meu anjo da guarda, Armand? - perguntou ela. - Sempre.
- Estou saindo - anunciou Benji. Com uma estalo e uma frico, ele acendeu outro cigarro. Seus pulmes deviam ser sacos de carvo. - Vou  noite. Mas se o filho 
da me estiver doente ou sujo ou...
- Para mim no quer dizer nada. Sangue  sangue. Apenas traga-o para mim. No tente dar essa rasteira extravagante. Espere at t-lo aqui ao lado da cama, e quando 
ele for levantar a coberta, voc, Sybelle, torna a abaix-la, e voc, Benj i, o empurra com toda a fora, fazendo-o dar com as canelas na cama e cair em meus braos. 
Depois disso, vou t-lo.
Benji dirigiu-se para a porta.
- Espere - eu disse. Com aquela gula, o que eu estava pensando? Olhei para o rosto calado e risonho dela, depois para ele, a pequena mquina soltando a fumaa do 
cigarro preto, sem nada para se proteger daquele frio violento da rua a no ser o maldito djellaba.
- No, isso precisa ser feito - disse Sybelle de olhos arregalados. - E Benji escolher um homem bem mau, no, Benji? Um homem mau que quer roub-lo e mat-lo.
- Eu sei aonde ir - disse Benji com um sorrisinho de lado. - Apenas faam o jogo de vocs quando eu voltar. Cubra-o, Sybelle. No olhem para o relgio. No se preocupem
comigo.
L saiu ele, batendo a pesada porta, o que automaticamente a trancava.  Ento estava chegando. Sangue, sangue vermelho e grosso. Estava chegan
do, e seria quente e delicioso, sangue de um homem inteiro, e estava chegando, estava chegando em segundos.
Fechei os olhos, e, ao abri-los, deixei o quarto tomar forma novamente com suas cortinas azul-celeste em cadajanela, caindo em pregas fartas at o cho, um grande
tapete oval com guirlandas de rosas repolhudas. E ela, esse espeto de ,
menina, olhando para mim com seu sorriso simples e doce, como se o crime da noite nada fosse para ela.
Ela se ajoelhou ao meu lado, perigosamente perto, e tornou a tocar delicadamente em meu cabFlo. Seus seios macios e soltos encostaram em meu brao. Li seus pensamentos 
como se lesse sua mo, penetrando em camada aps camada de seu inconsciente, tornando a ver a estrada escura e sinuosa serpeando pelo vale do Jordo, e os pais correndo 
muito para aquela escurido atroz e aquelas curvas fechadas e aqueles motoristas rabes que vinham correndo mais ainda, fazendo com que cada encontro de faris se 
tornasse uma disputa desagradvel.
- Para comer peixe do Mar da Galilia - disse ela, o olhar me deixando. - Eu queria. Foi idia minha ir l. Tnhamos mais um dia na Terra Santa, e dizem que de Jerusalm 
a Nazar  longe, e eu disse: "Mas ele andou sobre as guas." Para mim essa sempre foi a histria mais estranha. Voc conhece?
- Conheo - respondi.
-Diz que Ele estava andando em cima dgua, como se tivesse esquecido que os apstolos estavam l ou que qualquer um podia v-Lo, e eles, do barco, disseram "Senhor!", 
e Ele se assustou. Um milagre to estranho, como se fosse uma coisa... casual. Fui eu quem quis ir. Fui eu quem quis comer peixe fresco recm-pescado nas mesmas 
guas em que Pedro e os outros pescaram. Foi responsabilidade minha. Ah, no diga que foi culpa minha eles terem morrido. Foi responsabilidade minha. E estvamos 
todos voltando para minha grande noite no Carnegie Hall, e a gravadora estava preparada para gravar a apresentao, ao vivo. Euj tinha gravado um disco, sabe. Fez 
muito mais sucesso que se esperava. Mas aquela noite... essa noite nunca aconteceu, isto , eu ia tocar a Appassionata. Era tudo o que me importava. Eu adoro as 
outras sonatas, a Sonata ao luar, a Pathtique, mas para mim realmente era a Appassionata. Meu pai e minha me estavam orgulhosssimos. Mas meu irmo, era sempre 
ele que brigava, que me arranjava o tempo, o espao, o bom piano, os professores de que eu precisava. Foi.ele quem os fez ver, mas a, obviamente, ele no tinha 
vida nenhuma, e todos ns vimos o que ia acontecer. Discutamos isso  noite em volta da mesa, que ele precisava ter vida prpria, no era bom ficar trabalhando
para mim, mas a ele dizia que eu precisaria dele durante muitos anos, eu nem podia imaginar. Ele administrava as gravaes, as apresentaes, o repertrio e os
cachs que pedamos. Os agentes no eram de confiana. Eu no tinha idia, dizia ele, de quo alto eu chegaria.
Ela fez uma pausa, pondo a cabea de lado, o semblante honesto porm ainda simples.
- Isso no foi uma deciso minha, entende - disse ela. - Eu no queria fazer mais nada. Eles estavam mortos. Eu no queria sair. No queria atender o
telefone. No queria tocar mais nada. No queria ouvir o que ele dizia. No queria fazer planos. No queria comer. No queria mudar de roupa. S tocava a Appassionata.
- Entendo - au disse.
-Ele trouxe Benj i para tomar conta de mim. Eu sempre me perguntei como. Acho que Benji foi comprado, sabe, comprado com dinheiro.
- Eu sei.
-Acho que foi isso que aconteceu. Ele no podia me deixar sozinha, disse, nem no King David, que era o hotel...
- Sim.
... porque dizia que eu ia ficar nua na frente dajanela, ou no ia deixar a empregada entrar, e ia ficar tocando piano no meio da noite e ele no ia conseguir dormir. 
Ento arranjou Benji. Eu amo Benji.
- Eu sei.
- Sempre fiz o que Benj i mandava. Ele nunca ousou bater em Benj i. S no final  que comeou a me machucar mesmo. Antes era s uns tapas e uns chutes. Ou me puxava 
o cabelo. Ele me agarrava pelo cabelo, segurava todo o meu cabelo com uma das mos e me atirava no cho. Sempre fazia isso. Mas no ousava bater em Benji. Sabia 
que se batesse nele eu ficaria gritando. Mas s vezes, quando Benji tentava faz-lo parar... Mas no tenho muita certeza disso porque ele me deixava muito tonta. 
Minha cabea doa.
- Entendo - disse eu. - Claro, ele tinha batido em Benji.
Ela meditou, calada, os olhos ainda arregalados e brilhantes sem estarem rasos dgua nem franzidos.
-Somos iguais, voc e eu-murmurou ela, olhando para mim. Estava com a mo perto de meu rosto, e com muita delicadeza apertou-o com a ponta macia do dedo indicador.
- Iguais? - perguntei. - Em que voc pode estar pensando?  - Monstros - disse ela. - Filhos.
Sorri. Mas ela no. Parecia estar devaneando.
- Fiquei to feliz quando voc chegou - disse ela. - Eu soube que ele estava morto. Soube quando voc estava na ponta do piano e olhou para mim. Soube quando voc
ficou ali me ouvindo. Fiquei felicssima que tivesse algum capaz de mat-lo.
- Faa isso para mim - eu disse.
- O qu? - ela perguntou. - Armand, farei qualquer coisa.
- V para o piano agora. Toque para mim. Toque a Appassionata. -Mas e o plano?-perguntou ela com uma vozinha surpresa. -O homem mau, ele j est vindo.
- Deixe isso comigo e com Benji. No se vire para olhar. Apenas toque a Appassionata.
- No, por favor - pediu ela gentilmente.
- Mas por que no? - perguntei. - Por que voc precisa passar por uma provao dessas?
- Voc no entende-disse elacom olhos arregaladssimos.-Quero ver.
,..
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3ia: 22
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Benj i acabara de voltar l embaixo. O som distante de sua voz, quase inaudvel para Sybelle, imediatamente rechaou a dor de toda a superfcie de meus membros.
-Foi isso o que quis dizer, entende - ia dizendo ele -, est tudo embaixo do cadver, e a gente no quer levantaro cadver, e sendo voc um policial, voc sabe, 
sendo do servio antidrogas, eles disseram que saberia cuidar disso...
Comecei a rir. Ele realmente estava se sentindo orgulhoso. Olhei de novo para Sybelle, que me fitava com uma expresso calma e decidida, de profunda inteligncia 
e reflexo.
- Cubra meu rosto - disse eu - e saia de perto. Ele est nos trazendo um perfeito prncipe dos malandros. Depressa.
Ela agiu logo. Euj sentia o cheiro dessa vtima, embora ela ainda estivesse subindo no elevador, conversando com Benji em termos pouco prudentes.
- E isso tudo vocs tm nesse apartamento, e no h ningum mais nisso? Ah, ele era uma beleza. Eu escutava o assassino naquela voz.
- Eu lhe contei tudo - disse Benji com a maior naturalidade. - Voc s me d uma aj uda com isso, sabe, no posso deixar a polcia vir aqui ! - Baixinho. - Esse
 um hotel bom. Como eu ia saber que esse cara ia morrer aqui! A gente no usa p, pode ficar com ele, s tire o corpo daqui. Agora, deixe-me lhe dizer...
A porta do elevador abriu no nosso andar.
 esse corpo est todo desfigurado, ento no venha chorando para cima de mim quando o vir.
- Chorando para cima de voc - resmungou a vtima com voz abafada. Ouviam-se os passos dos dois andando rpido no tapete.
Benji fingiu que estava atrapalhado com as chaves.
- Sybelle - gritou ele para alertar-nos. - Sybelle, abra a porta. - No abra - disse eu baixo.
- Claro que no - respondeu a moa com uma voz aveludada. O tambor da grande fechadura girou.
322
O VAMPlRO ARIwvIAND
- E esse cara vem morrer por acaso aqui em cima no quarto de vocs com todo esse p.
- Bem, no exatamente - disse Benji -, mas voc fez um trato comigo, no? Espero que respeite esse trato.
- Olhe, seu pivetinho, eu no fiz trato nenhum com voc.
-Tudo bem, ento talvez eu chame a polcia normal. Conheo voc. Todo mundo no bar conhece, sabe quem  voc, voc est sempre por l. O que vai fazer, che ao? Me
matar?
A porta fechou depois que eles entraram. O cheiro do sangue do homem inundou o apartamento. Ele estava encharcado de conhaque e tambm tinha aquela cocana venenosa
nas veias, mas nada disso fazia a mnima diferena para minha sede purificadora. Eu mal conseguia me conter. Senti meus membros se retesarem e tentarem dobrar embaixo
da colcha.
- Ora, ela no  uma perfeita princesa? - disse ele, tendo obviamente batido o olho em Sybelle. Sybelle no respondeu.
- Deixe-a para l, v olhar ali embaixo da colcha. Sybelle, venha c para perto de mim. Venha, Sybelle.
-Ali embaixo? Voc est me dizendo que o corpo est ali embaixo e que a cocana est embaixo do corpo?
- Quantas vezes preciso lhe dizer? - perguntou Benji, sem dvida com aquele movimento de ombros caracterstico. - Olhe, o que voc no est entendendo eu gostaria
de saber. Voc no quer essa cocana? Eu dou para algum. Vou ficar muito popular l no seu bar predileto. Vamos, Sybelle, esse homem est dizendo que vai ajudar,
depois no ajuda, fala, fala, fala, tpica sacanagem de poltico.
- Quem voc est chamando de sacana, garoto? - perguntou o homem fingindo gentileza, o cheiro do conhaque se intensificando. - Esse  um palavreado grosso para um
garoto do seu tamanho. Que idade voc tem, menino? Como diabos entrou nesse pas? Anda sempre com essa camisola?
-Claro, pode me chamar de Lawrence da Arbia-disse Benj i.-Sybel le, venha c.
Eu no queria que ela fosse. Queria v-la o mais longe disso possvel. Ela no se mexeu, e fiquei muito contente com isso.
- Gosto das minhas roupas - continuou Benj i. Baforada de fumaa doce de cigarro. - Eu devia me vestir como os garotos daqui, suponho, usarjeans? Como se eu devesse.
Meu povo se vestia assim quando Maom estava no deserto.
-Nada como o progresso-disse o homem com um profundo riso gutural. Ele se aproximou da cama com passos rpidos e secos. O cheiro de sangue era to bom que eu sentia
os poros de minha pele queimada se abrirem para ele.
Usei uma nfima parte de minha fora para formar uma imagem teleptica dele atravs dos olhos de Sybel le e Benj i - um homem de olhos castanhos, pele amarelada, 
faces macilentas, cabelo casanho rareando, vestido com um terno italiano de seda preta brilhosa feito  mo, abotoaduras faiscantes de brilhante
nos punhos de linho. Ele estava irrequieto, coando os flancos, quase sem . conseguir ficar parado, o crebro um tumulto atordoado de humor, cinismo e
curiosidade louca. Seus olhos estavam vidos e alegres. A crueldade superava tudo, e parecia haver nele um forte trao de genuna loucura alimentada pela droga. 
Ele usava seus assassinatos com tanto orgulho quanto usava aquele terno de prncipe e aquelas reluzentes botas marrons.
Sybelle aproximou-se da cama, o perfume doce e penetrante de sua carne pura misturando-se ao cheiro mais pesado e mais forte do homem. Mas era o sangue dele que 
eu saboreava, que deixava minha boca ressequida aguando. Mal consegui conter um suspiro ali embaixo das cobertas. Senti meus membros quase sarem danando daquela 
paralisia dolorosa.
O vilo estava avaliando o local, olhando de um lado para o outro atravs das portas abertas, tentando escutar outras vozes, discutindo se deveria dar uma busca 
nesse quarto de hotel extravagantemente atulhado e confuso antes de fazer qualquer coisa. Seus dedos no paravam quietos. Num lampejo de pensamento sem palavras, 
captei rapidamente que ele havia cheirado a cocana que Benji trouxera, e estava querendo mais imediatamente.
- Puxa, voc  uma linda jovem - disse ele para Sybelle. - Quer que eu levante a colcha? - perguntou ela.
Senti o cheiro da pequena pistola que ele trazia enfiada na bota de couro de cano longo, e a outra arma, muito elegante e moderna, uma coleo distintamente diferente 
de cheiros metlicos, no coldre embaixo de seu brao. Eu tambm sentia cheiro de dinheiro nele. Aquele inconfundvel cheiro ranoso de notas sujas.
- Vamos, seu covarde - disse Benj i. - Quer que eu levante a coberta?  s dizer quando. Voc vai ficar realmente surpreso, pode acreditar!
-No tem corpo nenhum a embaixo-disse ele com um riso escarninho. -Por que a gente no senta e tem uma conversinha? Esse lugar no  realmente a sua casa, ? Acho
que vocs, crianas, precisam de um pouco de orientao paterna.
- O corpo est todo esturricado - disse Benji. - No fique enjoado. - Esturricado? - disse o homem.
Foi a mo esguia de Sybelle que de repente puxou a coberta. O ar frio escorregou em minha pele. Olhei para o homem que recuou, um grito semi
estrangulado preso na garganta. - Pelo amor de Deus!
Meu corpo deu um pulo para cima, atrado pela gorda fonte de sangue como uma marionete medonha presa a cordis puxados com violncia. Dei-lhe um encontro, depois 
enterrei as unhas queimadas em seu pescoo e envolvi-o com o outro brao num abrao agonizante, minha lngua procurando o sangue que escorria das unhadas enquanto 
eu inspirava e, ignorando a ardncia em meu rosto, abri bem a boca e cravei as presas.
Agora eu o tinha.
Sua altura, sua fora, seus ombros fortes, suas mos enormes me apertando para machucar, nada disso poderia ajud-lo. Eu o tinha. Chupei o primeiro gole de sangue 
e achei que iria desfalecer. Mas meu corpo no permitiria isso. Meu corpo estava preso ao dele como se fosse uma coisa com tentculos vorazes.
Imediatamente, seus pensamentos enlouquecidos e luminosos me colocaram num turbilho fascinante de imagens de Nova York, de crueldade descuidada e horror grotesco, 
de energia desenfreada provocada pela droga e pela alegria sinistra. Deixei as imagens me inundarem. Eu no podia buscar a morte rpida. Precisava ter cada gota 
de sangue que havia dentro dele, e, para isso, o corao no podia parar de pulsar; no podia desistir.
Se algum dia eu havia provado um sangue forte assim, doce e salgado, eu no me lembrava. No h como a memria registrar uma delcia dessas, o xtase absoluto dessa 
sede saciada, da fome aplacada, da solido dissolvida nesse abrao quente e ntimo, no qual o som de minha prpria respirao agitada e forada me apavoraria se 
eu me importasse com isso.
