  Anne Rice

  O VAMPIRO ARMAND

  Traduo de
  ADALGISA CAMPOS DA SILVA

  Rio de Janeiro - 2000

  nota de orelha do livro
  o recente episdio das crnicas Vampirescas, Anne
Rice convoca mundos fascinantes para nos trazer a histria de Armand 
- eternamente jovem, com um rosto de anjo de Botticelli.
  Armand, que apareceu em toda a sua
glria sinistra mais de vinte anos atrs, com o hoje clssico do cinema 
Entrevista com o vampiro, o romance que estabeleceu mundialmente sua 
autora.
    Agora, acompanhamos Armand atravs dos sculos at a Kiev 
Russa de sua meninice - uma cidade em runas dominada pelos
mongis - a antiga Constantinopla, onde caadores
trtaros vendem-no como escravo. E num suntuoso palcio de Veneza
do Renascimento, o vemos emocional e intelectualmente subjugado
ao grande vampiro Marius, que vive
entre os humanos sob a mscara de um pintor misterioso e recluso
que conceder a Armand o muito do sangue vampiresco.
   medida que o romance
chega ao clmax, passando por cenas de luxo e elegncia,
emboscada, incndio e culto diablico na Paris do sculo XIX e na
Nova Orleans atual, vemos seu heri eternamente
vulnervel e romntico forado a escolher entre sua imortalidade
crepuscular e a salvao de sua alma imortal.
  fim da nota

  Para Brandy Edwards, Brian Robertson e Christopher e Michele Rice




  Jesus, falando a Maria Madalena:
  Disse-lhe Jesus: No me retenhas, porque ainda no subi a meu Pai, mas
vai a meus irmos e dize-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e
vosso Deus.
  EVANGELHO SEGUNDO SO JOO, 20:1%

PARTE I

Corpo e Sangue

- 1 -

  Disseram que uma criana havia morrido no sto. Suas roupas foram
encontradas na parede.
  Eu queria ir l em cima, deitarjunto  parede e ficar s.
  De vez em quando, viam o fantasma da menina. Mas nenhum desses
vampiros conseguia realmente ver espritos, pelo menos no como eu. No
importa. No era a companhia da menina que eu desejava - e sim estar
ali.
  Eu no tinha mais nada a ganhar ficando ali com Lestat. Eu viera.
Fizera o que me propusera fazer. No podia ajud-lo.
  Enervava-me ver aquele seu olhar fixo e imutvel, e eu estava calmo
por dentro e cheio de amor pelos que me eram mais chegados - meus filhos
humanos, meu pequeno Benji de cabelos escuros e minha terna e graciosa
Sybelle-, mas ainda no me sentia suficientemente forte para lev-los
embora.
  Sa da capela.
  Nem sequer vi quem estava l. O convento inteiro era agora morada de
vampiros. No era um local tumultuado nem abandonado, mas no vi quem
ficou na capela quando sa.
  Lestat estava como sempre estivera, deitado de lado no cho de mrmore
da capela diante do enorme crucifixo, as mos relaxadas, a esquerda logo
abaixo da direita, os dedos tocando o mrmore de leve como se tivesse um
propsito, quando na verdade no havia nenhum. Os dedos da mo direita,
dobrados formavam um pequeno tubo na palma da mo onde a luz incidia, e
isso tambm parecia ter um significado, mas no havia nenhum.
  Este era simplesmente o corpo preternatural que ali jazia sem vontade
ou nimo, to inconsciente quanto o rosto, a expresso quase
desafiadoramente inteligente, pois h meses Lestat no se mexia.
  Os altos vitrais eram devidamente encobertos para ele antes do nascer
do sol.
   noite, resplandeciam com todas as velas maravilhosas espalhadas
junto s belas esttuas e relquias que enchiam esse lugar outrora
santificado e sagrado.
  Criancinhas mortais haviam assistido  missa debaixo desse teto alto e
 abobadado; um padre entoara as palavras latinas num altar. <11>

  Agora o lugarera nosso. Pertencia a ele-Lestat, o homem quejazia
imvel no  cho de mrmore.
  Homem. Vampiro. Imortal. Filho da Escurido. Qualquer um desses termos
  excelente para ele. Olhando por cima do ombro para ele, nunca me
senti to criana.
   isso que sou. Preencho a definio, como se ela estivesse
perfeitamente codificada em mim, e jamais houvesse qualquer outro
desgnio gentico.
  Eu devia ter uns dezessete anos quando Marius transformou-me em
vampiro. Euj  parara de crescer nessa poca. Passei um ano com um metro
e sessenta e oito.  Minhas mos so delicadas como mos de moa, e eu
era imberbe, como costumvamos  dizerento, naqueles anos do sculo XVI.
Eu no era um eunuco, no,  absolutamente, mas sim um menino.
  Era moda, ento, meninos serem lindos como meninas. S agora essa
semelhana  parece interessante, e  por isso que gosto dos outros - os
meus: Sybelle com  seus  seios de mulher e suas pernas compridas de
menina, e Benji com seu rostinho redondo e  intenso de rabe.
  Eu estava no p da escada. Nada de espelhos aqui, s as altas paredes
de  tijolos, sem o reboco original, paredes que eram consideradas velhas
apenas para  os Estados Unidos, encardidas pela umidade at dentro do
convento, todas as texturas e  elementos aqui suavizados pelos veres
abafados de Nova Orleans e seus invernos  midos e desagradveis,
invernos verdes, eu chamo, porque as rvores aqui quase nunca  esto
nuas.
  Nasci num lugar de inverno eterno em comparao com este aqui. No 
de  espantar que na Itlia ensolarada eu tenha esquecido completamente
as origens, e  moldado minha vida a partir de meus anos com Marius. - Eu
no lembro. Era uma situao  de tanto amor  devassido, de estar to
viciado no vinho e nas lautas refeies  da Itlia, e at na sensao do
mrmore quente sob meus ps descalos quando os  sales dopalazzo
tornavam-se pecaminosa e depravadamente aquecidos pelos fogos
exorbitantes de Marius.
  Seus amigos mortais... seres humanos como eu naquela poca...
repreendidos  constantemente por esses gastos: lenha, leo, velas. E,
para Marius, s serviam  as melhores velas de cera de abelha. Cada
fragrncia era signifcativa.
  Pare de pensar nisso. Recordaes no podem mago-lo agora. Voc veio
aqui por  um motivo e j terminou, e precisa encontrar aqueles que ama,
seus jovens  mortais, Benji e Sybelle, e precisa continuar.
  A vida no era mais um palco onde o fantasma de Banquo vinha sempre
para  sentar-se  mesa triste.
  Minha alma doa.
  Va L em cima. Deite um instante nesse convento de tijolos onde as
roupas  dacriana foram encontradas. Deite com a criana, assassinada
aqui neste convento, ssim dizem os boateiros, os vampiros que assombram
essas galerias  agora, que vieram ver o grande Vampiro Lestat em seu
sono de Endimio. <12>

  No senti assassinato algum aqui, s as ternas vozes das freiras.
  Subi a escadaria, deixando meu corpo encontrar seu peso humano e seu
andar  humano.
  Aps quinhentos anos, conheo esses truques. Eu poderia assustar todos
os  jovens - os que estavam  toa e os que olhavam - to certamente
quanto os  antigos o faziam, at o mais modesto, pronunciando palavras
para evidenciar sua  telepatia, ou desaparecendo quando resolviam ir
embora; ou, de vez em quando,  at usando seu poder para fazer o prdio
tremer - uma faanha interessante mesmo com essas  paredes de quarenta e
cinco centmetros com soleiras de cipreste que nunca  apodrecem.
  Ele deve gostar dessas fragrncias aqui, pensei. Marius, onde est
ele? Antes  de visitar Lestat, eu no queria muito falar com Marius e s
disse umas palavras de cortesia quando deixei meus tesouros sob seus
cuidados. Afinal de  contas, eu trouxera meus filhos para uma espcie de
zoolgico dos No Mortos. Quem melhor para proteg-los seno meu amado
Marius, to poderoso que ningum aqui ousava  questionar o menor pedido
seu. No h ligao teleptica entre ns,  naturalmente - Marius me
criou, sou eternamente sua cria-, mas, to logo isso me ocorreu,
percebi que sem o auxlio dessa ligao teleptica eu no podia sentir a
presena de Marius no prdio. No sei o que aconteceu naquele breve
intervalo em que me  ajoelhei para olhar para Lestat. Eu no sabia onde
Marius estava. No conseguia  sentir os cheiros humanos conhecidos de
Benj nem de Sybelle. Uma pequena pontada de  pnico paralisou-me.
Encontrava-me no segundo andar do prdio. Encostei- me na parede,
pousando os olhos com uma calma decidida no cho de pinho  profundamente
envernizado. A luz fazia ilhas douradas nas tbuas. Onde  estavam eles,
Benji e Sybelle? O que fui fazer trazendo-os para c, dois humanos
maduros e  adorveis? Benji era um menino vivo de doze anos, Sybelle,
uma moa de vinte e  cinco.
  E se Marius, de alma to generosa, tivesse sido negligente e os
deixado longe  de seus olhos? - Estou aqui, jovem - a voz, brusca, era
suave, bem- vinda.  Meu Criador estava no patamar logo abaixo, tendo
subido a escada atrs de mim, ou, mais exatamente, colocando-se ali com
seus poderes, cobrindo a  distncia precedente com uma velocidade
silenciosa e invisvel. <13>

  - Mestre - falei com um vestgio de sorriso. - Fiquei com um pouco de
medo por  eles - era um pedido de desculpas. - Esse lugar me deprime.
  Ele balanou a cabea para cima e para baixo.
  - Estou com eles, Armand. - A cidade est infestada de mortais. H
comida  suficiente para todos os vagabundos que vierem aqui. Ningum vai
machuc-los.  Mesmo se eu no estivesse aqui para dizer isso, ningum
ousaria.
  Agora fui eu quem balanou a cabea. Eu no tinha tanta certeza, de
fato.  Vampiros so perversos por naturza e fazem maldades e coisas
terrveis simplesmente por esporte. Matar o bicho de estimao mortal de
outro seria um bom entretenimento  para uma criatura triste,
estrangeira, de passagem por aqui, atrada por  acontecimentos
extraordinrios.
  - Voc  uma maravilha, jovem - disse-me ele sorrindo. Jovem! Quem
mais me  chamaria dejovem seno Marius, meu Criador, e o que so
quinhentos anos para  ele? -  Voc entrou no sol, criana - prosseguiu
com a mesma preocupao estampada no rosto  bondoso. - E sobreviveu para
contar a histria.
  - No sol, Mestre?
  Questionei as palavras dele. Mas eu mesmo no desejava revelar mais
nada. Eu  no queria falar ainda, contar o que acontecera, a lenda do
Vu de Vernica e do  Rosto de Nosso Senhor estampado nele, e a manh em
que abdiquei de minha alma com uma  felicidade to perfeita. Que fbula
foi isso!
  Ele subiu para ficar perto de mim, mas manteve uma distncia educada.
Sempre  fora um cavalheiro, mesmo antes que essa palavra existisse. Na
Roma antiga,  deveria haver um termo para designar uma pessoa daquelas,
sempre bemeducada, e fazendo  questo de ser atenciosa, e inteiramente
bem-sucedida no exerccio da cortesia  para com o pobre e com o rico
igualmente. Este era Marius, e sempre foi Marius, at  onde eu podia
saber.
  Ele deixou a mo branca como a neve pousar no corrimo macio e sem
lustro.  Vestia uma capa comprida de veludo cinza sem forma que j fora
perfeitamente  extravagante, hoje surrada pelo uso e pela chuva, e seus
cabelos amarelos eram compridos como  os de Lestat, refulgindo revoltos
naquela umidade, chegando a estar salpicados  de gotas de orvalho
dojardim, o mesmo orvalho que ficara em suas sobrancelhas  douradas,
sombreando as longas pestanas reviradas em volta dos grandes olhos
azul-cobalto.
  Tinha um jeito muito mais nrdico e glacial do que Lestat, cujos
cabelos  puxavam mais para o dourado, com todas aquelas mechas
luminosas, e cujos olhos  eram sempre prismticos, absorvendo as cores 
sua volta, chegando at a adquirir um tom glorioso de violeta  menor
provocao do reverente mundo externo. <14>

  Em Marius, eu via os cus ensolarados da natureza setentrional, olhos
de um  fulgor constante que rejeitavam qualquer cor externa, portais
perfeitos de sua  prpria alma constantssima.
  - Armand - disse ele. - Quero que venha comigo.
  - Aonde, Mestre, ir aonde? - perguntei. Eu tambm desejava ser corts.
Ele,  mesmo depois de uma disputa cerebral, sempre me fazia manifestar
esses instintos  mais elevados.
  -  minha casa, Armand, onde eles agora esto, Sybelle e Benji. Ah,
no tenha  nenhum receio pelos dois. Pandora est com eles. Eles so
mortais incrveis,  brilhantes, impressionantemente diferentes, e no
entanto parecidos. Eles o amam, e sabem  tanto e vieram de muito longe
com voc.
  Corei com o sangue que me subiu  cabea; o calor estava pungente e
desagradvel, e ento, quando o sangue refluiu da superfcie de meu
rosto,  fiquei mais fresco e estranhamente irritado por sentir alguma
sensao.
  Era um choque estar ali e eu desejava que aquilo terminasse.
  - Mestre no sei quem eu sou nesta nova vida - falei grato.
-Renascido?  Confuso?-hesitei, mas no adiantava conter aquilo. -No me
pea para ficar aqui,  agora.  Talvez quando Lestat se refizer, talvez
quando tiver passado um tempo suficiente... No  sei ao certo, s sei
que no estou podendo aceitar seu amvel convite.
  Balanou a cabea para mim em sinal de aceitao. Com a mo, fez um
pequeno  gesto de aquiescncia. Sua velha capa cinza escorregara-lhe de
um dos ombros. Parecia no fazer caso disso. Suas roupas pretas de l
fina estavam maltratadas, com uma  barra descuidada de poeira nas
lapelas e nos bolsos. Isso no era correto nem  usual para ele.
  Ele tinha uma grande massa de seda branca no pescoo que fazia seu
rosto  plido parecer mais corado e mais humano do que pareceria sem o
contraste. Mas a  seda  estava desfiada, como que por espinhos. Em suma,
ele mais assombrava o mundo com essas  roupas do que as vestia. Elas
eram apropriadas para uma pessoa estabanada, no  para meu velho Mestre.
  Acho que ele sabia que eu estava perdido. Eu olhava para o escuro l
em cima.  Queria chegar ao sto, s roupas semi-ocultas da criana
morta. Fiquei pensando  nessa histria da criana morta. Tive a
impertinncia de deixar minha mente vaguear, embora ele estivesse
esperando.
  Ele me trouxe de volta com suas palavras amveis.
  - Sybelle e Benji estaro comigo quando voc os quiser - disse ele.
Voc pode  nos encontrar. No estamos longe. Voc ouvir a Appassionata
quando quiser. -  Sorriu. <15>

