  - O que tem a dizer?
  - Eu o amo.
  - Tenho certeza.
  - Mas eu amo - disse eu choroso.
  Suas carcias em minha carne magoada eram insuportavelmente
deliciosas. Eu no ousava levantar a cabea. Apertei o rosto contra a
colcha bordada e spera, contra a figura do grande leo ali bordado, e
engoli em seco e deixei as lgrimas rolarem. Senti uma calma total; esse
prazer me tirava todo o controle das pernas. Fechei os olhos, e seus
lbios chegaram em minhas pernas. Ele beijou um dos ferimentos. Achei
que eu fosse morrer. Eu iria para o cu, isso sim, algum outro cu mais
alto e mais delicioso at do que esse cu veneziano. Embaixo de mim,
minha virilha estava viva com uma fora grata, desesperada e isolada. O
sangue ardente escorreu pela equimose. Sua lngua ligeiramente spera
tocou-a, lambeu-a, comprimiu-a, e o inevitvel formigamento provocou um
incndio dentro de meus olhos fechados, um incndio violento do outro
lado de um horizonte mtico na escurido de minha mente cega.
  L foi ele para a prxima equimose, e vieram os fos de sangue e a
lambida de sua lngua, e a dor terrvel se foi e nada mais havia seno
um doce latejar. E quando ele passou  prxima, pensei: no consigo
suportar isso, simplesmente vou morrer.
  Ele andava rpido, de equimose em equimose, depositando seu beijo
mgico e sua lambidela, e eu estremecia todo e gemia.
  - Um castigo e tanto! - disse eu de repente, arquejando.
  Foi uma coisa terrvel de se dizer! Na mesma hora, arrependi-me
daquele atrevimento.
  Mas a mo dele j vinha descendo violenta nas minhas ndegas.
  - Eu no quis dizer isso - falei. - Quer dizer, eu no quis parecer
to ingrato. Quer dizer, sinto muito ter dito isso! -Mas veio outra
palmada to forte quanto a primeira. - Mestre, tenha pena de mim. Estou
confuso! - gritei.
  Suas mos pousaram em mim, na superfcie quente que ele golpeara, e
pensei: ah, agora ele vai me bater at eu ficar inconsciente. Mas seus
dedos s apertaram apele, que no estava rompida, s quente como os
primeiros verges da vara ficaram. Senti de novo seus lbios na
panturrilha da perna esquerda, e o sangue e sua lngua. O prazer me
percorreu todo, e, inerme, deixei o ar escapar de meus lbios num
rosrio de suspiros.
  - Mestre, Mestre, Mestre, eu o amo.
  - Sim, bem, isso no  incomum - murmurou ele.
  No parava de beijar. Lambia o sangue, eu me contorcia sob o peso de
sua mo em minhas ndegas.
  -Mas a questo, Amadeo,  por que eu o amo? Por qu? Por que precisei
entrar naquele bordel ftido e ver voc? Sou forte por natureza... seja
ela qual for...
  Ele beijou gulosamente uma grande equimose em minha coxa. Eu o sentia
chup-la, e depois sua lngua lamb-la, comendo o sangue, e depois seu
sangue escorrendo nela. O prazer fazia sucessivos choques me
percorrerem. Eu no via nada, embora achasse que agora eu estava de
olhos abertos. Esforcei-me para certificar-me de que estava, mas no via
nada, s uma nvoa dourada.
  - Eu o amo, eu o amo mesmo - disse ele. - E por qu? Inteligente, sim,
bonito, sim, e dentro de voc, as relquias queimadas de um santo!
  - Mestre, no sei o que est me dizendo. Nunca fui santo, nunca, no
afirmo ser santo, sou um ser miservel, desrespeitoso e ingrato. Ah, eu
o adoro.  to bom ser indefeso e estar  sua merc.
  - Pare de zombar de mim.
  - Mas no estou zombando - respondi. - Quero falar a verdade, quero
ser um idiota para a verdade, um idiota para... Quero ser um idiota para
voc.
  - No, no acho que voc queira zombar de mim. Voc  sincero. No
percebe o absurdo disso.
  Ele havia terminado seu avano. Minhas pernas haviam perdido qualquer
forma que possussem em minha mente enevoada. Eu s conseguia ficar ali
deitado, vibrando dos ps  cabea com seus beijos. Ele deitou a cabea
em meus quadris, no local quente onde ele havia dado palmadas, e senti
seus dedos subirem embaixo de mim e me tocarem nas partes mais ntimas.
Meu rgo endureceu em sua mo, endureceu com a infuso de seu sangue
cauterizante, porm mais ainda com o jovem varo em mim que tantas vezes
havia misturado o prazer com a dor quando ele queria. Cada vez mais duro
eu ficava, e mexia os quadris embaixo da cabea e dos ombros dele que
estava deitado em minhas ndegas e segurava o rgo com firmeza, e
ento, em espasmos violentos e incomparveis, expeli um jato forte em
seus dedos escorregadios. Ergui-me no cotovelo e olhei para ele. Ele
estava sentado na cama, contemplando o smen prola grudado em seus
dedos.
  - Santo Deus,  isso o que voc quer? - perguntei. - Ver a brancura
viscosa em sua mo?
  Ele me olhou angustiado. Ah, e que angstia.
  - Isso no quer dizer - perguntei - que chegou a hora?
  O sofrimento em seus olhos era demasiado grande para eu interrog-lo
mais.
  Atordoado e cego, deixei-o virar-me de costas e rasgar minha tnica e
meu palet. Senti-o erguer-me e ento senti a ferroada de seu ataque a
meu pescoo. Uma dor violenta concentrou-se em volta do meu corao,
diminuindo bem na hora em que fiquei com medo, e depois afundei na cama
perfumada ao lado dele; ejunto a seu peito, agasalhado embaixo das
cobertas que ele puxou sobre ns, dormi.
  Ainda era noite fechada quando abri os olhos. Eu aprendera com ele a
sentir quando ia amanhecer. E o amanhecer ainda estava longe.
  Olhei em volta procurando por ele. Vi-o no p da cama. Ele estava
vestido com seu veludo vermelho mais fino. Usava umajaqueta de mangas
cortadas e uma tnica pesada de colarinho alto. Seu manto era de veludo
vermelho debruado de arminho. Seu cabelo estava bem escovado e
ligeiramente untado de leo, o que lhe dava um brilho civilizadssimo e
artificial, todo penteado para trs e caindo-lhe nos ombros em cachos
afetados. Ele parecia triste.
  - Mestre, o que  isso?
  - Tenho que me ausentar por algumas noites. No, no  por raiva de
voc, Amadeo.  s uma dessas viagens que preciso fazer. H muito j
deveria ter viajado.
  -No Mestre, agora no, por favor. Sinto muito, eu lhe imploro! O que
eu...
  - Filho. Vou ver Aqueles Que Precisam Ser Guardados. No tenho escolha
quanto a isso.
  Por um momento, fiquei calado. Tentei entender o que suas palavras
denotavam. Sua voz estava mais baixa, ele falara sem convico.
  - O que  isso, Mestre? - perguntei.
  - Uma noite dessas, talvez eu o leve comigo. Pedirei autorizao... A
voz dele ficou ecoando.
  - Para que, Mestre? Quando precisou da autorizao de algum para
alguma coisa?
  Minha inteno era que a pergunta soasse simples e sincera, mas eu via
agora que tinha algo de impertinncia.
  - Tudo bem, Amadeo - disse ele. - Peo autorizao de vez em quando
aos Ancios. S isso. A quem mais? - Ele parecia cansado. Sentou-se ao
meu lado, encostou em mim e beijou minha boca.
  - Ancios, Mestre? Refere-se queles Que Precisam Ser Guardados essas
criaturas como voc?
  - Seja gentil com Riccardo e os outros. Eles o adoram - disse ele.
Choraram por voc o tempo todo em que esteve fora. No acreditaram muito
quando eu lhes disse que voc estava voltando para casa. Ento Riccardo
foi espion-lo com o lorde ingls e ficou apavorado que eu acabasse com
voc e com medo de que o ingls o matasse. Esse seu lorde ingls tem uma
fama e tanto, atirando o punhal no quadro de qualquer taberna. Voc
precisa se dar com assassinos comuns? Aqui, em se tratando daqueles que
tiram a vida, voc tem um incomparvel. Quando foi  casa de Bianca,
eles no tiveram coragem de me contar, mas ficaram imaginando cenas
fantsticas para que eu no pudesse ler seus pensamentos. Como so
dceis aos meus poderes.
  -Eles o amam, meu Senhor-disse eu.-Graas a Deus voc me perdoa por
ter ido queles lugares. Farei tudo o que desejar.
  - Ento boa-noite. - Ele se levantou para partir.
  - Mestre, quantas noites?
  -No mximo trs-disse ele por cima do ombro.
  Dirigiu-se  porta, uma figura alta e galante coberta com um manto.
  - Mestre.
  - Sim.
  - Serei muito bom, um santo - eu disse. - Mas se eu no for, o Mestre
me bate de novo, por favor?
  Na hora em que vi sua expresso de raiva, arrependi-me do que disse. O
que me fazia dizer essas coisas!
  -No diga que no queria dizer isso! -disse ele lendo meus pensamentos
e ouvindo as palavras antes que eu pudesse proferi-las.
  - No. E s que odeio quando voc vai embora. Pensei que talvez se eu
implicasse com voc, voc no iria.
  - Pois eu vou. E no implique comigo. Como poltica, no implique
comigo.
  Ele j havia sado, mas mudou de idia e voltou. Encaminhou-se para a
cama. Esperei pelo pior. Ele iria me bater e depois no estaria por
perto para beijar a equimose.
  Mas ele no fez isso.
  - Amadeo, quando eu no estiver aqui, pense naquilo - disse ele.
  Eu estava sbrio, olhando para ele. Sua prpria atitude me fez
refletir antes de dizer uma palavra.
  - Em tudo, Mestre? - perguntei.
  - Sim - disse ele. Depois voltou e me beijou. - Voc ser eternamente
assim? - perguntou. - Esse homem, esse jovem que voc  agora?
  -Serei, Mestre! Eternamente, e com voc! -Queria lhe dizer que eu
podia fazer tudo que um homem faria, mas isso parecia absolutamente
insensato, e tambm no soaria verdadeiro para ele.
  Ele pousou a mo afetuosamente em minha cabea, alisando meu cabelo
para trs.
  - H dois anos, venho observando voc - disse ele. - Voc cresceu tudo
o que podia crescer, mas  pequeno, e tem cara de beb, e, apesar de
toda a sua sade, voc  frgil e ainda no  o homem forte que
certamente dever ser.
  Eu estava fascinado demais para interromp-lo. Quando ele fez uma
pausa, esperei. Ele suspirou. Fitou o vazio como se no conseguisse
encontrar palavras.
  - Quando voc no estava aqui, seu lorde ingls puxou um punhal para
voc, mas voc no teve medo. Lembra-se? Isso aconteceu h menos de dois
dias.
  - Sim, Mestre, foi uma estupidez.
  - Voc poderia facilmente ter morrido ento - disse ele erguendo as
sobrancelhas. - Facilmente.
  -Mestre, por favor, revele esses mistrios para mim -disse eu.-Conteme
como conseguiu seus poderes. Confie-me esses segredos. Faa com que eu
possa estar com voc para sempre. No dou a mnima importncia ao meu
julgamento dessas coisas. Rendo-me ao seu.
  - Ah, sim, voc se rende se eu satisfizer o seu pedido.
  - Bem, Mestre, isso  uma forma de rendio, de me submeter a voc, 
sua vontade e ao seu poder, e, sim, eu aceitaria isso e seria como voc.
 isso o que voc promete, Mestre,  isso o que sugere, que pode me
tornar igual a voc? Pode me encher com esse seu sangue que me
escraviza, e isso ser realizado? s vezes parece que sei disso, Mestre,
que voc pode fazer isso, e no entanto fico pensando se sei s porque
voc sabe, e voc est sozinho para me fazer isso.
  - Ah! - Ele ps as mos no rosto, como se eu o tivesse desagradado
completamente.
  Eu no sabia o que fazer.
  -Mestre, se o ofendi, me bata, faa qualquer coisa comigo mas no me
vire as costas. No tape os olhos para no olhar para mim, Mestre,
porque no posso viver sem esse seu olhar. Explique isso para mim,
Mestre, elimine o que nos separa; se for s ignorncia, ento elimine
isso.
  -Ah, vou eliminar-disse ele. - Voc  to inteligente e decepcionante,
Amadeo. Voc seria mesmo o bobo de Deus, como h muito tempo lhe
disseram que um santo deveria ser.
  - Voc me confunde, Mestre. No sou santo, mas bobo, sim, porque
imagino que isso seja uma forma de sabedoria e quero isso porque voc
preza a sabedoria.
  - Digo que voc parece simples, e de sua simplicidade vem um
entendimento esperto. Sou sozinho. Ah, sim, sou sozinho e sozinho para
contar minhas tristezas, pelo menos. Mas quem sobrecarregaria uma pessoa
to jovem como voc com minhas tristezas? Amadeo, que idade acha que
tenho? Avalie minha idade com a sua simplicidade.
  - Voc no tem idade, Mestre. No come nem bebe, nem muda com o tempo.
No precisa de gua para se limpar. Tem a pele lisa e resistente a todas
as coisas da natureza. Mestre, todos sabemos disso. Voc  uma coisa
limpa e perfeita.
  <88>
  Ele sacudiu a cabea. Eu o estava agoniando quando queria exatamente o
oposto.
  - Eu j fiz isso - murmurou ele.
  - O que o meu Mestre fez?
  - Ah, trouxe-o para mim, Amadeo, por ora... - Ele se deteve. Franziu o
cenho, e seu rosto estava to macio e pensativo que me doeu. - Ah, mas
essas so apenas iluses egostas. Eu poderia lev-lo com um monte de
ouro e plantlo numa cidade distante onde...
  - Mestre, me mate. Me mate antes de fazer isso, ou certifique-se de
que a sua cidade esteja fora do mundo conhecido, porque eu voltarei!
Gastarei o ltimo ducado de seu monte de ouro para vir para c e bater 
sua porta.
  Ele parecia desgraado, mais humano do que eujamais havia visto,
sofrendo e trmulo com o olhar perdido, mergulhado na interminvel linha
escura que nos separava. Agarrei-me a seu ombro e beijei-o. Havia uma
intimidade mais viril devido a meu ato rude de algumas horas atrs.
  -No, no h tempo para esses consolos-disse ele. -Preciso ir. O dever
me chama. Coisas antigas tambm me chamam, coisas que h muito tempo eu
tenho de carregar. Estou exausto!
  - No v agora  noite. Quando amanhecer, leve-me com voc, Mestre,
leve-me aonde voc se esconde do sol.  do sol que voc precisa se
esconder, no , Mestre, voc que pinta cus azuis e a luz de Febo com
mais brilho do que aqueles que vem essas coisas, voc nunca as v...
  - Pare - implorou ele, pressionando os dedos em minha cabea. - Pare
com seus beijos e seu raciocnio e me obedea.
  Ele respirou fundo, e pela primeira vez em toda a minha vida com ele
vi-o pegar um leno do bolso e enxugar a testa e os lbios. O pano era
de um vermelho desmaiado.
  Ele olhou para o leno.
  - Quero lhe mostrar uma coisa antes de ir- disse ele. - Vista-se,
rpido. Vamos, eu lhe ajudo.
  Em poucos minutos, eu estava completamente vestido para a noite fria
de inverno. Ele me ps uma capa preta nos ombros e me deu luvas forradas
de pele e me ps um gorro de veludo preto na cabea. Os sapatos que ele
escolheu eram botas de couro preto, que antes ele no queria que eu
usasse. Ele acha lindo os tornozelos dos rapazes, e no gostava de
botas, embora nos deixasse us-las de dia quando ele no podia ver. Ele
estava to perturbado, to infeliz, e seu rosto, apesar da limpeza
descorada estava to impregnado desses sentimentos que no consegui
deixar de abra-lo e beij-lo, s para fazer seus lbios se
entreabrirem, s para sentir sua boca se fechando na minha. ~:. rr. "r
z:.. Fechei os olhos. Senti sua mo cobrir meu rosto e minhas plpebras.
Ouvi uma barulheira em volta, como se as portas de madeira estivessem
batendo e os estilhaos daquela porta que quebrei estivessem voando, e
as cortinas estivessem se enfunando e se rompendo. O ar frio da noite me
envolveu. Ele me ps no cho, cego, e percebi que eu estava pisando no
cais. Eu ouvia o rudo da gua do canal perto de mim, lambendo,
lambendo, sendo agitada pelo vento que fazia o mar correr para a cidade,
e ouvi um barco de madeira batendo insistentemente numa doca. Ele deixou
os dedos escorregarem, e abri os olhos.
  Estvamos longe do palazzo. Desconcertei-me ao ver que estvamos to
longe mas no me surpreendi muito. Ele podia fazer milagres, e assim me
contar isso agora. Estvamos em becos afastados, num pequeno
desembarcadouro, num canal estreito. Eu nunca me aventurara neste bairro
pobre de trabalhadores.
  Vi as varandas traseiras das casas, com suasjanelas de ferro, e senti
o mau cheiro dos dejetos que boiavam nas guas agitadas pelo vento
invernal. Ele se virou e me levou para longe da beira do canal, e, por
um momento, no consegui enxergar. Sua mo branca cintilava. Vi um dedo
que apontava e, em seguida, um homem dormindo numa gndola apodrecida
que havia sido posta no seco em cima de toras. O homem se mexeu e se
descobriu. Vi seu vulto volumoso e nervoso resmungando e nos xingando
por termos ousado perturbar seu sono. Procurei meu punhal. Vi a lmina
do homem faiscar. A mo branca do Mestre, brilhando como quartzo,
pareceu apenas encostar no punho do infeliz e fazer a arma voar e cair
rolando nas pedras. Atordoado e furioso, o homem atacou o Mestre numa
tentativa desastrada de derrub-lo. O Mestre pegou-o facilmente, como se
ele no passasse de uma faixa de l malcheirosa. Vi o rosto do Mestre.
Ele abriu a boca. Apareceram dois dentinhos afiados como punhais quando
mordeu a garganta do homem. Ouvi o homem gritar, mas s por um instante,
ento seu corpo ftido se aquietou.
  Espantado e fascinado, observei quando o Mestre fechou os olhos macios
, os clios dourados parecendo prateados no escuro, e ouvi um rudo
baixo e molhado, quase inaudvel mas sugerindo horrivelmente algo
fluindo, e esse algo tinha a ver com o sangue do homem. O Mestre
estreitou-se mais ainda contra a vtima, os dedos brancos bem visveis
persuadindo o fluido vital a sair do corpo moribundo, enquanto dava um
longo suspiro doce de quem saboreava. Bebeu. Bebeu, e no havia dvida.
At torceu um pouco a cabea como se para sugar mais rpido o ltimo
gole, e a o vulto do homem, agora aparentemente frgil e malevel,
estremeceu-se todo, como se estivesse tendo uma ltima convulso e
depois aquietou-se.
  O Mestre levantou-se e passou a lngua nos lbios. No aparecia
nenhuma gota de sangue. Mas o sangue era visvel. Era visvel dentro do
Mestre. Seu rosto adquiriu um brilho corado. Ele se virou e olhou para
mim, e pude distinguir o rubor vivo de suas faces, o vermelho reluzente
de seus lbios.
  -  da que vem isso, Amadeo - disse ele.
  Empurrou o cadver para mim, aquelas roupas imundas roaram em mim, e
quando a cabea morta caiu para trs pesadamente, ele a empurrou mais
para perto, obrigando-me a ver o rosto grosseiro e sem vida do homem
condenado. Ele era jovem, tinha barba, no era bonito, estava exangue e
morto. Uma nesga branca aparecia embaixo de cada plpebra mole e
inexpressiva. Uma baba gordurosa pendia de seus dentes amarelados e
podres, de sua boca sem alento e sem cor.
  Eu estava sem fala. Medo, asco, no hav ia nada disso. Simplesmente
pasmo. Se pensasse, acharia que foi maravilhoso.
  Num repentino acesso do que parecia raiva, o Mestre atirou o corpo do
homem no canal. Ouviu-se o barulho que fez ao cair na gua. O Mestre me
agarrou, e vi as janelas passando por mim. Quase gritei quando subimos
mais alto que os telhados. Tapou minha boca com as duas mos. Movia-se
muito depressa, como se algo o impulsionasse ou o empurrasse para cima.
Rodopiamos ou assim pareceu, e quando abri os olhos estvamos num quarto
familiar. Havia longas cortinas douradas  nossa volta. Estava quente
ali. No escuro, vi a silhueta cintilante de um cisne dourado. Era o
quarto de Bianca, seu santurio particular, o quarto dela mesmo.
  - Mestre! - exclamei, com medo e repulsa por termos entrado no quarto
dela daquela maneira, sem dizer uma palavra sequer.
  Das portas fechadas, uma nesga de luz estendia-se pelo assoalho de
madeira e pelo grosso tapete persa. Estendia-se sobre as plumas
entalhadas de sua cama de cisne.
  Ento, ouviram-se os passos apressados de Bianca, em meio a uma nuvem
de vozes alegres, para que ela pudesse investigar sozinha o barulho que
ouviu. Um vento frio entrou no quarto pelajanela aberta quando ela abriu
a porta. Para evitar a correnteza, ela as fechou, destemida, e esticou o
brao com uma preciso infalvel e levantou o pavio de sua lmpada. A
chama aumentou e vi-a olhando para meu Mestre, embora tambm tivesse me
visto, com certeza. Ela estava igual, dojeito que eu a deixara h muitas
horas, vestida de veludo dourado e seda, as mechas enroladas na nuca
para dar peso s volumosas tranas que lhe caam pelas costas num
esplendor ondulado.
  Sua carinha logo assumiu uma expresso interrogativa e alarmada.
  - Maris - disse. - Como entra aqui assim agora em meus aposentos
privados? Como entra pelajanela, e com Amadeo? O que  isso, cime de
mim?
  - No, s que eu queria uma conisso - respondeu o Mestre. Sua voz
tremia. Ao aproximar-se dela de dedo em riste para acus-la, ele me
segurava com fora pela mo, como se eu fosse uma criancinha... -
Conte-lhe, meu anjo querido, conte-lhe o que est por trs de seu rosto
fabuloso.
  -No sei do que est falando, Marius. Mas voc me irrita. E ordeno que
saia de minha casa. Amadeo, o que tem a dizer sobre este abuso?
  -No sei, Bianca- murmurei. Eu estava apavorado. Nunca ouvira a voz do
Mestre tremer, e nunca ouvira ningum cham-lo pelo nome com tanta
intimidade.
  - Saia de minha casa, Marius. Agora. Dirijo-me ao homem honrado que h
em voc.
  - Ah, ento como se foi o seu amigo Marcellus, o florentino, aquele
que mandaram voc atrair para c com sua lbia, aquele em cuja bebida
voc deitou veneno suficiente para matar vinte homens?
  A expresso de minha donzela se fragilizou mas no se endureceu
realmente. Ela parecia uma princesa de porcelana avaliando meu Mestre
irritado e trmulo.
  - O que  isso para voc, meu Senhor? - perguntou ela. - Voc agora 
o Grande Conselho ou o Conselho dos Dez? Acuse-me diante dos tribunais,
se quiser, seu bruxo furtivo! Prove o que est dizendo.
  Havia nela uma grande dignidade nervosa. Ela ergueu a cabea e empinou
o queixo.
  -Assassina-disse o Mestre.-Estou vendo agora na cela solitria de sua
mente muitas confisses, muitos atos cruis e importunos, muitos
crimes...
  - No, voc no pode mejulgar! Mgico voc pode ser, mas no  nenhum
anjo, Marius. No voc com seus garotos.
  Ele a arrastou, e novamente vi sua boca se abrir. Vi seus dentes
letais. -No, Mestre, no! - Soltei sua mo quej no me segurava com
fora e voei em cima dele aos socos, apartando os dois com o meu corpo e
batendo nele com toda a fora. - No pode fazer isso, Mestre. No
importa o que ela tenha feito. Voc est procurando esses motivos para
qu? Cham-la de importuna? Ela! E o que h com voc?
  Bianca caiu para trs de encontro  cama e esforou-se para subir no
colcho, as pernas dobradas. Recuou para a escurido.
  - Voc  o Satans do Inferno em pessoa - murmurou ela. -  um
monstro, ej vi. Amadeo, ele nunca me deixar viver.
  -Deixe-a viver, Mestre, ou eu morro com ela! -disse eu.-Ela apenas
uma aula aqui. E no quero v-la morrer.
  O mestre estava infelicssimo. Atordoado. Afastou-me dele,
amparando-me para eu no cair. Dirigiu-se para a cama, mas no para
persegui-la. Sentou-se ao lado dela. Ela recuou mais ainda para a
cabeceira, procurando em vo alcanar o cortinado dourado, como se
aquilo pudesse salv-la.
  Eramidae estavaplida, com os ferozes olhos azuis vidrados e
arregalados.
  - Somos assassinos juntos, Bianca - murmurou ele para ela. Esticou o
brao. Precipitei-me  frente, mas s para ser detido displicentemente
por sua mo direita, e, com a esquerda, ele lhe afastava os cachinhos
soltos da testa. Ficou com a mo pousada em sua cabea como se fosse um
padre dando uma bno.
  - Tudo por necessidade grosseira, senhor - disse ela. - Afinal que
escolha eu tinha? - Que corajosa ela era, forte como prata temperada com
ao. -Uma vez que recebi as incumbncias, o que fazer, pois sei o que 
para serfeito e para quem? Como eles eram espertos. Foi uma poo que
levou dias para matar a vtima longe de meus aposentos aconchegantes.
  - Chame aqui seu opressor, filha, e envenene-o em vez daqueles que ele
indica.
  - , isso deve resolver - disse eu precipitadamente. - Matar o homem
que a levou a isso.
  Ela parecia mesmo pensar nisso e depois sorriu.
  -E os guardas dele, a famlia dele? Vo querer me estrangular pela
grande traio.
  -Eu o matarei para voc, doura-disse Marius. -E, por isso, voc no
ficar me devendo nenhum crime importante, s o seu gentil esquecimento
do apetite que viu em mim essa noite.
  Pela primeira vez, a coragem delapareceu fraquejar. Seus olhos se
encheram de lindas lgrimas transparentes. Percebia-se nela um ligeiro
cansao. Ela deixou a cabea pender por um momento.
  - Voc sabe quem ele , sabe onde ele mora, sabe que ele est em
Veneza agora.
  - Ele  um homem morto, minha bela senhora - disse o Mestre.
  Passei o brao em volta do pescoo dele, beijei sua testa. Ele
continuava olhando para ela.
  -Ento venha, querubim-disse-me ele sem tirar os olhos dela. - Vamos
livrar o mundo desse florentino, esse banqueiro que usa Bianca para
acabar com aqueles que lhe deram contas em segredo.
  Essa inteligncia espantou Bianca, mas de novo ela deu um sorriso
delicado de quem sabe das coisas. Quo graciosa era ela, quo desprovida
de orgulho e amargura. Quo rejeitados eram esses horrores.
  O Mestre estreitou-me com o brao direito. Com a mo esquerda, tirou
de dentro do palet uma bela prola grande em forma de pra. Parecia
algo de valor inestimvel. Ele a deu a Bianca, que s a pegou com alguma
hesitao, observando-a cair na palma de sua mo preguiosa.
  - Deixe-me beij-la, querida princesa - disse ele.
  Para meu espanto, ela consentiu, e ele ento a cobriu de beijos leves,
e vi que ela franziu a testa com um olhar deslumbrado, e seu corpo ficou
sem energia. Ela recostou nos travesseiros e adormeceu profundamente.
  Retiramo-nos. Pensei ter ouvido asjanelas se fecharem quando passamos.
A noite estava mida e escura. Eu tinha a cabea encostada no ombro de
Marius. Mesmo que eu quisesse, no poderia olhar para cima nem me mexer.
  - Obrigado, querido Mestre, por no t-la matado - murmurei.
  -Ela  mais que uma mulher prtica-disse ele.-Ainda est inteira. Tem
a inocncia e a esperteza de uma duquesa ou uma rainha.
  - Mas aonde vamos agora?
  -Estamos aqui, Amadeo. Estamos no telhado. Olhe em volta. Est ouvindo
o rumor l embaixo?
  Eram tamborins, tambores e flautas tocando.
  - Ah, ento eles vo morrer no prprio banquete - disse o Mestre
pensativo. Ele estava na beira do telhado, segurando o gradil de pedra.
O vento soprava seu manto para trs, e ele voltou os olhos para as
estrelas.
