    Contemplei a luminosa e elegante interpretao da priso de Cristo
no Horto Getsmani. As figuras chapadas e esguias eram muito parecidas
com as imagens longilneas e elsticas dos cones russos, e no entanto
as expresses eram suavizadas com  emoes comoventes e genunas.
Parecia que uma bondade impregnava todos os seres  ali, no apenas o
prprio Nosso Senhor, condenado a ser trado por um dos Seus, mas
tambm os Apstolos, que olhavam, e at o infeliz soldado, com sua
tnica de  malha, que ia levar o Senhor dali, e os soldados vigiavam.
    Fiquei extasiado com essa bondade inconfundvel, essa aparente
inocncia  contagiante, essa compaixo sublime do artista por todos os
atores dessa pea  trgica  que compunha o prembulo da salvao do
mundo.
    Para outra cela fui imediatamente levado. De novo a porta se abriu
quando  Marius deu o comando, e o ocupante adormecido do aposento nunca
soube que  estivemos  l.
    Esse afresco mostrava novamente o Jardim da Agonia e Cristo antes da
priso,  sozinho entre os Apstolos adormecidos, implorando ao Pai
Celeste que lhe desse  foras.
    Vi novamente a comparao com os estilos antigos com quais, eu, como
russo,  sentia-me to seguro. As pregas no tecido, o uso de arcos, a
aurola em cada  cabea, a disciplina do conjunto - tudo estava ligado
ao passado, no entanto, mais uma  vez via-se o reflexo do novo calor
italiano, o inegvel amor italiano pela  humanidade de todos, at do
prprio Nosso Senhor.
    Fomos de cela em cela. Percorremos a vida de Cristo para trs e para
a  frente, visitando a cena da Primeira Comunho, na qual, de modo to
comovente,  Cristo  distribuiu o sangue contendo seu corpo e seu sangue,
como se fosse o celebrante na missa, e  depois o Sermo da Montanha, no
qual as pedras plissadas e lisas em volta de  Nosso Senhor e seus
ouvintes pareciam to de pano como sua tnica graciosa.
    Quando chegamos  Crucificao, na qual Nosso Senhor entregou a So
Joo sua  Santa Me, fiquei confrangido com a agonia no rosto do Senhor.
Quo pensativa em  sua angstia era a expresso da Virgem, e quo
resignado era o santo a seu lado, com  seu semblante florentino meigo e
louro, to parecido com o de mil outras figuras pintadas nessa cidade,
com uma incipiente barba castanhoclara.
    Justo quando achei que tinha entendido perfeitamente as lies do
Mestre,  deparamo-nos com outra pintura, e senti uma ligao ainda mais
intensa com os  tesouros de minha meninice e o esplendor silencioso e
incandescente do monge dominicano  que ornamentara essas paredes.
Finalmente, deixamos esse lugar de lgrimas e  preces murmuradas limpo e
encantador.
    Samos na noite e voltamos a Veneza, deslocando-nos na escurido
fria e  barulhenta, e chegando em casa a tempo de sentar um pouco no
aconchego da cmara  sinuosa e conversar.
    - Est vendo? - insistiu Marius. Ele estava na escrivaninha com a
pena na  mo. Mergulhava-a na tinta e escrevia enquanto conversvamos,
virando a pgina  grande  de pergaminho de seu dirio. - L em Kiev, as
celas eram a prpria terra, mida e  pura, mas escura e onvora, a boca
que acaba comendo toda vida, que acaba  arruinando toda arte.
    Estremeci. Fiquei esfregando os braos, olhando para ele.
    - Mas em Florena, o que esse sutil professor Fra Anglico legou a
seus  irmos? Pinturas magnfcas para lhes lembrar o Martrio de Nosso
Senhor? - Fra  Anglico  jamais fez pouco de deleitar a vista dos
outros, de encher os olhos das pessoas com todas as cores que Deus lhes
deu o poder de enxergar,  pois lhes deu dois olhos, Amadeo, e no para
serem... no para serem fechados na  terra escura.
    Refleti durante um bom tempo. Saber essas coisas em teoria era uma
coiza. Ter passado pelas celas silenciosas e adormecidas do mosteiro,
ter visto  os princpios do Mestre gravados ali por um monge em pessoa
era outra.
    - Essa  uma poca gloriosa - disse Marius delicadamente. - O que
era bom no  tempo antigo est sendo redescoberto e ganhando uma forma
nova. Voc me  pergunta:  Cristo  o Senhor? Eu digo, Amadeo, que ele
pode ser, poisjamais ensinou outra coisa  seno amor, ou foi isso que
seus apstolos, sabendo ou no, nos levaram a  crer...
    Esperei que ele prosseguisse, pois sabia que havia terminado. O
quarto  estava deliciosamente quente e limpo e luminoso. Guardo sempre
junto ao corao  um retrato dele nesse momento, o Marius alto e louro,
a capa vermelha jogada para trs  deixando o brao livre para segurar a
pena, o rosto liso e brilhante, os olhos  azuis procurando a verdade
para alm daquele tempo e de qualquer outro no qual ele  tenha vivido. O
livro pesado estava apoiado numa estante baixa e porttil de  modo a
ficar num ngulo confortvel para ele. O tinteirinho ficava dentro de um
suporte  de prata trabalhada. E os pesados candelabros atrs dele, com
suas oito velas  grossas a derreter, tinham uma infinidade de querubins
semi-embutidos na prata ricamente  cinzelada, agitando as asas, talvez
para sair voando, e carinhas redondas  viradas para c e para l com
olhos grandes e alegres embaixo de cachinhos revoltos. Parecia uma
platia de anjinhos para ver e ouvir Marius falando, muitas e muitas
carinhas espiando com indiferena dos candelabros de prata, sem sentir a
cera  pura que escorria.
    -No posso viver sem essa beleza-exclamei de repente, embora tivesse
 procurado evitar. - No d para suportar a vida sem ela. Ah, meu Deus,
mostraste-me o Inferno e ele ficou l atrs, certamente na terra em que
nasci.
    Ele ouviu minha pequena prece, minha pequena confisso, minha
splica  desesperada. - Se Cristo  o Senhor-disse ele, voltando ao seu
ponto, trazendo-nos os dois de  volta  lio-, se Cristo  o Senhor,
que beleza de mi lagre  esse mistrio cristo - Seus olhos estavam
marejados de lgrimas. - O prprio Senhor ter vindo ao  mundo e se feito
carne para melhor nos conhecer e nos compreender. Ah, que Deus, criado 
imagem do homem por Sua vontade, foi melhor do que um que se tornasse
Carne? Sim, eu lhe diria, sim, o seu Cristo, o Cristo deles, o Cristo
at dos  monges de Kiev, Ele  o Senhor! Apenas tome nota sempre das
mentiras que dizem em nome  Dele, e do que eles fazem. Pois Savonarola
invocava o nome Dele quando elogiava  um inimigo estrangeiro avanando
em Florena, e aqueles que queimaram Savonarola  como um falso profeta,
at eles, ao acender a fogueira embaixo do corpo inerte  do infeliz, at
eles invocaram Cristo, o Senhor.
    No consegui conter as lgrimas.
    Ele ficou calado, talvez me respeitando, ou pondo as idias em
ordem. Ento  mergulhou de novo a pena na tinta e ficou um bom tempo
escrevendo, muito mais  rpido do que os homens escrevem, mas com graa
e destreza, sem nenhuma rasura.
    Afinal, pousou a pena. Olhou para mim e sorriu.
    - Comecei a lhe mostrar umas coisas, sem nenhum plano. Eu queria que
essa  noite voc visse os perigos desse poder de voar, que podemos com
muita  facilidade nos  transportar para outros lugares, e que essa
sensao de entrar e sair com tanta facilidade   uma iluso da qual
precisamos ter conscincia. Mas olhe, como saiu tudo  diferente.
    No respondi.
    - Eu queria que voc ficasse com um pouco de medo - ele disse.
    - Mestre - falei, enxugando o nariz com o dorso da mo -, pode
deixar que  ficarei com medo direitinho quando chegar a hora. Terei este
poder, eu sei.  Estou sentindo. E, por ora, acho que  um poder
esplndido, e, por causa dele, um pensamento  sinistro cai no meu
corao.
    - Que pensamento? - perguntou ele com a maior genti leza. - Sabe,
acho que  seu rosto angelical no est mais preparado para coisas
tristes do que aqueles  pintados por Fra Anglico. Que sombra  essa que
estou vendo? Que pensamento sinistro   esse?
    - Leve-me l, Mestre - tremia, no entanto falei. - Vamos usar seu
poder para  cobrir quilmetros e quilmetros da Europa. Vamos para o
norte. Leve-me para ver  aquela terra cruel que se tornou um purgatrio
em minha imaginao. Leve-me de volta a  Kiev.
    Ele demorou a responder.
    A manh vinha chegando. Ele pegoua capa e atnica, levantou-se
dacadeira e  subiu comigo para o telhado.
    Avistvamos ao longe as guas do Adritico que j estavam clareando,
 faiscando ao luar e  luz das estrelas, para alm da floresta conhecida
dos  mastros dos  navios. Luzinhas piscavam nas ilhas distantes. O vento
estava ameno e cheio de sal e  frescor do mar, delicioso como s pode
achar quem perdeu  completamente o medo do mar.
    - Seu pedido  corajoso, Amadeo. Se voc realmente quiser, amanh 
noite comearemos a viagem.
    - Voc j fez alguma viagem para to longe?
    -Em quilmetros, em distncia, sim, muitas vezes-disse ele.-Masem
busca de  conhecimento de outra pessoa? No, nunca fui to longe.
    Ele me abraou e me levou para o palazzo onde nossa tumba ficava
escondida.  Eu estava cheio de frio quando chegamos  escada de pedra
encardida, onde  dormiam  tantos pobres. Fomos desviando deles at
chegar  entrada do poro.
    - Acenda o archote para mim, Mestre - pedi. - Estou tiritando. Quero
ver o  ouro  nossa volta, se me der licena.
    - Pronto, a est - disse ele. Estvamos em nossa cripta diante dos
dois sarcfagos ornamentados. Toquei na tampa do que era meu, e
subitamente me veio outro pressentimento, de que todos os que eu amava
resistiriam por muito pouco tempo.
    Marius deve ter visto essa hesitao. Passou a mo direita pelo fogo
mesmo do archote e encostou os dedos aquecidos em meu rosto. Depois me
deu um beijo no  lugar que guardara aquele calor, e seu beijo foi
quente.

-- 10 --

    Levamos quatro noites para chegar a Kiev.
    S cavamos de madrugada, antes do amanhecer.
    Fazamos nossos tmulos em locais de sepultamento mesmo, nas
masmorras de  castelos antigos e esquecidos, e nos sepulcros
subterrneos de igrejas  abandonadas  e em runas, onde os profanos
agora estavam acostumados a armazenar gado e feno.
    Eu poderia contar histrias dessa viagem, daquelas bravas fortalezas
que  rondvamos quase de manhzinha, e daquelas vilas selvagens das
montanhas onde  encontramos o pecador em sua morada rstica.
    Naturalmente, Marius via lies nisso tudo, ensinando-me como era
fcil  encontrar esconderijos e aprovando a velocidade com a qual nos
deslocvamos pela  mata  cerrada, e no tinha medo dos esparsos
povoamentos primitivos que visitvamos por causa  de minha sede. Ele me
elogiava por eu no me esquivar dos lgubres ninhos de  ossos
empoeirados em que nos deitvamos de dia, lembrando-me que esses locais
de  sepultamento, porj terem sido pilhados, tinham menos probabilidade
de ser  perturbados pelos homens mesmo durante o dia.
    Nossas roupas venezianas elegantes logo ficaram imundas, mas
tnhamos  casaces forrados de pele para a viagem, que davam conta de
tudo. At nisso,  Marius via  uma lio. A de que precisvamos nos
lembrar de quo frgil e sem sentido era a  proteo que nossas roupas
nos forneciam. Os homens mortais esquecem-se de como  usar as roupas de
forma leve e de que elas so uma simples cobertura para o corpo e  nada
mais. Os vampiros no devem esquecer isso nunca, pois somos muito menos
dependentes de nossa indumentria do que os homens.
    Na ltima manh antes de chegarmos a Kiev, eu j conhecia
perfeitamente as  florestas montanhosas. O terrvel inverno do norte nos
envolvia. Havamos  deparado  com uma de minhas lembranas mais
intrigantes: a presena da neve.
    - J no me di pr a mo na neve - disse eu, pegando aquela neve
geladinha  e passando-a no rosto. - J no fico enregelado ao v-la, e,
de fato, como  linda, cobrindo as cidades e os casebres mais pobres com
seu manto! Mestre,  olhe, olhe como ela reflete a luz at das estrelas
mais fracas.
    Estvamos no limite da terra que os homens chamam de Horda Douradaas
 plancies meridionais da Rssia, as quais, por duzentos anos, desde a
conquista  de Gngis  Khan, eram perigosssimas para os fazendeiros, e
muitas vezes fatais para o exrcito  ou o cavaleiro.
    Kiev Rus outrora inclura esses prados belos e frteis, que se
estendiam  para leste, quase at a Europa, bem como para sul da cidade
de Kiev onde nasci.
     - O ltimo trecho no vai ser nada - avisou o Mestre. - Vamos
faz-lo amanh  noite para que voc esteja descansado quando avistar
sua terra.
    E ali num penhasco rochoso olhando para o capim selvagem balanando
ao vento  invernal l embaixo, pela primeira vez desde que virara
vampiro, senti uma falta  tremenda do sol. Eu queria ver essa terra 
luz do sol. No ousava confessar isso ao  Mestre. Afinal de contas,
quantas bnos um ser pode querer?
    Na ltima noite, acordei logo aps o sol se pr. Tnhamos encontrado
um  lugar no subsolo de uma igreja num vilarejo hoje desabitado. As
horrveis hordas  mongis, que destruram vrias vezes minha terra
natal, haviam h muito incendiado essa  cidade, ou pelo menos foi o que
Marius me contou, e essa igreja nem teto tinha.  No sobrara ningum ali
para arrancar as pedras do cho a fim de vend-las ou us- las numa
construo, ento descemos por uma escada esquecida para nos deitar com
os monges l sepultados h algumas centenas de anos.
    Ao levantar da tumba, vi um retngulo de cu l no alto, no local de
onde o  Mestre havia retirado um bloco de mrmore do piso, sem dvida
uma lpide  inscrita,  para que eu pudesse subir. Subi com um impulso.
Isto , dobrei as pernas e dei um  impulso com toda a fora para cima,
como se pudesse voar, passei por essa  abertura e pousei em p.
    Marius, que sempre levantava antes de mim, estava sentado ali perto.
 Imediatamente, deu a esperada gargalhada de aprovao.
    - Voc andou escondendo esse truquezinho para uma hora como essa?
perguntou.
    Olhando em volta, fiquei ofuscado com a neve. Estava apavorado, s
de ver os  pinheiros gelados que haviam brotado nas runas da igreja.
Mal podia falar.
    -No - consegui dizer. - Eu no sabia que era capaz de fazer isso.
No sei a altura que posso pular nem a fora que tenho. Mas voc gostou?
    - Gostei, por que no deveria ter gostado? Quero que voc seja
suficientemente forte para que ningum possa machuc-lo.
    -E quem faria isso, Mestre? Viiajamos pelo mundo, mas quem sabe
quando vamos  ou voltamos?
    - H os outros, Amadeo. E h outros aqui. Posso ouvi-los se eu
quiser, mas  h uma boa razo para no os ouvir.
    Compreendi.
    - Voc abre a mente para os ouvir, e eles sabem que voc est aqui?
- Sim,  esperto. J est preparado para ir para casa?
    Fechei os olhos. Fiz o sinal da cruz como costumvamos fazer,
tocando o ombro direito antes do esquerdo. Lembrei-me de meu pai.
Estvamos nos campos  selvagens e ele estava em p no estribo com aquele
seu arco gigante, que s ele conseguia  envergar, como o mtico Ulisses,
disparando uma flecha aps a outra nos  invasores que nos atacavam,
cavalgando como se ele prprio fosse um dos turcos ou trtaros,  tamanha
era sua habilidade. Uma flecha aps a outra, sacada com um movimento
rpido da aljava s suas costas, entrava no arco e era disparada naquele
matagal  agitado pelo vento enquanto seu cavalo ia galopando a toda. Sua
barba vermelha  balanava naquela ventania furiosa, e o cu era de um
azul to rico que...
    Interrompi essa orao e quase perdi o equilbrio. O Mestre me
segurou.
     - Reze, j, j, voc ter acabado com isso tudo - disse ele.
    - Beije-me - pedi -, d-me seu amor, abrace-me como sempre me
abraou,  preciso disso. Oriente-me. Mas me abrace, sim. Deixe-me
encostar a cabea em  voc. Preciso de voc, sim. Sim, quero que seja
uma coisa rpida, e que todas lies que  estiverem aqui, em minha
mente, sejam levadas para minha terra.
    Ele sorriu.
    - Sua terra agora  Veneza? J tomou sua deciso?
    -J, agora mesmo percebo isso. O que est para l  a terra natal,
que nem  sempre  a nossa terra. Vamos?
    Levando-me nos braos, ele se faz ao ar. Fechei os olhos, mesmo
perdendo o  ltimo relance das estrelas imveis. Parecia que eu estava
dormindo encostado a  ele,  sonhadoramente e sem medo.
    Ento ele me colocou no cho.
    Na mesma hora, reconheci esse morro grande e escuro, e as florestas
de  carvalho sem folhas com os troncos escuros congelados e os galhos
esquelticos.  Eu avistava l embaixo a faixa brilhante do rio Dnieper.
Meu corao galopava dentro de mim.  Procurei as torres tristes da
cidade alta, a cidade que chamvamos de Cidade de Vladimir, que era a
Kiev antiga.
    Montes de escombros que outrora formavam as muralhas da cidade
estavam a  poucos metros de mim.
    Fui na frente, passando com facilidade por cima desses montes, e
passeando  no meio das runas das igrejas, igrejas que eram de um
esplendor lendrio quando  Batu Khan incendiou a cidade no ano de 1240.
    Eu crescera em meio a essa floresta de igrejas antigas e mosteiros
em  runas, muitas vezes correndo para assistir  missa em nossa
catedral de Santa  Sofia, um dos poucos monumentos poupados pelos
mongis. Em sua poca, a catedral era um  espetculo de cpulas
douradas, dominando todas as das outras igrejas, e dizia- se que era
mais imponente que sua homnima da longnqua Constantinopla, sendo maior
e  atulhada de tesouros.
    O que eu conhecera eram vestgios majestosos, uma casca ferida.
    Eu no estava querendo entrar na igreja agora. Bastava v-la de
fora, porque  euj sabia, pelo tempo feliz que eu passara em Veneza,
exatamente como fora essa  igreja nos ureos tempos. Pelos mosaicos e
pinturas bizantinos esplndidos de So  Marcos e pela velha igreja
bizantina na ilha veneziana de Torcello eu entendia a  maravilha que
havia ali para todo mundo ver. Quando pensei no povo animado de Veneza,
seus  estudantes, seus eruditos, seus advogados, seus mercadores, eu
imaginava uma  vitalidade densa nessa cena desolada.
    Havia muita neve, e poucos russos estavam na rua naquele incio de
noite  gelado. Portanto, tnhamos a cidade para ns, percorrendo suas
ruas com  facilidade,  sem precisar ver onde pisvamos como os mortais
precisariam.
    Chegamos a um extenso ameado em runas, uma proteo amorfa agora
embaixo da neve, e dali olhei para a cidade baixa, a cidade que
chamvamos de  Podil, a nica verdadeira cidade de Kiev que restava, a
cidade onde, numa casa rstica de madeira e barro  h poucos metros do
rio, eu crescera. Olhei para os telhados inclinados, sua  palha coberta
de neve purificadora, suas chamins fumegando, e para ruas tortas e
estreitas cheias de neve. Um grande gradeado de casas desse tipo e
outros  prdios formaram-se h muito  margem do rio e conseguiram
sobreviver aos sucessivos incndios e at  aos piores ataques dos
turcos.
    Era uma cidade de mercadores e artesos, todos ligados ao rio e aos
tesouros  que este trazia do Oriente e ao dinheiro que alguns pagavam
pelos bens que o rio  levava para o sul e para o mundo europeu.
    Meu pai, o caador indmito, vendia peles de urso que ele mesmo
trazia  sozinho da grande floresta que se espraiava para o norte. Peles
de raposa,  castor, ovelha, todas essas ele negociava, e tamanha era sua
fora e sua sorte que nenhum homem  e nenhuma mulher em nossa casajamais
vendeu seus trabalhos nem ficou sem comida. Se passvamos fome, e
passamos, era porque o inverno comia a comida, a carne  desaparecia e
no havia nada para o ouro de meu pai comprar.
    Senti o fedor de Podil ali das ameias da cidade de Vladimir. Senti o
fedor  de peixe podre, de gado, de gente suja, da lama do rio.
    Enrolei-me na capa, soprando a neve do forro de pele ao senti-la na
boca, e  olhei para as cpulas escuras da catedral contra o cu.
    - Vamos a p, vamos depois do castelo do Voievoda - falei. - Est
vendo  aquele prdio de madeira? Voc nunca haveria de cham-lo de
palcio ou castelo  na bela Itlia. Aqui  um castelo.
    Marius balanou afirmativamente. Fez um pequeno gesto
tranqilizador. Eu no  lhe devia nenhuma explicao desse lugar
estrangeiro de onde eu viera.
    O Voievoda era nosso governante, que, no meu tempo, era o prncipe
Michael  da Litunia. Eu no sabia quem era agora.
    Surpreendi-me com o fato de ter usado a palavra adequada para ele.
Naquela  minha viso fatdica, eu no tinha conscincia da lngua, e a
palavra estranha  que  significava governante, "voievoda", no saiu de
minha boca. Mas eu o vira nitidamente ento,  com seu chapu redondo de
pele, sua pesada tnica de veludo escuro e suas botas de feltro.
    Fui na frente.
    Aproximamo-nos do prdio atarracado, que mais parecia uma fortaleza
do que  qualquer outra coisa, feito como era com aquelas toras enormes.
Suas paredes se  erguiam com uma inclinao graciosa; suas muitas torres
tinham o telhado em quatro  patamares. Via seu telhado central, uma
espcie de domo de madeira pentagonal,  sua silhueta rgida contra o cu
estrelado. Havia archotes acesos diante de suas pesadas  portas e ao
longo de seus muros. Todas asjanelas estavam cerradas como proteo
contra a noite e o frio do inverno.
    Houve um tempo em que eu considerava aquele edifcio o mais
imponente da  cristandade.
    No foi nenhuma faanha atordoar os guardas com algumas palavras
rpidas e  alguns movimentos geis, passar por eles e entrar no castelo
propriamente dito.  Entramos pelos fundos, por um depsito, e fomos at
um ponto em que tnhamos uma boa viso do pequeno grupo de nobres e
senhores aglomerados no  salo em volta daquele fogo que rugia, sob as
vigas nuas do teto de madeira.  Estavam sentados em imensas cadeiras
russas cujos entalhes geomtricos no eram nenhum mistrio para mim,
colocadas sobre coloridos tapetes turcos  estendidos no cho. Bebiam em
taas de ouro, o vinho sendo servido por dois  criados vestidos de
couro, e suas vestes longas e cintadas eram azuis e vermelhas e
douradas, de  tons vivos como os desenhos dos tapetes.
    Tapearias europias cobriam as paredes toscamente revestidas de
estuque. As  mesmas cenas antigas de caa nas florestas sem fim da
Frana, da Inglaterra e da  Toscana.
    Numa mesa comprida guarnecida com velas acesas havia uma refeio
simples de  carne e aves.
    A sala era to fria que esses senhores conservavam os chapus de
pele. Quo  extico aquilo me parecera quando, em menino, fui levado com
meu pai  presena  do  prncipe Michael, que era eternamente grato a
meu pai por suas bravas faanhas de caar  nos campos selvagens ou de
entregar carregamentos de valores aos aliados do  prncipe nos fortes
lituanos do oeste.
    Mas estes eram europeus. Eu nunca os respeitara.
    Meu pai me ensinara muito bem que eles no passavam de lacaios do
Khan,  pagando pelo direito de nos governar.
    - Ningum se levanta contra esses ladres - dizia meu pai. - Ento
deixe que  eles cantem suas canes de honra e valor. No querem dizer
nada. Voc, escute  as  canes que eu canto.
    E meu pai sabia cantar algumas canes.
    Apesar de toda sua energia na sela, de toda sua destreza com o arco
e flecha  e de sua fora bruta com a adaga, ele tinha dedos longos e
hbeis para tirar  msica das cordas de uma harpa velha e cantar com
inteligncia as canes narrativas de  outrora, quando Kiev era uma
grande capital, suas igrejas rivalizando com as de Bizncio, suas
riquezas a maravilha do mundo inteiro.
    Num instante, eu estava pronto para ir embora. Dei uma ltima olhada
para me  lembrar desses homens, acotovelados como estavam com suas taas
de vinho  douradas,  descansando as grandes botas forradas de pele em
extravagantes banquetas turcas, todos  encolhidos, suas sombras cobrindo
as paredes. Ento, sem que eles percebessem  que havamos estado l,
fomos embora.
    Estava na hora de ir para a outra cidade no alto do morro, Pechersk,
embaixo  da qual ficavam as muitas catacumbas do Mosteiro das Covas.
    Estremeci s de pensar nisso. Parecia que a boca do mosteiro iria me
engolir  e que eu deveria me enfiar na Me Terra mida, procurando
eternamente a luz das  estrelas, sem jamais encontrar a sada.