  - Voc deu um piano a ela - retruquei. Falei da dourada Sybelle. Eu
exclura o  mundo de minha audio preternatural e no queria agora
destampar os ouvidos  sequer para o som adorvel que ela tirava das
teclas, do qual eu j estava sentindo uma  falta imensa.
  Quando entramos no convento, Sybelle logo viu um piano e me perguntou
baixinho  se podia toc-lo. No era na capela onde jazia Lestat, mas
numa outra sala ao  lado, comprida e vazia. Eu lhe respondera que no
era muito apropriado, que poderia  perturbar Lestat ali deitado, e no
podamos saber o que ele pensava, nem o que sentia, nem se estava
angustiado e enredado em seus prprios sonhos.
  - Talvez quando vier, voc fique algum tempo - disse Marius. - Vai
gostar de  ouvi-la tocando meu piano, e quem sabe ento conversaremos, e
voc poder ficar  conosco, e poderemos dividir a casa pelo tempo que
desejar.
  No respondi.
  -  palaciana num estilo do Novo Mundo - explicou, com um sorriso meio
 zombeteiro. - No  nada longe. Tenho os jardins mais amplos e os
carvalhos mais  velhos,  mais velhos at do que aqueles da avenida, e
todas as janelas so portas. Voc sabe o  quanto gosto dessas coisas
assim.  o estilo romano. A casa est aberta para as chuvas de
primavera, e as chuvas de primavera aqui parecem um sonho.
  - , eu sei - murmurei. - Acho que est chovendo agora, no est?
sorri.
  - Bom, estou todo respingado de chuva, sim - respondeu, quase
alegremente. -  Venha quando quiser. Se no hoje  noite, ento
amanh...
  - Ah, estarei l hoje  noite - falei. Eu no queria ofend-lo, de
modo  nenhum, mas Benji e Sybelle tinham visto uma quantidade suficiente
de monstros  de cara  branca e voz aveludada. Estava na hora de ir
embora.
  Olhei para ele com bastante audcia, gozando por um instante essa
atitude,  superando uma timidez que fora nossa maldio neste mundo
moderno. Na Veneza  antiga,  ele resplandecera em suas roupas como os
homens ento resplandeciam, sempre to vivo  e esplendidamente
enfeitado, o espelho da moda, para usar a antiga expresso  elegante.
  Quando cruzava a praa de So Marcos naquela suave claridade prpura
do  anoitecer, todos se viravam para vlo passar. O vermelho era sua
marca de  orgulho, veludo vermelho - uma capa esvoaante e um gibo
magnificamente bordado, e por baixo  uma tnica de seda dourada, to
popular naqueles tempos.
  Ele tinha o cabelo de um jovem Loureno de Medici, que parecia
extrado  diretamente do mural.
  - Mestre, eu o amo, mas agora preciso ficar sozinho - eu disse. - Voc
no  precisa de mim, precisa? Como pode? Nunca precisou realmente. - Na
mesma hora,  arrependi-me. As palavras, no o tom, eram imprudentes. E
estando nossas mentes divididas por um sangue to ntimo, receava que
ele interpretasse mal.
  - Querubim, desejo voc - retrucou magnnimo. - Mas posso esperar.
Parece que  no faz muito tempo que eu disse essas mesmas palavras
quando estivemos juntos,  e  por isso torno a diz-las.
  Eu no conseguia dizer a ele que aquela era minha temporada de
companhia  mortal, o quanto eu desejava simplesmente passar a noite
conversando com o  pequeno Benji, que era to sbio, ou ouvindo minha
querida Sybelle tocando sua sonata. Parecia  irrelevante explicar mais.
E a tristeza tornou a cair sobre mim, pesada e  inegavelmente, tristeza
de ter vindo a este convento abandonado e vazio onde estava Lestat, sem
conseguir ou sem querer se mexer ou falar, nenhum de ns sabia.
  - Minha companhia agora no vai acrescentar nada, Mestre - falei. Mas
voc me  dar uma chave para encontr-lo, claro, de modo que quando este
tempo passar...  -  deixei minhas palavras morrerem.
  - Receio por voc! - ele murmurou, com grande carinho.
  - Mais do que antes, Mestre? - perguntei.
  Ele refletiu um instante. Depois respondeu:
  - Sim. Voc ama duas crianas mortais. Elas so sua lua e suas
estrelas. Venha  ficar comigo nem que seja um pouquinho. Diga-me o que
acha de nosso Lestat e do  que aconteceu. Diga-me talvez, se eu prometer
ficar muito quieto e no pression-lo,  d-me sua opinio sobre tudo o
que viu to recentemente.
  - Voc aborda isso com delicadeza, Mestre, eu o admiro. Est se
referindo a  por que acredito em Lestat quando ele afirma ter estado no
Paraso e no Inferno,  ou  ao que enxerguei ao olhar para a relquia que
ele trouxe com ele, o Sudrio de  Vernica.
  - Se quiser me contar. Mas, na verdade, gostaria que voc viesse e
descansasse.
  Pousei minha mo sobre a dele, maravilhado de ver que, apesar de tudo
por que  eu passara, minha pele estava quase to branca quanto a dele.
  - Voc ser paciente com meus filhos at eu chegar, no? - perguntei.
- Eles  se acham to intrepidamente perversos, vindo aqui para estar
comigo, assobiando  displicentemente no cadinho dos No Mortos, por
assim dizer.
  -No Mortos-replicou com um sorriso de reprovao.-Um linguajar
desses, e em  minha presena. Voc sabe que odeio isso.
  Plantou um beijo rpido em meu rosto. Isso me espantou, e em seguida
percebi  que ele fora embora.
  - Velhos truques! - falei em voz alta, imaginando se ele ainda estaria
 sufcientemente perto para me ouvir, ou se havia tapado os ouvidos para
mim com a  mesma violncia com que eu tapara os meus para o mundo de
fora.
  Olhei para o lado, desejando a tranqilidade, sonhando de repente com
caramanches, no em palavras mas em imagens, como minha velha mente
faria,  desejando deitar no meio das flores nos canteiros, desejando
encostar o rosto na terra e cantar  baixinho para mim mesmo.
  A primavera l fora, o calor, a nvoa mida que se transformaria em
chuva.  Tudo isso eu queria. Queria as florestas pantanosas alm, mas
queria tambm  Sybelle  e Benji, e ter partido, e ter alguma vontade
para prosseguir.
  Ah, Armand, voc sempre carece exatamente disso, de vontade. No deixe
a velha  histria se repetir agora. Proteja-se com tudo o que aconteceu.
  Outro estava ali perto.
  De repente pareceu-me terrvel que um imortal que eu no conhecia se
intrometesse aqui em meus pensamentos aleatrios particulares, talvez
para fazer  uma aproximao egosta do que eu sentia.
  Era apenas David Talbot.
  Ele saiu da ala da capela, pelas salas de comunicao que ligam o
convento ao  prdio principal onde eu estava no alto da escada do
segundo andar. Vi-o entrar no saguo. Atrs dele estava o vidro da porta
que levava  galeria,  e, mais alm, o suave claro branco e dourado do
ptio l embaixo.
  - Agora est tranqilo- disse ele. - E o sto est vazio e voc sabe
que pode  ir l, claro.
  - V embora - retruquei. No estava com raiva, apenas me achava no
direito de  querer que no lessem meus pensamentos e que deixassem
minhas emoes em paz.
  Com impressionante serenidade, ele me ignorou, depois falou:
  - Sim, tenho medo de voc, um pouco, mas tambm sou terrivelmente
curioso.
  - Ah, entendo, ento isso desculpa o fato de voc me ter seguido at
aqui?
  - Eu no o segui, Armand. Eu moro aqui.
  - Ah, sinto muito, ento-admiti. -Eu no sabia. Acho que fico contente
com  isso. Voc o guarda. Ele nunca fica sozinho-eu me referia a Lestat,
claro.
  -Todo mundo tem medo de voc-replicou, calmamente. Ele se colocara a
poucos passos de mim, cruzando os braos displicentemente. - Sabe,  um
estudo  e tanto as histrias e os hbitos dos vampiros.
  - No para mim - falei.
  - Sim, estou vendo - ele insistiu. - S estava pensando, e espero que
voc me  perdoe. Era sobre a criana no sto. A criana que dizem ter
sido assassinada.    uma grande histria, sobre uma pessoinha muito
pequena. Se tiver mais sorte do que  todo mundo, talvez voc veja o
fantasma da criana cujas roupas foram  emparedadas.
  - Importa-se se eu olhar para voc? - retruquei. - Pergunto se voc
vai meter  o bedelho em minha cabea com tanta descontrao?
Conhecemo-nos algum tempo  antes  disso tudo acontecer: Lestat, a Viagem
Paradisaca, este lugar. Nunca avaliei voc  realmente. Eu era
indiferente, ou educado demais, no sei qual dos dois.
  Fiquei surpreso de ouvir minha voz to inflamada. Eu era voltil, e
no era  culpa de David Talbot.
  - Estou pensando no conhecimento convencional a seu respeito -
continuei. -No  fato de voc no ter nascido neste corpo, de que era um
velho quando Lestat o  conheceu, de que este corpo que voc agora habita
pertencia a uma alma esperta que  conseguiu ir passando de um ser vivo a
outro e se estabelecer a com sua prpria  alma invasora.
  Ele me abriu um sorriso bastante apaziguador.
  -Assim disse Lestat-respondeu.-Assim escreveu.  verdade,
naturalmente. Voc  sabe que . Voc sabia desde a outra vez que me viu.
  - Passamos trs noites juntos - eu disse. - E nunca questionei voc
realmente.  Quer dizer, nunca o fitei diretamente nos olhos.
  - Estvamos pensando em Lestat ento.
  - No estamos agora?
  - No sei - disse ele.
  - David Talbot - falei, avaliando-o friamente com os olhos. - David
Talbot,  Superior Geral da Ordem dos Detetives Medinicos conhecida como
a Talamasca, foi  catapultado para este corpo no qual ele agora circula
- no sei se eu estava parafraseando  ou inventando isso  medida que eu
falava. - Ele foi fixado ou acorrentado  dentro desse corpo, aprisionado
por muitas veias adoentadas, depois transformado em  vampiro quando um
sangue inflamvel e inestancvel invadiu sua anatomia  afortunada,
selando sua alma ali dentro e transformando-o em imortal, um homem de
pele  bronzeada e cabelo preto seco, lustroso e grosso.
  - Acho que voc est certo - assentiu, indulgente e educado.
  -Um belo cavalheiro cor de caramelo -prossegui -, andando com uma
desenvoltura  to felina e olhares to iluminados que me lembra de tudo
o que era saboroso e   agora uma miscelnea de aromas: canela, cravo,
pimentas suaves e outras especiarias  douradas, marrons ou vermelhas,
cujas fragrncias podem atiar meu crebro e  mergulhar-me em desejos
erticos que agora, mais do que nunca, vivem para se extinguir. A  pele
dele deve cheirar a castanha de caju e cremes de amndoas. Cheira mesmo.
  Ele riu.
  - Estou entendendo seu ponto.
  Eu me chocara. Por um instante, fiquei infelicssimo.
  - No sei ao certo se eu me entendo - repliquei num tom arrependido. -
Acho  que  simples - disse ele. - Voc quer que eu o deixe em paz. Eu
vi as absurdas  contradies disso tudo de uma vez s.
  - Olhe - murmurei rapidamente. - Estou perturbado - murmurei. Meus
sentidos se  cruzam, como tantos fios para dar um n: paladar, viso,
olfato, tato. Estou  descontrolado.
  Fiquei pensando preguiosa e perversamente se poderia atac-lo,
tom-lo,  derrub-lo graas a minha habilidade e minha esperteza maiores
e provar-lhe o sangue sem o seu consentimento.
  -J tenho cho demais para isso- falou -, e por que voc arriscaria
uma coisa  dessas?
  Que serenidade. O homem mais velho nele de fato comandava a carne mais
robusta  e maisjovem, o sbio mortal com uma autoridade frrea sobre
todas as coisas  eternas e com um poder sobrenatural. Que combinao de
energias! Bom beber o sangue  dele, tom-lo contra sua vontade. No h
maior divertimento no mundo do que o  estupro de um igual.
  - No sei - respondi envergonhado. Estupro no  coisa de homem. No
sei por  que o estou insultando. Sabe, eu queria ir embora logo. Quer
dizer, eu queria  visitar o sto, depois sair daqui. Queria evitar esse
tipo de paixo. Voc  uma  maravilha, e me acha uma maravilha, e isso 
formidvel.
  Deixei meus olhos passearem por ele. Estive cego para ele da ltima
vez que  nos vimos, essa era a maior verdade.
  Ele se vestiu para matar. Com o talento de antigamente, quando os
homens  podiam andar como paves, escolhera tons de spia dourada e de
ferrugem para  suas roupas. Ele estava elegante e limpo e todo enfeitado
com detalhezinhos cuidadosos de  ouro puro, num relgio de pulso e em
botes e num alfinete esguio para sua  gravata moderna, aquela tira de
cor que os homens usam nesta poca, como se para nos deixar peg- los no
lao com mais facilidade. Enfeite idiota. Mesmo sua camisa de algodo
acetinado era cor de cobre e tinha alguma coisa do sol e da terra
aquecida. At seus  sapatos eram marrons, lustrosos como dorso de
besouro.
  Veio em minha direo.
  - Sabe o que vou perguntar- disse. -No lute com esses pensamentos
desarticulados, essas novas experincias, todo esse conhecimento
avassalador.  Escreva um livro com isso para mim.
  Eu no poderia ter previsto que esta seria sua pergunta. Fiquei
surpreso,  docemente surpreso, mas mesmo assim pego desprevenido. Fazer
um livro? Eu? Armand?
  Fui andando na direo dele, virei bruscamente e subi correndo a
escada do  sto, passando pelo terceiro andar e depois entrando no
quarto andar.
  O ar estava abafado ali. Era um lugar que o sol aquecia diariamente.
Tudo era  seco e doce, a madeira que parecia incenso e o assoalho
spero.
  - Menina, onde voc est? - perguntei.
  - Criana, voc quer dizer - corrigiu ele.
  Ele subira atrs de mim, demorando um pouco por cortesia.
  Acrescentou:
  - Ela nunca esteve aqui.
  - Como sabe?
  - Se ela fosse um fantasma, eu poderia cham-la - disse ele.
  Olhei por cima do ombro.
  - Voc tem esse poder? Ou isso  s o que voc quer me dizer agora?
Antes que  v mais longe, deixe-me avis-lo que quase nunca temos o
poder de ver espritos.
  - Sou completamente novo-explicou David.-Sou diferente dos outros.
Entrei para  o Mundo das Trevas com faculdades diferentes. Ousarei
dizer, ns, a nossa espcie, os vampiros, evolumos? 
  - A palavra convencional  estpida - respondi.
  Fui entrando mais no sto. Espiei uma pequena cmara com estuque e
rosas descascadas, grandes rosas  molengas vitorianas com folhas de um
verde plido e esmaecido. Entrei na cmara.
  A luz vinha de uma janela alta que uma criana no podia alcanar.
  Impiedoso, pensei.
  - Quem disse que uma criana morreu aqui? - perguntei. Tudo estava
limpo por baixo da sujeira dos anos. No havia presena  alguma. Parecia
perfeito ejusto, nenhum fantasma para me reconfortar. Por que um
fantasma haveria de deixar um descanso gostoso por minha causa? Ento eu
poderia  talvez me abraar com a memria dela, sua terna lenda. Como so
assassinadas  crianas em orfanatos onde s freiras trabalham? Nunca
pensei nas mulheres como sendo to  cruis. Secas, sem imaginao,
talvez, mas no agressivas como ns somos, para  matar.
          Dei um giro completo. Uma das paredes era revestida de
escaninhos de  madeira, e um dos escaninhos achava-se aberto, e l
estavam os sapatinhos  marrons  batidos, Oxfords, como so chamados, com
cadaros pretos, e agora eu via, atrs de mim, o  buraco todo
arrebentado de onde rasgaram as roupas dela. - Todas cadas ali,
emboloradas e amassadas, l estavam as roupas da menina.  Uma quietude
baixou em mim como se a poeira desse lugar fosse um gelo fino, descendo
dos pncaros de montanhas arrogantes e monstruosamente egostas para
congelar todas as coisas vivas, esse gelo, para encerrar de vez tudo o
que respirasse ou sentisse ou sonhasse ou vivesse. Ele falou em verso:
    - "No receies mais o calor do sol" - murmurou. - "Nem as violentas
frias  do inverno. No receies mais..."
  Estremeci de prazer. Eu sabia os versos. Adorava-os.
  Ajoelhei-me, como se diante do Sacramento, e toquei nas roupas dela.
  - E ela era pequena, no tinha mais de cinco anos, e no morreu
absolutamente  aqui. Ningum a matou. Nada to especial para ela.
  - Como suas palavras desmentem seus pensamentos - disse ele.
  - No desmentem, penso simultaneamente em duas coisas. H uma
distino em ser  assassinado. Eu fui assassinado. Ah, no por Marius,
como voc poder achar, mas  por outros.
  Eu sabia que estava falando baixo e de modo arrogante, porque o
objetivo disso  no era teatro puro.
  -As recordaes me envolvem como velhas capas de pele. Levanto o brao
e a  manga da memria o cobre. Olho em volta e vejo outros tempos. Mas
voc sabe o  que mais me assusta:  que esse estado, como tantos outros
comigo, no chegar a provar  nada, mas vai durar sculos.
  - O que voc realmente teme? O que queria de Lestat quando veio aqui?
  - David, eu vim para ver Lestat. Vim para descobrir como estavam as
coisas com  ele, e por que ele jaz ali, imvel. Eu vim... - eu no ia
dizer mais nada.
  Suas unhas polidas davam um ar ornamental e especial s suas mos,
faziam-nas  parecer carinhosas, graciosas e encantadoras ao toque. Ele
pegou um vestidinho,  rasgado, cinza, salpicado com pedaos de renda
ordinria. Todas as coisas vestidas de  carne podem produzir uma beleza
estonteante se voc se concentrar nelas o  suficiente, e a beleza dele
saltava sem se desculpar.
  - Apenas roupas. - Algodo florido, um pedao de veludo com uma manga
fofa do  tamanho de uma ma para o sculo de braos nus dia e noite.
Absolutamente  nenhuma violncia em volta dela - comentou como se isso
fosse uma pena. - S uma pobre  criana, no acha, e triste por natureza
bem como por situao.
  - E por que foram emparedados, conte-me isso! Que pecado cometeram
esses  vestidinhos? - Suspirei. - Santo Deus, David Talbot, por que no
deixamos a  menina ter  suas prprias histrias e fama? Voc me irrita.
Diz que pode ver fantasmas. Acha-os  agradveis? Voc gosta de conversar
com eles. Eu poderia lhe contar sobre um  fantasma...
  - Quando me contar? Olhe, no v o truque de um livro? - Ele se
levantou e  espanou o joelho com a mo direita. Na esquerda tinha o
vestido franzido dela.  Algo  naquela cena toda me incomodou, uma
criatura alta segurando o vestido amassado de uma  menina.
  - Sabe, quando voc pensa - falei virando-me para no ver o vestido na
mo  dele-, nada justifica no mundo de Deus a existncia de meninas e
meninos. Pense na outra questo delicada dos mamferos. Entre
cachorrinhos, gatinhos ou potrinhos, h  sexo? Sexo nunca  problema. A
coisa frgil e semidesenvolvida  assexuada.   indeterminada. No h
nada to esplndido para se olhar como um menino ou uma menina. Minha
cabea est to cheia de idias. Acho que explodirei se no fizer alguma
coisa,  e voc diz para fazer um livro para voc. Voc acha que 
possvel, acha...
  - O que eu acho  que quando voc faz um livro, voc conta a histria
da forma  como gostaria de saber dela!
  -No vejo grande sabedoria nisso.
  - Bem, ento pense, pois a maioria dos discursos  uma mera vazo de
nossos  sentimentos, uma mera exploso. Oua, veja a maneira como voc
faz essas  exploses.
  - No quero ver.
  - Mas v, porm no so as palavras que voc quer ler. Quando voc
escreve,  algo diferente acontece. Voc faz uma lenda, no importa quo
fragmentada ou  experimental ou quo pouco caso faa de todas as
convenes e formas teis. Tente isso para  mim. No, no, tenho uma
idia melhor.
  - Qual?
  - Desa comigo a meus aposentos. Estou morando aqui, eu lhe disse. De
minhas  janelas voc pode ver as rvores. No vivo como nosso amigo
Louis, vagando por  esses cantos empoeirados e depois voltando a seu
apartamento da Rue Royale quando se  convenceu novamente e pela milsima
vez de que ningum pode fazer mal a Lestat.  Tenho aposentos aquecidos.
Uso velas para ter uma iluminao antiga. Desa e deixe-me  escrever sua
histria. Fale comigo. Fique andando de um lado para o outro se  quiser,
ou esbraveje, sim, esbraveje, e deixe-me escrever, e, mesmo assim, o
fato mesmo  de eu estar escrevendo far com que voc d uma forma a
isso. Voc comear a...
  - A qu?
  - A me dizer o que aconteceu. Como voc morreu e como viveu. -No
espere  milagres, desconcertante estudioso. Eu no morri em Nova York
naquela manh.  Quase morri.
  Ele me deixara ligeiramente curioso, mas eujamais poderia fazer o que
ele  queria. Todavia, ele era honesto, espantosamente honesto, at onde
eu conseguia  avaliar, e portanto sincero.
  -Ah, ento, eu no quis dizer literalmente. Quis dizer que voc
deveria me  contar como foi subir to alto e entrar no sol, e sofrer
tanto, e, como voc  disse,  descobrir em sua dor todas essas
recordaes, esses elos. Conte-me! Conte-me.