  - Quero ver tudo - eu disse.
  Ele fechou os olhos como se eu lhe tivesse dado um soco.
  -No pense que sou frio, Mestre - disse eu. -No pense que estou farto
de ver coisas brutais e cruis. Sou apenas o bobo, o bobo de Deus. No
questionamos, se estou bem lembrado. Rimos e aceitamos e transformamos a
vida toda em alegria.
  - Ento desa comigo. H muitos desses florentinos espertos. Ah, mas
estou faminto. Passei fome por causa de uma noite como esta. Talvez os
mortais sintam-se assim quando caam animais selvagens de grande porte.
  Quanto a mim, ao descermos do telhado para o salo de banquetes deste
palazzo novo e decorado com esmero, fiquei excitadssimo. Homens iriam
morrer. Homens seriam assassinados. Homens perversos, que seduziram a
bela Bianca, seriam mortos sem risco para meu todo-poderoso Mestre ou
para qualquer pessoa que eu conhecesse ou amasse. Um exrcito de
mercenrios no poderia ter sentido menos compaixo por esses
indivduos. Os venezianos atacando os turcos talvez tivessem mais
sentimentos pelo inimigo do que eu. Eu estava fascinado; o cheiro de
sanguej me impregnava na medida em que era simblico. Queria ver correr
sangue. De qualquer forma, no gostava mesmo de florentinos e no
entendia os banqueiros, e efetivamente desejava uma vingana rpida, no
s para aqueles que haviam abusado da bela Bianca mas tambm para
aqueles que a colocaram no caminho da sede do Mestre. Ento que seja.
  Entramos num salo de banquetes amplo e imponente, onde um grupo de
sete homens se regalava com um maravilhoso assado de porco. Tapearias
flamengas, todas novssimas e com maravilhosas cenas de caa de senhores
e damas com seus cavalos e ces, pendiam de grandes varas de ferro pelo
salo, cobrindo at asjanelas e chegando pesadas at o cho. O piso
formava um finssimo mosaico de mrmores de diversas cores, com desenhos
de paves com jias em suas grandes caudas em leque. A mesa era muito
larga, e nela havia trs homens sentados do mesmo lado, praticamente
babando em cima de pilhas de pratos de ouro repletos de ossos de ave e
espinhas de peixe, e do porco assado propriamente dito, pobre criatura
inchada, que ainda conservava a cabea, abocanhando ignominiosamente a
indefectvel ma, como se essa fruta fosse a expresso final de seu
derradeiro desej o.
  Os outros trs homens - todos jovens, bonitos, de certa forma, e
bastante atlticos, pelo aspecto de suas pernas bem torneadas - danavam
numa engenhosa roda, as mos se encontrando no centro, enquanto um
pequeno grupo de rapazes tocava os instrumentos cuja marcha retumbante
havamos escutado no telhado. Tudo parecia de certa forma engordurado e
sujo como resultado do festim. Mas nenhum membro do grupo deixava de ter
o cabelo farto e comprido da moda, e tnicas e cales de seda
enfeitados e pesadamente bordados. No havia fogo para aquecimento, e de
fato nenhum daqueles homens precisava disso, e todos estavam enfeitados
com palets de veludo debruados de arminho empoado, raposa prateada ou
qualquer outra pele branca.
  O vinho estava sendo servido nas taas por algum que parecia
completamente incapaz de dominar uma ao dessas. E os trs que
danavam, embora tivessem uma coreografia elegante para fazer, tambm
discutiam e se empurravam numa espcie de ridicularizao dos passos que
todos conheciam.
  Vi logo que os criados haviam sido dispensados. Muito vinho fora
derramado fora das taas. Um enxame de mosquitinhos sobrevoava, embora
fosse inverno, as reluzentes carcaas no totalmente comidas e os montes
de frutas midas. Uma nvoa dourada pairava sobre a sala. Era fumaa de
tabaco dos vrios tipos de cachimbo que os homens fumavam. O fundo das
tapearias era invariavelmente azul- escuro, e isso aquecia o ambiente,
realando o brilho das roupas coloridas dos msicos e dos convidados do
jantar.
  De fato, quando entramos naquela sala enfumaada e quente, fiquei
tonto com a atmosfera, e, quando o Mestre mandou-me sentar numa das
cabeceiras da mesa, o fiz mais por fraqueza, embora evitasse tocar a
superfcie da mesa e muito menos a borda dos vrios pratos. Os folies
ruidosos e corados no notaram nossa presena. O barulho dos msicos
bastava para nos tornar invisveis, porque sobrepujava os sentidos. Mas
mesmo num silncio absoluto, os homens estavam embriagados demais para
nos terem visto. De fato, o Mestre, aps dar-me um beijo no rosto,
encaminhou-se para um espao vago no centro da mesa, provavelmente
deixado por um dos que saltitavam ao som da msica, e sentou-se no banco
forrado. S ento os dois homens sentados a seu lado, que gritavam
obstinadamente um com o outro por qualquer motivo, repararam nesse
convidado esplendoroso de escarlate.
  O Mestre havia deixado cair o capuz, e seu cabelo compridssimo tinha
uma forma maravilhosa. Parecia o Cristo de novo na ltima Ceia com um
nariz fino e uma boca meiga e carnuda, o cabelo louro muito bem
repartido ao meio, o volume avivado pela umidade da noite. Olhou para
cada um dos convidados, e, para meu espanto, ao olhar para ele, vi-o
entrando na conversa da mesa, discutindo com os convidados as
atrocidades infligidas aos venezianos que estavam em Constantinopla
quando o sulto turco de vinte e um anos, Mehmet II, conquistou a
cidade. Parecia que se discutia como os turcos invadiram realmente a
capital sagrada, e um homem dizia que se os navios venezianos no
tivessem deixado Constantinopla, abandonando-a antes do fim, a cidade
poderia ter sido salva. No havia a menor chance, dizia outro, um ruivo
forte de olhos aparentemente dourados. Que beleza! Se esse era o patife
que desencaminhara Bianca, eu estava vendo por qu. Entre a barba e o
bigode ruivos, seus lbios formavam exuberante arco de Cupido, e seu
queixo tinha a fora das figuras de mrmore sobre-humanas de
Michelangelo.
  - Durante quarenta e oito dias, os canhes dos turcos bombardearam os
muros da cidade - declarou ele a seu consorte - e acabaram entrando. O
que se poderia esperar? Voc j viu armas como aquelas?
  O outro, um homem lindo de cabelos pretos e pele cor de oliva e mas
do rosto redondas bem prximas do nariz pequeno e dos grandes olhos
negros aveludados, ficou furioso e disse que os venezianos agiram como
covardes, e que, se tivesse vindo, a frota de apoio poderia ter detido
at os canhes. Com o punho, ele fazia o prato  sua frente chacoalhar.
  - Constantinopla foi abandonada! - declarou. - Veneza e Gnova no
ajudaram. Nesse dia, deixaram o maior imprio da Terra ruir.
  - No foi isso - disse o Mestre um tanto discretamente, erguendo as
sobrancelhas e inclinando a cabea ligeiramente para o lado. Olhou
lentamente para cada um dos presentes. - Houve de fato muitos venezianos
corajosos que vieram acudir Constantinopla. Acho, e com razo, que mesmo
se toda a frota veneziana tivesse vindo, os turcos teriam continuado. O
sonho dojovem sulto Mehmet II era conquistar Constantinopla e ele nunca
se deteria.
  Ah, isso estava interessantssimo. Eu estava pronto para uma aula de
histria vermelho, para ter uma boa viso de todos. Coloquei a cadeira
num ngulo que me permitisse ver melhor os danarinos, que mesmo
desajeitados compunham uma cena e tanto, nem que fosse pelo movimento de
suas longas mangas bordadas e a percusso no cho de mrmore de seus
sapatos enfeitados com pedrarias. O ruivo da mesa, jogando para trs a
cabeleira ricamente encaracolada, foi encorajadssimo pelo Mestre, e lhe
dirigiu um olhar de adorao selvagem.
  - Sim, sim, aqui est um homem que sabe o que aconteceu, e voc est
mentindo, seu tolo - disse ele para o outro. - E voc sabe que os
genoveses lutaram bravamente at o im. Trs navios foram enviados pelo
Papa; furaram o bloqueio do porto, chegando ao lado de Rumeli Hisar, o
castelo maligno do sulto. Foi Giovanni Longo, e voc pode imaginar que
coragem?
  - Francamente, no! -disse o de cabelos pretos, debruando-se na
frente do Mestre como se este fosse uma esttua.
  -Foi uma ao corajosa-disse o Mestre com displicncia. -Por que diz
bobagens em que no acredita? Ora, voc sabe o que aconteceu aos navios
venezianos capturados pelo sulto.
  - Sim, fale sobre isso. Voc entraria naquele porto? - perguntou o
florentino ruivo. - Sabe o que fizeram com os navios venezianos
capturados seis meses antes? Decapitaram todos os homens a bordo.
  - Menos o comandante! - gritou um dos danarinos que se virara para
entrar na conversa, mas continuava danando para no perder o passo. -
Eles o empalaram num poste. O comandante era Antonio Rizzo, um dos
melhores homens que j existiram. - O homem continuou danando, fazendo
um gesto brusco de desprezo por cima do ombro. Ento escorregou ao dar a
pirueta e quase caiu. Seus parceiros de dana o ampararam. O de cabelos
pretos sentado  mesa balanou a cabea.
  - Se tivesse sido uma frota veneziana completa... - exclamou. - Mas
vocs florentinos e vocs venezianos so todos iguais, traioeiros,
apostando dos dois lados.
  O Mestre olhava para ele, achando graa.
  - No ria de mim - disse o de cabelos pretos. - Voc  veneziano. J o
vi milhares de vezes. Voc e esse rapaz!
  Apontou para mim. Olhei para o Mestre, que apenas sorriu. Ento ouvi-o
falar baixinho claramente para mim, de modo que escutei suas palavras
como se ele estivesse a meu lado e no a metros de distncia.
  - Testemunho dos mortos, Amadeo.
  O de cabelos pretos pegou a taa, tomou uns goles de vinho e derramou
outros tantos na barba pontuda.
  - Uma cidade inteira de cmplices filhos da me! - sentenciou. - S
serviam para uma coisa, e isso era tomar dinheiro emprestado ajuro alto
depois de gastarem tudo que tinham em roupas caras.
  - Voc tem que falar - disse o ruivo. - Parece um maldito pavo. Eu
deveria lhe cortar o rabo. Vamos voltar a Constantinoplaj que tem tanta
certeza de que ela poderia ser salva!
  - Agora voc  um maldito veneziano.
  - Sou banqueiro, sou um homem de responsabilidade -disse o ruivo.
Admiro quem enriquece comigo. - Pegou sua taa, mas, em vez de beber o
vinho, jogou-o na cara do de cabelos pretos.
  O Mestre no se deu ao trabalho de inclinar-se para trs, portanto,
sem dvida, levou alguns respingos de vinho. Olhava para aquelas caras
suadas e coradas  sua direita e  sua esquerda.
  - Giovanni Longo, um dos genoveses mais corajosos a capitanear um
navio, permaneceu naquela cidade durante todo o stio - exclamou o
ruivo. Isso  coragem. Eu investiria dinheiro num homem assim.
  - No sei por qu - interveio o danarino, o mesmo de antes. Deixou a
roda por um tempo suficiente para declarar: - Ele perdeu a batalha, e,
alm do mais, seu pai foi sensato o bastante para no financiar nenhum
deles.
  -No ouse! - interrompeu o ruivo. -Um brinde a Giovanni Longo e aos
genoveses que lutaram com ele. - Agarrou o jarro, quase derrubando-o,
entornou vinho em seu copo e na mesa e tomou um gole fundo. - E um
brinde a meu pai. Que Deus tenha piedade de sua alma imortal. Pai,
massacrei seus inimigos, e vou massacrar aqueles que fazem da ignorncia
um passatempo.
  Virou-se, cutucou o Mestre e falou:
  - Aquele seu garoto  uma beleza. No se apresse. Pondere. Quanto?
  O Mestre deu uma gargalhada com uma naturalidade e uma doura que eu
nunca ouvira em suas risadas.
  - Faa uma oferta, de algo que possa me interessar- respondeu o Mestre
olhando de esguelha para mim, com um brilho dissimulado no olhar.
  Parecia que cada homem naquela sala estava me avaliando, e, entenda,
esses a no gostavam de garotos; eram apenas italianos modernos, que,
embora gerassem filhos como deles era exigido e corrompessem mulheres
sempre que aparecia uma chance, apreciavam um jovem carnudo e suculento,
como os homens hoje apreciam uma torrada dourada com creme azedo e o
melhor caviar.
  No pude deixar de sorrir. Mate-os, pensei, massacre-os. Senti-me
cativante e at bonito. Algum a, diga que fao lembrar Mercrio
perseguindo as nuvens na Primavera de Botticelli, mas o ruivo,
encarando-me com um olhar malicioso e brincalho, disse:
  - Ah, ele  o David de Verrocchio, o modelo de verdade para a esttua
de bronze. No tente dizer que no . E imortal, ah, sim, estou vendo,
imortal. Ele no morrer nunca. - Ergueu de novo a taa. Ento, enfiou a
mo na jaqueta forrada de arminho empoado e tirou um rico medalho de
ouro com um imenso diamante tabla. Arrancou a corrente do pescoo e
apresentou orgulhosamente a pedra ao Mestre, que a observou a balanar 
sua frente como se fosse um orbe que devesse enfeiti-lo.
  -Para todos ns- saudou o de cabelos pretos, virando-se para me
encarar. Os outros gargalhavam. Os danarinos gritavam:
  - Sim e para mim tambm.
  - Se eu no for segundo com ele, nada.
  E: - Aqui, para ir primeiro, antes de voc.
  Esta ltima frase foi dita pelo ruivo, mas ajia que o danarino
atirou para o Mestre, um anel de carbnculo com uma faiscante pedra
prpura, eu no conhecia.
  - Uma safira - sussurrou o Mestre, com um olhar provocante para mim. -
Amadeo, voc aprova?
  O terceiro danarino, um louro um tanto mais baixo que qualquer dos
presentes e com um pequeno calombo no ombro esquerdo, saiu da roda e
veio em minha direo. Tirou todos os anis, como se descalasse luvas,
e atirou-os todos a meus ps.
  - Sorria com doura para mim, jovem deus - disse ele, embora estivesse
arfando por causa da dana, e com o colarinho de veludo encharcado.
Cambaleava e quase caiu, mas conseguiu levar isso na galhofa, fazendo
uma pirueta pesada ao voltar para a dana. A msica continuava
percutindo. Como se os danarinos achassem que ela devia afogar a
prpria bebedeira de seus mestres.
  - Algum quer saber do stio de Constantinopla? - perguntou o Mestre.
  - Fale-me sobre Giovanni Longo -pedi baixinho.
  Todos os olhos voltavam-se para mim.
  -  o stio de... Amadeo, foi isso?... Sim, Amadeo, isso eu guardei!
gritou o danarino louro.
  - Daqui a pouco, senhor - comentei. - Mas me ensine um pouco de
histria.
  - Seu danadinho - interveio o de cabelos pretos. - Voc nem pegou os
anis dele.
  -Meus dedos esto cobertos de anis-respondi educadamente, o que era
verdade.
  O ruivo imediatamente voltou  carga.
  - Giovanni Longo resistiu a quarenta dias de bombardeio. Lutou a noite
inteira quando o turco rompeu o bloqueio. Nada o assustava. Foi levado
para um lugar seguro s por ter sido ferido.
  - E os carlhes - perguntei. - Eram enormes?
  - E suponho que voc estava l! - gritou o moreno para o louro, antes
que este pudesse me responder.
  -Meu pai estava l! -disse o ruivo. -E sobreviveu para contar a
histria. Estava no ltimo navio a sair do porto com os venezianos, e,
antes que comece a falar, vou lhe avisando para no falar mal de meu pai
ou daqueles venezianos. Eles salvaram os cidados, a batalha estava
perdida:..
  - Eles desertaram, voc quer dizer - disse o moreno.
  - Quero dizer que foram embora levando os refugiados indefesos depois
da vitria dos turcos. Est chamando meu pai de covarde? Voc no
entende mais de boas maneiras do que entende de guerra.  idiota demais
para algum brigar com voc, e est bbado demais.
  - Amm - disse o Mestre.
  - Conte a ele - falou o ruivo ao Mestre. - Voc, Marius De Romanus,
conte a ele. - Tomou mais um gole. - Conte a ele sobre o massacre, o que
aconteceu. Conte a ele como Giovanni Longo lutou junto s muralhas at
ser atingido no peito. Oua, seu louco idiota! - gritou para o amigo.
-Ningum sabe mais sobre ele do que Marius De Romanus. Bruxos so
espertos  o que diz minha prostituta, e um brinde a Bianca Solderini. -
Ele esvaziou o copo.
  - Sua prostituta? - perguntei. - Diz isso de uma mulher como essa, e
aqui, diante de homens bbados e desrespeitosos?
  Eles no me fizeram caso, nem o ruivo, quej estava de novo esvaziando
o copo, nem os outros. O louro veio cambaleando para mim.
  -Eles esto bbados demais para se lembrarde voc, lindo-disse. -Mas
eu no.
  - Tropece na dana - eu disse. - No tropece em suas investidas para
mim.
  - Seu pirralhinho desgraado - xingou o homem, e caiu em minha
direo, desequilibrando-se. Tombou para a direita, escorregou da
cadeira e caiu no cho. Os outros estouraram na gargalhada. Os dois
danarinos remanescentes desistiram da coreografia.
  -Giovanni Longo foi corajoso-comentou o Mestre calmamente, observando
tudo e em seguida voltando seu olhar frio para o ruivo. - Todos foram
corajosos. Mas nada poderia salvar Bizncio. Chegara sua hora.
Acabara-se o tempo dos imperadores e dos limpadores de chamin. E, no
holocausto que se seguiu, muita coisa se perdeu para sempre. Centenas de
bibliotecas foram incendiadas. Textos e mais textos sagrados com todos
os seus imponderveis mistrios viraram fumaa.
  Afastei-me do agressor bbado, que rolava no cho.
  - Seu cachorrinho de estimao nojento! - gritou para mim o homem
estatelado. - Me d a mo, estou mandando.
  - Ah - disse eu -, mas acho que voc quer mais do que isso.
  - E vou ter! - insistiu ele, mas escorregou apenas e tornou a cair
para trs com um gemido de infelicidade. Um dos outros homens  mesa -
bonito porm mais velho, de longos e fartos cabelos grisalhos ondulados,
o rosto sulcado por belas rugas, que at ento estivera calado,
deliciando-se com um osso de carneiro - olhou-me por cima do osso e para
o agressor que se contorcia no cho tentando ficar em p.
  -Humm. Ento Golias cai, Davizinho-disse ele, sorrindo para
mim.Cuidado com a lngua, Davizinho, no somos todos gigantes idiotas, e
suas pedras ainda no so para atirar.
  Retribu-lhe o sorriso.
  - Sua brincadeira  de mau gosto como a de seu amigo. Quanto a minhas
pedras, como colocou, elas ficaro bem aqui na bolsa onde esto,
esperando que voc tropece em seu amigo.
  - Voc diz os livros?-perguntou o ruivo a Marius, completamente alheio
a essa pequena discusso. - Os livros foram queimados na queda da maior
cidade do mundo?
  - Sim, esse sujeito gosta de livros - disse o moreno. - Senhor, 
melhor olhar seu garoto. Ele  um homem liquidado, a dana mudou.
Diga-lhe para no zombar dos mais velhos.
  Os dois danarinos vieram em minha direo, to bbados como o homem
que cara. Vieram me acariciar, tornando-se simultaneamente um animal de
quatro braos com bafo fortemente perfumado.
  - Voc ri para nosso amigo rolando no cho? - perguntou um deles,
dando-me uma joelhada entre as pernas.
  Recuei, escapando por pouco do golpe grosseiro.
  - Pareceu-me a coisa mais gentil a fazer- respondi. -J que ele caiu
por me adorar. No mergulhem em devoes desse tipo, senhores. No tenho
a menor inclinao para responder s suas preces.
  O Mestre se levantara.
  - Estou cansado disso - disse ele numa voz fria e clara que ecoou
pelas tapearias penduradas. Havia um tom glacial em seu modo de falar.
Todos olharam para ele, at o homem lutando para se levantar.
  -  mesmo! -disse o moreno erguendo os olhos. - Marius De Romanus , ?
J ouvi falar em voc. No tenho medo de voc.
  - Que bom para voc - murmurou o Mestre com um sorriso. Ps a mo na
cabea do homem, que se afastou bruscamente, quase caindo do banco, mas
agora definitivamente com medo. Os danarinos avaliaram o Mestre,
decerto tentando ver at que ponto seria fcil domin-lo. Um deles
tornou a virar para mim.
  - Preces, Inferno! - disse.
  - Cuidado com meu Mestre. Voc o cansa, e, quando est cansado, ele
endoida. - Puxei o brao quando ele estava querendo me pegar. Recuei
mais ainda, para o meio dos msicos, e a msica envolveu-me como uma
nuvem protetora. Dava para ver o pavor em seus rostos, no entanto,
tocaram mais rpido ainda, ignorando o suor em suas testas.
  - Doce, doce, cavalheiros-disse eu. -Estou gostando. Mas toquem um
rquiem, por favor.
  Eles me olharam desesperados mas sem qualquer outra expresso. O
tambor seguia tocando e a flauta produzia aquela melodia serpenteante e
a sala pulsava com os acordes do alade. O louro no cho gritava por
socorro, sem conseguir levantar de jeito nenhum, e os dois danarinos
foram acudi-lo, embora um ficasse me observando. O Mestre olhou para o
insolente de cabelos pretos, ergueu-o do banco com uma das mos e foi
beijar seu pescoo. O homem ficou suspenso no ar, paralisado como um
pequeno mamfero na boca de uma fera, e quase ouvi o grande sorvo de
sangue escorrer dele enquanto o cabelo de meu Mestre se arrepiava e caa
para cobrir o repasto fatal. Rapidamente, ele largou o homem. S o ruivo
observava tudo isso. E, em sua embriaguez, parecia no saber o que
fazer. De fato, ele ergueu uma sobrancelha , atnito, e tornou a beber
da taa imunda. Lambeu os dedos da mo direita, um a um, como se fosse
um gato, quando o Mestre deixou seu companheiro moreno cair de cara na
mesa, na verdade, bem numa bandeja de frutas.
  - Bbado idiota - disse o ruivo. - Ningum luta por valor, honra ou
decncia.
  - No muitos de qualquer maneira - replicou o Mestre encarando-o.
  - Aqueles turcos dividiram o mundo em dois - disse o ruivo, ainda
contemplando o morto, que decerto olhava com um ar idiota para ele da
bandeja amassada. Eu no conseguia ver a cara do defunto, mas me
excitava tremendamente saber que estava morto.
  -Agora venham, cavalheiros-disse o Mestre-, e venha c voc que deu
tantos anis a meu menino.
  - Ele  seu filho? - gritou o louro corcunda, que afinal estava de p.
Afastou os amigos. Virou-se e passou  intimao. - Serei um pai melhor
para ele do que vocjamais foi.
  O Mestre apareceu subitamente e sem fazer nenhum rudo ao lado dele na
mesa. Suas roupas assentaram-se imediatamente como se ele s tivesse
dado um passo. O ruivo nem sequer pareceu ver isso.
  - Skanderbeg. O grande Skanderbeg, fao um brinde a ele -disse o ruivo
, aparentemente para si mesmo. - Ele morreu h muito tempo, e me dem
apenas cinco Skanderbegs que organizarei uma nova cruzada para resgatar
nossa cidade dos turcos.
  - De fato, quem no faria isso com cinco Skanderbegs - disse o homem
mais velho da ponta da mesa, aquele atracado com o osso. Ele limpou a
boca no pulso nu. - Mas no h general como Skanderbeg, e nunca houve,
exceto o prprio. O que h com Ludovico? Seu idiota!
  Levantou-se. O Mestre havia passado o brao em volta do louro que o
empurrava, bastante desanimado com o fato de o Mestre ser inamovvel.
Enquanto era empurrado pelos dois danarinos que queriam libertar o
companheiro, o Mestre tornou a dar seu beijo fatal. Girou o homem e
pareceu sugar-lhe o sangue num grande sorvo. Numa frao de segundos,
fechou os olhos do homem com dois dedos brancos e deixou o corpo
escorregar para o cho.
  - Chegou a vez de vocs morrerem, bons cavalheiros - disse ele aos
danarinos que se afastaram dele. Um deles sacou a espada.
  - No seja to estpido! - gritou o companheiro. - Voc est bbado.
Nunca h de...
  -No, voc no vai -disse o Mestre com um pequeno suspiro. Seus lbios
estavam mais rseos do que eu jamais havia visto, e o sangue que ele
bebera desfilava em suas faces. At seus olhos estavam mais brilhantes.
Ele agarrou a espada do homem e, com uma presso do polegar, partiu o
metal, de modo que o homem ficou segurando apenas um pedao.
  - Como ousa! - gritou o homem.
  - Como voc ousou  mais preciso! - cantou o ruivo  mesa. - Partida
ao meio, ? Que tipo de ao  esse?
  O roedor deu uma sonora gargalhada e jogou a cabea para trs.
Arrancou outro naco de carne do osso.
  O Mestre liquidou com o que brandia a espada partida, e agora, para
descobrir a veia, quebrou-lhe o pescoo com um estalido alto. Os outros
trs pareceram ouvir isso - o roedor de osso, o danarino alerta e o
ruivo. Em seguida, o Mestre abraou o ltimo dos danarinhos. Segurou o
rosto do homem como se num gesto de amor e bebeu de novo, sorvendo-lhe a
garganta de modo que s vi o sangue rapidamente, um verdadeiro dilvio
vermelho, que o Mestre cobriu com a boca e a cabea inclinada.
  Eu via o sangue escorrendo para a mo do Mestre. Mal podia esperar que
ele levantasse a cabea, o que ele fez bem depressa, mais at do que com
a ltima vtima, e olhou para mim com um ar sonhador e sua fisionomia
estava toda em chamas. Parecia to humano quanto qualquer homem ali na
sala, mesmo enlouquecido com aquela sua bebida especial, como eles
estavam com o vinho comum deles.
  Seus cachos louros estavam colados na testa suada, e vi que tinham um
belo brilho de sangue.
  A msica parou bruscamente.
  No foi a destruio mas sim o aspecto do Mestre que a fizera parar,
enquanto ele deixava esta ltima vtima, um saco de ossos frouxo,
escorregar para o cho.
  - Rquiem - falei de novo. - Os fantasmas deles vo lhes agradecer,
gentis cavalheiros.
  - Isso - disse Marius aos msicos aproximando-se deles - ou fugir da
sala.
  - Digo fugir da sala - murmurou o tocador de alade. Na mesma hora
todos eles foram se encaminhando para a porta. Com pressa, puxavam e
puxavam o ferrolho, praguejando e gritando.
  O Mestre recuou e recolheu os anis em volta da cadeira onde ele
estivera sentado.
  - Meus rapazes, vocs vo embora sem receber - disse.
  Com todo aquele pavor lacrimoso e indefeso, os msicos viraram e viram
os anis sendo atirados em cima deles, e, estpida e avidamente, cada
qual pegou, envergonhado, um tesouro atirado pelo Mestre. Ento as
portas se abriram de par em par contra a parede. Eles saram, quase
batendo no alisar, e as portas ento se fecharam
  - Isso foi inteligente! -observou o homem com o osso, que ele
finalmente ps de lado, j que no tinha mais carne. - Como voc faz,
Marius De Romanus? Ouvi dizer que  um mgico poderoso. No sei porque o
Grande Conselho no o acusa de bruxaria. Deve ser esse seu dinheiro
todo, no?
  Olhei para o Mestre. Eu jamais o vira to encantador como agora,
corado com esse sangue novo. Eu queria tocar nele. Queria ir para seus
braos. Seus olhos estavam embriagados e meigos quando ele olhou para
mim. Mas ele desfez aquele olhar sedutor e voltou para a mesa,
contornando-a direito, e ficou ao lado do homem que se regalara com o
osso. O homem grisalho olhou para ele e, em seguida, para seu
companheiro ruivo.
  -No seja tolo, Martino-disse ao ruivo.-Deve ser perfeitamente legal
ser bruxo no Vneto desde que a pessoa pague seu imposto. Ponha seu
dinheiro no banco de Martino, Marius De Romanus.
  - Ah, mas eu ponho - disse Marius De Romanus, meu Mestre - e me d um
rendimento bastante bom.