    Mas entrei l, passando pela lama e pela neve, e de novo com uma
desenvoltura macia de vampiro. Agora fui na frente, quebrando as trancas
silenciosamente com  minha fora superior e levantando as portas ao
abri-las para que no forassem as  dobradias que rangiam, e
deslocando-me rapidamente pelos aposentos, de modo que  olhos mortais
no percebiam nada mais do que sombras frias, se alguma coisa percebiam.
    O ar ali estava quente e parado, uma bno, mas a memria me dizia
que no  havia sido assim to quente para um menino mortal. No
escritrio,  luz  fumarenta  do leo barato, vrios irmos
debruavam-se sobre suas escrivaninhas inclinadas,  fazendo suas cpias,
como se a prensa de impresso no lhes interessasse, e  certamente no
interessava.
    Dava para ver os textos que eles estavam copiando, e eu os conhecia
- o  Paterikon do Mosteiro das Covas de Kiev, com suas maravilhosas
histrias dos  fundadores  do mosteiro e de seus muitos santos
coloridos.
    Nesta sala, trabalhando naquele texto, eu aprendera a ler e escrever
 perfeitamente. Esgueirei-me encostado  parede at conseguir ver a
pgina que um  monge copiava, a mo esquerda firmando o modelo frgil
que ele reproduzia.
    Eu sabia de cor essa parte do Paterikon. Era a histria de Isaac.
Demnios  haviam enganado Isaac. Apareceram-lhe como lindos anjos,
pretendendo  mesmo ser o prprio Cristo. Quando Isaac caiu naquela
histria, eles danaram  alegremente e o insultaram. Mas, aps muita
meditao e muita penitncia, Isaac  enfrentou esses demnios.
    O monge acabara de mergulhar a pena na tinta e escrevia as palavras
que  Isaac falou:
    `Quando me enganastes sob a forma de Jesus Cristo e dos anjos, no
reis  dignos daquela posio. Mas agora apareceis com vossas
verdadeiras cores..."
    Olhei para o outro lado. To fundido com a parede, eu poderia ficar
ali  eternamente sem ser visto. Lentamente, olhei para as outras pginas
que o monge  copiara, e que estavam secando. Encontrei uma passagem
anterior que eu nunca esquecera,  descrevendo Isaac nos dois anos que
ele passou deitado, alheio ao mundo, imvel  e sem comida:
    "Pois Isaac estava com o esprito e o corpo enfraquecidos e no
conseguia  virar-se, levantar-se, nem sentar-se; apenas ficava ali
deitado de lado, e muitas vezes acumulavam-se vermes de seus excrementos
e de sua urina embaixo de suas coxas."
    Os demnios haviam levado Isaac a isso com aquele engodo. Essas
tentaes,  essas vises, essa confuso e essa penitncia eu mesmo
esperara experimentar  pelo  resto da vida quando entrei ali em criana.
    Escutei a pena arranhando o papel. Recuei, sem ser visto, como se eu
nunca  tivesse aparecido.
    Olhei para meus irmos eruditos.
    odos eram macilentos, vestidos com roupas de l barata, recendendo a
suor e  sujeira antigos, e suas cabeas estavam praticamente raspadas.
Suas barbas  compridas eram ralas e despenteadas.
    Achei que conhecia um deles, at chegara a am-lo, mas isso me
pareceu uma  coisa remota, no que j no merecia considerao. A
Marius, que estava a meu lado fiel como uma sombra, confessei que no
teria  podido suportar isso, mas ns dois sabamos que era mentira.
Provavelmente eu  teria suportado e teria morrido sem jamais conhecer
outro mundo.
    Entrei no primeiro dos longos tneis em que os monges estavam
sepultados, e,  fechando os olhos e encostando na parede de barro,
fiquei escutando os sonhos e  as preces daqueles que haviam sido
sepultados vivos por amor a Deus.
    Aquilo era o que eu imaginara e exatamente como eu lembrava. Ouvi as
 palavras conhecidas e no mais misteriosas sussurradas no eslavo da
igreja. Vi  as imagens  prescritas. Senti a chama crepitante da
verdadeira devoo e do verdadeiro misticismo alimentada com o fogo
fraco de nossas vidas de negao  absoluta.
    Fiquei de cabea baixa. Encostei a testa na terra. Desejei encontrar
o  menino, de alma to pura, que havia aberto essas celas para trazer
para os  eremitas uma  quantidade de comida e gua apenas suficiente
para mant-los vivos. Mas no conseguia  encontrar o menino. E s fiquei
com uma pena violenta dele, por elej ter  sofrido ali, magro,
miservel, desesperado e ignorante, ah, to terrivelmente ignorante, com
uma nica alegria sensual na vida que era ver as cores do cone se
incendiarem. Sufoquei um soluo. Virei a cabea e ca idiotamente nos
braos de Marius.
     - No chore, Amadeo - disse ele com ternura em meu ouvido.
    Ele afastou meu cabelo dos olhos, e, com aquele polegar macio, at
enxugou  minhas lgrimas.
    - D adeus a todos eles agora, filho - disse ele. 
    Fiz que sim com a cabea.
    Num piscar de olhos, estvamos l fora. No falei com ele. Ele me
seguiu.  Desci a ladeira para a cidade ribeirinha.
    O cheiro do rio se acentuou, o fedor de gente aumentou, e finalmente
 chegamos  casa que eu sabia que fora minha. De repente, que loucura
isso  parecia! O que  eu procurava? Avaliar isso tudo por meus novos
padres? Confirmar para mim mesmo  que enquanto criana mortal eu nunca
tivera a menor chance? Meu Deus, no haviajustificao para o que eu
era, um mpio bebedor de sangue,  alimentando-me dos ensopados sensuais
do mundo veneziano corrompido, eu sabia.  Seria isso um exerccio intil
de autojustificao?No, uma outra coisa me atraa para  aquela casa
retangular e comprida, como tantas outras, suas paredes grossas de
barro divididas por madeiras toscas, seu telhado de quatro coberturas
cheias de  estalactites de gelo pingando, essa casa grande e tosca que
era o meu lar.
    To logo cheguei, dei a volta na casa. A neve estava toda derretida,
e, de  fato, a gua do rio escorria pela rua e inundava tudo como
acontecia quando eu  era  criana. A gua entrava em minhas finas botas
venezianas. Mas no conseguia paralisar  meus ps como antes, porque
agora eu tirava minhas foras de deuses  desconhecidos aqui e de
criaturas para as quais esses camponeses imundos, dos quais eu j havia
sido um, no tinham nome.
    Encostei a cabea na parede tosca, como eu havia feito no mosteiro,
encostando na argamassa como se a solidez fosse me proteger e me
transmitir tudo  o que eu  quisesse saber. Dava para ver por um pequeno
furo nos blocos de barro que estavam sempre  se desfazendo, e vi,
iluminada por aquela luz familiar das velas e aquela claridade forte das
lmpadas, minha familia reunida em volta  de um grande fogo de tijolos.
    Eu conhecia todas aquelas pessoas, embora tivesse esquecido alguns
de seus  nomes. Eu sabia que eram parentes e conhecia a atmosfera que
estavam partilhando. Mas eu precisava enxergar alm dessa pequena
reunio. Precisava saber se essas  pessoas estavam bem. Precisava saber
se depois daquele dia fatdico em que fui  raptado, e meu pai sem dvida
assassinado nas terras selvagens, eles tinham conseguido  prosseguir com
o vigor costumeiro. Eu precisava saber, talvez, o que eles  rezavam
quando pensavam em Andrei, o menino com o dom para fazer cones com
tanta perfeio,  cones no feitos por mos humanas.
    Ouvi a harpa l dentro, ouvi canto. Era a voz de um de meus tios, um
to  jovem que poderia ser meu irmo. Seu nome era Borys, e, desde
criana, ele  cantava bem, decorando com facilidade as antigas sagas dos
cavaleiros e heris, e era uma  delas, muito trgica e cheia de ritmo,
que ele agora cantava. A harpa era  pequena e velha, a harpa de meu pai,
e Borys tangia as cordas no compasso de suas frases  enquanto quase
declamava a histria de uma batalha animada e fatdica para a  antiga e
grande Kiev.
    Escutei as cadncias conhecidas que eram transmitidas por nosso povo
de  cantor a cantor h centenas de anos. Levantei os dedos e descasquei
um pouco da  argamassa. Vi pelo buraquinho o canto do cone - bem em
frente  reunio de famlia em  volta das labaredas tremeluzentes do
fogo aberto.
    Ah, que espetculo! Em meio a dezenas de tocos de velas e lamparinas
de  barro cheias de gordura combustvel, havia mais ou menos uns vinte
cones,  alguns muito  velhos e escurecidos em suas molduras de ouro, e
outros radiosos como se ontem mesmo  tivessem ganhado vida pelo poder de
Deus. Havia ovos pintados enfiados no meio  das pinturas, ovos
lindamente decorados e coloridos com padres que eu conseguia  lembrar
bem, embora at com meus olhos de vampiro eu agora estivesse muito longe
para v-los. Muitas vezes eu observara as mulheres enfeitando esses ovos
sagrados  para a Pscoa, aplicando neles a cera quente derretida com
suas penas de madeira  para fazer as fitas ou as estrelas ou as cruzes
ou as linhas que significavam os  chifres do carneiro, ou o smbolo que
significava a borboleta ou a gara. Uma  vez aplicada a cera, o ovo era
mergulhado em tinta fria de uma cor incrivelmente forte.  Parecia que
havia uma variedade infinita e possibilidades infinitas de  significado
nesses padres e signos simples.
    Esses ovos frgeis e I indos eram guardados para curar os doentes ou
para  dar proteo contra tempestades. Eu escondera desses ovos no pomar
para dar  sorte na  colheita vindoura. Uma vez colocara um em cima da
porta da casa onde minha irm foi morar  quando casou.
    Havia uma linda histria sobre esses ovos decorados dizendo que
desde que se  seguisse o costume, desde que existissem esses ovos, o
mundo estaria a salvo do monstro do Mal que estava sempre querendo vir e
devorar tudo o que existia. Era gostoso ver esses ovos colocados ali no
soberbo canto dos cones, como sempre, entre os rostos santos. O fato de
eu ter  esquecido esse costume parecia uma vergonha e um aviso de uma
tragdia iminente. Mas os rostos santos me pegaram de repente e eu
esqueci isso tudo. Vi o rosto de  Cristo refletindo a luz do fogo, meu
Cristo brilhante e carrancudo, como O  pintei tantas vezes. Eu fizera
tantas dessas pinturas, e, no entanto, como essa era parecida  com
aquela perdida naquele dia nos capinzais das terras selvagens! Mas  isso
era impossvel. Como algum poderia ter recuperado o cone que eu
deixara cair  quando os invasores me capturaram? No, na certa devia ser
outro, pois, como eu  disse, eu havia feito muitos antes que meus pais
tivessem tido a coragem de me levar  para os monges. Ora, meus cones
estavam por essa cidade toda. Meu pai at os  levara para o prncipe
Michael como nobres presentes, e o prncipe  quem havia dito que os
monges precisavam ver minha habilidade. Quo srio parecia agora Nosso
Senhor comparado com a  lembrana dos Cristos ternos e pensativos de Fra
Anglico ou o nobre e sofrido  Senhor de Bellini. E, no entanto, Ele
estava excitado com meu amor! Ele era o Cristo  nossa moda antiga, 
moda antiga, amoroso em linhas severas, amoroso em cores escuras,
amoroso  maneira de minha terra. E Ele estava excitado com o  amor que
eu achava que Ele me dava! Comecei a ficar enjoado. Senti as mos do
Mestre em meus ombros. Ele no me puxou para trs como eu receava.
Simplesmente me segurou e encostou o rosto em meu cabelo. Eu cstava
quase indo. J chegava, no? Mas a msica parou. Uma mulher ali, minha
me, seria? No, mais jovem, minha irm Anya, j moa, falava
cansadamente  de como meu pai poderia cantar de novo se conseguissem de
alguma forma esconder a bebida dele e faz-lo voltar ao que era. Meu tio
Borys deu um  sorriso escarninho. Ivan era um caso perdido, disse Borys.
Ivan nunca mais  ficaria sbrio e morreria em breve. Ivan estava
envenenado de lcool, tanto das finas  bebidas que ele ganhava dos
comerciantes vendendo o que ele roubava dessa  prpria casa, como da
cerveja camponesa que ele recebia daqueles que maltratava, sendo  ainda
o terror da cidade. Fiquei todo arrepiado. Ivan, meu pai, vivo?  Ivan,
vivo para tornar a morrer com tanta desonra? Ivan no massacrado nos
campos  selvagens? Mas naquelas suas cabeas duras, os pensamentos dele
e as  palavras dele pararam juntos. Meu tio cantou outra cano, uma
cano para danar.  Ningum danava nessa casa, onde todos estavam
cansados do trabalho, e as  mulheres quase cegas remendando as pilhas de
roupas que tinham no colo. Mas a msica os  animava, e um deles, um
garoto mais moo do que eu era quando morri, meu  irmozinho, disse
baixinho uma prece por meu pai, pedindo que ele no morresse de frio
naquela noite, como tantas vezes quase morrera, ao cair bbado na neve
como  caa.
    - Por favor, traga-o para casa - murmurou o menino.
    Ento, atrs de mim, ouvi Marius dizer, procurando colocar as coisas
em  ordem e me acalmar.
    - Sim, parece que  verdade, sem dvida. Seu pai est vivo.
    Antes que ele pudesse me mandartomar cuidado, virei-me e abri a
porta. Era um ato impetuoso, uma imprudncia, e eu deveria ter pedido
permisso a Marius,  mas eu era, como lhe disse, um pupilo
indisciplinado. Eu precisava fazer isso. O vento varreu a casa. As
figuras amontoadas tiritaram de frio e se envolveram nos  grossos
capotes de pele. O fogo na boca do fogo de tijolos ardia lindamente.
    Eu sabia que devia tirar o chapu, que, no caso, era o capuz, e que
devia  olhar para o canto do cone e me benzer, mas no consegui. Na
verdade, para me esconder, eu cobrira o rosto com o capuz ao fechar a
porta.  Eiquei sozinho encostado ali. Tapava a boca com a capa de pele,
de modo que nada se via de meu rosto exceto os olhos, e talvez uma mecha
de cabelo avermelhado.
    - Por que a bebida acabou com Ivan? - murmurei, lembrando-me da
antiga  lngua russa. - Ivan era o homem mais forte dessa cidade. Onde
est ele agora?
    Eles ficaram preocupados e irritados com minha intromisso. As
labaredas no  fogo crepitaram e danaram com aquela lufada de ar puro.
O canto do cone  parecia  um grupo de chamas radiantes em si mesmo, com
suas imagens brilhantes e suas velas  salteadas, outro fogo de uma
espcie diferente e eterna. O rosto de Cristo ficou claro para mim
naquela luz bruxuleante, os olhos como que fixos em mim enquanto  eu
estava encostado ali  porta.
    Meu tio se levantou ejogou a harpa nos braos de um garoto mais moo
que eu  no conhecia. Vi no escuro as crianas sentadas em suas camas
guarnecidas com  pesadas colchas. Vi seus olhos brilhantes a me olhar no
escuro. Os outros aglomeraram-se   luz do fogo e me encararam. Vi minha
me, enrugada e triste como se sculos tivessem transcorrido desde que
eu a deixara, uma verdadeira velha no canto, agarrada ao tapete que lhe
cobria o colo. Estudei-a, tentando imaginar a causa de sua decadncia.
Desdentada,  decrpita, os dedos nodosos e esfolados e brilhantes de
tanto trabalhar, talvez  ela fosse apenas uma mulher sendo levada
depressa demais para a sepultura.
    Fui assaltado por muitos pensamentos e palavras, como se estivesse
recebendo  uma saraivada de golpes. Anjo, demnio, visitante noturno,
terror das trevas, o  que voc ? Vi mos erguidas, fazendo s pressas o
sinal da cruz. Mas os pensamentos  vieram claros em resposta  minha
indagao.
    Quem no sabe que Ivan, o Caador, virou Ivan, o Penitente, Ivan, o
Bbado ,  Ivan, o Louco, por causa do dia nas terras selvagens em que
no conseguiu  impedir  que os trtaros raptassem seu amado filho
Andrei?
    Fechei os olhos. Era pior que a morte o que acontecera com ele! E eu
nunca  imaginara, nunca ousara pensar nele vivo, nem tivera a
considerao de esperar  que  ele estivesse vivo, nem pensara qual
poderia ser seu destino caso ele estivesse?  Veneza estava cheia de
lojas em que eu poderia ter-lhe escrito uma carta, uma  carta que os
grandes venezianos poderiam levar para algum porto em que ela poderia
ter  sido despachada pelas famosas estradas postais do Khan.
    Eu sabia disso tudo. O Andreizinho egosta sabia disso tudo, dos
detalhes  que poderiam ter selado o passado com clareza, permitindo que
ele o esquecesse.  Eu  poderia ter escrito:
    "Famlia, estou vivo e feliz, embora nunca mais possa voltar para
casa.  Tomem esse dinheiro que estou enviando para meus irmos e irms e
minha me..."
    Mas, ento, nunca cheguei de fato a saber. O passado fora desgraa e
caos.  Sempre que a cena mais banal se avivava, o tormento reinava.
    Meu tio estava diante de mim. Ele era grande como meu pai e estava
bem  vestido com uma tnica de couro cintada e botas de feltro.
Olhava-me com calma mas com severidade.
    -Quem  voc que chega  nossa casa assim?-perguntou.-O que  esse
prncipe  a diante de ns? Est trazendo alguma mensagem para ns?
Ento fale , e perdo-o por ter arrombado a fechadura de nossa porta.
    Prendi o flego. Eu no tinha mais perguntas. Sabia que podia
encontrar  Ivan, o bbado. Que ele estava na taberna com os pescadores e
os comerciantes de peles, pois aquele era o nico recinto fechado de que
ele gostava alm de sua casa.
    Levei a mo-esquerda  bolsa que eu sempre carregava, amarrada ao
cinto como  deveria ser. Soltei-a e entreguei-a a este homem. Ele apenas
olhou para ela. Depois levantou-se, ofendido, e recuou.
    Ento, pareceu parte integrante de uma cena intencional com a casa.
Vi a  casa. Vi a moblia entalhada  mo, o orgulho da famlia que a
fizera, os  crucifixos  de madeira e os castiais entalhados que
seguravam as muitas velas. Vi os smbolos  pintados decorando as
molduras de madeira das janelas, as prateleiras onde se  exibiam belas
panelas, chaleiras e tigelas feitas em casa. Vi todos eles orgulhosos,
ento, a famlia toda, as mulheres que bordavam, bem  como aquelas que
remendavam, e lembrei-me com uma certa paz da estabilidade e do
aconchego de sua vida cotidiana.
    No entanto era uma vida triste, ah, tristssima, comparada ao mundo
que eu  conhecia.
    Adiantei-me e mostrei-lhe novamente a bolsa, e disse com uma voz
abafada,  ainda escondendo o rosto:
    - Suplico-lhe que tenha a bondade de aceitar isso para que eu possa
salvar  minha alma.  da parte de seu sobrinho, Andrei. Ele est muito
longe na terra  para  a qual os mercadores de escravos o levaram e nunca
mais voltar para casa. Mas est bem  e precisa compartir um pouco do
que tem com a famlia. Ele me pede que lhe diga quais de vocs esto
vivos e quais faleceram. Se eu no lhe der esse dinheiro, e  se no o
aceitar, serei condenado ao Inferno.
    No veio nenhuma resposta verbal da parte deles. Mas tive o que
desejava de  suas mentes. Consegui tudo. Sim, Ivan estava vivo, e agora
eu, esse homem  estranho,  estava dizendo que Andrei tambm estava vivo.
Ivan pranteava um filho que, alm de  vivo, estava rico. A vida  uma
tragdia, de uma forma ou de outra. O que   certo  que voc morre.
    - Eu lhe suplico - disse eu.
    Meu tio pegou a bolsa estendida, mas com desconfiana. A bolsa
estava cheia  de ducados de ouro, que valiam em qualquer lugar.
    Deixei cair a capa e tirei a luva esquerda, e depois os anis que
cobriam  cada dedo de minha mo. Opala, nix, ametista, topzio,
turquesa. Fui para o  outro  lado do fogo, passando pelo homem e pelos
meninos, e coloquei esses anis  respeitosamente no colo da velha que
hav ia sido minha me. Ela ergueu os olhos. Eu podia ver que, num
instante, ela saberia quem eu era. Tornei a cobrir o  rosto, mas com a
mo esquerda, tirei o punhal da cinta. Era apenas uma  Misericrdia
pequena aquele punhalzinho que um guerreiro leva para a batalha a fim de
despachar suas  vtimas se elas ainda estiverem vivas mas j sem
esperana de salvao. Era um  objeto decorativo, mais um enfeite do que
uma arma, e sua bainha folheada a ouro era  toda cravejada de prolas
perfeitas.
    -Para voc-disse eu. - Para a me de Andrei, que sempre gostou de
seu colar  de prolas de gua-doce. Aceite isso pela alma de Andrei.
    Depositei o punhal aos ps de minha me.
    Em seguida curvei-me profundamente, quase encostando no cho, e sa,
sem  olhar para trs, fechando a porta ao passar, e continuando por
perto, para  ouvilos enquanto
    se levantavam de um pulo e se acotovelavam para ver os anis e o
punhal, e  alguns para ver a tranca.
    Por um momento, fraquejei de tanta emoo. Mas nada iria me impedir
de fazer  o que eu desejava. No apelei para Marius, porque seria
covarde pedir-lhe apoio para isso, ou aceitar que ele me apoiasse. Fui
descendo a rua coberta de  neve rumo  taberna mais prxima ao rio, onde
achei que meu pai podia estar. Raramente eu entrava ali quando era
criana, e quando o fazia era s para chamar  meu pai para voltar para
casa. Eu no me lembrava direito daquele lugar, a no  ser que era onde
os estrangeiros bebiam e praguejavam.
    Era um prdio comprido, feito com as mesmas toras toscas de minha
casa, com  a mesma argamassa de barro e as mesmas rachaduras e fendas
para deixar passar  aquele frio medonho. Seu telhado era muito alto, com
umas seis camadas para dividir o  peso da neve, e em seus beirais tambm
havia estalactites de gelo pingando, como  em minha casa.
    Eu achava maravilhoso que os homens pudessem viver assim, que o
prprio frio  no os impelisse a construir um abrigo melhor e mais
definitivo, mas, ao que  parecia, ali sempre fora assim, com os pobres,
os enfermos, os sobrecarregados e os  famintos sendo muito sacrificados
pelo inverno violento e recebendo muito pouco  da primavera e do vero
curtos, e a resignao passando a ser afinal sua maior virtude.
    Mas talvez eu estivesse errado sobre tudo isso naquela poca, e
talvez  esteja agora. O importante  isso: aquele era um lugar de
desesperana, e,  embora no  fosse feio, pois lenha e barro e neve e
tristeza no so feios, era um lugar sem  beleza a no ser pelos cones,
e talvez pelo vulto das graciosas cpulas de  Santa Sofia no alto do
morro ao longe, contra o cu estrelado. E isso no bastava.
    Quando entrei na taberna, contei uns vinte homens  primeira vista,
todos  eles bebendo e conversando uns com os outros com uma cordialidade
que me  surpreendeu,  dada a natureza espartana desse local, que no
passava de um abrigo para a noite, o  qual os mantinha reunidos em
segurana ao redor da grande fogueira. Ali no  havia cones para
reconfort-los. Mas alguns deles estavam cantando, e havia o
indefectvel tocador de harpa, tangendo seu pequeno instrumento de
corda, e  outro tocando um flautim.
    Havia muitas mesas, algumas com toalhas, outras nuas, em volta das
quais  esses camaradas se reuniam, e alguns dos homens eram
estrangeiros, como eu me  lembrara. Trs eram italianos, ouvi logo, e
imaginei que fossem genoveses. Havia realmente  mais estrangeiros do que
eu esperara. Mas estes eram homens atrados pelo  comrcio do rio, e
talvez Kiev no estivesse to pobre naquela altura.
    Para no chamar ateno, adiantei-me e fui para o fundo da sala 
esquerda,  onde era escuro e talvez um viajante europeu vestido com
ricas peles pudesse  passar  despercebido, pois, afinal de contas, boas
peles talvez fossem algo que eles de fato pareciam  ter.
    Essas pessoas estavam demasiado embriagadas para se importar com
quem eu  era. O balconista do bartentou se animar com a idia de um novo
fregus, mas depois continuou cochilando apoiado na mo. A msica
prosseguia, outra daquelas  sagas, mas essa era muito menos alegre do
que a que meu tio cantara l em casa,  porque acho que o msico estava
muito cansado.
    Vi meu pai.
    Ele estava estirado num banco largo, tosco e engordurado, vestido
com seu  gibo de couro e coberto com sua capa de pele maior e mais
pesada,  meticulosamente  dobrada, como se os outros lhe tivessem feito
as honras depois de ele ter falecido. Sua  capa era de pele de urso, o
que o marcava como um homem bastante rico. Ele roncava naquele sono
embriagado, recendendo a lcool, e no se mexeu quando  ajoelhei-me a
seu lado e olhei para seu rosto.
    Suas faces, apesar de mais magras, continuavam coradas, mas estavam
encovadas, e havia manchas grisalhas bem definidas em seu bigode e sua
longa  barba. Achei  que ele havia perdido um pouco de cabelo nas
tmporas e que sua testa lisa estava  mais angulosa, mas isso poderia
ter sido uma iluso. A carne em volta de seus  olhos parecia flcida e
escura. Suas mos, cruzadas embaixo da capa, no estavam  aparecendo,
mas eu podia ver que ele continuava forte, corpulento, e que seu  amor
pela bebida ainda no o havia destrudo.