  - No se voc pretender fazer uma histria coerente - retruquei
irritado.  Avaliei a reao dele. Eu no o estava incomodando. Ele
queria falar mais.
  - Fazer uma histria coerente? Armand, simplesmente escreverei o que
voc  contar. - Fez suas palavras parecerem simples e no entanto
curiosamente  apaixonadas. - Promete?
  Lancei-lhe um olhar divertido. Eu! Fazer isso. ! Ele sorriu. Embolou o
 vestidinho e largou-o cuidadosamente para que casse no meio da pilha
das roupas velhas da menina.
  - No modificarei uma slaba - disse. - Venha ficar comigo, e fale .
comigo e  seja o meu amor - ele tornou a sorrir.
  De repente, veio em minha direo, mais ou menos com aquela atitude
agressiva com que h pouco eu imaginara abord-lo. Afagou meu cabelo e
sentiu meu rosto e em seguida puxou meu cabelo para cima e encostou o
rosto em minhas  melenas, e riu. Deu-me um beijo no rosto.
  - Seu cabelo parece feito de mbar, como se o mbar pudesse derreter e
ser tirado de chamas de vela em longos fios etreos e deixado secar
assim para  fazertodas essas tranas lustrosas. Voc  doce, com cara de
menino e bonitinho  como uma menina. Por um momento, eu gostaria de ter
podido ver voc vestido de veludo  antigo da maneira como voc era para
ele, para Marius. Gostaria de ter podido  ver por um momento como voc
ficava de meias e gibo cintado bordado com rubis. Olhe  para voc, a
criana gelada. Meu amor nem sequer o afeta. Isso no era verdade.
  Os lbios dele eram quentes, e senti as presas embaixo, senti a
urgncia em  seus dedos apertando subitamente meu crnio. Esse contato
me arrepiou todo, meu  corpo se contraiu, depois estremeceu, e a
sensao foi mais doce do que seria  previsvel. Essa intimidade
solitria me incomodou, incomodou-me o bastante para  transform-la, ou
livrar-me dela completamente. Melhor morrer ou estar longe, no escuro,
simples e solitrio com lgrimas comuns.
  Pelo olhar, achei que ele poderia amar sem dar nada. No um
conhecedor, apenas  um bebedor de sangue.
  - Voc me deixa com fome - sussurrei. - No de voc mas de algum que
esteja  condenado e no entanto vivo. Quero caar. Pare com isso. Por que
me toca? Por  que  tanta delicadeza?
  - Todo mundo o quer - disse ele.
  - Ah, eu sei. Todo mundo destruiria uma criana culpada e esperta!
Todo mundo  teria um garoto risonho que sabe onde pisa. Criana  melhor
para comer do que  mulher, e menina se parece muito com mulher, mas
garotinho? Garotinho no  igual a  homem, ?
  - No zombe de mim. Quis dizer que queria apenas tocar em voc, sentir
como  voc  macio, como  eternamente jovem.
          - Ah, sou eternamente jovem mesmo - respondi. - Voc diz
coisas absurdas para algum assim to bonito. Vou sair. Preciso me
alimentar. E quando tiver terminado, quando estiver saciado e aquecido,
volto aqui para lhe contar tudo o que voc  quiser. - Afastei-me dele,
sentindo arrepios quando ele soltou meu cabelo. Olhei  para ajanela
branca vazia, muito em cima para se ver as rvores. - Eles no
conseguiam ver nada verde aqui, e  primavera l fora, prima- vera do
sul. D  para sentir o cheiro por entre as paredes. Quero enxergar cores
s por um instante.  Matar, beber sangue e ter flores. 
  - No basta. Quero fazer o livro - disse ele. - Quero faz-lo agora e
quero que voc venha comigo. No vou ficar por a  para sempre.
          -Ah, bobagem, claro que vai. Acha que sou um boneco, no? Acha
que sou uma gracinha e feito de cera, e voc fica desde que eu fique.
          - Voc  mauzinho, Armand. Tem cara de anjo e fala como um
bandido  comum.
  - Que arrogncia! Pensei que voc me quisesse. 
  - S em determinados termos.
          - Mentira, David Talbot - repliquei.
          Passei por ele dirigindo-me  escada. As cigarras cantavam na
noite como muitas vezes fazem, a qualquer  hora, em Nova Orleans. Pelas
vidraas da escadaria, vislumbrei as  rvores floridas da primavera, o
pedao de uma trepadeira enroscada na cobertura de uma varanda.  Ele
seguiu. Descemos at o primeiro andar como se fssemos homens normais e
samos pelas faiscantes portas de vidro para a clara Napoleon Avenue com
seu  doce e mido parque verdejante no centro, um parque cheio de flores
cuidadosamente plantadas e de humildes rvores nodosas e envergadas. A
paisagem toda se  movia com os sutis ventos do rio, e uma nvoa mida
danava no ar mas no se  fazia chuva, e folhinhas verdes vinham caindo
leves como cinza. Suave primavera do  sul. At o cu parecia prenhe da
estao, baixando e no entanto corando com  reflexos da claridade,
parindo a nvoa por todos os poros. Um perfume gritante  emanava
dosjardins  esquerda e  direita, das flores- das-quatro-horas, como os
mortais chamam, uma trepadeira parecida com mato, mas infinitamente
doce, e as ris  silvestres em riste como lminas saindo da lama negra,
ptalas roucas  monstruosamente grandes, amassando-se em muros velhos e
degraus de concreto, e, como sempre,  havia rosas, rosas de velhas e
rosas de moas, rosas muito sadias para a noite  tropical, rosas
cobertas de veneno.
  Antigamente havia bondes nesta faixa central relvada. Eu sabia que os
trilhos  corriam por esse gramado verde onde eu caminhava  frente dele,
rumo aos  cortios, ao rio,  morte, ao sangue. Ele vinha atrs de mim.
Eu conseguia andar de olhos  fechados, sem tropear, e ver os bondes.
  - Venha, siga-me - falei, descrevendo o que ele fazia, no o
convidando.
  Quarteires e quarteires em segundos. Ele continuou. Muito forte. O
sangue de  toda uma corte do Vampiro Real corria dentro dele, sem
dvida. Lestat podia criar os  monstros mais letais, isto , aps seus
sedutores equvocos iniciais - Nicolas,  Louis, Claudia -, nenhum dos
trs capaz de cuidar de si mesmo sozinho, e dois morreram,  e um sobrou
e talvez o vampiro mais fraco ainda esteja a circular no grande  mundo.
  Olhei para trs. Seu rosto contrado, escuro e lustroso espantou-me.
Ele  parecia todo envernizado, encerado, polido, e tornei a pensar em
coisas  condimentadas,  amndoas aucaradas e aromas deliciosos,
chocolates ao leite e um gostoso caramelo  escuro, e de repente talvez
fosse bom agarr-lo. Mas essas delcias substituam um mortal podre,
barato, maduro e odorfero. E  adivinhe? Apontei.
  - L.
  Ele olhou para onde mandei. Viu o alinhamento frouxo de prdios
velhos. Havia  mortais por toda a parte espreitando, dormindo, sentados,
jantando,  perambulando,  em meio a escadinhas estreitas, atrs de
paredes descascadas e embaixo de tetos  rachados.
  Eu achara um, perfeito na maldade, uma grande rajada de brasas
odientas , de  malcia e ganncia e desprezo a arder enquanto ele me
aguardava.
  J havamos passado a Magazine Street, mas no estvamos no rio,
apenas quase,  e esta era uma rua que eu no me lembrava nem conhecia de
minhas perambulaes  por essa cidade - a cidade deles, de Louis e
Lestat -, apenas uma rua estreita com  essas casas cor de madeira lavada
ao luar e janelas com cortinas improvisadas, e  na sala estava esse
mortal arrogante atirado na cadeira grudado num aparelho de  televiso e
tomando malte direto de uma garrafa marrom, ignorando as baratas e o
calor pulsante que entrava pela janela, essa coisa feia, suada, imunda e
irresistvel,  essa carne e esse sangue para mim.
  A casa era to infestada de vermes e insetos desprezveis que parecia
apenas  uma concha em volta dele, frgil e quebradia e com todas as
sombras da mesma  cor  como uma floresta. Nenhum padro moderno de
assepsia aqui. At a mobla apodrecia  naquela baguna mida. O mofo
cobria a geladeira branca que rangia. S a cama individual e os trapos
malcheirosos indicavam domesticidade atual.
  Era um ninho apropriado para se encontrar essa caa, esse pssaro
horrendo,  esse suculento e depenvel saco de ossos e sangue de plumagem
pobre.
  Entreabri a porta, o fedor humano subindo como um enxame de mosquitos,
e assim  tirei a porta das dobradias, mas sem muito barulho. Pisei em
jornais espalhados sobre madeira pintada. Cascas de laranja
transformadas em tiras de couro marrom. Baratas correndo. Ele nem ergueu
os  olhos. Sua cara inchada de bbado estava azul e fantasmagrica,
sobrancelhas pretas grossas e  despenteadas, e no entanto ele parecia
bem possivelmente um tanto angelical,  devido  luz da televiso.
  Mexeu na caixinha de plstico mgica em sua mo para fazer os canais
mudarem,  e a luz piscou e tremeu sem nenhum rudo, e a ele deixou o
som aumentar, uma  banda tocando, uma caricatura, gente aplaudindo.
  Rudos ordinrios, imagens ordinrias como o lixo que o cercava. Tudo
bem,  quero voc. Ningum mais quer.
  Ele ergueu os olhos para mim, um garoto invasor, David muito afastado
para que  ele o visse esperando.
  Empurrei o televisor para o lado. O aparelho balanou, caiu no cho e
quebrou- se todo por dentro, como se contivesse uma quantidade de
ampolas de energia, e  agora estilhaos de vidro.
  Uma fria momentnea dominou-o, carregando seu rosto com um
reconhecimento  indolente.
  Ele se levantou, braos abertos, e veio para mim.
  Antes de cravar os dentes, vi que tinha cabelo comprido e emaranhado.
Sujo mas  gostoso. Ele o usava amarrado com um trapo na nuca formando um
rabo farto que  lhe descia pela camisa xadrez.
  Enquanto isso, dentro dele havia uma quantidade de sangue licoroso e
embriagado de cerveja suficiente para dois vampiros, delicioso, feio, e
um  corao enfurecido, lutador, e tanto corpo que estar em cima dele
era a mesma coisa que montar um  touro.
  No meio da refeio, todos os odores tornam-se doces, at os mais
repugnantes.  Achei que morreria calmamente de alegria, como sempre.
  Chupei com fora suficiente para encher a boca, deixando o sangue
rolar na  lngua, para ento encher meu estmago, se  que tenho
estmago, mas sobretudo  para  saciaressa imunda sede gulosa, mas no o
suficiente para imobiliz-lo.
  Ele desfaleceu e lutou, e cometeu a estupidez de puxar meus dedos, e
depois a  temeridade desastrada de tentar encontrar meus olhos.
Cerrei-os e deixei que ele  os apertasse com aqueles polegares
gordurosos. No adiantou. Sou um garoto  invencvel. No se pode cegar
um cego. Eu estava muito cheio de sangue para me importar. Ademais,
estava gostoso. Esses fracos que querem nos arranhar s afagam.
  Sua vida passou como se todo mundo que ele amou estivesse numa
montanha-russa  debaixo de estrelas maravilhosas. Pior do que a pintura
de Van Gogh. Nunca conhecemos a paleta de quem matamos at a mente
expelir suas  melhores cores.
  E ele caiu logo. Acompanhei-o. Eu agora o envolvia todo com o brao
esquerdo,  e deitei como criana em sua barrigona musculosa, e fiquei
sugando o sangue com  as mais contundentes golfadas, transformando tudo
o que ele pensava e via e sentia  s em cor, s quero cor, laranja puro,
e s por um segundo, quando ele morreu -  quando a morte passou por mim,
como uma grande bola de fora negra que acaba no sendo  realmente nada,
nada seno fumaa ou menos ainda que isso -, quando essa morte  entrou
em mim e tornou a sair como o vento, pensei: ao esmagar tudo o que ele
,  estarei privando-o de um conhecimento final?
  Bobagem, Armand. Voc sabe o que os espritos sabem, o que os anjos
sabem. O  filho da me est indo para casa! Para o Paraso. Para o
Paraso que no aceita  voc, e talvez nunca aceite.
  Na morte, ele parecia excelente.
  Sentei ao lado dele. Limpei a boca, no que houvesse alguma gota a ser
limpa.  Os vampiros s bebem sangue em filmes. At o imortal mais reles
 habilidoso  demais para derramar uma gota. Limpei a boca porque o suor
dele me molhava os lbios e  a cara e eu queria sec-lo.
  Fiquei, no entanto, admirado que ele fosse grande e incrivelmente rijo
para  toda aquela aparente circunferncia. Admirei o cabelo preto
grudado em seu peito  molhado onde a camisa inevitavelmente fora
rasgada.
  Seu cabelo preto era algo para se olhar. Arranquei a tira que o
amarrava. Era  um cabelo cheio e grosso como cabelo de mulher.
  Ao certificar-me de que ele estava morto, enrolei seus cabelos na mo
esquerda  no intuito de escalpel-lo.
  David arquejou.
  - Precisa fazer isso?
  - No - respondi.
  Alguns milhares de fios de cabelo j estavam arrancados, cada um
apenas com  sua minscula raiz ensangentada piscando no ar como um
pequeno vagalume. Fiquei  um  instante segurando esse chumao e depois
larguei-o atrs de sua cabea virada.
  Aqueles cabelos desenraizados caram descuidadamente em sua face
spera. Seus  olhos estavam midos e como que despertos, uma gelia
moribunda. David saiu para  a ruela. Carros passavam roncando e
chacoalhando. Um navio no rio cantava como um rgo a vapor.
  Fui atrs dele. Espanei-me para tirar a poeira. Um golpe e eu poderia
ter  feito a casa toda ruir, simplesmente desmoronando em cima daquela
imundcie  ptrida, morrendo suavemente em meio s outras casas para que
ningum dentro  delas aqui sequer soubesse, toda essa madeira molhada
simplesmente desabando.
  Eu no conseguia tirar o gosto nem o cheiro do suor.
  - Por que voc foi to contrrio a eu arrancar o cabelo dele? -
perguntei. -  Eu s queria o cabelo, e ele est morto e no h o que
fazer e ningum mais  sentir falta do cabelo preto dele.
  Ele se virou com um sorriso irnico e me avaliou.
  - Voc me assusta com esse olhar - repliquei. - Ser que
inadvertidamente  mostrei ser um monstro? Voc sabe, minha abenoada
mortal Sybelle, quando no  est tocando a sonata de Beethoven chamada a
Appassionata, fica vendo eu me alimentar. Voc  quer que eu conte minha
histria agora?
  Olhei para o morto ao lado dele, que arqueava o ombro. No parapeito
adiante e  acima dele havia uma garrafa de vidro azul com uma
flor-de-laranjeira dentro.  No  a coisa mais estranha?
  - Quero sua histria, sim - disse David. - Venha, vamos voltarjuntos.
S lhe  pedi para no tirar o cabelo dele por um motivo.
  - ? - perguntei. Olhei para ele. Curiosidade legtima. - Qual foi o
motivo  ento? Eu s ia arrancar o cabelo dele todo e jogar fora.
  - Como arrancar as asas de uma mosca - comentou ele aparentemente sem
criticar.
  - Uma mosca morta - respondi. Sorri descansadamente. - Vamos, por que
essa  onda?
  - Eu queria ver se voc me escutaria - falou. - S isso. Porque, se
escutasse, as coisas poderiam funcionar entre ns. E voc  parou. E
pronto.-Ele se virou e pegou meu brao.
  - No gosto de voc - comentei.
  - Ah, gosta, sim, Armand - retrucou. - Deixe-me escrever a histria.
Ande de  um lado para o outro, grite e esbraveje. Voc est muito
importante e poderoso  agora porque tem esses dois mortaizinhos
esplndidos pendurados em cada gesto seu, e  eles so como aclitos de
um deus. Mas voc quer me contar a histria, voc sabe  que quer. Vamos!
  No consegui conter o riso.
  - Essas tticas j funcionaram para voc? - Agora foi sua vez de rir e
ele  riu, afvel.
  - No, suponho que no - disse. - Mas me deixe colocar a coisa dessa
maneira,  escreva para eles.
  - Para quem?
  - Benji e Sybelle. - Encolheu os ombros.
  - No? No - respondi.
  Escrever a histria para Benji e Sybelle. Minha mente comeou a
correr, para  uma sala alegre e sadia, onde ns trs estaramos reunidos
anos depois eu,  Armand,  imutvel, professor garoto - e Benj i e
Sybelle, mortais na flor da idade, Benji  transformado num cavalheiro
alto e maneiroso com um porte de rabe e o charuto  preferido na mo, um
homem muito promissor, e minha Sybelle, uma mulher curvilnea e
maravilhosamente bem-feita de corpo ento, e uma pianista ainda maior do
que  poderia ser hoje, os cabelos dourados emoldurando um rosto oval de
mulher e lbios femininos  carnudos cheios de entsagang e radiosidade
secreta. Poderia eu ditar a histria neste quarto e lhes dar o livro?
Este livro ditado  para David Talbot? Poderia eu, ao libert-los de meu
mundo alqumico, lhes dar  este livro? Vo em frente, meus filhos, com
toda a riqueza e orientao que lhes... Sim, disse minha alma. No
entanto, virei-me e arranquei o escalpo de cabelo  preto de minha vtima
e pisei nele com um p de Rumpelstiltskin.
  David permaneceu impassvel. Os ingleses so educadssimos.
  - Muito bem - retruquei. - Eu lhe conto a minha histria.
  Os aposentos dele eram no segundo andar, perto de onde eu parara no
alto da  escada. Que diferena daquelas galerias despidas e sem
calefao! Ele havia  construdo uma biblioteca para ele com mesas e
cadeiras. Havia uma cama de lato ali, seca  e limpa.
  - Estes so os aposentos dela - disse ele. - Voc no lembra?
  - Dora - falei.
  Senti o perfume dela de repente. Ora, o perfume me envolvia todo. Mas
todos os  seus objetos pessoais tinham desaparecido. Estes eram os
livros dele, tinham de ser. Eram novos exploradores espirituais- Dannion
Brinkley, Hilarion, Melvin Morse, Brian Weiss, Matthew Fox, o livro de
Urantia. Somem-se a isso textos antigos - Cassiodoro, Santa Teresa de
vila, Gregrio de  Tours, o Veda, o Talmude, a Tor, o Kama-Sutra-,
todos no original. Ele tinha  alguns romances, algumas peas e alguma
poesia desconhecidos.
  - Sim - ele sentou-se  mesa. - Eu no preciso de luz. Voc quer?
  - No sei o que lhe dizer.
  - Ah - ele sacou sua caneta mecnica. Abriu um caderno de papel
impressionantemente branco, pautado de finas linhas verdes. - Voc
saber o que  me dizer. - Olhou para mim.
  Fiquei me abraando, por assim dizer, deixando a cabea pender como se
fosse  cair e eu fosse morrer. Meus cabelos longos estavam soltos.
Pensei em Sybelle e Benjamin, minha garota calma e meu garoto
exuberante.
  - Voc gostou deles, David, de meus filhos? - perguntei.
  - Gostei, desde o instante em que os vi, quando voc os trouxe. Todo
mundo  gostou. Todo mundo olhou com amor e respeito para eles. Que
porte, que encanto.  Acho  que todos sonhamos com confidentes desse
tipo, fiis companheiros mortais de uma  graa irresistvel, que no
sejam gritantemente loucos. Eles amam voc, e no  entanto no esto
apavorados nem extasiados.
  Fiquei imvel. Calado. Fechei os olhos. Ouv em meu corao a marcha
rpida e  vigorosa da Appassionata, aquelas ondas de msica retumbantes
e incandescentes,  cheias de vibraes metlicas,Appassionata. S que
estava em minha cabea. Nada de  Sybelle dourada de pernas compridas.
  - Acenda as velas que tiver- falei timidamente. - Quer fazer isso para
mim? Seria gostoso ter muitas velas e, olhe, a renda de  Dora est
pendurada nas janelas, lavada e cheirosa. Sou um apreciador de renda,
esta  de Bruxelas, ou alguma muito  parecida, sim, sou louco por renda.
  - Claro, vou acender as velas - disse ele.
  Eu estava de costas para ele. Ouvi o delicioso e seco crepitar de um
pequeno  fsforo de madeira. Senti o cheiro que exalou ao queimar, e em
seguida veio a fragrncia lquida do pavio que se inclinou e se
enroscou, e a luz subiu, encontrando as tbuas de cipreste do teto de
madeira listrado l em cima. Outro estalo, outra srie de doces
ruidozinhos crepitantes, e a claridade aumentou e se derramou sobre mim
e caiu quase brilhando pela parede escura.
  - Por que voc fez isso, Armand? - perguntou ele. - Ah, o Vu tem o
Cristo estampado, de alguma forma, sem dvida, parecia mesmo ser o Santo
Vu de Vernica e,  Deus sabe, milhares de outros acreditam nisso, sim,
mas por que em seu caso, por qu?  O Vu era resplandecentemente lindo,
sim, concedo-lhe isto, Cristo com Seus  espinhos e Seu sangue, e Seus
olhos fixos em ns, ns dois, mas por que acredita nisso  to
completamente, Armand, depois de tanto tempo? Por que foi para Ele? Foi
isso  que tentou fazer, no?
  Balancei a cabea negativamente. Falei num tom suave e splice.
  - Para trs, professor - repliquei, virando-me bem devagar. - Ateno
 sua  pgina. Isso  para voc, e para Syblle. Ah,  para meu pequeno
Benji tambm.  Mas  de certa forma,  minha sinfonia para Sybelle. A
histria comea h muito tempo.  Talvez eu nunca me tenha dado conta
realmente h quanto, at esse exato momento.  Voc ouve e escreve. Deixe
que eu seja aquele que grita e esbraveja.