  Tornou a sentar entre o morto e o ruivo, que parecia encantado e
animado por faz-lo voltar.
  - Martino - disse o Mestre. - Vamos falar mais sobre a queda dos
imprios. Por que seu pai estava com os genoveses?
  O ruivo, agora bastante inflamado com a discusso toda, declarou com
orgulho que seu pai havia sido o representante do banco da famlia em
Constantinopla, e que havia morrido depois em virtude dos ferimentos de
guerra sofridos naquele dia derradeiro e terrvel.
  - Ele viu - disse o ruivo -, viu as mulheres e as crianas
massacradas. Viu os sacerdotes arrancados dos altares de Santa Sofia.
Ele conhece o segredo.
  - O segredo - zombou o velho. Ele mudou de lugar na mesa e empurrou o
morto do banco para o cho. - Meu Deus, seu filho da me sem corao -
disse o ruivo. - Ouviu o crnio do defunto rachar?
  - No trate meu convidado dessa maneira, no se quiser ficar vivo.
  Aproximei-me mais da mesa.
  -Sim, venha c, sim, lindo-disse o ruivo.-Sente-se.-Ele voltou para
mim seus olhos dourados resplandecentes. - Sente aqui,  minha frente.
Meu Deus. Olhe ali o Francisco. Juro que ouvi o crnio dele rachar.
  - Ele est morto - disse Marius com voz macia. - Por enquanto, tudo
bem, no se preocupem com isso. - Seu rosto estava ainda mais brilhante
com o sangue que ele havia bebido. Na verdade, possua agora uma cor
uniforme, toda radiosa, e seu cabelo parecia mais louro ainda em
contraste com a pele corada. Havia uma minscula teia de veias dentro de
cada um de seus olhos, no depreciando em nada sua beleza assombrosa e
resplndecente. - Ah, muito bem, timo, eles esto mortos - o ruivo deu
de ombros. Sim, eu estava lhes contando, e  melhor vocs anotarem isso
porque eu sei. Os padres pegaram o clice sagrado do Exrcito Sagrado e
foram para um esconderijo em Santa Sofia. Meu pai viu isso com os
prprios olhos. Conheo o segredo.
  - Olhos, olhos, olhos - disse o velho. - Seu pai deve ter sido um
pavo para ter tantos olhos!
  -Cale a boca seno corto sua garganta-disse o ruivo.-Olhe o que voc
fez com Francisco, derrubando-o assim. Meu Deus! - Fez o sinal-da-cruz
um tanto preguiosamente.
  - A cabea dele est sangrando atrs.
  Meu Mestre virou-se e, abaixando-se, apanhou esse sangue com os dedos.
Virou-se lentamente para mim e depois para o ruivo. Chupou o sangue de
um dos dedos.
  -Morto-dsse com um sorrisinho.-Mas est bastante quente e grosso. -
Riu devagar.
  O ruivo estava fascinado como uma criana num espetculo de
marionetes. O Mestre estendeu a mo ensangentada com a palma para cima
e sorriu como que dizendo:
  "Quer provar?"
  O ruivo agarrou o pulso de Marius e lambeu-lhe o sangue do indicador e
do polegar.
  -Humm, muito bom-disse. -Todos os meus companheiros tm sangue do
melhor.
  - No diga - disse meu Mestre. Eu no conseguia tirar os olhos de seu
rosto cambiante. Agora parecia que suas faces estavam mais escuras, ou
talvez fosse apenas a curva que formavam quando ele sorria. Seus lbios
estavam rosados.
  - E ainda no acabei, Amadeo - murmurou ele. - Apenas comecei. - Ele
no est muito ferido! - insistiu o velho. Estudou a vtima no cho.
Estava preocupado. T-lo-ia matado?- s um simples corte na parte
posterior da cabea, nada mais. No ?
  - , um cortezinho - disse Marius. - Que segredo  esse, meu caro
amigo?-Ele estava de costas parao velho, falando com o ruivo com muito
mais interesse do que antes.
  - Sim, por favor - disse eu. - Qual  o segredo? - perguntei. - O
segredo  que os padres fugiram?
  -No, criana, no seja obtuso! -disse o ruivo olhando para mim. Ele
era vigorosamente lindo. Bianca o teria amado? Ela nunca disse.
  - O segredo, o segredo - disse ele. - Se no acredita nesse segredo,
no acreditar em nada, sagrado ou no.
  Ergueu a taa. Estava vazia. Pegou o jarro e encheu-a com aquele vinho
escuro e de aroma delicioso. Considerei a hiptese de prov-lo, ento
senti uma repulsa.
  - Bobagem - murmurou o Mestre. - Beba ao passamento deles. V em
frente. Aqui est uma taa limpa.
  - Ah, sim, me perdoe - disse o ruivo. - No lhe ofereci uma taa. Meu
Deus, pensar que joguei um simples diamante tabla na mesa para voc,
quando eu queria seu amor.
  - Pegou a taa, um objeto rico e extravagante de prata cravejado de
pedrinhas.
  Agora eu via que as taas formavam um conjunto, todas cinzeladas com
figurinhas delicadas e incrustadas com essas mesmas pedrinhas
brilhantes. Pousou essa taa na mesa, batendo com ela. Pegou ojarro de
minha mo, encheu a taa e empurrou-a para mim. Achei que ficariato
enjoado que vomitaria no cho. Olhei para ele, para seu rosto meigo ali
perto e seu lindo cabelo vermelho chamejante. Deu um sorriso infantil,
mostrando dentes pequenos mas perfeitos, muito brancos, e pareceu louco
por mim, divagando, sem dizer uma palavra.
  -Tome, beba-disse o Mestre. -Seu caminho  perigoso, Amadeo, beba para
conhecer e beba para ter fora.
  -O Mestre no est zombando de mim agora, est?-perguntei, olhando
para o ruivo, embora falasse com Marius.
  - Eu o amo, como sempre amei - disse o Mestre -, mas voc v mesmo
alguma coisa no que digo, pois estou endurecido pelo sangue humano. 
sempre o que acontece. S passando fome encontro uma pureza etrea.
  - Ah, e voc me afasta da penitncia em cada momento crtico - disse
eu -, e me leva para os sentidos e para o prazer.
  O ruivo e eu estvamos de olhos fechados. No entanto, ouvi Marius me
responder.
  -Matar  uma penitncia, Amadeo, a dificuldade  essa.  uma
penitncia matarpor nada, nada, nem por "honra, valor ou decncia", como
diz nosso amigo aqui.
  - Sim - assentiu "nosso amigo", que se virou para Marius e depois
novamente para mim.
  - Beba! - Passou-me a taa.
  - E quando tudo estiver pronto, Amadeo, recolha essas taas e leve-as
para casa para que eu tenha um trofu de meu fracasso e de minha
derrota, pois sero iguais, e uma lio para voc tambm. Raramente as
coisas so to ricas e claras como esto para mim agora. O ruivo
inclinou-se  frente, firme no namoro, e levou a taa a meus lbios. -
Davizinho, voc ser rei quando crescer, lembra-se? Ah, quero ador-lo
agora, esse homenzinho de faces macias que voc , e implorar por um
salmo de sua harpa, um s, contanto que seja dado por sua livre e
espontnea vontade.
  O Mestre disse baixinho:
  - Voc pode atender o pedido de um moribundo?
  - Acho que ele est morto! - disse o homem grisalho num tom
irritantemente alto.
  - Olhe, Martino, acho que o matei mesmo; a cabea dele est sangrando
como um maldito tomate. Olhe!
  - Ah, pare de falar nele! - interrompeu Martino, o ruivo, sem deixar
de me encarar. - Satisfaa o pedido de um moribundo, Davizinho -
prosseguiu ele. - Estamos todos morrendo, e eu por voc, e para que voc
morra comigo, s um pouquinho, em meus braos? Vamos fazer uma
brincadeirinha com isso. Vai diverti-lo, Marius De Romanus. Voc me ver
montar nele e afag-lo com um ritmo interessante, e ver uma escultura
de carne que vira uma fonte, enquanto o que eu estiver ejaculando para
dentro delejorrar dele em minha mo.
  Fechou a mo como se j tivesse segurando meu rgo. Continuava me
fitando. Depois, baixinho, disse:
  - Sou macio demais para fazer minha escultura. Deixe-me beber de voc.
Tenha piedade dos sedentos.
  Arranquei a taa de sua mo vacilante e bebi todo o vinho. Meu corpo
se contraiu. Pensei que o vinho fosse voltar. Fiz com que descesse.
Olhei para o Mestre.
  - Que feio, odeio isso.
  - Ah, bobagem - disse ele sem mover os lbios. - H beleza por todo
  - Maldio se ele no estiver morto - disse o velho.
  Chutou o corpo de Francisco no cho.
  - Martino, estou fora daqui.
  -Fique-ordenou Marius. - Eu lhe darei um beijo de boa-noite. - Pegou o
velho pelo pulso e pulou em sua garganta, mas como ter visto isso o
ruivo, que deu apenas uma olhadela turva antes de continuar sua
adorao? Tornou a encher a taa. Ouviu-se um gemido emitido pelo homem
grisalho, ou ter sido por Marius? Eu estava petrificado. Quando ele
deixasse a vtima, eu veria ainda mais sangue fervilhando nele, e daria
o mundo para v-lo branco novamente, meu deus de mrmore, meu pai
entalhado em nossa cama ntima. O ruivo levantou-se  minha frente
debruando-se sobre a mesa e encostou os lbios midos nos meus.
          - Morro por voc, garoto! - disse.
  - No, voc morre por nada - disse Marius.
          - Mestre, ele no, por favor! - gritei. Ca para trs, quase
me desequilibrando no banco. O brao do Mestre se interps entre ns, e
sua mo cobriu o ombro do ruivo. - Qual  o segredo - gritei
freneticamente -, o segredo de Santa Sofia, aquele no qual precisamos
acreditar?
          O ruivo estava completamente atnito. Sabia que estava
embriagado. Sabia que as coisas em volta dele no faziam sentido. Mas
achou que era porque estivesse bbado. Olhou para o brao de Marius na
frente de seu peito, e at virou-se e olhou para os dedos que lhe
seguravam o ombro. Ento olhou para Marius, e eu tambm olhei. Marius
era humano, totalmente humano. No havia vestgio do deus impermevel e
indestrutvel. O sangue fervilhava em seus olhos e seu rosto. Estava
corado como um homem depois de uma corrida, e seus lbios estavam
ensangentados, e, ao lamb-los, sua lngua era vermelho-rubi. Ele
sorriu para Martino, o ltimo deles, o nico poupado. Martino desviou os
olhos de Marius e olhou para mim. Imediatamente, amoleceu e perdeu a
defensiva. Falou com reverncia.
          - Em pleno stio, enquanto os turcos tomavam a igreja de
assalto, alguns dos padres deixaram o altar de Santa Sofia- disse ele. -
Levaram o clice do Sacramento Abenoado, o Corpo e o Sangue de Nosso
Senhor. Esto escondidos nas cmaras secretas de Santa Sofia, e no
momento exato em que recuperarmos a cidade, no momento exato em que
recuperarmos a grande igreja de Santa Sofia, quando expulsarmos os
turcos de nossa capital, esses mesmos padres voltaro. Sairo do
esconderijo e subiro a escadaria do altar, continuaro a dizer a missa
no ponto exato em que foram obrigados a parar.
  - Ah - suspirei, maravilhado com isso. - Mestre - falei baixinho. Esse
 um bom segredo para salvar a vida de um homem, no ?
  - No - disse Marius. - J conheo a histria, e ele transformou nossa
Bianca em prostituta.
  O ruivo esforou-se para seguir nossas palavras, para sondar a
profundidade de nosso dilogo.
  - Uma prostituta? Bianca? Dez vezes assassina, mas prostituta, no.
Nada to simplrio como uma prostituta. - Ele estudou Marius como se
achasse realmente lindo esse homem corado, excitado e apaixonado. E era
mesmo.
  - Ah, mas voc lhe ensinou a arte de matar - disse Marius quase terno,
massageando o ombro do homem, enquanto o envolvia por trs com o brao
esquerdo, at a mo esquerda encontrar a direita e imobiliz-lo. Ele
baixou a testa para encostar na tmpora de Martino.
  -Humm-Martino estremeceu todo.-Bebi demais. Jamais ensinei uma coisa
dessas a ela.
  -Ah, ensinou sim, e lhe ensinou a matar por essas quantias
insignificantes.
  - Mestre, o que  isso para ns?
  -Meu filho perdeu a cabea-disse Marius, ainda olhando para Martino. -
Esquece que vou mat-lo em nome de nossa doce senhora, que voc passou
para trs com suas tramas piegas e sinistras.
  - Ela me retribuiu um servio - disse Martino. - Deixe-me ter o
garoto!
  - Como disse?
  - Voc est pretendendo me matar, ento me mate. Mas deixe-me ter o
garoto. Um beijo,  s o que peo. Um beijo, o mundo  isso. Estou
bbado demais para qualquer outra coisa!
  - Por favor, Mestre, no consigo suportar isso - reagi.
  - Ento, como suportar a eternidade, meu filho? No sabe que  isso
que pretendo lhe dar? Que poder existe abaixo de Deus que possa me
aniquilar?
  Ele me lanou um olhar furioso, porm parecia mais uma encenao do
que uma expresso sincera.
  - J aprendi minhas lies - disse eu. - S detesto v-lo morrer.
  - Ah, sim, ento vocj aprendeu. Martino, beije meu filho se ele
permitir, e ateno, beije com delicadeza.
  Fui eu que me debrucei na mesa ento e dei meu beijo no rosto do
homem. Ele virou e abocanhou minha boca, faminto, com um bafo azedo de
vinho, mas estimulante e eletricamente quente.
  As lgrimas afloraram em meus olhos, abri a boca para ele e deixei sua
lngua penetrar em mim. E de olhos fechados, senti-a estremecer, e os
lbios dele se retesarem, como se transformados num muro preso a mim e
sem conseguir fechar. O Mestre o tinha, tinha sua garganta, e o beijo
foi congelado, e, chorando, tateei s cegas para encontrar em seu
pescoo o ponto exato em que o Mestre cravara os dentes malignos. Senti
os lbios aveludados do Mestre, senti os dentes duros embaixo deles,
senti o pescoo macio. Abri os olhos e afastei-me. Meu infeliz Martino
suspirou, gemeu, e fechou os lbios, e caiu para trs com os olhos
entreabertos imobilizado pelo Mestre. Virou a cabea lentamente para o
Mestre. Num tom baixo e spero, a voz embriagada, falou:
          - Por Bianca... 
  - Por Bianca - repeti.
  Chorei, abafando os soluos com a mo. O Mestre parou. Com a mo
esquerda, alisou o cabelo molhado e emaranhado de Martino.
  - Por Bianca - disse em seu ouvido.
  - Jamais...jamais deveria t-la deixado viver - foram as ltimas
palavras , suspiradas por Martino. Sua cabea caiu para a frente sobre o
brao direito de Marius. O Mestre beijou sua nuca e deixou-o escorregar
para a mesa.
          - Encantador at o fim - disse. - Intrinsecamente um
verdadeiro poeta.
  Levantei, empurrando o banco para trs, e fui para o centro da sala.
Fiquei . ali aos prantos, ej no dava para abafar os soluos. Procurei
um leno no bolso, e quando ia enxugar as lgrimas, tropecei no corpo
daquele corcunda e quase ca. Dei um grito, um grito terrvel, fraco e
ignominioso. Afastei-me dele e dos corpos de seus companheiros at
encostar na tapearia pesada e spera e sentir o cheiro do p e dos fios
do bordado.
          - Ah, ento era isso o que voc queria de mim - solucei.
Solucei de verdade. - Que eu odiasse isso tudo, que chorasse por eles,
lutasse por eles, implorasse por eles.
  Ele continuava  mesa, Cristo da ltima Ceia, o cabelo repartido ao
meio, o rosto brilhante, as mos rosadas uma sobre a outra, a me olhar
com seus olhos quentes e volveis.
  - Chore por um deles, ao menos um! - disse ele. Sua voz ficou irada. -
Ser pedir muito? Que uma morte seja lamentada entre tantas? -
Levantou-se da mesa. Parecia tremer de raiva. Cobri o rosto com o leno,
soluando. - Por um mendigo sem nome que fazia um barco de cama no
temos lgrimas temos e nossa linda Bianca no sofrer por termos bancado
ojovem Adnis em sua cama! E no choramos por nenhum daqueles a no ser
por este, o pior de todos, sem dvida, porque ele nos lisonjeia, no !
  - Eu o conhecia - murmurei - Quer dizer, nesse espao de tempo,
conheci-o e...
  - E queria que os outros corressem de voc, annimos como raposas na
moita! - Apontou para as tapearias representando a Caada da Corte. -
Olhe com olhos de homem para o que lhe mostrei.
  A sala escureceu de repente, as muitas velas bruxulearam. Levei um
susto, mas foi apenas ele que veio postar-se  minha frente olhando para
mim, um ser febril e rubro cujo calor eu podia sentir como se cada poro
seu exalasse um hlito quente.
  - Mestre - gritei, engolindo os soluos. - Est feliz com o que me
ensinou ou no? Est feliz com o que aprendi ou no! No brinque comigo
em relao a isso! No sou seu boneco. No, isso nunca. O que quer que
eu seja, ento? Por que essa raiva?-Estremeci todo, as lgrimas
realmentejorrando de meus olhos. - Eu queria ser forte para voc, mas...
eu o conheci.
  - Por qu? Por que ele o beijou? a mo esquerda e puxou-me para ele. -
Marius, pelo amor de Deus!
 Ele abaixou, agarrou meu cabelo com violencia e Ele me beijou. Como
Martino havia me beijado, sua boca igualmente humana e quente. Ele
escorregou a lngua na minha, e no senti sangue mas sim paixo mscula.
Seu dedo ardia em meu rosto.
  Desvencilhei-me dele. Ele me soltou.
  - Ah, volte para mim, meu branco frio, meu deus - murmurei. Deitei o
rosto em seu peito. Dava para ouvir seu corao. Eu o ouvia bater. Eu
nunca ouvira isso, nunca ouvira uma pulsao dentro da capela de pedra
de seu corpo. - Volte para mim, professor indiferente. Eu no sei o que
voc quer.
  -Ah, meu querido-murmurou ele. -Ah, meu amor. - E l veio a velha
chuva diablica de seus beijos, no o fingimento de um homem apaixonado,
mas sim sua afeio, macia como ptalas, tantos tributos deixados em meu
rosto e meu cabelo. - Ah, meu lindo Amadeo, ah, meu filho - disse ele.
  - Quero que me ame - murmurei. - Quero que me ame e me leve para
dentro de voc. Sou seu.
  Em silncio, ele me abraou. Adormeci em seus ombros. Uma leve brisa
entrou, mas no balanou as pesadas tapearias em que senhores e damas
franceses passeavam em sua floresta eternamente verde, entre ces que
estariam sempre latindo e pssaros que estariam sempre cantando.
Finalmente, ele me soltou e recuou. Afastou-se de mim, cabisbaixo,
encurvado. Ento, chamou-me com um gesto preguioso, no entanto, saiu da
sala depressa demais.
  Desci a escadaria de pedra correndo atrs dele at a rua. As portas
estavam abertas quando chegamos l. O vento frio secou minhas lgrimas.
Tirou o calor maligno da sala. Corri atrs dele pelo cais e pelas pontes
at a praa. S o alcancei quando cheguei ao Molo, e l estava ele
caminhando, um homem alto de capa e capuz vermelhos,j depois de So
Marcos e na direo do porto. Corri atrs dele. O vento do mar estava
gelado e fortssimo. As rajadas me levavam e eu me sentia duplamente
purificado.
  -No me deixe, Mestre - gritei. Minhas palavras foram engolidas, mas
ele ouviu. Ele parou, como se realmente fosse por minha causa. Virou-se
e esperou que eu o alcanasse, e ento pegou a mo que eu estendia.
  - Mestre, oua a minha lio - falei. - Julgue meu trabalho. -
Recobrei o flego s pressas e prossegui. - Vi-o beber daquelas pessoas
malignas, sentindo-se culpado de um grande crime. Vi-o tomar o sangue
com o qual precisa viver. E,  sua volta, existe esse mundo perverso,
essa selva de homens que no so melhores que os animais. Esses homens
que produziro para voc um sangue doce e rico como sangue inocente.
Estou vendo.  isso o que voc pretendia que eu visse, e conseguiu.
  Seu rosto estava impassvel. Ele apenas me estudou. Pareeia que aquela
sua febre ardente estava passando. Os archotes ao longo das arcadas ao
longe iluminavam seu rosto, que embranqueia e estava duro como nunca.
Os navios rangiam no porto. Ouviam-se murmrios e choros talvez dos
insones ou dos que nunca dormem. Olhei para o cu, receando ver a
claridade fatal. Ele j teria partido.
  - Se eu beber uma coisa dessas, Mestre, o sangue dos maus e daqueles
que eu dominar, ficarei como voc?
  Ele balanou a cabea negando.
  - Muitos homens j beberam sangue de outro homem, Amadeo - o tom de
sua voz era baixo porm calmo. Ele estava de novo de posse de seujuzo,
sua maneira de ser, o que parecia ser sua alma. - Voc ficaria comigo e
seria meu pupilo e meu amor?
  - Sim, Mestre, para sempre, ou pelo tempo que a natureza nos der. -Ah,
no falei em sentido figurado. Somos imortais. E s um inimigo pode nos
destruir:  o fogo que arde naquele archote ali, ou no sol nascente. 
doce pensar que, quando afinal estivermos cansados de todo esse mundo,
h o sol nascente. - Sou seu, Mestre. - Abracei-o e tentei venc-lo com
beijos. Ele os suportou, e at sorriu, mas no se mexeu.
  Porm quando parei e cerrei o punho direito como se fosse lhe dar um
soco, coisa que eu jamais faria, para meu espanto, ele comeou a ceder.
Virou-se e me estreitou naquele seu abrao forte e sempre cuidadoso.
  - Amadeo, no posso continuar sem voc - falava num tom baixo e
desesperado. - Eu pretendia lhe mostrar o mal, no um esporte. Pretendia
lhe mostrar o preo perverso de minha imortalidade. E mostrei. Mas, ao
mostrar, eu mesmo vi esse preo, e meus olhos esto ofuscados e estou
magoado e cansado.
  Encostou a cabea na minha, e me abraou com fora.
  -Faa o que quisercomigo, Mestre. Faa-me sofrere desejaro sofrimento,
se for o que voc quiser. Sou o seu bobo. Sou seu.
  Ele me soltou e me beijou formalmente.
  - Quatro noites, meu menino - disse ele. Afastou-se. Beijou os dedos e
plantou esse ltimo beijo em meus lbios, e foi-se embora. - Estou indo
para um dever antigo. Quatro noites. At l.
  Fiquei sozinho na friagem da madrugada. Fiquei sozinho debaixo de um
cu plido. Eu sabia que no deveria procur-lo. Deprimidssimo, voltei
pelos becos, cortando caminho por pontezinhas para vagar no corao da
cidade desperta, para que eu no sabia. Fiquei um tanto surpreso ao
perceber que havia voltado para a casa dos homens assassinados. Fiquei
surpreso ao ver a porta da casa ainda aberta, como se a qualquer momento
fosse aparecer um criado. Ningum apareceu. Lentamente, o cu foi
clareando e se tingindo de um azul esmaecido. Uma nvoa pairava ao longo
do canal. Atravessei a pontezinha, entrei na casa e subi. Uma claridade
embaada entrava pelas venezianas. Encontrei o salo de banquetes onde
as velas ainda ardiam. O cheiro de fumo, cera e comida picante estava
prximo e impregnava o ar. No se ouvia outro som seno o zumbido das
moscas. O vinho derramado secara na mesa formando poas. Os cadveres
estavam livres de todas aquelas marcas furiosas da morte.
  Tornei a ficar enjoado, trmulo de to enjoado. E respirei fundo para
no vomitar. Ento percebi por que viera. Os homens naquela poca usavam
capas curtas sobre asjaquetas, s vezes presas, como voc deve saber. Eu
precisava de uma, e peguei-a, arrancando-a do corcunda, que estava quase
deitado de cara no cho. Era uma fulgurante capa amarelo-canrio
debruada de raposa branca e forrada de seda pesada. Amarrei suas pontas
formando um saco e corri a mesa dos dois lados recolhendo as taas,
esvaziando-as antes de guard-las no saco. Logo o saco ficou vermelho
com as sobras do vinho e a gordura da mesa onde eu o pousava. Quando
terminei, esperei para certificar-me de que no me escapara nenhuma
taa. Eu pegara todas. Estudei os defuntos - meu ruivo Martino
adormecido, o rosto no mrmore nu, numa poa de vinho, e Francisco, de
cuja cabea escorria um filete de sangue escuro. As moscas zumbiam em
cima do sangue como da gordura em volta dos restos do assado de porco.
Um batalho de besourinhos pxetos, muito comuns em Veneza pois vm na
gua, atravessava a mesa rumo ao rosto de Martino. Uma luz silenciosa e
clida entrava pela porta. Amanhecera. Dei uma olhada geral, que gravou
em minha mente os detalhes desta cena para todo o sempre, e fui para
casa.
  Os rapazes estavam acordados e ocupados quando cheguei. Um velho
carpinteiroj estava l, consertando a porta que eu destrura a
machadadas. Entreguei  criada aquele saco volumoso cheio de taas
chacoalhando, e ela, sonolenta e tendo acabado de chegar, o pegou sem
comentrios. Senti uma tenso por dentro, uma sensao sbita e
desagradvel de que eu iria explodir. Meu corpo parecia pequeno demais,
um continente demasiado imperfeito para tudo o que eu sabia e sentia.
Minha cabea latejava. Eu queria me deitar, mas primeiro precisava falar
com Riccardo. Precisava encontrar os tu precisava. Andei a casa toda at
deparar com eles, reunidos para uma aula com ojovem advogado que vinha
de Pdua s umas duas vezes por ms para nos iniciar no direito.
Riccardo viu-me  porta e fez sinal para que eu ficasse calado. O
professor estava falando.
  Eu no tinha nada a dizer. Apenas fiquei encostado na porta, olhando
meus amigos. Eu os amava. Sim, eu os amava. Daria a vida por eles! Eu
sabia disso, e com um alvio tremendo comecei a chorar. Riccardo viu que
eu me afastava e, saindo da sala, veio a mim.
  - O que foi, Amadeo? - perguntou.
  Eu estava alucinado demais com meu prprio tormento. Tornei a ver
ojantar do massacre. Virei-me para Riccardo e estreitei-o em meus
braos, reconfortado com seu calor e sua textura humana comparada  do
Mestre, e contei-lhe que daria a vida por ele, por qualquer um deles,
pelo Mestre tambm.
  - Mas por que, o que  isso, por que me confessar isso agora? -
perguntou ele.
  Eu no podia lhe contar sobre o massacre. No podia lhe contar sobre a
minha frieza diante dos homens morrendo.
  Fui para o quarto do Mestre, deitei-me e tentei dormir.
  No fim da tarde, quando acordei com as portas fechadas, levantei da
cama e fui para a escrivaninha do Mestre. Para meu espanto, vi o livro
ali, o livro que ficava sempre escondido. Obviamente eu no podia
folhe-lo, mas estava aberto numa pgina toda escrita em latim, e embora
parecesse um latim estranho, e difcil para mim, no havia como
interpretar errado as palavras finais:
  "Como pode tanta beleza esconder um corao to ferido e inflexvel, e
por que preciso am-lo, por que preciso apoiar-me com minha fraqueza em
sua fora irresistvel ainda que indmita? No  ele o esprito funreo
e murcho de um morto vestido de criana?"
  Senti uma dormncia estranha no couro cabeludo e nos braos.
   isso que eu era? Um corao ferido e insensvel! O esprito funreo
e murcho de um morto vestido de criana? Ah, mas eu no poderia negar
isso; no poderia dizer que no fosse verdade. E no entanto quo
doloroso, quo definitivamente cruel parecia. No, cruel, no,
simplesmente implacvel e preciso, e com que direito eu esperava
qualquer outra coisa?
  Comecei a chorar.
  Deitei em nossa cama, como era meu costume, e afofei os travesseiros
mais macios, fazendo um ninho para meu brao esquerdo dobrado e minha
cabea. Quatro noites. Como iria eu resistir a isso? O que ele queria de
mim? Que eu me lanasse para todas as coisas que eu conhecia e amava e
me retirasse delas como um garoto mortal. Era isso que ele mandaria. E o
que eu devia fazer. O destino me concedia s umas poucas horas.
  Fui acordado por Riccardo, que ps na minha cara um bilhete lacrado.