Fiz um barulho tremendo, pantagrulico. Meus dedos massagearam seus msculos grossos, minhas narinas pressionavam sua pele mimada, cheirando a sabonete.
- Humm, amo voc, no vou machuc-lo por nada nesse mundo, est sentindo isso,  doce, no? - Eu falava com ele baixinho por cima das poas rasas de sangue deslumbrante. 
- Humm, sim, to doce, melhor que o mais fino dos conhaques, hummm...
Chocado e incrdulo, ele de repente se soltou completamente, rendendo-se ao delrio que eu atiava com cada palavra. Rasguei seu pescoo, alargando o ferimento,
rompendo mais a artria. O sangue jorrou de novo.
Um intenso calafrio percorreu minhas costas, desceu-me pelos braos e passou para as ndegas e as pernas. Era um misto de dor e prazer enquanto o sangue quente e
vivo ia penetrando nas microfibras de minha pele murcha, engordando os msculos sob a carne esturricada, chegando mesmo em minha medula ssea. Mais, eu precisava
de mais sangue.
- Continue vivo, voc no quer morrer, continue vivo - cantarolei esfregando os dedos no cabelo dele, sentindo que agora minha mo no era mais aquela mo de pterodctilo
que fora at h pouco. Ah, meus dedos estavam
quentes; era de novo aquele fogo por todo o meu corpo, era o fogo ardendo em meus membros queimados, agora a morte tinha de chegar, eu no conseguia mais suportar 
isso, mas um pinculo fora atingido, e agora isso era passado e uma imensa dor tranqilizadora me percorreu.
Meu rosto estava cheio e fervilhando. Minha boca, tambm cheia de novo e de novo, e agora eu engolia sem esforo.
- Ah, sim, vivo, voc  to forte, to maravilhosamente forte... - murmurei. - Humm, no, no se v... ainda no, no chegou a hora.
Osjoelhos dele se dobraram. Ele foi escorregando lentamente para o tapete, e eu com ele, encostando-o delicadamente na cama e deixando-o cair ao meu lado, de modo 
que ficamos deitados como amantes entrelaados. Havia mais, muito mais, muito mais do que eu poderia beber em meu estado normal, mais do que algum dia pude querer.
Mesmo quando eu era uma cria gulosa e nova, nas raras ocasies em que tomava duas ou trs vtimas numa noite, jamais bebi to profundamente de nenhuma delas. Eu 
agora estava bebendo a borra saborosa e escura, chupando os prprios vasos em cogulos doces que derretiam na lngua.
- Ah, voc  to precioso, sim, sim.
Mas seu corao j no agentava mais. Batia cada vez mais devagar, entrando num ritmo fatal e irrecupervel. Dei-lhe uma dentada no rosto, puxando a pele para cima, 
lambendo o rico emaranhado de vasos rompidos que cobria seu crnio. Havia tanto sangue ali, tanto sangue atrs dos tecidos da face. Chupei as fibras e cuspi-as exangues 
e brancas, vendo-as carem no cho como pelancas inteis.
Eu queria o corao e o crebro. Eu havia visto os antigos tomarem-nos. Eu sabia agora. Uma vez vi a romana Pandora atacar bem no peito.
Fui atrs do corao. Espantado ao ver minha mo completamente recuperada embora de um tom marrom-escuro, contra os dedos formando uma esptula e enterrei-a nele, 
rasgando o linho e quebrando o esterno, e alcanando suas entranhas moles at pegar o corao e segur-lo como eu vira Pandora fazer. Chupei-o. Ah, era cheio de 
sangue. Que magnfico! Chupei-o at deix-lo como uma passa e larguei-o.
Fiquei to imvel como ele, ao seu lado, a mo direita em sua nuca, a cabea encostada em seu peito, meu flego voltando em suspiros pesados. O sangue danava dentro
de mim. Senti meus braos e minhas pernas se agitando. Espasmos me percorriam, de modo que a viso de sua carcaa morta cintilava em meus olhos.
-Ah, que doura de irmo-murmurei.-Uma doura de irmo.-Rolei no cho. Eu ouvia o rugido de seu sangue em meus ouvidos, sentia-o passando por meu crnio, formigando
em minhas faces e nas palmas de minhas mos. Ah, bom, bom demais, deliciosamente bom demais.
- Bandido, humm? - Era a voz de Benji, ao longe no mundo dos vivos. L longe, em outro mundo onde pianos deviam ser tocados e garotinhos
deviam danar, estavam os dois, como figuras pintadas e destacadas contra a luz instvel do quarto, simplesmente me olhando, ele, o malandro do deserto com seu refinado 
cigarro preto, soltando baforadas e estalando os lbios e erguendo as sobrancelhas, e ela apenas Ilutuando, ao que parecia, decidida e pensativa como antes, sem 
estar chocada, talvez sem ter sido afetada.
Sentei-me e puxei osjoelhos para cima. Fiquei em p, apenas apoiando-me rapidamente na cama para me equilibrar. Eu estava nu, olhando para ela. Seus olhos tinham 
um brilho cinzento rico e profundo, e ela riu ao olhar para mim.
- Ah, magnfico - murmurou ela.
- Magnfico? - disse eu. Ergui minhas mos e afastei o cabelo do rosto. -Leve-me at o espe(ho. Depressa. Estou com sede. J estou com sede de novo. Comeara. Isso 
no era mentira. Em estado de choque, olhei para o espelho.
Euj havia visto espcimens destrudos assim, mas cada um de ns fica destrudo  sua maneira, e, por razes alqumicas que eu no poderia revelar, eu era uma criatura 
escura, da cor exata do chocolate, com olhos impressionantemente brancos de pupilas de um marrom avermelhado. Meus mamilos eram pretos como passas. Minhas faces 
eram dolorosamente macilentas, minhas costelas, perfeitamente definidas sob minha pele reluzente, e as veias, as veias to repletas de ao fervilhante que pareciam 
cordas ao longo de meus braos e de minhas panturrilhas. Meu cabelo, obviamente, nunca fora to lustroso, to cheio, uma coisa to jovem e naturalmente boa.
Abri a boca. Estava morrendo de sede. Toda a carne despertada cantava de sede e me amaldioava com. isso. Era como se mil clulas esmagadas e mudas estivessem agora 
cantando por sangue.
- Preciso de mais. Preciso. Fiquem longe de mim. -Passei correndo por Benji, que s faltou danar ao meu lado.
- O que voc quer, o que posso fazer por voc? Vou pegar outro. -No, eu vou sozinho. - Ca em cima da vtima e afrouxei sua gravata de seda. Desabotoei depressa
os botes de sua camisa.
Benji logo abaixou para tirar-lhe o cinto. Sybelle, ajoe(hada, puxou-lhe as botas.
- A arma, cuidado com a arma - avisei. - Sybelle, afaste-se dele. -Estou vendo a arma-disse ela num tom de censura. Colocou-a de lado cuidadosamente, como se fosse
um peixe recm-pescado que pudesse cair de suas mos. Tirou-lhe as meias. - Armand, essas roupas - disse ela - so
grandes demais.
- Benj i, voc tem algum sapato? - perguntei. - Meu p  pequeno. Levantei-me e vesti a camisa s pressas, abotoando-a com uma rapidez que
os deixou fascinados.
-No fique a me olhando, v buscar os sapatos-disse eu. Vesti as calas, fechei o zper, e, com a ajuda dos dedos geis de Sybelle, afivelei o cinto de couro. Apertei-o 
ao mximo. Isso serviria.
Ela se abaixou diante de mim, seu vestido uma grande roda de formosura florida a cerc-la, e arregaou as pernas da cala deixando  mostra meus ps escuros descalos.
Eu vestira a camisa sem precisar abrir as requintadas abotoaduras.
Benji jogou no cho os sapatos pretos, finos mocassins da Bally, que ele nunca usara, aquele miseravelzinho divino. Sybelle pegou uma meia para calar em mim, Benji, 
a outra.
Quando vesti o palet, fiquei pronto. A doce comicho em minhas veias parara. A dor voltara e comeava a rugir, como se eu estivesse costurado com fogo, e a bruxa 
com a agulha puxasse a linha com fora, para me fazer tremer.
- Uma toalha, meus caros, alguma coisa velha, comum. No, no faam isso, no nessa poca, no pensem nisso.
Cheio de asco, olhei para a pele lvida dele. Ele fitava o teto, os plos das narinas muito pretos contra sua pele murcha e horrenda, os dentes amarelos sobre o 
lbio descorado. O cabelo em seu peito era um enxame bao no suor da morte, ejunto  enorme chaga estava aquela passa que fora o seu corao, ah, esta era a evidncia 
maligna que precisava ser obliterada do mundo por princpio.
Abaixei-me e tornei a enfiar os restos de seu corao em sua cavidade torcica. Cuspi no ferimento e esfreguei-o com os dedos.
Benji ficou espantado.
- Olhe os cortes cicatrizando, Sybelle - exclamou ele.
-Mais ou menos-falei. -Ele est muito frio, muito vazio. - Olhei em volta. L estavam a carteira do homem, papis, uma bolsa de couro, montes de notas verdinhas
presas com um prendedor de prata. Juntei tudo isso. Enfiei o dinheiro dobrado num bolso e o resto no outro. O que mais ele possua? Cigarros, um canivete mortal
e as armas, ah, sim, as armas.
Pus isso tudo no bolso do palet.
Engolindo a nusea, abaixei-me e peguei-o, esse homem medonho, flcido e branco de tristes cuecas de seda, com um vistoso relgio de ouro. Minha antiga fora estava
mesmo voltando. Ele era pesado, mas consegui facilmente coloclo s costas.
-O que vai fazer; aonde vai?-gritou Sybelle.-Armand, voc no pode nos deixar.
- Voc vai voltar! - disse Benji. - Olhe, d-me esse relgio, nojogue fora o relgio do homem.
- Sshhh, Benji - murmurou Sybelle. - Voc sabe muito bem que lhe comprei os melhores relgios. No toque nele. Armand, o que podemos fazer para ajud-lo? - Ela veio 
para perto de mim. - Olhe! - disse apontando para o brao do cadver balanando bem embaixo de meu cotovelo direito. - Ele tem as unhas feitas. Que incrvel.
-- Ah, sim, ele sempre se cuidou muito - disse Benji. - Voc sabe que o rlgio vale cinco mil dlares.
-- Silncio sobre o relgio - disse ela. -No queremos as coisas dele. Ela tornou a olhar para mim. - Armand, voc ainda continua mudando. Seu rosto est ficando 
mais cheio.
- , e di - disse eu. - Esperem-me. Preparem um quarto escuro para mim. Voltarei logo que tiver me alimentado. Preciso me alimentar agora, e muito para eliminar
as cicatrizes que ficaram. Abram a porta para mim.
--Deixe-me ver se tem algum l fora-disse Benji correndo responsavelmente para a porta.
Sa no corredor, carregando facilmente o pobre defunto, seus braos brancos pendurados, balanando e batendo ligeiramente em mim.
Que figura eu estava com essas roupas folgadas! Devia estar parecendo um daqueles estudantes malucos e poticos depois de passar numa loja de roupas usadas para
comprar as melhores becas, saindo de sapato novo bem elegante para ir  cata das bandas de rock.
--No tem ningum ali, meu amiguinho - disse eu. - So trs da manh e o hotel est dormindo. E, se tenho razo, aquela  a porta da escada de incndio, l no fnal
do corredor, certo? Tambm no tem ningum na escada de incndio.
-Ah, Armand esperto, voc me encanta! -disse ele. Apertou os olhinhos pretos. Ficou pulando no corredor acarpetado. - D-me o relgio! - pediu. - No - disse eu.
- Ela est certa.  rica e eu tambm e voc tambm. No f ique mendigando.
- Armand, vamos esperar por voc - disse Sybelle da porta. - Benji, entre imediatamente.
- Ah, agora oua-a. Como ela acorda! Como ela fala! "Benji, entre", ela diz. Fi, amor, voc no tem nada para fazer agora, como talvez tocar piano? Ela no conseguiu
conter uma pequena gargalhada. Sorri. Que estranha
dupla eles formavam. No acreditavam no que viam. Mas isso era bem tpico deste sculo. Eu queria saber quando eles comeariam a ver, e, tendo visto, quando comeariam
a gritar.
- Sybelle - disse eu. - O que as mulheres querem tantas vezes ouvir e esperam tanto para ouvir? Eu a amo.
Deixei-os, descendo correndo, passando o defunto para o outro ombro quando um lado ficava muito dolorido. A dor passava por mim em ondas. O choque do ar gelado da
rua foi escaldante.
- Alimentar-me - murmurei. E o que iria eu fazer com ele? Ele estava demasiado nu para andar na Quinta Avenida.
Tirei seu relgio porque era a nica identificao que sobrara nele, e, quase vomitando com o nojo da proximidade daqueles despojos ftidos, peguei-o pela mo e
fui arrastando-o pela rua.
asfalto molhado.
Em segundos eu andara dois quarteires, e, encontrando uma viela plausvel, com um porto alto para impedir a entrada dos mendigos noturnos, trepei depressa na grade
ejoguei a carcaa do outro lado da viela. O corpo caiu na neve que derretia. Eu estava livre dele.
Agora eu precisava de sangue. No havia tempo para aquele velhojogo de atrair os que queriam morrer, os que realmente estavam ansiosos para receber o meu abrao,
os quej estavam apaixonados pelo pas distante da morte sobre o qual eles nada sabiam.
Eu precisava ir me arrastando aos tropees ao lado do alvo, com aquele palet de seda mal-ajambrado e aquelas calas arregaadas, cabelo comprido a esconder o rosto,
pobre garoto deslumbrado, perfeito para sua faca, sua arma, seu punho.
No demorou.
O primeiro foi um bbado infeliz que vinha andando e me encheu de perguntas antes de revelar a lmina faiscante e partir para crav-la em mim. Eu o empurrei contra
o prdio e me alimentei como um gluto.
O seguinte foi um jovem desesperado comum, cheio de pstulas, que j matara duas vezes para obter a herona de que precisava to desesperadamente quanto eu precisava
do sangue maldito dentro dele.
Bebi mais devagar.
As piores cicatrizes em meu corpo reagiam com bastante resistncia , coando, latejando e s lentamente desaparecendo. Mas a sede, a sede no passava. Meus intestinos
revolviam-se como se estivessem devorando a si mesmos. Meus olhos latejavam de dor.
Mas a cidade fria e mida, to barulhenta, ficava cada vez mais brilhante para mim. Eu podia ouvir vozes a
quarteires de distncia e pequenos alto- falantes em prdios altos. Podia ver as verdadeiras e inumerveis estrelas alm das nuvens que se dispersavam.
Eu
estava quase voltando a ser o que eu era.         Ento quem vir a mim agora, pensei, nessa hora vazia e desolada antes da aurora, quando a neve est derretendo
com o ar mais quente e as luzes de neon j se apagaram todas, e ojornal mido voa como folhas por uma floresta listrada e congelada?         Peguei todos os artigos
preciosos que pertenceram a minha primeira vtima                                 y ejoguei-os fora em lixeiras salteadas pela rua.         Um ltimo assassino,
sim, por favor, destino, d-me isso, enquanto h tem- po, e ele veio mesmo, maldito idiota, saindo de um carro enquanto atrs dele o
-
motorista aguardava, o motor ligado.         - Por que est demorando tanto? - perguntou o motorista afinal.         - Por nada-disse eu, largando o amigo dele.
Debrucei-me najanela para olhar para ele. Ele era mau e cretino como o companheiro. Jogou a mo para o alto, mas sem defesa e tarde demais. Atirei-o no assento de
couro e bebi a ora                 g por prazer completo, prazer puro, doce e louco.         Caminhei lentamente pela noite, braos abertos, olhos voltados para
o cu.         Das negras chamins esparsas na rua iluminada saa a fumaa branca e pura das casas aquecidas embaixo. Os sacos de lixo compunham uma exibio fantstica
e moderna nos meios-fios das caladas cinzentas.                        -         rvores jovens e tenras, com folhinhas perenes como pinceladas de um verde vivo
na noite, envergavam seus troncos finos ao vento uivante. Por toda a parte, as portas de vidro dos prdios de fachada de granito continham o esplendor radiante de
portarias ricas.         Vitrines exibiam seus diamantes faiscantes, peles lustrosas e casacos e vestidos bem cortados em manequins de estanho sem rosto e com toucados 
imponentes.         A catedral era um lugar apagado e silencioso com torres cobertas de geada                : e arcos antigos pontiagudos, a calada limpa onde
eu ficara na manh em que o sol me pegou.         Demorando-me ali, fechei os olhos, tentando talvez lembrar a surpresa e o mistrio, a coragem e a esperana gloriosa.