- 2 -

  Olho para minhas mos. Penso na expresso "feito no por mos
humanas". Sei o  que isso significa, embora toda vez em que escutei a
expresso dita com emoo  tinha a ver com o que sara de minhas mos.
  Gostaria de pintar agora, pegar um pincel e experimentar do jeito que
experimentei ento, em transe, furiosamente, de uma vez s, cada linha e
massa  de cor, cada mistura, cada deciso defnitiva.
  Ah, estou muito desorganizado, muito intimidado pelo que recordo.
Deixe-me  escolher um lugar para comear. Constantinopla-recm-dominada
pelos turcos, com  isso  quero dizer uma cidade muulmana h menos de um
sculo quando para l fui levado, um garoto  escravo, capturado nas
terras selvagens de seu pas para o qual ele mal sabia o  nome adequado:
a Horda Dourada.
  A memria j foi arrancada de mim, junto com a linguagem ou qualquer
capacidade de raciocinar de forma consistente. Lembro-me dos quartos
srdidos  que devem terexistido em Constantinopla porque outras pessoas
falavam, e, pela primeira vez, desde que  eu havia sido arrancado do que
eu no conseguia lembrar, pude entender o que as pessoas diziam.
  Falavam grego, claro, esses comerciantes que negociavam com escravos
para  bordis da Europa. No conheciam nenhuma fidelidade religiosa, que
era s o que  eu conhecia, infelizmente, sem detalhes.
  Fui atirado num grosso tapete turco, a cobertura decorativa que se via
num  palcio, um tapete para exibir mercadorias caras.
  Meu cabelo era comprido e estava molhado; algum o escovara a ponto de
me  machucar. Todos os meus pertences foram arrancados de mim e de minha
memria. Eu  estava nu por baixo de uma tnica velha e esgarada de
tecido dourado. A sala era  quente e mida. Tinha fome, mas, sem
esperana de comer, sabia que essa era uma  dor que apertava e depois ia
embora sozinha. A tnica deve ter me dado um esplendor de  coisa
descartada, o brilho fraco de um anjo cado. Tinha mangas em forma de
sino  compridas e me batia nos joelhos.
  Quando fiquei em p, descalo, evidentemente, vi esses homens e soube
o que  eles queriam, que isso era um vcio e uma coisa desprezvel, e
seu preo era o  Inferno. Imprecaes de velhos desaparecidos ecoavam em
meus ouvidos: bonito demais, mole  demais, plido demais, olhos cheios
demais do Diabo, ah, o sorriso diablico.
  Quo concentrados estavam estes homens na discusso, na barganha. Como
me  olhavam sem jamais me olhar nos olhos.
  De repente, ri. As coisas estavam sendo feitas com muita pressa.
Aqueles que  me entregaram me haviam abandonado. Aqueles que me
esfregaram nunca saram das  banheiras.
  Eu era uma trouxa atirada no tapete.
  Por um instante, veio-me uma noo de minha pessoa como j tendo sido
algum  de lngua afiada, cnico e profundamente cnscio da natureza dos
homens em  geral.  Ri porque aqueles mercadores pensaram que eu fosse
uma menina.
  Esperei, escutando, captando esses pedacinhos de conversa.
  Estvamos numa sala ampla, com um teto baixo em baldaquim, em cuja
seda havia  espelhinhos aplicados e os arabescos de que os turcos tanto
gostavam, e as  lmpadas, embora fumarentas, eram perfumadas e soltavam
uma fuligem escura e nebulosa que  me ardia nos olhos.
  Os homens com aqueles turbantes e aquelas tnicas cintadas no me eram
mais  estranhos do que a lngua. Mas eu captava muito pouco do que eles
falavam. Meus  olhos procuravam uma sada. No havia nenhuma. Havia
homens pesados e mal-encarados  postados prximo s entradas. Um homem
mais afastado sentado a uma mesa usava um  baco para contar. Ele tinha
pilhas e pilhas de moedas de ouro. Um dos homens, alto e magro, s mas
do rosto e mandbulas, com os dentes  podres, veio em minha direo e
sentiu meus ombros e meu pescoo. Depois  levantou a tnica. Fiquei
imvel, no furioso nem conscientemente com medo, apenas paralisado.
Essa  era a terra dos turcos, e eu sabia o que eles faziam com garotos.
S que eu  nunca vira um quadro nem ouvira uma histria real dessa
terra, nem conhecera ningum  que tivesse vivido realmente nela,
penetrado nela e voltado para casa.
  Casa. Decerto devo ter desejado esquecer quem eu era. Devo ter. A
vergonha  provavelmente tornou isso uma imposio. Mas naquele momento,
naquela sala que  parecia uma tenda com seu tapete florido, entre os
mercadores e negociantes de escravos,  eu me esforava para lembrar,
como se, ao descobrir em mim um mapa, eu pudesse  segui-lo para sair
dali e voltar a meu lugar.
  Eu realmente me lembrava das pradarias, das terras selvagens, terras
aonde no  se vai, a no ser para... Mas aquilo era um branco. Eu havia
estado nas  pradarias, desafiando a sorte, estupidamente mas no contra
a vontade. Transportava algo extremamente importante. Apeei do cavalo,
desamarrei aquela  grande trouxa do arreio de couro e corri agarrado 
trouxa.
  - As rvores! - gritou, mas quem era ele?
  Eu sabia, porm, o que ele estava dizendo, que eu precisava chegar ao
bosque e  l pr este tesouro, esta coisa mgica e esplndida que estava
dentro da trouxa,  "feita no por mos humanas".
  No cheguei to longe. Quando me agarraram, larguei a trouxa e eles
nem sequer  foram atrs dela, pelo menos que eu tenha visto. Pensei, ao
ser suspenso no ar:  isso no  para ser encontrado assim, embrulhado em
pano dessejeito. Tem de ser  colocado nas rvores.
  Eles devem ter me estuprado no barco porque no me lembro de ir para
Constantinopla. No me lembro de sentir fome, frio, indignao ou medo.
Agora  aqui, pela primeira vez, conheci as particularidades do estupro,
a graxa ftida, as discusses, as imprecaes por causa da "runa do
cordeiro".  Senti uma impotncia monstruosa e insuportvel.
  Homens abominveis, homens contra Deus e contra a natureza.
  Rugi como um animal para o mercador de turbante, e ele me deu um forte
tapa no  ouv ido que me derrubou. Fiquei cado no cho olhando para ele
com todo o desdm  que podia expressar. No me levantei, nem quando ele
me chutou. Eu no iria falar.
  Jogado em seus ombros, fui carregado dali por um ptio apinhado, e,
depois de  passar por camelos ejumentos ftidos e montes de sujeira,
pelo porto onde os  navios aguardavam e pela plataforma de embarque, fui
posto no poro do navio.
  Era outra imundcie, o cheiro de haxixe, o corre-corre dos ratos a
bordo. Fui  atirado num catre de pano. De novo, procurei a sada e s vi
a escada por onde  havamos descido e ouvi muitos homens tagarelando l
em cima.
  Ainda estava escuro quando o navio zarpou. Uma hora depois, eu estava
to  enjoado que s queria morrer. Encolhi-me no cho e fiquei o mais
imvel  possvel, escondendo-me inteiramente embaixo do tecido macio
daquela tnica velha. Dormi o mximo que  pude.
  Quando acordei, havia um velho ali. Ele usava outro tipo de traje,
menos  assustador para mim que o dos turcos de turbante, e tinha um
olhar bondoso.  Abaixou-se  perto de mim. Falava uma lngua de uma
maciez e uma doura incomuns, mas eu no  conseguia entend-lo.
  Uma voz lhe disse em grego que eu era mudo, no tinha inteligncia e
rosnava como um animal.
  Hora de rir de novo, mas eu estava enjoado demais.
  O mesmo grego disse ao velho que eu no havia sido quebrado nem
ferido.
  Fui marcado com um preo alto.
  O velho fez uns gestos de recusa ao abanar a cabea negativamente e
dizer umas  frases cantadas na nova lngua. Segurou-me e, delicadamente,
me fez ficar em p. Levou-me para uma pequena cabine, toda forrada de
seda vermelha. Passei a viagem  toda nesta cabine, com exceo de uma
noite.
  Nesta noite - e no consigo situ-la em termos da viagem - acordei, e,
 encontrando deitado a meu lado esse velho que nunca me tocava seno
para afagar- me e consolar-me, subi a escada e sa para o convs,
ficando um bom tempo a contemplar as  estrelas.
  Estvamos ancorados num porto, e uma cidade de prdios escuros
azulados, tetos  abobadados e torres de sino despenhava pelas falsias
at o porto onde os  archotes viravam embaixo dos arcos ornamentados de
uma arcada.
  Tudo isso, o litoral civilizado, parecia-me provvel, atraente, mas
no me  ocorreu que eu pudesse pular do navio e me libertar. Homens
perambulavam embaixo  dos  arcos. Embaixo do mais prximo de mim, um
homem com um traje estranho e um capacete  reluzente, uma grande espada
larga pendurada na cinta, montava guarda encostado  na ornamentada
coluna bifurcada, maravilhosamente esculpida para parecer uma rvore a
sustentar  o claustro, como o vestgio de um palcio para dentro do qual
este canal para navios houvesse sido toscamente aberto.
  No olhei para a costa muito depois deste primeiro longo e memorvel
vislumbre. Olhei para o cu e sua corte de criaturas mticas para sempre
fixas  nas estrelas todo-poderosas e inescrutveis. Negra era a noite
alm dessas estrelas, to  iguais ajias que velhos poemas me voltaram 
mente, at o som de hinos cantados  s por homens.
  Segundo me lembro, horas se passaram antes que me pegassem, me
batessem  violentamente com um chicote de couro e me arrastassem
novamente para o poro.  Eu sabia  que a surra terminaria quando o velho
me visse. Ele ficou furioso e trmulo.  Abraou-me, e tornamos a nos
deitar. Ele era velho demais para pedir alguma  coisa de mim.
  Eu no o amava. Estava claro para o estpido mudo que esse homem o
considerava  algo muito valioso, a ser conservado para a venda. Mas eu
precisava dele e ele  me enxugava as lgrimas. Eu dormia o quanto podia.
Enjoava sempre que o mar se  encrespava. s vezes o calor bastava para
me enjoar. Eu no sabia o que era  calor de verdade. O homem me
alimentava to bem que s vezes eu achava que ele estava me  engordando
como a um bezerro para ser vendido pela carne.
  Quando chegamos a Veneza, j entardecia. Eu no tinha idia da beleza
da  Itlia. Estava isolado l embaixo naquele poro srdido com o velho
carcereiro,  e, ao  ser levado  cidade, vi logo que minhas suspeitas
sobre o velho carcereiro estavam  absolutamente corretas.
  Numa sala escura, comeou uma discusso feia entre ele e outro homem.
Nada  poderia me fazer falar. Nada poderia me fazer indicar que eu
estivesse  entendendo alguma coisa que acontecia comigo. No entanto eu
estava, sim. Dinheiro trocou de mo. O  velho saiu sem olhar para trs.
  Tentaram ensinar-me coisas. A nova lngua macia e acariciante me
envolvia.  Garotos chegaram, sentaram-se a meu lado, tentaram me
persuadir com beijos e  abraos. Beliscavam meus mamilos e tentavam
tocar as partes secretas que eu aprendera a  nem sequer olhar por causa
da triste oportunidade de pecado.
  Muitas vezes, resolvi rezar. Mas descobri que no lembrava das
palavras. At  as imagens eram indistintas. Apagaram-se para sempre as
luzes que me haviam  guiado  pela vida afora. Cada vez que eu ficava
absorto em meus pensamentos, algum me batia  ou me puxava o cabelo.
  Eles sempre vinham com ungentos depois de me baterem. Tinham o
cuidado de  tratar da pele esfolada. Uma vez, quando um homem me deu um
tapa na cara, outro  gritou e agarrou-lhe a mo no ar antes que ele
acertasse o segundo golpe.
  Eu recusava comida e bebida. Eles no conseguiam me fazer aceitar nem
uma  coisa nem outra. Eu no conseguia. No escolhi morrer de fome.
Simplesmente no  podia  fazer nada para me manter vivo. Sabia que
estava indo para casa. Estava indo para  casa. Eu morreria e iria para
casa. Seria uma passagem terrvel e dolorosa. Eu  choraria se estivesse
sozinho. Mas nunca estava. Teria de morrer na frente das pessoas.  H
uma eternidade eu no via a luz do dia. At as lmpadas feriam-me os
olhos  pelo fato de eu estar tanto no escuro. Mas sempre havia gente
ali.
  A lmpada ficaria mais clara. Eles sentaram num crculo em volta de
mim com  carinhas encardidas e mos rpidas que pareciam patas afastando
meu cabelo do  rosto  e me sacudindo pelos ombros. Virei-me para a
parede.
  Um rudo me fazia companhia. Este seria o fim de minha vida. O rudo
era o da  gua l fora. Ouvia-se a gua batendo no muro. Eu sabia quando
um barco passava  e  ouvia as pilastras de madeira rangendo, e pousava a
cabea na pedra e sentia a casa  balanar na gua como se no a
tivssemos a nosso lado mas sim estivssemos  plantados nela, o que
obviamente estvamos.
  Uma vez sonhei com minha casa, mas no lembro como era o lugar.
Acordei,  gritei e ouvi uma saraivada de saudaes das sombras, vozes
lisonjeiras,  sentimentais. Pensei que desejasse ficar sozinho. No
desejava. Quando me  trancaram quatro dias e quatro noites num quarto
escuro sem po nem gua, comecei a gritar  e a bater nas paredes.
Ningum apareceu. Depois de algum tempo, ca num estupor. Quando a porta
se abriu, foi com um  tranco violento. Sentei-me, cobrindo os olhos. A
lmpada era uma ameaa. Minha  cabea latejava. Mas senti um perfume
suave e insinuante, um misto de cheiro de lenha doce  ardendo no inverno
quando neva, de flores esmagadas e de leo pungente. Senti algo duro me
tocando, algo de madeira ou lato, mas que se mexia como se  fosse
orgnico. Afinal, abri os olhos e vi que um homem me abraava, e aquelas
coisas inumanas, que pareciam de pedra ou lato, eram seus dedos
brancos, e ele me  olhou com vidos e meigos olhos azuis.
  - Amadeo - ele disse.
  Ele estava todo vestido de veludo vermelho e era deslumbrantemente
alto. O  cabelo louro, repartido ao meio  moda dos santos, vinha
escorrido at os ombros  e cascateava sobre o manto em cachos
reluzentes. Tinha uma testa lisa sem nenhuma ruga, e  sobrancelhas altas
e retas de um dourado suficientemente escuro para lhe dar uma  expresso
transparente e determinada. As pestanas reviradas pareciam fios de ouro
a sair- lhe das plpebras. E, quando sorria, seus lbios se injetavam
subitamente com  uma cor plida que realava ainda mais seu contorno
cheio e bem cuidado.
  Eu o conhecia. Falei com ele. Jamais poderia ter visto tais milagres
no rosto  de qualquer outra pessoa.
  Ele me sorriu com uma expresso muito boa. Tinha o lbio superior e o
queixo  glabros. Eu no conseguia ver nenhum plo nele, e seu nariz era
fino e delicado  embora suficientemente grande para ser proporcional aos
outros traos magnticos de seu  rosto.
  - No o Cristo, meu filho - disse ele. - Mas algum que vem com sua
prpria  salvao. Venha para meus braos.
  -Estou morrendo, Mestre.-Qual era a minha lngua? Mesmo agora, no sei
dizer  qual era. Mas ele me entendeu.
  -No, criana, voc no est morrendo. Voc agora vai ficar sob a
minha  proteo, e talvez, se as estrelas estiverem conosco, se elas
forem bondosas  conosco, voc no morrajamais.
  - Mas voc  o Cristo, eu o conheo!
  Ele sacudiu a cabea negando, e, da forma mais humana, baixou os olhos
ao  fazer isso e sorriu. Seus lbios generosos se abriram e s vi os
dentes brancos  de um  humano. Ele me levantou pelas axilas e beijou
minha garganta, e arrepieime tanto que  fiquei paralisado. Fechei os
olhos e senti seus dedos sobre eles, e ouvi-o dizer  em meu ouvido:
  - Durma enquanto o levo para casa.
  Quando acordei, estvamos numa enorme banheira. Nenhum veneziano
jamais  possuiu banheira como essa, posso dizer isso agora depois de
tudo o que vi, mas  o que sabia eu das convenes desse lugar? Este era
um palcio de verdade. Eu j vira  palcios.
  Desvencilhei-me do pano de veludo em que eu estava deitado - a capa
vermelha  dele, se no me engano-e vi um grande leito guarnecido de
cortinas  minha  direita  e, mais adiante, a banheira propriamente
dita, funda e oval. De uma concha  sustentada por anjos a guajorrava
para dentro da banheira, o vapor subia dessa  grande superfcie e, no
vapor, estava meu Mestre. Seu peito branco estava nu e os mamilos eram
rosados. Seu cabelo, afastado da testa lisa e reta, parecia ainda mais
grosso,  lindo e esplendorosamente louro do que antes.
  Ele me chamou com um gesto.
  Fiquei com medo da gua. Ajoelhei na borda e enfiei a mo ali dentro.
Com uma  velocidade e uma graa espantosas, ele me pegou e me levou para
dentro da  piscina  morna, empurrando-me at a gua cobrir meus ombros e
depois inclinando minha cabea  para trs.
  Tornei a olhar para ele. L em cima, o teto azul-celeste estava
coberto de  anjos espantosamente vivos com enormes asas de penas
brancas. Eu jamais vira  anjos assim to encaracolados e
resplandecentes, pulando daquelejeito, sem qualquer  restrio ou
elegncia, para exibir sua beleza humana em membros musculosos e  vestes
fluidas, em cachos esvoaantes. Aquilo parecia um tanto louco, essas
figuras robustas e  travessas, essa orgia de brincadeiras celestiais l
em cima, para onde subia  aquele vapor transformando-se em luz dourada.
  Olhei para meu Mestre. Seu rosto estava bem  minha frente. Beije-me
de novo,  sim, faa aquilo, o arrepio, beijo... Mas ele era da mesma
espcie que aqueles  seres pintados, era um deles, e isso alguma forma
de paraso gentio, um lugar pago de  deuses de soldados onde tudo 
vinho, fruta e carne. Eu chegara ao lugar errado.
  Ele jogou a cabea para trs. Soltou uma risada sonora. Tornou a pegar
um  punhado de gua que derramou em meu peito. Abriu a boca e, por um
instante,  vislumbrei algo muito errado e perigoso, dentes que pareciam
de lobo. Mas os dentes  desapareceram, e apenas os seus lbios me
chuparam a garganta, depois o ombro. S os seus lbios chupavam o mamilo
quando tentei cobri-lo tarde demais.
  Gemi com tudo isso. Abandonei-me a ele dntro daquela gua morna, e
seus  lbios foram do meu peito  minha barriga. Ele chupava a pele
suavemente como se  estivesse tirando dela o sal e o calor, e at sua
testa roando-me o ombro enchia-me de censes excitantes. Passei o
brao em volta dele e, quando ele descobriu o  pecado propriamente dito,
senti esse pecado explodir, como uma besta disparando uma  flecha. Senti
partir essa flecha, essa estocada, e gritei.
  Elemedeixouficardeitado poralguns instantes encostado aele. Banhou-me
lentamente. Tinha um pano macio com o qual me enxugou o rosto. Molhou-me
a  cabea para lavar meu cabelo.
  Ento, quando achou que eu j havia descansado o suficiente, recomeou
com os  beijos.
  Antes do amanhecer, acordei no travesseiro dele. Sentei na cama e vi-o
 vestindo aquela grande capa e cobrindo a cabea. O quarto estava
novamente cheio  de garotos, mas estes no eram os tristes e descarnados
tutores do bordel. Esses garotos ali  em volta da cama eram
bem-apessoados, bem alimentados sorridentes e meigos.
  Vestiam tnicas de cores vivas, cuidadosamente plissadas e usadas com
cintos  apertados que lhes davam uma graa feminina. Todos tinham
cabelos compridos e  viosos.
  Meu Mestre olhou para mim, e, numa lngua que eu conhecia, sabia
perfeitamente, disse que eu era seu filho nico, e que ele ainda
voltaria  naquela noite, e ento eu j teria visto um novo mundo.
  - Um novo mundo! - exclamei. - No, no me deixe, Mestre. No quero o
mundo  inteiro. Quero voc!
  - Amadeo - disse ele em sua lngua particular de confiana, debruando
na  cama, o cabelo agora seco e lindamente escovado, as mos macias com
talco. -  Voc me  tem para sempre. Deixe os garotos lhe darem de comer
e vesti-lo. Voc pertence a mim,  Marius Romanus, agora.
  Virei-me para eles e dei-lhes as ordens naquela lngua macia e
cantada. E,  pelo ar alegre que demonstravam, parecia que ele lhes dera
doces e ouro. - Amadeo, Amadeo-cantavam eles enquanto me rodeavam.
Seguraram-me para que eu no pudesse seguir Marius. Falavam comigo num
grego fluente e corrido, e  essa lngua para mim no era to fcil. Mas
eu entendia.
  Venha conosco, voc  um de ns, precisamos ser bons com voc,
precisamos ser  especialmente bons com voc. Eles me vestiram
apressadamente com roupas usadas,  discutindo entre si sobre minha
tnica (estaria  altura?), e essas meias desbotadas, bem,  eram s para
agora! Calce os chinelos; tome, um palet que ficava apertado em
Riccardo. Aquelas roupas pareciam de rei.
  -Ns o amamos-disse Albinus, o mais importante abaixo de Riccardo ,
contrastando dramaticamente com o moreno Riccardo, pelos cabelos louros
e olhos  verdes-claros.
  Os outros meninos eu no conseguia diferenciar direito, mas esses dois
eram  fceis de observar.
    - Sim, ns o amamos - disse Riccardo, afastando o cabelo para trs e
 piscando para mim.
  Tinha a pele mais lisa e escura que a dos outros e olhos ferozmente
pretos.  Segurou minha mo e vi seus dedos esguios. Todos aqui tinham
dedos finos. Tinham  dedos iguais aos meus, e os meus, no meio dos de
meus irmos, eram incomuns. Mas eu  no podia pensar nisso.
  Uma hiptese fantstica ocorreu-me, a de que eu, o plido, o que fazia
toda a  confuso, o que tinha dedos finos, havia sido raptado para a
terra boa que era o  meu lugar. Mas essa hiptese era fabulosa demais
para ser digna de crdito.
  Minha cabea doa. Vi lampejos mudos dos cavaleiros atarracados que me
 capturaram, do ftido poro do navio no qual fui trazido para
Constantinopla,  lampejos de macilentos homens ocupados, discutindo ao
me levarem para l.
  Santo Deus, por que algum me amava? Para qu? Marius Romanus, por que
voc me  ama?
  O Mestre sorriu ao acenar da porta. O capuz lhe envolvia a cabea, uma
moldura  rubra para suas belas mas do rosto e seus lbios carnudos.
Meus olhos ficaram rasos d'gua.
  Uma nvoa branca envolvia o Mestre quando a porta se fechou atrs
dele. A  noite estava acabando. Mas as velas ainda ardiam.
  Entramos num salo, e vi que estava cheio de pinturas, potes de tinta
e  pincis em jarros de barro prontos para serem usados. Grandes
quadrados de  tecido - tela - aguardavam a pintura.
    Esses garotos no preparavam suas tintas com gema de ovo como se
fazia na  poca. Misturavam os vivos pigmentos pulverizados diretamente
com os leos cor  de mbar.
  Grandes pores de tinta brilhante me aguardavam em pequenos potes.
Peguei o  pincel quando me deram. Olhei para o pano branco esticado no
qual eu devia  pintar.
  - No de mos humanas - disse eu.
  Mas o que significavam essas palavras? Ergui o pincel e comecei a
pintar esse  homem louro que me resgatara da escurido e da misria.
Joguei a mo com o  pincel, molhando as cerdas nosjarros de tinta creme,
rosa e branca e chapando essas  cores na tela curiosamente resiliente.
Mas no conseguia fazer um quadro. Nada  aparecia!
  - No por mos humanas! - murmurei. Larguei o pincel. Cobri o rosto
com as mos.
  Procurei as palavras em grego. Quando as disse, vrios rapazes
balanaram  afirmativamente a cabea, mas no captaram o significado.
Como poderia eu  explicar-lhes a catstrofe? Olhei para meus dedos. O
que acontecera com... A todas as  lembranas se apagaram e de repente
fiquei com Amadeo.
  -No consigo pintar. - Eu fitava a tela, a confuso de tintas. -Talvez
se  fosse madeira, e no tecido, eu conseguisse.
  O que eu poderia fazer? Eles no compreendiam.
  Ele no era o Senhor Vivo, meu Mestre, o louro, o louro de olhos azuis
 glaciais.
  Mas era o meu Senhor. E eu no conseguia fazer aqui lo que era para
ser feito.  Para me reconfortar, para me distrair, os rapazes pegaram
seus pincis e logo me  deixaram espantados com pinturas que fluam
naturalmente de suas pinceladas rpidas.
  Um rosto de garoto, mas do rosto, boca, olhos, sim, e uma farta
cabeleira de  um tom acobreado. Meu Deus, era eu... aquilo no era uma
tela e sim um espelho.  Eu era esse Amadeo. Riccardo pegou o pincel para
refinar a expresso, para dar  profundidade aos olhos e criar uma
feitiaria na lngua de modo a parecer que eu  estava quase falando. Que
mgica violenta era essa que fazia um rapaz surgir do nada,  com a maior
naturalidade, num ngulo descontrado, de cenho franzido e melenas
revoltas a cobrir-lhe a orelha?
  Parecia ao mesmo tempo linda e irreverente essa figura sensual, fluida
e  abandonada.
  Riccardo ia soletrando em grego o que escrevia. Ento, largou o
pincel.  Exclamou:
  - Um retrato muito diferente  o que nosso Mestre tem em mente. -
Pegou os  desenhos.
  Eles me levaram pela casa, o palazzo, como diziam, ensinando-me a
palavra com  prazer.
  A casa inteira era cheia dessas pinturas-nas paredes, nos tetos, em
painis e  telas empilhados-, quadros enormes cheios de edificaes em
runas, colunas  quebradas, vegetao exuberante, montanhas distantes e
um interminvel fluxo de gente  corada, os cabelos viosos e as roupas
deslumbrantes sempre amassadas e  panejando ao vento. Era como as
grandes bandejas de frutas e carnes que eles traziam e colocavam 
minha frente. Uma desordem louca, uma fartura pela fartura, um grande
banho de  cores e formas. Era como o vinho, doce e leve demais.