  - Quem enviou isso? - perguntei sonolento. Sentei-me na cama e ,
enfiando o polegar na dobra do papel, rompi o lacre.
  -Leia e me conte. Quatro homens vieram entreg-lo. Um grupo de quatro.
Deve ser uma coisa importantssima.
  - -concordei desdobrando o papel -, e para faz-lo ficar to
assustado tambm. Ele ficou ali em p de braos cruzados. Li.
  "Meu querido e adorado, Fique dentro de casa. Em hiptese nenhuma saia
de casa, e barre quem tentar entrar. Seu perverso lorde ingls, o
marqus de Harlech, descobriu sua identidade pormeio dos expedientes
mais inescrupulosos, e, em sua loucura promete lev-lo de volta com ele
para a Inglaterra ou deix-lo desfeito  porta de seu Mestre. Confesse
tudo a seu Mestre. S a fora dele pode salvlo. E mande-me mesmo alguma
coisa escrita, ou eu tambm perderei a cabea por sua causa, e por causa
das histrias de horror contadas hoje de manh em cada canal e cada
praa para todos ouvirem. Sua dedicada Bianca."
        O VAMPIRO ARMAND 
  - Bem, droga-suspirei dobrando a carta.-Marius vai passar quatro dias
fora, e agora isso. Deverei me esconder debaixo desse teto durante essas
quatro noites cruciais? 
  -  melhor - disse Riccardo.
  - Ento voc sabe da histria.
  -Bianca me contou. O ingls, depois de localiz-lo aqui e terouvido
dizer que voc estava aqui o tempo todo, ia destruir a casa dela se os
convidados todos no o tivessem detido.
  - E porque no o mataram, pelo amor de Deus - disse eu enojado. Ele
pareceu preocupadssimo e solidrio.
  - Acho que contavam com o nosso Mestre para isso - disse - j que 
voc que o homem deseja. Como pode ter certeza de que o Mestre vai
passar quatro noites fora? Quando ele j disse esse tipo de coisa? Ele
entra e sai sem avisar ningum.
  - Humm, no discuta comigo - respondi pacientemente. - Riccardo, ele
vai passar quatro noites sem vir aqui, e eu no vou ficar trancado nessa
casa, no enquanto Lorde Harlech provocar baixaria.
  -  melhor voc ficar aqui ! - respondeu Riccardo. - Amadeo, esse
ingls  um espadachim famoso. Pratica com um mestre do esgrima.  o
terror das tabernas. Voc viu isso quando o conheceu. Pense no que faz.
Ele  famoso pelo que  negativo, no por nada de positivo.
  - Ento venha comigo. Voc s precisa distra-lo e eu o pego.
  -No, voc  um bom espadachim, de fato, mas no conseguir pegar um
homem que j treinava com a espada antes de voc nascer.
  Deiteime novamente no travesseiro. O que eu deveria fazer? Estava
louco para sair no mundo, louco para olhar as coisas com essa grande
noo de teatralidade e significao de meus ltimos dias entre os
vivos, e agora isso! E o homem que valera algumas noites de prazer
violento sem dvida estava apregoando aos quatro ventos seu
descontentamento.
        Parecia ruim, mas eu precisava ficar em casa. No havia o que
fazer. Eu queria muito matar esse homem, mat-lo eu mesmo com meu punhal
ou minha espada, e embora eu tivesse uma boa chance para isso, o que era
essa aventura insignificante diante do que me esperava quando o Mestre
voltasse? O fato era que euj havia deixado o mundo das coisas normais,
o mundo das contas a acertar, e no poderia ser atrado para uma tolice
capaz de me privar do estranho destino para o qual eu caminhava.
  - Muito bem, e Bianca est a salvo desse homem? - perguntei a
Riccardo.
  - Bastante. Ela tem tantos admiradores que no cabem na porta de sua
casa, e ps todos contra ele e a seu favor. Agora, escreva-lhe um
bilhete de agradecimento sensato e me jure tambm que vai ficar dentro
de casa.
  Levantei-me e fui para a escrivaninha do Mestre. Peguei a pena. Fui
detido por um barulho terrvel, seguido por uma srie de gritos agudos e
irritantes. Os gritos ecoavam pelas salas de pedra da casa. Ouvi uma
correria. Riccardo deu um pulo, alerta, e segurou o punho da espada.
Peguei minhas armas, desembainhando meu florete e meu punhal.
  - Meu bom Jesus, o homem no pode estar aqui em casa.
  Um grito terrvel abafou os outros.
  O menor de ns, Giuseppe, apareceu  porta lvido, os olhos
arregalados.
  - O que diabos est havendo? - perguntou Riccardo, segurando-o.
  - Ele foi ferido. Olhe, est sangrando! - eu disse.
  - Amadeo, Amadeo - meu nome ecoava na escadaria de pedra. Era a voz do
ingls. O garoto se dobrava de dor. O ferimento era na barriga, da maior
crueldade.
  Riccardo estava fora de si.
  - Feche as portas! - gritou.
  - Como posso fazer isso - retruquei -, quando os outros rapazes podem
topar com ele?
  Corri para o salo e para o portego, o grande salo da casa. Outro
rapaz, Jacope, estava todo encolhido, ajoelhado no cho. Vi o sangue
escorrendo nas pedras.
  - Ah, isso no justo; isso  um massacre de inocentes! - gritei. -
Lorde Harlech, aparea. Voc vai morrer.
  Ouvi Riccardo gritar atrs de mim. O menino obviamente estava morto.
Corri para a escada.
  - Lorde Harlech, estou aqui! - gritei. - Aparea, seu covarde selvagem
, seu assassino de crianas! Tenho uma m pronta para seu pescoo!
  Riccardo me fez girar.
  - L, Amadeo - murmurou. - Estou com voc. - Sua espada zuniu quando
ele a sacou. Ele era muito melhor espadachim do que eu, mas esta batalha
era minha.
  O homem estava no fundo do portego. Eu esperava que ele estivesse
embriagado e trpego, mas no tive essa sorte. Vi num instante que
qualquer sonho de me levar  fora que ele porventura tivessej se
esvanecera. Ele matara dois garotos e sabia que sua luxria o levara a
essa situao fatal. Este dificilmente era um inimigo incapacitado pelo
amor.
  - Meu Jesus, ajude-nos! - murmurou Riccardo.
  - Lorde Harlech! - gritei. - Voc tem a ousadia de transformar a casa
de meu Mestre em matadouro! - Afastei-me de Riccardo, abrindo espao
para ns dois, e fiz um gesto para que ele se adiantasse, afastando-se
do final da escada. Sopesei o florete. No era suficientemente pesado.
Por Deus, desejei ter treinado mais.
  O ingls veio em minha direo, um homem mais alto do que eu havia
notado antes, com braos muito compridos, o que seria uma grande
vantagem, a capa esvoaando, os ps calados com botas pesadas, o
florete em riste e o punhal italiano comprido na outra mo. Pelo menos
ele no tinha uma espada de verdade e pesada. Embora o enorme salo o
fizesse parecer menor, mesmo assim ele era alto e tinha uma exuberante
cabeleira cor de cobre. Seus olhos azuis estavam injetados de sangue,
mas tinha firmeza no andar e no olhar assassino. Seu rosto estava
molhado de lgrimas amargas.
  - Amadeo - gritou ele ao entrar no amplo salo. - Voc me arrancou o
corao do peito enquanto eu estava vivo e respirando, e o levou com
voc! Estaremos juntos essa noite no Inferno!

-- 6 --

  O alto e comprido portego de nossa casa, a sala de entrada, era um
lugar perfeito para se morrer. No havia nada ali dentro para estragar
seu deslumbrante piso de mosaicos com aqueles crculos de mrmore de
diversas cores e aquele padro festivo de flores e passarinhos selvagens
em volutas. Tnhamos o campo inteiro para lutar, sem nenhuma cadeira no
caminho para nos impedir de matar um ao outro. Avancei no ingls antes
de tertido tempo de admitir de fato que eu ainda no era muito bom
espadachim, nunca demonstrarajeito para aquilo e no tinha idia do que
o Mestre gostaria que eu fizesse agora, isto , o que me aconselharia a
fazer se ali estivesse. Fiz vrias investidas ousadas contra lorde
Harlech, que ele defendeu com tanta facilidade que eu deveria ter
desanimado. Mas quando achei que iria recobrar o flego e talvez at
fugir, ele me acertou uma punhalada no brao esquerdo. O corte doeu e me
enfureceu. Tornei a atac-lo, agora conseguindo com muita sorte
atingi-lo na garganta. Foi apenas um arranho, mas sangrava copiosamente
em sua tnica, e ele ficou com tanta raiva quanto eu de ter-se cortado.
  - Seu diabinho desgraado e horroroso - disse. - Voc me fez ador-lo
para me atrair e me esquartejar a seu bel-prazer. Prometeu que voltaria!
  De fato, ele usou esse tipo de barragem verbal o tempo todo em que
lutamos. Parecia precisar disso, como se fosse o tambor e o pfaro que
incitavam os soldados.
  - Venha agora, seu anjinho desprezvel, vou cortar essas suas asas!
gritou.
  Ele me fez recuar com uma saraivada rpida de golpes. Tropecei,
desequilibrei-me e ca, mas consegui me levantar, aproveitando que
estava abaixado para acert-lo perigosamente perto do escroto enquanto
me punha de p, o que o sobressaltou. Investi contra ele, sabendo agora
que arrancar aquilo no levava a nada. Ele se esquivou de minha lmina,
riu de mim e me acertou com o punhal, agora no rosto.
  - Porco! - gritei antes de conseguir me deter. Eu no sabia que era
to vaidoso. No rosto, nada menos que isso. Ele o cortara. Meu rosto.
Senti o sangue jorrando como jorra de ferimentos na face, e tornei a
investir contra ele, agora esquecendo todas as regras do duelo e
golpeando o ar com minha espada numa srie alucinada e furiosa de
crculos. Ento, enquanto ele se defendia freneticamente  direita e 
esquerda, abaixei-me rapidamente e cravei-lhe o punhal no ventre,
rasgando-o para cima at ser detido por seu cinturo de couro incrustado
de ouro. Recuei enquanto ele procurava me massacrar com as duas armas.
Ento ele largou-as e, como fazem os homens, levou as mos ao ferimento
que expelia ar. Caiu de joelhos.
  - Acabe com ele! - gritou Riccardo. Ficou recuado, como um homem
honrado.-Acabe com ele agora, Amadeo, seno eu acabo. Pense no que ele
fez embaixo desse teto.
  Ergui a espada. O homem de repente agarrou a dele com a mo
ensangentad e brandiu-a para mim, gemendo, com esgares de dor.
Levantou-se e investiu para mim a um s tempo. Pulei para trs. Ele caiu
de joelhos. Passava mal e tremia. Largou a espada, tornando a segurar
seu ventre ferido. No morreu, mas no podia continuar lutando.
  - Ah, Deus-disse Riccardo. Agarrou seu punhal. Obviamente conseguiria
liquidar o homem desarmado.
  O ingls caiu de lado, encolhendo-se. Fazia esgares e deitou a cabea
no cho de pedra, com uma expresso formal ao respirar fundo. Lutava com
uma dor terrvel e a certeza de que iria morrer.
  Riccardo adiantou-se e encostou a ponta da espada no rosto de lorde
Harlech.
  - Ele est morrendo, deixe-o morrer - falei. Mas o homem continuava
respirando. Eu queria mat-lo, queria mesmo, mas era impossvel matar
algum deitado ali assim to plcido e to corajoso. Seu olhar assumiu
uma expresso sbia, potica.
  - E ento isso termina aqui -disse ele num tom baixo que talvez
Riccardo nem tenha ouvido.
  - Sim, termina - disse eu.
  - Acabe nobremente com isso.
  - Amadeo, ele assassinou as duas crianas! - gritou Riccardo.
  - Pegue seu punhal, lorde Harlech! - chutei a arma para ele.
Empurrei-a bem em sua mo. - Pegue-a, lorde Harlech. - O sangue me
escorria pelo rosto e pelo pescoo, viscoso, fazendo ccegas. Era
insuportvel. Eu preferia limpar meus ferimentos a me incomodar com meu
oponente.
  Ele virou de barriga para cima. O sangue saa de sua boca e de suas
entranhas. O rosto estava molhado e brilhante, e a respirao, muito
difcil. Ele parecia jovem de novo, jovem como parecera ao me ameaar,
um garoto que crescera demais com uma xamejante cabeleira encaracolada.
  - Pense em mim quando comear a suar, Amadeo - disse ele, num tom
ainda baixo, e agora rouco. - Pense em mim quando perceber que sua vida
tambm terminou.
  - Passe-o na espada - murmurou Riccardo. - Ele pode levar dois dias
para morrer com esse ferimento.
  - E voc no ter os dois dias - retrucou lorde Harlech do cho,
arquejando -, com os cortes envenenados que lhe fiz. - Est sentindo nos
olhos? Seus olhos esto ardendo, no, Amadeo? O veneno entra no sangue e
ataca primeiro os olhos. Est tonto?
  -Seu filho da me-disse Riccardo. Ele espetou o florete no homem, uma
vez, duas, trs, por cima da tnica. Lorde Harlech contraiu o rosto.
Pestanejou, e de sua boca saiu uma ltima gota de sangue. Estava morto.
  - Veneno? - murmurei. - Veneno na lmina? - instintivamente, levei a
mo ao corte que ele me fizera no brao. Meu rosto, porm, trazia o
ferimento mais profundo.
  - No toque na espada dele. Veneno!
  - Ele estava mentindo, venha, deixe-me lav-lo-falou Riccardo.-No h
tempo a perder.
  Ele tentou tirar-me dali.
  - O que vai fazer com ele, Riccardo! O que podemos fazer! Estamos aqui
sem o Mestre. H trs mortos nessa casa, talvez mais. Enquanto eu
falava, ouvi passos nos dois extremos do grande salo. Os meninos
estavam saindo dos esconderijos, e com eles vi um dos professores, que
aparentemente os estava mantendo fora do caminho. Eu estava dividido
quanto a isso. Mas os meninos eram todos crianas, e o professor andava
desarmado, era um erudito indefeso. Os garotos mais velhos todos j
haviam sado, como era o costume pela manh. Ou assim pensei.
  - Vamos, precisamos levar todos eles para um lugar decente - eu disse.
- No toquem nas armas. - Fiz sinal para os pequenos se aproximarem.
Vamos lev-lo para o melhor quarto, venha. E os meninos tambm.
  Enquanto se esforavam para obedecer, alguns dos meninos comearam a
chorar.
  - Voc, d uma mo aqui! - disse eu ao professor. - Cuidado com as
armas envenenadas. - Ele arregalou os olhos par mim.
  -  srio.  veneno.
  - Amadeo, voc est todo sangrando! - gritou ele em pnico. - Que
armas envenenadas? Santo Deus, salve a ns todos!
  -Ah, pare com isso- interrompi. Mas j no conseguia agentar aquela
situao, e, enquanto Riccardo se encarregava de transportar os corpos,
corri para o quarto do Mestre para cuidar de meus ferimentos.
  Na pressa, derramei toda a gua do gomil na bacia, e peguei uma toalha
para aparar o sangue que me escorria do pescoo para dentro da camisa.
Uma sujeira viscosa.
  Praguejei. Minha cabea flutuava, e quase ca. Segurando a borda da
mesa, disse a mim mesmo que no fosse o bobo de lorde Harlech. Riccardo
tinha razo. Lorde Harlech inventara aquela mentira sobre o veneno!
Envenenar a lmina, pois sim!
  Mas enquanto eu me dizia isso, vi um arranho, aparentemente feito por
seu florete no dorso de minha mo direita. Minha mo inchava como se
tivesse sido picada por um inseto venenoso. Toquei em meu brao e em meu
rosto. Os ferimentos estavam inchando grandes verges formando-se atrs
dos cortes. A tonteira voltou. O suor escorria de mim para dentro da
bacia, que agora estava cheia de uma gua vermelha que parecia vinho.
  - Ah, meu Deus, o Diabo fez isso comigo - disse eu. Virei-me e o
quarto inteiro comeou a adernar e a balanar. Cambaleei.
  Algum me segurou. Nem sequer vi quem era. Tentei dizer o nome de
Riccardo, mas a lngua estava grossa em minha boca.
  Sons e cores misturaram-se num borro quente e pulsante. Ento, com
uma clareza espantosa, vi o baldaquim bordado da cama do Mestre no alto.
Riccardo estava em cima de mim. Ele falava comigo depressa e num tom
algo desesperado, mas eu no conseguia entender o que ele dizia. Na
verdade, parecia que ele falava uma lngua estrangeira, bonita, muito
doce e melodiosa, mas eu no entendia uma palavra.
  - Estou com calor - eu disse. - Estou ardendo, estou to quente que
no d para agentar. Preciso de gua. Ponha-me na banheira do Mestre.
  Ele no pareceu de todo ter-me ouvido. Continuava com aquele seu
discurso bvio. Senti sua mo em minha testa, e ela me queimava,
positivamente me queimava. Pedi-lhe que no encostasse em mim, mas isso
ele no ouviu, e nem eu! Eu nem estava falando. Eu queria falar, mas
minha lngua estava muito pesada e muito grande. voc vai pegar o
veneno, eu queria dizer. No conseguia. Fechei os olhos. Felizmente,
adormeci. Vi um grande mar fervilhando, na costa da ilha do Lido, cheio
de ameias e lindo ao sol do meio-dia. Eu estava flutuando nesse mar,
talvez numa pequena barca, ou ento boiando de costas mesmo. Eu no
sentia a gua propriamente dita, mas parecia que no havia nada entre
mim e aquelas ondas suaves que eram grandes e lentas e fceis e me
levavam para cima e para baixo. Ao longe, uma grande cidade reluzia na
costa. Primeiro achei que fosse Torcello, ou at Veneza, e que eu havia
sido virado de alguma forma e ia boiando no rumo da ilha. Ento vi que
era muito maior que Veneza, com grandes torres pontiagudas espelhadas,
como se fossem inteiramente de vidro. Ah, era to lindo.
  - Estou indo para l? - perguntei.
  As ondas pareciam me envolver, no como se estivessem me afogando, mas
sim como se fossem apenas um cobertor pesado de luz silenciosa. Abri os
olhos. Vi o vermelho do baldaquim de tafet l em cima. Vi a franja
dourada pregada no cortinado de veludo da cama, e depois vi Bianca
Solderini ali. Ela segurava um pano.
  -No havia veneno suficiente naquelas lminas para mat-lo-disse ela.
- O veneno s o deixou indisposto. Agora, me escute, Amadeo, voc
precisa respirar com convico e ter fora de vontade para lutar contra
essa indisposio e ficar bom. Voc precisa pedir ao prprio ar para
fortalec-lo, e ter f nisso, isto , precisa respirar fundo e
lentamente, sim, exatamente, e precisa perceber que esse veneno est
saindo em seu suor, e no deve acreditar nesse veneno, e no deve ter
medo.
  - O Mestre saber - disse Riccardo. Parecia esgotado e infeliz, e seus
lbios tremiam. Seus olhos estavam marejados. Ah, sinal agourento, com
certeza. - O Mestre saber de alguma forma. Ele sabe de tudo. O Mestre
interromper a viagem e voltar para casa.
  - Lave o rosto dele - disse Bianca calmamente. - Lave o rosto dele e
fique calado.
  Como era corajosa!
  Eu mexia a lngua mas no conseguia articular palavras. Queria dizer
que eles precisavam me avisar quando o sol se pusesse, pois s ento o
Mestre poderia chegar. Era certo que havia uma chance. S ento. Ele
poderia aparecer.
  Virei a cabea para outro lado, evitando-os. O pano me queimava.
  - Devagarinho, com calma - disse Bianca. - Inspire, sim, e no tenha
medo.
  Passei um bom tempo ali deitado, pairando logo abaixo do estado de
conscincia plena, e agradecido pelo fato de suas vozes no serem
estridentes, e o contato deles no ser dos mais terrveis, mas suar era
horrvel, e eu estava desesperado para me refresca.
  Agitei-me e tentei me levantar uma vez, mas fiquei terrivelmente
enjoado, a ponto de vomitar. Com grande alvio, percebi que eles haviam
me deitado de costas.
          - Segure minhas mos - disse Bianca, e senti seus dedos
segurando os meus, to pequenos e to quentes, quentes como tudo mais,
quente como o Inferno, pensei, mas eu estava enjoado demais para pensar
em Inferno, enjoado demais para pensar em qualquer coisa seno vomitar
as entranhas numa bacia e chegar a algum lugar fresco. Ah, abram
asjanelas, abram asjanelas para o frio entrar. No me importo, abram!
Parecia bastante desagradvel que eu pudesse morrer, e nada mais.
Sentir-me melhor era muito mais importante, e nada me perturbava em
relao  minha alma ou a qualquer mundo que estivesse por vir. Ento,
bruscamente, tudo mudou.
          Senti-me subir, como se algum tivesse me puxado da cama pela
cabea e quisesse fazer-me passar pelo baldaquim e pelo teto do quarto.
De fato, olhei para baixo, e para meu grande espanto vi-me deitado na
cama. Vi-me como se no tivesse baldaquim sobre meu corpo para bloquear
a viso. Eu parecia muito mais bonito do quejamais pensara ser. Entenda,
isso era absolutamente imparcial. Eu no exultava com minha prpria
beleza. S pensei: que lindo rapaz. Como foi bem aquinhoado por Deus!
Olhe para suas mos esguias e delicadas, como elas jazem ao lado dele, e
olhe para o ruivo fechado de seu cabelo. E aquele era eu o tempo todo, e
eu no sabia disso nem pensava nisso, nem imaginava que efeito causava
naqueles que me viram enquanto eu circulava na vida.
  Eu no acreditava em suas lisonjas. S tinha desprezo por sua paixo.
De fato, at o Mestre antes parecera um ser fraco e desiludido por
jamais ter me desejado.
  Mas eu agora entendia por que as pessoas tinham de certa forma
enlouquecido. O garoto morrendo ali na cama, o garoto que era a causa
das lgrimas ali naquele amplo quarto, o garoto parecia a personificao
da pureza e a personificao dajuventude  beira da vida.
  O que no fazia sentido para mim era a comoo no quarto. Por que todo
mundo estava chorando? Vi um padre  porta, um padre que eu conhecia de
uma igreja prxima e eu podia ver que os meninos discutiam com ele e no
queriam deix-lo perto de mim enquanto eu estava na cama, receando que
eu tivesse medo.
  Tudo aquilo parecia uma embrulhada sem sentido. Riccardo no devia
torcer as mos. Bianca no devia trabalhar tanto com aquele pano molhado
e aquelas palavras meigas mas obviamente desesperadas. Ah, pobre
criana, pensei. Voc poderia ter tido um pouco mais de compaixo por
todo mundo se soubesse como era lindo, e poderia ter se achado um
pouquinho mis forte e capaz de ganhar algo para voc mesmo. Por isso,
voc pregou peas astutas naqueles que o cercavam, porque no acreditava
em voc mesmo nem sequer sabia quem era. Parecia muito claro o erro
disso tudo. Mas eu estava indo embora desse lugar! A mesma correnteza
que havia me sugado daquele lindo corpojovem que jazia na cama me puxava
para dentro de um tnel de vento feroz e uivante.
  O vento rodopiava em volta de mim, encerrando-me e estreitando-me
completamente nesse tnel, mas eu conseguia ver outros seres ali que
observavam enquanto estavam presos no turbilho e eram levados pela
fria incessante desse vento. Vi olhos me fitando. Vi bocas abertas como
que em agonia. Fui sendo puxado cada vez mais para cima nesse tnel. No
senti medo, mas senti uma fatalidade. Eu no podia me ajudar.
  Esse foi seu erro quando voc estava naquele garoto ali embaixo,
peguei-me pensando. Mas isso realmente no tem jeito. E, como conclu,
cheguei ao fim desse tnel. Ele se dissolveu. Eu estava na costa daquele
lindo mar fervilhante. Eu no estava molhado das ondas, mas eu as
conhecia, e disse em voz alta: "Ah, estou aqui, cheguei em terra! Olhe,
l esto as torres de vidro." Quando ergui os olhos, vi que a cidade
estava longe, depois de uma srie de colinas verdejantes, e que uma
trilha levava a ela, e que o caminho era deslumbrantemente florido de
ambos os lados. Eu nunca vira flores daquele tipo, nunca vira aquelas
formas e aquelas formaes de ptalas, e nunca vira aquelas cores na
vida. No havia nomes no cnone artstico para aquelas cores. Eu no
podia nome-las com os poucos rtulos fracos e inadequados que eu
conhecia.
  Ah, iriam os pintores de Veneza algum dia se espantar com essas cores,
pensei. E imaginar como elas transformariam nosso trabalho, como
inflamariam nossos quadros se ao menos pudessem ser descobertas em
alguma fonte que pudesse ser transformada em pigmento e misturada com
nossos leos. Mas que coisa intil ! J no era mais necessrio
pigmento. Toda a glria que a cor pudesse realizar estava aqui revelada
nesse mundo. Eu via isso nas flores; via na relva diversa. Via no cu
infinito que se erguia l em cima e por trs da cidade ofuscante ao
longe, e o cu tambm cintilava com sua grande harmonia de cores,
misturando-se e tremeluzindo como se as torres dessa cidade antes fossem
de uma milagrosa energia vicejante do que de matria ou massa morta
terrena.
  Uma grande gratido emanava de mim; todo o meu ser entregou-se a essa
gratido.
  - Senhor, agora estou vendo - disse eu em voz alta. - Vendo e
entendendo. - Naquele instante realmente me pareciam muito claras as
implicaes dessa beleza variada e cada vez maior, desse mundo pulsante
e radioso. Era algo to impregnado de significao que tudo era
respondido, tudo era inteiramente solucionado.
  Murmurei a palavra "sim" repetidas vezes. Balanava a cabea
afirmativamente, e depois achei um absurdo me dar ao trabalho de dizer
com palavras qualquer coisa que fosse.
  Uma grande fora emanava da beleza. Essa fora me cercava como se
fosse o ar ou uma brisa ou a gua, mas no era nada disso. Era muito
mais rarefeita e difusa, e, embora me sustentasse com um poder incrvel,
era invisvel e no tinha presso nem forma palpvel. A fora era o
amor. Ah, sim, pensei,  o amor,  o amor completo, e, em sua
completude, o amor d sentido a todas as coisas que j conheci na vida,
cada decepo, cada mgoa, cada passo em falso, cada abrao, cada beijo
no passava de um vislumbre dessa aceitao e desse bem sublime, pois os
maus passos me mostraram o que me faltava, e as coisas boas, os abraos,
me mostraram um lampejo do que o amor poderia ser.
  Minha vida absolutamente toda, sem excluir nada, ganhou sentido com
esse amor, e, ao me maravilhar com esse fato, aceitando-o completamente
e sem pressa nem questionamento, iniciou-se um processo milagroso. Minha
vida inteira veio a mim na forma de todas as pessoas que eu j
conhecera.
  Vi minha vida desde os primeiros momentos ao instante que me levara
at ali. No era uma vida terrivelmente notvel; no tinha grandes
segredos nem reviravoltas nem matrias prenhes que tivessem transformado
meu corao. Pelo contrrio, era apenas uma srie de milhares de
acontecimentos insignificantes, e esses acontecimentos envolviam todas
as almas que eu j tocara; agora eu via os sofrimentos que eu infligira
e as palavras ditas por mim que trouxeram alvio, e vi o resultado das
coisas mais sem importncia que eu fizera. Vi o salo de banquetes dos
florentinos, e, novamente no meio deles, vi a solido que os levou 
morte. Vi o isolamento e a tristeza de suas almas enquanto lutavam para
continuar vivos.
  O que eu no conseguia ver era o rosto do Mestre. No conseguia ver
quem ele era. No conseguia enxergar dentro de sua alma. Mas isso no
tinha importncia. Na verdade, s percebi depois, quando tentei recontar
tudo. O que importava agora era s que eu entendia o que significava
querer bem aos outros e querer bem  vida propriamente dita. Percebi o
que significava quando eu pintava paisagens, no as paisagens rubras e
sanguinolentas e vibrantes de Veneza, mas sim aquelas em estilo
bizantino antigo, que antes fluam do meu pincel com tanta naturalidade
e perfeio. Vi ento que eu pintara coisas maravilhosas e vi os efeitos
do que eu pintara... e pareceu ento que uma quantidade imensa de
informaes me inundava. De fato, aquilo era de uma riqueza to grande e
to fcil de compreender que senti uma enorme alegria leve.