        Em vez disso, vieram, lmpidas e claras pela escurido, as notas prstinas da Appassionata. Perturbadora, retumbante, acelerada, a msica estrondosa veio
me chamar de volta para casa. Segui-a.         O relgio na recepo do hotel dava seis horas. A escurido invernal se dissiparia em poucos instantes como o gelo
que me aprisionara. O comprido balco polido estava deserto na penumbra.
Num espelho de moldura rococ dourada, eu me vi, plido e liso e imaculado. Ah, como o sol e o gelo, cada um de uma vez, divertiram-se comigo, a fria de um congelada
pelas garras implacveis do outro. No ficara uma s cicatriz onde a pele queimara at o msculo. Uma coisa colada e compacta com uma agonia inteiria por dentro,
eu estava todo regenerado, com unhas brancas e transparentes, pestanas reviradas em volta dos olhos castanhos, e roupas boas miseravelmente sujas e mal-ajambradas
no velho e vigoroso querubim familiar.
Nunca antes eu fcara grato por ver minha cara demasiado jovem, meu queixo demasiado imberbe, minhas mosdemasiado macias e delicadas. Mas eu poderia ter agradecido
aos deuses antigos por ter asas neste momento.
L em cima, a msica continuava, to imponente, expressando tanta tragdia e lascvia e esprito destemido. Eu adorava tanto essa msica. No mundo inteiro, quem
poderia tocar algum dia a mesma sonata como ela, cada frase to fresca como o canto que os pssaros cantam a vida inteira e que  o nico que eles sabem.
Olhei em volta. Era um lugar elegante, caro, de lambris antigos e poltronas fundas, e chaves guardadas em escaninhos de madeira escura e manchada. Um grande vaso
de flores, a indefectvel marca registrada do hotel antigo de
Nova York, era colocado audaciosa e magnificamente no meio da sala, em cima de uma mesa redonda de tampo de mrmore. Passei ao lado do arranjo, arrancando um grande
lrio cor-de-rosa com um profundo tubo vermelho e ptalas enroladas e amarelas por fora, e subi calado pela escada de incndio ao encontro de meus filhos.
Ela no parou de tocar quando Benji me deixou entrar.
- Voc est com uma aparncia tima, Anjo - disse ele.
Ela continuava tocando, a cabea balanando natural e perfeitamente no ritmo da sonata.
Ele me conduziu por uma srie de quartos decorados com requinte. O meu era suntuoso demais, murmurei, vendo a colcha bordada e os travesseiros de um gracioso lam
dourado velho e surrado. Eu s estava precisando de uma escurido perfeita.
- Mas  o menos suntuoso que temos - disse ele, dando de ombros. Ele agora vestia um roupo de linho branco forrado com uma bela 1 istra azul, de um tipo que eu
j vira muito em terras rabes. Usava meias brancas com as sandlias marrons. Fumava seu cigarrinho turco e apertou os olhos para me enxergar atravs da fumaa.
- Voc me trouxe o relgio, no! -Ele balanou a cabea afirmativamente, todo sarcstico e divertido.
-No - disse eu. Pus a mo no bolso. - Mas pode ficar com o dinheiro. Diga-me, voc j tem uma mente tranadssima e eu no tenho chave, algum viu voc trazer c
para cima esse vilo que andava com distintivo e armado?
- Eu o vejo sempre - disse ele com um gesto cansado.
- Samos do bar separados. Matei dois coelhos com uma cajadada s. Sou muito esperto.
- Como assim? - perguntei. Pus o lrio na mozinha dele.
- O irmo de Sybelle comprava com ele. Esse tira foi o nico cara que sentiu falta dele. - Deu uma risadinha. Espetou o lrio nos cachos grossos em cima da orelha 
esquerda, depois tirou-o dali e ficou girando o pequeno clice entre os dedos. - Esperto, no? Agora ningum, pergunta quem ele .
- Ah, de fato, dois coelhos com uma cajadada s, tem razo. - disse eu. - Embora eu tenha certeza de que nisso h muito mais coisas.
- Mas voc vai nos ajudar agora, no vai?
- Vou sim. Sou muito rico, j lhe disse. Vou consertar as coisas. Tenho instinto para isso. Tive um grande teatro numa cidade longnqua, e depois disso uma ilha 
de lojas elegantes e outras coisas desse tipo. Sou um monstro em muitas soorancema e aando-me uma rpida piscadela. Deu uma tragada em seu cigarro aparentemente 
saboroso e me ofereceu outra. Sua mo esquerda mantinha o lrio a salvo.
- No posso. S bebo sangue - disse eu. - Um vampiro normal como manda o figurino. Preciso de escurido total durante o dia, quej est chegando. Voc no deve tocar 
nessa porta.
- R! - ele riu com um prazer travesso. - Foi isso o que eu disse a ela! -Ele revirou os olhos e olhou na direo da sala.-Eu disse que precisvamos roubar imediatamente 
um caixo para voc, mas ela disse no, voc pensaria nisso.
- Como ela estava certa! O quarto vai servir. Mas eu gosto muito de caixes. Gosto mesmo.
- E voc pode nos transformar em vampiros tambm?
-Ah, nunca. Dejeito nenhum. Vocs so puros de corao e vivos demais, e eu no tenho este poder. Isso nunca foi feito. No pode ser.
Ele tornou a dar de ombros.
- Ento quem criou voc? - perguntou ele.
- Eu nasci de um ovo preto - disse eu. - Todos nascemos. Ele deu uma gargalhada escarninha.
- Bem, vocj viu o resto - disse eu. - Por que no acreditar na melhor parte?
Ele apenas sorriu e soltou a fumaa, e olhou para mim com a cara mais safada.
O piano cascateava sonoramente, as notas rpidas dissolvendo-se to depressa quanto nasciam, to parecidas com os locos de neve fininhos, esvanecendo-se antes de 
bater no cho.
- Posso beij-la antes de ir dormir? - perguntei. Ele ps a cabea de lado e deu de ombros.
- Se no gostar, ela no vai parar de tocar para dizer.
Entrei na sala. Como tudo era claro! O desenho imponente de paisagens francesas suntuosas com suas nuvens douradas e cus azul-cobalto, os vasos chineses em suas 
bases, as cortinas de veludo penduradas em varas de bronze altas em cima das estreitasjanelas antigas. Vi tudo isso de uma vez, incluindo a cama onde eu estivera 
deitado, agora cheia de colchas macias e travesseiros bordados com rostos antigos.
E ela, o diamante central de tudo aquilo, com uma camisola comprida de flanela branca, com uma rica barra de renda irlandesa antiga nos punhos e na bainha, tocando 
seu piano laqueado de cauda inteira com dedos geis e seguros, o cabelo um grande reflexo amarelo em volta dos ombros.
Beijei seus cachos perfumados, e depois sua garganta tenra, e captei seu sorriso e seu olhar infantis enquanto ela tocava, virando para trs a cabea que encostou 
na frente de meu palet.
Envolvi seu pescoo com os braos. Ela se apoiou em mim. De braos cruzados, segurei-a pela cintura. Senti o movimento de seus ombros acompanhando seus dedos rpidos.
Ousei cantarolar a msica baixinho, de boca fechada, e ela cantarolou comigo. . - Appassionata - sussurrei em seu ouvido. Eu estava chorando. No
queria toc-la com sangue. Ela era limpa demais, bonita demais. Virei a cabea. Ela continuou tocando. Suas mos martelavam o final tempestuoso. Fez-se um silncio, 
brusco e cristalino como a msica que o precedera. Ela se virou e jogou os braos em volta de mim, e me estreitou e me disse
as palavras que jamais ouvi mortal algum dizer em toda a minha longa vida imortal:
Armand, eu o amo.
Preciso dizer que eles so os companheiros perfeitos?
Nenhum deles ligava para os assassinatos. Jamais consegui entender isso. Eles ligavam para outras coisas, como a paz mundial, os pobres e sofredores sem-teto no
frio do inverno nova-iorquino que chegava ao fim, o preo dos medicamentos para os doentes e para o horror que era o fato de Israel e Palestina viverem em guerra 
um com o outro. Mas e(es no ligavam a mnima para os horrores que viam com os prprios olhos. No ligavam que eu matasse todas as noites para beber sangue, que 
eu s vivesse de sangue e nada mais, e que eu fosse uma criatura ligada por minha prpria natureza  destruio humana.
Eles no se importavam a mnima com o irmo morto (o nome dele era Fox , por sinal, e  mlhor no mencionar o sobrenome de minha linda menina).
Na verdade, se este texto algum dia vir  luz do mundo real, voc vai ter de mudar o nome dela e o de Benjamin.
No entanto, isso agora no me preocupa. No consigo pensar no destino dessas pginas, a no ser que so principalmente para ela, comoj lhe mencionei ,
e, se me for permitido lhes dar um ttulo, acho que ser Sinfonia para Sybelle. No, por favor, entenda que no amo menos Benji.  s que no tenho o mesmo sentimento 
de proteo esmagador para com ele. Sei que Benji viver uma vida tima e cheia de aventuras, no importa o que acontecer comigo ou com Sybelle, nem mesmo com os 
tempos. Est na natureza flexvel e resistente dos bedunos. Ele  um verdadeiro filho das tendas e das areias sopradas pelo vento, embora, no caso dele, a casa 
fosse um triste casebre de blocos de concreto de cinzas na periferia de Jerusalm onde ele induzia turistas a posarem para fotos superfaturadas com ele e um camelo 
imundo que rosnava.
Ele foi mesmo raptado por Fox nos termos criminosos de um contrato de longo prazo de servido pelo qual Fox pagou ao pai de Benji cinco mil dlares. Um passaporte 
falso de emigrao foi includo no trato. Ele era o gnio da tribo, sem dvida, estava dividido quanto a ir para casa e aprender nas ruas de Nova York a roubar, 
fumar e praguejar, nessa ordem. Emborajurasse de psjuntos que
no sabia ler, ele sabia, e comeou a faz-lo obsessivamente quando fui lhe dando livros.
De fato, ele sabia ler ingls, hebraico e rabe, tendo lido esses trs idiomas nos jornais de sua terra desde que se entendia.
Adorava cuidar de Sybelle. Cuidava para que ela comesse, bebesse leite, tomasse banho e trocasse de roupa quando nenhuma dessas tarefas rotineiras lhe interessavam. 
Orgulhava-se de poder obter, atravs de sua inteligncia, tudo de que ela precisava, independentemente do que acontecesse com ela.
Era seu testa-de-ferro com o hotel, gratificando as empregadas, tendo conversas normais na recepo, que incluam mentiras bem urdidas sobre o paradeiro do falecido 
Fox, que, na saga sem fim de Benji, virara um fabuloso viajante do mundo e um fotgrafo amador. Lidava com o afinador de piano, que era chamado uma vez por semana 
porque o piano ficavajunto janela, exposto ao sol e ao frio, e tambm porque Sybelle realmente o martelava com uma fria que de fato impressionaria o grande Beethoven. 
Telefonava para o banco, onde todos os funcionrios achavam que ele fosse o irmo mais velho dela, David, pronunciado Davd, e depois se apresentava no caixa para 
sacar como o pequeno Benjamin.
Depois de vrias noites conversando com ele, convenci-me de que poderia lhe dar uma formao to boa quanto Marius me dera, e que ele acabaria podendo escolher a 
universidade, a profisso ou os hobbies que desejasse. No superestimei as cartas que tinha na mo. Mas antes que a semana terminasse, eu estava sonhando com internatos 
para ele de onde poderia sair como um conquistador social da costa leste americana com seu blazer azul de botes dourados.
Eu o amo o bastante para arrancar cada membro de quem encostar um dedo nele.
Mas entre mim e Sybelle existe uma simpatia que s vezes engana mortais e imortais a vida inteira. Conheo Sybelle. Conheo-a. Conheci-a da primeira vez que a ouvi 
tocar, e conheo-a agora, e no estaria aqui com voc se ela no estivesse sob a proteo de Marius. Enquanto Sybelle viver, nunca me separarei dela, e no h nada 
que ela possa vir a me pedir que eu no faa.
Sofrerei uma dor inefvel no dia em que Sybelle inevitavelmente morrer. Mas isso  algo que precisa ser suportado. No tenho escolha. No sou a criatura que eu era
quando deparei com o Sudrio de Vernica, quando entrei no sol.
Sou outra pessoa, e essa pessoa se apaixonou perdidamente por Sybelle e Benjamin e no pode voltar atrs.
Obviamente tenho conscincia plena de que esse amor me faz bem. Sendo mais feliz do que jamais fui em toda a minha existncia mortal, ganhei muita fora tendo esses
dois como companheiros. A situao  quase perfeita demais para no ser obra do acaso.
ps as mos nas teclas, no quis saber de mais nada. E sua "carreira", do modo como foi to generosamente planejada para ela por seus orgulhosos pais e pelo ardentemente 
ambicioso Fox, nunca significou grande coisa para ela.
Fosse ela pobre, talvez o reconhecimento fosse indispensvel para o seu caso de amor com o piano, pois lhe proporcionaria a necessria fuga das tediosas armadilhas 
e rotinas domsticas. Mas pobre ela nunca foi. E, do fundo do corao, tanto se lhe d se as pessoas ouvem a sua msica ou no.
Basta ela ouvi-la e saber que no est incomodando os outros.
No velho hotel, cheio principalmente de quartos alugados ao dia, com apenas um punhado de inquilinos suficientemente ricos para l residirem ano aps ano, como fazia 
a famlia de Sybelle, ela pode tocar para sempre sem perturbar ningum.
E depois da trgica morte de seus pais, depois que perdeu as duas nicas testemunhas que tinham intimidade com seu desenvolvimento, ela simplesmente no pde mais 
cooperar com os planos de Fox para sua carreira.
Bem, tudo isso eu entendi, quase desde o incio. Entendi em sua incessante repetio da Sonata n 23, e acho que se voc a ouvisse tambm entenderia. Quero que a 
oua.
Entenda, Sybelle no se perturbar se outras pessoas se reunirem para ouvila. Ela no se incomodar se for gravada. Se outras pessoas gostam de ouvi-la tocar e lhe 
dizem isso, ela fica encantada. Mas isso  uma coisa simples com ela. "Ah, ento voc est gostando", ela pensa. "No  linda?" Foi isso o que me disse com os olhos 
e os sorrisos na primeira vez que dela me aproximei.
E, antes de prosseguir-e tenho mais coisas a dizer sobre meus filhos , suponho que deveria fazer essa
pergunta: Como me aproximei dela? Como fui
parar em seu apartamento naquela manh fatdica, quando Dora estava na catedral discursando para o povo sobre o Vu milagroso, e eu, tendo o sangue em minhas veias
entrado em combusto, estava de fato subindo aos cus como um foguete.
No sei. Tenho explicaes sobrenaturais bastante cansativas cuja leitura lembra os compndios escritos por membros da Sociedade para o Estudo dos Fenmenos Medinicos,
ou o roteiro para Mulder e Scully no programa de televiso chamado Arquivo X. Ou uma pasta secreta sobre o caso nos arquivos da ordem dos detetives medinicos chamada
Talamasca.
Claramente, vejo dessa maneira. Tenho as maiores habilidades para fazer feitios, deslocar minha viso e transmitir minha imagem para qualquer distncia e para afetar
tanto a matria que estiver prxima quanto a que no estiver  vista. Naquela viagem matinal rumo s nuvens, de alguma forma, devo ter usado
esse poder. Ele deve ter sido afastado de mim num momento de dor cruciante quando para todos os efeitos eu estava perturbado e completamente inconsciente do que
estava acontecendo comigo. Talvez tenha sido uma ltima recusa desesperada de aceitar a possibilidade da morte ou da situao terrvel, to perto da morte, em que 
eu me encontrava.
Isto , tendo cado no telhado, todo queimado e num sofrimento inefvel, devo ter procurado uma fuga mental desesperada, projetando minha imagem e minha fora no 
apartamento de Sybelle por um tempo que foi suficiente para matar seu irmo. Seguramente, os espritos podem exercer sobre a matria uma presso suficiente para 
transform-la. Logo, talvez eu tenha feito exatamente isso -projetado-me na forma de esprito e posto as mos na substncia que era Fox, e matado-o.