  Era como a cidade l embaixo quando eles abriam asjanelas, e vi os
pequenos  barquinhos pretos - gndolas, at naquela hora - ao sol
resplandecente,  navegando pelas guas esverdeadas, quando vi os homens
com suas suntuosas capas escarlates ou  douradas caminhando com passo
apressado pelo cais.
  Acotovelamo-nos em nossas gndolas, um bando de ns, e de repente
passeamos  num silncio gracioso e rpido por entre aquelas fachadas,
cada casaro  imponente como uma catedral, com seus arcos estreitos e
pontiagudos, suasjanelas em forma de  ltus, seu revestimento reluzente
de pedra branca. At as residncias mais antigas e mais tristes, no to
ornadas mas assim mesmo  de tamanho descomunal, eram pintadas de cor, um
rosa to fechado que parecia  resultar de ptalas esmagadas, um verde
to denso que parecia ter sido mlsturado com  aquela prpria gua turva.
  Samos na praa de So Marcos, em meio quelas longas arcadas
fantasticamente  regulares de ambos os lados.
  Achei que aquele era o prprio ponto de encontro do Paraso enquanto
eu  contemplava as centenas de pessoas perambulando diante dos domos
dourados da  igreja ao  longe.
  Domos dourados. Domos dourados.
  Uma histria antiga sobre domos dourados me havia sido contada, e eu
os vira  numa pintura sombria, no? Domos sagrados, domos perdidos,
domos em chamas, uma  igreja violada, como eu havia sido violado. Ah,
runa, no havia mais runa, arrasada  pela sbita erupo  minha volta
do que era vital e sadio! Como tudo isso havia  nascido de cinzas
invernais? Como eu havia morrido no meio da neve e dos incndios e
ressurgira aqui embaixo desse sol acariciante?
  Sua luz doce e clida banhava mendigos e comerciantes; iluminava
prncipes  passando com pajens que lhes seguravam as pomposas caudas de
veludo, os  livreiros que espalhavam seus livros embaixo de toldos
escarlates, tocadores de alade que  disputavam uns trocados.
  Os produtos do vasto mundo diablico eram exibidos nas lojas e
barracas do  mercado-objetos em vidro como eu nunca havia visto,
incluindo taas de todas as  cores possveis, sem falar nas pequenas
figuras que incluam animais e seres humanos e  outras miudezas
transparentes. Havia contas de rosrio maravilhosamente  brilhantes e
bem torneadas; rendas de padres suntuosos e graciosos, incluindo at
reprodues em branco de torres de igrejas e casinhas com portas
ejanelas;  grandes plumas de pssaros cujo nome eu desconhecia; outras
espcies exticas batend asas e  guinchando em gaiolas douradas; e os
mais finos e ricamente trabalhadostapetes  coloridos, s que lembravam
demais os poderosos turcos e sua capital de onde eu viera. No  entanto,
quem resiste a esses tapetes? Proibidos por lei de representar o ser
humano, os muulmanos representavam flores, arabescos labirnticos e
outros desenhos  semelhantes com cores vivas e uma exatido assombrosa.
Havia leos para  lmpadas, velas, crios, incenso, e grandes exposies
dejias de indescritvel beleza e o  delicadssimo trabalho de ourives e
prateiros, em chapa e em peas ornamentais  antigas e recm-feitas.
Havia lojas que s vendiam especiarias; havia lojas que vendiam
medicamentos e remdios; havia esttuas de bronze, cabeas de leo,
lanternas e  armas. Havia mercadores de tecidos com as sedas do Oriente,
as mais finas ls tingidas  de tons incrveis, algodo e linho e
bordados finssimos e uma profuso de  fitas.
  Os homens e as mulheres aqui pareciam riqussimos, banqueteando-se
displicentemente com tortas de carne fresca em casas de pasto, bebendo
vinho  tinto e comendo  bolos cheios de creme.
  Havia livreiros oferecendo os novos livros impressos, dos quais os
outros  aprendizes me falaram com entusiasmo, explicando a maravilhosa
inveno da  imprensa,  que s recentemente tornara possvel aos homens
adquirir no apenas livros com  palavras e letras mas tambm com
desenhos.
  Venezajtivera dezenas de pequenas grficas onde as impressoras
trabalhavam  com afinco produzindo livros em grego bem como em latim, e
na lngua verncula -  a  suave lngua cantada - que os aprendizes
falavam entre si.
  Eles me deixaram parar liara encher os olhos com essas maravilhas, as
mquinas  que faziam pginas de livros.
  Mas eles tinham suas tarefas, sim, Riccardo e os outros tinham de
pegar  estampas e gravuras dos pintores alemes para nosso Mestre,
pinturas feitas  pelas novas  impressoras de antigas maravilhas de
Memling, Van Eyck ou Hieronymus Bosch. Nosso Mestre  estava sempre
interessado nelas. Estas gravuras trouxeram o norte para o sul.  Nosso
Mestre era um campeo de milagres como esse. Nosso Mestre estava feliz
porque  havia mais de cem impressoras em nossa cidade, porque podia
jogar fora seus  exemplares imprecisos de Lvio e Virglio e agora ter
novos textos impressos corrigidos.
  Ah, era muita informao.
  E no menos importante do que a literatura ou as pinturas do universo
era a  questo de minhas roupas. Tnhamos de fazer os alfaiates pararem
tudo para me  vestir adequadamente segundo os pequenos desenhos que meu
Mestre fizera com giz.
  Cartas de crdito manuscritas tinham de ser levadas aos bancos. Eu
devia ter  dinheiro. Todo mundo devia ter dinheiro. Eu nunca tocara em
tal coisa. O dinheiro era bonito-ouro ou prata-florentinos, florins
alemes, groschens da  Bomia, belas moedas de ouro cunhadas no domnio
dos governantes de Veneza  chamados de doges, moedas exticas da velha
Constantinopla. Recebi um saquinho de moedas  sonantes s para mim.
Amarrvamos nossas "bolsas" no cinto.
  Um dos rapazes comprou para mim uma coisinha maravi lhosa porque
fiquei  olhando para ela. Era um relgio mecnico. Eu no conseguia
entender o que era  essa coisinha que tiquetaqueava, toda incrustada de
pedras preciosas, sequer todas as mos  apontadas para o cu me
ensinariam. Afinal, com um susto, percebi: por baixo  daquelas
filigranas e pinturas, daquele vidro estranho e daquela caixa cravejada
de  pedras, aquilo era um reloginho!
  Segurei-o e fiquei tonto. Jamais soubera que os relgios fossem algo
mais que  coisas grandes e venerveis em campanrios ou em paredes.
  - Agora carrego o tempo - murmurei em grego, olhando para meus amigos.
  - Amadeo - falou Riccardo. - Conte as horas para mim.
  Eu queria dizer que essa prodigiosa descoberta tinha um significado,
um  signifcado pessoal. Era uma mensagem para mim de um outro mundo
esquecido muito  depressa e muito perigosamente. O tempoj no era mais
tempo e nunca seria. O dia no era  dia, nem a noite era noite. Eu no
conseguia articular isso, nem em grego nem em qualqueroutra lngua, nem
mesmo em meus pensamentos febris.  Enxuguei o suor da testa. Apertei os
olhos por causa do sol claro da Itlia. Vi  os pssaros que voavam em
grandes bandos, como pequenos riscos de pena adejando em  unssono.
Creio ter dito tolamente:
  - Estamos no mundo.
  - Estamos no centro dele, em sua maior cidade! - exclamou Riccardo,
levando-me  para o meio da multido. - Haveremos de v-lo antes de nos
trancarmos no  alfaiate, isso  garantido.
  Mas primeiro era hora da loja de doces, do milagre do chocolate com
acar, de  caldas de um vermelho indescritvel porm brilhante e doces
amarelos. Um dos  rapazes mostrou-me seu livrinho com as mais
assustadoras  gravuras, homens e mulheres abraados em atitudes
concupiscentes. Eram as  histrias de Boccaccio. Riccardo disse que as
leria para mim, que aquele era  mesmo um excelente livro para me ensinar
italiano. E tambm me ensinaria Dante.
  Boccaccio e Dante eram florentinos, explicou um dos outros rapazes,
mas,  considerando tudo, os dois no eram to maus.
  Nosso Mestre adorava todos os tipos de livros, fui informado, no
havia erro  em se gastar todo o dinheiro em livros, ele ficava sempre
satisfeito com isso.  Eu  acabaria vendo que os professores que iam 
casa me enlouqueceriam com suas aulas. Era o  studia humanitatis que
todos precisamos aprender, e esse estudo inclua  histria, gramtica,
retrica, filosofia e autores antigos... todas essas palavras
fascinantes cujo significado s se revelou a mim  custa de muita
repetio e  demonstrao nos dias seguintes.
  Tampouco nunca parecamos bons demais para nosso Mestre, esta era
outra lio  que precisei aprender. Ouro e correntes de prata, colares
com medalhes e outros  enfeites me foram trazidos e pendurados em meu
pescoo. Eu precisava de anis, anis com  pedrarias. Tnhamos de
barganhar vigorosamente com os joalheiros para compr- los, e sa disso
com uma esmeralda verdadeira do Novo Mundo e dois anis de rubi
gravados com inscries de prata que eu no conseguia ler.
  Eu no me refazia da viso de minha mo com um anel. At hoje,
passados  quinhentos anos, tenho um fraco por anis preciosos. S
durante aqueles sculos  em Paris quando eu era um penitente, um dos
Filhos da Noite descalos de Sat, s durante  este longo sono, abdiquei
de meus anis. Mas logo chegaremos a esse pesadelo.
  Por ora, esta era Veneza, eu era filho de Marius e vivia brincando com
seus  outros filhos de uma forma que se repetiria por anos a fio.
  Vamos ao alfaiate.
  Enquanto me tiravam as medidas, me alfinetavam e me vestiam, os
rapazes me  contaram histrias de todos aqueles venezianos ricos que
procuravam nosso Mestre querendo ter at mesmo uma parte nfima de seu
trabalho. Quanto ao  Mestre, ele, alegando estar muito infeliz, no
vendia nada mas s vezes fazia o  retrato de um homem ou uma mulher que
o impressionasse. Esses retratos quase sempre  transformavam a pessoa
num tema mitolgico-deuses, deusas, anjos, santos. Nomes  que conhecia e
nomes que eu nunca ouvira saltavam das lnguas dos rapazes. Parecia que
aqui  todos os ecos das coisas sagradas eram varridos numa nova onda. A
memria me sacudia s para me libertar. Santos e deuses seriam a mesma
coisa?  No haveria um cdigo ao qual eu deveria permanecer fiel, que de
certa forma  ditava que essas coisas no passavam de mentiras bem
elaboradas? Eu no conseguia  esclarecer isso em minha cabea, e  minha
volta havia tanta felicidade, sim,  felicidade.
  Parecia impossvel que essas caras brilhantes e simples mascarassem
perversidade. Eu no acreditava. No entanto, todo prazer para mim era
suspeito.  Ficava fascinado quando conseguia no ceder e derrotado
quando me rendia, e, com o tempo, eu me rendia cada vez mais facilmente.
  Este dia de iniciao foi apenas um em centenas, no, em milhares que
se  seguiriam, e no sei quando comecei a entender com alguma preciso o
que meus  companheiros diziam. Essa hora chegou, porm, e bastante
rpido. No me lembro de ficar muito  tempo sendo o ingnuo.
  Essa primeira excurso foi algo mgico. E, l no alto, o cu estava de
um  azul-cobalto perfeito, com a brisa do mar mida e fresca. L em cima
reuniam se as nuvens cleres que vi to maravilhosamente representadas
nas pinturas do  palazzo, e tive a primeira pista de que as pinturas de
meu Mestre no mentiam. Na verdade, quando entramos, graas a uma
permisso especial, na capela dos doges, em So Marcos, fiquei sufocado
com seu esplendor- suas paredes de  mosaicos dourados. Mas senti outro
duro choque ao me descobrir  virtualmente sepultado em luz e riquezas.
Aqui estavam imagens perfeitas e  sombrias, imagens de santos que eu
conhecia.
  No eram mistrio, para mim, os moradores de olhos amendoados dessas
paredes  marteladas, severos em suas tnicas retas, orando de mos
postas. Eu conhecia  suas  aurolas, conhecia os pequenos orifcios
furados no ouro para faz-las brilhar com um  brilho ainda mais mgico.
Conhecia o julgamento desses patriarcas de barba que  me olhavam
impassveis quando parei, paralisado, incapaz de prosseguir.
  Ca no cho de pedra. Estava passando mal.
  Tive de ser retirado da igreja. O barulho da praa elevava-se acima de
mim  como se eu estivesse descendo para um terrvel desfecho. Queria
avisar a meus  amigos  que aquilo era inevitvel, no era culpa deles.
  Os rapazes estavam atrapalhados. Eu no podia explicar. Aturdido,
suando em  bicas e cado na base de uma coluna, eu os ouvia desanimado
explicarem em grego que essa igreja era s parte de tudo o que eu havia
visto. Por que isso  deveria me assustar tanto? Sim, era antiga, sim,
era bizantina, como tanta coisa  em Veneza.
  -Nossos navios comerciam com Bizncio h sculos. Somos um imprio
martimo. -  Tentei entender isso.
  O que veio claro em minha dor foi apenas que esse lugar no havia sido
um  julgamento especial sobre mim. Eu dali fora tirado to facilmente
quanto para  ali fora levado. Os rapazes de voz macia e mos delicadas
que me rodeavam e me ofereciam  vinho fresco para beber e frutas para
comer para eu poder me recuperar no  tinham medo desse lugar.
  Virando para a esquerda, avistei o cais, o porto. Corri para l,
aterrado com  a viso dos navios de madeira. Estavam ancorados em
carreiras de quatro e cinco,  porm mais  frente encenava-se o maior
milagre: grandes galees bojudos de madeira,  as velas colhendo a brisa,
os remos graciosos batendo na gua, saindo para o  mar.
  Para trs e para a frente o trfego andava, as enormes barcaas de
madeira  perigosamente perto umas da outras entrando e saindo da barra
de Veneza,  enquanto outras, no menos graciosas e impossveis,
ancoradas, descarregavam uma fartura de  mercadorias.
  Levando-me, trpego, para o Arsenale, meus companheiros me
reconfortavam com a  viso dos navios sendo construdos por homens
comuns. Em dias vindouros, eu  passaria horas no Arsenale, observando os
engenhosos processos pelos quais seres humanos  construam barcas to
imensas que, em minha cabea, deveriam afundar.
  De vez em quando, em lampejos, eu via imagens de rios gelados, de
barcaas e chatas, de homens rsticos fedendo a gordura animal e couro
ranoso. Mas essas ltimas delcias imperfeitas do mundo gelado do qual
eu viera se esvaneceram.
  Talvez se essa cidade no fosse Veneza, esta histria seria diferente.
  Em todos os meus anos em Veneza, jamais me cansei do Arsenale, de ver
a construo dos navios. Eu no tinha problema de entrar graas a umas
palavras gentis e umas moedas, e era sempre uma alegria para mim ver
essas estruturas fantsticas serem construdas a partirde um esqueleto
abaulado, tbuas envergadas e mastros pontiagudos.
  Neste primeiro dia, apressaram-nos por esse ptio de milagres.
Bastava.
  Sim, bem, era Veneza, esse lugar que precisava apagar-me da mente,
pelo menos por algum tempo, o tormento coagulado e alguma existncia
anterior, alguma congesto de todas as verdades que eu no desejava
enfrentar.
  Meu Mestre nunca estaria ali, se ali no fosse Veneza.
  Menos de um ms depois ele me contaria sem rodeios o que cada uma das
cidades da Itlia tinha a lhe oferecer, como gostava de ver
Michelngelo, o grande escultor, trabalhando em Florena, como ia ouvir
os grandes professores em Roma.
  - Mas Veneza tem uma arte milenar - ele falou ao erguer o pincel para
pintar o enorme painel diante dele. - Veneza  em si mesma uma obra de
arte, uma metrpole de templos domsticos impossveis, construdos lado
a lado como colmias e mantidos num nctar sempre fluente por uma
populao de abelhas diligentes. Olhe nossos palcios, s elesj merecem
ser vistos.
  Com o tempo, ele comeou a me dar aulas sobre a histria de Veneza,
como os outros, detendo-se na natureza da Repblica, que, embora
desptica em suas decises e ferozmente hostil para o estrangeiro, era
uma cidade de homens "iguais". Florena, Milo, Roma - essas cidades
estavam caindo sob o poder de uma pequena elite ou famlias e indivduos
poderosos, ao passo que Veneza, apesar de todas suas falhas, continuava
governada por seus senadores, seus mercadores poderosos e seu Conselho
dos Dez.
  Naquele primeiro dia, nasceu em mim um eterno amor por Veneza. Aquela
cidade parecia singularmente desprovida de horrores, um lar caloroso at
para seus mendigos bem-vestidos e espertos, uma colmia de prosperidade
e paixo vibrante bem como de espantosa riqueza.
  E, no alfaiate, no estava eu sendo transformado em prncipe como meus
novos amigos?
  Olhe, eu no tinha visto a espada de Riccardo? Eles eram todos nobres.
  - Esquea tudo o que se passou antes - disse Riccardo. Nosso Mestre 
nosso Senhor, e somos seus prncipes, somos sua corte real. Voc agora 
rico e nada pode mago-lo.
  -No somos meros aprendizes no sentido comum- interveio Albinus. Vamos
ser enviados para a Universidade de Pdua. Voc vai ver. Recebemos aulas
de msica e dana e etiqueta to regularmente quanto de cincia e
literatura. Voc ter tempo de ver os rapazes que voltam para nos
visitar, todos cavalheiros de posses. Ora, Giuliano era um prspero
advogado, e um dos outros rapazes era mdico em Torcello, uma
cidade-ilha aqui perto. Mas todos tm recursos independentes quando
deixam o Mestre - explicou Albinus. -  s que o Mestre, como todos os
venezianos, odeia o cio. Somos to ricos quanto senhores preguiosos do
estrangeiro que no fazem nada a no ser provar nosso mundo como se
fosse um prato de comida.
  Ao cabo dessa primeira aventura ensolarada, essas boas-vindas ao seio
da escola de meu Mestre e sua esplndida cidade, fui penteado, arrumado
e vestido com as cores que ele escolheria definitivamente para mim,
azul-celeste para as meias, um veludo azul-noite para um palet curto e
cintado, e uma tnica de um tom mais claro de azul-cobalto bordada com
pequeninas flores-de-lis francesas em fio grosso de ouro. Podia ter um
toque cor de vinho para os acabamentos e as peles; pois, quando o vento
do mar aumentava no inverno, esse paraso tornava-se o que esses
italianos chamam de frio.
  Quando anoiteceu, saracoteei no cho de mrmore com os outros,
danando um pouco ao som dos alades tocados pelos rapazes mais moos,
acompanhados pela delicada msica do virginal, o primeiro instrumento de
teclado que ento eu vira.
  Quando o crepsculo morreu lindamente no canal em frente s janelas
estreitas terminando em arcos pontiagudos do palcio, fquei
perambulando, captando relances esparsos de minha imagem nos muitos
espelhos escuros que se erguiam do cho de mrmore at o teto do
corredor, do salo, da alcova, ou qualquer quarto finamente mobiliado
que eu encontrasse.
  Cantei novas palavras em unssono com Riccardo. O grande estado de
Veneza era chamado de Serenssima. Os barcos escuros dos canais eram
gndolas. O vento que chegaria em breve e nos enlouqueceria a todos
chamava-se Sirocco. O mais importante governante dessa cidade mgica era
o doge, nosso livro essa noite com o professor era Ccero, o instrumento
musical que Riccardo pegou e tocou beliscando as cordas era o alade. O
grande dossel da imponente cama do Mestre era um baldaquim enfeitado a
cada quinze dias com uma nova franja de ouro.
  Eu estava extasiado.
  Eu no tinha simplesmente uma espada mas sim um punhal.
  Que confiana. Eu era mesmo um cordeirinho para esses outros, e
bastante cordeiro para mim mesmo. Mas jamais algum me confiara essas
armas de bronze e de ao. De novo, a memria pregava peas. Eu sabia
atirar uma lana de madeira, sabia... Infelizmente, isso se esfumaou, e
em torno dessa fumaa apareceu que eu no me dedicara s armas, mas sim
a uma outra coisa, algo imenso que exigia tudo o que eu podia dar. As
armas me eram vedadas.
  Bem, no mais. No mais. No mais. A morte me engolira inteiro e me
lanara ali. No palazzo de meu Mestre, num salo de cenas de batalha
brilhantemente pintadas, com mapas no teto, com janelas de grossas
vidraas, saquei minha espada com uma exclamao cantada e apontei-a
para o futuro. Com minha adaga, aps examinar as esmeraldas e os rubis
em seu punho, cortei uma ma em dois com um rudo de espanto.
  Os rapazes mais velhos riram de mim. Mas o ambiente era simptico,
gentil. Logo chegaria o Mestre. Olhe. De sala em sala, os maisjovens
dentre ns, menininhos que no haviam sado conosco, agora andavam
depressa, acendendo archotes e candelabros com suas velas. Fiquei 
porta, olhando para mais um e mais outro e mais outro. A claridade
explodia Silenciosamente em cada uma dessas salas.
  Um homem alto, muito sombrio e simples, entrou segurando um livro
velho. Seu longo cabelo e sua tnica simples de l eram pretos. Os olhos
midos eram alegres, mas a boca fina era plida, com um rctus
agressivo.
  Os meninos todos gemeram.
  Janelas altas e estreitas foram fechadas por causa da friagem da
noite.
  No canal l embaixo, os homens cantavam enquanto remavam suas
gndolas, vozes sonoras, como que salpicando as paredes, delicadas,
efervescentes, para depois irem morrendo.
  Comi toda aquela ma suculenta. Nesse dia eu comera mais fruta,
carne, po, doces e balas do que um ser humano seria capaz de comer. Eu
no era humano. Era um rapaz faminto.
  O professor estalou os dedos, depois tirou do cinto um grande chicote
que estalou na prpria perna.
  - Agora venham - disse ele aos rapazes.
  Ergui os olhos quando o Mestre apareceu.
  Todos os rapazes, grandes e altos, infantilizados e msculos, correram
para ele, abraaram-no e penduraram-se nele enquanto ele inspecionava a
pintura que haviam feito naquele longo dia.
  O professor aguardava em silncio, inclinando-se humildemente para o
Mestre.
  Atravessamos as galerias, a companhia toda, o professor no fim do
grupo. O Mestre esticou os braos, e era um privilgio sentir o toque de
seus dedos alvos e frios, um privilgio pegar um pedao de suas grossas
mangas de veludo que arrastavam.
  - Venha, Amadeo, venha conosco.
  Eu s queria uma coisa, e ela logo chegou.
  Os meninos foram despachados com um homem que deveria ler Ccero. As
mos firmes do Mestre com suas unhas refulgentes viraram-me e
dirigiram-me para seus aposentos privados.
  A era privado, as portas de madeira pintadas abriram-se de uma vez,
os braseiros acesos perfumados com incenso, uma fumaa aromtica saindo
das lmpadas de lato. Havia travesseiros macios na cama, umjardim
florido de seda pintada e bordada, cetim floral, rico chenile, brocados
intrincados. Ele fechou o cortinado escarlate da cama. A claridade
tornou-o transparente. Vermelho, vermelho e vermelho.
  Era a cor dele, ele me disse, como o azul seria a minha.
  Numa lngua universal, ele me cortejou, alimentando-me com as imagens:
  - Seus olhos castanhos ficam dourados quando o fogo os ilumina -
murmurou. - Ah, mas eles so cintilantes e escuros, dois espelhos
reluzentes nos quais eu me vejo at quando eles guardam seus segredos;
esses portais escuros de uma alma rica.
  Eu estava perdidssimo no azul glacial de seus olhos e no coral macio
e brilhante de sua boca.
  Ele deitou comigo, beijou-me, passando os dedos suavemente pelo meu
cabelo, sem puxar os fios, e me provocou arrepios no couro cabeludo e
entre as pernas. Seus polegares, to duros e frios, afagaram minhas
faces, meus lbios, minhas mandbulas, excitando a carne. Virando minha
cabea da direita para a esquerda, ele me deu beijos vidos e delicados
dentro do ouvido.
  Eu era jovem demais para um prazer to efervescente.
  No sei se era mais o que as mulheres sentiam. Achei que aquilo no
podia terminar. Tornou-se uma agonia de xtase estar preso em suas mos,
sem poder escapar, contorcendo-me e sentindo esse xtase repetidas
vezes.
  Ele me ensinou palavras na nova lngua depois, a palavra para o
revestimento duro e frio do cho que era mrmore de Carrara, a palavra
para as cortinas que era seda fiada, os nomes dos "peixes" e
"tartarugas" e os "elefantes" bordados nos travesseiros, a palavra para
o leo urdido na tapearia da pesada colcha propriamente dita.
  Enquanto eu escutava, enlevado, todos os detalhes grandes e pequenos,
ele me contou de onde provinham as prolas bordadas em minha tnica,
como elas vieram das ostras do mar. Rapazes haviam mergulhado nas
profundezas para trazer essas preciosidades redondas  superfcie,
carregando-as em suas prprias bocas. Esmeraldas provinham de minas no
interior da terra. Os homens matavam por elas. E diamantes, ah, veja
esses diamantes. Ele tirou um anel do dedo e colocou-o no meu, afagando
meu dedo com delicadeza ao certificar-se de que o anel cabia. Os
diamantes so a luz branca de Deus, disse ele. Diamantes so puros.
  Deus. O que era Deus! O choque me percorreu o corpo. Parecia que a
cena  minha volta murcharia.
  Ele me observou enquanto falava, e parecia que s vezes eu o ouvia
claramente, embora ele no tivesse movido os lbios nem emitido um som.
  Fiquei agitado. Deus, no me deixe pensar em Deus. Seja meu Deus.