    Tive subitamente uma noo perturbadora de sua vitalidade; sentia o
cheiro  de seu sangue e de sua vida, como se de uma possvel vtima
tropeando em meu  caminho.
    Tirei tudo isso da cabea e fiquei olhando para ele, amando-o e s
pensando  que estava felicssimo por ele estar vivo! Ele havia sado das
estepes  selvagens.  Escapara daqueles homens, que pareciam os prprios
arautos da morte.
    Puxei um banco para poder ficar calmamente sentado ao lado de meu
pai,  estudando seu rosto.
    Eu no havia calado a luva esquerda.
    Pus minha mo agora fria em sua testa, de leve, sem querer tomar
liberdades,  e ele lentamente abriu os olhos. Estavam sujos, porm ainda
lindamente  brilhantes,  apesar de injetados de sangue e midos, e ele
me olhou meigamente, calado. por alguns  instantes, como se no tivesse
por que se mexer, como se eu fosse uma viso  perto de seus sonhos.
    Senti o capuz escorregar para trs e no fiz nada para segur-lo. Eu
no  podia ver o que ele via, mas sabia o que era-seu filho, com um
rosto barbeado,  igual  ao que o filho tinha quando esse homem o
conhecia, e longos cabelos acobreados  soltos, em ondas polvilhadas de
neve.
    Mais adiante, parecendo meras silhuetas corpulentas contra o claro
do fogo,  os outros cantavam e conversavam. E o vinho corria.
    Nada se interpunha entre mim e esse momento, entre mim e esse homem
que  tentara vencer os trtaros, que disparara uma flecha aps a outra
contra seus inimigos, enquanto choviam flechas do adversrio sobre ele
em vo.
    -Eles nunca o feriram - murmurei. -Eu o amo e s agora sei como voc
era  forte. - Estaria minha voz sequer sendo audvel?
    Ele piscou ao olharpara mim, e ento vi que passou a lngua nos
lbios. Seus  lbios eram vivos, como coral, brilhando em meio  pesada
franja vermelha do  bigode e da barba.
    - Eles me feriram - disse baixinho, mas com voz firme. - Eles me
acertaram,  duas vezes, no ombro e no brao. Mas no me mataram, e no
soltaram Andrei. Ca  do  cavalo. Levantei-me. Eles no me acertaram nas
pernas. Corri atrs deles. Corri muito e  continuei atirando. Eu tinha
uma maldita seta espetada bem aqui no ombro  direito.
    Sua mo surgiu de debaixo da capa de pele e ele a colocou na curva
escura de  seu ombro direito.
    - Continuei atirando. Eu nem sentia. Vi-os indo embora. Eles o
levaram. Nem  sei se ele estava vivo. No sei. Ser que se dariam ao
trabalho de lev-lo se o  tivessem ferido? Havia setas por toda parte.
Caa uma chuva de setas! Eles deviam ser uns  cinqenta. Mataram a
metade dos homens! Eu disse aos outros: vocs precisam  continuar
atirando, no parem um segundo sequer, no se acovardem, fiquem
atirando, e,  quando no tiverem mais setas, saquem a espada e corram
atrs deles, entrem no  meio deles, apeiem, apeiem perto da cabea do
cavalo de vocs e ataquem-nos. Bem,  talvez eles tenham feito isso. No
sei.
    Ele baixou as plpebras. Deu uma olhada em volta. Queria levantar, e
ento  olhou para mim.
    - D-me alguma coisa para beber. Compre alguma coisa decente. O
homem tem xerez espanhol. Traga-me desse vinho, uma garrafa. Diabos,
antigamente, eu ficava esperando os comerciantes l no rio, e nunca
precisava  comprar nada de ningum. Traga-me uma garrafa de xerez. Estou
vendo que voc   rico.
    - Sabe quem sou eu? - perguntei.
    Ele olhou para mim completamente aturdido. Esta pergunta nem sequer
lhe  ocorrera.
    - Voc vem do castelo. Fala com sotaque lituano. No quero saber
quem voc  . Compre um vinho para mim.
    - Com sotaque lituano? - perguntei baixinho. - Que coisa medonha.
Acho que   sotaque veneziano e estou, envergonhado.
    - Veneziano? Bem, no se envergonhe. Deus sabe que eles tentaram
salvar  Constantinopla, tentaram. Foi tudo para o inferno. O mundo vai
acabar em chamas. Traga-me um vinho antes que ele acabe, est bem?
    Levantei-me. Ser que eu ainda tinha algum dinheiro? Eu estava
pensando  nisso quando a figura sinistra e silenciosa do Mestre surgiu 
minha frente e me entregou a garrafa do xerez espanhol, aberta e pronta
para meu pai beber.
    Suspirei. O cheiro do vinho no significava nada para mim agora, mas
eu  sabia que era do bom, e alm do mais era o que ele queria.
    Enquanto isso, ele se sentara no banco e contemplava a garrafa em
minha mo.  Pegou-a e bebeu-a to avidamente como eu bebo sangue.
    - Olhe bem para mim - disse eu.
    - Est escuro aqui, idiota - disse ele. - Como posso olhar bem para
alguma  coisa? Humm, mas esse  bom. Obrigado.
    De repente, ele parou com a garrafajusto embaixo da boca. Foi
estranha a  maneira como ele parou. Era como se estivesse na floresta e
acabasse de sentir  que um  urso ou alguma outra fera mortal fosse
atac-lo. Ficou paralisado, com a garrafa na  mo, e s seus olhos se
mexeram quando ele olhou para mim.
    - Andrei - murmurou.
    - Estou vivo, pai - disse eu delicadamente. - Eles no me mataram.
Pegaram- me como prmio e venderam-me para ganhar dinheiro. E fui levado
de navio para o  sul  e novamente para o norte at a cidade de Veneza, e
 a que estou morando.
    Os olhos dele estavam calmos. De fato, uma serenidade linda tomou
conta  dele. Ele estava embriagado demais para que seu lado racional se
revoltasse ou  para que  uma surpresa barata o deleitasse. Ao contrrio,
a verdade inundou-o como uma onda,  dominando-o, e ele compreendeu todas
suas ramificaes, que eu no sofrera, que  estava rico, que estava bem.
    - Eu estava perdido - disse eu no mesmo tom delicado, que certamente
era  apenas audvel para ele. - Eu estava perdido, sim, mas fui achado
por outra  pessoa,  um homem bom, e fui recuperado, e desde ento no
sofri mais. Fiz uma longa viagem para  lhe contar isso, pai. Nunca soube
se voc estava vivo. Nunca sonhei. Quer dizer,  achei que voc tivesse
morrido naquele dia em que o mundo inteiro morreu para mim. E  agora
estou vindo aqui lhe dizer que no deve nunca chorar por mim.
    - Andrei - murmurou, mas sua expresso no mudou. Ele exprimia
apenas um  espanto calmo. Estava quieto ali sentado, segurando com as
duas mos a garrafa  que pusera no colo, os ombros largos bem retos e o
cabelo ruivo grisalho mais comprido do  que eujamais havia visto,
confundindo-se com a pele de seu capote. Era um homem lindssimo.
Precisei ter olhos de monstro para saber disso.  Precisei ter uma viso
demonaca para ver a fora em seus olhos aliada   potncia de sua
compleio de gigante. S seus olhos injetados de sangue traam sua
fraqueza.
    - Agora me esquea, pai. Esquea-me, como se os monges tivessem me
mandado  embora. Mas lembre-se disso, por sua causa, eu nunca serei
sepultado naquelas  tumbas  de terra do mosteiro. No, outras coisas
podem me acontecer. Mas esse sofrimento eu no terei. Por sua causa,
porque voc no aceitava isso,  porque voc chegou naquele dia e ordenou
que eu o acompanhasse, que eu fosse seu filho.
    Virei-me para sair. Ele se atirou  frente, agarrando a garrafa pelo
gargalo  com a mo esquerda e me segurando pelo pulso com aquela sua
poderosa mo  direita.  Puxou-me para ele como se eu fosse um simples
mortal, com sua antiga fora, e encostou os  lbios em minha cabea
inclinada.
    Ah, meu Deus, no permita que ele saiba! No permita que ele sinta
nenhuma  mudana em mim! Eu estava desesperado. Fechei os olhos.
    Mas eu erajovem, e no to duro nem to gelado como o Mestre, no,
nem a  metade da metade da metade. E ele s sentiu a maciez de meu
cabelo, e talvez uma  maciez gelada, com perfume de inverno em minha
pele.
    - Andrei, meu anjo dourado, meu filho talentoso!
    Voltei-me e agarrei seu brao esquerdo. Cobri sua cabea de beijos,
como eu  nunca teria feito quando criana. Estreitei-o junto ao meu
corao.
    -Pai, no beba mais -disse eu em seu ouvido. -Levante-se e volte a
ser  aquele caador. Seja o que voc , pai.
    - Andrei, ningum jamais acreditar em mim.
    - E quem so eles para lhe dizer isso se voc tornar a ser voc
mesmo ,  homem? - perguntei.
    Olhamo-nos nos olhos um do outro. Eu estava de boca fechada para que
ele  jamais visse os dentes afiados em minha boca que o sangue de
vampiro me dera, os  pequeninos dentes de vampiro como um homem sagaz
como ele, o caador natural, poderia ver  muito distintamente.
    Mas ele no estava procurando uma desqualificao dessas aqui. Ele
s queria  amor, e amor trocamos entre ns.
    - Preciso ir, no tenho escolha. Roubei este tempo para vir v-lo.
Pai, diga   minha me que eu  que estive l em casa hoje, e que eu 
que lhe dei os anis  e dei a bolsa a seu irmo.
    Recuei. Sentei-me no banco ao lado dele, pois ele havia posto os ps
no  cho. Tirei a luva direita e olhei para os sete ou oito anis que eu
usava,  todos eles  de ouro ou prata e cravejados de pedras preciosas,
ento fui tirando um a um, sob  seus sonoros gemidos de protesto, e
depositei aquele punhado de jias em sua  mo.
    Como era macia e quente a sua mo, como era corada e viva!
    - Aceite-os porque tenho um mundo deles. E lhe escreverei e lhe
enviarei  mais, mais para voc no precisar fazer nada exceto o que
tiver vontade de fazer  -cavalgar e caar, e contar histrias dos velhos
temposjunto ao fogo. Compre uma boa harpa  com isso, compre livros para
os pequenos, se quiser, compre tudo o que quiser.
    -No quero isso, quero voc, meu filho.
    - Sim, e eu quero voc, meu pai, mas este pequeno poder  tudo o que
podemos  ter.
    Segurei sua cabea com as duas mos, exibindo minha fora, talvez
insensatamente, mas imobilizando-o enquanto o beijava. Depois, com um
demorado  abrao afetuoso, levantei-me para partir.
    Sa to depressa da sala que ele no poderia ter visto nada a no
ser a  porta fechando.
    Nevava. Avistei o Mestre a alguns metros dali e fui a seu encontro,
e  comeamos a subir a colina. Eu no queria que meu pai sasse l fora.
Queria ir  embora  o quanto antes.
    Euj ia pedir que entrssemos na velocidade vamprica e sassemos de
Kiev  quando vi um vulto correndo em nossa direo. Era uma mulherzinha,
seu pesado e  comprido abrigo de pele arrastando na neve molhada. Ela
trazia alguma coisa brilhante nos  braos.
    Fiquei imobilizado, escoltado pelo Mestre. Era minha me que viera
me ver.  Era minha me a caminho da taberna, e em seus braos, diante de
mim, estava um  cone  do Cristo carrancudo, aquele para o qual eu
ficara olhando tanto pela fresta da  parede da casa.
    Prendi arespirao. Elaergueu o cone com as duas mos e ofereceu-o
a mim.
     - Andrei - murmurou ela.
    - Me - eu disse. - Guarde esse cone para os pequenos, por favor -
abracei- a e beijei-a. Quo mais velha, quo miseravelmente velha ela
parecia. Mas as  gravidezes haviam feito isso com ela, tirando-lhe as
foras, nem que fosse pelos bebs que  seriam enterrados em pequenas
covas no cho. Pensei em quantos bebs ela havia  perdido quando eu era
garoto, e quantos mais ainda antes que eu nascesse. Ela os chamava  de
seus anjos, seus bebezinhos, sem tamanho para viver. - Guarde isso - eu
lhe disse. - Guarde isso para a famlia aqui.
    - Est bem, Andrei - disse ela. Ela me olhou com olhos apagados,
sofredores.  Eu podia ver que ela estava morrendo. Compreendi de repente
que no era s a  idade  que a acabava, nem o trabalho com os filhos.
Ela estava doente por dentro, e haveria  realmente de morrer em breve.
Senti um tal pavor, ao olhar para ela, um tal  pavor de todo o mundo
mortal. Era apenas uma doena aborrecida, comum e inevitvel.
    - Adeus, querido anjo - me despedi.
    -Adeus, meu querido anjo-respondeu ela.-Meu corao e minha alma
esto  felizes por voc ser um prncipe nobre. Mas me mostre, voc faz o
sinal da cruz  da maneira correta?
    Quo desesperada ela parecia! Estava sendo sincera. Queria dizer
simplesmente, teria eu conseguido toda essa riqueza aparente
convertendo-me   igreja do Ocidente? Era isso o que ela queria dizer.
    - Me, voc est me submetendo a um teste simples. Fiz o sinal-da-
cruz para ela,  nossa moda,  moda oriental, da direita para a
esquerda, e sorri.
    Ela fez um sinal afirmativo com a cabea. Ento, tirou
cuidadosamente uma coisa de dentro da roupa e me deu, s largando depois
que estendi as duas mos em concha para  receb-lo. Era um ovo de Pscoa
pintado de vermelho-escuro. Um ovo  perfeito e finamente decorado. Tinha
listras amarelas no sentido do comprimento, e, no  centro criado pelas
listras, havia uma rosa perfeita pintada ou uma estrela de  oito pontas.
Olhei para o ovo e balancei a cabea para minha me.  Peguei um leno de
puro linho flamengo e enrolei o ovo, acolchoando-o bem, e  guardei
fielmente o pequeno fardo nas dobras da tnica por baixo da jaqueta e do
capote.  Abaixei-me e dei-lhe mais um beijo na face ressecada e flcida.
    - Me - disse eu -, a Alegria de Todas as Dores,  isso o que voc 
para  mim!
    - Meu doce Andrei - respondeu ela. - V com Deus, se tiver de ir.
    Ela olhou para o cone. Queria que eu o visse. Virou-o para que eu
pudesse  ver o rosto dourado de Deus, to lustroso e bem feito como no
dia em que eu o pintara para ela. S que eu no o pintara para ela. No,
era o prprio cone que  eu levara naquele dia em nossa marcha para as
terras selvagens.
    Ah, que maravilha meu pai t-lo trazido de volta com ele, desde
aquela longnqua cena dessa perda. Mas por que no? Por que um homem
como ele no faria uma coisa dessas?
    A neve caa no cone pintado. Caiu no rosto severo de Nosso
Salvador, que se inflamara sob meu pincel como que por um passe de
mgica, um  rosto que, com aqueles lbios severos e lisos e aquele cenho
ligeiramente  franzido significava amor. Cristo, meu Senhor, podia
parecer ainda mais severo nos mosaicos de So Marcos. Cristo, meu
Senhor. De qualquer maneira, e em qualquer estilo, era cheio de amor
ilimitado. A neve caa em rajadas e  parecia derreter ao tocar em seu
rosto. Receei por esse frgil pedao de  madeira, essa reluzente imagem
laqueada, destinada a brilhar sempre. Mas ela tambm  pensou nisso, e,
com o capote, rapidamente protegeu o cone da umidade da neve  que
derretia.
   Nunca mais tornei a ver esse cone.
    Mas haver algum que agora precise me perguntar o que significa um
cone  para mim? Haver algum que precise saber agora por que, quando
me deparei com o rosto de Cristo no Vu  de Vernica, quando Dora
segurou no alto esse Vu trazido de Jerusalm e da hora da paixo de
Cristo pelo prprio Lestat, passando pelo Inferno at chegar ao  mundo,
ca de joelhos e exclamei: " o senhor?"

-- 11 --

    A volta de Kiev pareceu uma viagem no tempo, para um lugar que
realmente era  o meu.
    Veneza inteira, quando voltei, parecia compartilhar o faiscar da
cmara  folheada a ouro na qual fiz meu tmulo. Deslumbrado, eu passava
as noites  vagando, com  ou sem Marius, sorvendo o ar puro do Adritico
e espiando as esplndidas moradias e  os palcios do governo aos quais
me acostumei nos ltimos anos.
    Os cultos noturnos nas igrejas atraam-me como o mel atrai moscas.
Eu bebia  a msica dos coros, o cntico dos padres e, sobretudo, a
atitude alegre e  sensual  dos fiis, como se tudo isso fosse um blsamo
para as minhas partes em carne viva  por causa de minha volta ao
Mosteiro das Covas.
    Mas, no fundo do corao, eu reservava uma chama viva e tenaz de
reverncia  pelos monges russos do Mosteiro das Covas. Tendo vislumbrado
algumas palavras do  santo irmo Isaac, entrei na memria viva de seus
ensinamentos-o irmo Isaac, que fora  um bobo de Deus e um eremita,
algum que via espritos, a vtima do Diabo e depois seu conquistador em
nome de Cristo.
    Eu tinha uma alma religiosa, sem dvida, e recebera dois grandes
modos de  pensamento religioso, e agora, ao render-me a uma guerra entre
esses modos, fiz  guerra a mim mesmo, pois embora no tivesse inteno
de abrir mo dos luxos e das  glrias de Veneza, da beleza sempre
refulgente das lies de Fra Anglico e das  impressionantes realizaes
iluminadas de todos aqueles que o seguiram, criando beleza para  Cristo,
eu secretamente beatificava o perdedor em minha batalha, o abenoado
Isaac, que, com minha mentalidade infantil, eu imaginava tendo seguido o
verdadeiro caminho  do Senhor.
    Marius conhecia minha luta, sabia do domnio que Kiev exercia sobre
mim, e  sabia da importncia crucial de tudo isso para mim. Ele entendia
melhor do que  ningum que cada ser briga com seus prprios anjos e
demnios, cada ser sucumbe a um  conjunto essencial de valores, um tema,
por assim dizer, que  inseparvel de  uma vida como deve ser.
    Para ns, a vida era a vida vamprica. Mas em todos os sentidos era
vida, e  vida sensual e carnal. Eu no podia mergulharnessa vida fugindo
das compulses e  obsesses que eu sentia como rapaz mortal. Ao
contrrio, elas agora eram ampliadas.
    Antes de completar um ms de minha volta, vi que tinha dado o tom de
minha  atitude para com o mundo  minha volta. Eu deveria aproveitar a
beleza  luxuriante  da pintura, da msica e da arquitetura italianas,
sim, mas faria isso com o fervor de um  santo russo. Transformaria todas
as experincias sensuais em bondade e pureza.  Eu aprenderia, teria mais
entendimento, mais compaixo pelos mortais  minha volta, e nunca
deixaria de pressionar minha alma para ser o que eujulgava bom. O bem
estava acima de tudo; o bem era ser gentil. Era no desperdiar nada.
Era  pintar, ler, estudar, escutar, at rezar, embora eu no tivesse
certeza, e a  quem eu rezava, era aproveitar qualquer oportunidade para
ser generoso com os mortais  que eu no matava.
    Quanto aos que eu matava, eles deveriam sereliminados com
misericrdia, e eu  deveria me tornar o senhor absoluto da misericrdia,
jamais causando sofrimento  ou confuso, na verdade atraindo minhas
vtimas ao mximo com encantos induzidos por minha  voz doce ou pela
profundidade de meu olhar comovente, ou por outro poder que
aparentemente eu possusse ou fosse capaz de desenvolver, um poder para
entrar na mente do  pobre mortal indefeso e assisti-lo na confeco de
suas prprias imagens  reconfortantes para que a morte se tornasse o
bruxuleio de uma chama num xtase, e depois o  silncio mais doce. Eu
tambm me concentrava em gozar o sangue, em me aprofundar alm da
necessidade  turbulenta de minha sede, para saborear esse fluido vital
que eu roubava de  minha vtima e sentir mais plenamente aquilo que
vinha com ela para a morte  definitiva, o destino de uma alma mortal.
    Minhas aulas com Marius foram temporariamente interrompidas. Mas
afinal ele  chegou delicadamente e disse-me que estava na hora de
estudar novamente a srio,  que havia coisas que precisvamos fazer.
    - Fao meu prprio estudo - disse eu. - Voc sabe disso muito bem.
Sabe que  no tenho andado por a ocioso, e sabe que minha mente  to
vida quanto meu  corpo. Voc sabe disso. Ento me deixe em paz.
    - Muito bem, mestrezinho - disse ele meigamente -, mas voc precisa
voltar  para a escola que mantenho para voc. Tenho coisas que voc
precisa conhecer.
    Durante cinco noites, livrei-me dele. Ento, enquanto eu dormitava
em sua  cama depois da meia-noite, tendo passado o incio da noite na
praa de So  Marcos num  grande festival, escutando msica e assistindo
aos malabaristas, assustei-me ao receber  uma chicotada sua nas pernas.
    - Acorde, menino - disse ele.
    Virei-me e olhei para cima. Fiquei espantado. Ele estava ali em p,
de  braos cruzados, segurando aquele chicote comprido. Usava uma tnica
longa e  cintada de  veludo prpura e seu cabelo estava preso na nuca.
Senti as chicotadas como nunca havia sentido quando eu era mortal. Eu
estava  mais forte, mais resistente a elas, mas por uma frao de
segundo cada golpe  rompeu minha guarda preternatural, causando uma
minscula e intensa exploso de dor. Fiquei furioso. Tentei sair da
cama, e provavelmente teria batido nele, tamanha  era a minha irritao
por ser tratado dessa maneira. Mas ele ps um joelho em  minhas costas e
ficou me chicoteando at eu gritar. Ento, endireitou-se e me arrastou
pela gola. Eu estava trmulo de raiva e  confuso.
    - Quer mais? - perguntou.
    - No sei - respondi, desvencilhando-me, o que ele permitiu com um
sorrisinho. - Talvez sim! Ora meu corao  da maior importncia para
voc, ora  sou um colegial.  isso?
    - Voc j teve tempo suficiente para chorar - disse ele - e para
reavaliar o  que recebeu. Agora  voltar ao trabalho. V para a
escrivaninha e prepare-se  para  escrever. Seno lhe bato mais um pouco.
    Comecei a discursar.
    - No vou ser tratado assim. No h nenhuma necessidade disso. O que
devo  escrever? J escrevi vrios volumes em minha alma. Acha que pode
me colocar   fora  naquela abominvel forminha do aluno obediente,
acha que isso  apropriado para as  idias cataclsmicas que tenho de
considerar, acha...
    Ele me esbofeteou. Fiquei tonto. Quando meus olhos se desanuviaram,
encarei- o.
    - Quero sua ateno de novo. Quero que voc saia de sua meditao.
V para a  escrivaninha e me faa um resumo do que sua viagem  Rssia
significou para  voc,  e o que agora voc v aqui que antes no
conseguia ver. Seja conciso, use seus  melhores smiles e metforas e
escreva depressa e com clareza para mim.
    - Que tticas grosseiras - resmunguei. Mas meu corpo latejava por
causa das  chicotadas. Era uma dor completamente diferente da de um
corpo mortal, mas doa,  e eu odiei aquilo.
    Sentei diante da escrivaninha. Eu ia escrever algo realmente
grosseiro como  "Aprendi que sou escravo de um tirano". Mas quando ergui
os olhos e o vi ali de  chicote em punho, mudei de idia.
    Ele sabia que aquele era o momento perfeito para se aproximar de mim
e me  beijar. E fez isso, e vi que eu erguera o rosto para receber seu
beijo antes que  ele  abaixasse a cabea. Isso no o deteve.
    Senti a felicidade avassaladora de ceder a ele. Passei meu brao em
volta de  seus ombros.
    Ele me soltou aps um instante demorado e doce, e ento escrevi
muitas  frases, descrevendo bastante o que j expliquei anteriormente.
Escrevi sobre a  luta interna que se travava dentro de mim entre o
carnal e o asctico; escrevi sobre minha  alma russa buscando o nvel de
exaltao mais elevado. Pintando o cone, u  encontrara esse nvel, mas
o cone satisfizera a necessidade dos sentidos porque era belo.  E
enquanto escrevia, percebi pela primeira vez que o estilo russo antigo,
o  estilo bizantino antigo encarnava uma luta entre o sensual e o
asctico, as imagens  contidas, chapadas, disciplinadas, envolvidas por
um colorido rico, o todo  exalando puro deleite para os olhos e
representando renncia.
    Enquanto eu escrevia, o Mestre foi embora. Percebi isso, mas no
importava.  Eu estava absorto na escrita, e aos poucos fui deixando
aquela minha anlise das coisas e comecei a contar uma histria antiga.