Mas eu no acredito realmente nisso tudo. Vou lhe dizer por qu.
Em primeiro lugar, embora Sybelle e Benjamin no sejam especialistas, apesar de todo aquele desprendimento aparente de quem sabe das coisas, no que diz respeito 
 morte e  subseqente anlise da percia, ambos insistiram que o corpo de Fox estava exangue quando livraram-se dele. Apareciam as perfuraes em seu pescoo. 
Em suma, eles acreditam at agora que eu estive l, em forma substancial, e que realmente bebi o sangue de Fox.
Agora, uma imagem projetada no serve, pelo menos at onde eu sei. No, ela no pode devorar o sangue de todo um sistema circulatrio e depois se dissolver, voltando 
 cicatriz da mente de onde veio. No, no  possvel.
Obviamente Sybelle e Benji poderiam estar errados. O que sabem eles sobre sangue e corpos? Mas o fato  que eles deixaram Fox morto ali uns dois dias, ou pelo menos 
foi isso o que disseram, enquanto aguardavam a volta do Dybbuk ou Anjo que iria ajud-los, eles tinham certeza. Eles no notavam essas coisas.
Ah, isso me faz doer o crebro! O fato  que no sei como cheguei ao apartamento deles, nem por qu. No sei o que aconteceu. E sei, como j disse, que, no que diz 
respeito  experincia toda - tudo o que vi e senti na grande catedral de Kiev restaurada, um lugar impossvel -, era to real quanto o que conheci no apartamento
de Sybelle.
H um outro pequeno ponto que, apesar de pequeno,  crucial. Depois que matei Fox, Benji realmente viu meu corpo caindo do cu. Ele me viu, da mesma forma como eu
o vi, dajanela.
H uma possibilidade muito terrvel.  a seguinte: eu ia morrer naquela manh. Isso ia acontecer. Minha ascenso foi impelida por uma imensa vontade e um imenso
amor a Deus, amor esse que no ponho em dvida ao ditar essas palavras agora.
Mas talvez, no instante crucial, minha coragem tenha fraquejado. Meu corpo fraquejou. E procurando um abrigo do sol, algum modo de frustrar o meu
martrio, dei com a situao de Sybelle e seu irmo, e, sentindo a grande necessidade que ela tinha de mim, comecei a cair na direo do telheiro onde a neve e o 
gelo logo me cobriram. Minha visita a Sybll poderia ter sido, segundo essa interpretao, apenas uma iluso passageira, uma poderosa projeo do eu, como j disse, 
um desejo realizado da necessidade dessa menina instvel e vulnervel que estava para ser fatalmente espancada pelo irmo.
Quanto a Fox, matei-o, sem dvida. Mas ele morreu de medo, de parada cardaca, talvez, da presso de minhas mos ilusrias em sua garganta frgil, do poder da telecinesia 
ou sugesto.
Mas como j afirmei, no acredito nisso.
Eu estava l na catedral em Kiev. Quebrei o ovo com os polegares. Vi o pssaro voar.
Sei que minha me estava ao meu lado, sei que meu pai derrubou o clice. Sei porque sei que nenhuma parte minha poderia ter imaginado uma coisa dessas. E sei tambm 
porque as cores que vi ento e a msica que ouvi no eram compostas de coisa alguma que eu j tivesse experimentado.
Agora, eu simplesmente nunca tive sonho algum sobre o qual eu possa dizer isso. Quando rezei a missa na cidade de Vladimir, eu estava num reino feito de ingredientes 
que simplesmente no esto  disposio de minha imaginao.
No quero dizer nada mas sobre esse assunto. E muito doloroso e muito terrvel tentar analisar isso. Eu no quis isso, no conscientemente, e no tive nenhum poder 
consciente sobre o que aconteceu. Simplesmente aconteceu.
Se pudesse, eu esqueceria isso completamente. Estou to extraordinariamente feliz com Sybelle e Benji que certamente quero esquecer tudo isso enquanto eles forem 
vivos. S quero estar com eles, como tenho estado desde a noite que descrevi para voc.
Como v, no me apressei em vir aqui. Tendo voltado s fileiras dos perigosos No Mortos, era muito fcil para mim discernir das mentes errantes dos outros vampiros
que Lestat estava em segurana aqui em sua priso, e de fato estava ditando para voc toda a histria do que aconteceu com ele e o Deus Encarnado e Memnoch, o Diabo.
Foi muito fcil para mim discernir, sem revelar minha presena, que havia um mundo inteiro de vampiros chorando por mim com mais angstia e mais lgrimas do que
eu jamais previra. .
Portanto, certo da segurana de Lestat, desconcertado mas aliviado com o misterioso fato de seu olho roubado lhe ter sido devolvido, eu estava  vontade para ficar
com Sybelle e Benji, e fiz isso.
Com Benji e Sybelle, voltei a estar no mundo de uma forma que eu no estava desde que minha cria, minha nica cria, Daniel Molloy, deixou-me. Meu amor por Daniel
nunca foi inteiramente honesto, foi sempre perversamente
possessivo e muito misturado com meu dio do mundo como um todo, e minha confuso em face dos tempos modernos desconcertantes que comearam a se abrir para mim quando 
emergi no final do sculo XVIII das catacumbas nos subterrneos de Paris.
O prprio Daniel no precisava do mundo, e viera para mim com fome de nosso Sangue Negro, impressionado com histrias grotescas que Louis de Pointe du Lac lhe contara. 
Cumulando-o de luxos, eu s o enjoava com doces mortais de modo que ele acabou dando as costas para as riquezas que eu lhe oferecia e tornando-se um vagabundo. Louco, 
perambulando todo andrajoso pelas ruas, ele quase morreu de tanto que se isolou do mundo, e eu, fraco, confuso, atormentado por sua beleza, e desejando o homem vivo 
e no o vampiro que ele poderia se tornar, s o trouxe para ns atravs do Truque Negro porque do contrrio ele teria morrido.
No fui nenhum Marius para ele depois. Aconteceu tudo muito exatamente como supus: no fundo, ele me abominava por t-lo iniciado na Morte Viva, por t-lo transformado 
numa noite em imortal e num completo assassino.
Como homem mortal, ele no tinha idia real do preo que pagamos pelo que somos nem queria saber da verdade; ele fugia da verdade em sonhos agitados e perambulaes 
rancorosas.
E assim foi como eu temia. Criando-o para ser meu par, criei um amante que me via ainda mais claramente como um monstro.
No havia inocncia para ns, no havia primavera. No havia a menor chance, por mais lindos que fossem os jardins por onde perambulvamos ao crepsculo. Nossas 
almas estavam fora de sintonia, nossos desejos, cruzados, e nossos ressentimentos demasiado comuns e bem irrigados para a florao final. Agora  diferente.
Passei dois meses em Nova York com Sybelle e Benji, vivendo como eu jamais havia vivido, desde aquelas longnquas noites com Marius em Veneza. Sybelle  rica, acho 
que j lhe contei, mas s tem uma riqueza trabalhosa e
tediosa, com uma renda que d para pagar seu apartamento exorbitante e as refeies levadas no quarto, com uma margem para roupas finas, ingressos para a sinfonia
e uma eventual orgia de gastos.
Eu sou fabulosamente rico. Ento a primeira coisa que fiz, com prazer, foi cumular Sybelle e Benjamin com todas as riquezas com que outrora eu cumulara Daniel Molloy,
com um resultado muito melhor.
Eles adoraram.
Sybelle, quando no estava tocando piano, no fazia nenhuma objeo a ir comigo e com Benji ao cinema, ou aos concertos e  pera. Ela adorava bal, e adorava levar
Benj i aos melhores restaurantes, onde ele se tornou uma maravilha constante para os garons com aquela sua vozinha viva e entusiasmada e aquele
jeito cantante de dizer o nome dos pratos, franceses ou italianos, e pedir vinhos datados que eles lhe serviam, sem fazer perguntas, apesar de todas as leis bemintencionadas
que probem servir bebidas alcolicas a crianas.
Eu tambm adorava isso, obviamente, e fiquei encantado ao descobrir que Sybelle tambm de vez em quando achava divertido me vestir, escolher nas prateleiras, apontando 
rapidamente com o dedo, palets, camisas e coisas desse gnero, e selecionar em bandejas de veludo para mim todos os tipos de anis, abotoaduras, correntes e pequenos 
crucifixos de rubi e ouro, prendedores de dinheiro de ouro macio e coisas desse tipo.
Era eu quem fazia esse jogo magistral com Daniel Molloy. Sybelle o faz comigo  sua moda sonhadora, enquanto cuido dos cansativos detalhes do
pagamento das contas.
Eu, por minha vez, tenho o prazer supremo de carregar Benji para baixo e para cima como um boneco, e fazer com que ele use todas as roupas e jias ocidentais da 
melhor qualidade que compro, pelo menos de vez em quando, durante uma ou duas horas.
Formamos um trio impressionante, ns trsjantando no Lutce ou no Sparks (claro que eu no como) - Benji com seu imaculado camisolo do deserto, ou com um terninho 
bem cortadssimo de lapelas estreitas, camisa branca e gravata; eu com meu altamente aceitvel veludo antigo e gargantilha de renda antiga puda; e Sybelle com vestidos 
lindos sempre atransbordarde seu armrio, roupas compradas para ela pela me e por Fox, modelando o busto farto e a cintura fina e sempre com uma roda mgica em 
volta de suas pernas compridas, um comprimento que revela a esplndida curva e a rigidez de sua panturrilha quando ela enfia os ps calados com meias escuras em 
sapatos de salto agulha. Os cachos aparados de Benji so sempre aquele halo bizantino para seu rostinho enigmtico, ela usa o cabelo solto, e eu uso de novo aquelas 
longas melenas revoltas que costumavam ser minha vaidade secreta no Renascimento.
Meu maior prazer com Benji  educao. Desde o incio, comeamos a ter poderosas conversas sobre histria e sobre o mundo e nos vimos deitados no tapete do apartamento,
olhando mapas, enquanto discutamos todo o progresso do Ocidente e do Oriente e a inevitvel influncia do clima, da cultura e da geografia sobre a histria da humanidade.
Benji tagarela o tempo todo durante os noticirios da televiso, chamando cada ncora pelo nome na maior intimidade, dando murros de raiva por causa dos atos dos
lderes mundiais e chorando por causa da morte de grandes princesas e benfeitores da humanidade. Benji pode assistir s notcias, falar sem parar, comer pipoca,
fumar e cantar intermitentemente enquanto Sybelle toca piano, sempre no tom-tudo mais ou menos ao mesmo tempo.
Se comeo a olhar a chuva cair como se eu tivesse visto um fantasma,  Benj i quem bate no meu brao e diz:
- O que vamos fazer, Armand? Temos trs filmes maravilhosos para ver hoje. Estou aborrecido, estou lhe dizendo, aborrecido, porque se formos ao cinema, vamos perder 
o Pavarotti no Met e vou ficar injuriado.
Muitas vezes ns dois vestimos Sybelle, que olha para ns como se no soubesse o que estamos fazendo. Sempre ficamos conversando com ela no banheiro enquanto ela 
toma banho, porque, do contrrio, ela pode acabar dormindo na banheira, ou simplesmente passar horas l dentro lavando seus belos seios.
s vezes, a nica coisa que ela diz a noite inteira so frases como: "Benji, amarre os sapatos", ou "Armand, ele roubou a prataria. Mande-o devolver", ou subitamente 
espantada: "Est quente, no?"
Jamais contei a ningum a minha histria como estou contando aqui para voc, mas, conversando com Benj i, vi que estava lhe contando muitas coisas que Marius me 
contou - sobre a natureza humana e a histria do direito, sobre pintura e at sobre msica.
Foi nessas conversas, mais do que em qualquer outra coisa, que vim perceber nesses ltimos dois meses que eu era um ser transformado.
Perdi um certo asfixiante terror sinistro. No vejo a histria como um panorama de desastres, como acho que via antes; e muitas vezes me pego lembrando das previses 
generosas e lindamente otimistas de Marius - de que o mundo est sempre melhorando; que a guerra, apesar de toda a tenso que vemos em volta de ns, saiu de modajunto 
aos que detm o poder, e logoj no estar mais nas arenas do Terceiro Mundo comoj no est nas do Ocidente; e realmente daremos comida aos que tm fome e abrigo 
aos que no tm teto e cuidaremos dos que precisam de amor.
Com Sybelle, educao e discusso no so a substncia de nosso amor. Com Sybelle  intimidade. No me importo que ela nunca diga nada. No entro na mente dela. 
Ela no quer que ningum faa isso.
To completamente quanto ela me aceita e aceita a minha natureza, eu a aceito e aceito sua obsesso pelaAppassionata. Hora aps hora, noite aps noite, ouo Sybelle
tocar, e cada vez que ela comea, percebo as mnimas mudanas de intensidade e expresso que jorram de sua interpretao. Aos poucos, por causa disso, tornei-me
o nico ouvinte de quem Sybelle j teve conscincia.
Aos poucos, tornei-me parte da msica de Sybelle. Estou l com ela e as frases e movimentos da Appassionata. Estou l e sou uma pessoa que jamais pediu nada a Sybelle
seno que ela faa o que tem vontade de fazer e o que sabe fazer com tanta perfeio.
Isso  tudo o que Sybelle precisa fazer para mim -  o que ela far.
 Na hora em que ela quiser subir em "riqueza e aos olhos dos homens", abrirei        " o caminho para
ela. Na hora em que ela desejar ficar sozinha, ela no me ver         nem me ouvir.         E, na hora em que ela amar um mortal ou uma mortal, farei o que ela 
desejar que eu faa. Posso viver nas sombras. Idolatrando-a, posso viver para sempre na sombra porque no h sombra quando estou perto dela.                ;    
Sybelle 
muitas vezes me acompanha quando vou caar. Ela gosta de me ver matar e me alimentar. Acho que nunca permiti que um mortal fizesse isso. Ela tenta ajudar-me a dar 
cabo dos despojos ou confundir as provas da causa da morte, mas sou muito forte e rpido e eficiente nisso, portanto, em geral, ela  a testemunha.         Procuro 
evitar levar Benji nessas aventuras porque ele fica excitadssimo, e isso no lhe faz bem. Quanto a Sybelle, isso simplesmente no a afeta nada.         H outras 
coisas que eu poderia lhe contar-como lidamos com os detalhes do desaparecimento do irmo dela, como transferi imensas somas de dinheiro para o nome dela e abri 
para Benji fundos em fideicomisso adequados e invio- lveis, como comprei para ela uma participao substancial no hotel onde ela mora e coloquei em seu apartamento, 
que  enorme para um apartamento de hotel, vrios outros bons pianos que ela aproveita, e como reservei para mim, a uma distncia segura do apartamento, um esconderijo 
com um caixo que  impossvel de encontrar, inexpugnvel e indestrutvel, e aonde vou de vez em quando, embora esteja mais acostumado a dormir no quartinho que 
eles me deram de incio, cuja nicajanela para o poo de ventilao foi bem tapada por cortinas de veludo.         Mas ao inferno com isso tudo!         Voc sabe 
o que quero que voc saiba.         O que nos resta seno trazer isso  baila, terminar alegremente nessa noite em que cheguei aqui, entrando no covil dos vampiros 
com meu irmo e minha irm, um de cada lado para ver Lestat afinal.
-- 24 --
Isso tudo  um pouco simples demais, no? Estou falando de minha transformao da criana zelosa em p na porta da catedral no monstro feliz que, numa noite de primavera 
na cidade de Nova York, resolveu que estava na hora de ir para o sul procurar seu velho amigo.
Voc sabe por que vim aqui.
Deixe-me comear com o incio dessa noite. Voc estava l na capela quando cheguei.
Voc me cumprimentou com indisfarado prazer, contentssimo de me ver vivo e inteiro. Louis quase chorou.
Aqueles outros, aqueles jovens maltrapilhos que estavam ali juntos, dois meninos, acho eu, e uma menina, no sei quem eram, e continuo sem saber, s que depois eles 
foram embora.
Fiquei horrorizado de v-lo desprotegido, deitado no cho, e sua me, Gabrielle, num canto, s olhando para ele, friamente, do jeito que ela olha para tudo e para 
todos, como se nunca tivesse conhecido um sentimento humano pelo que era.
Fiquei horrorizado com o fato de os jovens vagabundos estarem por ali, e imediatamente me veio um sentimento protetor por Sybelle e Benj i. Eu no tinha medo que 
eles vissem os clssicos entre ns, as lendas, os guerreiros - voc, amado Louis, at Gabrielle, e certamente no Pandora ou Marius, que estavam todos ali.