  O conhecimento era parecido com o amor e com a beleza; de fato,
percebi com uma grande felicidade triunfante que isso tudo - o
conhecimento, o amor e a beleza - era uma coisa s.
  - Ah, sim, como algum podia no ver isso.  to simples! - pensei.
Tivesse eu um corpo com olhos, eu teria chorado, mas seria um pranto
doce. De qualquer forma, minha alma venceu todas as coisas pequenas e
enervantes. Fiquei quieto, e o conhecimento, os fatos, por assim dizer,
as centenas e centenas de pequenos detalhes que eram gotculas
transparentes de um fluido mgico que me percorria e me penetrava,
enchendo-me e se esvaindo para dar lugar a mais daquela grande chuva de
verdade - tudo isso pareceu desaparecer de repente.
  L longe estava a cidade de vidro e, mais alm, um cu azul, azul como
o cu de meio-dia, s que ostentava todas as estrelas conhecidas.
  Sa para a cidade. De fato, sa com tal mpeto e tal convico que
foram necessrias quatro pessoas para me segurar. Parei. Estava
espantado. Mas eu conhecia esses homens. Eram padres, velhos padres de
minha terra natal, que haviam morrido muito antes de eu sequer ter
atendido a meu chamado, que estava bem claro para mim, e eu sabia seus
nomes e como eles haviam morrido. Na verdade, eram os santos de minha
cidade e das grandes catacumbas de onde eu vivera.
  - Por que me seguram - perguntei. - Onde est meu pai? Ele est aqui
agora, no?-Mal fiz essa pergunta, vi meu pai. Ele estava exatamente
igual ao que sempre fora.
  Era um homem grande e hirsuto, vestido de couro para caar, com uma
grande barba grisalha e cabelos grossos e fulvos, da cor do meu. Seu
rosto estava corado por causa do vento frio, e seu lbio inferior
aparecia entre o bigode grosso e a barba grisalha, estava mido e rosado
da forma como eu lembrava. Seus olhos continuavam com aquele tom de
porcelana azul brilhante. Dava aquele seu aceno descompromissado e
cordial e sorria. Parecia exatamente como se estivesse saindo para os
campos, apesar do conselho e das advertncias de todos, sem medo nenhum
dos mongis ou trtaros que o atacavam. Afinal de contas, ele estava com
aquele seu grande arco, o arco que s ele conseguia encordoar, como se
fosse um heri mtico das grandes estepes, e tinha suas prprias flechas
pontiagudas e seu grande sabre com o qual podia cortar a cabea de um
homem com um golpe s.
  - Pai, por que eles esto me segurando? - perguntei.
  Ele parecia vidrado. Seu sorriso simplesmente desapareceu e seu rosto
ficou totalmente inexpressivo, e depois, para minha tristeza, para minha
grande tristeza e meu grande choque, ele desapareceu totalmente e sumiu.
  Os padres a meu lado, os homens com aquelas longas barbas grisalhas e
aqueles hbitos negros, falaram comigo baixinho num tom solidrio e
disseram:
  - Andrei, ainda no est na hora de voc vir.
  Eu estava profundamente angustiado, profundamente. Na verdade, estava
to triste que no conseguia articular palavras de protesto. Na verdade,
eu entendia que nenhum protesto que eu pudesse fazer era relevante, e
ento um dos padres me deu a mo.
  - No, com voc  sempre assim - disse. - Pergunte.
  Ele no movia os lbios ao falar, mas no era necessrio. Eu o ouvia
claramente e sabia que ele no queria o meu mal. Era incapaz de uma
coisa dessas.
  - Ento por que no posso ficar? - perguntei. - Por que no podem me
deixar ficar quando eu quero e quando vim de to longe.
  - Pense em tudo o que voc viu. Voc sabe a resposta.
  E eu precisava confessar que de repente no sabia a resposta. Era
complexa e no entanto profundamente simples, e tinha a ver com todo o
conhecimento que eu adquirira.
  - Voc no pode levar isso de volta com voc - disse o padre.
Esquecer todas as coisas especficas que aprendeu aqui. Mas lembre a
lio geral de seu amor pelos outros, e o amor deles por voc, o
crescimento do amor na prpria vida  sua volta, isso  o que importa.
  Parecia uma coisa maravilhosa e abrangente! No parecia um simples
clich insignificante. Parecia algo to imenso, to sutil, e no entanto
to completo que todas as dificuldades mortais desmoronariam diante de
sua verdade.
  Fui imediatamente devolvido a meu corpo. Voltei a ser imediatamente o
garoto de cabelos fulvos morrendo na cama. Senti uma dormncia nas mos
e nos ps. Contorci-me, e minhas costas arderam terrivelmente. Eu estava
em chamas, suando e me contorcendo como antes, s que, agora, estava com
os lbios todos rachados e a lngua cortada e cheia de bolhas.
  - gua - pedi. - gua, por favor.
  Ouviram-se soluos baixos das pessoas que me cercavam. Misturavam-se
com risadas e expresses de assombro. Eu estava vivo, e eles acharam que
eu estivesse morto. Abri os olhos e olhei para Bianca.
  - No vou morrer agora - eu disse.
  -O que , Amadeo?-perguntou ela. Abaixou-se e encostou o ouvido em
meus lbios.
  - No est na hora - eu disse.
  Trouxeram-me vinho branco fresco. Estava misturado com mel e limo.
Sentei-me e bebi aquilo tudo aos goles.
  - Isso no basta - disse eu baixinho, fraco, mas eu estava
adormecendo. Afundei- me nos travesseiros e senti o pano de Bianca
passar em minha testa e meus olhos. Que doce merc era aquilo, e quo
imensamente nobre para dar aquele pequeno conforto, que era o mundo
inteiro para mim. O mundo inteiro. O mundo inteiro. Eu esquecera o que
havia visto do outro lado! Abri os olhos. Lembre-se, pensei
desesperadamente. Mas eu lembrava vivamente do padre, como se tivesse
acabado de falar com ele em outra sala. Ele dissera que eu no podia
lembrar. E havia muito mais coisas, infnitamente mais, coisas que s meu
mestre poderia entender.
  Fechei os olhos. Dormi. Os sonhos no conseguiam chegar a mim. Eu
estava doente demais, com muita febre, mas,  minha maneira, estendido
sobre uma conscincia da cama mida e quente e o ar indolente embaixo do
baldaquim, sobre as palavras indistintas dos rapazes e a doce
insistncia de Bianca, dormi mesmo. As horas soavam. Eu sabia que horas
eram, e aos poucos fui sentindo algum conforto no sentido de que fui me
acostumando com o suor que me melava a pele e a sede que me machucava a
garganta, e fiquei deitado sem protestar, divagando, esperando o Mestre
chegar.
  Tenho tantas coisas para lhe contar, pensei. Voc vai saber sobre a
cidade de vidro! Preciso explicar isso logo... mas eu no conseguia
lembrar direito. Um pintor, sim, mas que tipo de pintor, e como, e meu
nome? Andrei? Quando haviam me chamado assim?
  Lentamente por sobre a minha conscincia do leito de doente e do
quarto mido caiu o vu escuro do Paraso. Espalhadas em todas as
direes estavam as estrelas sentinelas, luzindo esplendorosamente sobre
as torres refulgentes da cidade de vidro, e nessa semi-sonolncia, agora
auxiliadas pela mais calma e mais feliz iluso, as estrelas cantavam
para mim.
  Cada qual, de sua posio fixa na constelao e no vazio, emitia um
precioso som cintilante, como se grandes cordas fossem tangidas no
interior de cada orbe incandescente por meio de suas revolues
brilhantes transmitidas para todo o universo.
  Sons como eu nunca ouvira com meus ouvidos terrenos. Mas no h
protesto que possa se aproximar dessa msica etrea e translcida, essa
harmonia e essa sinfonia de celebrao.
  "Senhor, se sois msica, isso seria a vossa voz, e contra vsjamais
poderia prevalecer qualquer discordncia. Vs com isso purificareis de
todo rudo inconveniente o mundo comum, a expresso mais plena de vosso
desgnio mais intrincado e maravilhoso, e toda banalidade se
esvaneceria, esmagada por essa perfeio retumbante."
  Essa foi minha prece, minha prece sincera, vindo numa lngua antiga,
com a maior intimidade e a maior naturalidade enquanto eu dormia.
  Fiquem comigo, formosas estrelas, implorei, e faam com que eu nunca
procure compreender essa fuso de luz e som, mas apenas me dem a ela
completa e inquestionavelmente.
  As estrelas cresceram e ficaram infinitas em sua fria luz majestosa, e
lentamente a noite se foi, permanecendo uma nica claridade gloriosa e
autogerada. Sorri. Senti meu sorriso com dedos cegos sobre meus lbios,
e enquanto a luz ficava mais clara e cada vez mais prxima, como se
fosse um oceano de claridade, senti um grande frescor salvador por todos
meus membros.
  - No se esvanea, no desaparea, no me deixe. - Meu murmrio sera
uma coisinha triste. Afundei a cabea latejante no travesseiro.
  Mas terminara o tempo dessa claridade imponente e avassaladora, e
agora ela precisava sumir e deixar a luz comum de velas bruxulear contra
meus olhos semicerrados, e eu precisava ver a escurido suave em volta
de minha cama e objetos simples, como um rosrio de contas de rubi e
cruz de ouro colocado sobre minha mo direita, e, ali  minha esquerda,
um livro de oraes, as pginas dobrando-se delicadamente com a brisa
leve que tambm agitava o tafet macio em sua moldura de madeira l em
cima.
  Quo encantador era mesmo tudo isso, essas coisas simples e comuns que
formavam esse momento silencioso e elstico. Aonde foram minha
encantadora enfermeira de pescoo de cisne e meus camaradas chorosos? A
noite os teria vencido e confinado ao local em que dormiam, a fim de que
eu pudesse acalentar esses momentos calmos de viglia?
  Eu tinha mil recordaes vivas na mente.
  Abri os olhos. Todos tinham ido embora, exceto um que estava sentado a
meu lado na cama, olhando-me com olhos sonhadores e distantes, de um
azul frio, olhos muito mais claros que um cu de vero, fixos em mim com
uma luz prxima e facetada, to vazios e indiferentes.
  Meu mestre ali, de braos cruzados, parecendo um estranho assistindo
quela cena como se nada pudesse atingir sua grandeza cinzelada. A
expresso desprovida de sorriso em seu rosto parecia estar ali desenhada
para sempre.
  - Impiedoso! - murmurei.
  -No, ah, no - disse ele. Seus lbios no se moveram. - Mas me conte
a histria inteira de uma vez. Descreva essa cidade de vidro.
  - Ah; sim, falamos nisso, no? daqueles padres que dissram que eu
precisava voltar, e daquelas pinturas antiqssimas, que achei to
lindas. No feitas por mos humanas, entende, mas sim pelo poder de que
fui investido, o qual me foi transmitido, e bastava eu pegar o pincel e
l estavam a Virgem e os santos para eu descobrir.
  - No se desfaa dessas formas antigas - disse ele, e de novo seus
lbios no davam sinal da voz que to distintamente eu ouvia, uma voz
que atingia meus ouvidos como nenhuma outra voz humana poderia atingir,
com aquele tom, aquele timbre. - Pois formas mudam, e o racional de hoje
no passa da superstio de amanh, e naquela antiga conteno est uma
grande inteno sublime, uma pureza infatigvel. Mas me conte mais uma
vez sobre a cidade de vidro.
  Suspirei.
  - Voc viu o vidro fundido, como eu vi-repliquei-, saindo do fogo, uma
massa incandescente numa temperatura terrivelmente alta presa  haste de
ferro, uma coisa que derrete e escorre para que a vara de condo do
artista possa puxla e estic-la, ou ench-la de ar para formar um vaso
perfeitamente arrendondado. Bem, era como se esse vidro sasse da
prpria Me Terra mida, uma torrente jorrando para as nuvens, e, desses
grandesjatos lquidos, tivessem nascido as torres repletas da cidade de
vidro - sem imitar qualquer forma construda pelo homem, mas perfeitas
como a fora aquecida da terra naturalmente ordenara, em cores
inimaginveis.
  Quem vivia num lugar desses? Quo longnquo parecia, e no entanto
completamente atingvel. A poucos minutos a p por doces colinas de
relva macia e tremulantes flores folhudas dos mesmos tons fantsticos,
uma apario silenciosa, estrondosa e impossvel.
  Olhei para ele, porque eu estivera olhando de novo para minha viso.
  - Diga-me o que essas coisas significam - pedi. - Onde  esse lugar, e
por que fui autorizado a v-lo?
  Ele suspirou com tristeza, olhou para o outro lado e tornou a olhar
para mim, a expresso alheia e inflexvel como antes, s que agora eu
via em seu rosto o sangue que, mais uma vez, como na noite passada, era
bombeado de veias humanas cheio de calor humano, e sem dvida fora seu
ltimo repasto naquela mesma noite.
  - Voc nem vai sorrir agora enquanto diz adeus? - perguntei. - Se essa
frieza amarga agora  s o que voc sente, e voc vai me deixar morrer
dessa febre violenta? Estou morto de enjo, voc sabe. Sabe a nusea que
estou sentindo, sabe a dor dentro de minha cabea, sabe a dor em todas
minhasjuntas e como esses cortes ardem em minha pele com esse veneno
incontestvel. Por que voc est to distante, e no entanto est aqui,
de volta, para sentar a meu lado e no sentir nada?
  - Sinto o amor que sempre senti quando olho para voc, meu menino, meu
filho, meu amor doce e duradouro. Eu sinto. Est guardado aqui dentro
onde deve estar, talvez, e pode morrer, pois voc vai morrer, sim, e
ento talvez seus padres venham peg-lo, pois como podem no pegar
quando no h volta?
  - Ah, mas e se houver muitas terras? E se, na segunda queda, eu me
sentir ainda em outra costa, com enxofre subindo da terra fervente e no
a beleza que primeiro me foi revelada? Estou sofrendo, essas lgrimas
esto escaldantes. Tanta coisa est perdida. No posso me lembrar.
Parece que falo muito essas coisas. No consigo lembrar!
  Estiquei o brao. Ele no se moveu. Minha mo ficou pesada e caiu no
livro de oraes esquecido. Senti a textura dura das pginas sob meus
dedos.
  - O que matou seu amor? Foram as coisas que eu fiz? Eu ter trazido
para c o homem que assassinou meus irmos? Ou eu ter morrido e visto
essas maravilhas? Responda-me.
  - Eu ainda o amo. Sempre amarei por todas as minhas noites e todos os
meus dias adormecidos. Seu rosto  umajia que me foi dada, que no
posso esquecer nunca, embora possa perd-la tolamente. Seu brilho h de
me torturar para sempre. Amadeo, pense de novo nisso, abra sua mente
como se ela fosse uma concha e deixe-me ver a prola de tudo o que lhe
ensinaram.
  - Voc consegue, Mestre? Consegue entender como o amor e somente o
amor pode significar tanto e como o mundo todo deveria ser feito de
amor? As prprias folhas de relva, a folhagem das rvores, os dedos
dessa mo que o procuram? Amor, Mestre. Amor. E quem acreditar em
coisas assim simples e imensas quando h credos e filosofias
inteligentes e labirnticos de complexidade criada pelo homem e sempre
sedutora? Amor. scuto-o, vejo-o. Isso foi o delrio de uma mente
febril, uma mente com medo da morte?
  - Talvez - disse ele, o rosto ainda impassvel e imvel. Seus olhos
eram estreitos, prisioneiros da prpria rejeio daquilo que viram. -
Ah, sim -disse ele. - Voc morre e eu lhe aviso, e acho que talvez para
voc s haja uma costa, e a voc encontrar de novo seus padres, sua
cidade.
  - No  a minha hora - respondi. - Eu sei. E uma afirmao dessas no
pode ser desfeita simplesmente por algumas horas. Quebre o relgio. Eles
queriam dizer, pela vida encarnada de uma alma, no estava na hora. Um
destino gravado na minha mo infantil no se realizar to cedo nem ser
vencido facilmente.
  - Posso mudar as coisas, meu filho - disse ele. Dessa vez seus lbios
se moveram. Seu rosto adquiriu um corado suave e doce e seus olhos se
arregalaram, sem estar na defensiva, aquela pessoa antiga que eu
conhecia e por quem tinha carinho. - Posso to facilmente tirar a fora
que ainda lhe resta.
  Debruou-se sobre mim. Vi os minsculos matizes nas pupilas de seus
olhos, as estrelas brilhantes e pontiagudas por trs das ris escuras.
Seus lbios, to maravilhosamente decorados com todas as midas linhas
dos lbios humanos, eram rosados, como se um beijo humano l residisse.
  -  to fcil para mim tomar um ltimo gole fatal de seu sangue de
menino, um derradeiro trago de todo o frescor de que tanto gosto, e em
meus braos terei um cadver de tamanha beleza que todos os que o virem
choraro, e esse corpo no me dir nada. Voc se foi, isso eu sei, e
nada mais.
  - Diz essas coisas para me torturar? Mestre, se eu no puder ir l,
quero estar com voc!
  Seus lbios tremiam em franco desespero. Ele parecia um homem, e s
isso, o sangue rubro de cansao e tristeza pairando no canto de seus
olhos. Sua mo, agora esticada para tocar meu cabelo, tremia. Peguei-a
como se fosse um galho alto e balouante de uma rvore. Levei seus dedos
a meus lbios como se fossem um punhado de folhas e beijei-os. Virando a
cabea, coloquei-os em meu rosto ferido. Senti o latejar do corte
envenenado embaixo deles. Porm, com nitidez, senti um forte tremor
dentro deles.
  Pisquei.
  - Quantos morreram essa noite para aliment-lo?-murmurei. -E como 
possvel isso, e o amor ser exatamente a coisa de que o mundo  feito?
Voc  bonito demais para passar despercebido. Estou perdido. No
consigo entender. Mas ser que poderia esquecer, se de agora em diante
eu tivesse de viver como um simples rapaz mortal?
  - Voc no pode viver, Amadeo - retrucou com tristeza. - No pode
viver! - A voz dele falseou. - O veneno penetrou muito fundo em voc, e
pequenas gotas do meu sangue no podem alcan-lo. - Seu rosto estava
angustiado. -Menino, eu no posso salv-lo. Feche os olhos. Tome meu
beijo de despedida. No h amizade entre mim e aqueles na costa
distante, mas eles precisam tomar o que morre to naturalmente.
  - Mestre, no! Mestre. No posso tentar isso sozinho, Mestre, eles me
mandaram de volta, e voc est aqui, e estava preso a mim, e como eles
podiam no ter sabido?
  - Amadeo, eles no se importavam. Os guardas dos mortos so de uma
indiferena poderosa. Eles falam de amor, mas no de sculos de
ignorncia que provoca os maiores erros. Que estrelas so essas que
cantam to lindamente quando o mundo inteiro est definhando em
dissonncia? Eu gostaria que voc forasse a mo deles, Amadeo. -
Naquela dor, sua voz quase mudou de tom. - Amadeo, com que direito eles
me encarregam do seu destino?
  Dei uma risadinha triste.
  A febre me sacudiu. Uma grande onda de enjo me dominou. Se eu me
mexesse ou falasse, sentia um terrvel engulho que me sacudia  toa. Eu
preferia a morte a sentir isso.
  - Mestre, eu sabia que voc faria uma poderosa anlise desse assunto
disse eu.
  Tentei no sorrir com uma expresso amarga ou sarcstica, mas sim
procurar a verdade simples. Respirar agora estava dificlimo. Parecia
que eu poderia deixar de respirar sem qualquer incmodo. Lembrei-me dos
incentivos todos de Bianca.
  - Mestre - disse eu -, no h nesse mundo horror sem redeno final.
  - Sim, mas para alguns - enfatizou ele - qual  o preo de uma
salvao dessas? Amadeo, como eles ousam me requisitar para os desgnios
obscuros deles! Oxal fossem iluses. No fale mais sobre a luz
maravilhosa deles. No pense nisso.
  -No, Mestre? E para conforto de quem limpo tanto a minha mente? Quem
est morrendo aqui?
  Ele sacudiu a cabea.
  - V em frente, esprema as lgrimas de sangue de seus olhos - disse
eu. - E que morte est esperando, Mestre, pois me disse que at para
voc no era impossvel morrer? Explique-me se ainda resta algum tempo
antes que toda a luz que eu venha a conhecer saia de mim e a terra
devore ajia encarnada que, para voc, deixou a desejar.
  - Nunca deixou - murmurou ele.
  - Ento venha, aonde vai, Mestre? Mais conforto, por favor. Quantos
minutos ainda tenho?
  - No sei - murmurou ele. Virou-se para o outro lado e abaixou a
cabea. Eujamais o vira to abatido.
  - Deixe-me ver sua mo - disse eu num tom fraco. - H bruxas
enrustidas que, na penumbra das tabernas de Veneza, ensinaram-me a ler
as linhas da mo. Vou lhe dizer a data provvel de sua morte. D-me sua
mo. Eu mal podia ver. Uma nvoa descera sobre todas as coisas. Mas eu
estava sendo sincero.
  - Voc chega muito tarde - retrucou ele. - J no h mais linhas. -
Ele me mostrou a palma da mo. - O tempo apagou o que os homens chamam
de destino. No tenho nenhum.
  - Sinto muito que voc v - disse eu. Virei a cabea para o outro
lado, deitando-a no linho fresco do travesseiro. - Voc me deixaria
agora, amado mestre? Eu preferiria a companhia de um padre e de minha
velha enfermeira se voc no a tiver mandado para casa. Eu o amei de
todo o corao, mas no desejo morrer em sua companhia superior.
  Atravs de uma nvoa, vi seu vulto aproximando-se de mim. Senti suas
mos segurarem meu rosto e vir-lo para ele. Vi o brilho de seus olhos
azuis, chamas glidas, indistintas porm ardendo ferozmente.
  - Muito bem, meu lindo. Este  o momento. Quer vir comigo e ser como
eu? - Sua voz era rica e tranqilizadora, embora cheia de dor.
  - Sim, eternamente seu.
  - Eternamente para viver em segredo do sangue do malfeitor, como eu
vivo, e guardar esses segredos at o fim do mundo, se preciso for.
  - Farei isso. Eu quero.
  - Para aprender comigo todas as lies que eu puder dar.
  - Sim, todas.
  Ele me levantou da cama. Tropecei nele, a cabea girando e doendo de
tanto que gritei.
  - S um pouquinho, meu amor, meu amorjovem e terno - disse ele em meu
ouvido.
  Fui posto dentro da gua morna do banho, despido com delicadeza de
minhas roupas, a cabea cuidadosamente encostada na borda ladrilhada.
Deixei os braos boiarem na gua. Senti a gua lambendo meus ombros. Ele
apanhava punhados de gua para me banhar. Primeiro banhou o meu rosto e
depois o resto. Seus dedos duros e sedosos passavam em meu rosto.
  - Nem um s fio de barba ainda, e no entanto voc tem dotes de homem
l embaixo, e agora precisa superar os prazeres que tanto amou.
  - Farei isso-murmurei.
  Um ardorterrvel aoitou meu rosto. O talho foi aberto. Tentei tocar
na ferida, mas ele segurou minha mo. Foi s o sangue dele que cara na
chaga. E enquanto a carne comichava e ardia, senti o ferimento fechando.
Fez o mesmo com o arranho em meu brao e depois com o pequeno arranho
no dorso de minha mo. De olhos fechados, rendi-me ao prazer sinistro e
paralisante daquilo. Ele tornou a me tocar, afagando suavemente meu
peito, minhas partes ntimas, examinando primeiro uma perna, depois a
outra, procurando a menor fissura ou falha na pele, talvez. Novamente
aqueles calafrios de prazer me dominaram. Senti que me tiravam da gua,
embrulhavam em panos quentes, e depois senti aquele vento que signifcava
que ele estava me carregando, que se movia mais rpido do que qualquer
espio poderia ver. Senti meus ps nus pisarem o cho de mrmore, e, com
a febre que eu tinha, esse choque frio era muito gostoso.
  Ficamos no estdio. Estvamos de costas para o quadro em que ele
estivera de rvores rodeava duas figuras fustigadas pelo vento. A mulher
era Daphne, os braos erguidos transformando-se nos galhos do louro, j
cheio de folhas, os ps como razes que procuravam as profundezas da
terra escura embaixo dela. E atrs dela, o belo e desesperado deus
Apolo, um campeo de cabelos dourados e membros musculosos, chegando
atrasado para impedir que ela fugisse mgica e freneticamente de seus
braos ameaadores, impedir aquela metamorfose fatal.
  - Veja as nuvens indiferentes l em cima - murmurou o Mestre em meu
ouvido. Apontou para os raios de sol que ele pintara com mais habilidade
do que os homens que diariamente olham para aquilo. Disse palavras que
eu confiara a Lestat h tanto tempo quando lhe contei minha histria,
palavras que ele salvou to implacavelmente das poucas imagens dessa
poca que consegui lhe dar.
  Ouo a voz de Marius quando repito essas palavras, as ltimas que
eujamais ouviria enquanto mortal:
  -Este  o nico sol que vocjamais tornar a ver. Mas um milnio de
noites ser seu para ver uma luz como mortal nenhum jamais viu, para
roubar das estrelas distantes, como se voc fosse Prometeu, uma
iluminao infinita para entender todas as coisas.
  E eu, que enxergara uma luz celestial muito mais maravilhosa naquele
reino do qual eu fora afastado, s desejava que ele a eclipsasse agora
para sempre. <137>

-- 8 --

  Os sales ntimos do Mestre: uma sucesso de aposentos em que ele
havia coberto as paredes com cpias impecveis das obras daqueles
pintores que ele tanto admirava - Giotto, Fra Anglico, Bellini.
Estvamos na sala da grande obra de Benozzo Gozzoli, da Capela Medici em
Florena: A procisso dos magos. Na metade do sculo, Gozzoli criara
essa viso, revestindo com ela trs paredes da cmara sagrada.
  Mas meu Mestre, com aquela memria e habilidade sobrenaturais,
ampliara a grande obra, unindo o conjunto e pendurando-o numa s parede
de sua imensa e larga galeria. Perfeita com a obra original de Gozzoli
avultava-se esta, com suas hordas de jovens florentinos lindamente
vestidos, cada rosto plido um estudo de inocncia pensativa, montados
em cavalos deslumbrantes seguindo a magnfica figura dojovem Loureno de
Medici em pessoa, um rapaz de cabelos castanhoclaros macios e
encaracolados que lhe chegavam aos ombros, e um rubor carnal nas faces
brancas. Com uma expresso tranqila, suntuoso naquela jaqueta dourada
de mangas fendidas, montado num cavalo branco lindamente ajaezado, ele
parecia contemplar com indiferena o espectador do quadro. No havia um
detalhe da pintura indigno do outro. At os arreios e as mantas do
cavalo eram um maravilhoso trabalho em ouro e veludo,  altura das
mangasjustas da tnica de Loureno e de suas botas vermelhas de cano
longo.
  Mas o encantamento da pintura emanava com mais fora do rosto dos
rapazes, bem como dos poucos velhos que compunham a grande procisso,
todos com bocas pequenas e olhando para os lados, como se um olhar
direto fosse quebrar o encanto. Eles iam seguindo rumo a Belm, passando
por castelos e montanhas.
  Para iluminar esta obra-prima, havia dezenas de candelabros de prata
acesos dos dois lados da sala. As grossas velas brancas da mais pura
cera de abelha emitiam uma claridade suntuosa. L em cima, uma selva
gloriosa de nuvens pintadas cercava uma formao oval de santos que
flutuavam tocando as mos estendidas uns dos outros enquanto nos olhavam
com benevolncia. No havia nenhum mvel cobrindo aquele cho
polidssimo de mrmore de Carrara rosado. Grandes placas quadradas com
volutas de folhas verdes formavam uma borda salteada para esse cho,
que, no fosse por essas placas, era liso, intensamente lustroso,
agradvel de se pisar descalo. Encontrei-me contemplando essa galeria
de superfcies gloriosas com a fascinao de um crebro febril. A
procisso dos magos, erguendo-se como se erguia para cobrir toda a
parede  minha direita, parecia emitir uma pletora de sons de verdade...
o barulho surdo dos cascos dos cavalos, o arrastar dos ps dos homens
que caminhavam ao lado dos cavalos, o farfalhar das moitas de flores
vermelhas ao fundo e at os gritos dos esparsos caadores que, com seus
ces, seguiam pelas trilhas das montanhas ao longe.
  O Mestre estava no meio da sala. Tirara aquelas vestes de veludo
vermelho. Vestia apenas um roupo aberto de tecido dourado que lhe
chegava at os ps descalos e tinha mangas compridas em forma de sino.
Eu vestia um roupo de brilho e simplicidade semelhantes.