    "Antigamente, quando os russos no conheciam Jesus Cristo, o grande
prncipe  Vladimir de Kiev - e naquele tempo Kiev era uma cidade
magnfica - enviou  emissrios para estudarem as trs religies do
Senhor: a religio muulmana, que esses  homens acharam frentica e
ftida; a religio da Roma papal, na qual esses  homens no encontraram
nenhuma glria; e finalmente o cristianismo de Bizncio. Na cidade  de
Constantinopla, os russos foram levados para ver as magnficas igrejas
nas quais os catlicos gregos adoravam o seu Deus, e acharam esses
prdios to lindos que  no sabiam se estavam no Paraso ou ainda na
terra. Jamais haviam visto algo to esplndido; tiveram certeza ento de
que Deus vivia entre os homens na regio de  Constantinopla, por isso
foi essa religio que a Rssia adotou. Foi, portanto, a beleza que deu
origem  nossa Igreja russa. Em Kiev, outrora, os homens podiam
descobrir o que Vladimir procurava recriar,  mas agora que Kiev est em
runas e os turcos tomaram a Santa Sofia de  Constantinopla, a pessoa
precisa vir a Veneza ver a grande Theotokos, a Virgem que  aquela que
carrega Deus, e seu filho quando se torna o Pantokrator, o Divino
Criador de  todas as coisas. Em Veneza, encontrei nos vivos mosaicos de
ouro e nas imagens  vigorosas de uma nova era o prprio milagre que
trouxe a Luz de Cristo Nosso  Senhor  minha terra natal, a Luz de
Cristo Nosso Senhor que continua ardendo no Mosteiro das  Covas."
    Larguei a pena. Deixei a folha de lado e deitei a cabea nos braos
e fiquei  chorando baixinho, sozinho no silncio de um quarto
penumbroso. Eu no me  importava se me batessem, me chutassem ou me
ignorassem.
    Finalmente, Marius veio me buscar para me levar para nossa cripta, e
agora  vejo, sculos depois, olhando para trs, que o fato de ele ter me
obrigado a  escrever naquela noite me fez lembrar para sempre das lies
daquela poca.
    Na noite seguinte, depois de ler o que eu havia escrito, ele estava
arrependido por ter me batido e disse que tinha dificuldade de tratar-me
como  qualquer outra coisa que no uma criana, mas que eu no era uma
criana. Antes, eu era um  esprito parecido com o de uma criana -
ingnuo e manaco em minha busca de  certos temas.
    Ele nunca esperara me amar tanto.
    Eu queria ficar alheio e distante, por causa da surra, mas no
consegui. Eu  me admirava que seu toque, seus beijos, seus abraos
significassem mais para mim  do que significavam quando eu era humano.

-- 12 --

    Quisera sair agora do alegre quadro em que estou com Marius em
Veneza e  continuar esta histria na cidade de Nova York, nos tempos
modernos. Quero ir  para o  instante naquele quarto, na cidade de Nova
York, em que Dora segurava o Vu de Vernica,  a relquia que Lestat
trouxe de sua viagem ao Inferno, pois a eu teria uma  histria contada
em duas metades perfeitas-da criana que eu fora e do fiel que me
tornara, e da criatura que hoje sou.
    Mas no posso me enganar com tanta facilidade. Sei que o que
aconteceu com Marius e comigo nos meses seguintes  minha viagem 
Rssia faz parte de minha vida. No h nada a fazer seno atravessar a
Ponte dos Suspiros de minha vida, a longa ponte escura a cobrir sculos
de minha existncia torturada, ligando-me aos tempos modernos. O fato de
Lestat ter descrito to bem o meu tempo nessa travessia no significa
que eu possa escapar sem acrescentar minhas prprias palavras, e
sobretudo meu prprio reconhecimento do bobo de Deus que eu seria
durante trezentos anos. Quisera ter escapado desse destino. Quisera que
Marius tivesse escapado do que nos aconteceu. Agora  evidente que ele
sobreviveu  nossa separao com muito mais fora e percepo do que eu.
Mas  elej era um ser sbio de muitos sculos, e eu ainda era uma
criana.
    Nossos ltimos dias em Veneza no foram prejudicados por qualquer
premonio do que  estava para vir. Vigorosamente, ele me ensinava as
lies essenciais.
    Uma das mais importantes era como passar por humano no meio de seres
humanos. Desde minha transformao, eu nunca me dera bem com os outros
aprendizes, e evitara completamente minha amada Bianca, para com quem eu
tinha uma dvida de gratido no apenas pela amizade passada mas tambm
por ela  ter tratado de mim quando eu estive to doente. Agora, eu
precisava enfrentar Bianca, ou pelo menos Marius assim decretou. Era  eu
quem tinha de escrever uma carta corts para ela explicando que, devido
 minha doena, no me fora  possvel ir a seu encontro antes.
    Ento, certa noite, cedo, aps uma breve caada em que bebi o sangue
de duas  vtimas, fomos visit-la, carregados de presentes para ela, e a
encontramos  rodeada daqueles seus amigos ingleses e italianos.
    Marius vestira-se elegantemente de veludo azul-escuro para a
ocasio, pela  primeira vez com um capote da mesma cor, o que era raro
nele, e insistira para  que  eu me vestisse de azul-celeste, sua cor
preferida para mim. Eu levava os figos de vinho e tortas doces numa
cesta para ela.
    Encontramos sua porta aberta como sempre, e entramos discretamente,
mas ela  nos viu logo.
    Assim que a vi, senti um desejo confrangedor por um certo tipo de
intimidade, ou seja, queria contar-lhe tudo o que acontecera! Obviamente
isso  era proibido,  e aprender a am-la sem confiar nela - isso era
algo que Marius insistia que eu aprendesse.
    Ela se levantou e veio a meu encontro, e envolveu-me em seus braos,
 aceitando os costumeiros beijos ardentes. Vi logo por que Marius
insistira em  duas vtimas  para aquela noite. Eu estava quente e corado
de sangue.
    Bianca no sentiu nada que a assustasse. Passou os braos macios em
volta de  meu pescoo. Estava radiosa com um vestido de seda amarela e
de veludo verde- escuro, o vestido de baixo amarelo, salpicado de rosas
bordadas, e tinha os seios  brancos precariamente cobertos como s uma
cortes os teria.
    Quando comecei a beij-la, tomando cuidado para esconder dela minhas
 pequenas presas, eu no sentia fome porque o sangue de minhas vtimas
fora mais  que suficiente. Beijei-a com amor e s com amor, rapidamente
pensando em trridas lembranas  erticas, o corpo certamente
demonstrando a urgncia que tivera com ela no  passado. Eu queria
apalp-la toda, como um cego poderia apalpar uma escultura, para  melhor
ver cada curva com as mos.
    - Ah, voc no est apenas bem, est esplndido - disse Bianca. -
Voc e  Marius, entrem, venham, vamos para aquela sala. - Ela fez um
gesto displicente  para  os convidados, que de qualquer maneira estavam
entretidos, conversando, discutindo, jogando  cartas em pequenos grupos.
Ela nos levou para sua sala mais ntima contgua a  seu quarto, um
aposento atulhado de cadeiras e sofs de damasco medonhamente caro, e
mandou  que eu sentasse.
    Eu me lembrava das velas, lembrava quejamais devia me aproximar
demais  delas, mas devia usar as sombras para que nenhum mortal tivesse
a oportunidade  ideal de  estudar minha pele diferente e mais perfeita.
    Isso no foi muito difcil, pois, mesmo gostando de claridade e
tendo uma  queda pelo luxo, ela mandara espalhar os candelabros para
criar um ambiente. A  falta  de luz tambm faria com que se notasse
menos o brilho de meus olhos; eu sabia disso tambm. E quanto mais eu
falava mais animado eu ficava,  mais humano eu parecia.
    A quietude era um perigo para ns quando estvamos entre mortais,
Marius me  ensinara, pois na quietude parecemos perfeitos e
sobrenaturais e finalmente at  ligeiramente horrveis aos mortais, que
sentem que no somos o que parecemos. Segui todas essas regras. Mas
estava nervoso por no poderjamais lhe contar o  que fora feito comigo.
Comecei a falar. Expliquei que a doena fora inteiramente  debelada, mas
que Marius, muito mais sbio do que qualquer mdico, ordenara isolamento
e  repouso. Quando eu no estava de cama, estava sozinho, lutando para
recobrar as  foras. - Aproxime-se ao mximo da verdade, para mentir
melhor - ensinara Marius. Agora  eu seguia essas palavras.
    - Ah, mas achei que tivesse perdido voc - disse ela. - Quando voc
mandou  dizer, Marius, que ele estava se recuperando, a princpio no
acreditei em voc.  Achei que queria suavizar a verdade inevitvel.
    Que linda ela era, uma flor perfeita! Seu cabelo louro era repartido
ao  meio, com uma mecha grossa de cada lado enrolada com prolas e presa
atrs com  uma presilha tambm incrustada de prolas. O resto de seu
cabelo caa  la Botticelli, em louras ondas luzidias at os ombros.
    - Voc o curou mais completamente do que qualquer ser humano poderia
ter  curado - disse-lhe Marius. -Minha tarefa foi lhe dar uns remdios
antigos que s  eu  conheo. E depois deixar esses remdios agirem. -
Ele falou com simplicidade, mas achei-o  triste.
    Uma tristeza terrvel apoderou-se de mim. Eu no podia contar a ela
o que eu  era, nem como ela estava diferente, como parecia ricamente
opaca com sangue  humano  comparada a ns, e como sua voz adquirira para
mim um novo timbre que era puramente humano  e atiava delicadamente
meus sentidos se ela dissesse uma s palavra.
    -Bem, vocs dois esto aqui, e precisam vir sempre-disse ela.-Nunca
mais  deixem uma separao dessas ocorrer. Marius, eu quis procur-lo,
mas Riccardo me  disse  que voc queria paz e sossego. Eu teria tratado
de Amadeo em qualquer estado.
    -Eu sei, minha querida-disse Marius.-Mas, como eu disse, ele estava
precisando era de isolamento, e sua beleza intoxica e talvez voc nem
perceba o  quanto suas  palavras so estimulantes. - Isso no foi dito
em tom de lisonja mas soou como uma  confisso sincera.
    Ela abanou a cabea um tanto triste.
    - Descobri que Veneza no  meu lar se voc no estiver aqui. - Ela
olhou  cautelosamente para a ante-sala e passou a falar num tom de voz
baixo. - Marius, voc me libertou daqueles que tinham poder sobre mim.
    - Foi simplssimo - disse ele. - Foi um prazer, na verdade. Que
grosseiros  eram aqueles homens, seus primos, se no me engano, e
ansiosos para usar voc e  sua  fama de grande beleza em suas
negociatas.
    Ela corou, e ergui a mo para lhe pedir que tivesse cuidado com as
palavras.  Eu sabia agora que, durante o massacre do salo de banquetes
florentino, ele  havia  lido na mente das vtimas toda a sorte de coisas
que eu desconhecia.
    - Primos? Talvez - disse ela. - Eu convenientemente esqueci isso.
Que eram  um terror para quem eles atraam oferecendo emprstimos
altssimos e  oportunidades  arriscadas, isso eu posso dizer sem sombra
de dvida. Marius, as coisas mais estranhas  aconteceram, coisas que eu
nunca imaginara.
    Eu gostava do ar srio em suas feies delicadas. Ela parecia linda
demais  para ter crebro.
    - Estou mais rica - disse ela - j que posso ficar com a maior parte
de  minha prpria renda, e outras pessoas (essa  a parte estranha),
outras pessoas,  agradecidas pelo desaparecimento de nosso banqueiro e
de nosso extorsionrio, cumularam-me  de presentes de ouro ejias, sim,
at este colar, olhe, e voc sabe que essas  so todas prolas do mar e
do mesmo tamanho, e este colar  uma verdadeira fieira  delas, veja, e
eu ganhei tudo isso, embora tenha afianado mil vezes no ter  sido a
mandante da execuo.
    - Mas e a culpa? - perguntei. - E o perigo de uma acusao pblica?
    - Eles no tm quem os defenda nem quem chore por eles - disse ela
depressa.  Plantou-me mais uma srie de beijos no rosto. - E hoje, os
amigos que tenho no Grande Conselho  estavam aqui como sempre, para ler
alguns poemas novos para mim e ficar  sossegados onde pudessem encontrar
um descanso dos clientes e das interminveis exigncias  de suas
famlias. No, no acho que serei acusada de coisa alguma, e, como 
sabido, na noite dos assassinatos, eu estava aqui com aquele ingls
horrvel, Amadeo,  aquele mesmo que tentou mat-lo, que naturalmente...
    - Sim, o qu? - perguntei.
    Marius apertou os olhos ao olhar para mim. Fez um pequeno sinal,
batendo na  testa com o dedo enluvado. Leia a mente dela, queria dizer.
Mas eu no podia  pensar  em tal coisa. O rosto dela era lindo demais.
    - O ingls que desapareceu - disse ela. - Acho que se afogou pora,
que  estava andando por a embriagado e caiu num canal ou, pior ainda,
na laguna.  Naturalmente  o Mestre me havia dito que cuidara de todos os
nossos problemas com o ingls, mas eu nunca lhe perguntara
especificamente de que  forma.
    - Ento acham que voc contratou matadores para liquidar os
fforentinos? -  perguntou-lhe Marius.
    - Parece que sim - disse ela. - E h at quem ache que eu tambm
liquidei o  ingls. Tornei-me uma mulher bastante poderosa, Marius.
    Ambos riram, sendo a dele a gargalhada profunda e metlica de um ser
 preternatural, e a dela uma gargalhada mais alta e mais consistente com
o som de  seu sangue humano.
    Eu queria entrar na mente dela. Tentei, mas logo descartei a idia.
Estava  inibido, exatamente como ficava com Riccardo e os rapazes com
quem eu tinha mais  intimidade.
    De fato, parecia uma invaso to terrvel da privacidade da pessoa
que eu s  usava esse poder quando estava caando para achar aqueles que
eram maus e que eu  devia matar.
    - Amadeo, voc est corando, o que ? - perguntou Bianca. - Suas
faces esto  escarlates. Deixe-me beij-las. Ah, voc est quente como
se a febre tivesse  voltado.
    - Olhe nos olhos dele, anjo - disse Marius. - So transparentes.
    - Voc tem razo - fitou-me com uma curiosidade to meiga e to
franca que a  tornava irresistvel para mim.
    Afastei a seda amarela de seu vestido de baixo e o pesado veludo
verdeescuro  de seu corpete sem manga e beijei-lhe o ombro nu.
    - Sim, voc est bem - ela amorosamente encostou os lbios midos em
meu  ouvido.
    Eu ainda estava corado quando recuei.
    Olhei para ela e entrei em sua mente; parecia que eu soltara o
prendedor de  ouro entre seus seios e separara suas volumosas saias de
veludo verde-escuro.  Contemplei a fenda entre seus seios semi-expostos.
Sangue ou no sangue, eu me lembrava de  uma paixo trrida por ela, e
sentia isso agora de uma estranha maneira global,  no localizada no
rgo esquecido como era antes. Eu queria pegar seus seios e  chup-los
lentamente, excitando-a, deixando-a molhada e perfumada para mim e
fazendo sua cabea cair para trs. Sim, corei. Um desfalecimento doce e
confuso me dominou.
    Quero vocs, quero vocs, voc e Marius, os dois em minha cama,
juntos, um  homem e um menino, um deus e um querubim. Isso era o que sua
mente estava me  dizendo, e ela estava lembrando de mim. Vi-me como se
num espelho esfumaado, um garoto  nu a no ser por uma camisa aberta de
mangas compridas, sentado nas almofadas ao  lado dela, exibindo o rgo
semi-ereto, sempre pronto para ser completamente excitado  por seus
lbios ternos ou suas mos brancas esguias e graciosas.
    Tirei isso tudo da cabea. Concentrei meu olhar s em seus belos
olhos  amendoados. Ela me estudou, sem desconfiana mas fascinada. Seus
lbios no  estavam pintados de uma maneira vulgar qualquer mas eram
naturalmente rosados, e suas longas  pestanas, escurecidas e enroladas
apenas com uma pomada transparente, pareciam pontas de estrelas em volta
de seus olhos  radiosos.
    Quero vocs, quero vocs. Estes eram seus pensamentos. Eles batiam
em meus  ouvidos. Abaixei a cabea e ergui as mos.
    - Anjos queridos - disse ela. - Vocs dois! - murmurou para Marius.
Pegou  minhas mos. - Venham comigo.
    Eu tinha certeza de que ele -ia levar aquilo at o fim. Ele me
alertara  para evitar ser observado de perto. Mas ele s se levantou da
cadeira e dirigiu- se ao  quarto, abrindo as duas portas pintadas.
    Das salas distantes, ouvia-se o burburinho das conversas e das
risadas:  Agora se cantava. Algum tocava virginal. Tudo isso
prosseguia.
    Fomos para a cama dela. Eu tremia todo. Vi que o Mestre estava
vestido com  uma grossa tplica e um belo gibo azul-escuro que eu mal
notara antes. Usava  luvas macias de um azul-escuro, perfeitamente
ajustadas a seus dedos, e tinha as  pernas completamente cobertas com
meias de cashmere macio que chegavam at os  belos sapatos pontiagudos.
Ele havia coberto toda a superfcie dura, pensei.
    Tendo encostado na cabeceira da cama, Marius no se constrangeu de
aj udar  Bianca a sentar-se bem a seu lado. Olhei para o outro lado
quando me instalei  junto  a ela. Quando ela se virou para mim,
segurando meu rosto e tornando a me beijar  avidamente, vi-o fazer algo
que eujamais tinha visto.
    Levantando o cabelo dela, pareceu beij-la na nuca. Isso ela no
sentiu nem  acusou. Quando ele recuou, porm, seus lbios estavam
sanguinolentos. E erguendo  o dedo da mo enluvada, ele passou esse
sangue, o dela, s umas gotinhas de um corte  superficial, sem dvida,
no rosto todo. A mim isso pareceu um reflexo vivo, e a  ela pareceria
algo muito diferente.
    Avivava os poros da pele dele, que haviam ficado quase invisveis, e
 aprofundava algumas rugas em volta de seus olhos e de sua boca, as
quais, no  fosse por  isso, eram invisveis. Dava-lhe um ar mais
humano, em geral, e servia como uma  barreira para o olhar dela, que
agora estava to prximo.
    - Tenho meus dois, como sempre sonhei - disse ela baixinho.
    Marius colocou-se diante dela, e, abraando-a, comeou a beij-la
mais  avidamente do que eujamais a beijara. Por alguns instantes, fiquei
espantado e  com cimes, mas ento a mo livre dela me puxou mais para
perto, e ela se virou para mim,  tonta de desejo, e me beijou tambm.
    Marius puxou-me parajunto dela, de modo que eu estava encostado em
suas  curvas macias, sentindo tdo o calor que emanava de suas coxas
voluptuosas. Ele  estava  em cima dela, mas com leveza, sem deixar seu
peso machuc-la, e, com a mo direita, levantou-lhe as saias e passou os
dedos entre suas pernas.
    Aquilo era ousadssimo. Fiquei encostado no ombro dela, olhando para
a  elevao de seus seios, e, mais adiante, o pequeno monte coberto de
seu sexo  onde a mo  dele estava pousada.
    Ela deixara para trs todo decoro. Ele lhe beijava o pescoo e os
seios  enquanto seus dedos pegavam suas partes baixas, e ela comeou a
se contorcer com  um desejo indisfarado, a boca aberta, pestanejando, o
corpo subitamente todo molhado e  perfumado com esse calor novo.
    Este era o milagre, percebi, um ser humano ser levado a essa
temperatura  mais elevada, e assim exalar todos os seus doces aromas e
at emitir um brilho  invisvel e forte de emoes; era como alimentar o
fogo at as labaredas crescerem.
    O sangue de minhas vtimas fervilhava em meu rosto enquanto eu a
beijava. Parecia transformar-se novamente em sangue vivo, aquecido por
minha  paixo, e, no entanto, minha paixo no tinha qualquer foco
demonaco. Apertei a boca contra a pele de  sua garganta, cobrindo o
local onde a artria aparecia como um rio azul a descer de sua cabea.
Mas eu no queria machuc-la. No sentia necessidade disso. Na  verdade,
s senti prazer ao abra-la, ao enfiar o brao entre ela e Marius,
para poder aninh-la bem enquanto ele continuava a brincar com ela, os
dedos subindo e  descendo no montinho macio de seu sexo.
    - Voc me provoca, Marius - murmurou ela, agitando a cabea. O
travesseiro  estava molhado embaixo dela e impregnado com o perfume de
seu cabelo. Beijei  seus  lbios. Eles se colaram  minha boca. Para no
deixar sua lngua descobrir meus dentes  vampricos, introduzi minha
lngua nela. Sua boca de baixo no podia ser mais  doce, mais apertada,
mais molhada.
    - Ah, ento isso, minha doura - disse Marius ternamente, os dedos
deslizando dentro dela.
    Ela ergueu os quadris, como se os dedos a estivessem levantando como
ela  queria que levantassem.
    - Ah, que Deus me ajude - murmurou ela, e ento veio a plenitude de
sua  paixo, o sangue aflorando em seu rosto, e o fogo rosado
espalhando-se por seus  seios.  Afastei o tecido e vi o rubor consumir
seu busto, seus mamilos enrijecidos como duas  passinhas.
    Fechei os olhos e fiquei deitado a seu lado. Deixei-me sentir a
paixo  balan-la, e ento ela esfriou um pouco e pareceu ficar
sonolenta. Virou a  cabea. Seu  rosto estava calmo. Suas plpebras
fechadas recobriam lindamente seus olhos. Ela  suspirou, e seus lindos
lbios se abriram com naturalidade.
    Marius afastou-lhe o cabelo do rosto como uma escova, alisando os
pequenos  caracis molhados de suor, e depois beijou-lhe a testa.
    - Agora durma, sabendo que est em segurana - disse-lhe ele. -
Cuidarei de  voc para sempre. Voc salvou Amadeo-murmurou.-Manteve-o
vivo at eu poder vir.
    Como se estivesse sonhando, ela se virou para olhar para ele, os
olhos  vidrados e lentos.
    - No sou bastante bonita para voc me amar s por isso? -
perguntou.  Percebi de repente que o que ela disse era amargo, e que ela
estava lhe fazendo  uma confidncia. Eu podia sentir os pensamentos
dela.
    - Eu a amo esteja voc vestida de ouro e prolas ou no, fale voc
com  esprito e desembarao ou no, tenha voc um lugar bem iluminado e
elegante em  que eu  possa descansar ou no, eu a amo por causa desse
seu corao a dentro, que socorreu  Amadeo mesmo sabendo do risco de os
amigos do ingls lhe fazerem mal, amo-a pela  coragem e por seu
conhecimento da solido.
    Ela arregalou os olhos por alguns instantes. - Por meu conhecimento
da solido? Ah, eu sei muito bem o que significa estar  absolutamente
s.
    - Sim, corajosa, e agora voc sabe que a amo - murmurou ele. - Voc
sempre  soube que Amadeo a amava.
    - Sim, eu a amo - assenti, deitado a seu lado, abraando-a. - Bem,
agora  voc sabe que tambm o amo.
    Ela o estudou como pde naquele seu langor.
    - Tenho tantas perguntas na ponta da lngua - disse.
    - Elas no tm importncia - disse Marius. Ele a beijou e acho que
deixou os  dentes encostarem em sua lngua. - Tiro todas as suas
perguntas e as jogo fora.  Agora durma, corao virginal - disse ele. -
Ame quem voc quiser, em segurana nesse amor  que sentimos por voc.
    Era o sinal para a retirada.
    Enquanto eu estava ao lado do p da cama, ele a cobriu com as
cobertas  bordadas, tendo o cuidado de dobrar o rico lenol de linho
flamengo sobre a borda mais spera do cobertor branco de l, e beijou-a
de novo, mas ela parecia uma menininha,  delicada e segura, e ferrada no
sono.
    L fora, quando estvamos na beira do canal, ele levou a mo
enluvada ao  nariz e saboreou o perfume dela que a ficara.
    - Voc aprendeu muito hoje, no? No pode lhe dizer nada a respeito
de quem  . Mas v quo perto pode chegar?
    -  - disse eu. - Mas s se eu no quiser nada em troca.
    - Nada? - perguntou ele. Lanou-me um olhar de reprovao. - Ela lhe
deu  lealdade, afeio, intimidade; o que mais voc poderia querer em
troca?
    - Agora nada - disse eu. - Voc me ensinou muito bem. Mas o que eu
tinha antes era a compreenso dela, o fato de ela ser um espelho no qual
eu  podia estudar minha imagem e assim julgar meu prprio crescimento.
Ela agora no  pode ser esse espelho, pode?
    - Pode, de muitas maneiras. Mostre-lhe por gestos e palavras simples
quem  voc . No precisa lhe contar histrias de bebedores de sangue
que s a  enlouqueceriam. Ela pode reconfort-lo maravilhosamente bem
sem jamais saber o que lhe faz mal.  E voc precisa lembrar que
dizer-lhe tudo seria destrula. Imagine isso.
    Fiquei calado durante um bom tempo.
    - Aconteceu alguma coisa com voc - disse ele. - Voc est com esse
ar  solene. Fale.
    - Ela pode ser transformada no que ns...
    - Amadeo, voc me leva a outra lio. A resposta  no.
    - Mas ela envelhecer e morrer, e...
    - Claro que sim, como  para acontecer. Amadeo, quantos de ns podem
 existir? E baseados em que haveramos de traz-la para ns? E
haveramos de  quer-la como  companheira para sempre? Haveramos de
quer-la como nossa pupila? Haveramos de querer os  gritos dela se o
sangue mgico a enlouquecesse? No  para qualquer pessoa esse  sangue,
Amadeo. Exige uma grande fora e um grande preparo, coisas que encontrei
em  voc. Mas no vejo nela.
    Concordei com a cabea. Eu sabia o que ele queria dizer. Eu no
precisava  pensar em tudo o que me acontecera, nem sequer me lembrar do
rstico bero da  Rssia  onde fui criado. Ele estava certo.