Mas eu no queria que meus filhos olhassem para um lixo comum infundido com seu sangue, e me perguntava, de maneira arrogante e ftil talvez, como sempre me pergunto 
em momentos assim, como esses vampiros moleques, imaturos e palermas existiram. Quem os criou e por qu e quando?
Nessas horas, o velho e feroz Filho da Escurido acorda em mim, o chefe da assemblia nos subterrneos do cemitrio de Paris que decretou onde e quando o Dom Negro 
deveria ser dado e, sobretudo, a quem. Mas esse velho hbito de autoridade  fraudulento e um estorvo na melhor das hipteses.
Eu odiava esses desocupados porque eles ficavam olhando para Lestat como se ele fosse uma curiosidade de carnaval, e eu no aceitava isso. De repente senti uma irritao, 
uma necessidade de destruir.
Mas no h regras entre ns que autorizem essas aes precipitadas. E quem era eu para fazer um motim aqui debaixo do seu teto? Eu no sabia que voc morava aqui 
ento, no, mas certamente voc tinha custdia do Mestre da Casa, e permitiu isso, e reparei que os malfeitores e os outros trs ou quatro deles que chegaram logo 
depois e ousaram rode-lo no se aproximaram muito.
Obviamente todos estavam na maior curiosidade a respeito de Sybelle e Benjamin. Eu lhes disse calmamente para ficarem bem atrs de mim e no se afastarem. Sybelle 
no conseguia tirar da cabea que o piano estava ali to pertinho e teria um som totalmente novo para sua sonata. Quanto a Benji, ele ia caminhando como um pequeno 
samurai a inspecionar monstros por todo lado, com seus olhos parecendo pires embora sua boca estivesse muito contrada e sria e orgulhosa.
A capela me impressionou pela beleza. Como no impressionaria? As paredes so brancas e puras. E o teto  suavemente abobadado, como nas igrejas mais antigas, e 
h uma concha profundamente cncava onde antes ficava o altar, que d uma boa acstica, de modo que, ali, um passo ecoa suavemente por toda a igreja. Eu tinha visto 
o vitral feericamente iluminado da rua. Apesar de no figurativo, era lindo com suas cores vivas, seus azuis, vermelhos e amarelos, e seus desenhos simples de volutas. 
Gostei das inscries antigas em preto dos mortais h muito desaparecidos em cuja memria cadajanela havia sido erguida. Gostei das antigas esttuas de gesso espalhadas 
por ali, as quais eu o ajudara a tirar do apartamento de Nova York e mandar para o sul.
Eu no olhara muito para elas; eu havia me escondido de seus olhos de vidro como se eles fossem basiliscos. Mas certamente olhei para elas agora. L estava a doce 
e sofredora Santa Rita com seu hbito preto e sua touca branca, com aquela terrvel e medonha chaga como um terceiro olho na testa. L estava a encantadora Thrse 
de Lisieux, a pequena flor de Jesus, com seu crucifixo e seu ramo de rosas cor-de-rosa nos braos.
L estava Santa Teresa de vila, entalhada em madeira e finamente pintada, com os olhos voltados para cima, a mstica, e empunhando a pena que a marcava como uma
Doutora da Igreja. L estava So Lus de Frana com sua coroa real; So Francisco, naturalmente, com o humilde hbito marrom de monge e seus animais domados; e alguns
outros cujos nomes envergonho-me de dizer que no sabia.
O que me impressionou talvez at mais do que essas esttuas, espalhadas como muitos guardies de uma histria antiga e sagrada, foram as pinturas na parede que marcavam
o caminho de Cristo para o Calvrio: as Estaes da Cruz.
Elas haviam sido colocadas ali na ordem correta, talvez at antes de termos chegado ao mundo deste lugar.
Adivinhei que elas eram pintadas a leo sobre cobre, e eram em estilo renascentista, certamente uma imitao, mas um estilo que eu achava normal e que me agradava.
Imediatamente, o medo que pairava dentro de mim durante todas as minhas semanas felizes em Nova York apareceu. No, no era tanto medo quanto pavor. Meu Senhor, 
murmurei. Virei-me e olhei para o Rosto de Cristo no Crucifixo pendurado acima da cabea de Lestat.
Esse foi um momento cruciante. Acho que a imagem do Sudrio de Vernica cobriu o que vi ali na madeira entalhada. Sei que cobriu. Eu estava de novo em Nova York 
e Dora nos mostrava o pano.
Vi Seus olhos escuros lindamente sombreados perfeitamente gravados no tecido, como se fosse parte dele mas de modo algum absorvido por ele, e os riscos escuros de 
Suas sobrancelhas e, acima de Seu olhar firme e inaltervel, a marca do sangue que escorreu por causa dos espinhos. Vi Seus lbios entreabertos como se Ele tivesse 
muito o que dizer.
Com um susto, percebi que, l do altar, Gabrielle fixara em mim seus olhos cinzentos glaciais, e tranquei minha mente e digeri a chave. Eu no queria que ela tocasse 
em mim nem em meus pensamentos. E todas as pessoas ali reunidas estavam me irritando.
Ento chegou Louis. Estava felicssimo por eu no ter morrido. Louis tinha algo a dizer. Sabia que eu estava interessado e ele estava aflito com a presena dos outros. 
Conservava aquele seu ar asctico, vestido com roupas pretas surradas lindamente bem cortadas mas incrivelmente empoeiradas e uma camisa to fina e puda que mais 
parecia uma estranha teia de aos do que tecido e renda verdadeira.
-Ns os deixamos entrar porque do contrrio eles ficam circulando como chacais e lobos, e no vo embora. Assim, eles vm, olham e saem. Voc sabe o que eles querem.
Balancei a cabea afirmativamente. No tive coragem de admitir para ele que eu queria exatamente a mesma coisa. Eu nunca parara realmente de pensar sobre isso, por
um momento sequer, por trs do grande ritmo de tudo o que me aconteceu desde que falei com ele naquela ltima noite de minha antiga vida.
Eu queria o sangue dele. Queria beb-lo. Calmamente, disse isso a Louis. - Ele o destruir - murmurou Louis. Subitamente corou apavorado. Olhou interrogativamente
para a gentil Sybelle ali calada a segurar minha mo com fora, e para Benjamin, que o estudava com entusiasmo no olhar vivo. Armand, voc no pode arriscar isso.
Um deles chegou perto demais. Ele destruiu a criatura. O movimento foi rpido, automtico. Mas ele tem um brao
que parece de pedra e deixou s criatura em pedaos l no cho. No se aproxime dele, no tente isso.
- E os ancios, os fortes, eles nunca tentaram?
Pandora ento falou. Esteve nos observando o tempo todo, brincando no escuro. Eu havia esquecido como ela era linda, de uma beleza discreta e muito bsica. Tinha 
o cabelo castanho e comprido penteado para trs, uma sombra atrs do pescoo esguio, e estava linda e brilhosa, porque untara o rosto com um leo escuro para ficar 
com uma aparncia mais humana. Seus olhos eram atrevidos e apaixonados. Ela me segurou com uma liberdade feminina. Estava feliz de ver que eu estava vivo.
- Voc sabe o que Lestat  - disse ela em tom de splica. - Armand, ele  uma fornalha de poder e ningum sabe o que ele pode fazer.
- Mas voc nunca pensou nisso, Pandora? Ao menos nunca lhe passou pela cabea beber o sangue da garganta dele e procurar a viso de Cristo enquanto estivesse bebendo? 
E se dentro dele houver a prova infalvel de que ele bebeu o sangue de Deus?
- Mas Armand - disse ela. - Cristo nunca foi o meu deus. Isso era to simples, to chocante, to conclusivo.
Ela suspirou, mas s por considerao a mim. Sorriu.
-Eu no reconheceria o seu Cristo se ele estivesse dentro de Lestat-disse ela delicadamente.
- Voc no entende -disse eu. -Alguma coisa aconteceu, alguma coisa aconteceu com ele quando ele foi com esse esprito chamado Memnoch e voltou com aquele Vu. Eu 
vi. Vi o... poder a.
- Voc viu a iluso - disse Louis simptico.
- No, vi o poder - respondi. Ento, num momento, duvidei totalmente de mim. Os longos corredores da histria se enrolaram para trs, e me vi mergulhado na escurido, 
levando uma nica vela, procurando os cones que eu pintara. E a tristeza dessa cena, sua banalidade, sua desesperana esmagaram minha alma.
Percebi que eu assustara Sybelle e Benji. Eles tinham os olhos grudados em mim. Nunca haviam me visto como eu estava agora.
Abracei-os e puxei-os para mim. Euj havia caado naquela noite antes de encontr-los, para estar em plena forma, e sabia que minha pele estava agradavelmente quente.
Beijei os lbios rosados de Sybelle, e depois a cabea de Benj i.
-Armand, voc me irrita, realmente-disse Benji.-Nunca me disse que acreditava nesse Sudrio.
-E voc, homenzinho-disse eu num tom de voz baixo, sem querer fazer uma cena para os outros. -Algum dia voc entrou na catedral para v-lo quando ele estava sendo
exibido l?
- Entrei, e lhe disse o que essa grande dama disse. - Ele deu de ombros, obviamente. - Ele nunca foi o meu deus.
-Olhe para eles, espreitando-disse Louis baixinho. Ele estava macilento e tremendo ligeiramente. Havia negligenciado a prpria fome para ficar aqui de guarda. - 
Eu deveria bot-los para fora agora, Pandora - disse ele com uma voz que no ameaaria nem a mais tmida das almas.
- Deixe que eles vejam o que vieram ver - disse ela friamente com voz abafada. - Eles talvez no tenham muito tempo para gozar essa satisfao. Dificultam o mundo 
para ns e nos desgraam, e nada fazem pelos vivos nem pelos mortos.
Achei isso uma ameaa encantadora. Esperava que ela eliminasse aquele bando todo, mas obviamente sabia que muitos Filhos dos Milnios pensavam a mesma coisa daqueles 
como eu. E que criatura impertinente eu era para levar, sem a autorizao de ningum, meus filhos para ver meu amigo ali deitado no cho.
- Esses dois esto em segurana conosco - disse Pandora, obviamente lendo meus pensamentos alitos.- Voc percebe que eles esto contentes de vlos, jovens e velhos-disse 
ela fazendo um pequeno gesto para incluir o quarto inteiro. - H alguns que no querem sair das sombras, mas eles sabem sobre voc. No queriam que voc fosse embora.
- No, ningum queria - disse Louis bastante emotivo. - E como um sonho, voc voltou. Ns todos ouvimos insinuaes disso, rumores de que voc havia sido visto em 
Nova York, mais bonito e vigoroso do que nunca. Mas eu precisava v-lo com meus prprios olhos para acreditar.
Balancei a cabea agradecendo essas gentis palavras. Mas estava pensando no Vu. Olhei para o Cristo de madeira na rvore novamente e para a figura adormecida de 
Lestat.
Foi a que Marius chegou. Ele tremia.
- Sem queimaduras, inteiro - murmurou. - Meu flho.
Ele estava com aquela velha e maltratada capa cinzenta nos ombros, mas no reparei na hora. Abraou-me imediatamente, o que obrigou minha menina e meu menino a se
afastarem. Porm no se afastaram muito. Acho que se tranqilizaram ao me ver abra-lo e lhe dar vrios beijos no rosto e na boca, como era nosso hbito antigamente.
Ele era to esplndido, to delicadamente cheio de amor.
-Manterei estes mortais em segurana se voc estiver decidido a tentardisse ele: Ele lera toda a fala em meu corao. Sabia que eu fatalmente faria isso. - O que
posso dizer para impedi-lo? - perguntou.
Eu apenas abanei a cabea. dio e expectativa no me permitiriam fazer mais nada. Entreguei Benji e Sybelle aos seus cuidados.
Fui at Lestat, chegando pela frente, isto , por sua esquerda, j que ele estava  minha direita. Ajoelhei rapidamente, surpreso com o frio do mrmore,
esquecendo, suponho, como  mido aqui em Nova Orleans e como a friagem pode ser furtiva.
Ajoelhei com as mos no cho e olhei para ele. Ele estava plcido, imvel, ambos os olhos azuis igualmente claros, como se um delesjamais houvesse sido arrancado 
de seu rosto. Olhava atravs de mim, como se diz, com um olhar parado, sado de uma mente que parecia to vazia quanto uma crislida morta.
Seu cabelo estava emaranhado e todo empoeirado. Nem sequer aquela sua me fria e detestvel o penteara, supus, e isso me enfureceu, mas a, num lampejo de emoo 
gelada, ela sibilou:
- Ele no deixa ningum tocar nele, Armand. - Sua voz distante ecoou profundamente na capela. - Se tentar, logo descobrir por voc mesmo. Olhei para ela. Ela abraava 
displicentemente as pernas, encostada na
parede. Usava o conjunto cqui grosso e batido, as calasjustas e o palet safri britnico pelos quaisj era mais ou menos famosa manchados de suas aventuras na 
selva, o cabelo louro to amarelo e brilhante como o dele, numa trana que lhe caa s costas.
Ela se levantou, de repente, e veio em minha direo, batendo no cho as botas de couro simples, com passos duros que ecoaram desrespeitosamente pela capela.
- O que o faz pensar que os espritos que ele viu so deuses? - perguntou ela. - O que o faz pensar que as travessuras de qualquer um desses seres arrogantes que 
brincam conosco no passam de excentricidades, e que no somos mais do que animais, do mais baixo at o mais alto sobre a face da Terra? - Ela estava a poucos passos 
dele. Cruzou os braos. - Ele tentou alguma coisa. Aquela entidade no podia resistir a ele. E qual foi o resultado? Diga-me. Voc devia saber.
- Eu no sei -disse eu num tom de voz baixo. -Eu gostaria que voc me deixasse em paz.
-Ah, , bem, deixe-me lhe dizer qual foi o resultado. Umajovem, de nome Dora, uma lder de almas, como chamam, que proclamava as conseqncias positivas da assistncia 
dada aos fracos necessitados, foi desencaminhada! O resultado foi esse: suas pregaes, baseadas na caridade e cantadas num outro tom para que as pessoas pudessem
ouvi-las, foram obliteradas pelo rosto sanguinolento de um deus sanguinolento.
Meus olhos se encheram de lgrimas. Odiei que ela visse isso com tanta clareza, mas no podia lhe responder e no podia faz-la calar-se. Levantei-me. -- Eles se
bandearam para as catedrais - disse ela com desprezo -, todos,
e de volta a uma teologia arcaica, ridcula e absolutamente intil que obviamente voc parece ter esquecido.
- Sei muito bem disso - eu disse baixinho. - Voc me deixa infeliz. O que estou fazendo com voc? Estou me ajoelhando ao lado dele, s isso.
- Ah, mas voc pretende fazer mais, e suas lgrimas me ofendem disse ela.
Ouvi algum atrs de mim falar alto com ela. Achei que talvez fosse Pandora, mas no tinha certeza. Num lampejo sbito e evanescente, tive conscincia de todos aqueles 
que se divertiram com meu sofrimento, mas nem liguei.
-O que espera, Armand?-perguntou ela esperta e implacavelmente. Seu rosto estreito e oval era parecidssimo com o dele e, no entanto, nada parecido. Ele nunca estivera 
to desligado dos sentimentos, to abstrato em sua raiva quanto ela agora. - Voc acha que ver o que ele viu, ou que o Sangue de Cristo ainda estar l para voc 
saborear com sua lngua? Deverei citar o catecismo para voc?
- No h necessidade, Gabrielle - disse eu de novo num tom manso. As lgrimas estavam me cegando.
- O po e o vinho so o Corpo e o Sangue desde que permaneam isso, Armand; mas quandoj no so mais po e vinho, ento no so mais Corpo e Sangue. Ento o que 
acha do Sangue de Cristo nele, que de certa forma conservou o poder mgico, apesar da mquina de seu corao que devora o sangue de mortais como se fosse simplesmente 
o ar que ele respirasse?
No respondi. Pensei com meus botes. No era o po e o vinho; era Seu Sangue, Seu Sangue Sagrado e ele o deu no caminho do Calvrio, e para este ser que jaz aqui.
Engoli em seco minha dor e minha fria por ela ter me obrigado a me envolver nesses termos. Eu queria olhar para meus pobres Sybelle e Benj i, pois o cheiro deles 
me dizia que eles ainda estavam ali. Por que Marius no os levou embora! Ah, mas isso era bastante bvio. Marius queria ver o que eu pretendia fazer.