  - D-me sua boca, d-me seus braos - murmurei. Minha fome espantou-o
e deleitou-o.
  Ele riu baixinho ao me responder com mais beijos fragrantes e
inofensivos. Seu hlito quente saiu num jato macio e sibilante em minha
virilha.
  - Amadeo, Amadeo, Amadeo - disse ele.
  - O que significa esse nome, Mestre? - perguntei. - Por que o d para
mim? - Acho que ouvi um eu antigo em minha voz, mas talvez tenha sido
apenas esse principezinho recm-nascido enfeitado e envolto em
preciosidades que tenha escolhido essa voz macia e respeitvel mas
todavia corajosa.
  - Amado de Deus - disse ele.
  Ah, eu no podia suportar ouvir isso. Deus, o Deus inescapvel. Eu
estava perturbado, apavorado.
  Ele pegou minha mo estendida e dobrou meu dedo para apontar para um
infante alado bordado com contas reluzentes numa surrada almofada
quadrada que estava a nosso lado.
  - Amadeo - repetiu. - Amado do Deus do amor.
  Ele achou o relgio que tiquetaqueava na pilha de minhas roupas ao
lado da cama. Pegou-o e sorriu ao olhar para ele. No havia visto muitos
desses relgios. Uma maravilha. Eram suficientemente caros para reis e
rainhas.
  - Voc ter tudo o que quiser-disse ele.
  - Por qu?
  - Por cachos avermelhados como esses - afagou meus cabelos -, por
olhos do castanho mais profundo e mais simptico. Por uma pele como o
creme de leite fresco pela manh; por lbios que no se distinguem das
ptalas de uma rosa.
  De madrugada, ele me contou lendas de Eros e Afrodite; embalou-me com
a fantstica tristeza de Psiqu, amada por Eros e impedida de v-lo 
luz do dia. Caminhei a seu lado por corredores gelados, seus dedos
apertando meus ombros enquanto ele me mostrava as belas esttuas de
mrmore branco de seus deuses e deusas, todos amantes - Daphne, os
graciosos membros transformados em galhos de louro quando o deus Apolo
procurava-a desesperadamente; Leda impotente nas garras do poderoso
cisne.
  Ele guiou minhas mos pelas curvas do mrmore, as faces nitidamente
cinzeladas e muito polidas, as panturrilhas rijas de pernas nbeis, as
fendas glaciais de bocas entreabertas. Depois, trouxe meus dedos para
seu rosto. Ele parecia a prpria esttua viva, feita mais
maravilhosamente do que qualquer outra e, ao erguer-me com mos fortes,
exalou um calor intenso, o calor de um hlito doce em suspiros e
palavras sussurradas.
  No fim da semana, eu no me lembrava de uma palavra sequer de minha
lngua materna.
  Numa tempestade de adjetivos oferecidos, fiquei na praa e observei
enfeitiado o Grande Conclio de Veneza marchando ao longo do Molo, a
missa solene sendo cantada no altar de So Marcos, os navios saindo nas
ondas transparentes do Adritico, os pincis mergulhando em busca de
suas cores para mistur-las nos potes de barro: rosa garana, escarlate,
carmim, cereja, cerleo, turquesa, verde, amarelo-ocre, terracota,
quinacridona, citrino, spia, Violeta Caput Mortuum - ah, lindo demais -
e uma laca espessa chamada sangue de Drago.
  Na dana e na esgrima, eu era excelente. Meu parceiro preferido era
Riccardo, e logo vi que em todas as habilidades eu me aproximava desse
rapaz mais velho, chegando a superar Albinus, que ocupara este lugar at
eu aparecer, embora agora no demonstrasse m vontade para comigo.
  Esses rapazes eram como meus irmos.
  Eles me levaram  casa da linda e esguia cortes, Bianca Solderini,
uma graciosa e incomparvel feiticeira de cabelos ondulados  moda de
Botticelli, olhos cinzentos amendoados e uma inteligncia generosa e
meiga. Eu era a atrao em sua casa sempre que eu queria, entre as moas
e os rapazes que passavam horas lendo poesia, falando de guerras
estrangeiras, aparentemente interminveis, e dos ltimos pintores e de
quem seria o prximo a receber qual encomenda.
  Bianca tinha uma vozinha infantil que combinava com seu rosto de
menina e seu narizinho. Sua boca era apenas um boto de rosa. Mas era
esperta e altiva. Rejeitava friamente amantes possessivos; gostava de
ter sempre a casa cheia. Qualquer pessoa corretamente vestida ou
portando uma espada era automaticamente admitida. Quase s os que
desejavam possu-la eram rejeitados.
  Visitantes da Frana e da Alemanha eram comuns na casa de Bianca, onde
todos, seja de localidades distantes, seja do pas, tinham curiosidade a
respeito de Marius, para todos e para ns mesmos um homem misterioso
embora tivssemos sido instrudos ajamais fazer perguntas desnecessrias
a seu respeito, e s podamos sorrir quando nos perguntavam se ele
pretendia casarse, se ele pintaria este ou aquele retrato, se estaria em
casa em tal data para esta ou aquela pessoa ir visit-lo.
  s vezes eu adormecia no div na casa de Bianca ou at em uma de suas
camas, ouvindo as vozes abafadas dos nobres que l iam, sonhando com a
msica que era sempre do tipo mais tranqilo e embalador.
  De vez em quando, em ocasies excepcionais, o prprio Mestre aparecia
l para me pegar e a Riccardo, sempre causando uma pequena sensao no
portego, ou salo principal.
  Ele jamais pegava uma cadeira. Nunca tirava a capa com o capuz. Mas
sorria com graa a tudo o que lhe era solicitado e s vezes oferecia um
retratinho que havia feito de Bianca.
  Estou vendo agora esses minsculos retratos que ele lhe deu ao longo
dos anos, todos incrustados de jias.
  - Voc capta minha imagem de memria com tanta preciso - disse ela ao
beij- lo.
  Vi a reserva com que ele a manteve afastada de seu peito e seu rosto
duros e frios, plantando-lhe beijos na face os quais transmitiam o
encanto da maciez e da doura que teriam sido destrudas pelo contato
com ele.
  Eu passava horas lendo com a ajuda do professor Leonardo de Pdua,
falando em unssono com ele ao aprender o esquema do latim, depois do
italiano e novamente do grego. Eu gostava tanto de Aristteles quanto de
Plato ou Plutarco ou Lvio ou Virglio. Na verdade, eu no os entendia
muito. Estava fazendo o que o Mestre mandava, deixando o conhecimento
acumular-se em minha mente.
  Eu no via motivo para falar sem parar como Aristteles fazia, sobre
coisas criadas. As vidas dos antigos que Plutarco contava com tanto
esprito eram histrias excelentes. Mas eu queria conhecer pessoas
contemporneas. Preferia cochilar no div de Bianca a discutir os
mritos deste ou daquele pintor. Ademais, eu sabia que o Mestre era o
melhor.
  Este era um mundo de amplos sales, paredes ornamentadas, luz
perfumada e generosa e um desfile regular de alta moda, ao qual me
acostumei inteiramente, semjamais enxergar o sofrimento e a misria dos
pobres da cidade. At os livros que eu lia refletiam esse novo mbito ao
qual eu ficara to preso que nada poderia me trazer de volta ao passado
de confuso e dor.
  Aprendi a tocar canonetas no virginal. Aprendi a tanger o alade e a
cantar com voz macia, embora s cantasse canes tristes. O Mestre
adorava essas canes. Fazamos um coro de quando em quando, todos os
rapazesjuntos, e apresentvamos ao Mestre nossas prprias composies e
s vezes nossas prprias danas.
  Nas tardes quentes,jogvamos cartas quando o previsto era
descansarmos. Riccardo e eu escapulamos para jogar nas tavernas.
Bebemos demais uma ou duas vezes. O Mestre soube e logo deu um basta
nisso. Horrorizou-se particularmente com o fato de eu estar embriagado e
ter cado no Grande Canal, precisando de um socorro desajeitado e
histrico. Eu poderia jurar que ele empalidecera ao ouvir isso, que vi a
cor deixar suas faces lvidas. Ele chicoteou Riccardo por isso. Fiquei
envergonhadssimo. Riccardo aceitou a punio como um soldado sem gritos
nem comentrios, imvel diante de uma grande lareira na biblioteca, de
costas para receber os golpes nas pernas. Depois, ajoelhou-se e beijou o
anel do Mestre. Prometi nunca mais me embriagar.
  Embriaguei-me no dia seguinte, mas tive a sensatez de irtrpego para a
casa de Bianca e meter-me embaixo de sua cama, onde eu poderia adormecer
sem perigo. Antes da meia-noite, o Mestre tirou-me dali. Pensei: agora
vou apanhar. Mas ele apenas me ps na cama, onde adormeci antes de poder
me desculpar. Quando acordei, vi-o em sua escrivaninha, escrevendo to
depressa como pintava, num livro grande que ele sempre conseguia
esconder antes de sair da casa.
  Quando os outros dormiam mesmo, inclusive Riccardo, nas piores tardes
de vero, eu saa e alugava uma gndola. Deitava-me de costas e ficava
olhando para o cu enquanto deslizvamos pelo canal e para as guas mais
turbulentas do corao do golfo. Eu ia de olhos fechados na volta para
poder ouvir os mnimos gritos vindos dos prdios sossegados na hora da
sesta, as gus malcheirosas batendo em fundaes podres, o guincho das
gaivotas no cu. No me importava com os mosquitos nem com o cheiro dos
canais.
  Uma tarde, no voltei para trabalhar nem para as aulas em casa. Entrei
numa taverna para ouvir os msicos e os cantores e, de outra feita,
deparei-me com uma pea sendo encenada num palco armado numa praa
defronte a uma igreja. Ningum se zangava comigo por essas idas e
vindas. Nada se relatava. No havia testes para aferir o que eu ou
qualquer outro aprendera.
  s vezes eu dormia o dia inteiro, ou at ficar curioso. Era um prazer
extremo acordar e encontrar o Mestre trabalhando, quer no estdio,
subindo e descendo nos andaimes enquanto pintava sua tela maior, ou
simplesmente perto de mim,  sua mesa no quarto, escrevendo.
  Sempre havia comida para todos, lustrosos cachos de uva e meles
maduros abertos para ns, e delicioso po refinado com um azeite
fresqussimo. Eu comia azeitonas pretas, fatias de queijo macio e
alhos-pors frescos da horta do terrao. O leite vinha frio em jarros de
prata.
  O Mestre no comia nada. Todos sabiam disso. O Mestre nunca estava em
casa de dia. Com o Mestre nunca se falava sem reverncia. O Mestre
conseguia ler a alma de um rapaz. O Mestre sabia separar o bem do mal, e
sabia o que era engano. Os rapazes eram bons rapazes.  boca pequena, s
vezes se falava de maus rapazes que haviam sido expulsos da casa quase
que imediatamente. Mas ningum jamais falava do Mestre sequer de uma
forma trivial. Ningum mencionava o fato de que eu dormia na cama do
Mestre.
  Diariamente ao meio-dia, fazamosjuntos formalmente uma refeio de
ave assada, cordeiro tenro, suculentos pedaos de carne.
  Trs ou quatro professores vinham a qualquer hora para instruir os
vrios  grupinhos de aprendizes. Alguns trabalhavam enquanto outros
estudavam.
  Eu podia passar da aula de latim  de grego. Podia folhear os sonetos
erticos  e ler o que conseguisse at Riccardo acudir e provocar uma
gargalhada geral com  sua leitura, para a qual os professores tinham de
esperar.
  Nesta lenincia, eu prosperava. Aprendi depressa, e sabia responder a
todas as  perguntas casuais do Mestre, apresentando minhas prprias
perguntas ponderadas.
  O Mestre pintava quatro noites por semana, e, em geral, de meia-noite
at a  aurora, quando desaparecia. Nada o interrompia nessas noites. Ele
subia no andaime com uma facilidade espantosa, parecendo um grande
macaco  branco, e, deixando cair displicentemente a capa escarlate,
pegava o pincel da  mo do menino que o segurava para ele e pintava com
tanta fria que nos salpicava todos de tinta enquanto olhvamos pasmos.
Sob o seu gnio,  paisagens inteiras ganhavam vida em horas; pessoas
reunidas eram desenhadas nos  mnimos detalhes. Trabalhava cantarolando
em voz alta; ia anunciando o nome dos grandes escritores  ou heris ao
retrat-los de memria ou baseado na imaginao. Atraa nossa  ateno
para suas cores, as linhas que escolhia, os truques de perspectiva que
mergulhavam os grupos de personagens palpveis e entusiasmados em
jardins,  sales, palcios e galerias de verdade.
  Somente o trabalho de preencher os claros era deixado para os rapazes
executarem pela manh - colorir panos, asas, grandes trechos de carne
aos quais  o Mestre  voltaria para dar forma enquanto a tinta a leo
ainda estivesse malevel, o piso  reluzente de palcios antigos que aps
seus retoques finais pareciam mrmore de  verdade recuando sob os ps
gorduchos de seus filsofos e santos.
  O trabalho nos atraa natural e espontaneamente. Havia dzias de telas
e  painis inacabados dentro do palcio, todos to realistas que
pareciam portais  de outro mundo.
  Gaetano, um dos maisjovens de ns, era o mais talentoso. Mas qualquer
dos  rapazes, salvo eu, equiparava-se aos aprendizes do ateli de
qualquer pintor,  mesmo os do ateli de Bellini.
  s vezes, havia um dia de receber. Bianca ento se regozijava porque
iria  receber para o Mestre, e vinha com seus criados fazer as honras da
casa. Homens  e mulheres das melhores casas de Veneza vinham ver as
obras do Mestre. As pessoas  espantavam-se com seus poderes. S depois
de ouvir o que elas diziam nesses  dias, percebi que meu Mestre no
vendia quase nada, mas enchia seu palcio com as prprias  obras, e que
ele tinha suas prprias verses de temas famosssimos, desde a  escola
de Aristteles at a Crucificao de Cristo. Cristo. Esse era o Cristo
de cabelos  encaracolados, corado, musculoso e com ar humano, o Cristo
deles. O Cristo  parecido com Cupido ou Zeus.
  Eu no me importava de no saber pintar to bem como Riccardo e os
outros, de  quase sempre me satisfazer em segurar os potes para eles,
lavar os pincis,  apagar os erros que precisavam ser corrigidos. Eu no
queria pintar. No queria. S de  pensar nisso, ficava com cibras nas
mos e o estmago embrulhado.
  Eu preferia as conversas, as piadas, a especulao sobre o porqu de
nosso  fabuloso Mestre no aceitar encomendas, embora recebesse
diariamente cartas  convidando-o a competirpor este ou aquele mural a
ser pintado no Palcio Ducal ou em alguma  das mil igrejas da ilha.
  Eu observava a cor se espalhando hora a hora. Aspirava a fragrncia
dos  vernizes, dos pigmentos, dos leos.
  De vez em quando uma raiva letrgica me dominava, mas no de minha
falta de  habilidade.
  Outra coisa me atormentava, algo que tinha a ver com as posturas
midas e  tempestuosas das figuras pintadas, com aquelas reluzentes
faces rosadas e o cu  de nuvens cleres ao fundo, ou a ramagem densa
das rvores escuras.
  Parecia loucura isso, essa reproduo desenfreada da Natureza. Com dor
de  cabea, fui caminhando sozinho com um passo ligeiro pelo cais at
encontrar uma  igreja antiga e um altar ornamentado com santos tesos de
olhos apertados, morenos,  macilentos e rgidos: o legado de Bizncio,
como eu vira em So Marcos em meu  primeiro dia. Minha alma doa demais
enquanto eu contemplava com reverncia essas antigas  propriedades.
Praguejei quando meus novos amigos me acharam. Ajoelhei,  determinado,
recusando-me a demonstrar saber que eles l estavam. Tapei os ouvidos
para no  ouvir as risadas de meus novos amigos. Como podiam rir dentro
da igreja com  aquelas gotas de sangue como besouros negros saindo das
mos e dos ps esmaecidos do  Cristo torturado?
  De vez em quando eu adormecia diante de altares antigos. Eu escapulira
de meus  companheiros. Estava s e feliz naquelas pedras frias e midas.
Imaginava ouvir  a gua embaixo do piso.
  Peguei uma gndola para Torcello e l procurei a velha Catedral de
Santa Maria  Assunta, famosa por seus mosaicos, que; segundo alguns,
tinham o mesmo esplendor  antigo que os mosaicos de So Marcos.
Esgueirei-me sob os arcos baixos, olhando para a  antiga iconstase e os
mosaicos da abside. L no alto, na curva posterior da  abside, estava a
grande Virgem, a Theotokos, a que carregava Deus. Seu rosto era
austero, quase amargo. Uma lgrima brilhava em sua face esquerda. Ela
segurava o  menino Jesus, mas tambm tinha nas mos um leno, a marca da
Mater Dolorosa.
  Compreendi essas imagens enquanto elas me gelaram a alma. Minha cabea
girava  e o calor da ilha e a catedral silenciosa me deixaram enjoado.
Mas fiquei ali.  Passeei pela iconstase e orei.
  Achei que ningum podia me achar ali. Quando a noite foi chegando,
sentime  realmente mal. Sabia que estava com febre, mas procurei um
canto da igreja e s  o contato de meu rosto e minhas mos estendidas
com o frio do cho de pedra aliviou-me um  pouco. Se erguesse a cabea,
eu via diante de mim cenas terrveis do Juzo  Final, de almas
condenadas ao Inferno. Mereo essa dor, pensei.
  O Mestre veio me buscar. No me lembro da volta ao palcio.
Aparentemente, de  alguma forma, em questo de segundos, ele me pusera
na cama. Os rapazes banhavam  minha testa com panos frios. Fizeram-me
beber gua. Uma pessoa disse que eu estava com  "a febre", e outra
disse: - Fique quieto.
  O Mestre cuidava de mim. Eu tinha pesadelos de que no conseguia me
lembrar ao  acordar. Antes do amanhecer, o Mestre me beijou e me
abraou. Jamais amei tanto  a dureza fria de seu corpo como durante essa
febre, envolvendo-o em meus braos,  estreitando meu rosto contra o
dele.
  Ele me deu algo quente e picante para beber numa taa. Em seguida,
beijoume, e  novamente apareceu a taa. Meu corpo encheu-se de um fogo
curativo. Mas quando  ele volto naquela noite, a febre tinha piorado de
novo. No sonhei tanto quanto vaguei, meio dormindo meio acordado, por
terrveis  corredores escuros, sem conseguir achar um lugar quente ou
limpo. Minhas unhas  estavam encardidas. A certa altura, vi uma p em
movimento, e vi a sujeira, e receei que a sujeira  fosse me cobrir, e
comecei a gritar.
  Riccardo cuidava de mim, segurando minha mo, dizendo-me que logo a
noite  cairia, e o Mestre decerto chegaria.
  - Amadeo - disse o Mestre. Ele me levantou como se eu ainda fosse
mesmo uma  criancinha.
  Perguntas em excesso formavam-se em minha mente. Eu iria morrer? Aonde
o  Mestre estava me levando agora? Eu estava envolto em veludo e peles e
ele me  carregava, mas como?
  Estvamos numa igreja em Veneza, em meio a pinturas novas de nosso
tempo. As  indispensveis velas ardiam. Homens oravam. Ele me virou em
seus braos e  mandou-me olhar para o enorme altar  minha frente.
  Apertando os olhos doloridos, obedeci e vi a Virgem nas alturas sendo
coroada  por seu amado Filho, Cristo Rei.
  - Olhe a doura no rosto dela, a expresso natural dela - murmurou o
Mestre. -  Ela est sentada ali como algum pode estar sentado aqui na
igreja. E os anjos,  olhe para eles, os meninos alegres em volta das
colunas embaixo dela. Olhe a  serenidade e a delicadeza dos sorrisos
deles. Isto  o Paraso, Amadeo. Isso  o  bem.
  Meus olhos sonolentos dirigiram-se  pintura l no alto.
  - Veja o Apstolo falando com tanta naturalidade com a pessoa ao lado
dele,  como os homens podem falar numa cerimnia dessas. Olhe no alto,
Deus Pai,  olhando satisfeito para todos l embaixo.
  Tentei formular perguntas, dizer que no era possvel. Esta combinao
da  carnalidade com a beatitude, mas no conseguia encontrar palavras
eloqentes. A  nudez  dos anjos era encantadora e inocente, mas eu no
conseguia acreditar nisso. Era uma  mentira de Veneza, uma mentira do
Ocidente, uma mentira do prprio Diabo.
  - Amadeo - continuou ele -, no h bem que se baseie em sofrimento e
crueldade; no h bem que precise se fundamentar na privao de
criancinhas. Amadeo, do amor de Deus nasce a beleza em todos os lugares.
Olhe essas cores;  essas so as cores criadas por Deus.
  Em seu colo, os ps balanando, os braos em volta de seu pescoo,
deixei os  detalhes do imenso altar entrarem em minha conscincia.
Repassei de trs para  diante, de trs para diante, aqueles pequenos
toques que eu amava.
  Levantei o dedo para apontar. Aquele leo sentado to calmamente aos
ps de  So Marcos, e, olhe, as pginas do livro de So Marcos, as
pginas se mexem  enquanto ele as vira. E o leo  manso e delicado e
amigo como um co de lareira.
  - Isso  o Paraso, Amadeo - disse-me ele. - O que quer que o passado
tenha  martelado em sua alma, esquea.
  Sorri, e lentamente, erguendo os olhos para os santos, as fileiras e
fileiras  de santos, comecei a rir baixo e confidencialmente no ouvido
do Mestre.
  - Eles esto todos falando, murmurando, conversando entre si como se
fossem senadores venezianos.
  Ouvi a gargalhada baixa e reprimida que ele deu em resposta.
  -Ah, acho que os senadores tm mais decoro, Amadeo. Eu nunca os vi em
situao  to informal, mas isso  o Paraso, como eu disse.
  -Ah, Mestre, olhe ali. Um santo est segurando um cone, um belo
cone.  Mestre, preciso lhe contar... - interrompi-me. A febre subiu e
comecei a suar.  Meus olhos ardiam, e eu no conseguia enxergar. -
Mestre, estou na selva, estou correndo,  preciso botar isso nas rvores.
- Como poderia ele saber do que eu estava falando, que eu me referia 
lembrana daquela desesperada fuga passada pelos campos  selvagens com a
sagrada trouxa sob minha guarda, a trouxa que deveria ser  desembrulhada
e colocada nas rvores. - Olhe, o cone.
  Enchi-me de mel. Um mel espesso e doce. Vinha de uma fonte gelada mas
no  importava. Eu conhecia essa fonte. Meu corpo era como uma taa
sendo mexida de  modo que tudo o que era amargo se dissolveu nos fluidos
do mel, dissolveu-se num vrtice  para deixar apenas mel e um calor de
sonho.
  Quando abri os olhos, eu estava em nossa cama. Estava todo frio. A
febre  passara. Virei-me e levantei-me.
  Meu Mestre estava sentado  sua mesa. Lia o que aparentemente acabara
de  escrever. Prendera o cabelo com um pedao de fo. Seu rosto estava
belssimo,  descoberto por assim dizer, com aquelas mas salientes e
aquele nariz liso e fino. Ele me  olhou, e sua boca operou o milagre do
sorriso comum.
  - No corra atrs dessas recordaes - disse ele. Falou isso como se
estivssemos conversando todo o tempo enquanto eu dormia. - No v 
igreja de Torcillo para encontr-las. No v aos mosaicos de So Marcos.
Quando chegar a hora, todas  essas coisas nocivas voltaro.
  - Tenho medo de lembrar - disse eu.
  - Eu sei - respondeu ele.
  -Como pode saber?-perguntei.-Guardo essadorem meu corao. Ela 
minha. -  Senti muito por ter falado com tanta audcia, mas fosse qual
fosse a minha  culpa, a audcia era cada vez mais freqente.
  - Voc duvida mesmo de mim? - perguntou ele.
  - Seus dotes so incomensurveis. Todos sabemos e nunca falamos sobre
isso, e  voc nunca fala sobre isso.
  - Ento por que voc no coloca sua f em mim em vez de em coisas das
quais  voc s se recorda pela metade.
  Ele deixou a escrivaninha e veio para minha cama.
  - Venha. Sua febre cedeu. Venha comigo.
  Levou-me a uma das muitas bibliotecas do palcio, salas em desordem
onde havia  manuscritos espalhados sem critrio e livros empilhados.
Raramente ele  trabalhava nessas salas. Atirava os volumes ali para
serem catalogados pelos rapazes,  levando aquilo de que precisava para a
escrivaninha em nosso quarto.
  Andou entre as estantes at encontrar uma pasta, uma coisa molenga de
couro  antigo amarelado, gasta nas pontas. Seus dedos brancos alisaram
uma pgina  grande de pergaminho. Pousou-a na escrivaninha de carvalho
para que eu visse.
  Uma pintura, antiga.
  Era o desenho de uma grande igreja com domos ornamentados, lindssima
e  majestosa. Havia inscries ali. Eu conhecia as letras, mas no
conseguia fazer  as palavras virem  minha mente ou  minha lngua.
  - Kiev Rus - explicou. Kiev Rus.
  Um horror insuportvel abateu-se sobre mim. Antes de conseguir
deter-me,  falei:
  - Est em runas, incendiada. No existe este lugar. No  vivo como
Veneza.  Est em runas, e  frio, imundo e desesperado. Sim, essa 
exatamente a  palavra.  -Eu estava tonto. Achei que estivesse vendo uma
sada da desolao, s que essa  sada era fria e escura e, por caminhos
tortuosos, conduzia a um mundo de  escurido eterna, onde a terra fria
exalava o nico cheiro para as mos, a pele, as roupas da  pessoa.
  Desvencilhei-me e corri do Mestre. Corri por toda a extenso do
palcio.
  Desci correndo para as salas escuras que davam para o canal. Quando
voltei,  encontrei-o sozinho no quarto. Lia, como sempre. Estava com o
livro que  ultimamente  era seu prefrido, Consolatio philosophiae, de
Becio, e ergueu pacientemente os  olhos para me fitar quando entrei.
  Fiquei ali pensando em minhas dolorosas lembranas. Eu no conseguia
alcan-las. Ento deixe estar. Elas corriam para o nada como  as folhas
nas alamedas, as folhas que s vezes caem dos pequenosjardins  suspensos
numa ventania e vm descendo pelos muros verdes patinados.
  - No quero - tornei a dizer.
  S havia um Senhor Vivo. Meu Mestre.
  -Algum dia isso tudo se esclarecer para voc, quando tiver fora para
usar  isso - disse ele. Fechou o livro. - Por ora, deixe-me consol-lo.
  Ah, sim, eu estava prontssimo para isso.