    - Voc vai querer dividir esse poder com eles todos - disse. - Saiba
que no  pode. Saiba que, com cada um que voc cria, vem uma obrigao
terrvel e um  perigo  terrvel. Os filhos se insurgem contra os pais, e
com cada bebedor de sangue que voc  cria, voc cria um filho que viver
eternamente sentindo amor por voc ou dio.  Sim, dio.
    - No precisa dizer mais nada - murmurei. - Eu sei. Eu entendo.
    Fomos para casajuntos, para os sales iluminadssimos do palazzo. Eu
soube ento o que ele queria de mim, que eu me misturasse aos rapazes,
meus  velhos amigos, que eu fosse especialmente gentil com Riccardo, que
se culpava,  logo percebi, pela morte daqueles poucos indefesos que o
ingls matara naquele dia  fatdico.
    - Finja, e ganhe mais fora a cada fingimento - ele me disse no
ouvido. -Ou  melhor, aproxime-se, seja amoroso e ame, sem se dar ao luxo
da honestidade  completa. Pois o amor pode ligar tudo.

-- 13 --

    Nos meses seguintes, aprendi mais do quejamais poderei contar aqui.
Estudei  vigorosamente, e prestei ateno at no governo da cidade, que
achei basicamente enfadonho como qualquer governo, e li avidamente os
grandes eruditos cristos,  enchendo meu tempo com Abelardo, Duns Scotus
e outros pensadores que Marius  prezava.
    Marius tambm encontrou para mim uma pilha de livros de literatura
russa;  ento, pela primeira vez, pude estudar em livros o que eu s
conhecia das  canes de  meus tios e de meu pai no passado. A princpio
julguei que isso seria muito penoso  para uma investigao sria, mas
Marius ditava as ordens e com sabedoria. O  valor inerente do tema logo
absorveu minhas dolorosas recordaes, resultando num conhecimento  e
num entendimento maiores.
    Todos esses documentos eram em eslavo eclesistico, a lngua escrita
de  minha infncia, e logo passei a l-los com uma facilidade
extraordinria. O  poema das  campanhas de Igor me deleitava, mas eu
tambm gostava dos escritos, traduzidos do grego,  de So Joo
Crisstomo. Eu tambm me deliciava com as fantsticas histrias do  rei
Salomo e da descida da Virgem ao Inferno, obras que no faziam parte do
Novo  Testamento aprovado, mas que eram muito evocativas da alma russa.
Li nossa  grande crnica, A histria dos anos passados. Li tambm Orao
sobre a queda da Rssia e a  Histria da destruio de Riasan.
    Este exerccio, a leitura de minhas histrias nativas, ajudou-me a
comparlas com outras coisas que aprendi. Em suma, tirou-as do reino dos
sonhos  pessoais.
    Aos poucos, fui vendo a sabedoria que havia nisso. Eu escrevia meus
relatrios para Marius com mais entusiasmo. Pedi mais manuscritos em
eslavo  eclesistico,  e logo tive para ler a Narrativa do piedoso
prncipe Dovmont e sua coragem e As  hericasfaanhas de Mercurius de
Smolerrsk. Finalmente, acabei considerando um  puro prazer as obras em
eslavo eclesistico, e guardava-as para depois do horrio de estudo
oficial, quando eu podia desfiar as velhas lendas e at inventar a
partir delas  minhas prprias canes tristes.
    s vezes, eu cantava essas canes para os outros aprendizes quando
eles iam  dormir. Eles achavam a lngua muito extica, e s vezes
bastavam a msica e  minha  inflexo triste para faz-los chorar.
    Riccardo e eu, enquanto isso, voltamos a ser grandes amigos. Ele
nunca  perguntou por que eu agora era uma criatura noturna como o
Mestre. Nunca  mergulhei nas  profundezas de sua mente. Obviamente eu
mergulharia se fosse para minha segurana ou pela  segurana de Marius,
mas eu usava minha inteligncia vamprica para explic-lo  de outra
maneira, e sempre achei-o dedicado, discreto e leal.
    Certa vez perguntei a Marius o que Riccardo achava de ns.
    - Riccardo me deve muito para questionar qualquer coisa que eu faa
- respondeu Marius, mas sem qualquer arrogncia.
    - Ento ele  muito mais bem-educado do que eu, no? Pois eu lhe
devo a  mesma coisa e questiono tudo o que voc diz.
    - Voc  um diabinho esperto e maldoso mesmo. - Marius concedeu com
um  sorrisinho. - Riccardo tinha um pai bbado que o perdeu numjogo de
cartas para  um mercador  selvagem que o fazia trabalhar noite e dia.
Riccardo odiava o pai, e voc nunca odiou o  seu. Riccardo tinha oito
anos quando o comprei por um colar de ouro. Elej havia  visto o que
havia de pior de homens em quem os filhos no despertam uma piedade
natural. Voc viu o que os homens so capazes de fazer com o corpo dos
filhos  por prazer. No  to ruim. Riccardo, sem conseguir acreditar
que uma criana novinha  pudesse despertar a compaixo de algum, no
acreditava em nada at eu lhe dar  um abrigo seguro e ench-lo de
cultura e dizer-lhe em termos com os quais ele podia contar  que ele era
meu prncipe.
    "Mas, para lhe responder mais de acordo com a forma de sua pergunta,
 Riccardo acha que sou mgico, e que, com voc, resolvi partilhar meus
encantos.  Ele sabe  que voc estava quase morrendo quando lhe confiei
meus segredos, e que no o provoco  nem provoco os outros com essa
honra, mas antes a considero como a lgo de  terrveis conseqncias. Ele
no est atrs do nosso conhecimento. E dar a vida para nos  defender."
    Aceitei isso. Eu no sentia a necessidade de confiar em Riccardo
como sentia  de confiar em Bianca.
    - Sinto necessidade de proteg-lo - disse eu ao Mestre. - Rogo para
que ele  nunca precise me proteger.
    - Sinto a mesma coisa - disse Marius. - Sinto isso por todos eles.
Deus foi  muito misericordioso com o seu ingls fazendo com que ele no
estivesse vivo  quando  cheguei em casa e encontrei meus pequenos
assassinados por ele. No sei o que eu teria  feito. O fato de ele t-lo
feridoj foi suficientemente ruim. O fato de ter  depositado dois
sacrifcios infantis a seu orgulho e a sua amargura  minha porta foi
ainda mais desprezvel. Voc fez amor com ele e podia lutar  com ele.
Mas os meninos que estavam no caminho dele eram inocentes.
    Fiz que sim com a cabea.
    - O que aconteceu com os restos mortais dele? - perguntei.
    - Uma coisa to simples - disse ele encolhendo os ombros. - Por que
deseja  saber? Eu tambm posso ser supersticioso. Piquei-o em pedacinhos
e espalhei os  pedacinhos ao vento. Se as velhas lendas forem
verdadeiras ao dizerem que a sombra dele  suspira pela restaurao do
corpo, ento a alma dele vaga nos ventos.
    - Mestre, o que acontecer com nossas sombras se nossos corpos forem
 destrudos?
    - S Deus sabe, Amadeo. Eu no tenho esperanas de saber. J vivi
muito para  pensar em me destruir. Meu destino talvez seja o mesmo de
todo o mundo fsico.  Que  tenhamos vindo do nada e voltemos para o nada
 algo inteiramente possvel. Mas vamos  gozar nossas iluses de
imortalidade, como os mortais gozam as deles.
    timo. O mestre ausentou-se duas vezes do palazzo, quando partiu
naquelas  viagens misteriosas que ele no me explicaria agora mais do
que j explicara. Eu odiava essas ausncias, mas sabia que elas serviam
para testar meus poderes.  Eu precisava governar a casa com delicadeza e
discrio, e precisava caar  sozinho e fazer um relato, quando Marius
voltasse, do que eu havia feito com meu tempo  de lazer.
    Depois da segunda viagem, ele voltou cansado e mais triste que o
normal.  Disse, comoj havia dito uma vez, que "Aqueles Que Deviam Ser
Guardados"  pareciam estar em paz.
    - Odeio o que essas criaturas so! - exclamei.
    - No, nunca me diga uma coisa dessas, Amadeo! - explodiu ele.
  Num relance, vi-o mais furioso e descontrolado do que nunca em nossas
vidas.  No tenho certeza se algum dia o vi realmente furioso.
    Ele se aproximou de mim e eu recuei, realmente com medo. Mas na hora
em que  me esbofeteou com fora, ele j estava senhor de si, e aquilo
foi apenas o golpe  de sempre para sacudir o crebro.
    Aceitei-o e lancei-lhe um fulminante olhar exasperado.
    - Voc age como criana - disse eu -, uma criana bancando o
dominador, e  assim eu preciso dominar meus sentimentos e agentar isso.
Obviamente gastei  todas  as minhas reservas para dizer isso,
especialmente quando minha cabea estava rodando, e fechei o rosto com
uma mscara to dura de  desprezo que de repente ele desatou a rir.
    Comecei a rir tambm.
    - Mas realmente, Marius - disse eu, sentindo-me muito atrevido -, o
que so  essas criaturas de quem voc fala? - Dei um tom simptico e
reverente  minha  sapincia. Afinal de contas, minha pergunta era
sincera. - Voc volta para casa infelicssimo, Mestre. Sabe que volta.
Ento o que elas so, e por que  precisam ser preservadas?
    - Amadeo, no me faa mais perguntas. s vezes, justo antes do
amanhecer,  quando meus medos so maiores, imagino que temos inimigos
entre os bebedores de  sangue, e que eles esto perto.
    - Outros? Fortes como voc?
    - No, os que vieram nos ltimos anos no so fortes como eu, e 
por isso  que eles se foram.
    Eu estava fascinado. Elej havia dado a entender isso, que mantinha
nossa  rea livre dos outros, mas no aprofundava o assunto, e agora
parecia que a  tristeza  o havia amaciado e ele estava disposto a falar.
    - Mas imagino que haja outros, e que eles viro perturbar nossa paz.
No  tero uma boajustificativa. Nunca tm. Vo querer caar na Vencia,
ou tero  formado  um batalhozinho obstinado, e tentaro nos destruir
por puro esporte. Imagino...  mas a questo , meu filho, e voc  meu
filho, seu esperto!, no lhe digo mais  do que o que voc precisa saber
sobre os mistrios antigos. Assim, ningum pode  vasculhar sua mente de
aprendiz  procura de seus segredos mais profundos, com a  sua
cooperao ou sem o seu conhecimento, ou contra a sua vontade.
    - Se temos uma histria digna de ser conhecida, Mestre, voc deve me
contar. Que mistrios antigos? Voc me prende no meio de livros sobre
histria  humana. Obrigou-me a aprender grego e at essa miservel
escrita egpcia, que  ningum conhece, e vive me argindo sobre o
destino da Roma e da Atenas da Antigidade.  E sobre as batalhas de cada
Cruzada enviada de nossas costas  Terra Santa. Mas  e ns?
    - Sempre aqui - disse ele. - Eu lhe falei. Antigos como a prpria
humanidade. Sempre aqui, e sempre poucos, e sempre lutando e lutando
melhor  quando esto sozinhos e s tendo necessidade do amor de um ou
dois outros no mximo. A histria  essa, clara e simples. Espero que a
escreva para mim nas  cinco lnguas que sabe.
    Ele sentou-se na cama, desgostoso, deixando a bota enlameada
encostar no  cetim. Caiu para trs nos travesseiros. Estava realmente
rude e estranho e  parecendo  um jovem.
    - Marius, vamos l - insisti. Eu estava na escrivaninha. - Que
mistrios  antigos? O que so Aqueles Que Deviam Ser Guardados?
    - V procurar em nossas masmorras, menino - disse ele, com um tom
sarcstico. - Encontre as esttuas que tenho da chamada poca pag. Voc
encontrar coisas to teis como Aqueles Que Deviam Ser Guardados.
Deixeme em  paz. Uma noite dessas, eu lhe contarei, mas, por ora,
dou-lhe o que conta. Em  minha ausncia era suposto voc estudar.
Conte-me o que aprendeu.
    Ele de fato havia mandado que eu aprendesse tudo sobre Aristteles,
no nos  manuscritos que eram moeda corrente na praa, mas num texto
antigo que ele  possua  e que, segundo dizia, era grego mais puro. Eu
lera tudo.
    - Aristteles - disse eu. - E Santo Toms de Aquino. Ah, bem,
grandes  sistemas do conforto, e quando nos sentirmos entrando em
desespero, devemos  conceber grandes  esquemas a partir do nada que nos
cerca, e a no escorregaremos, mas ficaremos  pendurados num cadafalso
criado por ns, to sem sentido quanto o nada, mas  muito detalhado para
ser descartado com tanta facilidade.
    - Muito bem - disse ele com um suspiro eloqente. - Talvez alguma
noite, num  futuro longnquo, voc tenha uma atitude mais esperanosa,
mas como voc no  pode  estar mais animado e feliz do que est, por que
devo reclamar?
    - Temos que ter alguma origem - disse eu, forando a outra questo.
Ele  estava abatido demais para responder.
    Finalmente, reanimou-se, levantando-se dos travesseiros e vindo em
minha  direo.
    - Vamos sair. Vamos encontrar Bianca e vesti-la de homem. Traga suas
 melhores roupas. Ela precisa ser libertada por uns tempos daqueles
sales. 
    - Mestre, talvez isso seja um grande choque para voc, mas Bianca,
como muitas mulheres,j tem esse hbito. Fantasiada de garoto, ela vive
saindo para  rondar pela cidade.
     - Sim, mas no conosco - disse ele. - Vamos lhe mostrar os piores
lugares! - Ele fez uma cara teatral cmica. - Vamos.
     Eu estava excitado.
    To logo lhe contamos o pequeno plano, ela tambm ficou excitada.
Fomos  entrando com uma braada de roupas finas, e ela imediatamente
escapuliu conosco  para  se vestir.
    - O que trouxeram para mim? Ah, vou ser Amadeo hoje  noite,
maravilha -  disse ela. 
    Saiu da sala deixando os convidados, que, como sempre, seguiram
fazendo o  que estavam fazendo sem ela, muitos homens cantando em volta
do virginal e outros discutindo  calorosamente no jogo de dados.
    Ela se despiu, ficando nua como Vnus saindo das guas. Ns dois a
vestimos  com cales azuis, tnica e gibo. Apertei-lhe o cinto, e
Marius prendeulhe o  cabelo com um chapu mole de veludo.
    - Voc  o rapaz mais bonito da regio de Vencia - disse ele
recuando. -  Algo me diz que terei que proteg-la com a nossa vida.
    - Vo mesmo me levar aos piores antros? Quero ver os lugares
perigosos! -  Jogou os braos para cima. - Dem-me o meu estilete. No
esperam que eu saia  desarmada.
    - Tenho as armas adequadas para voc - disse Marius. Ele havia
trazido uma  espada com um cinto lindamente cravejado de diamantes que
prendeu na cintura  dajovem. - Tente sacar essa espada. No  um florete
malevel.  uma espada de guerra.  Venha.
    Ela pegou o punho com as duas mos e sacou-a com um movimento largo
e  seguro.
    - Quisera ter um inimigo que estivesse pronto para morrer - exclamou
ela.
     Olhei para Marius. Ele olhou para mim. No, ela no podia ser um de
ns. 
    - Seria muito egosmo - disse-me ele no ouvido.
    No pude deixar de imaginar, se eu no estivesse morrendo depois
daquela  minha luta com o ingls, se aquela nusea com aquele suadouro
no tivessem me  derrubado, teria ele me transformado em vampiro?
    Descemos os trs correndo a escada de pedra e samos para o cais. L
estava  nossa gndola coberta  nossa espera. Marius deu o endereo.
    - Tem certeza de que quer ir l, Senhor? - perguntou o gondoleiro,
chocado  porque conhecia o bairro onde a escria dos marujos
estrangeiros se reunia,  bebia  e brigava.
    - Absoluta - disse Marius.
    Quando a gndola comeou a deslizar por aquelas guas escuras,
passei o  brao ao redor da suave Bianca. Recostado nas almofadas,
senti-me invulnervel,  imortal, certo de que nadajamais derrotaria nem
a mim nem a Marius, e que, aos nossos  cuidados, Bianca estaria sempre
segura.
    Como eu estava redondamente errado!
    Nove meses talvez tivemosjuntos aps nossa viagem a Kiev. Nove ou
dez,  talvez, no tenho como marcar o clmax por nenhum acontecimento
externo. Deixe- me dizer  apenas, antes de prosseguir para o desastre
sangrento, que Bianca esteve sempre conosco  naqueles ltimos meses.
Quando no estvamos espionando os farristas, estvamos  em nossa casa,
onde Marius a retratava, concebendo-a como esta ou aquela deusa,  como a
bblica Judite com a cabea do florentino como seu Holofernes, ou a
Virgem Maria contemplando enlevada um Menino Jesus, todas executadas na
perfeio como  qualquer imagem pintada por Marius.
    Talvez alguns desses retratos existam at hoje.
    Uma noite, quando todos dormiam menos ns trs, Bianca, prestes a
sucumbir  num div enquanto Marius pintava, suspirou e disse:
    - Gosto demais da companhia de vocs. No quero nunca voltar para
casa.
    Quisera que ela nos amasse menos. Quisera que ela no estivesse ali
na noite  fatdica de 1499,justo antes da virada do sculo, quando o
Alto Renascimento  estava no auge, para ser sempre celebrado por
artistas e historiadores, quisera que ela  estivesse a salvo quando
nosso mundo se incendiou.

-- 14 --

     Se leu O vampiro Lestat, voc sabe o que aconteceu, pois mostrei
tudo a  Lestat em vises h duzentos anos. Lestat comeou a escrever as
imagens que lhe  dei  a conhecer, a dor que partilhei com ele. E embora
agora eu proponha reviver esses horrores,  enriquecer a histria com
minhas prprias palavras, h pontos em que no posso  melhorar suas
palavras, e talvez as evoque livremente de vez em quando.
    Tudo comeou de repente. Acordei e vi que Marius havia aberto a
tampa  dourada do sarcfago. Um archote ardia atrs dele na parede.
    - Depressa, Amadeo, eles esto aqui. Querem incendiar nossa casa. 
    - Quem, Mestre? E por qu?
    Ele me arrancou do caixo reluzente, e subi correndo atrs dele para
o  primeiro andar daquela casa em runas.
    Ele estava com a capa e o capuz vermelhos, e andava to rpido que
precisei  de toda a minha energia para acompanh-lo.
    - So Aqueles Que Deviam Ser Guardados? - perguntei.
     Ele passou o brao em volta de mim, e l fomos ns para o telhado
de nosso  palcio. 
    - No, filho,  um bando de tolos bebedores de sangue, decididos a
destruir todo o trabalho que fiz. Bianca est aqui,  merc deles, e os
meninos tambm.
     Entramos pelas portas do telhado e descemos a escada de mrmore.
Subia uma  fumaa dos andares inferiores.
    - Mestre, os meninos esto gritando! - berrei.
    Bianca veio correndo para o p da escada l embaixo.
    - Marius! Marius, eles so demnios. Use sua magia! - gritou ela, os
cabelos  escorrendo do div, as roupas abertas. - Marius! - Seu gemido
ressoou pelos trs  andares do palazzo.
    - Santo Deus, as salas esto todas em chamas! - gritei. - Precisamos
de gua  para apagar isso. Mestre, as pinturas!
    Marius debruou-se no corrimo e de repente apareceu l embaixo, ao
lado  dela. Quando corri ao encontro dele, vi um bando de figuras
vestidas de negro cercarem-no, e, para meu horror, tentarem atear fogo
s suas roupas com as  tochas que brandiam, emitindo gritos medonhos e
praguejando embaixo daqueles  capuzes. De todos os cantos, vinham esses
demnios. Os gritos dos aprendizes mortais eram  terrveis.
    Marius empurrou os assaltantes, transformando seu brao num grande
arco, as  tochas rolando no cho de mrmore. Ele enrolou Bianca em sua
capa.
    - Eles querem nos matar! - gritou ela. - Querem nos queimar, Marius,
j  mataram os meninos, e outros eles capturaram!
    De repente mais daquelas figuras negras vieram correndo antes que os
 primeiros atacantes pudessem levantar-se. Vi o que eles eram. Todos
tinham as  mesmas caras  e mos brancas que ns; todos possuam o sangue
mgico. Eram criaturas como ns!
    Mais uma vez, Marius foi atacado, s para jogar todos eles longe. As
 tapearias da grande galeria estavam em chamas. Rolos de fumaa negra e
perfumada saam  das salas adjacentes. A fumaa encheu a escada. Uma
infernal luz tremeluzente  clareou de repente o local como se fosse dia.
    Atirei-me  luta com os demnios, achando-os espantosamente fracos.
E,  pegando uma daquelas tochas, avancei neles, fazendo-os recuar para
longe de mim,  exatamente como o Mestre havia feito.
    - Blasfemo, herege! - sibilou um deles.
    - Demnio idlatra, pago! - praguejou outro.
    Eles vieram, e enfrentei-os novamente, ateando fogo s suas vestes
de modo  que eles gritaram e fugiram para a segurana das guas do
canal. Mas eles eram muitos. Inmeros outros entraram na galeria
enquanto estvamos  lutando.
    De repente, para meu horror, Marius empurrou Bianca na direo da
porta de  entrada do palazzo, que estava aberta.
    - Corra, querida, corra. V para longe da casa.
    Violentamente, ele enfrentou os que queriam segui-la, correndo atrs
dela ,  derrubando-os um a um quando eles tentavam det-la, at que a vi
sair pela porta  e desaparecer.
    No havia tempo para nos certificarmos de que ela chegara a um lugar
seguro.  Outros deles haviam me cercado. As tapearias em chamas
despencavam das varas.  Esttuas eram derrubadas e quebravam ao cair no
cho. Fui praticamente arrastado por dois  dos pequenos demnios que se
agarraram a meu brao esquerdo, at eu enfiar o  archote na cara de um e
deixar o outro completamente em chamas.
    - Para o telhado, Amadeo, venha! - gritou Marius.
    - Mestre, as pinturas, as pinturas nos depsitos! - gritei.
    - Esquea as pinturas.  tarde demais. Meninos, fujam daqui, fujam
j,  salvem-se do incndio.
    Derrubando os atacantes, ele subiu a escada e me chamou do patamar
superior.
    - Venha, Amadeo, expulse-os, tenha confiana em sua fora, menino,
lute.  Chegando ao segundo andar, eu estava cercado por todos os lados,
e mal eu ateava  fogo  a um j havia outro em cima de mim, e, sem
procurar me queimar, agarraram-me os  braos e as pernas. Seguraram-me
todo, at acabarem me arrancando a tocha da  mo.
    - Mestre, deixe-me, v embora! - gritei. 
    Virei-me, esperneando e contorcendo-me, e olhei para ele l em cima,
 novamente cercado, e agora cem tochas foram mergulhadas em sua capa
enfunada, cem ties acesos golpearam seu cabelo dourado e seu rosto
branco enfurecido. Era como um enxame de insetos em chamas, e assim, com
esse  nmero e essa ttica, o enxame o imobilizou; ento, com um forte
estrondo, seu corpo  todo ficou em chamas.
    - Marius! - eu gritava e gritava, sem conseguir tirar os olhos dele,
ainda  lutando com meus captores, conseguindo soltar as pernas para logo
ser novamente  seguro por dedos frios e violentos, empurrando-os com os
braos para logo ser  imobilizado de novo. - Marius! - Esse grito saiu
de dentro de mim com toda minha  aflio e meu terror.
    Parecia que nada que eu algum dia j havia receado pudesse ser to
horroroso, to insuportvel quanto v-lo l em cima, no corrimo de
pedra,  completamente engolido pelo fogo. Em menos de um segundo, sua
silhueta esguia transformou-se num vulto  negro, e acho que vi seu
perfil, a cabeajogada para trs, enquanto seu cabelo  explodia e seus
dedos eram como pequenas aranhas negras saindo do fogo para pegar ar.
    - Marius! - gritei.
    Todo o conforto, toda a bondade, toda a esperana ardiam nessa
figura negra  que meus olhos no largavam, nem quando ela encolheu e
perdeu toda a forma  perceptvel. Marius! Minha vontade morreu.
    O que sobrou foi um vestgio, e este, como se comandado por uma alma
 secundria feita de sangue mgico e poder, continuou lutando
automaticamente.  Jogaram uma  rede em mim, uma rede de malhas de ao
to pesada e to fechada que de repente eu no conseguia ver nada, s me
sentir preso l dentro,  rolando, na mo dos inimigos. Eu estava sendo
levado da casa.
    Ouvia gritos  minha volta. Ouvia a corrida dos que me carregavam e,
quando  o vento passou uivando por ns, vi que tnhamos chegado na orla
martima. Para os pores de um navio fui carregado, os ouvidos ainda
cheios de gemidos  mortais. Os aprendizes foram presos junto comigo. Fui
jogado entre eles, seus  corpos macios e frenticos empilhados em cima
de mim e a meu lado, e eu, preso na rede,  nem sequer podia falar para
dizer palavras de consolo, e alis no tinha  palavras para lhes dar.
    Senti os remos subindo e descendo, o indefectvel chapinhar da gua,
e o  grande galeo de madeira estremeceu e zarpou para o mar aberto.
Ganhou  velocidade como  se no houvesse noite para se opor  sua
passagem, e os remadores iam remando com  uma fora e uma energia que
homens mortais no poderiam ter exigido, levando a  embarcao para o
sul.
    - Blasfemo - ouvi murmurarem em meu ouvido. Os meninos soluavam e
rezavam.
    - Parem com essas oraes mpias - disse uma fria voz preternatural
- vocs,  criados do pago Marius.Vocs morrero pelos pecados de seu
senhor, vocs todos.