- No me diga - disse Gabrielle engolindo as slabas - que se trata de uma questo de f. - Ela riu com escrnio e abanou a cabea. - Voc vem como So Tom botar 
essas suas presas sanguinolentas na ferida.
-Ah, pare, eu lhe suplico-murmurei. Ergui as mos.-Deixe-me tentar, e deixe-o ferir-me, ento sinta-se satisfeita e v embora.
O que eu quis dizer foi apenas aquilo, e no senti nenhum poder nisso, s humildade e imensa tristeza.
Mas ela ficou muito abalada, e pela primeira vez seu semblante ficou total e absolutamente triste, e seus olhos tambm ficaram midos e vermelhos, e seus lbios
at se contraram quando ela olhou para mim.
- Pobre criana perdida, Armand - disse ela. - Sinto muito por voc. Eu estava to contente por voc ter sobrevivido ao sol.
- Ento quer dizer que posso perdo-la, Gabrielle- eu disse -, por todas as crueldades que voc me disse.
Ela ergueu as sobrancelhas pensativamente, e em seguida balanou a cabea lentamente em sinal de assentimento. Depois, erguendo as mos, recuou em silncio e assumiu 
a antiga posio, sentando no degrau do altar, a cabea encostada na mesa de Comunho. Encolheu os joelhos como antes, e apenas ficou me olhando, o rosto na sombra.
Esperei. Ela estava imvel e calada, e nenhum barulho vinha dos ocupantes esparsos da capela. Eu podia ouvir o pulsar do corao de Sybelle e a respirao aflita 
de Benji, mas eles estavam a muitos metros de mim.
Olhei para Lestat, que estava igual, o cabelo cado como antes, um pouco sobre o olho esquerdo. Seu brao direito estava para fora, e seus dedos, dobrados para cima, 
e dele no vinha o menor movimento, nem mesmo um alente dA seus pulmes ou um suspiro de seus poros.
Ajoelhei ao seu lado. Estiquei o brao e, sem hesitar, afastei-lhe o cabelo do rosto.
Deu para sentir o choque na capela. Ouvi os suspiros, as exclamaes dos outros. Mas Lestat mesmo no se mexeu.
Lentamente, alisei seu cabelo com mais ternura, e vi para meu prprio espanto mudo uma de minhas lgrimas cair bem no rosto dele.
Era vermelha porm rala e transparente, e parecia dissolver-se enquanto escorria pela curva de sua ma do rosto, para dentro da depresso natural abaixo. Fui chegando 
mais perto de mansinho, encarando-o, a mo ainda em seu
cabelo. Deitei-me de bruos ao seu lado, pousando o rosto em seu brao esticado. Mais uma vez ouviram-se as expresses de surpresa, e tentei conservar o corao 
absolutamente livre de orgulho e de qualquer coisa que no fosse amor.
No era um amor diferenciado nem definido, mas apenas amor, o amor que eu poderia sentir por algum que eu matasse ou socorresse, ou que passasse na rua, ou que 
eu conhecesse e valorizasse tanto quanto ele.
Todo o fardo de suas tristezas me pareciam inimaginveis, e, em minha mente, essa noo se expandiu para incluir a tragdia de todos ns, aqueles que matam para
viver e vicejam na morte como a prpria terra decreta, e so amaldioados com uma conscincia para saber disso, e conhecem as menores etapas da lenta agonia e da
morte de todas as coisas que nos alimentam. Tristeza. Tristeza muito maior que a culpa, e muito mais pronta para ser contabilizada, tristeza grande demais para o
mundo.
Ergui-me. Apoiei-me no cotovelo e afaguei delicadamente seu pescoo com a ponta dos dedos da mo direita. Lentamente, pressionei a boca contra sua pele esbranquiada
e aveludada e senti seu velho e inconfundvel sabor e cheiro idem, algo doce e indefinvel e absolutamente pessoal, algo composto de todos os seus
dons fsicos e aqueles que lhe foram dados depois, e furei sua pele com meus caninos afiados para provar seu sangue.
A, para mim no existia capela, no existiam suspiros indignados nem gritos reverentes. No ouvi nada, porm sabia o que estava se passando em volta. Eu sabia como 
se aquele lugar conereto fosse apenas um fantasma, pois o que era real era o sangue dele.
Era grosso como mel, de sabor intenso e forte, um xarope para os anjos. Bebi-o gemendo, sentindo seu calor extremo, to diferente de qualquer sangue humano. Com 
cada lenta batida de seu corao poderoso veio mais uma pequena onda de sangue, at que minha boca ficou cheia e minha garganta engoliu sem minha ordem, e o barulho 
de seu corao foi aumentando cada vez mais, e um reflexo avermelhado encheu minha viso, e atravs desse reflexo vi um grande rodamoinho de poeira.
Um rumor tristssimo foi surgindo lentamente do nada, misturado com uma areia cida que machucou meus olhos. Era um local deserto, sim, e cheio de coisas malcheirosas 
e comuns, de suor e imundcie e morte. O rumor eram vozes gritando e ecoando nas paredes apertadas e encardidas. Vozes superpostas, insultos e zombarias e gritos 
de horror, e rspidas cadncias de cochichos torpes e indiferentes sobressaindo aos mais pungentes e terrveis gritos de indignao e alarme.
Fui pressionado contra os corpos suados, lutando, o sol baixo queimando meu brao estendido. Entendi aquele rumor  m inha volta, a I ngua antiga gritada e gemida 
em meus ouvidos enquanto eu lutava para chegar cada vez mais perto da fonte de toda aquela comoo molhada e feia que me atolava e tentava me segurar.
Parecia que eu ia morrer esmagado por essas mulheres veladas e esses homens esfarrapados de pele spera, vestidos com roupas de tecidos grosseiros fiados em casa, 
que me davam cotoveladas e me pisavam os ps. Eu no podia ver o que estava  minha frente. Abri os braos, ensurdecido com os gritos e as gargalhadas perversas, 
e subitamente, como se por uma ordem, a turba se dividiu, e vi a medonha obra-prima.
Ele estava com Seu camisolo branco rasgado e ensangentado, essa mesma Figura cujo Rosto eu havia visto impresso nas fibras do Sudrio. Braos presos porcorrentes 
de ferro irregulares namonstruosa e pesada trave da cruz. Ele curvadoembaixodela, o cabelo escorrido dos dois lados do rosto cheio de cortes e equimoses. O sangue
dos espinhos escorria para Seus olhos abertos e inabalveis.
Ele olhou para mim, bastante assustado, at ligeiramente espantado. Tinha os olhos arregalados como se a multido no O cercasse, e um chicote no tivesse estalado
em Suas costas e depois em Sua cabea baixa. Por baixo de Suas
plpebras em carne viva e sangratido, Ele ftav algo questava alm do cabelo emaranhado de Lestat.
- Senhor! - gritei.
Devo ter tentado alcan-Lo, pois aquelas eram minhas mos, minhas mos brancas e midas que vi! Vi-as lutando para alcanar Seu Rosto.
- Senhor! - tornei a gritar.
E ele me olhou de volta, impassvel, olhos encontrando com os meus, mos pendendo das cadeias de ferro e sangue escorrendo da boca.
De repente um golpe feroz e terrvel me acertou. Lanou-me  frente. Seu Rosto encheu minha viso. Diante de meus olhos estava a medida mesma de tudo o que eu poderia 
ver- Sua pele suja e rachada, o emaranhado mido e escuro de Seus clios, as grandes rbitas brilhantes de Seus olhos escuros.
Aquilo se aproximava cada vez mais, o sangue escorrendo em Suas sobrancelhas grossas e pingando em Suas faces macilentas. Ele abriu a boca e deixou escapar um som. 
No comeo era um suspiro depois virou uma respirao surda que se elevava e ia ficando cada vez mais ruidosa  medida que Seu Rosto ia aumentando, perdendo os prprios 
contornos, e virava a soma de todas as suas cores agitadas, o rumor agora um rudo positivo e ensurdecedor.
Apavorado, gritei. Fui empurrado paratrs. No entanto, enquanto eu via Seu Vulto familiar e o antigo contorno de Seu Rosto com Sua Coroa de Espinhos, o Rosto foi 
fcando cada vez maior e absolutamente indistinto e parecia novamente abaixar-se para mim, e a de repente sufocar todo o meu rosto com Seu peso imenso e total.
Gritei. Eu estava indefeso, leve, sem conseguir respirar.
Gritei como nunca gritei em todos os meus miserveis anos, o grito to alto que abafou o rudo que me enchia os ouvidos, mas a viso continuava pressionando, uma 
grande massa inescapvel em movimento que fora Seu Rosto.
- Oh, Senhor! - gritei com toda a fora de meus pulmes que ardiam. O vento zuniu em meus ouvidos.
Alguma coisa bateu em minha cabea com tanta fora que me rachou o crnio. Ouvi o estalo. Senti o sangue correr.
Abri os olhos. Estava olhando para a frente, cado do outro lado da capela, estateladojunto  parede, pernas  frente, braos pendurados, a cabea em fogo com a
dor da pancada violenta.
Lestat no se mexera. Eu sabia que no.
Ningum precisava me dizer. No foi ele quem me jogara para trs.
Ca de cara no cho, com o brao por baixo da cabea. Eu sabia que estava cercado de ps, que Louis estava ali perto e que at Gabrielle viera, e sabia tambm que
Marius estava levando Sybelle e Benjamin embora.
Eu s conseguia ouvir aquele silncio vibtte a vozinha aguda e mortal de Benjamin.
- Mas o que aconteceu com ele? O que aconteceu? O louro no acertou nele. Eu vi. No aconteceu. Ele no...
Escondendo o rosto, o rosto banhado em lgrimas, cobri a cabea com as mos trmulas, o sorriso amargo oculto, embora meus soluos fossem ouvidos. Chorei e chorei
durante um bom tempo, depois, aos poucos, como eu sabia
que aconteceria, minha cabea comeou a fechar. O sangue ruim aflorou em minha pele fervilhando e ministrou seus prstimos malignos, costurando a carne como um pequeno
raio laser do Inferno.
Algum me deu uma toalha. Nela, senti de leve o cheiro de Louis, mas eu no podia ter certeza. Passou-se muito tempo, talvez uma hora antes que eu finalmente a pegasse 
e limpasse o rosto.
Passou-se mais uma hora, uma hora em silncio com as pessoas saindo de mansinho, antes de eu me virar e sentar encostado na parede. Minha cabeaj no doa, j no 
havia ferimento, o sangue seco no local logo desapareceria.
Fitei-o calmamente durante um bom tempo.
Eu estava com frio, sozinho e sensvel. Nenhum murmrio penetrava minha audio. Eu no notava os gestos nem os movimentos  minha volta.
Na parte mais reservada de minha mente repassei, bem lentamente, exatamente o que eu havia visto, ouvido - tudo o que lhe disse aqui.
Finalmente levantei-me. Fui at onde ele estava e olhei-o.
Gabrielle me disse algo. Foi uma coisa dura e mesquinha. Na verdade, no ouvi direito. Escutei apenas o som, a cadncia das palavras, isto , como se aquele francs
antigo, que me era to familiar, fosse uma lngua que eu no soubesse.
Ajoelhei-me e beijei os cabelos dele.
Ele no se moveu. No se alterou. Eu no estava nem um pouco com medo de que ele o fizesse, tampouco esperanoso. Beijei-o mais uma vez no rosto ,
levantei-me e limpei as mos na toalha que eu ainda tinha, e sa.
Acho que passei um bom tempo num estado de torpor, e depois alguma coisa me veio  cabea, algo que Dora havia dito h muito tempo, sobre uma criana ter morrido
num sto, sobre um fantasminha e sobre roupas velhas.
Agarrando com fora essa lembrana, consegui me dirigir para a escada. Foi l que o encontrei pouco depois. Agora voc sabe, com todas as conseqncias que isso
acarreta, o que vi ou o que no vi.
E assim minha sinfonia est terminada. Deixe-me assin-la com meu nome. Quando voc acabar de copiar, darei minha transcrio a Sybelle. E a Benji talvez. E voc
pode fazer o que quiser com o resto.
-- 25 --
Isto no  um eplogo.  o ltimo ca:tulo de uma histria que julguei j encerrada. Estou escrevendo de prprio punho. O captulo ser breve, poisj no tenho
mais o que contar e preciso manipular com o maior cuidado o esqueleto da histria.
Talvez, mais tarde, as palavras adequadas me venham para aprofundar minha descrio do que aconteceu, mas, por ora, tudo o que posso fazer  registrar.
No deixei o convento depois de assinar o relato que David to fielmente escreveu. Era muito tarde.
Passei a noite falando, e precisei me recolher a uma das cmaras de tijolo secretas do lugar que David me mostrara, um lugar onde Lestatj estivera preso, e l, 
estirado no cho numa escurido absoluta, excitadssimo com tudo o que contara a David e mais exausto do que nunca, adormeci com o nascer do sol.
Ao pr-do-sol, levantei-me, estiquei minhas roupas e voltei  capela. Ajoelhei e dei um beijo com todo o afeto em Lestat, como j dera na noite anterior. No vi 
ningum nem sequer soube quem estava l.
Acreditando na palavra de Marius, sa do convento, naquela luz violeta do incio da noite, meus olhos passeando confiantes pelas lores, tentando escutar os acordes 
da sonata de Sybelle para que eles me guiassem  casa certa.
Em segundos, ouvi a msica, as frases distantes porm rpidas do Allegro assai, ou Primeiro Movimento, aquela msica familiar de Sybelle.
Ela estava tocando com uma preciso incomum, de fato, uma nova cadncia lnguida que imprimia  msica uma autoridade rubra e poderosa que imediatamente me agradou.
Portanto eu no enlouquecera minha menininha de susto. Ela estava bem e prosperava, talvez encantada com a umidade modorrenta de Nova Orleans como muitos de ns 
se encantam.
Corri imediatamente para o local, e me vi em p, s um pouco descabelado pelo vento, diante de um enorme sobrado de tijolinhos de trs andares em
Metairie, um bairro com caractersticas rurais da regio metropolitana de Nova         Orleans que na verdade fica muito perto da cidade e s vezes parece milagrosa- 
mente afastado.        ,         Os carvalhos gigantes que Marius descreveu cercavam essa manso ameri- cana recente, e, como ele prometera, todas as portas janelas 
com suas vidraas transparentes estavam abertas para receber a brisa do incio da noite.         A relva alta era macia de pisar, e uma luz esplndida, to preciosa 
para         Marius, derramava-se de cada janela assim como a msica da Appassionata, que agora acabava de entrar com uma graa excepcional no Segundo Movimen- 
to, Andante con motto, que promete ser um segmento calmo da obra mas rapidamente se transforma na mesma loucura do resto.         Detive-me para escutar a msica. 
Eu nunca ouvira as notas to lmpidas e transparentes assim, to rpidas e to intensamente distintas. Tentei por puro p razer adivinhar as diferenas entre essa 
interpretao e tantas outras que euj         ouvira. Eram todas diferentes, mgicas e profundamente comoventes, mas essa era mais que espetacular, graas em parte 
ao imenso corpo do que eu sabia ser um piano de concerto.                 Por um instante, bateu-me uma tristeza, uma lembrana terrvel e absorven- te daquilo 
que eu vira ao beber o sangue de Lestat na noite anterior. Deixei-me        ,.        < reviver essa lembrana, como dizemos to inocentemente e, depois, com um 
                i susto agradvel que me fez corar, vi que no precisava contar aquilo a ningum, que tudo havia sido ditado a David e que quando ele me entregasse 
as minhas cpias eu poderia confi-las a qualquer pessoa que eu amasse, que algum dia quisesse saber o que eu havia visto.         Quanto a mim, eu no tentaria 
imaginar isso. Eu no podia. Tinha um sentimento forte demais de que a pessoa que eu havia visto a caminho do Calvrio, fosse essa pessoa real ou uma criao de 
meu corao culpado, no quis que eu a visse e monstruosamente me mandara embora. Realmente, o sentimento de rejeio era to completo que eu mal podia acreditar 
que conse- guira descrev-lo a David.                 Eu precisava tirar os pensamentos da cabea. Expulsei todas as reverbera- es dessa experincia e deixei-me 
cair novamente na msica de S belle                 , ficando simplesmente ali em p  sombra dos carvalhos, com a eterna brisa do rio, que sempre nos alcana aqui 
onde quer que estejamos, refrescando-me e tranqilizando-me e dando-me a sensao de que havia na terra uma beleza irreprimvel, at para algum como eu.
a msica do Terceiro Movimento atingiu seu clmax mais brilhante, e achei                 . que meu corao fosse explodir.         S ento, enquanto os ltimos compassos 
eram tocados, percebi algo que deveria ter sido bvio desde o incio.