  - Venha, Amadeo - disse ele.
  Eu estava fraco, com sede de gua, mal conseguindo ficar em p. Mas
ele sabia disso, e nenhuma desculpa parecia adequada. Fui indo um tanto
trpego passo a passo, at chegar a seus braos.
  Suas mos me afagaram a cabea.
  Ele franziu a boca. Uma terrvel e assombrosa sensao de
inexorabilidade me invadiu.
  - Voc agora vai morrer para estar comigo na vida eterna- murmurou ele
em meu ouvido. - Em nenhum momento precisa ter medo. Manterei seu
 corao a salvo em minhas mos. Seus dentes cravaram-se profundamente
em mim, cruelmente com a preciso de punhais gmeos, e ouvi meu corao
bater.
  Meus intestinos mesmos se contraram, e senti um n no estmago. No
entanto, um prazer selvagem percorreu todas minhas veias, um prazer
dirigido aos ferimentos em meu pescoo. Eu sentia meu sangue correr para
o Mestre, para sua sede e minha morte inevitvel. At minhas mos
estavam paralisadas, vibrando. Na verdade, de repente, eu parecia ser
apenas um mapa de circuito eltrico, todo aceso, como se o Mestre, com
um rudo baixo, bvio e cauteloso, bebesse o sangue de minha vida. O
barulho de seu corao, lento, regular, um palpitar profundo e
retumbante, enchia-me os ouvidos.
  A dor em meus intestinos transmudou-se em puro xtase suave; meu corpo
perdeu todo o peso, toda a percepo de si mesmo no espao. Seu corao
batia dentro de mim. Minhas mos sentiam seus longos cachos sedosos, mas
eu no os segurava. Eu
 flutuava, sustentado apenas pelo pulsar insistente do corao e o
movimento eletrizante de meu sangue correndo.
  - Agora eu morro - murmurei. Esse xtase no podia durar. Bruscamente,
o mundo morreu.
  Fiquei sozinho na orla martima desolada e ventosa.
  Era a terra para a qual eu viajara antes, mas que diferena! Faltavam
aquele sol fulgurante e aquela profuso de flores. Os padres estavam l,
mas seus hbitos eram empoeirados e escuros e cheiravam a terra.
Conhecia esses padres, conhecia-os bem. Sabia seus nomes. Conhecia
aqueles seus rostos finos e barbados, o cabelo ralo e oleoso e o chapu
de feltro que usavam. Conhecia o encardido de suas unhas e o vazio
faminto de seus olhos encovados e brilhantes. Eles me chamaram.
  Ah, sim, de volta para meu lugar. Subimos cada vez mais alto at o
penhasco da cidade de vidro, e a cidade aparecia ao fundo,  nossa
esquerda, e como estava deserta e abandonada. Toda a energia fundida que
iluminava aquela profuso de torres transparentes se extinguira, fora
desligada na fonte. Nada restava das cores ardentes exceto um resduo de
tonalidades opacas embaixo de uma extenso amorfa de cu cinzento e
desesperanado. Ah, que tristeza ver a cidade de vidro sem seu fogo
mgico.
  Uma orquestra de sons emanava da cidade, um tilintar, como vidros se
tocando monotonamente. No era um som musical. Continha apenas um turvo
desespero luminoso.
  - Ande, Andrei - disse um dos padres para mim.
  Sua mo suja de lama seca me tocava e me puxava, machucando meus
dedos. Olhei para eles e vi que eram magros e terrivelmente brancos.
Minhas falanges brilhavam como se j tivessem sido descarnadas, mas no
tinham. Minha pele toda mantinha-se meramente presa a mim, faminta e
frouxa como a pele deles.
  Diante de ns apareceu o rio, cheio de placas de gelo e grandes
emaranhados de paus escuros, alagando a baixada com uma gua suja.
Tnhamos de atravesslo a p, e a gua fria nos machucava. No entanto,
seguimos em frente, ns quatro, os trs padres guias e eu. No alto
erguiam-se os outrora dourados domos de Kiev. Era nossa Santa Sofia,
imvel aps os hediondos massacres e conflagraes dos mongis que
arrasaram nossa cidade e todas suas riquezas, todos seus homens e suas
mulheres perversos e mundanos.
  - Venha, Andrei.
  Eu conhecia essa porta. Era do Mosteiro das Covas. S velas iluminavam
essas catacumbas, e o cheiro de terra sobrepujava tudo, at o fedor de
suor seco em corpos sujos e doentes.
  Eu segurava o cabo spero de madeira de uma pequena p. Escavei o
monte de terra. Abri a parede macia de cascalho, at me deparar com um
homem no morto mas sim sonhando enquanto a terra lhe cobria o rosto.
  - Ainda est vivo, irmo? - murmurei, para esta pessoa enterrada at o
pescoo.
          - Ainda, irmo Andrei, d-me s o que me sustente - disseram
os lbios rachados. As plpebras brancas no se abriram. - D-me s
isso, a fim de que nosso Senhor e nosso Salvador, o prprio Cristo,
escolha a hora em que devo voltar para casa.
  -Ah, irmo, como voc  corajoso-disse eu. Levei-lhe  boca um cntaro
de gua. Formou-se lama em seus lbios enquanto ele bebia. Ele tornou a
deitar a cabea no cascalho macio.
  -E voc, filho-disse ele respirando com dificuldade, afastando-se
muito ligeiramente do cntaro oferecido -, quando ter foras para
escolher sua cela de terra entre ns, seu tmulo, e esperar pela vinda
de Cristo?
  - Logo, eu rogo, irmo - respondi. Recuei. Ergui a p. Escavei at a
prxima cela e logo fui assaltado por um fedor terrvel e inconfundvel.
O padre a meu lado me amparou.
  - Nosso bom irmo Joseph est finalmente com o Senhor - disse ele.
Acabou-se, descubra o rosto dele para que possamos ver com nossos
prprios olhos que ele morreu em paz.
  O fedor aumentou. S seres humanos mortos fedem tanto.  o cheiro das
tumbas e das carroas desoladas vindo daqueles bairros onde a peste
estava no auge. Receei ficar enjoado. Mas continuei cavando, at afinal
desenterrarmos a cabea do morto. Calvo, um crnio revestido de pele
encolhida.
  Ouviram-se as preces dos irmos atrs de mim.
  - Tape isso, Andrei.
  - Quando ter coragem, irmo? S Deus pode dizer-lhe quando...
  -Coragem de qu!
  - Conheo essa voz explosiva, esse homem de ombros largos correndo
pela catacumba. No h como confundir seu cabelo e sua barba
avermelhados, seu gibo de couro e suas armas penduradas no cinto de
couro.
  -  isso o que vocs fazem com meu filho, o pintor de cones?
  Ele me agarrou pelo ombro, como fizera mil vezes, com aquela mesma
pata imensa que me batia at eu perder os sentidos.
  - Solte-me, por favor, seu animal ignorante - murmurei. - Estamos na
casa de Deus.
  Ele me arrastou e ca dejoelhos. Meu hbito estava rasgando, o tecido
preto se esgarando.
  - Pai, pare e v embora - disse eu.
  - No fundo dessas covas para enterrar um garoto que pinta bem como os
tejos!
  - Irmo Ivan, pare com essa gritaria.  Deus quem deve decidir o que
cada um de ns far.
  Os padres correram atrs de mim. Fui arrastado para a sala de
trabalho. Havia fileiras de cones pendurados no teto, cobrindo toda a
parede em frente. Meu pai atirou-me na cadeira perto da mesa grande e
pesada. Ergueu o castial de ferro com sua vela bruxuleante e queixosa
para acender todas as outras velas em volta. A iluminao incendiou sua
barba volumosa. Longos plos cinzentos saltavam de suas sobrancelhas
grossas, penteados para cima, diablicos.
  - Voc age como o bobo da cidade, pai - murmurei. -  um milagre eu
no ser tambm um mendigo imbecil.
  - Cale a boca, Andrei. Ningum lhe ensinou boas maneiras aqui, 
bvio. Voc precisa que eu lhe bata.
  Deu-me um murro no p do ouvido. Fiquei com a orelha dormente.
  - Pensei quej tivesse lhe batido o suficiente antes de traz-lo para
c, mas no - disse ele, tornando a me bater.
  - Sacrilgio! - exclamou o padre, pairando acima de mim. - O garoto
est consagrado a Deus.
  - Consagrado a um bando de malucos - disse meu pai. Tirou um pacote do
casaco. - Seus ovos, irmos! -disse com desprezo. Largou o couro macio e
tirou um ovo. - Pinte, Andrei. Pinte para lembrar a esses doidos que
voc ganhou o dom do prprio Deus.
  -E  o prprio Deus quem pinta o quadro-protestou o padre, o
presbtero, cujo cabelo, de to seboso, estava quase preto. Ele passou
entre mim e meu pai. Meu pai pousou todos os ovos menos um.
Debruando-se sobre uma tigela de barro em cima da mesa, ele quebrou a
casca desse, separando cuidadosamente a gema e deixando o resto cair em
seu pedao de couro.
  - Olhe s, gema pura, Andrei. - Ele suspirou e depois jogou a casca
quebrada no cho. Pegou ajarrinha ejuntou gua  gema.
  - Misture, misture suas tintas e pinte. Lembre-se destas...
  - Ele pinta quando Deus o chama para trabalhar-declarou o presbtero,
e quando Deus o chama para se enterrar, para viver a vida do recluso, do
eremita, ele se enterra.
  - Como o Diabo - disse meu pai. - O prprio prncipe Michael pediu um
cone da Virgem. Andrei, pinte! Pinte-me trs que eu possa dar ao
prncipe o cone que ele pede e levar os outros para o longnquo castelo
do primo dele, o prncipe Feodor, como ele pediu.
  - Esse castelo foi destrudo, pai - disse eu com desprezo. - Feodor e
todos os homens dele foram massacrados pelas tribos selvagens. Voc no
encontrar nada l nas terras selvagens, s pedra. Pai, voc sabe disso
to bem quanto eu. J fomos sufcientemente longe para ter podido
constatar essa destruio.
    -Iremos se o prncipe quiser-disse meu pai-e deixaremos o cone nos
galhos da rvore mais prxima do local em que o irmo dele morreu.
-Futilidade e loucura - disse o presbtero. Outros padres entraram na
sala. Houve muita gritaria.
    - Fale claramente comigo e deixe a poesia de lado! - gritou meu pai.
Deixe meu garoto pintar. Andrei, misture suas tintas. Faa suas preces,
mas comece.
    - Pai, voc me humilha. Eu o desprezo. Tenho vergonha de ser seu
filho. No sou seu filho. No serei seu filho. Cale essa sua boca imunda
do contrrio no pintarei nada.
    - Ah, esse  o meu garoto dcil, com mel escorrendo da lngua, e as
abelhas que deixaram o mel ali deixaram o ferro tambm.
    Ele me bateu de novo. Dessa vez fiquei tonto, mas recusei-me a levar
a mo  cabea. Meu ouvido latejava.
    - Orgulhoso de voc mesmo, Ivan, o Idiota! - eu disse. - Como posso
pintar quando no consigo ver e nem sequer sentar na cadeira?
    Os padres gritavam. Discutiam entre si.
    Tentei concentrar-me na pequena fileira de jarras de barro prontas
para a gema e a gua. Finalmente comecei a misturar a gema com a gua.
Melhor trabalhar e deix-los de fora. Eu ouvia a risada satisfeita de
meu pai.
    - Agora, mostre a eles, mostre a eles o que eles pretendem emparedar
vivo ; na lama.
    - Pelo amor de Deus - disse o presbtero.
    - Pelo amorde imbecis idiotas-disse meu pai.-No bastater um grande
pintor. Vocs precisam ter um santo. - Voc no sabe o que seu filho .
Foi Deus quem o guiou para traz-lo aqui.
  - Foi dinheiro - disse meu pai.
    Ouviram-se exclamaes de indignao dos padres.
    - No minta para eles - disse eu com voz abafada. - Voc sabe muito
bem que foi orgulho.
    - Sim, orgulho-disse meu pai-de que meu filho pudesse pintaro Rosto
de Cristo ou de Sua Santa Me como um mestre! E vocs, a quem entrego
esse gnio, so ignorantes demais para ver isso.
    Ps-se a triturar os pigmentos de que eu precisava, o p
avermelhado, e depois mistur-lo bem com a gema e a gua at cada
pequeno fragmento se dissolver e a tinta ficar lisa e perfeitamente fina
e homognea. Para o amarelo e depois para o vermelho.
    Brigavam por minha causa. Meu pai levantou a mo para o presbtero,
mas eu no me dei ao trabalho de olhar. Ele no teria coragem. No
desespero, chutou minha perna, provocando-me uma cibra, mas fiquei
quieto. Continuei misturando a tinta. Um dos padres aproximou-se de mim
e colocou uma tbua caiada  minha frente, pronta para receber a imagem
sagrada.
    Enfim eu estava pronto. Abaixei a cabea. Fiz o sinal da cruz 
nossa moda, tocando primeiro o ombro direito, no o esquerdo.
    - Santo Deus, dai-me o poder, dai-me a viso, dai s minhas mos a
educao que s o vosso amor pode dar! - Imediatamente vi o pincel em
minha mo sem saber como o havia pegado, e o pincel comeou a correr,
traando o rosto oval da Virgem, depois as linhas cadas de seus ombros
e depois o esboo de suas mos cruzadas. Agora, as exclamaes que eles
emitiam eram elogios  pintura. Meu pai ria de satisfao.
    - Ah, meu Andrei, meu geniozinho de Deus ferino, mordaz desagradvel
e ingrato.
    - Obrigado, pai -murmurei com ironia, naquela concentrao que
parecia um transe, enquanto observava assombrado o trabalho do pincel.
L estava o cabelo da Virgem, grudado na cabea e repartido ao meio. Eu
no precisava de nenhum instrumento para traar a circunferncia de sua
aurola perfeitamente redonda. Os padres seguravam pincis limpos para
mim. Um segurava um trapo limpo.
    Peguei um pincel para a tinta vermelha que ento misturei com pasta
branca, at ficar no tom certo da carne.
    - Isso no  um milagre!
    - A questo  exatamente essa - disse o presbtero entre dentes. - 
um milagre, irmo Ivan, e ele far o que Deus mandar.
    - Ele no vai se encerrar aqui, seu danado, no enquanto eu for
vivo. Ele vem comigo para as terras selvagens.
    Ca na gargalhada.
    - Pai - eu lhe disse com sarcasmo. - Meu lugar  aqui.
    - Ele  a melhor figura da famlia, e vem comigo para as terras
selvagens - disse meu pai aos outros, que estavam em polvorosa
protestando e negando.
    - Por que coloca essa lgrima no olho de Nossa Santa Me, irmo
Andrei?
    -  Deus que d a lgrima a ela - retrucou um deles.
    -  Nossa Senhora das Dores. Ah, veja as lindas pregas do manto
dela.
    - Ah, olhe, o menino Jesus! - disse meu pai, e at sua expresso
estava reverente. - Ah, pobre menino Deus, prestes a ser crucificado e
morrer! - Sua voz estava baixa pela primeira vez e quase meiga. - Ah,
Andrei, que dom. Ah, mas olhe, olhe os olhos e a mozinha da criana, a
carne do polegar, a mozinha dela.
    - At voc est tocado pela luz de Cristo - disse o presbtero. -
At um imbecil violento como voc, irmo Ivan.
    Os padres me rodearam. Meu pai tinha na mo uma poro de jias
faiscantes.
    - Para as aurolas, Andrei. Pinte rpido, o prncipe Michael ordenou
que partssemos.
    -Loucura, eu lhe digo! - Todos falavam ao mesmo tempo. Meu pai
virou-se e ergueu o punho. Olhei para cima, querendo pegar uma tbua
limpa. Minha testa estava molhada de suor. Continuei trabalhando.
    Terminara trs cones.
    Fiquei na maior felicidade. Era gostoso sentir aquele calor, estar
to consciente disso, e eu sabia, embora no dissesse nada, que meu pai
tornara isso possvel, meu pai, to alegre e corado e dominador com
aqueles ombros largos e aquela cara brilhante, a quem me era suposto
odiar.
    A Mater Dolorosa com seu Filho, e a toalha para suas lgrimas, e o
prprio Cristo. Cansado, com os olhos embaados, recostei-me na cadeira.
Aquele lugar estava insuportavelmente frio. Ah, se ali tivesse apenas
uma pequena lareira. E minha mo, minha mo esquerda estava enregelada.
S a direita estava boa por causa do ritmo com o qual eu trabalhara. Eu
queria chupar os dedos da mo esquerda, mas no dava, no ali naquele
momento, com todo mundo reunido para elogiar os cones.
    - Magistral. O trabalho de Deus.
    Uma terrvel noo de tempo me invadiu, a sensao de que eu
estivera muito longe desse momento, longe desse Mosteiro das Covas ao
qual eu prometera minha vida, longe dos padres que eram meus irmos,
longe de meu pai desbocado e imbecil, que, apesar de sua ignorncia, era
muito orgulhoso. Lgrimas escorriam de seus olhos.
    - Meu filho - disse.
    Apertou meu ombro orgulhosamente. Era bonito  sua maneira, um homem
bom e forte, sem medo de nada, um verdadeiro prncipe quando estava
entre seus cavalos, seus ces e seus seguidores, entre os quais, eu, seu
filho, um dia me inclura.
    - Deixe-me em paz, seu cretino cabea dura - disse eu. Sorri para
ele para insult-lo mais. Ele riu. Estava feliz demais, orgulhoso demais
para ser provocado.
    - Olhem o que meu filho fez. - Sua voz tinha um tom de celao. Ele
ia comear a chorar. E nem sequer stava bbado.
    - No por mos humanas - disse o padre.
    - No, naturalmente que no! - Explodiu a voz escarninha de meu pai.
- Simplesmente pelas mos de meu filho Andrei, s isso.
    Uma voz aveludada falou em meu ouvido:
    - Deseja voc mesmo colocar as jias nas aurolas, irmo Andrei, ou
prefere que eu execute essa tarefa?
    Olhe, estava terminado, a pasta aplicada, as pedras colocadas, cinco
no cone de Cristo. O pincel estava novamente em minha mo para pintar o
cabelo castanho de Cristo, que era repartido ao meio e puxado para atrs
das orelhas aparecendo s parcialmente de ambos os lados de seu pescoo.
A pena apareceu em minha mo para engrossar e escurecer as letras pretas
no livro aberto que Cristo segurava na mo esquerda. O Senhor Deus
contemplava, srio e severo da tbua de madeira, a boca vermelha e reta
embaixo dos cornos de seu bigode castanho.
    - Agora venha, o prncipe est aqui, o prncipe chegou.
    Do lado de fora da entrada do mosteiro, a neve caa em rajadas
violentas. Os padres ajudaram-me com meu colete de couro, minha jaqueta
de carneiro. Afivelaram meu cinto. Era gostoso sentir de novo o cheiro
desse couro, respirar ar puro. Meu pai estava com a minha espada. Era
pesada e antiga, trazida de alguma batalha que ele travara contra os
cavaleiros teutnicos em terras do extremo oriente, as pedras preciosas
h muito arrancadas do punho, mas uma tima espada de combate.
    Em meio  nvoa, surgiu um vulto a cavalo. Era o prprio prncipe
Michael, de chapu de pele, capa e luvas forradas de pele, o grande
senhor que governava Kiev para nossos conquistadores catlicos romanos,
cuja f ele no aceitava porm nos deixava viver a nossa vida
reservadamente. Vestia uma bela roupa de veludo estrangeiro e ouro, uma
figura elegante adequada s cortes reais da Litunia, das quais ouvamos
histrias fantsticas. Como ele suportava Kiev, a cidade em runas?
    O cavalo empinou. Meu pai correu para tomar as rdeas e ameaou o
animal como ameaara a mim.
        - O cone pae - o prncipe Feodor estava bem - embrulhado em l
para eu carregar. Segurei o punho de minha espada.
        - Ah, voc no vai lev-lo nessa misso atia - protestou o
presbtero. Prncipe Michael, Excelncia, nosso poderoso governante,
diga a esse homem ateu que ele no pode levar o nosso Andrei.
        Vi o rosto do prncipe em meio  neve, quadrado e forte, com
sobrancelhas e barba grisalhas e olhos azuis imensos e duros.
        - Deixe-o ir, padre - gritou ele para o padre. - O rapaz caa
com Ivan desde os quatro anos. Jamais algum abasteceu minha mesa, e a
sua, com tanta fartura, padre. Deixe-o ir.
        O cavalo recuou. Meu pai puxou as rdeas. O prncipe Michael
soprou a neve dos lbios.
    Nossos cavalos foram conduzidos  frente, o imponente garanho de
meu pai com aquele pescoo graciosamente curvo e o cavalo mais baixo que
havia sido meu antes que eu viesse para o Mosteiro das Covas.
    - Eu voltarei, padre - prometi ao presbtero. - D-me sua bno. O
que posso fazer contra esse meu pai delicado, afvel e piedosssimo
quando o prprio prncipe Michael ordena?
    - Ah, cale essa sua boquinha asquerosa - disse meu pai. - Acha que
quero ouvir isso at chegar ao castelo do prncipe Feodor?
    - Voc vai ouvir isso at o Inferno-declarou o presbtero.-Est
levando meu melhor novio para a morte.
    - Novio, novio para um buraco na terra! Voc toma as mos que
pintam essas maravilhas...
    - Deus as pintou-murmurei eu com ironia-, e voc sabe disso, pai.
Quer parar de exibir sua falta de f e sua agressiv idade.
    Eu estava montado em meu cavalo. Tinha o cone amarrado em l a meu
peito.
    - No acredito que meu irmo Feodor esteja morto! - disse o
prncipe, tentando controlar a montaria, emparelhando-a com a de meu
pai. - Talvez esses viajantes tenham visto alguma outra runa, algum
antigo...
    - Nada sobrevive agora nas estepes - protestou o presbtero. -
Prncipe, no leve Andrei. No o leve.
    O padre correu ao lado de meu cavalo.
    - Andrei, voc no encontrar nada. S capim e rvores balanando ao
vento. Deixe o cone numa rvore. Faa isso pela vontade de Deus, para
que, quando o encontrarem, os trtaros conheam o Divino poder do
Altssimo. Deixe-o l para os pagos. E venha para casa.
    A neve caa com tanta violncia que eu no conseguia ver-lhe o
rosto. Olhei para os domos despidos de nossa catedral, aquele vestgio
da glria bizantina deixado pelos invasores mongis, que agora exigiam
seu ganancioso tributo por intermdio de nosso prncipe catlico. Quo
rida e desolada estava a minha terra natal. Fechei os olhos e desejei o
cubculo de barro da cova, o cheiro de terra  minha volta, os sonhos
com Deus e com a Sua Bondade que me vinham quando eu estava
semi-enterrado.
   - volte para mim, Amadeo. Volte. No deixe seu corao parar! 
    Girei nos calcanhares.
    - Quem me chama? - O espesso vu branco da neve dissolveu-se para
revelar ao longe a cidade de vidro, escura e brilhante como se aquecida
por fogueiras infernais. A fumaa subia para alimentar as nuvens
agourentas do cu negro. Dirigi-me para a cidade de vidro.
    volte para mim, Amadeo. No deixe seu corao parar!
    Deixei cair o cone ao tentar controlar minha montaria. A faixa de
l desamarrara. Cavalgamos, cavalgamos. O cone saiu quicando morro
abaixo ao nosso lado, desembrulhado.
    Vi o rosto brilhante de Cristo.
    Fui pego por braos fortes, que me puxaram para cima como num
redemoinho.
    - Solte-me - protestei. Olhei para trs. No cho gelado, jazia o
cone, e o olhar fixo e interrogativo do Cristo. Senti dedos firmes
apertando meu rosto. Pisquei e abri os olhos. A sala estava aquecida e
clara. O rosto conhecido do Mestre assomava bem em cima de mim, seus
olhos azuis injetados de sangue.
    - Beba, Amadeo - disse ele. - Beba de mim.
    Ca de cabea na garganta dele. A fonte de sangue comeara a jorrar.
O sangue borbulhava saindo de sua veia, escorrendo para a gola de seu
roupo dourado. Encostei a boca ali. Lambi o sangue. Dei um grito quando
o sangue me inflamou.
    - Sugue esse sangue de mim, Amadeo. Sugue com fora!
    Minha boca encheu-se de sangue. Apertei os lbios contra sua pele
branca e sedosa para no perder nenhuma gota. Engoli fundo. Num relance
obscuro, vi meu pai cavalgando pelas estepes, uma figura imponente
vestida de couro, a espada firmemente presa ao cinto, a perna torta, a
bota marrom esfolada firme no estribo. Ele virou  esquerda, subindo e
descendo garbosamente na sela com as passadas largas de seu cavalo
branco.
    - Pois bem, deixe-me, seu covarde, seu garoto descarado e miservel!
Deixe-me! - Ele olhava para frente. - Rezei para isso, Andrei, rezei
para que eles no pegassem voc para aquelas catacumbas imundas, aquelas
celas escuras na terra. Bem, ento minha prece foi atendida! V com
Deus, Andrei. V com Deus. V com Deus!
    O rosto do Mestre estava enlevado e lindo, uma chama branca contra a
luz ondulante de inmeras velas. Eu o via no alto. Eu estava deitado no
cho. Meu corpo cantava com o sangue. Levantei-me, a cabea girando.
    - Mestre.
                    Ele estava na ponta da sala, descalo no cho rosado
e polido, braos estendidos.
                     - Venha c, Amadeo, venha c, para tomar o resto.
    Esforcei-me para obedecer. As cores da sala gritavam em volta de
mim. Vi a procisso dos magos.
    - Ah, isso  to real, to absolutamente vivo!
    - Venha c, Amadeo.
    - Estou fraco demais, Mestre. Estou desfalecendo, estou morrendo
nessa claridade gloriosa.
    Fui andando p ante p, embora sso parecesse impossvel. Ia
devagar, chegando cada vez mais perto dele. Tropecei.
    - Ento engatinhe, venha. Venha c.
    Segurei seu roupo. Eu precisava chegar l em cima se quisesse o
sangue. Estiquei-me e segurei seu brao direito. Levantei-me, encostando
naquele tecido dourado at ficar de p. De novo, abracei-o; de novo
encontrei a fonte. Bebi, bebi e bebi. Num jato iluminado, o sangue
desceu para minhas entranhas. Passou por minhas pernas e meus braos. Eu
era um Tit. Esmaguei-o embaixo de mim.
    - D-me esse sangue - murmurei. - D-me esse sangue. - O sangue
flutuava em meus lbios e me descia pela garganta. Era como se suas mos
frias de mrmore tivessem tomado meu corao. Eu ouvia esse rgo
lutando, batendo, as vlvulas se abrindo e fechando, o gorgolejar do
sangue de Marius a invadi-lo, o movimento das vlvulas ao receber o
sangue, aproveitando-o, meu corao ficando cada vez maior e mais forte,
minhas veias se assemelhando a uma rede de numerosos tubos metlicos
desse fluido potentssimo.
    Deitei no cho. Ele estava de p a meu lado, de braos abertos para
mim.
                    - Levante, Amadeo. Venha, venha para meus braos.
Tome.
    Chorei. Solucei. Mnhas lgrimas eram vermelhas, e minha mo estava
suja de vermelho.
    - Ajude-me, Mestre.
    - Ajudo, sim. Venha, tente ajudar-se voc mesmo.
    Eu estava de p com essa fora nova, como se todas as limitaes
humanas tivessem acabado, como se fossem amarras que se tivessem
soltado. Pulei em cima dele, puxando seu roupo para trs, para melhor
encontrar o ferimento.
    - Faa um ferimento novo, Amadeo.
    Mordi, perfurando a carne, e o sangue esguichou em meus lbios.
Pressionei a boca contra o corpo dele.
    - Escorra para dentro de mim. . .
    Meus olhos se fecharam. Vi as terras selvagens, o capim ao vento, o
cu azul. Meu pai cavalgava e cavalgava com o pequeno bando atrs. Seria
eu um deles?
    - Rezei para voc escapar- gritou ele para mim, rindo-, e voc
escapou. Maldito seja voc, Andrei. Maldito seja voc e sua lngua
ferina e suas mos mgicas de pintor. Maldito seja voc, seu pirralho
desbocado, maldito seja voc. - Ele ria sem parar, e continuava
cavalgando, o capim abaixando quando ele passava.
    - Pai, olhe! - gritei com esforo. Eu queria que ele visse as runas
do castelo. Mas estava com a boca cheia de sangue. Eles tinham razo. A
fortaleza do prncipe Feodor estava destruda, e o prprio prncipej se
fora h muito. O cavalo de meu pai recuou bruscamente ao chegar no
primeiro monte de pedras coberto de mato.