    Ouvi uma risada sinistra, ressoando como uma trovoada baixa a
sobressair  entre os sons midos e abafados de sua aflio e seu
sofrimento. Ouvi uma  gargalhada  demorada, seca e cruel.
    Fechei os olhos, entrei profundamente dentro de mim. Estava deitado
na terra  do Mosteiro das Covas, um espectro de mim mesmo, tombando nas
mais seguras e  mais  terrveis das recordaes.
    - Meu Deus - murmurei sem mover os lbios -, salvai-os, ejuro-vos
que hei de  me enterrar vivo entre os monges para sempre, renunciarei a
todos os prazeres,  no  farei nada seno louvar Vosso Santo Nome.
Senhor Deus, libertaime. Senhor, Deus... -  Mas quando a loucura do
pnico me dominou, quando perdi completamente a noo de tempo e espao,
chamei por Marius. - Marius, pelo amor de Deus, Marius!
    Algum me bateu. Um p com um calado de couro chutou-me a cabea.
Outro, as  costelas, outro ainda pisou-me a mo. Eu estava cercado
desses ps perversos,  chutando-me e machucando-me. Amoleci. Vi os
choques dos golpes como tantas cores, e pensei  com amargura, ah, que
lindas cores, sim, cores. Ento vieram os gemidos mais  fortes de meus
irmos. Eles tambm precisam sofrer isso, e que refgio mental eles tm,
esses jovens estudantes frgeis, todos to bem-amados e to
bem-ensinados e  preparados para o grande mundo, para se encontrarem
agora  merc desses demnios cujo  objetivo eu desconheo, cujo
objetivo est alm de qualquer coisa que eu possa  conceber.
    - Por que fazer isso conosco? - murmurei.
    - Para castig-lo! - murmurou delicadamente uma voz. - Para
castiglo por  todos os seus atos fteis e herticos, pela vida mundana
e mpia que voc  levava. O  que  o Inferno comparado a isso, jovem?
    Ah, os executores do mundo mortal diziam isso mil vezes quando
levavam os  hereges para a fogueira.
    - O que  o fogo do Inferno comparado a esse breve sofrimento? - Ah,
essas  mentiras hipcritas e arrogantes.
    - Acha isso? - perguntou a voz. - Cuidado com seus pensamentos,
jovem, pois  h aqueles que podem vasculhar sua mente desprovida de
todos os seus  pensamentos.  Pode no haver Inferno para voc, filho,
mas haver sofrimento eterno. Suas noites de  luxo e lascvia
terminaram. A verdade o aguarda.
    Mais uma vez, recolhi-me a meu esconderijo mental mais profundo. Eu
j no  tinha mais corpo. Estava deitado no mosteiro, no cho, sem
sentir o corpo. Pus a  mente para trabalhar no tom das vozes a meu
redor, vozes to doces e dignas de pena.  Reconheci os meninos pelo nome
e contei-os lentamente. Mais da metade de nossa  companhia, nossa
esplndida companhia angelical, estava nessa abominvel priso.
    No escutei Riccardo. Mas depois, quando nossos captores
interromperam  temporariamente seus abusos, ouvi Riccardo, sim. Ele
entoava uma ladainha em latim, num murmrio cru e desesperado.
    - Bendito seja Deus.
     Os outros respondiam depressa.
    - Bendito seja Seu Santo Nome.
     E assim prosseguiram as preces, a voz se enfraquecendo gradualmente
no silncio at que s se ouvia Riccardo rezando. Eu no dei as
respostas. No entanto, ele prosseguiu, agora que seus captores
felizmente dormiam, rezando  para se consolar, ou talvez apenas para a
glria de Deus. Ele passou da ladainha ao Pater Noster, e da para as
palavras antigas e confortadoras da Ave Maria que ele repetia sem parar,
como se rezando um rosrio, sozinho, enquanto estava ali deitado, preso
no poro do navio.
    No falei nenhuma palavra com ele. Nem sequer deixei que ele
soubesse que eu  estava ali. Eu no poderia salv-lo. No poderia
consol-lo. Nem sequer poderia  explicar esse destino terrvel que nos
coube. Sobretudo eu no poderia revelar o que  vira: o Mestre morrendo,
nosso grande lder perecendo na simples e eterna agonia  do fogo.
    Eu entrara num estado de choque prximo ao desespero. Deixei minha
mente  recuperar a viso de Marius ardendo. Marius, uma tocha viva,
virando-se e contorcendo-se no fogo, os dedos erguidos para o alto como
aranhas numa labareda laranja.  Marius estava morto; Marius estava
queimado. Havia muitos deles para Marius. Eu  sabia o que ele teria dito
se tivesse vindo como um espectro consolador para mim:
     "Simplesmente, eles eram muitos para mim, Amadeo, muitos. No
consegui  det-los, embora tentasse."
    Comecei a ter pesadelos. O navio ia navegando noite adentro,
levando-me para  longe de Veneza, para longe da runa de tudo em que eu
acreditava, tudo o que me era caro.
    Acordei com vozes cantando e com o cheiro de terra, mas no era
terra da  Rssia. J no estvamos no mar. Estvamos presos em terra.
    Ainda preso na rede, escutei vozes preternaturais ocas cantando com
um  entusiasmo perverso o horrendo hino Dies Irae, ou Dias da Ira. Um
bumbo dava o ritmo animado, como se aquilo fosse antes uma msica para
danar  do que um terrvel lamento do Fim dos Tempos. As palavras em
latim prosseguiam, falando do dia em que o mundo seria transformado em
cinzas, em que as grandes  trombetas do Senhor soariam para dar o sinal
da abertura de todas as sepulturas.  A prpria morte e a natureza
estremeceriam. Todas as almas seriam reunidas,  nenhuma alma poderia
esconder qualquer coisa do Senhor. Em Seu livro, cada  pecado seria lido
em voz alta. A vingana recairia sobre todos. Quem estava l para nos
defender, seno o Juiz em Pessoa, Nosso Senhor Majestoso? Nossa nica
esperana era a misericrdia de Nosso Deus, o Deus que  sofrera na Cruz
por ns, que no permitiria que Seu sacrifcio fosse em vo.  Sim, belas
palavras antigas, mas elas saam de uma boca perversa, a boca de algum
que nem sequer conhecia seu significado, que percutia seu vido tambor
como se pronto para um festim.
    Uma noite se passara. Estivemos presos e agora estvamos sendo
libertados da  priso, enquanto a vozinha medonha cantava acompanhando
seu animado tamborzinho.
    Ouvi os sussurros dos rapazes mais velhos, procurando consolar os
mais  novos, e a voz regular de Riccardo garantindo a todos que
certamente eles logo  descobririam o que essas criaturas desejavam, e
talvez fossem soltos.
    S eu ouvi por todo lado a gargalhada sussurrada e endiabrada. S eu
sabia  quantos monstros preternaturais estavam por ali  espreita,
quando fomos levados  para o claro de uma fogueira monstruosa.
    Cortaram a rede que me prendia. Rolei, agarrando a relva. Olhei para
cima e  vi que estvamos numa grande clareira sob as estrelas luminosas
altas e  indiferentes. Era o ar de vero, e rvores altssimas e
frondosas nos rodeavam. Mas o rugido  da fogueira violenta distorcia
tudo. Os meninos, acorrentados juntos, roupas  rasgadas, rostos
arranhados e sujos de sangue, gritaram freneticamente ao ver-me, no
entanto, fui arrancado dali e seguro, um bando de demoniozinhos
encapuzados  agarrados s minhas mos.
    - No posso ajud-los! - gritei.
    Aquilo era egosta e terrvel. Vinha de meu orgulho. S causou
pnico entre  eles.
    Vi Riccardo, to maltratado quanto os outros, virando de um lado
para o  outro, tentando acalm-los, as mos atadas  frente, o gibo
quase todo rasgado  nas costas. Ele se voltou para mim, e juntos olhamos
em volta para a grande roda de figuras  com roupas escuras que nos
cercavam. Podia ele ver a brancura de seus rostos e  suas mos? Sabia
ele, instintivamente, quem eram eles?
    - Sejam rpidos se quiserem nos matar! - gritou ele. - No fizemos
nada. No  sabemos quem vocs so nem por que nos capturaram. Somos
todos inocentes.
    Fiquei comovido com a coragem dele, e pus a cabea no lugar. Eu
precisava  parar de me encolher horrorizado com aquela ltima lembrana
do Mestre, e  imagin-lo  vivo e pensar no que ele me mandaria fazer.
    Eles eram mais numerosos que ns, isso era bvio, e eu agora podia
detectar  sorrisos no rosto das figuras encapuzadas, que, apesar de
esconder os olhos,  revelavam aquelas bocas rasgadas e retorcidas.
    - Onde est o lder aqui? - perguntei, levantando a voz acima do
limite da  capacidade humana. - Naturalmente vocs vem que esses
meninos so apenas mortais! Sua questo deve ser comigo!
    As figuras vestidas de preto que compunham aquele grande cordo ali
em volta  comearam a cochichar entre si ao ouvir aquilo. As que estavam
perto do bando de  meninos acorrentados se apertaram. E com outras que
eu mal podia ver jogando mais lenha  e breu na fogueira, aquilo parecia
o inimigo preparado para agir. Dois casais se colocaram diante dos
aprendizes que, chorando e gemendo,  aparentemente no percebiam o que
aquilo significava.
    Eu vi logo.
    - Agora vocs precisam falar comigo, raciocinar comigo! - berrei,
empurrando  os que me seguravam. Para meu horror, eles apenas riram.
    De repente os tambores recomearam, alguns cem vezes mais alto do
que antes,  como se tivssemos uma roda de percussionistas em volta de
ns e do fogo  sibilante  e crepitante.
    Eles adotaram aquela batida regular do hino Dies Irae, e de repente
todas  aquelas figuras da roda se endireitaram e se deram as mos.
Comearam a cantar  as palavras em latim do terrvel dia de infortnio.
Cada figura comeou a danar  alegremente, erguendo os joelhos numa
marcha alegre enquanto centenas de vozes  cantavam as palavras do ritmo
bvio de uma dana. Aquilo era uma zombaria feia das palavras
lamentveis.
    Os tambores eram acompanhados pelo assobio agudo das flautas e pelas
batidas  insistentes dos tamborins, e, de repente, toda a roda de
danarinos, ainda de mos dadas, mexia-se, corpos balanando de um lado
para o outro da cintura  para cima, cabeas oscilando, bocas
sorridentes.
    - Deeee - sooor - demm, deee - sooor - demm! - cantavam. 
    Entrei em pnico. Mas no conseguia desvencilhar-me de meus
captores.  Gritei.
    O primeiro par de seres com aqueles hbitos negros diante dos
meninos  quebrara as correntes do primeiro deles que deveria sofrer e
atirara seu corpo  para o alto. O segundo par o pegou e, com grandes
impulsos preternaturais, atirou a criana  indefesa na fogueira.
    Com gritos de dar d, o menino caiu nas chamas e desapareceu, e os
outros  aprendizes, agora convencidos de seu destino, choraram e
soluaram loucamente,  mas  em vo. Um aps o outro, meninos eram
separados dos outros e atirados ao fogo. Eu andava  para a frente e para
trs, chutando o cho e meus adversrios. Uma vez soltei um brao para
logo ser agarrado por trs outras figuras com dedos que apertavam com
violncia. Solucei.
    - No faam isso, eles so inocentes, no os matem. No.
    Por mais alto que eu gritasse, podia ouvir os gritos dos meninos que
estavam  morrendo queimados, Amadeo, salve-nos, fosse aquele terror
final com ou sem  palavras. Finalmente, todos os vivos entoaram esse
refro:
    - Amadeo, salve-nos! - mas o bando estava reduzido  metade e logo
s  restava um quarto dos meninos, contorcendo-se e debatendo-se
enquanto eram  finalmente levantados para aquela morte indescritvel.
    Os tambores continuavam tocando, acompanhados do chocalhar dos
pandeiros e  do gemido melodioso das cornetas. As vozes faziam um coro
medonho, cada slaba  avivada com veneno  medida que o hino era
cantado.
    - Chega dessas suas coortes! - sibilou uma figura mais prxima a
mim. -  Ento voc est chorando por eles, est? Quando deveria devorar
cada um deles  pelo amor  de Deus!
    -O amordeDeus!-exclamei.-Comoousafalardoamorde Deus! Voc matou
crianas! - Consegui virar e chut-lo, machucando-o muito mais do que
ele esperava, mas como  sempre, trs outros guardas tomaram-lhe o lugar.
    Finalmente, no sinistro clangor do fogo, s restavam trs crianas
de rosto  branco, as mais novas de nossa casa, e nenhuma delas emitia um
som. Foi lgubre  o  seu silncio, rostinhos molhados e trmulos, ao
serem lanadas, olhos vidrados e  descrentes, nas chamas.
    Chamei seus nomes. A plenos pulmes, gritei:
    - No Cu, meus irmos, no Cu, vocs vo para os braos de Deus!
    Mas como seus ouvidos mortais poderiam ouvir isso com aquela msica
ensurdecedora dos cantadores.
                    De repente, percebi que Riccardo no estava entre
eles.  Riccardo escapara ou fora poupado, ou preservado para algo pior.
Franzi  o cenho  para melhor conseguir trancar esses pensamentos na
mente, receando que esses  animais se lembrassem de Riccardo. Mas fui
arrancado de  meus pensamentos e arrastado para a pira.
    - Agora voc, corajoso, pequeno Ganimedes dos blasfemos, voc, seu
querubim teimoso e descarado.
    - No!
    - Finquei p.
     Aquilo era impensvel. Eu no podia morrer daquela maneira; no
poderia ir para o fogo. Freneticamente, raciocinei comigo mesmo: mas
voc acabou de ver seus irmos morrerem, por que no voc?, e no entanto
eu no conseguia aceitar a possibilidade disso, no, no eu, eu era
imortal,  no!
    - Sim, voc, e o fogo o assar como os assou. Est sentindo o cheiro
da  carne deles assando? Dos ossos carbonizados deles? Fuijogado para o
alto por suas mos poderosas, a uma altura que me permitiu sentir  meus
cabelos ao vento, e ver o fogo de cima, sentindo suas aniquiladoras
ondas de calor baterem em meu rosto, meu peito, meus braos abertos. Fui
caindo estatelado na fogueira, naquela trovoada de lenha crepitante e
labaredas agitadas cor de laranja. Ento eu morro! Pensei,  se  que
pensei . alguma coisa, mas acho que tudo o que conheci  foi pnico e
rendio, rendio ao que seria uma dor indescritvel.  Mos me
agarraram, a lenha queimada despencando e rugindo embaixo de mim. Eu
estava sendo arrastado para fora da fogueira. Estava sendo arrastado
pelo cho. Minhas roupas em chamas estavam sendo pisadas. Minha tnica
incendiada foi arrancada. Eu arquejava. Meu corpo todo ardia, aquele
ardor terrvel  de carne queimada, e revirei calmamente os olhos
procura de esquecimento. Venha, Mestre, venha se existir um paraso
para ns, venha a mim. Visualizei-o,  queimado, um esqueleto preto, mas
ele abriu os braos para me receber. Um vulto apareceu  minha frente.
Eujazia sobre a Terra  Me mida, graas a Deus, ainda com as mos e o
rosto chamuscados e o  cabelo fumegando. O vulto tinha ombros largos,
cabelos negros, e era alto.  Ergueu duas mos brancas fortes e grossas e
tirou o capuz, revelando uma basta e lustrosa cabeleira preta. Seus
olhos eram grandes com as  esclerticas cor de prola e as pupilas
negras, e suas sobrancelhas,  embora muito grossas, eram lindamente
arqueadas sobre os olhos. Ele era vampiro, como os outros, mas um  de
singular beleza e imensa presena, olhando de cima para mim, como se
estivesse mais interessado em mim do que nele,  embora esperasse ser o
centro das atraes. Um pequeno  calafrio me percorreu, porque ele
parecia, graas a esses olhos e  boca lisa que  lembrava o arco de
Cupido, ser dotado de algo semelhante  razo humana.
    - Voc servir a Deus?- perguntou. Sua voz era culta e gentil, e
seus olhos no expressavam escrnio. - Responda- me, servir, pois se
no servir, ser jogado de volta na fogueira.
    Meu corpo todo ardia. Nenhum pensamento me ocorria a no ser que o
que ele  falava era impossvel, no fazia sentido, logo, eu no podia
dar uma resposta.  Imediatamente, seus perversos ajudantes tornaram a me
levantar, rindo, acompanhando aquele hino cantado incessantemente com
vigor.
     - Para o fogo, para o fogo!
    - No! - gritou o lder. - Vejo nele o amor puro a nosso Salvador. -
Ele  ergueu a mo. Os outros relaxaram a presso com que me seguravam
pelas pernas e  pelos  braos abertos suspenso no ar.
    - Voc  bom? - murmurei desesperado para o vulto. - Como pode ser?
-  Chorei.
    Ele se aproximou. Debruou-se sobre mim. Que beleza ele possua!
Seus lbios  cheios eram um perfeito arco de Cupido, comoj disse, mas
s agora vi sua cor  viva  e escura, natural, e a sombra regular da
barba, raspada pela ltima vez na vida  mortal, sem dvida, que cobria
suas faces e seu queixo, dando-lhe aquela mscara  vigorosa de homem.
Sua testa alta parecia feita de um osso branqussimo s por contraste,
com tmporas arredondadas e a nascente do cabelo, penteado graciosamente
para  trs, formando um bico-de-viva, constituindo uma impressionante
moldura para seu  rosto.
    Mas foram os olhos, sim, como sempre acontece comigo, os olhos que
me  atraram, os grandes olhos amendoados e faiscantes.
    - Filho - murmurou ele. - Eu iria sofrer esses horrores se no fosse
por  Deus?
    Chorei mais ainda.
    J no sentia medo. No me importava que eu estivesse em sofrimento.
A dor  era vermelha e dourada, como as chamas haviam sido, e me
percorria como se fosse  lquida, mas embora eu a sentisse, ela no me
doa, e eu no me importava.
    Sem protestar, fui levado de olhos fechados para uma passagem onde o
 arrastar dos ps das pessoas que me carregavam ecoava fracamente no
teto baixo e  nas paredes. Solto para rolar no cho, virei-me de bruos,
triste por estar num ninho de  trapos velhos sem poder sentir a umidade
da Me Terra quando eu precisava dela,  e a isso tambmj no tinha
qualquer importncia, e deitei o rosto no linho sujo e  comecei a
adormecer, como se tivesse sido posto ali para dormir.
    Minha pele escaldada era algo  parte, no algo meu. E soltei um
longo  suspiro, sabendo, embora no formasse palavras na mente, que meus
pobres meninos  estavam  em segurana na morte. O fogo no os pde ter
torturado por muito tempo, no. Estava muito quente, e certamente suas
almas devem ter fugido  para o Cu como rouxinis que tivessem entrado
naquela zona de calor fumarenta. Meus meninosj no eram da terra e
ningum lhes podia fazer mal. Todas as coisas boas  que Marius fizera
para eles, os professores, as tcnicas que lhes ensinaram, as lies que
eles aprenderam, sua dana, seu riso, seu canto, as obras que eles
pintaram - tudo isso se fora, e as almas foram para o Cu com asas
brancas e  macias.
            Teria eu ido atrs? Teria Deus recebido a alma de um bebedor
de  sangue em seu Paraso de nuvens douradas? Teria eu trocado o som
horrvel desses  demnios cantando em latim pelo reino da msica dos
anjos? Por que aqueles  prximos a mim permitem esses pensamentos em
mim? - pois certamente eles lem  meus pensamentos.
    Eu podia sentir a presena do lder, o de olhos escuros, o poderoso.
Talvez  eu estivesse aqui com ele a ss. Se ele conseguisse entender
isso, se pudesse  dar  significado a isso e assim conter ; a
monstruosidade, ele poderia ser um santo de  Deus. Vi monges imundos e
famintos em covas. Virei-me de costas,  deleitando-me na espetacular dor
vermelha e amarela que me inundou, e abri os olhos.

-- 15 --

    Uma voz doce e confortadora falou comigo, diretamente.
    - As obras fteis de seu mestre esto todas queimadas; s restam as
cinzas  das pinturas dele. Que Deus o perdoe, por ele ter usado seus
poderes sublimes  no  a servio de Deus mas sim a servio do Mundo, da
Carne e do Diabo, sim, digo o Diabo,  embora seja o Diabo quem
habitualmente nos carregue, pois o Maligno se orgulha  de ns e se
satisfaz com a nossa dor. Mas Marius serviu ao Diabo sem ter
considerao  pelos desejos de Deus, e as mercs que Deus nos concedeu,
em vez de queimar nas  chamas do Inferno, governarmos nas sombras da
terra.
    - Ah - murmurei. - Estou entendendo sua filosofia distorcida.
     No veio nenhuma reprimenda.
    Aos poucos, embora eu preferisse apenas escutar a voz, minha vista
foi  entrando em foco. Havia crnios humanos, calcinados e cobertos de
poeira,  enfiados na  abbada de terra acima. Crnios enfiados na terra
e unidos com argamassa, formando um  teto completo, como conchas do mar
calcinadas. Conchas do crebro, pensei, pois  o que sobra desses crnios
que se projetam da mistura de argamassa e barro seno a  abbada que
recobre o crebro e os orifcios redondos antes preenchidos pelos  olhos
gelatinosos, argutos como bailarinos, sempre vigilantes para relatar os
esplendores do mundo para a mente protegida pela carapaa.
    Toda de crnios, uma abbada de crnios, e, najuno da abbada com
as  paredes, um cordo de fmures a toda a volta, e abaixo do cordo, os
ossos da  forma mortal colocados a esmo, sem obedecer a um padro, como
no obedecem as pedras ligadas  com argamassa para fazer uma parede.
    Todo de ossos, esse lugar, e iluminado com velas. Sim, eu sentia o
cheiro  das velas, da mais pura cera de abelha, como para os ricos.
    - Para os ricos no - disse a voz, atenciosamente -, para a igreja,
pois  esta  a igreja de Deus, embora o Diabo seja nosso Superior Geral,
o santo  fundador  de nossa Ordem, ento por que no cera de abelha?
Voc, um veneziano ftil e mundano,  que pode achar isso um luxo,
confundir isso com a  riqueza em que voc se espojava como um porco na
lama.
    Ri baixinho.
    - Quero ouvir mais dessa sua lgica generosa e idiota - disse eu. -
Seja o  Toms de Aquino do Diabo. Fale.
    - No zombe de mim -disse ele em tom splice e sincero. -Eu o salvei
do  fogo.
    A essas horas eu estaria morto se no fosse voc.
    - Quer arder nas chamas?
    - No, sofrer assim, no. No suporto a idia de que eu ou qualquer
pessoa  deva sofrer assim. Mas morrer, sim.
    - E que destino acha que ter se morrer? O fogo do Inferno no 
cinqenta  vezes mais quente que a fogueira que acendemos para voc e
seus amigos? Voc   filho  do Inferno; desde o primeiro momento em que
o blasfemo Marius infundiu-lhe nosso  sangue. No se pode modificar
essejuzo. Voc  mantido vivo por um sangue  amaldioado, antinatural e
agradvel a Sat, e agradvel a Deus s porque Ele precisa de Sat  para
exibir Sua bondade, e para dar  humanidade uma opo entre o bem e o
mal.
    Tornei a rir, mas da forma mais respeitosa possvel.
    - Vocs so tantos - disse eu.
     Virei a cabea. As numerosas velas me ofuscaram, mas no foi
desagradvel.  Era como se as chamas daqueles pavios fossem de uma
espcie diferente da daquelas que consumiram meus irmos.
    - Esses mortais mimados eram seus irmos? - perguntou ele. Sua voz
era  firme.
    - Acredita em toda essa podrido que est me dizendo? - perguntei,
imitando  o seu tom.
    Ele riu, e foi uma risada decente e discreta, como se estivssemos
na igreja  comentando baixinho o absurdo de um sermo. Mas ali no havia
a presena do  Santo  Sacramento como haveria numa igreja consagrada,
ento por que cochichar?
    -Querido-disse ele.-Seria to simples tortur-lo, virar pelo avesso
sua  cabecinha arrogante e transform-lo apenas num instrumento de
gritos  estridentes. No  seria nada empared-lo para que seus gritos
no fossem altos demais para ns e sim  apenas um acompanhamento
agradvel para nossas meditaes de cada noite. Mas no  gosto dessas
coisas. Por isso sirvo to bem ao Diabo; nunca cheguei a gostar do mal
ou  da maldade. Desprezo essas coisas, e quisera poder olhar para um
crucifixo, eu  olharia e choraria como chorei quando era mortal.
    Fechei os olhos, abandonando todas as chamas danantes que
salpicavam a  escurido. Enviei meu poder mais forte e mais furtivo para
dentro de sua mente,  mas dei  com uma porta fechada.
    - Sim, essa  a minha imagem para no deixar voc entrar.
Dolorosamente  literal para um infiel to preparado. Mas sua dedicao
ao Senhor Cristo foi  cultivada  entre pessoas literais e ingnuas, no?
Mas olhe, a vem algum com um presente para  voc que apressar
enormemente nosso acordo.
    - Acordo, que acordo ser esse? - perguntei.
    Eu tambm ouvi o outro. Um cheiro forte e terrvel penetrou em
minhas  narinas. No me mexi nem abri os olhos. Ouvi o outro rindo
daquela maneira surda  to aperfeioada pelos que cantaram o Dies Irae
com um tom dos mais lascivos. O cheiro era  meftico, um cheiro de carne
humana queimada ou algo assim. Eu detestava.  Comecei a virar a cabea e
tentei me deter. Barulho e dor eu podia suportar, mas no esse odor
terrvel, terrvel.
    - Um presente para voc, Amadeo - disse o outro.