356
O VAMPIRO AR-liAND
No era Sybelle que estava tocando. No podia ser. Eu conhecia cada nuance de suas interpretaes. Conhecia seus modos de expresso; conhecia as qualidades tonais 
que seu toque particular sempre produzia. Embora suas interpretaes fossem infinitamente espontneas, eu conhecia sua msica, como uma pessoa conhece a escrita 
de outra ou o estilo de um pintor. Essa no era Sybelle.
Ento entendi toda a verdade. Era Sybelle, mas Sybellej no era Sybelle. Por um instante, no consegui acreditar. Meu corao parou de bater. Ento entrei na casa 
com um passo regular e furioso, e nada me deteria antes
de descobrir se o que eu achava era verdade.
Logo vi com meus prprios olhos. Numa sala esplndida, eles estavam reunidos, a bela e graciosa figura de Pandora com uma tnica de seda marrom com uma faixa na 
cintura  moda grega, Marius de palet de veludo e calas de seda, e meus filhos, meus lindos filhos, o radioso Benji com aquele seu camisolo branco, danando descalo 
e selvagemente pela sala com as mos espalmadas como se quisesse agarrar o ar e Sybelle, minha deslumbrante Sybelle, os braos de fora, com um vestido de seda cor-de-rosa 
forte, ao piano, o cabelo comprido caindo-lhe nos ombros, acabando de voltar ao Primeiro Movimento. Todos eles vampiros, todos.
Cerrei os dentes com fora e tapei a boca para que meus rugidos no acordassem o mundo. Fiquei rugindo em minhas mos sem foras.
Fiquei gritando aquela slaba desafiadora No, No, No. No conseguia enxergar mais nada, gritar mais nada, fazer mais nada.
Gritei e gritei.
Eu cerrava os dentes com tanta fora que meu maxilar doa e minhas mos tremiam como asas de um pssaro que no quisesse me deixar tapar a boca direito, e de novo
as lgrimas escorreram de meus olhos to abundantemente como quando beijei Lestat.
No, No, No, No!
Ento, de repente abri os braos, cerrando os punhos, e o rugido teria escapado de dentro de mim, teria explodido como uma torrente violenta, mas Marius segurou-me
com fora e puxou-me para ele e apertou meu rosto contra o peito.
Lutei para desvencilhar-me. Chutei-o com toda a fora e esmurrei-o. - Como pde fazer isso! - rugi.
Ele segurou minha cabea sem me dar chance de fugir e ficou me cobrindo de beijos que odiei e detestei, e fiquei agitando desesperadamente os braos para livrar-me
deles.
- Como pde? Como ousa? Como pde?
Afinal consegui ficar numa posio que me permitiu dar-lhe vrios murros na cara.
Mas o que isso me adiantou? Quo fracos e insignificantes eram meus punhos comparados com a fora dele. Quo indefesos e tolos eram meus gestos, e ele ficou ali, 
agentando tudo, o rosto inefavelmente triste, os olhos secos e no entanto cheios de considerao.
- Como pde fazer isso, como pde fazer isso! - perguntei. Eu no iria parar de perguntar.
Mas de repente Sybelle levantou-se do piano e correu para mim de braos abertos. E Benji, que estivera o tempo todo observando, tambm correu para mim, e os dois 
me prenderam delicadamente em seus braos ternos.
- Ah, Armand, no fique zangado, no, no iique triste - disse Sybelle baixinho em meu ouvido. - Ah, meu magnfico Armand, no fique trste, no fique. No fique 
irritado. Estamos com voc para sempre.
-Armand, estamos com voc! Ele fez a mgica-exclamou Benji. -No precisamos nascer de ovos pretos, seu Dybbuk, contar-nos uma histria dessas! Armand, agora no 
morreremos nunca, no adoeceremos nunca, e nunca seremos feridos nem sentiremos medo. - Ele ficou pulando de alegria e deu mais uma pirueta alegre, espantado e rindo 
com seu novo vigor, por poder pular to alto e com tanta graa. - Armand, estamos to felizes.
- Ah, sim, por favor - disse Sybelle com aquela sua voz mais profunda e mais gentil. -Eu o amo tanto, Armand, eu o amo demais. Precisvamos fazer isso. Precisvamos. 
Precisvamos fazer isso para estar com voc eternamente.
Meus dedos rondavam-na, querendo reconfort-la, e ento, quando ela esfregou desesperadamente a testa em meu pescoo, abraando meu peito com fora, no pude toc-la, 
no pude abra-la, no pude tranqiliz-la.
-Armand, eu o amo, eu o adoro, Armand, s vivo para voc, e agora sempre com voc - disse ela.
Balancei a cabea para cima e para baixo. Tentei falar. Ela beijou minhas lgrimas. Comeou a beij-las rpida e desesperadamente.
-Pare, pare de chorar, no chore-ela ficava sussurrando em tom urgente. - Armand, ns o amamos.
-Armand, estamos to felizes! -exclamou Benj i.-Olhe, Armand, olhe! Agora podemos danarjuntos a msica dela. - Ele saltou parajunto de mim e dobrou osjoelhos, preparado
para pular de excitao como se para enfatizar seu ponto. Ento suspirou e tornou a jogar os braos para mim. - Ah, pobre Armand, voc est completamente equivocado
e cheio de sonhos errados. Armand, voc no v?
- Eu a amo - disse eu baixinho no ouvido de Sybelle. Repeti isso, e a minha resistrcia quebrou por completo, e abracei-a delicadamente e, com dedos incontrolveis,
senti sua pele branca e aveludada e a beleza esfuziante de seu cabelo lustroso.
Ainda abraado com ela, murmurei:
- No trema, eu a amo, eu a amo. Segurei Benji com a mo esquerda.
- E voc, tratante, voc pode me contar tudo daqui a pouco. Agora deixeme abra-lo. Deixe-me abra-lo.
Eu estava tremendo. Era eu quem tremia. Eles me abraaram de novo com toda a ternura, procurando aquecer-me.
Finalmente, dando tapinhas nos dois, despedindo-me deles com beijos, sa todo encolhido e desabei exausto numa grande poltrona antiga de veludo. Minha cabea latejava 
e senti as lgrimas querendo voltar, mas as engoli
com toda a fora por causa deles. Eu no tinha escolha.
Sybelle voltara ao piano e recomeara a tocar a sonata. Agora ela cantava as notas monossilabicamente com uma linda voz baixa de soprano, e Benji recomeou a danar, 
rodopiando e saracoteando, batendo com os ps descalos no cho, acompanhando encantadoramente o ritmo de Sybelle.
Inclinei-me  frente na cadeira, segurando a cabea. Queria que meu cabelo casse  frente para me esconder de todos os olhares, mas minha cabeleira, embora volumosa, 
no dava para isso.
Senti uma mo no ombro e fiquei tenso, mas no pude dizer uma palavra, seno comearia a chorar de novo e a praguejar com toda a fora. Fiquei calado. -No espero 
que voc entenda - ele disse com uma voz abafada. Endireitei-me na cadeira. Ele estava a meu lado, sentado no brao da poltrona. Olhou para mim.
Fiz uma expresso agradvel, toda risonha at, e falei com uma voz to aveludada e plcida que ningum poderia achar que eu estivesse falando com ele de qualquer 
coisa que no fosse amor.
- Como pde fazer isso? Por que fez isso? Voc me odeia tanto assim? No minta para mim. No me diga idiotices nas quais voc sabe que no acreditarei nunca. No
minta para mim por causa de Pandora ou deles. Eu os amarei para sempre. Mas no minta. Voc fez isso de vingana, no, Mestre, fez isso de dio?
- Como eu poderia? - perguntou ele com a mesma voz, expressando de amor puro, e parecia a voz genuna do amor falando comigo a partir de seu rosto sincero e splice.
- Se algum dia fiz alguma coisa por amor, foi isso. Fiz isso por amor e por voc. Por todos os erros cometidos contra voc e pela solido que voc sofreu, e pelos
horrores que o mundo o fez enfrentar quando voc erajovem e inexperiente demais para saber combat-los e derrotado demais para se empenhar de todo corao numa batalha.
Fiz isso por voc.
- Ah, voc est mentindo, est mentindo com o corao - disse eu - se no com a lngua. Voc fez isso por despeito, e acaba de me revelar esse fato com a maior clareza.
Fez isso por despeito porque no fui a cria que voc queria fazer
de mim. No fui o rebelde inteligente que podia enfrentar Santino e seu bando de monstros, e, depois desses sculos todos, fui o que tornou a desapont-lo horrivelmente 
porque fui para o sol depois que vi o Sudrio. Por isso voc fez
isso. Fez isso por vingana e por amargura e por desapontamento, e o pior  que  voc mesmo no sabe. Voc no agentou que meu corao tivesse quase estourado 
quando vi o Rosto Dele no Vu. No agentou que essa criana que
voc tirou do bordel de Veneza e alimentou com seu prprio sangue, essa criana . que voc ensinou com seus livros e com sua mo, gritasse para Ele quando viu
o Rosto Dele no Sudrio.
- No, isso est to longe da verdade que me corta o corao. - Ele balanou a cabea. E, sem lgrimas e branco como ele estava, seu rosto era uma perfeita imagem 
de tristeza como se tivesse sido retratada por ele. - F iz isso porque eles o amam como ningumjamais o amou, e eles so livres e tm dentro de seus coraes generosos 
uma profunda sagacidade que no se esquiva de voc nem de tudo o que voc . Fiz isso porque eles foram forjados na mesma forja que eu, com grande capacidade de 
raciocnio e fora para resistir. Fiz isso porque ela no foi vencida pela loucura e ele no foi vencido pela pobreza nem pela ignorncia. Fiz isso porque eles eram 
os seus escolhidos, absolutamente perfei
tos, e eu sabia que voc no faria, e eles acabariam odiando-o por isso, odian- ` do-o, como voc j me odiou por lhe sonegar isso, e, antes de voc ceder, a
alienao e a morte j os teriam levado.
"Eles agora so seus. Nada os separa. E  meu sangue, antigo e poderoso, que os deixa quase transbordando de poder permitindo que possam ser seus companheiros dignos 
e no a plida sombra de sua alma que Louis sempre foi.
"No h barreira de Mestre e Cria entre vocs, e voc pode aprender os segredos do corao deles como eles podem aprender os do seu."
Eu queria acreditar nisso.
Queria tanto que me levantei e o deixei, e, abrindo o mais gentil dos sorrisos para Benjamin e dando-lhe um leve beijo ao passar, retirei-me para o jardim e fiquei
sozinho embaixo de dois carvalhos gigantescos.
Suas razes possantes afloravam no cho formando montes duros e escuros . de madeira nodosa. Descansei os ps nesse lugar acidentado e a cabea na rvore
mais prxima.
Os galhos vinham at embaixo e faziam uma cortina para mim, como eu quisera que os meus cabelos fizessem. Senti-me protegido e seguro nas sombras. Meu corao estava
calmo, mas estava partido e minha mente estava despedaada, e bastava-me olhar pela porta aberta para meus dois anjos vampiros brancos naquela claridade gloriosa
l dentro para recomear a chorar.
Marius ficou um bom tempo numa porta distante. Ele no olhava para mim. E, quando olhei para Pandora, vi-a encolhida como se para se defender de uma
dor terrvel - possivelmente apenas nossa disctsso - em outra grande poltrona de veludo velha.
Finalmente, Marius empertigou-se e veio em minha direo, e acho que precisou de fora de vontade para fazer isso. De repente parecia s um pouquinho irritado e
at arrogante.
No liguei a mnima.
Ele se postou  minha frente mas no disse nada, e parecia que estava ali para enfrentar o que quer que eu tivesse a dizer.
- Por que voc no os deixou ter a vida deles! - cobrei. - Logo voc, o que quer que sentisse por mim e por minhas loucuras, por que no os deixou ter o que a natureza
lhes deu? Por que interferiu?
Ele no respondeu, mas no levei isso em considerao. Baixando o tom para no alarm-los, prossegui.
- Em minhas pocas mais negras - disse eu - eram sempre suas palavras que me davam apoio. Ah, no me refiro aos sculos em que eu estava servindo a um credo pervertido
e a uma iluso mrbida. Refiro-me a bem depois disso, depi que s d p8r8, aeitnd8 8 desft8 d Lestt, e li  u Lestt escrev sobre voc, e depois o ouvi
pessoalmente. Foi voc, Mestre, que me deixou ver o pouco que consegui ver do mundo maravilhoso que se desenrolava ao meu redor de formas que eu no poderia ter
imaginado na terra nem na poca em que nasci.
No consegui me conter. Parei para ganhar flego e para ouvi-la tocar, e, percebendo quo linda era a msica, quo lamentosa e expressiva e misteriosa de uma nova
maneira, quase chorei de novo. Mas no podia permitir que isso acontecesse. Eu tinha muito mais a dizer, ou assim achava.
- Mestre, foi voc quem disse que estvamos vivendo num mundo em que as velhas religies de superstio e violncia estavam morrendo. Foi voc quem disse que vivamos
numa poca em que o mal j no aspirava a nenhum lugar necessrio. Lembre-se, Mestre, voc disse a Lestat que no havia credo nem cdigo capaz dejustificar nossa
existncia, pois os homens agora sabiam o que era o verdadeiro mal, e o verdadeiro mal era a fome, a necessidade, a ignorncia, a guerra e o frio. Voc disse tudo
isso, Mestre, com muito mais elegncia e de modo muito mais completo do que eu jamais poderia dizer, mas foi baseado nesse grande argumento racional que voc defendeu,
voc, com os piores de ns, a santidade e a preciosa glria desse mundo humano e natural. Foi voc quem defendeu a alma humana, dizendo que ela havia se tornado
mais profunda e mais sensvel, que os homensj no viviam para o glamour da guerra mas conheciam as coisas mais refinadas que outrora eram exclusividade dos mais
ricos, e agora eram acessves a todos. Foi voc quem disse que um novo esclarecimento, um esclarecimento da razo e da tica e de compaixo genuna, voltara aps
sculos
negros de religio sangrenta, para espalhar no apenas sua luz mas tambm seu calor.
-Pare Armand, no fale mais nada-disse ele. Ele foi delicado mas muito severo. - Lembro-me dessas palavras. Lembro-me de todas elas. Mas no acredito mais nisso.
Eu estava pasmo. Pasmo com a assombrosa simplicidade de sua renegao. Eu no podia imaginar uma coisa mais completa, e no entanto eu o conhecia suficientemente 
para saber que ele queria dizer exatamente aquilo. Ele me olhou com firmeza.
- Eu j acreditei nisso, sim. Mas, sabe, no era uma convico baseada na razo e na observao da humanidade como tentei achar que era. Nunca foi ,
e acabei percebendo, e a, quando vi exatamente o que era, um preconceito cego, desesperado e irracional, senti de repente que tudo desmoronou com letamente. " p 
Armand, eu disse essas coisas porque precisava acreditar que eram verda
deiras. Elas eram o prprio credo deles, o credo dos racionalistas, dos ateus, dos lgicos, do sofisticado senador romano que precisava fechar os olhos para as realidades 
nauseantes do mundo  sua volta, porque se fosse admitir o que via na infelicidade de seus irmos e irms, enlouqueceria."
Ele inspirou e continuou, voltando as costas para a sala iluminada como que para proteger as crias do calor de suas palavras, certamente como eu queria que ele fizesse.
-Conheo histria, leio histria como outras pessoas lem suas Bblias, e no ficarei satisfeito antes de ter desencavado todas as histrias que tiverem sido escritas 
e forem cognoscveis, e decodificado todas as culturas que tiverem me deixado qualquer evidncia tantalizadora que eu possa extrair da terra ou da pedra ou do papiro 
ou do barro.
"Mas meu otimismo estava errado, eu era ignorante, tanto quanto acusava os outros de serem, e recusava-me a ver os horrores que me cercavam, mais do que nunca neste 
sculo, este sculo racional, mais do que em qualquer poca do mundo.
"Olhe para trs, filho, se quiser, se quiser discutir a questo. Olhe para a dourada Kiev, que voc s conheceu em canes depois que os selvagens mongis incendiaram
suas catedrais e massacraram sua populao como se fosse gado, como fizeram por toda a Kiev Rus durante duzentos anos. Olhe para as crnicas de toda a Europa e veja
as guerras travadas em toda parte, na Terra Santa, nas florestas da Frana ou da Alemanha, por toda a frtil Inglaterra, sim, abenoada Inglaterra, e em cada rinco
asitico do globo."