    Com um choque, senti o cho de mrmore embaixo de mim, to
maravilhosamente quente. Apoiei-me com as duas mos. Levantei-me. Aquele
padro rosado pululante era to denso, to profundo, to maravilhoso que
parecia gua congelada para fazer a melhor pedra. Eu poderia ficar
eternamente contemplando suas profundezas.
    - Levante-se, Amadeo, mais uma vez.
    Ah, era fcil levantar agora, alcanar seu brao e depois seu ombro.
Perfurei a carne de seu pescoo. Bebi. O sangue me percorreu todo,
revelando de novo com um choque minha forma completa contra a escurido
de minha mente. Vi o corpo do garoto que era meu, com braos e pernas,
enquanto eu respirava com essa forma naquele calor e naquela claridade
que me envolviam, como se todo o meu ser tivesse se transformado num
grande rgo multiporoso para enxergar, ouvir, respirar. Eu respirava
com milhes de bocas minsculas e fortes.
    O sangue saciou-me at eu no agentar mais.
    Fiquei diante do Mestre. Em seu rosto, vi apenas a suspeita de
cansao, a mais nfima dor em seus olhos. Vi pela primeira vez as
verdadeiras rugas de sua antiga humanidade em seu rosto, os sulcos
inevitveis no canto de seus olhos serenamente fechados. As pregas de
seu roupo brilhavam, a luz propagando-se nelas quando o pequeno gesto
do Mestre as agitou. Ele apontou. Apontou para A procisso dos magos.
    -Agora sua alma e seu corpo fsico esto ligados para sempre-disse
ele. - E com seus sentidos vampricos, o sentido da viso, do tato, do
olfato e do paladar, voc conhecer o mundo todo. No lhe virando as
costas e entrando nas celas escuras da terra, mas sim abrindo os braos
para a glria infinita, voc ver o esplendor absoluto da criao de
Deus e os milagres feitos, em Sua Divina Indulgncia, pelas mos dos
homens.
    A multido vestida de seda de A procisso dos magos pareceu andar.
Tornei a ouvir os cascos dos cavalos na terra macia e o arrastar das
botas. Tornei a pensar ter visto os ces pulando pelas encostas ao
longe. Vi as moitas floridas a balanar  passagem da rica procisso; vi
as ptalas das flores a voar. Animais maravilhosos brincavam no denso
arvoredo. Vi o prncipe Loureno, montado em seu cavalo, virar aquela
cabeajovem, exatamente como meu pai virara, e olhar para mim. O mundo
alm dele ia passando, o mundo com seus penhascos brancos, seus
caadores em seus corcis baios e seus ces saltitantes.
    -Acabou-se, Mestre-disse eu, e quo sonora e ressonante eraminha
voz, reagindo a tudo o que eu via.
    - O qu, meu filho?
    -A Rssia, o mundo das terras selvagens, o mundo daquelas terrveis
celas escuras dentro da mida Me Terra.
    Dei vrias voltas. A fumaa subia da infinidade de velas acesas. A
cera escorria e pingava na prata cinzelada que as sustentava, pingando
at naquele cho lustroso e imaculado. O cho era como o mar, de repente
to transparente, to sedoso, e, l em cima, as nuvens pintadas no mais
doce azul infinito. Parecia que havia uma nvoa emanando dessas nuvens,
uma nvoa mida de vero feita de terra misturada com mar.
    Tornei a olhar para a pintura. Fui at ela e bati-lhe com as mos, e
fiquei contemplando os castelos brancos no alto dos morros, as delicadas
rvores podadas, a natureza violenta e sublime que aguardava com tanta
pacincia o percurso preguioso de meu olhar transparente.
    - Quanta coisa! - murmurei. No havia palavras para descrever os
tons profundos de marrom e dourado da barba do mago extico, ou o
sombreado da cabea do cavalo branco, ou do rosto do homem calvo que o
conduzia, ou a graa dos camelos de pescoo arqueado, ou a massa de
flores deslumbrantes sendo pisadas sem rudo.
    - Vejo isso com todo meu ser - suspirei. Fechei os olhos e encostei
na parede, recordando perfeitamente todos os aspectos enquanto o domo de
minha mente transformava-se neste quarto mesmo, e a parede estava l
pintada por mim. - Vejo sem omitir nada. Vejo tudo - murmurei.
    Senti o brao do Mestre em meu peito. Senti seu beijo em meu cabelo.
     - Consegue ver de novo a cidade de vidro? - ele perguntou.
    - Consigo faz-la! - exclamei. Deixei a cabea rolar em seu peito.
Abri os olhos e tirei do tumulto de tintas diante de mim as cores exatas
que eu queria, e fiz essa metrpole de vidro borbulhante erguer-se em
minha imaginao, at as torres furarem o cu. - Est ali, v?
    Numa torrente de palavras confusas e engraadas, descrevi a cidade,
as agulhas verdes, amarelas e azuis das torres a balanar e brilhar na
luz celestial.
    - V? - indaguei.
    - Eu, no. Mas voc, sim -disse o Mestre. - E isso  mais que
suficiente.
     No quarto escuro, vestimo-nos na madrugada negra.
    Nada era difcil, nada tinha o peso e a resistncia antigos. Parecia
que bastava eu passar os dedos na camisa para aboto-la.
    Descemos correndo, e os degraus da escada pareciam desaparecer sob
meus ps e fundir-se com a noite. Escalar os muros escorregadios do
palazzo no era nada, firmar os ps nas fendas da pedra, pousar num tufo
de samambaias e mato ao tentar alcanar as barras de uma janela e
finalmente abrir a grade no eram nada, e com que facilidade deixei cair
l embaixo na gua verde a pesada grade de metal. Que delcia v-la
afundar, ver a gua espirrar em volta daquele peso caindo, ver o reflexo
dos archotes na gua.
    - Estou caindo l dentro.
     - Venha.
    Dentro da cmara, o homem levantou-se da escrivaninha. Para
proteger-se do frio, ele enrolara uma tira de l em volta do pescoo.
Seu roupo azul-escuro tinha uma faixa de ouro e prolas. Homem rico,
banqueiro. Amigo do Florentino, no chorando o prejuzo sobre as vrias
pginas de pergaminho recendendo a tinta preta, mas sim calculando os
ganhos inevitveis, todos os scios assassinados a punhaladas ou por
envenenamento, ao que parecia, num salo de banquetes privado.
    Ter ele adivinhado agora que fomos ns, o homem de capa vermelha e
o garoto de cabelos fulvos, que entramos por suajanela do quarto andar
nessa noite gelada de inverno?
    Peguei-o como se ele fosse o amor de minhajuventude e tirei a faixa
de l que envolvia a artria na qual eu iria me alimentar.
    Ele implorou que eu parasse, que dissesse o meu preo. Quo plcido
parecia meu Mestre, observando s a mim, enquanto o homem implorava e eu
o ignorava, apenas procurando sua grande veia pulsante e irresistvel.
    -Sua vida, preciso t-la, senhor-murmurei. -Sangue de ladro  forte
, no ?
    -Ah, menino-gritou ele, a determinao esboroando-se-, Deus envia
Suajustia numa forma improvvel assim?
    Era forte, pungente e estranhamente ranoso esse sangue humano,
misturado com o vinho que ele bebera e as ervas dos alimentos que ele
comera, e quase prpura escorrendo em meus dedos  luz daquelas suas
lmpadas antes que eu pudesse lamb-lo.
    No primeiro sorvo senti seu corao parar.
    - V com calma, Amadeo - murmurou o Mestre:
    Soltei-o e o corao recuperou-se.
             - Assim, chupe lentamente, lentamente, deixando o corao
bombear o sangue para voc, sim, e seja delicado com os dedos para que
ele no sofra sem necessidade, porque ele est tendo o pior destino
possvel, que  saber que est morrendo.
             Caminhamos juntos pelo cais estreito. Eu j no precisava
me equilibrar, embora meu olhar estivesse perdido nas profundezas das
guas cantantes, guas que o mar distante, entre muitas conexes
obstrudas, punha em movimento. Eu queria tocar no musgo mido das
pedras. Estvamos numa pequena praa, deserta, diante das portas
angulosas de uma igreja alta de pedra. A igreja estava fechada, com
todas asjanelas cerradas, todas as portas trancadas. Toque de recolher.
Silncio.
             - Outra vez, lindo, pela fora que isso lhe dar - disse o
Mestre, e suas presas mortais cravaram-se em mim enquanto suas mos me
mantinham preso.
            - Voc me enganaria? Voc me mataria? - murmurei sentindo-me
novamente indefeso, no havendo esforos preternaturais suficientemente
fortes que eu pudesse convocar para escapar de suas garras. O sangue foi
sugado de mim numa onda gigante que deixou meus braos balanando e
tremendo, os ps danando como se eu fosse um enforcado. Esforcei-me
para permanecer consciente. Empurrei-o. Mas o fluxo continuou
escorrendo, de todas as minhas fibras para dentro dele.
    - Agora, outra vez, Amadeo, tome-o de mim. Ele me deu um golpe
certeiro no peito. Quase me derrubou. Eu estava to fraco que ca 
frente, s no ltimo instante segurando sua capa. Levantei-me e dei-lhe
uma gravata com o brao esquerdo. Ele recuou, endireitando-se,
dificultando as coisas para mim. Mas eu estava muito determinado, muito
provocado e muito decidido a zombar de suas lies.
             - Muito bem, doce Mestre - disse eu rasgando de novo sua
pele. - Eu o tenho e tomarei todas as gotas do seu sangue, a no ser que
voc seja rpido, rapidssimo. - S ento percebi! Eu tambm tinha
minsculas presas! Ele comeou a rir baixinho, senti mais prazer vendo
que aquele de quem eu me alimentava ria embaixo dessas presas novas. Com
toda a fora procurei arrancar seu corao. Ouvi-o gritar e depois rir
espantado. Chupei e chupei seu sangue, engolindo com um som rouco e
deselegante. - Venha, deixe-me ouvi-lo gritar de novo! - murmurei,
sugando o sangue avidamente, alargando o talho com os dentes, meus
dentes afiados e crescidos, essas presas que eu tinha agora, feitas para
essa execuo. - Venha, implore misericrdia, Mestre. xxx
    Sua risada era doce. Tomei seu sangue gole aps gole, feliz e
orgulhoso com seu riso indefeso, com o fato de que ele cara dejoelhos
na praa e que eu ainda o tinha, e ele agora precisava levantar o brao
para me empurrar.
    - No consigo mais beber! - declarei.
     Fiquei deitado nas pedras. O cu gelado estava escuro e salpicado
de estrelas brancas incandescentes. Contemplei-o, deliciosamente
consciente da pedra embaixo de mim, da superfcie dura sob minhas costas
e minha cabea. Nenhuma preocupao agora com a sujeira, a umidade, a
ameaa de doena. Nenhuma preocupao com o que poderiam estar pensando
os homens que olhavam dajanela. Nenhuma preocupao com o adiantado da
hora. Olhem para mim, estrelas. Olhem para mim enquanto olho para vocs.
Silenciosos e reluzentes, esses olhinhos do cu.
    Comecei a morrer. Uma dor lancinante atacou meu estmago e passou
para meus intestinos.
    - Agora, tudo o que restar de um garoto mortal vai deixar voc -
disse o Mestre. - No tenha medo.
    -Acabou a msica?-murmurei. Virei-me e passei os braos em volta do
Mestre, que estava deitado a meu lado, a cabea deitada no cotovelo. Ele
me abraou.
    - Posso lhe cantar uma cano de ninar? - disse ele baixinho.
Afastei-me dele.
    Um lquido sujo comeou a escorrer de mim. Instintivamente fiquei
envergonhado, mas essa sensao lentamente desapareceu. Ele me pegou no
colo, com a facilidade de sempre, e encostou meu rosto em seu pescoo.
Ventava muito  nossa volta. Ento senti a gua fria do Adritico e me
vi caindo nas inconfundveis ondas do mar. O mar era salgado e delicioso
e no ameaava. Rolei e rolei, e, achandome sozinho, tentei me orientar.
Eu estava ao largo, perto da ilha do Lido. Olhei para a ilha principal.
E vi, em meio  grande quantidade de navios ancorados, os archotes
acesos do Palazzo Ducale, com uma viso que era assombrosamente clara.
Ouvi o vozerio do porto escuro, como se estivesse nadando secretamente
no meio dos navios, embora eu no estivesse.
    Que poder extraordinrio escutar esse vozerio, conseguir desenvolver
a habilidade de perceber uma voz determinada e ouvir seus resmungos de
madrugada, e depois afinar o ouvido para escutar uma outra voz ainda e
deixar outras palavras penetrarem. Fiquei flutuando um pouco sob o cu,
at que a dor passou inteiramente. Senti-me purificado e no queria
estar sozinho. Virei-me e nadei sem esforo para o porto, nadando
debaixo d'gua quando me aproximava dos navios.
    O que agora me espantava era eu conseguir ver debaixo d'gua! Havia
vida suficiente para meus olhos vampricos enxergarem as imensas ncoras
alojadas no fundo lodoso da laguna, e ver os cascos arqueados dos
galees. Era todo um universo submarino. Eu queria explor-lo mais, mas
ouvi a voz do Mestre-no uma voz teleptica, como agora chamaramos, mas
sim sua voz audvel chamando-me baixinho para voltar  praa onde ele me
esperava.
    Tirei as roupas sujas e sa da gua nu, correndo para ele naquela
escurido gelada, exultante porque a prpria friagem pouco significava.
Ao v-lo, abri os braos e sorri.
    Ele segurava uma capa de pele que ele abriu para me receber, secando
o meu cabelo e enrolando-me com ela.
    - Voc sente sua nova liberdade. Seus ps descalos no se afetam
com o frio das pedras. Se voc se cortar, sua pele resiliente
regenera-se instantaneamente, e nenhum animalzinho rasteiro das trevas
lhe provocar repulsa. No podem lhe fazer mal. As doenas no lhe podem
fazer mal. - Ele me cobriu de beijos. - O sangue mais pestilento apenas
o alimentar, enquanto seu corpo preternatural o purifica e o absorve.
Voc  uma criatura poderosa, e aqui dentro? Em seu peito, que agora
toco com minha mo, est seu corao, seu corao humano.
    -  mesmo, Mestre? - perguntei.
     Eu estava alegre, estava brincalho. Por que ainda to humano?
   - Amadeo, voc me achou desumano? Cruel?
    Eu sacudira a gua do cabelo, que secara quase instantaneamente.
Agora saamos da praa de brao dado, a pesada capa de pele me cobrindo.
Quando no respondi, ele parou e tornou a me abraar e comeou a me
beijar avidamente.
    - Voc me ama como sou agora, mais ainda que antes - eu disse.
    - Ah, sim - ele respondeu. Abraou-me asperamente e beijou minha
garganta toda, meus ombros e comeou a beijar meu peito. - Agora no
posso machuc-lo, no posso extinguir sua vida com um abrao acidental.
Voc  meu, de minha carne, de meu sangue.
    Ele parou. Estava chorando. No queria que eu visse. Virou de costas
quando tentei pegar seu rosto com minhas mos impertinentes.
    - Mestre, eu o amo - declarei.
    - Preste ateno - ele me afastou, obviamente constrangido com suas
lgrimas. Apontou para o cu. - Voc sempre saber quando a manh
estiver chegando, se prestar ateno. Est sentindo? Est ouvindo os
pssaros? No mundo inteiro h desses pssaros que cantam logo antes da
aurora.
    Pensei algo sinistro e terrvel. Que uma das coisas de que eu
sentira falta no Mosteiro das Covas embaixo de Kiev era o barulho dos
pssaros. L nas estepes, caando com meu pai, cavalgando pelos bosques,
eu adorava o canto dos pssaros. Nunca ficamos muito tempo nas
miserveis choupanas ribeirinhas de Kiev sem aquelas viagens proibidas
s terras selvagens das quais tantos no voltaram.
    Mas isso acabara. Eu tinha toda a doce Itlia  minha volta, a doce
Serenssima. Tinha o Mestre e a grande magia voluptuosa de sua
transformao. - Para isso fui s terras selvagens - murmurei. - Para
isso ele me tirou do Mosteiro naquele ltimo dia.
    O Mestre olhou-me com tristeza.
    - Espero que sim - disse. - O que sei do seu passado li em sua mente
quando ela estava aberta para mim, mas agora est fechada, fechada
porque transformei voc num vampiro, igual a mim, e no podemos conhecer
a mente um do outro. Somos muito prximos, o sangue que compartimos faz
um barulho ensurdecedor em nossos ouvidos quando tentamos conversar em
silncio um com o outro, por isso, largo para sempre essas terrveis
imagens daquele Mosteiro subterrneo to cintilante em seus pensamentos,
mas sempre com agonia, sempre beirando o desespero. Sim, desespero, e
tudo isso foi embora como folhas soltas de um livro jogadas ao vento.
Foi embora, assim.
    Ele me apressou. Estvamos indo para casa. Era para outro lado pelos
becos internos.
    - Vamos agora para nosso bero - disse ele -, que  nossa cripta,
nossa cama que  nosso tmulo.
    Entramos num velho palazzo dilapidado, habitado apenas por uns
poucos pobres.
    No gostei. Eu tinha sido educado por ele no luxo. Mas logo entramos
num poro, o que aparentemente era uma impossibilidade na malcheirosa
Veneza pantanosa, mas se tratava realmente de um poro. Descemos uma
escadaria de pedra, passando por grossas portas de bronze, que homens
sozinhos no conseguiam abrir, at a escurido retinta que encontramos
no ltimo aposento.
    -Eis aqui um truque - murmurou o Mestre - que uma noite dessas voc
ter fora suficiente para conseguir fazer.
    Ouvi uma crepitao, um assobio, e surgiu uma grande tocha acesa em
sua mo. Ele a acendera apenas com a mente.
    -A cada dcada voc ficar mais forte, e depois a cada sculo, e
descobrir muitas vezes em sua longa vida que seus poderes deram um
salto mgico. Teste-os cuidadosamente e proteja o que descobrir. Use com
inteligncia o que descobrir. Nunca fuja de qualquer poder, pois isso 
uma tolice to grande quanto um homem fugir de sua fora.
    Balancei a cabea positivamente, contemplando as chamas fascinado.
Eu nunca vira cores assim num fogo simples, e esse fogo no me causava
averso, embora eu soubesse que era a nica coisa capaz de me destruir.
Ele havia dito isso, no?
    Ele fez um gesto. Eu deveria olhar o quarto.
    Que cmara esplndida era. Tinha o piso de ouro! At o teto era de
ouro. Dois sarcfagos de pedra erguiam-se no centro do aposento, cada
qual ornado com uma figura entalhada  moda antiga, isto , severa e
mais solene que o natural; e, ao me aproximar, vi que essas figuras eram
cavaleiros de capacete, com tnicas longas e espadas de lmina larga
entalhadasjunto a seus flancos, mos enluvadas postas em posio de
orao, olhos fechados num sono eterno. Cada qual havia levado um banho
de ouro e de prata e sido cravejado com inmeras pequeninas pedras
preciosas. Os cintos dos cavaleiros eram cravejados de ametistas.
Safiras enfeitavam a gola de suas tnicas. Topzios refulgiam nas
bainhas de suas espadas.
    - Essa fortuna no  uma tentao para um ladro? - perguntei. -
Largada como est no poro dessa casa em runas?
    Ele riu sinceramente.
    - Voc j est me ensinando a ser cuidadoso? - perguntou sorrindo.
Que resposta insolente! Nenhum ladro consegue entrar aqui. Voc no
avaliou sua fora quando abriu as portas, Olhe o ferrolho que fechei
quando entramos, j que est to preocupado. Agora veja se consegue
abrir a tampa do caixo. Ande. Veja se sua fora  igual  sua
petulncia.
    - Eu no tive inteno de ser insolente - protestei. - Graas a Deus
voc est sorrindo. - Abri a tampa e depois empurrei a parte inferior
para o lado. Aquela tampa no era nada para mim, embora eu soubesse que
era de pedra e pesava. - Ah, entendo - falei, aquietado. Dei-lhe um
sorriso radioso e inocente. O interior era forrado de damasco prpura
real.
    - Entre neste bero, meu menino-disse ele.-No tenha medo enquanto
espera o nascer do sol. Quando ele chegar, voc estar dormindo um sono
suficientemente profundo.
    -No posso dormir com voc?
    -No, aqui nesta cama que preparei h muito tempo para voc, aqui 
o seu lugar. Eu tenho o meu que  estreito aqui a seu lado, e no d
para dois. Mas voc agora  meu, meu, Amadeo. Conceda-me um ltimo grupo
de beijos, ah, doce, sim, doce...
    - Mestre, no me deixe irrit-lo nunca. No me deixe nunca...
    - No, Amadeo, seja meu provocador, meu questionador, meu pupilo
audacioso e ingrato. - Ele parecia ligeiramente triste. Empurrou-me
delicadamente. Mostrou o caixo.
    O cetim adamascado prpura cintilou.
    - Ento vou-me deitar a - murmurei -, to jovem. Vi a sombra de dor
em seu rosto depois que falei isso. Arrependi-me de ter falado. Eu
queria me desdizer, mas ele fez sinal para que eu continuasse.
    Ah, como eram frias as malditas almofadas, e duras. Coloquei a tampa
no lugar, por cima de mim, e fquei quieto ali deitado, ouvindo, ouvindo
a tocha sendo apagada e o ranger de pedra contra pedra quando ele abriu
seu tmulo. Ouvi sua voz:
    - Boa-noite, meu jovem amor, meu amor criana, meu filho - disse
ele.
     Deixei meu corpo ficar inerte. Que delcia era esse relaxamento
simples. L na minha longnqua terra natal, os monges cantavam no
Mosteiro das Covas. Sonolentamente, refleti sobre todas as coisas que eu
lembrava. Eu havia voltado para minha terra em Kiev. Com minhas
lembranas, fizera um quadro para me ensinar tudo o que eu pudesse
saber. E, nos ltimos momentos de conscincia noturna, dei-lhes um adeus
definitivo, adeus a suas crenas e suas restries.
    Imaginei A procisso dos magos esplendidamente fulgurante na parede
do Mestre, a procisso que seria minha para estudar quando o sol
tornasse a se pr. Com aquele meu esprito selvagem e apaixonado, aquele
meu corao vamprico recm-nascido, pareceu-me que os Reis Magos haviam
vindo no s para o nascimento de Cristo, mas tambm para meu
renascimento.
    Se eu havia pensado que minha transformao em vampiro significava o
fim de meu a rendizado com Marius ou de sua utela sobre mim, estava
redondamente enganado. No fui liberado logo para me espojar nas
alegrias de meus novos poderes. Na noite seguinte  minha metamorfose,
minha educao comeou a srio. Eu agora deveria me preparar no para
uma vida temporal mas sim para a eternidade. O Mestre informou-me que
fora feito vampiro quase quinhentos anos atrs, e que havia membros de
nossa espcie espalhados pelo mundo todo. Misteriosos desconfiados e
muitas vezes miseravelmente solitrios, os peregrinos da noite, como o
Mestre os chamava, em geral no tinham preparo para a imortalidade e
nada faziam de sua existncia seno uma sucesso de desastres
melanclicos at se consumirem de desespero e se imolarem em alguma
fogueira medonha ou entrando na luz do sol.
    Quanto aos muito velhos, aqueles que, como o Mestre, conseguiram
resistir  passagem de imprios e pocas, estes eram, na maioria,
misantropos procurando para si mesmos cidades em que udessem reinar
superiores entre os mortais, expulsando novatos que tentassem
compartilhar seu territrio, mesmo se isso significasse destruir
criaturas de sua prpria espcie.
    Veneza era o incontestvel territrio do Mestre, sua reserva de caa
e sua prpria arena particular, na qual ele podia presidir todos osjogos
quejulgasse relevantes para ele nessa poca da vida.
    - Tudo passa- disse ele -, menos voc. Voc precisa escutar o que
digo porque minhas lies so, em primeiro lugar, lies de
sobrevivncia; os acessrios vm depois. A lio primeira era que s
matamos "o malfeitor". Esta fora, nos sculos mais nebulosos do tempo
antigo, uma misso solene confada aos bebedores de sangue, e realmente
havia uma religio obscura nos envolvendo na poca da antigidade pag
na qual os vampiros eram reverenciados como portadores de justia para
quem tivesse agido mal.
    " Jamais tornaremos a deixar uma superstio dessas envolver a ns e
ao mistrio de nossos poderes. No somos infalveis. No recebemos
nenhuma misso de Deus. Vagamos pela terra como os felinos gigantes das
grandes selvas e no temos mais direito sobre aqueles que matamos do que
qualquer criatura que procura viver.
   "Mas  um princpio infalvel que o massacre dos inocentes
enlouquece. Acredite em mim quando lhe digo que para sua paz de esprito
voc precisa se alimentar dos maus, precisa aprender a am-los em toda
sua imundcie e degenerao, e precisa viver das vises da maldade deles
que inevitavelmente lhe enchero o corao e a alma durante o
assassinato.
    "Mate um inocente e mais cedo ou mais tarde voc sentir culpa, e
com isso voc ficar impotente e finalmente em desespero. Voc pode
achar que somos muito cruis e muito frios para isso. Pode sentir-se
superior aos seres humanos e desculpar seus excessos predatrios
alegando estar apenas buscando o sangue necessrio  vida. Mas a longo
prazo isso no funciona.
    "A longo prazo, voc aprende que  mais humano que monstro, tudo o
que  nobre em voc decorre de sua humanidade, e sua natureza realada
s pode lev-lo a valores mais humanos ainda. Voc acabar ficando com
pena das pessoas que voc mata, mesmo as mais irrecuperveis, e acabar
amando to desesperadamente os humanos que haver noites em que a fome
lhe parecer de longe prefervel ao repasto de sangue."
    Aceitei isso sinceramente, e logo mergulhei com o Mestre nas zonas
licenciosas de Veneza, no mundo selvagem de tabernas e vcio, coisa que,
na qualidade de misterioso e bem-vestido "aprendiz" de Marius De
Romanus, eu nunca havia visto. Obviamente eu conhecia lugares em que se
bebia, conhecia cortess elegantes como nossa querida Bianca, mas no
conhecia realmente os ladres e os assassinos de Veneza, e era destes
que eu me alimentava.
    Logo, logo, entendi o que o Mestre tinha em mente quando disse que
eu precisava desenvolver um gosto pelo mal e conservar esse gosto. As
vises de minhas vtimas tornaram-se mais fortes para mim com cada
assassinato. Comecei a ver cores brilhantes quando matava. De fato, s
vezes, eu via essas cores danando em volta de minhas vtimas antes at
de me aproximar delas. Alguns homens parecem andar em sombras
avermelhadas, e outros emitir uma luz laranja flamejante. A raiva de
minhas vtimas piores e mais tenazes muitas vezes tinha um tom de
amarelo brilhante que me ofuscava, queimando-me, por assim dizer, tanto
quando eu atacava como enquanto eu bebia todo o sangue da vtima.
    No incio, eu era um assassino terrivelmente violento e impulsivo.
Deixado por Marius num covil de assassinos, eu trabalharia com uma fria
estabanada, arrancando minha presa da taberna ou do cortio,
encurralando-a no cais e depois dilacerando sua garganta como se eu
fosse um co selvagem. Eu bebia sofregamente, muitas vezes rompendo o
corao de minha vtima. Uma vez que o corao arrebenta, uma vez que o
homem est morto, nada h para bombear o sangue para dentro de voc. Por
isso no  to bom.
    Mas o Mestre, apesar de todos seus nobres discursos sobre as
virtudes dos humanos e de sua firme insistncia em nossas prprias
responsabilidades, ensinou-me a matar com sutileza.
    - Beba devagar - dizia.
    Caminhvamos s margens estreitas dos canais onde havia margem.
Atravessvamos de gndola procurando, com nossos ouvidos preternaturais,
escutar conversas que parecessem dirigidas a ns.
     - E na metade dos casos, voc no precisa arrancar as vtimas de
suas casas. Fique do lado de fora, leia o pensamento da pessoa,jogue-lhe
uma isca silenciosa. Se voc ler os pensamentos da vtima,  quase certo
que ela poder receber sua mensagem. Voc pode atrair sem palavras. Pode
exercer uma atrao irresistvel. Quando ela sair para ir at voc,
ento, tome-a.
    "Ejamais  necessrio que ela sofra, nem que haja realmente
derramamento de sangue. Abrace-a, ame-a se quiser. Acaricie-a lentamente
e crave seus dentes com cuidado. Ento banqueteie-se to lentamente
quanto puder. Assim o corao dela o ajudar.