    Ergui os olhos. Encarei um vampiro na forma de umjovem com cabelo
louro  quase branco e a compleio esguia de um escandinavo. Ele
segurava uma urna com  as duas  mos. Ento, virou a urna.
    - Ah, no, pare! - Joguei as mos para cima. Eu sabia o que era
aquilo. Mas  era tarde demais.
    As cinzas foram despejadas em cima de mim. Fiquei sufocado e gritei,
e  virei-me de bruos. Eu no conseguia tirar aquela poeira dos olhos
nem da boca.
     - As cinzas de seus irmos, Amadeo - disse o vampiro escandinavo.
Ele desatou numa  gargalhada selvagem.
    Impotente, deitado de cara no cho e as mos dos dois lados do
rosto,  sacudime todo, sentindo o peso quente das cinzas. Afinal,
virei-me e revirei-me,  ajoelhei, depois fiquei em p. Recuei at a
parede. Um grande suporte de ferro cheio de  velas virou, as pequenas
chamas formando um arco em minha viso turva, as velas  caindo na lama.
Ouvi o chacoalhar de ossos. Atirei os braos na frente do rosto.
    - O que aconteceu com nossa linda compostura? - perguntou o vampiro
escandinavo. - s um querubim choro, no? Era assim que seu Mestre o
chamava,  querubim,  no? Olhe! - Ele puxou meu brao, e com a outra mo
tentou passar as cinzas em mim.
    - Seu diabo desgraado! - gritei. Fiquei louco de raiva e
indignao.  Agarrei sua cabea com as duas mos e torci-lhe o pescoo
com toda a fora,  quebrando-lhe  todos os ossos. Depois, dei-lhe um
chute violento com o p direito. Ele caiu  dejoelhos, gemendo, ainda
vivo com aquele pescoo quebrado, mas no viveria  inteiro, prometi.
Chutei-o ento com todo o peso do p, arrancando-lhe a cabea do tronco
de onde  o sangue jorrava aos borbotes.
    - Ah, agora olhe s para voc - disse eu fitando seus olhos
frenticos. As  pupilas continuavam danando. - Ah, morra, sim, para seu
prprio bem. Enfiei os  dedos em seus cabelos, e, virando-me de um lado
para o outro, peguei uma vela com a mo direita, arranquei-a do suporte
de ferro e enfiei-a em suas  rbitas, uma de cada vez, at que ele no
enxergou mais.
    - Ah, ento isso tambm pode ser feito assim-disse eu olhando para
cima e  piscando com o brilho das velas.
    Lentamente, divisei sua figura. Com o cabelo preto grosso e ondulado
todo  embaraado, ele estava sentado num canto, as vestes negras caindo
at o cho. em  volta do banco, o rosto ligeiramente virado para o outro
lado, mas olhando para mim, de modo que pude facilmente identificar os
traos de seu rosto na claridade. Um rosto nobre e lindo, com os lbios
carnudos to fortes como os  imensos olhos.
    - Jamais gostei dele- disse em tom suave, erguendo as sobrancelhas-,
embora  deva lhe dizer que voc me impressiona, e eu no esperava que
ele nos deixasse  to  cedo.
    Estremeci. Um frio pavoroso me invadiu, uma raiva feia e desalmada,
sobrepujando a tristeza, a loucura, a esperana. Tive dio da cabea que
eu segurava e queria larg-la, mas aquela coisa ainda  vivia. As rbitas
estremeciam, sangrando, e a lngua corria de um lado para o outro na
boca.
    - Ah, isso  uma coisa revoltante! - exclamei.
     -Ele sempre dizia coisas diferentes assim-disse o de cabelos
pretos. Ele era pago, est vendo. Isso voc nunca foi. Quero dizer que
ele acreditava  nos deuses da floresta do norte, e em Tor, sempre dando
a volta ao mundo com seu martelo...
     - Vai ficar falando sem parar -perguntei.-Preciso queimar essa
coisa mesmo depois disso, no? - perguntei.
    Ele me lanou o sorriso inocente mais encantador.
    - Voc  um idiota por estar aqui - murmurei.
     Minhas mos tremiam incontrolavelmente.
    Sem esperar resposta, virei e peguei mais uma vela, tendo apagado
completamente a outra, e ateei fogo ao cabelo do defunto. O fedor me
enjoou.  Emiti um som semelhante a choro de menino.
    Larguei a cabea em chamas em cima do corpo vestido e sem cabea.
Atirei a  vela no fogo, para que a cera o alimentasse. Peguei as outras
velas que eu havia  derrubado e joguei-as no fogo, recuando ao sentir um
grande calor a subir do morto.
    A cabea pareceu rolar nas chamas, mais do que seria de esperar,
ento  peguei o candelabro de ferro que eu derrubara, e, usando-o como
um ferro de  remexer braseiro, bati com ele naquela massa incandescente
para amassar o que havia embaixo do  fogo.
    No final, suas mos estendidas se fecharam, os dedos se enfiando nas
palmas.  Ah, viver assim, pensei deprimido, e empurrei com o ferro os
braos de encontro  ao tronco. O fogo recendia a andrajos e sangue
humano, sangue que sem dvida ele havia  bebido, mas no exalava nenhum
outro cheiro humano, e, desesperado, vi que o  havia incendiado bem no
meio das cinzas de meus amigos. Bem, aquilo parecia adequado.
    - Vocs esto vingados num deles - disse eu com um suspiro
derrotado.
     Larguei o rstico candelabro. Deixei aquela criatura ali. O salo
era  grande. Descalo, j que o fogo queimara meus sapatos de feltro,
fui para outro lugar amplo em meio a  candelabros de ferro, onde a boa
terra mida era preta e parecia limpa, e l  tornei a me deitar, como me
deitara antes, pouco me importando que o moreno tivesse uma  boa viso
da minha pessoa ali, j que eu nunca estivera to  sua frente.
    - Conhece aquele culto nrdico? - perguntou, como se nada de
terrvel  tivesse acontecido. - Ah, que Tor est sempre dando voltas com
seu martelo, e o  crculo  vai diminuindo cada vez mais, e do lado de
fora h o caos, e estamos aqui,  condenados dentro do crculo de calor
cada vez menor. Nunca ouviu isso? Ele era  um pago, criado por
renegados mgicos que o usavam para matar os inimigos. Ainda bem que  me
vi livre dele, mas por que est chorando?
    No respondi. Era um desespero absoluto, essa cmara de crnios
medonha, os  milhares de velas iluminando restos mortais apenas, e essa
criatura, essa linda  criatura forte de cabelos pretos dando as ordens
em meio a todo esse horror, totalmente  insensvel diante da morte de
algum que a servira e agora era um monte de ossos  malcheirosos a
arder.
    Imaginei que estava em casa. Eu estava seguro no quarto do Mestre.
Estvamos  sentados. Ele lia um texto em latim. No se importava com o
que diziam as  palavras. Estvamos rodeados de acessrios da
civilizao, coisas doces e bonitas, e os  tecidos do quarto haviam sido
todos trabalhados por mos humanas.
    - Futilidades - disse o de cabelos pretos. - Coisas fteis e tolas,
mas voc  acabar vendo isso.  mais forte do que eu julgava. Mas ento
ele tinha muitos  sculos, o seu Criador, ningum sequer menciona um
tempo em que Marius no existia, o lobo  solitrio, que no tolera
ningum em seu territrio, Marius, o destruidor de  jovens.
    - Nunca soube que ele tenha destrudo seno os que eram maus -
murmurei.
    - Somos maus, no? Todos ns somos maus. Ento ele nos destruiu sem
remorso.  Pensou que estivesse livre de ns. Deu-nos as costas! Achava
que ramos indignos de suas atenes, e veja como ele desperdiou toda a
fora dele com um garoto. Mas  devo dizer que voc  um garoto
lindssimo.
    Ouviu-se um barulho, um farfalhar maligno, no desconhecido. Senti
cheiro de  rato.
    - Ah, sim, meus filhos, os ratos - disse ele. - Eles vm a mim. Quer
ver?  Quer virar-se e olhar para mim? No pense mais em So Francisco,
com seus  passarinhos e seus esquilos e o lobo do lado. Pense em
Santino, com seus ratos.
    Olhei realmente. Prendi a respirao. Sentei no cho e fiquei
olhando para  ele. Uma ratazana cinzenta sentada em seu ombro enfiava em
seu ouvido o focinho mido com aqueles bigodes, enrolando o rabo atrs
de sua cabea. Outra viera sentar-se  tranqilamente em seu colo, como
se estivesse encantada. Havia outras reunidas a seus ps.
    Como que relutando em se mexer para no assust-las, ele enfiou
cuidadosamente a mo numa tigela de migalhas de po. S a senti o
cheiro,  misturado ao dos ratos.
    Ele oferecia um punhado de migalhas  ratazana em seu ombro, que
comeu  agradecida e com uma delicadeza estranha, depoisjogou outras
migalhas no colo,  onde trs ratos logo vieram se banquetear.
    - Acha que gosto dessas coisas? - perguntou ele. Fitou-me
intensamente,  arregalando os olhos para enfatizar as palavras. Seu
cabelo preto era um denso  vu emaranhado em seus ombros, sua testa,
muito lisa e branca, reluzindo  luz das velas.
    - Acha que gosto de viver aqui nas entranhas do mundo - perguntou
ele triste  -, embaixo da grande cidade de Roma, onde a terra filtra os
dejetos da multido  podre, e de ter esses vermes como familiares? Acha
que nunca fui de carne e osso, ou  que, tendo passado por essa
transformao por amor a Deus Todo-Poderoso e a Seu  Plano Divino, eu
no deseje a vida que voc viveu com seu Mestre ganancioso? No tenho
olhos para ver as cores vivas que seu Mestre espalhava nas telas? No
gosto dos sons das msicas mpias?
    Deu um suspiro agonizante.
    - O que Deus criou ou permitiu que se criasse que seja desagradvel
em si  mesmo? - prosseguiu. - O pecado no  repulsivo em si mesmo. Que
absurdo achar  que ! Ningum passa a gostar da dor. S podemos esperar
suport-la.
    - Por que tudo isso? - perguntei. Eu estava quase vomitando, mas
contive o  enjo. Respirei o mais fundo possvel para deixar os cheiros
dessa cmara de  horrores inundar meus pulmes e parar de me atormentar.
    Recostei-me, cruzando as pernas para poder estud-lo. Limpei as
cinzas dos  olhos.
    - Por qu? Seus temas so completamente conhecidos, mas o que  esse
reino  de vampiros de hbitos negros de monge?
    - Somos os Defensores da Verdade - respondeu com sinceridade.
    - Ah, quem no  defensor da verdade, pelo amor dos Cus - falei com
 amargura. - Olhe, o sangue de seu irmo em Cristo est grudado em
minhas mos! E voc fica a sentado olhando, o replicante caprichoso de
um ser humano,  a todo cheio de sangue, como se isso tudo fosse
conversa fiada  luz de velas!
    -Mas voc tem uma lngua custica para algum com um rosto to meigo
- disse  com frieza e admirao. - Parece muito dcil com esses ternos
olhos castanhos e  esse cabelo vermelho cor de outono, mas  esperto.
    - Esperto? Voc queimou meu Mestre! Destruiu-o. Queimou seus filhos!
Sou seu  prisioneiro aqui, no sou? Para qu? E voc me fala do Senhor
Jesus Cristo?  Voc? Voc? Responda-me, o que  essa confuso de
imundcie e elegncia, feita de barro e  velas abenoadas!
    Ele riu. Seus olhos franziam nos cantos, e sua expresso era alegre
e doce.  Seu cabelo, apesar de sujo e desgrenhado, conservava o brilho
preternatural.  Como ele seria refinado se estivesse livre dos ditames
desse pesadelo!
    - Amadeo - disse ele. - Somos os Filhos da Escurido - explicou
pacientemente. - Ns, os vampiros, somos feitos para ser o fragelo do
homem, como  a peste. Somos parte das provas e das tribulaes desse
mundo; bebemos sangue e matamos para a  glria de Deus que deseja testar
suas criaturas humanas.
    - No diga horrores. - Tapei os ouvidos. Encolhi-me.
    - Ah, mas voc sabe que isso  verdade - insistiu ele sem levantar a
voz. -  Sabe disso enquanto me v com esse hbito e olha em volta de meu
quarto. Estou  preso para o Senhor Vivo como os monges antigamente antes
de aprenderem a pintar cenas  erticas nas paredes.
    - Est dizendo loucuras, e no sei por que faz isso. - Eu no queria
me  lembrar do Mosteiro das Covas!
    -  por que encontrei meu objetivo aqui e o objetivo de Deus, e nada
 mais  elevado. Voc haveria de querer ser amaldioado e sozinho, e
egosta e sem  propsito? Daria as costas para um desgnio to magnfico
que nem uma s criancinha   esquecida! Acha que poderia viver para
sempre sem o esplendor daquele grande  esquema, lutando para negar o
trabalho de Deus em cada coisa bela que voc cobiou e  conseguiu?
    Fiquei calado. No pense nos velhos santos russos. Sabiamente, ele
no  insistiu. Ao contrrio, bem baixinho, sem aquele ritmo diablico,
entoou o hino  latino...
    Dies irae, dies illa Solvet saeclum in favilla Teste David cum
Sibylla  Quantus tremor est futurus...
    O dia da ira, esse dia transformar a terra em cinzas. Como Davi e
Cibele  previram Que grande tremor haver...
    - E nesse dia, o ltimo Dia, teremos deveres para com Ele, ns Seus
Anjos  Negros levaremos as almas perversas para o Inferno de acordo com
Sua Divina  Vontade.
    Tornei a olhar para ele.
    - E depois o apelo final desse hino, que Ele tenha piedade de ns,
Sua  Paixo no foi por ns?
    Cantei baixinho em latim: i Recordare, Jesu pie , Quod sum causa
tuae viae...
    Lembrai-vos, Jesus misericordioso, Que fui a causa de vosso
caminho...
    Continuei insistindo, mal tendo esprito para isso, a fim de acusar
plenamente o horror.
    - Que monge havia l no mosteiro de minha infncia que no esperasse
um dia  estar com Deus? O que me diz agora, que ns, os Filhos da
Escurido, servimos a  Ele sem esperanas de estar com Ele algum dia?
    Ele pareceu abatido.
    - Rezo para que haja algum segredo que no conheamos - murmurou.
Ficou com  um olhar distante, como se estivesse mesmo rezando. - Por que
Ele no ama Sat  quando Sat trabalha to bem? Como Ele pode no nos
amar? No compreendo, mas sou o que  sou, que  isso, e voc  igual. -
Olhou-me, erguendo ligeiramente as  sobrancelhas sublinhando seu
espanto. - E devemos servi-Lo. Do contrrio estamos perdidos.
    Deixou o banco e aproximou-se de mim, sentando-se  minha frente no
cho,  pernas cruzadas, esticando o brao comprido para pousar a mo em
meu ombro. - Criatura esplndida - disse eu -, e pensar que Deus o criou
da mesma forma como criou os meninos que voc destruiu hoje, os corpos
perfeitos que voc  entregou ao fogo.
    Ele estava profundamente angustiado.
    - Amadeo, adote outro nome e venha conosco, fique conosco.
Precisamos de  voc. E o que voc far sozinho?
    - Diga-me por que matou o Mestre.
    Ele me soltou e deixou a mo cair no regao formado por seu hbito
negro  esticado entre os joelhos.
    - Somos proibidos de usar nossos talentos para deslumbrar os
mortais. Somos  proibidos de engan-los com nossos truques. Somos
proibidos de procurar o  conforto da companhia deles. Somos proibidos de
entrar nos lugares de luz.
    Nada disso me surpreendeu.
    - Somos monges to puros de corao quanto os de Cluny - disse.
Fazemos os  nossos mosteiros rgidos e sagrados, e caamos e matamos
para aperfeioar o  Jardim de Nosso Senhor como um Vale de Lgrimas. -
Fez uma pausa, e, num tom ainda mais  suave e especulativo, prosseguiu.
- Somos como as abelhas que picam e os ratos  que roubam o gro; somos
como a Morte Negra que vem para levar jovens ou velhos,  feios ou
bonitos, para que homens e mulheres tremam diante do poder de Deus.
    Olhou para mim, implorando compreenso.
    - Catedrais se erguem da poeira - disse - para mostrar milagres ao
homem. E,  nas pedras, o homem esculpe a Dana Macabra para mostrar que
a vida  breve.  Carregamos foices no exrcito do esqueleto roubado que
est gravado em mil portais, mil  muros. Somos os seguidores da Morte,
cuja cara cruel est desenhada em milhes  de livrinhos de orao usados
tanto por ricos como por pobres. - Seus olhos eram imensos e  vagos.
Percorriam a cela abobadada em que estvamos. Eu podia ver o reflexo das
velas nas pupilas negras de seus olhos. Eles se fecharam por um momento,
depois se  abriram, mais claros, mais brilhantes.
    - Seu Mestre conhecia essas coisas - disse ele pesaroso. - Conhecia.
Mas era  de uma poca pag, teimoso e zangado, e sempre recusando a
graa de Deus. Em  voc, ele viu a graa de Deus, porque sua alma 
pura. Voc jovem e terno e se abre como  a flor da lua para receber a
luz da noite. Voc agora nos odeia, mas acabar  vendo.
    - Eu no sei se jamais verei alguma coisa - eu disse. - Estou frio e
sou  pequeno e no estou sabendo o que  sentimento, desejo, nem sequer
dio. No o odeio, embora devesse odiar. Estou vazio. Quero morrer.
    - Mas ser a vontade de Deus quando voc morrer, Amadeo - disse ele.
-No a  sua. -Ele me olhou com um ar severo, e vi quej no podia
esconder dele minha  recordao; os monges de Kiev, morrendo lentamente
de fome em suas celas de terra, dizendo  que precisavam se alimentar,
pois a vontade de Deus determinaria quando deveriam  morrer.
    Tentei esconder essas coisas, guardei essas pequenas imagens em mim
e as  tranquei. No pensei em nada. Uma palavra me veio  boca: horror.
E depois a  idia de que at agora eu fora um tolo.
    Apareceu outra criatura na sala. Era uma vampira. Entrou por uma
porta de  madeira, fechando-a cuidadosamente aps ter passado, como
faria uma boa freira,  para evitar um barulho desnecessrio. Ela foi at
ele e postou-se atrs dele.
    Sua farta cabeleira grisalha estava emaranhada e imunda, como a
dele, e  tambm formara um belo manto pesado e consistente atrs de seus
ombros. Suas roupas eram andrajos antigos. Usava o cinto nos quadris,
como as mulheres de  tempos idos, adornando um belo vestido que revelava
sua cintura fina e as agradveis curvas de suas ancas, o traje nobre que
se v nas figuras de pedra esculpidas em  ricos sarcfagos. Seus olhos,
como os dele, eram imensos como que para convocar cada preciosa
partcula de luz da escurido. Sua boca era forte e carnuda, e a  bela
ossatura de suas faces e seu queixo tinha um bom brilho para a fina
camada  de poeira prateada que a recobria. Seu pescoo e seu busto
estavam quase nus.
    - Ele vai ser um de ns? - perguntou ela. Sua voz era to
encantadora, to  reconfortante, que me comoveu. - Estou rezando por
ele. Ouvi-o chorar  interiormente embora ele no emita nenhum som.
    Desviei a vista, destinado a ser antipatizado por ela, minha
inimiga, que  matara aqueles que eu amava.
    - Sim-anuiu Santino, o de cabelos pretos.-Ele vai ser um de ns, e
pode ser  um lder. Tem muita fora. Matou Alfredo ali, est vendo? Ah,
foi maravilhoso  ver o que ele fez, com tanta violncia e com um ar
zangado to infantil.
    Ela olhou para a runa do que aquele vampiro havia sido, e eu mesmo
no  sabia o que sobrara. No me virei para ver.
    Uma profunda tristeza suavizou a expresso dela. Que linda deveria
ter sido  em vida! Que linda seria ainda sem aquela poeira que a
recobria!
    Seus olhos de repente me fuzilaram, acusadores, e em seguida se
abrandaram.
    - Pensamentos fteis, meu filho - disse. - No vivo para espelhos
como seu  Mestre vivia. No preciso de sedas nem veludos para servir ao
meu Senhor. Ah,  Santino, ele  to novinho, olhe s - falava de mim. -
Sculos atrs, eu poderia ter escrito  versos em homenagem a tamanha
beleza, por ela ter vindo aqui embelezar o rebanho sujo de Deus, um
lrio na escurido ele , o filho de uma fada plantado pelo  luar no
bero de uma ordenhadora para servir ao mundo com seu olhar feminino e
sua voz varonil.
    As lisonjas dela me irritaram, mas era insuportvel para mm nesse
Inferno  perder a beleza pura e a profunda doura de sua voz. No liguei
para o que ela  disse. E, ao olhar para seu rosto branco onde as muitas
veias haviam formado cmoros na  pedra, vi que ela era velha demais para
minha violncia impetuosa. Mas matar,  sim, arrancar a cabea do corpo,
sim, e apunhalar com velas, sim. Pensei essas coisas  de dentes
cerrados, e pensei nele, como eu o liquidaria, se ele no era to
velho, com aquela pele cor de oliva, no tinha nem a metade da idade
dela, mas esses  mpetos morreram como ervas daninhas arrancadas de
minha mente por um vento  norte, o vento gelado de minha vontade
morrendo dentro de mim.
    Ah, mas eles eram lindos.
    - Voc no renunciar inteiramente  beleza - disse ela meigamente,
talvez  depois de sorver meus pensamentos, apesar de todos os meus
artifcios para  ocult-los. - Voc ver outra variante da beleza, uma
beleza agressiva e variada, quando  beber a vida e vir aquele
maravilhoso desenho corpreo virando uma teia  brilhante enquanto voc o
esgota, e pensamentos moribundos caem mesmo sobre voc como mantos
lastimosos para confundir seus olhos e tornlo apenas a escola dessas
pobres  almas que voc envia mais rpido para a glria ou a perdio,
sim, beleza. Voc ver nas  estrelas uma beleza que poder ser para
sempre o seu consolo. E na terra, sim,  na prpria terra, voc
encontrar mil tons de escurido. Isso ser a sua beleza.  Voc apenas
renega as cores vivas da humanidade e a luz desafiadora dos ricos e  dos
fteis.
    - No renego nada - disse eu.
    Ela sorriu, seu rosto ganhando um calor irresistvel, o longo manto
de seus  fartos cabelos brancos encaracolando-se aqui e ali no reflexo
ardente das velas.  Olhou para Santino.
    - Como ele entende bem as coisas que dizemos - comentou. - E no
entanto  parece o garoto levado que zomba de todas as coisas
desconhecidas.
     - Ele sabe, ele sabe - respondeu o outro com surpreendente
amargura.
    Alimentou seus ratos. Olhou para ela e para mim. Parecia refletir e
at  cantarolar novamente o antigo canto gregoriano. Ouvi outros no
escuro. E, ao longe, ainda se ouviam tambores, mas aquilo era
insuportvel. Olhei para o teto daquele local, os crnios sem olhos e
sem boca  contemplando tudo com uma pacincia inesgotvel. Olhei para
eles, a figura sentada de Santino meditando ou absorto em seus
pensamentos, e por trs dele, dominando-o, o vulto escultural da vampira
em seus  andrajos, o cabelo grisalho repartido ao meio, o rosto
enfeitado pela poeira.
    - Aqueles Que Deviam Ser Guardados, filho, quem eram? - perguntou
ela de  repente.
    Santino ergueu a mo direita e fez um gesto aborrecido.
    - Allesandra, sobre isso ele no sabe. Pode ter certeza. Marius era
esperto  demais para lhe contar. E o que aconteceu com essa velha lenda
que perseguimos  h tanto tempo? Aqueles Que Deviam Ser Guardados. Se
forem de natureza tal que precisem  ser guardados, entoj no existem
mais, pois Mariusj no existe para guard- los.
    Um tremor me percorreu, um terror que explodiria num choro
incontrolvel, eu  os deixar ver isso, no, que abominao. Marius no
existia mais... Santino  apressou-se em prosseguir, como se com medo de
mim.
    - Deus assim quis. Deus quis que os prdios desmoronassem, todos os
textos  fossem roubados ou queimados, todas as testemunhas do mistrio
fossem destrudas. Pense nisso, Allesandra. Pense. O tempo cobriu todas
aquelas  palavras escritas pelas mos de Mateus, Marcos, Lucas, Joo e
Paulo. Onde existe  um s manuscrito que traga a assinatura de
Aristteles? E Plato, quem dera tivs-semos um  fragmento do que ele
jogou no fogo enquanto trabalhava febrilmente...
    - O que so essas coisas para ns, Santino? - perguntou ela com ar
de  reprovao, mas pousando a mo na cabea dele ao olhar para baixo.
Afagoulhe os  cabelos como se fosse sua me.
    - Quis dizer que esse  o caminho de Deus - disse Santino-, o
caminho de sua  criao. At o que est escrito na pedra  apagado pelo
tempo, e cidades podem  acabar embaixo do fogo e das cinzas de montanhas
que rugem. Quis dizer que a terra come  tudo, e agora o levou, levou
essa lenda, esse Marius, essa criatura bem mais  velha do que qualquer
outra que algum dia conhecemos pelo nome, e com ele vo seus  preciosos
segredos. Ento, que assim seja.
    Segurei as mos para impedi-las de tremer. Fiquei calado.
    - Havia uma cidade onde eu morava - prosseguiu ele, em voz baixa.