Ah, por que me enganei durante tanto tempo? No vi aquelas pradarias russas, aquelas cidades incendiadas? Ora, toda a europa poderia ter sido conquistada por Gngis
Khan. Pense nas grandes catedrais inglesas destrudas pelo arrogante rei Henrique.
Pense nos livros dos maias que os padres espanhis lanaram no fogo. Incas, astecas, olmecas - povos e todas as naes pulverizados e esquecidos...
- Isso tudo so horrores em cima de horrores, e sempre foi assim, e no posso fingir mais. Quando vejo milhes mortos em cmaras de gs por causa dos caprichos de 
um austraco louco, quando vejo tribos africanas inteiras massacradas at os rios se coalharem de corpos inchados, quando vejo a fome dizimar pases inteiros numa 
era de abundncia insacivel, no consigo mais acreditar nessas banalidades.
"No sei o que foi que destruiu minha iluso. No sei que horror desmascarou minhas mentiras. Tero sido os milhes que morreram de fome na Ucrnia, presos ali por 
seu prrio ditador, ou os milhares que morreram depois de envenenados pela radiao nuclear despejada nas pastagens, desprotegidos pelos mesmos poderes governamentais 
que j os fizera passar fome? Tero os mosteiros do nobre Nepal, cidadelas de meditao e graa que resistiram milhares de anos, sendo mais velhos at do que eu 
e toda a minha filosofia, sido destrudos por um exrcito de militaristas gananciosos que fizeram uma guerra implacvel contra monges de hbitos cor de aafro, 
e atiraram ao fogo livros de valor inestimvel, e derreteram sinos antigos que j no mais chamavam os fidalgos para a orao? E isso tudo nessas duas ltimas dcadas, 
enquanto as naes ocidentais danavam nas discotecas e se encharcavam de lcool, lamentando perfunctoriamente o destino triste do remoto Dalai Lama, e trocando 
o canal do televisor.
"No sei o que foi. Talvez tenham sido os milhes - chineses, japoneses, cambodjanos, hebreus, ucranianos, poloneses, russos, curdos, ah, meu Deus, a ladainha  
interminvel. Eu no tenho f, no tenho otimismo, no acredito nos modos da razo ou da tica. No o censuro enquanto voc est na escadaria da catedral abrindo 
os braos para seu Deus onisciente e perfeito.
"No sei nada, porque sei demais, e no entendo o bastante nem entenderei. Mas voc me ensinou tanto quanto qualquer um que conheci, que o amor  necessrio, tanto 
quanto a chuva para as flores e para as rvores, e o al imento para a criana faminta, e sangue para esses animais predadores que se alimentam de carnia famintos
e sedentos que ns somos. Precisamos de amor, e o amor pode nos fazer esquecer toda a selvageria, como talvez nada mais possa.
"E por isso tirei-os de seu mundo moderno fabuloso e promissor com suas doenas e suas massas desesperadas. Tirei-os da e dei-lhes a nica fora que possuo, e fiz
isso por voc. Dei-lhes tempo, tempo talvez para encontrar uma resposta que aqueles mortais que vivem atualmente talvez jamais encontrem.
"A histria toda foi essa. E eu sabia que voc iria chorar e sofrer, mas sabia que voc os teria e os amaria quando tudo terminasse, e sabia que voc precisava desesperadamente
deles. Ento, a est voc... aliado agora  serpente e ao leo
e ao lobo, e muito superior ao pior dos homens que atualmente provaram ser monstros colossais, e livre para se alimentar com cuidado num mundo perverso capaz de 
engolir qualquer coisa que eles quiserem podar."
f Um silncio caiu entre ns.
Fiquei pensando bastante, em vez de comear a falar.
Sybelle tinha acabado de tocar, e eu sabia que ela estava preocupada comigo e precisava de mim. Eu sentia isso, sentia a investida forte de sua alma vamprica.
Eu precisaria ir logo para ela.  Mas aproveitei para dizer com calma mais algumas palavras.
- Voc deveria ter confiado neles, Mestre, deveria ter deixado que tivessem
sua oportunidade. Fosse qual fosse a sua idia do mundo, voc deveria ter i , deixado que eles tivessem o tempo deles a. Era o mundo deles e o tempo deles. 
Ele sacudiu a cabea como se estivesse desapontado comigo e um pouco cansado, e, j tendo resolvido essas questes todas h muito na cabea, talvez
, antes at de eu ter aparecido na noite passada, ele parecia disposto a deixar isso
tudo passar.
- Armand, voc  meu filho para sempre - disse ele com grande dignidade. - Tudo o que  mgico e divino em mim  ligado pelo humano e
sempre foi.
; - Voc deveria ter deixado que eles tivessem o tempo deles. Nenhum amor
pela minha pessoa deveria ter assinado a sentena de morte deles, nem a
admisso dos dois ao nosso mundo estranho e inexplicvel. Podemos ser piores . que os humanos em nossas avaliaes, mas voc poderia ter seguido o seu
conselho. Poderia t-los deixado em paz. Isso era suficiente.
Ademais, David aparecera. Ele j tinha uma cpia da transcrio em que havamos trabalhado, mas isso no lhe interessava. Ele se aproximou de ns lentamente, anunciando
sua presena obviamente pra nos dar a chance de nos
calarmos, o que fizemos. Virei-me para ele, sem conseguir me conter.
- Voc sabia que isso aconteceria? Sabia quando aconteceu?
- No, no sabia - disse ele solenemente. . .. - Obrigado - respondi. -Eles precisam de voc, esses seusjovens-disse David. -Marius, pode
ser o criador, mas eles so completamente seus.
- Eu sei - disse eu. - Estou indo. Vou fazer o que preciso fazer. . Marius esticou o brao e me tocou no ombro. De repente vi que ele estava
prestes a se descontrolar.
Quando falou, sua voz estava embargada de sentimento. Ele estava odiando a tempestade dentro dele e arrasado com a minha tristeza. Eu via isso com
bastante clareza. No me dava nenhuma satisfao.
- Voc agora me despreza, e talvez tenha razo. Eu sabia que voc iria chorar, mas de uma forma muito profunda, eu ojulguei mal. No percebi uma coisa sobre voc. 
Talvez nunca tenha percebido.
- O que, Mestre - perguntei com um azedume teatral. , - Voc os amava sem egosmo - murmurou. - Apesar de todas as estranhas falhas e maldades deles, eles no se 
comprometeram por sua causa.
Voc os amou talvez com mais respeito do que eu... do que eu o amei. Ele parecia espantadssimo.
Eu s conseguia balanar a cabea. No tinha muita certeza se ele tinha razo. Minha necessidade deles nunca fora testada, mas eu no queria lhe dizer isso. - Armand 
- disse ele. - Voc sabe que pode ficar aqui o tempo que desejar.
- timo, porque talvez eu fique - disse eu. - Eles gostam, e eu estou cansado. Ento muito obrigado por isso.
- Mas uma outra coisa - prosseguiu ele -, e estou dizendo isso de todo
o corao.
- O que , Mestre? - perguntei.
David estava por perto, o que me deixou feliz, pois sua presena parecia reprimir minhas lgrimas.
-Honestamente no sei a resposta para isso, e humildemente lhe pergunto -disse Marius. -Quando viu o Vu, o que voc realmente viu? Ah, no estou perguntando se 
foi Cristo, ou Deus, ou um milagre. Estou perguntando isso. Havia o rosto de um ser, banhado de sangue, que originou uma religio culpada de mais guerras e mais 
crueldade que qualquer outro credo que o mundo j conheceu. No se zangue comigo, por favor, apenas me explique. O que voc viu? Foi apenas uma lembrana magnfica 
dos cones que voc pintava? Ou foi realmente algo banhado de amor e no de sangue? Diga-me. Se era amor e no sangue, eu honestamente gostaria de saber.
- Voc est fazendo uma pergunta simples e antiga - disse eu -, e pelo que sei voc no sabe realmente de nada. Voc quer saber como ele poderia ter sido o meu Senhor,
dado esse mundo ser como voc descreve, e com o conhecimento que voc tem dos Evangelhos e dos testamentos escritos em nome Dele. Quer saber como pude acreditar
nisso tudo porque voc no acredita, no ?
Ele concordou com um gesto de cabea.
-, quero mesmo. Porque eu o conheo. E eu sei que f  algo que simplesmente voc no tem.
Fiquei espantado. Mas imediatamente vi que ele estava certo.
Sorri. Senti de repente uma espcie de felicidade trgica e eletrizante.
- Bem, entendo o que voc quer dizer- disse eu. - E vou lhe responder. Eu vi Cristo. Uma espcie de luz sanguinolenta. Uma personalidade, um 
humano, uma presena que pensei conhecer. E Ele no era o Senhor Deus Pai TodoPoderoso nem era o criador do universo e do mundo inteiro. E no era o Salvador nem o
Redentor de pecados inscritos em minha alma antes que eu nascesse. No era a Segunda Pessoa da Santssima Trindade nem o Telogo expondo Seus ensinamentos na Montanha 
Sagrada. Ele no era essas coisas para mim. Talvez fosse para outros mas no para mim.
- Mas quem era Ele, ento, Armand? - perguntou David. - Tenho aqui a sua histria, repleta de maravilhas e sofrimento, e no entanto no sei. Qual era o conceito 
de Senhor quando voc disse a palavra?
-Senhor-repeti. -Isso no signifca o cue voc pensa.  uma palavra falada com intimidade demais e carinho demais. E como um segredo e um nome sagrado. Senhor. - 
Fiz uma pausa e prossegui: - Ele  o Senhor, sim, mas s porque  o smbolo de algo infinitamente mais acessvel, algo muito mais significativo do que um governante 
ou um rei ou um senhor poder ser algum dia.
De novo, ele hesitou, querendo encontrar as palavras certasj que elas eram to sinceras.
-Ele era... meu irmo-disse eu.-Sim. Era isso que Ele era, meu irmo, e o smbolo de todos os irmos, e  por isso que Ele era o Senhor, e  por isso que o cerne 
Dele  simplesmente amor. Voc est rindo. V com ironia o que digo. Mas no capta a complexidade do que Ele era.  fcil sentir, talvez, mas no  to fcil ver 
realmente. Ele era um homem como eu. E talvez para muitos de ns, milhes e milhes, isso seja tudo o que Ele fi! Somos todos filhos e filhas de algum e Ele era 
filho de algum. Ele era humano, fosse Ele Deus ou no, e estava sofrendo e fazendo isso por coisas que Ele achava pura e universalmente boas. E isso significava 
que o sangue Dele poderia muito bem ser o meu sangue tambm. Ora, tinha de ser. E talvez seja essa a verdadeira fonte de toda a Sua magni icncia para pensadores 
como eu. Voc disse que eu no tinha f. No tenho. No em ttulos nem em lendas ou hierarquias feitas por outros seres como ns. Ele no fez uma hierarquia, no 
verdadeiramente. Ele era a prpria hierarguia. Vi Nele magnificncia por razes simples. Iavia carne e sangue no que Ele era! E isso poderia ser po e vinho para
alimentar a terra toda. Voc no entende. No pode. Muitas mentiras a respeito Dele pairam em seu conhecimento. Vi-O antes de ouvir muita coisa sobre Ele. Vi-O quando
olhava para os cones em m inha casa, e quando pintei-O muito antes de saber todos os nomes Dele. No consigo tir-Lo da cabea. Nunca consegui. Nunca conseguirei.
Eu no tinha mais nada a dizer.
Eles estavam muito espantados mas sem particularmente acatar, ponderando as palavras de todas as maneiras erradas, talvez, eu no podia saber absolutamente. De qualquer
maneira, no importava o que eles sentiam. No era realmente muito bom que eles tivessem me perguntado ou que eu tivesse tentado
contar a minha verdade. Vi o velho cone em minha mente, o que minha me ; trouxera na neve. Encarnao. Impossvel explicar a filosofia deles. Eu me rguntava.
Talvez o horror de minha prpria vida fosse que, no importava o e eu fizesse nem aonde eu fosse, eu sempre entendia. Encarnao. Uma cie de luz sanguinolenta.
Eu queria que eles agora me dexassem em paz.
Sybelle estava esperando, o que era muito mais importante, e fui abra-la. Passamos muitas horas conversando, Sybelle, Benji e eu, e fnalmente ndora, que estava 
muito perturbada mas no dizia uma palavra sobre isso, veio nbm conversar dsplcente e alegremente conosco. Mariusjuntou-se  ns e .vid tambm.
Estvamos reunidos numa roda na relva, sob as estrelas. Pelos jovens, umi a expresso mais corajosa e conversamos sobre coisas belas e lugares por de andaramos, 
e maravilhas que Marius e Pandora haviam visto, e de vez em ando discutamos amigavelmente sobre coisas corrqueiras.
Cerca de duas horas antes do amanhecer, havamos nos separado. Sybelle ava sentada sozinha no fundo dojardim, olhando para uma flor atrs da outra m grande cuidado. 
Benji descobrira que conseguia ler com uma velocidade ;ternatural e estava devorando a biblioteca, o que era realmente muito im;ssionante.
David, sentado  escrivaninha de Marius, corrigia seus erros de ortografia s abreviaes da transcrio datilografada, corrigindo metculosamente a pia que fizera 
apressadamente para mim.
Marius e eu estvamos encostados no mesmo carvalho, sentadosjuntos. No vamos. Estvamos observando as coisas, e talvez ouvindo as mesmas canes da noite.
Eu queria que Sybelle tornasse a tocar. Eu nunca a vira ficar tanto tempo sem ;ar, e queria muito v-la tocar a sonata novamente.
Foi Marius quem ouviu primeiro o som inusitado, e empertigou-se alarma, s para relaxar e tornar a encostar novamente ao meu lado.
- O que foi? - perguntei.
- S um barulhinho. No consegui... No consegui entender-disse ele. rnou a apoiar-se em meu ombro, como antes.
Quase imediatamente, v David levantar os olhos do trabalho que estava :endo. E a Pandora apareceu, dirigindo-se lenta mas desconfiadamente para a das portas iluminadas.
Agora, ouvi o barulho. E Sybelle tambm, pois elatambm olhou na direo porto dojardim. At Benji finalmente se dignara a reparar no som, e largou vro no meio
da frase e marchou para a porta com um arzinho muito severo a avaliar essa nova situao e t-la firmemente sob controle.
A princpio, achei que estivesse vendo errado, mas logo identifiquei o vulto que apareceu quando o porto abriu e fechou em silncio atrs de seu brao rgido e 
deselegante.
O vulto vinha mancando, ou, antes, parecia algum cansado ou desacostumado do simples ato de caminhar ao surgir na claridade que iluminava o gramado diante de nossos 
ps.
Fiquei espantado. Ningum conhecia suas intenes. Ningum se mexeu. Era Lestat, e ele estava to esfarrapado e empoeirado como no cho da capela. Nenhum pensamento 
emanava de sua mente at onde eu podia supor, e seus olhos pareciam vagos e cheios de uma admirao exaustiva. Ele se postou  nossa frente, apenas contemplando, 
e ento eu me levantei atabalhoadamente para abra-lo; ele se aproximou de mim e falou em meu ouvido.
Sua voz estava entrecortada e fraca por falta de uso, e ele falou muito baixinho, seu hlito apenas encostando em mim.
- Sybelle - disse ele.
- Sim, Lestat, o que foi, o que h com ela, diga-me - pedi. Eu segurava suas mos com o mximo de carinho e firmeza.
- Sybelle -tornou ele a dizer. - Acha que ela tocaria a sonata para mim se voc lhe pedisse? A Appassionata?
Recuei e olhei em seus olhos azuis vagos e sonolentos.
-Ah, sim-respondi, quase sem flego de to excitado, transbordando de sentimento. - Lestat, tenho certeza que sim. Sybelle!
Elaj se virara. Observou-o espantada enquanto ele atravessou lentamente o gramado para entrar na casa. Pandora deu um passo atrs, e todos ns ficamos num silncio
respeitoso observando-o sentar-sejunto ao piano, de costas para a perna dianteira direita do instrumento, osjoelhos levantados e a cabea apoiada pesadamente nos
braos cruzados. Ele fechou os olhos.
- Sybelle - perguntei -, quer tocar para ele? A Appassionata de novo se voc quiser.
E obviamente ela tocou.

6 de janeiro de 1998 Dia de Reis