    "Quanto s vises e essas cores de que voc fala, procure aprender
com elas. Deixe a vtima na hora da morte contar-lhe o que puder sobre a
vida. Se passarem diante de voc imagens da longa vida dela, observe-as,
ou, antes, saboreie-as. Sim, saboreie-as. Devore-as lentamente como
devora o sangue da vtima. Quanto s cores, deixe que elas o impregnem.
Deixe que a experincia toda o inunde. Isto , seja ao mesmo tempo ativo
e absolutamente passivo. Faa amor com sua vtima. E fique sempre atento
procurando ouvir o momento exato em que o corao pra de bater. Voc a
sentir uma sensao inegavelmente orgistica, mas esse momento pode
passar despercebido.
    "Suma com o corpo depois, ou certifique-se de ter apagado qualquer
sinal de perfurao na garganta da vtima. Um bocadinho de seu sangue na
ponta de sua lngua bastapara fazer isso. Em Veneza,  comum
encontrarcadveres. Voc no precisa se esforar muito. Mas, quando
caamos nos vilarejos afastados, muitas vezes voc pode precisar
enterrar os restos mortais."
    Eu ansiava por todas essas lies. Era um prazer magnfico
caarmosjuntos. Acabei logo deduzindo que Marius fora estabanado nos
assassinatos que cometera para eu presenciar antes de minha
transformao. Eu soube ento, como talvez tenha deixado claro nesta
histria, que ele queria que eu sentisse pena dessas vtimas; queria que
eu sentisse horror. Queria que eu visse a morte como uma abominao. Mas
devido  minhajuventude,  minha dedicao a ele e  violncia cometida
contra mim em minha curta vida mortal, eu no reagira como ele havia
esperado.
    Fosse porque fosse, ele agora era um assassino muito mais hbil.
Muitas vezes tomvamos a mesma vtima, juntos, eu bebendo da garganta de
nosso cativo, enquanto ele chupava seu pulso. s vezes ele se deleitava
segurando a vtima para mim enquanto eu bebia o sangue todo. Sendo novo,
eu tinha sede todas as noites. Podia passartrs noites sem matar, sim, e
s vezes passava, mas na quinta noite de abstinncia- isso foi testadoeu
estava fraco demais para me levantar do sarcfago. Ento isso queria
dizer que, se e quando eu porventura estivesse sozinho, eu precisava
matar pelo menos a cada quatro noites.
    Meus primeiros meses foram uma orgia. Cada assassinato parecia mais
eletrizante, mais paralisantemente delicioso que o anterior. A simples
viso de uma garganta nua era capaz de me provocar um tal estado de
excitao que eu ficava como um animal, sem conseguir falar nem me
controlar. Quando abria os olhos naquela fria escurido de pedra, eu
imaginava carne humana. Sentia a textura dessa carne nas mos nuas e a
queria, e a noite para mim no podia ter outros acontecimentos antes de
pegar aquela que seria sacrificada  minha necessidade.
    Durante um bom tempo depois do assassinato, sensaes doces e
latejantes me percorriam enquanto o sangue perfumado encontrava todos os
cantos de meu corpo, enquanto bombeava seu magnfico calor para meu
rosto. Isso, e exclusivamente isso, era suficiente para me absorver
completamente, jovem como eu era.
    Mas Marius no tinha inteno de deixar que eu me espojasse em
sangue, o predadorjovem apressado, sem pensar em mais nada a no ser se
fartar noite aps noite.
    - Voc precisa mesmo aprender a srio histria e filosofia e direito
disse-me ele. - No est destinado  Universidade de Pdua agora. Est
destinado a durar.
    Ento, quando nossas misses furtivas terminavam, e voltvamos ao
palazzo aconchegante, ele me fazia ler. De qualquer maneira, queria que
eu mantivesse uma certa distncia de Riccardo e dos outros, receando que
eles desconfiassem da mudana que ocorrera.
    De fato, ele me disse que eles "sabiam" da mudana conscientemente
ou no. Seus corpos sabiam que eu j no era humano, embora suas mentes
pudessem custar um pouco a aceitar o fato.
    - Mostre a eles s cortesia, amor e a mais completa tolerncia, mas
mantenha distncia - disse-me Marius. - Quando eles perceberem que o
impensvel aconteceu, voc ter deixado claro que no  inimigo deles,
que realmente continua sendo o Amadeo, de quem eles gostam, e que,
embora tenha mudado, no mudou em relao a eles.
            Compreendi isso. Imediatamente senti um amor maior por
Riccardo. Senti isso por todos os meninos.
             - Mas Mestre - perguntei -, voc nunca perde a pacincia
com eles, com , o fato de eles terem um raciocnio mais lento, de serem
desajeitados? Eu os amo, ' sim, mas certamente voc os v sob um prisma
mais pejorativo do que eu.
             - Amadeo - disse ele meigamente -, eles todos vo morrer.
    Sua expresso estava carregada de tristeza. Senti isso totalmente,
na mesma hora, que era o modo como agora eu sentia as coisas. As
sensaes vinham numa torrente e ensinavam suas lies de
 uma vez s. Eles todos vo morrer. Sim, e eu sou imortal. Depois disso,
eu s podia ser paciente com eles, e, de fato, eu me divertia com o modo
como eu olhava para eles e os estudava, sem deixar que soubessem, mas me
deliciando com todos os detalhes deles como se eles fossem exticos
porque... morreriam. H coisas demais para descrever, coisas demais. No
consigo encontrar uma maneira de colocar no papel tudo que ficou claro
para mim s nos primeiros meses. E no houve nada que eu aprendesse
naquela poca que depois no tivesse sido aprofundado.
            Eu enxergava processo em tudo o que via; farejava corrupo,
mas tambm enxergava o mistrio do crescimento, a magia das coisas
desabrochando e amadurecendo, e na verdade todo processo, seja de
amadurecimento, seja de morte, encantava-me e fascinava-me, isto ,
exceto a desintegrao da mente humana.
    Meu estudo de administrao e direito era mais um desafio. Embora eu
lesse infinitamente mais rpido e com uma compreenso quase instantnea
da sintaxe, precisava me obrigar a me interessar por assuntos como a
histria do Direito Romano da antigidade, e o grande cdigo do
imperador Justiniano, chamado CorpusJuris Civilis, que o Mestre achava
um dos melhores cdigosj escritos.
    - O mundo s est melhorando - ensinou-me Marius. - Com cada sculo,
a civilizao fica mais apaixonada pelajustia, os homens comuns fazem
grandes progressos no sentido de compartilhar a riqueza que antes era o
prmio dos poderosos, e a arte se beneficia de todo aumento de
liberdade, ficando cada vez mais imaginativa, mais criativa e mais bela.
Eu s conseguia entender isso teoricamente. No acreditava em direito
nem , me interessava pelo assunto. Na verdade, em tese, eu tinha um
total desprezo pelas idias do Mestre. O que quero dizer  que eu no o
desprezava, mas tinha um desprezo subjacente to completo pelo direito,
por instituies legais e governamentais que eu nem sequer compreendia.
    O Mestre dizia que compreendia.
    - Voc nasceu numa terra sinistra e selvagem - disse. - Eu gostaria
de poder fazer voc recuar duzentos anos no tempo, para aquela poca
antes que Batu, o filho de Gngis Khan, saqueasse a magnfica cidade de
Kiev Rus, para a poca em que os domos de sua Santa Sofia eram mesmo
verdes, e seu povo cheio de engenhosidade e esperana.
    - Ouvi falar ad nauseam dessa antiga glria - disse eu calmamente,
sem querer irrit-lo. -Encheram-me com essas histrias dos velhos tempos
quando eu era menino.
    Naquela miservel casa de madeira em que morvamos, a poucos metros
do rio congelado, eu escutava essas idiotices tiritando perto do iogo.
Havia ratos em nossa casa. L, de bonito, s havia os cones e as
canes de meu pai. S havia depravao naquela terra, e estamos
falando, como voc sabe, de uma terra imensa. Voc no pode saber o
tamanho da Rssia a no ser que tenha estado l, a no ser que tenha
estado, como estive com meu pai, nas florestas geladas ao norte de
Moscou, ou em Novgorod, ou em Cracvia, a leste. Interrompi-me. - No
quero pensar nessa poca nem nesse lugar - eu disse. - Na Itlia no se
pode sonhar em suportar um lugar desses.
    -Amadeo, a evoluo da lei, do governo,  diferente em cada terra e
com cada povo. Escolhi Veneza, como j lhe disse, h muito tempo, porque
 uma grande Repblica, e porque seu povo est firmemente ligado  Me
Terra pelo simples fato de ser um povo de mercadores envolvidos com o
comrcio. Adoro a cidade de Florena porque sua grande famlia, os
Medici,  de banqueiros, no ociosos aristocratas titulados que
desprezam qualquer tipo de esforo em nome de algo que eles acreditam
ter sido dado por Deus. As grandes cidades da Itlia so feitas de
homens que trabalham, homens que criam, homens que fazem, e, por causa
disso, h uma maior compaixo por todos os sistemas e oportunidades
infinitamente maiores para homens e mulheres de todos os nveis.
    Fiquei desanimado com essa conversa. O que importava isso?
    - Amadeo, o mundo agora  seu - disse o Mestre. - Voc precisa olhar
para os movimentos maiores da histria. Com o tempo, o estado do mundo
acabar por oprimi-lo, e voc descobrir, como todos os imortais
descobrem, que no pode simplesmente fechar o corao para isso,
sobretudo voc.
    - Por qu? - perguntei um tanto irritado. - Acho que posso fechar os
olhos. Que me importa se um homem  banqueiro ou mercador? Que me
importa se vivo numa cidade que constri sua prpria frota mercante?
Posso ficar eternamente olhando as pinturas desse palazzo, Mestre. Ainda
nem comecei a ver todos os detalhes de A procisso dos magos ej h
tantas outras. E as pinturas todas dessa cidade?
    Ele sacudiu a cabea
    - O estudo da pintura vai lev-lo ao estudo do homem, e o estudo do
homem vai lev-lo a lamentar ou celebrar o estado do mundo dos homens.
    No acreditei, mas eu no estava autorizado a mudar o currculo.
Estudei como me mandaram. Agora, o Mestre tinha muitos dons que eu no
possua, mas, segundo ele, eu iria desenvolv-los com o tempo. Ele
conseguia fazer fogo com a mente, mas s em condies ideais- isto ,
ele conseguia acender uma tochaj preparada com breu. Era capaz de
escalar um prdio sem esforo apoiando-se apenas em um ou outro
parapeito para tomar impulso e subir com movimentos graciosos e rpidos,
e chegava a qualquer profundidade embaixo d'gua. Obviamente sua viso e
sua audio vampricas eram muito mais fortes e apuradas que as minhas,
e, enquanto as vozes me perturbavam, ele sabia callas enfaticamente.
    Eu precisava aprender isso, e de fato me esforava desesperadamente
para tal, pois havia pocas em que Veneza inteira parecia nada mais que
uma cacofonia de vozes e oraes.
    Mas o grande poder que ele possua e eu no era sua capacidade de
alar vo e vencer distncias imensas com grande velocidade. Isso me
fora demonstrado muitas vezes, mas quase sempre, ao me levantar e me
carregar, ele forara minha cabea para baixo para que eu no pudesse
ver onde nem como havamos ido.
    Por que ele era to reticente a esse respeito eu no conseguia
entender.
    Finalmente, uma noite, quando ele se recusou a nos transportar como
que magicamente para a Ilha do Lido, para que pudssemos apreciar uma
das cerimnias noturnas de fogos de artifcio e navios iluminados com
tochas na gua, insisti na pergunta.
    -  um poder assustador-disse ele calmamente. -  assustador no ter
os ps na terra. Nos primeiros estgios, isso no acontece sem suas
mancadas e seus acidentes.  medida que a pessoa ganha experincia,
subindo suavemente para a atmosfera mais alta, esfria no s para o
corpo mas tambm para a alma. No parece preternatural, mas sim
sobrenatural. - Eu podia ver que ele sofria com isso. Balanou a cabea.
-  o nico talento que parece genuinamente inumano. No posso aprender
com os humanos a melhor forma de us-lo. Com todos os outros talentos,
os humanos so meus professores. O corao humano  a minha escola. Com
esse no. Eu viro o mgico; viro o bruxo ou o feiticeiro.  uma coisa
sedutora, e a pessoa pode ficar escrava disso.
    - Mas como? - perguntei.
    Ele estava confuso. Nem queria falar sobre aquilo. Finalmente ficou
apenas um pouco impaciente.
    - s vezes, Amadeo, voc me atormenta com perguntas. Voc pergunta
se eu lhe devo essa instruo. Pode acreditar, no devo.
    -Mestre, voc me criou e insiste em minha obedincia. Por que eu
haveria de ler A histria de minhas calamidades, de Abelardo, ou os
escritos de Duns Scotus da Universidade de Oxford se voc no me fizesse
ler?-Parei. Lembrei de meu pai e de como eu no parava de agredi-lo com
palavras custicas, respostas impertinentes e crticas. Fiquei
desanimado. - Mestre, explique isso.
    Ele fez um gesto como se para dizer "Ah, to simples, h?" - Est
bem - prosseguiu. -  assim. Posso subir muito nos ares e deslocar-me
muito depressa. No consigo entrar nas nuvens muitas vezes. Elas em
geral esto mais altas do que eu. Mas posso locomover-me to rpido que
o mundo vira um borro. Vejo-me em terras estranhas quando deso. E lhe
digo, apesar de toda a magia, isso  uma coisa profundamente chocante e
perturbadora. s vezes fico perdido, tonto, inseguro quanto a meus
objetivos ou minha vontade de viver, depois de usar esse poder. As
transies so muito rpidas; isto , talvez. Nunca falei sobre isso com
ningum, e agora estou falando com voc, e voc  um garoto, e no pode
comear a entender.
    Eu no comeava.
    Mas, pouqussimo tempo depois, foi desejo dele fazermos uma viagem
mais longa do que qualquer uma quej fizramos. Era apenas uma questo
de horas, mas, para meu total espanto, viajamos entre o crepsculo e o
incio da noite para a cidade de Florena. L, deixado num mundo
totalmentp diferente do mundo da regio da Vencia, caminhando
calmamente no meio de uma raa inteiramente diferente de italianos,
entrando em igrejas e palcios de estilo diferente, compreendi pela
primeira vez o que ele queria dizer. Entenda, eu j havia visto
Florena, viajando como o aprendiz mortal de Marius, com um grupo dos
outros. Mas aquilo que eu vira rapidamente no foi nada comparado com o
que vi como vampiro. Agora eu tinha os instrumentos de avaliao de um
deus menor.
    Mas era noite. A cidade estava sob o toque de recolher. E as pedras
de Florena pareciam mais escuras, mais opacas, lembrando uma fortaleza,
as ruas estreitas e sombrias,j que no eram clareadas por faixas
luminescentes de gua como as nossas. Os palcios de Florena no tinham
os extravagantes ornamentos mouriscos dos prdios famosos de Veneza, as
fantsticas fachadas de pedra polida. Seu esplendor ficava fechado, como
 mais comum nas cidades italianas. No entanto a cidade era rica, cheia
de delcias para os olhos.
    Afinal de contas era Florena - a capital do homem chamado Loureno,
o Magnfico, a irresistvel figura que dominava a cpia de Marius do
grande mural que eu vira na noite de meu renascimento negro, um homem
que havia morrido h poucos anos apenas.
    Encontramos a cidade ilicitamente movimentada, embora estivesse
bastante escuro, com grupos de homens e mulheres passeando pelas ruas
pavimentadas, e pairava um clima sinistro de agitao na Piazza della
Signoria, uma das mais importantes das muitas praas da cidade.
    Acabara de haver uma execuo ali naquele dia, um acontecimento nada
comum em Florena, ou em Veneza. Fora uma morte na fogueira. Eu sentia o
cheiro de lenha e carne torrada embora as evidncias todas tivessem sido
removidas dali antes de anoitecer.
    Eu tinha uma averso natural por essas coisas, o que nem todo mundo
tem, diga-se de passagem, e me aproximava da cena cautelosamente, sem
querer, com esses sentidos aguados, ser perturbado por algum horrvel
vestgio de crueldade.
    Marius sempre nos mandara tomar cuidado para no "gostar" desses
espetculos, e nos colocarmos mentalmente no lugar da vtima se
quisssemos aprender ao mximo com o que vamos.
    Como a histria ensina, em execues, o povo costuma ser cruel e
indisciplinado, s vezes insultando a vtima por medo, acho eu. Ns, os
meninos de Marius, sempre achamos terrivelmente difcil unir mentalmente
a nossa sorte  pessoa que estivesse sendo enforcada ou queimada. Em
resumo, ele tirara toda a graa da coisa para ns.
    Naturalmente, como esses rituais aconteciam quase sempre de dia,
Marius nunca os presenciara.
    Agora, enquanto rumvamos para a grande Piazza della Signoria, eu
via que ele estava incomodado com a fuligem que ainda pairava no ar e
com os cheiros desagradveis. Notei tambm que passvamos facilmente
pelas pessoas, dois vultos rpidos envoltos em mantos escuros. Nossos
ps quase no faziam barulho. Era o dom vamprico que permitia que nos
deslocssemos furtivamente, desaparecendo depressa com uma graa
instintiva da vista de algum observador repentino e ocasional.
    -  como se fssemos invisveis, lembre-se - murmurou ele.
    - Mas quem morreu aqui hoje? As pessoas esto nervosas e com medo.
Oua. H satisfao e h pranto.
    Ele no respondeu. Fiquei aflito.
    - O que  isso? No pode ser uma coisa comum - disse eu. - A cidade
est alerta e inquieta demais.
    -  o grande reformador deles, Savonarola - disse Marius. - Ele foi
enforcado hoje aqui e depois queimado. Graas a Deusj estava morto
antes que o fogo o pegasse.
    - Voc deseja misericrdia para Savonarola? - perguntei. Eu estava
intrigado. Este homem, talvez um grande reformador aos olhos de alguns,
sempre fora amaldioado por todos os meus conhecidos. Ele condenara os
prazeres dos sentidos, negando a validade da prpria escola em que o
Mestre achava que todas as coisas deveriam ser aprendidas.
    - Desejo misericrdia para qualquer homem -disse Marius. Ele fez
sinal para que eu seguisse, e nos deslocamos para a rua vizinha.
    Fomos embora da praa medonha.
    - At para esse, que convenceu Botticelli a botar seus prprios
quadros nas Fogueiras das Vaidades? - perguntei. - Quantas vezes, nas
cpias que fez de trabalhos de Botticelli, voc me mostrou detalhes de
graa e beleza que no queria que eu jamais esquecesse?
    - Vai discutir comigo at o fim do mundo? - disse Marius. - Estou
contente que meu sangue tenha lhe dado foras em todos os aspectos, mas
voc precisa questionar qualquer palavra que me sai da boca?-Lanou-me
um olhar furioso, deixando a luz dos archotes ali perto iluminar em
cheio seu sorriso um tanto zombeteiro. - Alguns estudantes acreditam
nesse mtodo, e acham que verdades maiores emergem da tenso contnua
entre professor e aluno. Mas eu no! Acho que voc precisa esperar
minhas lies calarem em sua mente pelo menos cinco minutos antes de
comear a contra- atacar.
    - Voc tenta zangar comigo mas no consegue.
    - Ah, que confuso! -disse ele como se estivesse praguejando.
Caminhava rpido  minha frente.
    Aquela ruela florentina era lgubre, antes parecia um corredor de
uina casa grande do que uma rua urbana. Senti saudades da brisa de
Veneza, ou melhor, meu corpo sentiu, por hbito. Eu estava bastante
fascinado de estar ali.
    - No fique to exasperado - disse eu. - Por que eles se viraram
contra Savonarola?
    - D tempo aos homens e eles se viram contra qualquer pessoa. Ele
dizia que era um profeta, divinamente inspirado por Deus, e que este era
o fim dos tempos, e essa  a queixa crist mais cansativa e mais velha
que h no mundo, pode crer. O fim dos tempos! O cristianismo  uma
religio baseada na noo de que estamos vivendo no fim dos tempos! 
uma religio alimentada pela capacidade que os homens tm de esquecerem
todos os erros do passado e se prepararem de novo para o fim dos tempos.
    Sorri, mas com amargura. Eu queria articular um pressentimento
forte, de que vivamos sempre no fim dos tempos, e isso estava gravado
em nosso corao, porque ramos mortais, quando de repente me dei conta
inteiramente de que eu j no era mais mortal, seno na medida em que o
prprio mundo era mortal. E achei que entendia mais visceralmente do que
nunca o clima intencionalmente sombrio de minha infncia na remota Kiev.
Vi novamente as catacumbas barrentas e os monges semi-enterrados que me
animaram a me tornar um deles.
    Tirei isso da cabea, e como Florena estava clara ao chegarmos na
grande Piazza del Duomo toda iluminada por archotes - diante da grande
catedral de Santa Maria del Fiore.
    - Ah, meu pupilo realmente ouve de vez em quando - ironizou Marius.
- Sim, estou mais que contente que Savonarolaj no exista mais. Mas
alegrarse com o fim de alguma coisa no  aprovar o desf le interminvel
de crueldades que  a histria humana. Eu desejava que fosse diferente.
Sacrifcios pblicos tornam-se grotescos em todos os aspectos. Embotam
os sentidos do povo. Nessa cidade, mais que em qualquer outra, esses
sacrifcios so um espetculo. Os florentinos gostam, como gostamos de
nossas regatas e procisses. Ento Savonarola morreu. Bem, se houve
algum homem que tenha pedido a morte, foi Savonarola, prevendo como
previu o fim do mundo, amaldioando prncipes do plpito, levando
grandes pintores a imolarem suas obras. Que v para o inferno.
    -Mestre, olhe, o Batistrio, vamos, vamos ver as portas. A praa
est quase vazia. Venha,  a nossa chance de ver os bronzes. - Puxei-o
pela manga. Ele me seguiu e parou de resmungar, mas no estava
diferente.
    O que eu queria ver eram obras que no se vem agora em Florena, e,
na verdade, quase todos os tesouros dessa cidade e de Veneza que
descrevi aqui podem ser vistos agora. Basta voc ir l. Os painis da
porta feitos por Lorenzo Ghiberti eram a minha alegria, mas havia tambm
um trabalho antigo feito por Andrea Pisano, tnostrando a vida de So
Joo Batista, e esse eu no queria deixar de ver.
    To afiada era essa viso vamprica que, enquanto eu estudava essas
detalhadas cenas em bronze, era difcil conter os suspiros de prazer.
Este momento  to claro. Acho que eu acreditava na poca que nada mais
poderia me magoar nem me entristecer, que eu havia descoberto o blsamo
da salvao no sangue vamprico, e o estranho  que, enquanto narro
minha histria agora, estou pensando de novo a mesma coisa.
    Apesar de infeliz agora, e provavelmente para sempre, acredito
novamente na importncia capital da carne. Penso nas palavras de D. H.
Lawrence, o escritor do sculo XX, que, em seus escritos sobre a Itlia,
recordou a imagem de Blake do "Tyger, Tyger, burning bright / In the
forests of the night".* As palavras de Lawrence so: * Tigre, Tigre, a
refulgir / Nas florestas da noite. (N. da T.) ~ i.
    "Esta  a supremacia da carne, que tudo devora, e se trans tgura
nums magnfica chama rajada, uma sara ardente mesmo. Esta  uma forma
de transfigurao na chama eterna, a transfigurao pelo xtase da
carne."
    Mas fiz uma coisa arriscada para um contador de histrias. Abandonei
minha trama, como garanto que o vampiro Lestat (que  mais talentoso
talvez do que eu, e to apaixonado pela imagem do tigre de William Blake
na noite, e que, goste ele de admitir ou no, usou o tigre em seu
trabalho no mesmo dia) me diria, e preciso voltar logo a esse momento na
Piazza del Duomo, onde me deixei ficar no passado ao lado de Marius,
contemplando o gnio de Ghiberti cantando em bronze as Sibilas e os
santos.
    Aprecivamos essas coisas com calma. Marius disse baixinho que,
depois de Veneza, Florena era sua cidade preferida, pois aqui muita
coisa havia florescido magnificamente.
    -Mas no consigo viver sem mar, nem aqui-confessou.-E, como voc
est vendo a em volta, essa cidade abraa seus tesouros com uma
vigilncia sombria, enquanto em Veneza, as prprias fachadas de nossos
palcios so oferecidas a Deus Todo-Poderoso  em pedra brilhante ao
luar.
    - Mestre, ns servimos a Ele? - insisti. - Sei que voc condena os
monges que me educaram, condena os delrios de Savonarola, mas pretende
me guiar por outro caminho para o mesmo Deus?
    - Exatamente, Amadeo, pretendo - disse Marius - e no quero como o
pago que sou admitir isso com tanta facilidade, pois sua complexidade
pode ser mal interpretada. Mas admito. Encontro Deus no Sangue. Encontro
Deus na carne. Acho que no  por acaso que o misterioso Cristo esteja
para sempre presente para seus seguidores em Carne e Sangue no Po da
Transubstanciao.
    Fiquei emocionadssimo com essas palavras! Parecia que o prprio sol
que eu renegara para sempre tivesse voltado para iluminar a noite.
    Entramos por uma porta lateral naquela catedral escura que chamavam
de Duomo. Fiquei contemplando o altar no final da grande nave. Seria
possvel que eu pudesse ter o Cristo de uma forma nova? Afinal de
contas, talvez eu no tivesse renunciado a ele para sempre. Tentei
verbalizar essas idias perturbadas para o Mestre. Cristo... de uma nova
forma. Eu no conseguia explicar, e finalmente disse:
    - Tropeo nas palavras.
    - Amadeo, todos tropeamos, como tropeam todos os que entram para a
histria. O conceito de um Grande Ser vem tropeando pelos sculos; as
palavras Dele e os princpios a Ele atribudos correm mesmo atrs Dele.
Ento o pregador puritano, o eremita faminto e enlameado, esse rico
Loureno de Medici aqui, querendo celebrar o seu Senhor em ouro, tinta e
mosaicos, todos esses se apoderam de Cristo.
    - Mas Cristo  o Senhor Vivo? - murmurei.
    Nenhuma resposta.
    Minha alma chegou a um ponto extremo de agonia. Marius me deu a mo
e disse que devamos ir ento furtivamente para o mosteiro de So
Marcos.
     -  a santa casa que entregou Savonarola - ele disse. - Vamos
entrar l sem que os piedosos habitantes saibam.
    Mais uma vez nos deslocamos como que por magia. S senti os braos
fortes do Mestre, e nem vi a porta quando samos e fomos para esse outro
local. Eu sabia que ele queria me mostrar o trabalho do artista chamado
Fra Anglico, h muito falecido, que trabalhara a vida inteira nesse
mesmo mosteiro, um monge pintor,
    como talvez eu estivesse destinado a ser, l naquele longnquo
Mosteiro das Covas.
    Em questo de segundos, pousamos silenciosamente na relva mida do
claustro quadrado de So Marcos, o tranqilo jardim cercado pelas
loggias de Michelozzo, seguros entre aquelas paredes.
    Imediatamente, muitas preces chegaram a meus ouvidos vampricos,
preces desesperadas e agitadas dos irmos que haviam tido simpatia por
Savonarola ou sido leais a ele. Levei as mos  cabea como se este tolo
gesto humano pudesse sinalizar ao Divino que eu j no tinha capacidade
de agentar mais nada.
     O Mestre interrompeu a corrente receptora de pensamento com sua voz
tranqilizadora.
    - Venha - disse, segurando minha mo. - Vamos entrar nas celas uma
por uma. H luz suficiente para voc ver as obras desse monge.
    - Est dizendo que Fra Anglico pintou as prprias celas em que os
monges dormem? - Eu achara que suas obras estariam na capela e nas
outras salas pblicas ou comunais.
    - Por isso quero que voc veja as celas - insistiu o Mestre.
     Ele me levou por uma escada que dava numa ampla galeria de pedra.
Fez a primeira porta se abrir e entramos delicadamente, depressa e em
silncio, sem perturbar o monge encolhido em sua cama dura, a cabea
suando no travesseiro.
    -No olhe para a cara dele - disse o Mestre com delicadeza. - Se
olhar, vai ver os pesadelos que ele tem. Eu queria que voc visse a
parede. O que est vendo, agora, olhe!
    Compreendi logo. Essa arte de Fra Giovanni, chamado Anglico em
homenagem a seu talento sublime, era uma estranha mistura da arte
sensual de nosso tempo com a piedosa e abnegada arte do passado.