Estava  agora com uma ratazana gorda e preta nos braos, alisando seu
plo como se ela  fosse o gato mais lindo, e o animal, com aquele
olhinho, parecia incapaz de se mexer, o rabo  enrolado como uma grande
foice virada para baixo. - Era uma linda cidade, com  muralhas altas, e
uma feira e tanto a cada ano; palavras no podem descrever onde todos
os mercadores mostravam seus produtos e todos os vilarejos prximos e
distantes enviavam jovens e velhos para comprar danar, festejar...
parecia um lugar perfeito! No entanto foi tomado pela peste.
    A peste chegou, sem respeitar muralha nem torre, invisvel aos
homens do Senhor, e ao pai no campo e  me na horta. A peste levou todo
mundo, e aparentemente todo mundo menos os mais perversos. Em minha
casa, eles me encerraram, com cadveres intumescidos de meus irmos e
irms. Foi um vampiro que me encontrou, pois, indo ali  cata de
alimento, ele no encontrou outro sangue para beber a no ser o meu. E
havia tantos!
    - No abrimos mo de nossa histria por amor a Deus? - perguntou
Allesandra  com o maior cuidado. Sua mo alisava o cabelo de Santino,
afastando-o da testa. Os olhos dele estavam enormes, cheios de idias e
recordaes, mas quando tornou  a falar ele me olhou sem sequer me ver.
    - Agora l no h muralhas. H rvores e mato crescendo entre montes
de  escombros. E em castelos distantes, encontram-se pedras que
pertenceram ao  castelo de nosso senhor, s nossas ruas bem caladas,
nossas melhores casas.  da natureza desse  mundo que todas as coisas
sejam devoradas e o tempo  uma boca to sanginria  quanto qualquer
outra.
    Fez-se um silncio. Eu no conseguia parar de tremer. Meu corpo
estremecia.  Um gemido saiu de meus lbios. Olhei de um lado para o ouro
e abaixei a cabea,  segurando a garganta para no gritar.
    Quando ergui de novo os olhos, falei.
    - No vou servir a vocs - murmurei. - Estou vendo o seu jogo.
Conheo as  suas escrituras, a sua piedade, o seu amor  resignao!
Vocs so aranhas com  suas teias escuras e intrincadas, nada mais que
isso, e procriar por sangue  s o que sabem, s  sabem tecer suas
armadilhas aborrecidas em volta disso, desgraados como os  pssaros que
fazem ninho na sujeira ou em batentes de mrmore. Podem contar suas
mentiras. Odeio vocs. No vou servi-los.
    Que encantadora a expresso com que me olharam!
    - Ah, pobre menino - suspirou Allesandra. - Voc apenas comeou a
sofrer.  Porque precisa ser por orgulho e no por Deus?
    - Eu os amaldio!
    Santino estalou os dedos. Foi um gesto imperceptvel. Mas do escuro,
 entrando por portas que pareciam bocas mudas nas paredes de barro,
chegaram seus  criados, encapuzados e vestidos com aqueles hbitos. Eles
me levantaram segurando-me pelos membros,  mas no me debati.
    Arrastaram-me para uma cela de barras de ferro e paredes de barro. E
quando  tentei cavar um buraco para escapar dali, meus dedos encontraram
pedra com uma  cinta de ferro e no pude mais cavar.
    Deitei-me. Chorei. Chorei pelo Mestre. Pouco me importava se algum
ouvisse  ou risse de mim. Pouco me importava. Eu s sabia o que era
perda e naquela perda  o tamanho de meu amor, e, ao saber o tamanho de
meu amor, de certa forma eu podia sentir  seu esplendor. Chorei e
chorei. Virei-me e pus-me a rastejar. Arranquei punhados  de terra,
depois fquei quieto, apenas deixando as lgrimas rolarem.
    Allesandra estava ali segurando as barras de ferro.
    - Pobre criana - murmurou. - Estarei com voc, sempre com voc.
Basta  chamar meu nome.
    - E por que isso? Por qu? - gritei, a voz ecoando nas paredes
duras.  Responda.
    - Nas profundezas do Inferno - disse ela - os demnios no se amam?
     Passou-se uma hora. A noite ia avanada.
    Eu estava sedento.
    Ardia de sede. Ela sabia. Encolhi-me no cho, a cabea baixa,
acocorado. Eu  morreria antes de tornar a beber sangue. Mas era tudo o
que eu podia ver, tudo  em que eu podia pensar, tudo o que eu podia
querer. Sangue.
    Depois da primeira noite, achei que morreria dessa sede. Depois da
segunda,  achei que morreria gritando.
    Depois da terceira, s sonhava com isso chorandos desesperado,
lambendo  minhas prprias lgrimas de sangue nos dedos.
    Depois de seis noites assim, quandoj no podia agentar a sede,
eles me  trouxeram uma vtima a debater-se.
    Vindo do comprido corredor escuro, farejei o sangue. Farejei-o antes
de ver  os archotes deles.
    Umjovem musculoso e malcheiroso que estava sendo arrastado para
minha cela,  que os chutava e os amaldioava, grunhindo como um louco,
gritando s de ver  aquela tocha com a qual eles o amedrontavam,
empurrando-o para mim.
    Fiquei em p, quase fraco demais para esse esforo, e ca em cima
dele, ca  em cima daquela sua carne quente e suculenta e rasguei sua
garganta, rindo e  chorando ao fazer isso, engasgando com o sangue.
    Rugindo e gaguejando, ele caiu embaixo de mim. O sangue da
artriajorrou em meus lbios e em meus dedos finos. Como pareciam ossos
os meus dedos! Bebi,  bebi e bebi at no agentar mais, e toda a dor me
deixou, e todo o desespero desapareceu na pura satisfao da fome, na
deglutio gulosa, egosta e odienta do bendito sangue.
    Entregue a esse banquete voraz, insensato e grosseiro, eles me
deixaram.
    Ento, caindo para o lado, senti minha viso clarear novamente no
escuro.
    As paredes  minha volta faiscavam de novo com partculas de metal
como um  firmamento estrelado. Olhei e vi que a vtima que eu tomara era
Riccardo, meu amado Riccardo, meu brilhante e bondoso Riccardo, nu,
imundo, um prisioneiro cevado, mantido esse tempo todo em alguma cela
ftida s para isso.
    Gritei. Esmurrei as grades e bati nelas com a cabea. Meus guardas
de cara branca correram at l e recuaram de medo e ficaram me espiando
do corredor escuro. Ca  de joelhos, chorando.
    Agarrei o cadver.
    - Riccardo, beba! - Mordi a lngua e cuspi o sangue em seu rosto
gorduroso de olhos vidrados. - Riccardo! - Mas ele estava morto e vazio,
e eles haviam ido embora, deixando-o para apodrecer ali comigo,
apodrecer a meu  lado.
    Comecei a cantar Dies irae, dies illa e a rir enquanto cantava.
    Trs noites depois, gritando e praguejando, arranquei os braos e as
pernas,  um por um, do cadver ftido de Riccardo a fim de poderjogar os
pedaos para  fora da cela. Eu no estava agentando! Atirei vrias
vezes o tronco intumescido contra  a grade e ca, soluando, sem
conseguir enfiar o punho ou o p para quebr-lo.  Arrastei-me para a
outra extremidade para afastar-me daquilo. Allesandra chegou.
     - Filho, o que posso dizer para consol-lo? - Um murmrio
incorpreo na  escurido. Mas havia outro vulto ali, Santino. Virando,
vi, numa claridade errtica que s olhos de vampiro conseguem captar,
que ele  encostou o dedo na boca e abanou a cabea, corrigindo-a
delicadamente. -  Ele agora precisa ficar sozinho - disse. - Sangue -
gritei. Voei na grade,  os braos estendidos, fazendo com que os dois se
assustassem e fugissem de mim.
    Ao fim de mais sete noites, quando minha fome era tanta que nem o
cheiro de sangue me excitava mais, eles depuseram a vtima - um
meninozinho de rua clamando por piedade - diretamente em meus braos.
-Ah, no tenha medo  de mim, no-murmurei, cravando-lhe depressa os
dentes no pescoo. - Hummm,  confie em mim - murmurei, saboreando o
sangue, bebendo devagar, tentando no rir de  prazer, minhas lgrimas de
alvio sanguinolentas caindo no rostinho dele. - Ah,  sonhe, sonhe
coisas doces e bonitas. H santos que chegaro; voc os v?  Depois,
deitei-me, saciado, captando no teto aquelas nfimas estrelas de pedra
brilhante ou de minrio de ferro embutidas no barro. Deixei a cabea
rolar para o lado,  para longe do cadver da pobre criana o qual eu
arrumara cuidadosamente, como  que para a mortalha, encostado na parede
atrs de mim. Vi um vulto em minha  cela, um vulto pequeno. Vi sua
silhueta difana contra a parede, fitando-me. Outra criana?
Levantei-me, horrorizado. O vulto no  exalava cheiro algum. Virei-me e
olhei para o cadver. Jazia no mesmo lugar.
    No entanto encostado na parede em frente, estava o prprio menino,
pequeno e lvido e  perdido, a me olhar.
    - Como  isso? - murmurei.
    Mas o pobrezinho no conseguia falar. S conseguia olhar. Estava
vestido com a mesma  camisa que seu cadver usava, e seus olhos eram
grandes e sem cor, ternos em sua  expresso contemplativa. Ouvi um som
ao longe. Eram passos na longa catacumba que  levava  minha pequena
priso. No eram passos de vampiro. Empertiguei-me,  alargando
ligeiramente as narinas, tentando sentir o cheiro dessa criatura. Nada
mudou  naquele ar mido e impregnado de mofo. S o cheiro da morte era o
aroma de minha  cela daquele pobre corpinho arrebentado.
    Fixei os olhos naquele espiritozinho tenaz.
    -Por que voc fica a?-perguntei-lhe baixinho, desesperado. - Por
que consigo v-lo?
    Ele mexeu a boquinha como se fosse falar, mas s sacudiu muito
ligeiramente  a cabea, tristemente eloqente em sua confuso.
     Os passos continuavam. E mais uma vez esforcei-me para sentir o
cheiro. Mas  no senti nada, nem o rano empoeirado de vestes de
vampiro, s isso, a  aproximao desse barulho arrastado. E finalmente
chegou s grades o vulto alto e escuro de  uma mulher magra.
    Eu sabia que ela estava morta. Eu sabia. Sabia que estava to morta
quanto  aquele menino flutuando ali junto  parede.
    - Fale comigo, por favor, ah, por favor, eu lhe imploro, fale
comigo!  gritei.
    Mas nenhum fantasma conseguia deixar de olhar para o outro. A
criana pulou  de mansinho para os braos da me, e ela, virando, aps
recuperar o filho,  comeou a desaparecer enquanto seus ps tornavam a
produzir aquele barulho seco e  arrastado no cho de barro que a
anunciara.
    - Olhe para mim! - supliquei em voz baixa. - S uma vez.
    Ela parou. J no sobrava quase mais nada dela. Mas ela virou a
cabea e a  luz plida de seus olhos fixou-se em mim. Ento, silenciosa
e completamente, ela desapareceu.
    Deitei-me, e estiquei o brao num desespero descuidado e senti o
cadver da criana, ainda ligeiramente quente a meu lado. Nem sempre eu
via o fantasma  deles. Nem procurava dominar os meios de fazer isso.
Eles no eram meus amigos - isso era uma nova maldio -, esses
espritos  que de vez em quando apareciam no cenrio de minha destruio
sanguinolenta.  Eu no via esperana em seus rostos quando eles passavam
por aqueles momentos de minha infelicidade quando o sangue estava mais
quente dentro de mim. No havia luz de esperana a rode-los. Seria a
fome que me dava este poder?
    No falei com ningum a respeito deles. Naquela maldita cela,
naquele lugar  desgraado em que minha alma era quebrada semana aps
semana, sem ao menos o  conforto de um caixo para se encerrar, eu tinha
medo deles e comecei a odi-los.
    S o grande futuro iria revelar-me que outros vampiros, em geral,
nunca os  vem. Seria isso uma graa? Eu no sabia. Mas estou me
adiantando. Deixe-me  voltar para aquela poca intolervel, aquele
cadinho.
    Passei umas vinte semanas nessa misria.
    Eu nem acreditava mais que aquele mundo claro e fantstico de Veneza
tivesse  existido algum dia. E sabia que o Mestre estava morto. Eu
sabia. Sabia que todo  mundo que eu amava havia morrido.
    Eu estava morto. s vezes sonhava que estava em Kiev; no Mosteiro
das Covas,  um santo. Depois acordava aflito.
    Quando Santino e a grisalha Allesandra vieram me ver, foram gentis
como  sempre, e Santino derramou lgrimas vendo como eu estava e disse:
    - Venha para mim, agora, venha estudar comigo a srio, venha. Nem os
 miserveis como ns devem sofrer como voc est sofrendo. Venha para
mim.
     Ca em seus braos, abri meus lbios para os dele, abaixei a cabea
para encostar o rosto em seu peito e, enquanto escutava seu corao
batendo, respirei  fundo, como se o prprio ar me tivesse sido negado
at aquele momento.  Allesandra pousou gentilmente em mim aquelas suas
mos frias e macias.
     - Pobre criana rfa - disse ela. - Criana errante, ah, que longa
estrada  voc percorreu para chegar at aqui!
    E como era incrvel que tudo o que eles fizeram comigo parecesse
apenas algo  que compartilhamos, uma catstrofe comum e inevitvel.
    A CELA DE SANTINO.
    Eu estava deitado no cho nos braos de Allesandra, que me embalava
e  afagava meu cabelo.
    - Quero que voc venha caar conosco hoje  noite - disse Santino.
Venha  conosco, com Allesandra e comigo. No deixaremos os outros o
atormentarem. Voc  est com fome. Est com muita fome, no?
    E ento comeou meu perodo com os Filhos da Escurido.
    Noite aps noite, cacei realmente em silncio com meus novos
companheiros,  meus novos entes queridos, meu novo Mestre e minha nova
Mestra, e ento fiquei  pronto para comear a srio meu aprendizado;
Santino, meu professor, com Allesandra  para ajud-lo de vez em quando,
fez de mim o seu pupilo, uma grande honra na  assemblia de bruxos, ou
pelo menos foi o que os outros vieram logo me dizer quando tiveram  a
oportunidade.
    Soube o que Lestatj escreveu baseado no que lhe revelei, as grandes
leis.  Primeiro, ramos formados em assemblias de bruxos pelo mundo
afora, e cada  assemblia teria seus lderes, e eu estava destinado a
ser um deles, como o superior de um  convento, e todas as questes de
autoridade estariam em minhas mos. Eu e s eu  deveria determinar
quando um novo vampiro deveria ser criado parajuntar-se a ns; eu e  s
eu cuidaria para que a transformao fosse feita da maneira adequada.
    Segundo, o Dom Negro, pois  assim que o chamamos, nunca deveria ser
dado  queles que no fossem bonitos, pois a escravizao dos belos com
o Sangue Negro   mais agradvel a um Deus Justo.
    Terceiro, jamais um vampiro antigo dever criar um novato, pois
nossos  poderes aumentam com o tempo, e o poder dos velhos  grande
demais para os  jovens. Veja a minha tragdia, criado pelo ltimo Filho
dos Milnios conhecido o grande e terrvel Marius. Eu tinha a fora de
um demnio no corpo de uma  criana.
    Quarto, nenhum de ns pode destruir qualquer um de ns, exceto o
lder da  assemblia, que a qualquer hora deve estar preparado para
eliminar os  desobedientes de seu rebanho. Todos os vampiros errantes,
que no pertenam a nenhum grupo, devem  ser eliminados pelo lder logo
que forem vistos.
    Quinto, nenhum vampiro devejamais revelar sua identidade ou suas
foras  mgicas a um mortal e depois disso ser deixado vivo. Nenhum
vampiro devejamais  escrever quaisquer palavras que revelem estes
segredos. Na verdade, jamais o nome de um vampiro  deve ser conhecido no
mundo mortal e qualquer evidncia de nossa existncia que  porventura
tenha escapado para esse mbito deve ser erradicada a qualquer custo,
juntamente  com aqueles que houverem permitido to terrvel violao da
vontade de Deus.
    Havia outras coisas. Rituais, encantamentos, havia uma espcie de
folclore.
     - No entramos em igrejas, pois Deus nos fulminaria se entrssemos
- declarou Santino. -No olhamos para o crucifixo, e sua mera presena
numa corrente em volta do pescoo de uma vtima  suficiente para salvar
a vida desse  mortal. Desviamos nossos olhos e nossos dedos das medalhas
da Virgem.  Acovardamo-nos diante das imagens dos santos.
    "Mas atacamos com o fogo sagrado aqueles que andam desprotegidos.
Banqueteamo-nos quando e onde desejamos e cruelmente, e banqueteamo-nos
, com o  inocente e com aqueles mais dotados de beleza e riquezas. Mas
no nos gabamos do que fazemos para o mundo, nem nos gabamos uns para os
outros.
    "Os grandes castelos e cortes do mundo esto fechados para ns, pois
nunca  devemos nos imiscuir no destino que Cristo Nosso Senhor ordenou
para aqueles que criou  Sua Imagem, mais do que se imiscuem os vermes,
as labaredas do fogo ou a Morte Negra.
     "Somos uma maldio das sombras; somos um segredo. Somos eternos.
    "E quando terminamos nosso trabalho para Ele, reunimo-nos sem o
conforto de luxos ou riquezas naqueles locais subterrneos abenoados
por ns para nosso  sono, e l, s com a iluminao de fogo e velas,
encontramo-nos para orar,  cantar e danar, sim, danar em volta do
fogo, fortalecendo assim a nossa vontade,  compartilhando assim nossa
fora com nossos irmos e irms."
    Seis longos meses se passaram durante os quais estudei estas coisas,
durante  os quais aventurei-me nos becos de Roma para caar com os
outros, para regalarme  com os destitudos da sorte que me caam to
facilmente nas mos.
    J no vasculhava a mente procurando um crime que justificasse o meu
 banquete predatrio. J no praticava a requintada arte de beber sem
fazer a  vtima sofrer. J no protegia o infeliz mortal do horror de
meu rosto, minhas mos  desesperadas, minhas presas.
    Uma noite, acordei e vi-me rodeado por meus irmos. A mulher
grisalha  ajudou-me a sair do caixo de chumbo e disse-me que eu deveria
acompanhlos.  Samosjuntos na noite estrelada. A fogueira que havia
sido construda era alta como na noite em  que meus irmos mortais
morreram.
    O ar estava fresco e impregnado do perfume de flores primaveris.
Ouvi o  rouxinol cantando e, ao longe, os sussurros da populosa cidade
de Roma. Olhei na  direo da cidade. Avistei suas sete colinas cobertas
de luzes faiscantes. Avistei as  nuvens no alto tingidas de dourado,
baixando sobre esses marcos belos e esparsos  como se a escurido do cu
estivesse grvida.
    Vi a roda que se formara em volta do fogo. Em duas ou trs fileiras,
estavam  os Filhos da Escurido. Santino, num caro hbito novo de veludo
azul, ah, que  violao de nossas normas rgidas!, adiantou-se para
dar-me dois beijos no rosto.
    - Estamos mandando voc para longe, para o norte da Europa - disse
ele-,   cidade de Paris, para onde foi o lder da assemblia, como
todos vamos mais cedo  ou mais tarde, para o fogo. Seus filhos o
aguardam. Ouviram histrias sobre voc, sobre  sua gentileza, sua
piedade e sua beleza. Voc ser o lder e o santo deles.
    Meus irmos vieram um a um me beijar. Minhas irms, que eram pouco
numerosas, tambm vieram me dar um beijo no rosto.
    Fiquei calado, quieto, escutando ainda o canto dos pssaros nos
pinheiros  prximos, olhando de vez em quando para os Parasos
inferiores e pensando se a  chuva viria, a chuva cujo cheiro eu podia
sentir, to pura e lmpida, a nica gua  purificadora que agora me era
permitida, a doce chuva romana, suave e quente.
    - Promete solenemente chefiar a assemblia nos Caminhos da Escurido
como  Sat chefiaria e seu Senhor e Criador, Deus, chefiaria?
    - Prometo.
    - Promete obedecer a todas as ordens enviadas a voc da Assemblia
Romana?
    - Prometo...
    Palavras e palavras e palavras.
    A lenha se empilhava na fogueira. Os tambores haviam comeado. Os
tons  solenes.
    Comecei a chorar.
    Ento senti os braos macios de Allesandra, sua macia cabeleira
grisalha  encostar em meu pescoo.
    Irei para o norte com voc, meu filho - disse ela.
    Fiquei gratssimo. Joguei os braos em volta dela, estreitei seu
corpo duro  e frio contra o meu e tremi de tanto soluar.
    - Sim, queridinho. Ficarei com voc. Sou velha e ficarei com voc
at chegar  a hora de me apresentar  Justia Divina, como todos
precisamos nos apresentar.
    - Ento danamos de alegria! - exclamou Santino. - Sat e Cristo,
irmos na  casa do Senhor, a vs oferecemos esta alma aperfeioada!
    Ele jogou os braos para cima.
    Allesandra afastou-se de mim, olhos marejados de lgrimas. Eu no
conseguia  pensar em mais nada seno em minha gratido por ela estar
comigo. Por eu no  fazer esta terrvel viagem sozinho. Comigo,
Allesandra comigo. Ah, bobo para Sat e o Deus  que o fez!
    Ela estava ao lado de Santino, alto e majestoso, e tambm jogou os
braos  para cima e balanou os cabelos de um lado para o outro.
    - Que comece a dana! - exclamou ela.
    Os tambores troaram, as cornetas gemeram e a batida dos pandeiros
encheu  meus ouvidos.
    Um grito baixo e demorado ergueu-se da grande e densa roda de
vampiros, e  todosjuntos, de mos dadas, comearam a danar.
    Fui puxado de volta para o cordo que eles fizeram em volta da
fogueira  ardente. As figuras me puxavam na roda de um lado para o
outro, depois solteime  e dei um pulo, rodopiando no ar.
    Senti o vento na nuca ao fazer a pirueta. Estiquei os braos com
preciso  para receber as mos dos dois lados e depois balanar para a
direita e para a  esquerda novamente.
    Nuvens silenciosas adensavam-se, enroscavam-se e passeavam pelo cu
que  escurecia. A chuva chegou, seu rugido suave abafado pelos gritos
das criaturas  loucas que danavam, pelo crepitar do fogo e pelo rufar
dos tambores.
    Ouvi a chuva. Virei-me, dei um pulo e recebi-a, a chuva prateada
caindo em  mim como a bno dos parasos escuros, as guas batismais
dos condenados. A  msica aumentou. Um ritmo brbaro espalhou-se por
tudo, desmanchando  o cordo organizado dos danarinos. Na chuva e no
claro voraz da fogueira  gigantesca os vampirosjogavam os braos para o
alto, uivando, contorcendo-se,  contraindo-se todos at ficarem
encurvados, batendo os ps no cho, e depois pulavam de braos  abertos,
bocas tambm abertas, remexendo os quadris enquanto rodopiavam e
pulavam, e ouviu-se novamente o hino aos altos brados, Dies irae, dies
illa. Oh, sim,  dias de misria, oh, dias de fogo!
        Depois, quando comeou a chover solene e regularmente, quando a
fogueira  era apenas carvo, quando todos eles haviam sado para caar,
quando s uns  poucos circulavam pelo terreno escuro do Sab, entoando
suas preces num delrio aflito, fiquei quieto, deitado de cara no cho
enquanto a chuva me lavava.
    Parecia que os monges do velho mosteiro de Kiev estavam l. Eles
riam para  mim, mas suavemente. Diziam:
    - Andrei, o que lhe fez pensar que pudesse escapar? No sabia que
Deus o  chamou?
    - Afastem-se de mim, vocs no esto aqui, e eu no estou em lugar
nenhum.  Estou perdido nos ermos escuros de um inverno sem fim.
    Tentei imagin-lo, Seu Rosto Sagrado. Mas ali s estava Allesandra,
que  viera ajudar-me a me levantar. Allesandra, que prometera contar-me
sobre os  tempos negros, muito antes de Santino ser criado, quando ela
recebeu o Dom Negro nas florestas  da Frana para onde estvamos indo
juntos.
    -  Senhor, Senhor, ouvi minha prece - murmurei. Se ao menos eu
pudesse ver  o Rosto Sagrado.
    Mas essas coisas eram proibidas para ns. Jamais poderamos olhar
para Sua  Imagem! At o fim do mundo, trabalharamos sem esse consolo. O
Inferno  a  ausncia de Deus.
    O que posso dizer agora em minha defesa? O que posso dizer?
    Outros contaram a histria de como, durante sculos, fui o corajoso
chefe da  Assemblia de Paris, obedecendo a antigas leis at no existir
mais Santino nem  Assemblia de Roma para envi-las a mim, como,
desesperado e maltrapilho, agarrei-me  F  Antiga e aos bitos Antigos
enquanto outros entraram no fogo para se destruir, ou simplesmente foram
embora.
    O que posso dizer em defesa do convertido e do santo que me tornei?
Passei  trezentos anos sendo o anjo errante filho de Sat, seu matador
com ar infantil,  seu lugartenente, seu bobo. Allesandra estava sempre
comigo. Quando os outros pereciam ou  desertavam, l estava Allesandra
que conservava a f. Mas isso foi meu pecado,  minha viagem, minha
loucura terrvel, e tenho de carregar sozinho esse fardo enquanto eu
existir.
     em Roma, antes de minha partida para o norte, ficou decidido que eu
deveria  mudar de nome.
    Amadeo, contendo apalavra que significava Deus, era extremamente
inadequado  para um Filho da Escurido, especialmente quanto a chefiar a
Assemblia de Paris.
    Entre vrias opes que me foram dadas, Allesandra escolheu o nome
Armand.
    Assim me tornei Armand.