-- 3 --

  Ah, quo longos podiam ser os dias sem ele. Quando anoitecia, eu
cerrava os  punhos enquanto as velas eram acesas.
  Havia noites em que ele no aparecia de todo. Os rapazes diziam que
ele  partira em misses importantssimas. A casa precisava funcionar
como se ele  estivesse presente.
  Eu dormia em sua cama vazia, e ningum me perguntava nada. Vasculhava
a casa   procura de qualquer pista pessoal dele. Perguntas me
atormentavam. Eu temia que  elejamais voltasse.
  Mas ele sempre voltava.
  Quando subia as escadas, eu corria para seus braos. Ele me segurava,
me  abraava, me beijava e s ento deixava que eu casse suavemente de
encontro a  seu peito duro. Meu peso no era nada para ele, embora
parecesse que dia a dia eu crescia  e ganhava peso.
  Eu nunca seria outra coisa seno o rapaz de dezessete anos que voc
est vendo  agora, mas como podia um homem to esguio como ele me
levantar com tanta  facilidade?
  No sou um menor abandonado nem nunca serei. Sou uma criana forte.
  Eu gostava mais - se eu tivesse que partilhar com os outros - quando
ele lia  para ns em voz alta.
  Cercando-se de candelabros, ele falava com uma voz contida e
simptica. Lia a  Divina comdia de Dante, o Decameron de Boccaccio, ou,
em francs, o Roman de la  Rose ou os poemas de Franois Villon. Falava
as lnguas novas que precisvamos  entender to bem como entendamos
grego e latim. Alertou-nos que a literatura  no se confinaria mais s
obras clssicas.
  Ficvamos calados, sentados em volta dele em almofadas ou no cho nu.
Alguns  ficavam de p ao lado dele. Outros sentavam-se descansando nos
calcanhares.
  s vezes, Riccardo tocava alade para ns e cantava aquelas melodias
que  aprendera com o professor, ou mesmo as msicas irreverentes que
aprendia na rua. Cantava pesarosamente canes de amor e nos fazia
chorar com isso. O Mestre  observava-o com olhos amorosos.
  Eu no sentia cime. S eu partilhava a cama do Mestre.
  s vezes, ele at fazia Riccardo sentar-se do lado de fora do quarto e
tocar  para ris. O obediente Riccardo nunca pedia para entrar.
  Meu corao disparava quando as cortinas se fechavam em volta de ns.
O Mestre  abria minha tnica, s vezes at rasgando-a de brincadeira,
como se ela no  passasse de uma pea jogada fora.
  Eu afundava na colcha de cetim embaixo dele; abria as pernas e deixava
os  joelhos acariciarem-no, entorpecido e vibrando com o roar de seus
dedos em  minha boca.
  Certa vez, eu estava quase dormindo. O ar tinha um tom rseo e
dourado. O  quarto estava quente. Senti seus lbios nos meus e sua
lngua fria penetrar como  lngua de cobra em minha boca. Um lquido
encheu-me a boca, um nctar saboroso e  ardente, uma poo to fina que
a senti percorrer meu corpo at a pontinha dos  dedos. Senti essa poo
descendo-me pelo torso e entrando em minhas partes mais ntimas. Eu
ardia. Ardia.
  - Mestre - murmurei. - O que  esse truque agora que  mais doce que
os  beijos?
  Ele deitou a cabea na almofada. Virou-se para o outro lado.
  - D-me isso de novo, Mestre - pedi.
  Ele deu, mas s quando quis, em gotas, e com lgrimas vermelhas que de
vez em  quando ele deixava que eu lhe lambesse dos olhos.
  Acho que um ano inteiro se passou antes que eu voltasse para casa uma
noite,  afogueado com o ar do inverno, vestido com minha melhor roupa
azul-escura para  ele, com meias azul-celeste e os mais caros sapatos de
esmalte dourado que eu poderia  encontrar no mundo, um ano antes de eu
entrar naquela noite e atirar meu livro  no canto do quarto com um
grande gesto de enfado, pondo as mos na cintura e  fuzilando-o com os
olhos, enquanto ele, sentado em sua cadeira de espaldar alto,  olhava as
brasas no braseiro, colocando as mos sobre as brasas, observando as
chamas.
  - Pois bem - falei arrogante, com a cabea para trs, o prprio homem
do  mundo, um veneziano sofisticado, um prncipe no mercado com toda uma
corte de  mercadores para atend-lo, um erudito que lera demais. - Pois
bem continuei. - H um grande  mistrio aqui e voc sabe disso. Est na
hora de me contar.
  - O qu? - perguntou ele com amabilidade suficiente.
  - Por que voc nunca... Por que nunca sente nada! Por que lida comigo
como se  eu fosse uma boneca? Por que nunca...?
  Pela primeira vez, vi seu rosto corar; vi seus olhos brilharem e se
apertarem  e depois se arregalarem com lgrimas avermelhadas.
  - Mestre, voc me assusta - murmurei.
  - O que quer que eu sinta, Amadeo? - perguntou ele.
  - Voc, Mestre, parece um anjo ou uma esttua - disse eu, s que agora
eu  estava mais manso e trmulo. - Mestre, voc brinca comigo e eu sou o
brinquedo  que sente tudo. - Aproximei-me. Toquei na camisa dele,
procurei desat-la.
  - Deixe-me...
  Ele pegou minha mo. Pegou meus dedos e levou-os aos lbios e
enfiou-os na  boca, afagando-os com a lngua. Ergueu os olhos e fcou me
olhando. Bastante  diziam seus olhos. Sinto bastante.
  -Eu lhe daria qualquer coisa-disse eu em tom de splica. Pus a mo
entre suas  pernas. Ah, ele estava maravilhosamente duro. Isso no era
incomum, mas ele  precisava me deixar lev-lo mais longe; precisava
confiar em mim.
  - Amadeo - disse ele.
  Com aquela fora inexplicvel, ele me levou para a cama. Mal se
poderia dizer  que ele havia se levantado da cadeira. Parecia que
estvamos ali e de repente  estvamos em meio s nossas almofadas
conhecidas. Pisquei. Parecia que as cortinas se  haviam fechado em volta
de ns sem que ele tivesse tocado nelas, algum truque da  brisa que
entrava pelas janelas. Sim, oua as vozes do canal l embaixo. Como o
que se  canta na rua sobe pelas paredes em Veneza, a cidade dos
palcios!
  -Amadeo-disse ele, os lbios em minha garganta como haviam estado mil
vezes,  s que agora senti uma pontada, aguda, rpida. Um fio pregado em
meu corao foi  subitamente puxado. Virara a coisa entre as minhas
pernas, e nada mais que isso. Sua boca se  aninhou contra a minha, e
aquele fio arrebentou de novo, e de novo. Sonhei, acho que vi outro
lugar. Acho que vi as revelaes que eu sentia  dormindo e que nunca
permaneciam quando eu acordava. Acho que segui uma trilha  para
essesjorros de fantasia que eu conhecia dormindo e apenas dormindo. Isso
 o gue quero de voc.
  -Evocprecisater isso-disse eu, palavras impulsionadasparao presente
quase  esquecido enquanto eu flutuava encostado nele, sentindo-o tremer,
sentindo-o  eletrizado com isso, sentindo-o estremecer, sentindo-o puxar
esses fios de dentro de mim,  acelerando meu corao e quase me fazendo
gritar, sentindo-o adorar isso, e  retesar as costas e deixar seus dedos
tremerem e danarem enquanto ele se contorcia  contra mim. Beba, beba,
beba.
  Ele se desvencilhou e deitou de lado.
  Sorri deitado de olhos fechados. Senti meus lbios. Senti uma gotcula
do  nctar ainda grudada em meu lbio, e minha lngua foi busc-la e
sonhei.
  Sua respirao era pesada e ele estava melanclico. Ainda tremia, e,
quando  encontrou-me, sua mo estava instvel.
  - Ah - disse eu ainda sorrindo e beijando-lhe o ombro.
  - Eu o mago! - disse ele.
  - No, absolutamente, doce Mestre - respondi. - Mas eu o mago! Eu o
tenho agora!
  - Amadeo, voc banca o diabo.
  -No quer que eu banque, Mestre? No gostou disso? Tirou o meu sangue
e isso o  transformou em meu escravo!
  Ele riu.
  - Ento esse  o efeito que voc coloca nisso, no ?
  - Humm. Me ame. O que importa? - perguntei.
  -Nunca conte aos outros-disse ele. No havia medo nem fraqueza nem
vergonha  nesse pedido.
  Virei-me, erguendo-me nos cotovelos e olhei para ele, para seu perfil
calmo  voltado para o outro lado.
  - O que eles fariam?
  -Nada-respondeu ele. -  o que eles iriam pensar e sentir que importa.
E no  tenho tempo nem lugar para isso. - Olhou para mim. - Seja
misericordioso e  sbio,  Amadeo.
  Durante um bom tempo, fiquei calado. Apenas olhava para ele. S aos
poucos  percebi que estava assustado. Por um instante pareceu que o medo
obliteraria o  calor  do momento, a glria macia da luz radiosa
aumentando nas cortinas, de planos  reluzentes em seu rosto ebrneo, a
doura de seu sorriso. Ento uma preocupao  mais elevada e mais grave
anulou o medo.
  - Voc no  absolutamente meu escravo, ? - murmurei.
  - Sou - disse ele quase rindo de novo. - Sou, se voc precisa saber.
  - O que aconteceu, o que voc fez, o que foi que...
  Ele encostou o dedo em meus lbios.
  - Voc acha que sou igual aos outros homens? - perguntou.
  - No - respondi, mas o medo subiu na palavra e estrangulou a ferida.
Tentei  me deter, mas, antes que conseguisse faz-lo, abracei-o e tentei
apertar o rosto  contra seu pescoo. Ele era duro demais para essas
coisas, embora pegasse minha cabea  e a beijasse no alto, embora me
puxasse o cabelo para trs e afundasse o polegar em meu rosto.
  - Quero que algum dia voc saia daqui - disse ele. - Quero que v
embora. Voc  levar bens materiais e tudo o que eu tiver podido lhe
ensinar. Levar sua graa  e as muitas artes que aprendeu, a realidade
de saber pintar, tocar qualquer msica  que eu lhe pedir, se j souber
fazer, de saber danar to maravilhosamente. Voc levar essas
realizaes com voc e sair em busca daquelas coisas preciosas de  que
deseja.
  - S quero voc.
  -E quando se lembrar dessa poca, quando,  noite, estando
semi-acordado e,  deitado no travesseiro de olhos fechados, pensar em
mim, esses nossos momentos  parecero corrompidos e estranhssimos.
Parecero bruxaria e as palhaadas dos loucos, e  este quarto
aconchegante talvez se torne a cmara perdida de segredos obscuros e
isso poder lhe trazer sofrimento.
  - No irei.
  -Lembre-se ento de que isso era amor-disse ele.-Que isso era mesmo a
escola  do amor na qual voc curou suas feridas, na qual aprendeu a
falar novamente,  sim,  at a cantar, e na qual nasceu da criana
arrasada como se ela fosse apenas uma  casca de ovo, e voc, o anjo,
saindo dele e subindo com asas grandes e fortes.
  - E se eu nunca for embora por livre e espontnea vontade? Voc me
jogaria de  umajanela para eu ter que voar ou cair? Fechar todas as
portas depois que eu  passar?  melhor fechar, porque vou bater at cair
morto. No quero ter asas que me  afastem de voc.
  Ele me estudou por um tempo longussimo. Eujamais fora olhado com um
prazer  to ininterrupto da parte dele, e ele nunca havia deixado meus
dedos curiosos  tocarem em sua boca por tanto tempo.
  Finalmente ele se levantou a meu lado e delicadamente forou-me para
baixo.  Seus lbios, sempre levemente rosados como o miolo das ptalas
das rosas  brancas, foram ficando vermelhos enquanto eu olhava. Era uma
reluzente linha vermelha correndo  entre seus lbios e irrigando todos
os finos veios de que eram feitos os lbios, colorindo-os na perfeio,
como o vinho poderia colorir, s que esse fluido era  to brilhante que
seus lbios tremeluziam, e, quando ele os abria, o vermelho  explodia
como se fosse uma lngua enroscada.
  Minha cabea foi erguida. Peguei aquilo com minha prpria boca.
  O mundo fugiu-me dos ps. Adernei e fiquei  deriva, abri os olhos e
no vi  nada quando ele fechou a boca sobre a minha.
  - Mestre, eu morro com isso! - murmurei. Agitei-me embaixo dele,
procurando  encontrar um lugar firme nesse vazio intoxicante e
indistinto. Meu corpo se  debatia  e rolava com prazer, meu membros se
retesando e depois flutuando, meu corpo  inteiro saindo dele, de seus
lbios, atravs de meus lbios, meu corpo, o prprio mesmo e o suspiro
do Mestre.
  Veio a pontada, veio a lmina, incomensuravelmente minscula e afiada,
 perfurando minha alma. Contorci-me como se tivesse sido trespassado por
um  espeto. Ah, isso poderia ensinar aos deuses do amor o que era amor.
Isso era a minha libertao  se eu conseguisse apenas sobreviver.
  Cego e trmulo, fui unido a ele. Senti sua mo tapar-me a boca, e s
ento  dtivi mes gritos abafados.
  Segurei seu pescoo, estreitando-o contra minha garganta com toda a
fora - Faa, faa!
  Quando acordei, era dia claro.
  Ele havia ido embora h muito, como sempre fazia. Fiquei deitado
sozinho. Os  rapazes ainda no haviam chegado.
  Levantei da cama e fui at ajanela alta e estreita, o tipo dejanela
que h em  toda parte em Veneza, isolando a cancula do vero e os
ventos glidos do  Adritico quando inevitavelmente chegam.
  Abri as grossas vidraas e olhei para os muros em frente quele meu
refgio  seguro como tantas vezes fizera.
  Uma criada sacudia o esfrego em um balco distante l em cima. Do
outro lado  do canal, eu a observava. Seu rosto parecia lvido e
infestado de alguma coisa,  como se ela estivesse coberta de minsculos
seres vivos, uma agitao de formigas.  Ela no sabia! Apoiei as mos no
parapeito e olhei mais atentamente. Era apenas  a vida dentro dela, o
trabalho da carne dentro dela que fazia a mscara de seu rosto  parecer
que se movia. Mas suas mos pareciam horrendas, nodosas e inchadas, e o
p de sua vassoura  fxando cada ruga.
  Sacudi a cabea. Ela estava longe demais para que eu fizesse essas
observaes.
  Num aposento distante, os rapazes conversavam. Hora de trabalhar. Hora
de  levantar, mesmo no palcio do Senhor da noite que nunca aparece de
dia. Longe  demais  para eu os ouvir.
  E esse veludo agora, essa cortina feita com o tecido preferido do
Mestre,  parecia pele, no veludo, eu via cada fibrazinha. Larguei-a.
Fui procurar o  espelho. A casa tinha dezenas de grandes espelhos
trabalhados, todos com molduras  elaboradas e repletas de minsculos
querubins. Achei o espelho alto da ante- sala, a alcova atrs de portas
empenadas porm I indamente pintadas onde eu guardava minhas  roupas.
  A luz dajanela me seguiu. Eu me vi. Mas eu no era uma massa
fervilhante e  podre, como aquela mulher parecia. Meu rosto era liso
como o de um beb e  imaculadamente branco.
  - Eu quero aquilo! - murmurei. Eu sabia.
  - No - ele me disse.
  Isso foi quando ele veio naquela noite. Esbravejei, fiquei andando de
um lado  para o outro e gritei com ele.
  Ele no me deu explicaes longas, nem feitiaria nem cincia, ambas
as quais  seriam faclimas para ele. S me disse que eu ainda era
criana, e havia coisas  a  serem saboreadas que ficariam perdidas para
sempre.
  Chorei. Eu no queria trabalhar nem pintar nem estudar nem fazer nada
nesse  mundo.
  - Isso perdeu o sabor por algum tempo-disse ele paciente. - Mas voc
vai ficar surpreso.
  - Com o qu?
  - Com o quanto h de lamentar quando tiver acabado completamente,
quando voc  for perfeito e imutvel como eu e todos aqueles erros
humanos puderem ser  triunfantemente suplantados por uma srie nova e
mais assombrosa de falhas. No pea isso de  novo.
  Eu teria achado melhor morrer ento, com dio, furioso e amargurado
demais  para falar.
  Mas ele no terminara.
  -Amadeo-disse ele, a voz carregada de tristeza. -No diga nada. No
precisa.  Eu lhe darei isso imediatamente quando achar que chegou a
hora. Diante disso,  corri para ele como uma criana, atirando-me em seu
pescoo, dando mil beijos em seu rosto gelado apesar de seu sorriso de
desdm.
  Afinal suas mos ficaram como se fossem de ferro. No haveria
brincadeira de  sangue nessa noite. Eu precisava estudar. Precisava
recuperar as lies que eu  desprezara de dia.
  Ele tinha de cuidar dos aprendizes, das tarefas deles, da imensa tela
em que  andava trabalhando, e eu obedeci.
  Mas, bem antes do amanhecer, vi que ele mudou. Os outrosj tinham ido
h muito  tempo para a cama. Eu folheava um livro obedientemente quando
o vi olhando de  sua cadeira com um olhar fixo, animalesco, como se um
rapinante tivesse entrado  dentro dele e expulsado todas as suas
faculdades civilizadas, deixando-o assim,  faminto, de olhos vidrados e
boca avermelhada, o sangue flgido encontrando seus milhares  de
trilhazinhas pelas margens aveludadas de seus lbios.
  Ele se levantou, uma coisa drogada, e veio em minha direo com um
ritmo de  movimentos estranhos e infundiu o terror mais glacial em meu
corao. Seus dedos  faiscaram, fecharam-se, chamaram.
  Corri para ele. Ele me ergueu com ambas as mos, segurando meus braos
com a  maior delicadeza, e mordeu-me o pescoo. Da sola dos ps,
subindo-me pelas  costas,  pelos braos, pelo pescoo e pelo couro
cabeludo, senti.
  Onde ele me atirou, no sei. Seria em nossa cama ou em almofadas
improvisadas  que ele encontrou em outro salo mais prximo?
  -Me d-pedi, sonolento, e, quando aquilo me entrou na boca, eu estava
inconsciente.
  Ele disse que eu precisava ir aos bordis, aprender o que significava
copular  direito - no apenas de brincadeira como fazamos entre os
rapazes.
  Veneza tinha muitas dessas casas, muito bem dirigidas e dedicadas ao
prazer  com o ambiente mais luxuoso. Defendia-se firmemente que tais
prazeres eram pouco  mais que pecados veniais aos olhos do Cristo, e os
rapazes elegantes freqentavam  estes estabelecimentos abertamente.
  Eu conhecia uma casa de mulheres particularmente refinadas e
talentosas, onde  havia beldades muito altas, viosas, de olhos muito
claros do norte da Europa,  algumas cujos cabelos louros eram quase
brancos, consideradas de certa forma diferentes  das italianas mais
baixas que vamos todo dia. No sabia que a diferena fosse  algo to
prioritrio para mim, pois j me deslumbrara com a beleza de rapazes e
mulheres italianos desde que chegara. Moas venezianas de pescoo de
cisne com  elegantes toucados almofadados com fartos vus transparentes
eram quase irresistveis para  mim. Mas ento o bordel tinha todas as
qualidades de mulheres, e o principal era montar tantas quantas eu
pudesse.
  Meu Mestre me levou a essa casa, pagou para mim, uma fortuna em
ducados, e  disse  viosa e encantadora amante que viria me pegar
dentro de alguns dias.
  Dias!
  Fiquei branco de cime e ardendo de curiosidade ao v-lo partir- a
figura  majestosa de sempre com aquelas vestes carmins, entrando na
gndola e dirigindo- me uma piscadela esperta quando o barco o levou.
  Acabei ficando trs dias na casa das mulheres mais voluptuosas
disponveis em  Veneza, acordando tarde, comparando pele cor de oliva
com pele clara e me  regalando em examinar despreocupadamente os plos
inferiores de todas as belezas,  distinguindo os mais sedosos dos
grossos e mais enroscados.
  Aprendi pequenas sutilezas de prazer, tais como quo doce era ter os
mamilos  mordidos (de leve, e elas no eram vampiras) e ter os plos das
axilas, que em  mim  eram escassos, puxados afetuosamente nos momentos
apropriados. Mel dourado era passado em minhas partes baixas s para ser
lambido por anjos  risonhos.
  Havia mais truques ntimos, naturalmente, incluindo atos bestiais que,
 estritamente falando, eram crimes mas que nessa casa eram simplesmente
equipamentos variados a mais para festins sadios e atormentadores. Tudo
era feito com graa, os  fumegantes banhos perfumados eram trazidos com
freqncia em grandes tinas de  madeira, flores boiando na superfcie da
gua tingida de rosa, e eu s vezes ficava  deitado  merc de um bando
de mulheres de voz macia arrulhando para mim como  passarinhos nos
beirais, lambendo-me como gatinhos e me fazendo cachinhos no cabelo.
  Eu era o pequeno Ganimedes de Zeus, um anjo cado dos quadros mais
obscenos de  Botticelli (muitos dos quais, alis, estavam neste bordel,
depois de resgatados  da "Fogueira das Vaidades" erguida em Florena
pelo rgido reformador Savonarola,  que instara com o grande Botticelli
para simplesmente... queimar seu belo  trabalho!), um pequeno querubim
cado do teto da catedral, um prncipe veneziano (figura que
tecnicamente no havia na Repblica) enviado s mos delas pelos
inimigos para  que elas o deixassem inutilizado de tanto desejo.
  Meu desejo ficou mais quente. Se a pessoa tivesse que ser humana para
o resto  da vida, isso era divertidssimo, cair entre almofadas turcas
com ninfas  daquelas  que a maioria dos homens apenas vislumbra em
sonhos em florestas mgicas. Cada fenda  macia era um invlucro novo e
extico para meu esprito brincalho.
  O vinho era delicioso, e a comida, uma maravilha, incluindo pratos
doces e  picantes dos rabes, e era bem mais extravagante e extica que
a servida na casa  do  Mestre. (Quando lhe contei, ele contratou quatro
chefs novos.)
  Aparentemente, eu no estava acordado quando o Mestre veio buscar-me,
e levou- me no sei como para casa, daquele seu jeito misterioso e
infalvel, e  encontrei-me de novo em minha cama.
  Eu sabia que era s ele que eu queria quando abri os olhos. E parecia
que os  repastos sensuais dos ltimos dias s me deixaram mais faminto,
mais inflamado e  mais ansioso para ver se seu corpo branco e encantado
reagiria aos truques mais  ternos que eu aprendera. Atirei-me nele
quando ele finalmente apareceu atrs das  cortinas, e afrouxei-lhe a
camisa e chupei-lhe os mamilos, descobrindo que, apesar de  brancos e
frios, eram macios e estavam intimamente ligados de uma forma
aparentemente normal  raiz de seus desejos.
  Ele ficou ali deitado, gracioso e calado, deixando-me brincar com ele
como  minhas professoras haviam brincado comigo. Quando finalmente me
deu os beijos  sanguinolentos, todas as lembranas de contato humano
foram obliteradas, e fiquei deitado em seus braos, incapaz de qualquer
outra coisa, como sempre.  Parecia que nosso mundo ento no era
meramente um mundo da carne, mas de um  encanto mtuo ao qual todas as
leis naturais cediam.
  Na segunda noite, antes do amanhecer, fui procur-lo no estdio onde
ele  pintava os aprendizes dormindo espalhados como os apstolos infiis
no  Getsmani.
  Ele no pararia por causa de minhas perguntas. Coloquei-me atrs dele,
 envolvi-o com os braos e, nas pontas dos ps, perguntei-lhe baixinho
no ouvido.
  - Diga, Mestre, precisa dizer-me, como ganhou esse sangue mgico?
mordi-lhe as orelhas e afaguei-lhe os cabelos. Ele no parava de pintar.
- Voc  nasceu assim, estarei errado ao supor que foi transformado...
  - Pare com isso, Amadeo - murmurou ele, e continuou pintando.
Trabalhava  furiosamente no rosto de Aristteles, o homem idoso barbado
e de calva  incipiente daquele enorme quadro, A academia.
  -Mestre, existe em voc uma solido que o leve a mandar qualquer
pessoa ter um  amigo de seu prprio feitio, confiar seu corao a algum
capaz de compreender?
  Ele se virou, espantado pela primeira vez com minhas perguntas.
  - E voc, anjinho mimado - replicou, baixando a voz para mant-la
delicada-,  acha que pode ser esse amigo? Voc  inocente! Ser inocente
a vida inteira. Tem  corao de inocente. Recusa-se a aceitar a verdade
que no corresponda a uma f  arraigada que sempre faz de voc o
mongezinho, o aclito...
  Recuei, mais irritado do que nunca com ele.
  -No, eu no serei uma coisa dessas! -declarei. -J sou um homem na
pele de um  garoto, e voc sabe disso. Quem mais sonha com o que voc ,
e com a alquimia de  seus poderes? Quem me dera tirar uma taa de seu
sangue e estudlo como os mdicos  estudariam e determinar a composio
dele e como  diferente do fluido que corre em minhas veias! Sou seu
pupilo, sim, seu aluno, sim, mas, para isso, preciso ser  homem. Quando
toleraria a inocncia? Quando dormimos juntos, chama isso de  inocncia?
Sou um homem.
  Ele estourou numa gargalhada espantadssima. Era uma delcia v-lo to
 surpreso.
  - Conte-me seu segredo - pedi. Abracei seu pescoo e encostei a cabea
em seu  ombro. - Existiu uma Me to branca e forte como voc que o
tenha parido, a  carregadora de Deus, de seu ventre celestial?
  Ele pegou meus braos e afastou-me dele, para poder me beijar, e sua
boca foi  insistente e assustou-me por um momento. Depois, essa boca
passeou por minha  garganta, chupando minha carne e enfraquecendo-me, e
deixando-me sinceramente disposto a  ser qualquer coisa que ele
quisesse.
  - Da lua e das estrelas, sim, sou feito, dessa brancura soberana que 
a  substncia das nuvens e da inocncia - disse ele. - Mas me nenhuma
me pariu,  voc sabe que  assim. J fui homem, um homem envelhecendo.
Olhe... - levantou meu rosto  com as duas mos e me fez estudar o seu. -
Voc est vendo aqui vestgios das  rugas de velhice que j tive, aqui
no canto dos olhos.
  - No  nada-murmurei, pensando em consol-lo se essa imperfeio o
perturbasse. Ele refulgia em seu esplendor, sua maciez lustrosa. As
expresses  mais simples  faiscavam em seu rosto incandescente.
  Imagine uma figura de gelo, feita com tanta perfeio quanto a
Galatia de  Pigmaleo, jogada no fogo, e chiando, e derretendo, e, no
entanto, as feies  maravilhosamente intactas ainda... bem, assim era
meu Mestre quando emoes humanas o  contaminavam, como agora.
  Ele amassou meus braos deliciosamente e tornou a beijar-me.
  - Homenzinho, boneco, elfo - murmurou. - Voc continuaria eternamente
assim?  J no se deitou comigo o bastante para saber o que posso e o
que no posso  gozar?
  Eu o conquistei, mantive-o cativo durante a hora que precedeu sua
partida. Mas  na noite seguinte ele me despachou para uma casa de prazer
mais clandestina e  ainda mais suntuosa, uma casa que mantinha apenas
garotinhos para as paixes alheias.
  Era organizada  moda oriental, e acho que misturava os luxos do Egito
com os  da Babilnia, suas pequenas celas de trelia dourada e colunetas
de lato  cravejado de lpis-lazli prendendo os panos dos tetos sobre
divs de madeira dourada  ornados com borlas e forrados de damasco por
baixo. O ar era impregnado de  incenso, e a iluminao era fraca e
calma.
  Os rapazes nus, bem alimentados, nbeis e.de membros rolios eram
vidos,  fortes, tenazes e colocavam nosjogos seus prprios desejos
msculos e  incontidos. Parecia que minha alma era um pndulo oscilando
entre o prazer sincero da conquista e o desfalecimento da entrega a
membros e vontades mais fortes, e a  mos mais fortes que me jogavam
ternamente de um lado para o outro. Cativo entre  dois amantes hbeis e
determinados, fui perfurado e amamentado, socado e esvaziado at dormir
mais profundamente que nunca sem a magia do Mestre  em casa.
  Isso era s o comeo.
  Em algum momento em meu sonho embriagado, acordei e me vi cercado de
seres que  no pareciam masculinos nem femininos. S dois deles eram
eunucos, operados com  tanta habilidade que podiam erguer suas armas de
confiana t bem quanto  qualquerrapaz. Os outros simplesmente
partilhavam o gosto de seus companheiros  por tinta. Todos tinham olhos
delineados de preto e sombreados de prpura, com clios revirados e
endurecidos para conferir  sua expresso um  alheamento sinistro e
insondvel. Seus lbios pintados pareciam mais fortes que  lbios de
mulher e mais exigentes, empurrando-me em seus beijos como se o elemento
masculino que lhes dera msculos e rgos duros tambm lhes tivesse dado
uma  virilidade at na boca. Eles tinham sorriso de anjo. Anis dourados
enfeitavam seus  mamilos. Seus plos de baixo eram polvilhados de ouro.
No protestei quando me dominaram. Eu no temia extremos, e at os
deixei  amarrar meus pulsos e meus tornozelos  cama, para que pudessem
melhor exercer  seu ofcio.
  Era impossvel tem-los. Fui crucificado com prazer. Seus dedos
insistentes  nem me deixavam fechar os olhos. Acariciavam-me as
plpebras, foravam-me a  olhar.  Eles passavam pincis grossos em meus
membros. Esfregavam-me com leos. Chupavam sem  parar, como se fosse
nctar, a seiva ardente que eu expelia, at eu gritar em  vo que no
conseguia expelir mais. Por diverso, contabilizaram minhas "pequenas
mortes", e fui virado e algemado e preso enquanto caa num sono
exttico.
  Quando acordei, no sabia o que era hora nem preocupao. A densa
fumaa de um  cachimbo entrou-me pelas narinas. Aspirei-a, saboreando o
cheiro forte e  familiar do haxixe.
  Passei quatro noites ali. De novo, fui despachado.
  Dessa vez, acordei grogue, coberto apenas com uma camisa de seda creme
fina e  rasgada. Estava deitado num div trazido do bordel mesmo, mas
aqui era o estdio  do Mestre, e l estava ele, sentado ali perto,
pintando meu retrato, obviamente,  num pequeno cavalete do qual s
tirava os olhos para olhar rapidamente para mim.
  Perguntei as horas e que noite era aquela. Ele no respondeu.
  - Ento voc est zangado por eu ter gostado? - perguntei.
  - Mandei-o ficar quieto - respondeu.
  Recostei-me, cheio de frio, e subitamente magoado, sozinho, talvez, e
querendo  infantilmente esconder-me em seus braos.
  Amanheceu e ele me deixou, sem dizer mais nada. O quadro era uma
obraprima de  obscenidade. Eu estava em posio de dormir na margem de
um rio, um fauno  medocre, que um pastor alto, o Mestre em pessoa, em
vestes sacerdotais vigiava. O bosque   nossa volta era denso e
ricamente executado com rvores de tronco descascado e folhagem
empoeirada. A gua do regato parecia molhada ao toque, to inteligente
era o realismo da pintura, e minha prpria figura parecia ingnua e
profundamente adormecida, minha boca semi-aberta numa expresso natural,
meu cenho  visivelmente perturbado por sonhos desagradveis.
  Atirei o quadro no cho, furioso, querendo borr-lo.
  Por que ele no havia dito nada? Por que me obrigava a ter essas aulas
que nos  afastavam? Por que ficava com raiva de mim s por eu ter feito
o que ele  mandara? Fiquei imaginando se os bordis seriam um teste para
minha inocncia, e se suas  admoestaes para que eu gozasse tudo seriam
mentiras.
  Sentei-me em sua escrivaninha, peguei sua pena e escrevi uma mensagem
para  ele.
  "Voc  o Mestre. Deve saber de tudo.  insuportvel ser governado por
algum  que no sabe. Limpe o caminho, pastor, ou deponha seu basto."
  O fato era que eu havia sido arrancado do prazer, da bebida, da
distoro de  meus sentidos, e estava sozinho s para estar com ele e
para sua orientao e  bondade e para tranqiliz-lo de que eu lhe
pertencia.
  Mas ele se fora.
  Sa para passear. Passei o dia inteiro nas tavernas, bebendo,jogando
cartas,  deliberadamente atraindo as moas bonitas que a isso se
prestavam, para mantlas  a  meu lado enquanto eu jogava os vrios jogos
de azar.
  Ento anoiteceu. Deixei-me seduzir, sem graa, por um ingls bbado,
um nobre  claro e sardento com antiqssimos ttulos franceses e
ingleses, um dos quais  era Marqus de Harlech, em viagem pela Itlia
para ver as grandes maravilhas, e  absolutamente inebriado com suas
muitas delcias, entre elas a prtica da  sodomia numa terra estranha.
  Naturalmente, ele me achou 1 indo. Todo mundo no achava? Ele mesmo
no era  nada feio. At suas sardas tinham um certo encanto,
especialmente dado seu  escandaloso cabelo cor de cobre.
  Ele me levou a seus aposentos num belo palcio supermobiliado e fez
amor  comigo. No foi de todo ruim. Gostei de sua inocncia e sua flta
dejeito. Seus olhos azuis-claros e redondos eram uma maravilha; ele
tinha uns braos  incrivelmente grossos e musculosos e uma barba ruiva
tratada mas deliciosamente spera. Escreveu poemas para mim em latim e
francs e declamou-os com um grande encanto. Aps uma ou duas horas
fazendo o papel do dominador selvagem,  ele revelou que desejava que eu
o cobrisse. E disso, gostei muito. Assim brincamos depois, eu sendo o
soldado conquistador, e ele, a vtima no campo de batalha, e s vezes eu
o chicoteava de leve com um cinturo de couro antes de tom-lo, o que
nos deixava espumando bastante. De vez em quando ele implorava que eu
confessasse quem eu realmente era e onde  ele poderia encontrar-me
depois, o que, evidentemente, eu no iria fazer. Fiquei  l trs noites
com ele, conversando sobre as ilhas misteriosas da Inglaterra e lendo em
voz alta para ele poemas italianos, e at tocando de vez  em quando
bandolim para ele e cantando todas as meigas canes de amor que eu
sabia.
  Ele me ensinou bastante ingls de baixo calo e quis levar-me para
casa.  Precisava botar a cabea no lugar, disse; precisava voltar s
suas  responsabilidades,  suas propriedades, sua mulher escocesa odiosa,
perversa e adltera cujo pai era um  assassino, e a seu filhinho
inocente de cuja paternidade ele tinha certeza, por  causa do cabelo
ruivo encaracolado to parecido com o dele.
  Ele me sustentaria em Londres numa casa deslumbrante de sua
propriedade, um  presente de Sua Majestade o Rei Henrique VII. Agora no
conseguiria viver sem mim, os Harlech tinham de ter o que precisavam
ter, e s me restava ceder a ele. Se eu  fosse filho de um nobre
importantssimo, eu deveria confessar, e algum cuidaria  desse
empecilho. Por acaso eu odiava meu pai? O dele era um patife, todos os
Harlech  eram e tinham sido patifes desde a poca de Eduardo, o
Confessor. Deixaramos  Veneza naquela noite mesmo.
  - Eu no conheo Veneza e voc no conhece a nobreza veneziana-disse
eu  indulgente. - Pense nisso tudo. Voc seria esquartejado por tentar
fazer isso.
  Agora eu estava vendo que ele era bastantejovem. J que todos os
homens mais velhos me pareciam velhos, eu no tinha pensado nisso antes.
Ele no  deveria ter mais de vinte e cinco anos. E tambm era louco.
  Deu um pulo na cama, aquele cabelo cor de cobre esvoaando, e sacou um
punhal,  um formidvel estilete italiano, e ficou me encarando de cima.
  - E ento o que voc vai querer? - perguntei.
  Ouviu-se um estalo atrs dele. Tive certeza de que havia algum do
lado de  fora daquelas janelas de madeira fechadas, embora estivssemos
trs andares  acima do  Grande Canal. Eu lhe disse isso. Ele acreditou.
  - Sou de uma famlia de animais assassinos-menti. - Eles iro atrs de
voc  at o fim do mundo se pensar em me levar daqui; no deixaro pedra
sobre pedra em seus castelos, cortaro voc ao meio e arrancaro sua
lngua e suas partes ntimas,  que eles mandaro para seu rei num
embrulho de veludo. Agora acalme-se.
  -Ah, seu demoniozinho esperto e atrevido-disse ele-, voc parece um
anjo e  discursa como um taverneiro com essa voz mscula doce e
aveludada.
  - Sou, assim mesmo - disse eu alegre.
  Levantei-me, vesti-me s pressas, avisei-lhe que no me matassej,
pois eu  voltaria to logo pudesse, desejando estar s com ele, e,
dando-lhe um beijo  apressado, dirigi-me  porta.
  Ele vacilava na cama, ainda com o punhal na mo. As plumas haviam
pousado em  sua cabea cor de cenoura, seus ombros e sua barba. Ele
parecia realmente  perigoso.
  Perdi a conta das noites em que estive ausente.
  Eu no consegui encontrar igrejas abertas. Queria companhia.
  Estava escuro e frio. Soara o toque de recolher. Obviamente o inverno
veneziano me parecia ameno depois das terras nevadas do norte, onde
nasci, mas  assim mesmo era um inverno mido e opressivo, e, embora
purificada por brisas, a cidade era  inspita e de uma quietude que no
era natural. O cu ilimitado desaparecia em  densos nevoeiros. As
prprias pedras exalavam a friagem, como se fossem blocos de gelo.
  Numa escada de gua, sentei-me, sem me importar que a escada estivesse
 brutalmente molhada, e ca em prantos. O que eu aprendera com tudo
isso? Senti- me sofisticadssimo com essa educao. Mas isso no me
alegrava, e parecia que minha solido era pior que a culpa, pior que a
sensao de estar  condenado.
  Na verdade, parece que a solido substitua aquela velha sensao. Eu
tinha  medo de estar absolutamente s. Sentado ali, olhando para a nesga
de Paraso  negro,  para as poucas estrelas vagando acima das casas,
senti como seria terrvel perder  simultaneamente o Mestre e a culpa,
ser expulso para um lugar onde nada se desse  ao trabalho de me amar ou
de me condenar, estar perdido e vagando pelo mundo s  tendo como
companheiros aqueles humanos, aqueles rapazes e  aquelas moas, o lorde
ingls com seu punhal, at minha amada Bianca. Foi  casa  dela que fui.
Meti-me embaixo de sua cama, como havia feito no passado, e dali no
sairia. Ela estava cuidando de um bando de ingleses, mas  felizmente no
de meu amante ruivo, que sem dvida continuava tropeando nas
plumasPensei: bem, se  aparecer, meu simptico lorde Harlech no far
papel de idiota para se arriscar  a passar vergonha diante de seus
conterrneos. Ela entrou, linda com aquele  vestido de seda violeta com
uma fortuna em prolas radiosas no pescoo. Ajoelhou  e aproximou a
cabea da minha.
  - Amadeo, o que houve com voc?
  Eu nunca havia pedido seus favores. Que eu soubesse, ningum fazia uma
coisa  dessas. Mas naquele meu frenesi adolescente, nada parecia mais
adequado do que  eu  devast-la.
  Sa de baixo da cama e fui fechar as portas, para que o burburinho de
seus  convidados nos deixassem em paz.
  Quando me virei, ela se ajoelhou, olhando para mim, o cenho franzido e
os  aveludados lbios entreabertos numa vaga expresso de espanto que me
encantou.  Eu queria estraalh-la com minha paixo, mas sem tanta
fora, obviamente, presum indo o  tempo todo que ela se recomporia
depois como se um belo vaso, todo quebrado,  pudesse novamente se
recomporjuntando todos os mais nfimos caquinhos e recuperando o
esplendor at com um brilho mais fino.
  Puxei-a pelos braos ejoguei-a na cama. Era um caso  parte essa
maravilha ;  na qual ela dormia sozinha, at onde todos os homens
sabiam. Tinha cisnes  dourados na cabeceira e colunas sustentando um
dossel emoldurado que exibia uma pintura de ninfas danando. Suas
cortinas eram douradas e transparentes.  Essa cama no dava a impresso
de inverno, como a de meu Mestre em veludo vermelho.
  Ajoelhei-me e beijei a enlouquecido por seus olhos lindos e
inteligentes, que  me fitavam tranqilos enquanto isso. Segurei seus
pulsos,juntei suas mos e  agarrei-as, ficando livre para rasgar-lhe o
belo vestido. Rasguei-o com cuidado fazendo com  que todos os
botezinhos de prola cassem para o lado, e seu cinto , foi aberto e
por baixo havia seu corpete de barbatanas e renda. Este, abri como se
fosse uma casca apertada.
  Seus seios eram pequenos e doces, delicados e infantis demais para o
bordel  onde a volpia era o principal. Assim mesmo, eu pretendia
pilh-los. Cantarolei  um  trecho de uma cano para ela, e ento ouvi-a
suspirar. Abaixei-me, ainda segurando  firmemente seus pulsos, e chupei
com fora seus mamilos e depois larguei. Bati  alegremente em seus
peitos, da esquerda para a direita at eles ficarem cor-de-rosa. Ela
estava corada e continuava com o cenho franzido, as  rugas quase
incongruentes em sua testa lisa. Seus olhos pareciam duas opalas, e,
embora piscasse devagar, de um forma quase  sonolenta, ela no se
esquivou.
  Terminei meu servio em suas roupas frgeis. Abri sua saia e
abaixei-a,  encontrando-a esplndida e deliciosamente nua como imaginei.
Eu realmente no  tinha idia do que havia embaixo das saias de uma
mulher respeitvel em termos de  obstculos. Ali no havia nada seno o
ninhozinho dourado de seus plos pbicos,  bem macio abaixo de sua
barriguinha apenas levemente arredondada, e uma umidade a cintilar
entre suas pernas.
  Vi logo que gostava de mim. Dificilmente se poderia dizer que ela
estivesse  indefesa. E aquele brilho que eu via escorrer por entre as
pernas  enlouqueceu-me. Mergulhei nela, espantando-me ao constatar quo
estreita ela era  e como se , encolhia, pois no estava muito
acostumada, e sentiu um pouquinho de  dor. Fiz fora nela, deleitando-me
em v-la corar. Eu me apoiava em cima dela no brao direito, porque no
queria soltar seus pulsos. Ela se contorcia, e suas  tranas louras se
soltaram daquele seu toucado de prolas e fitas, e ela ficou  toda
molhada e cor-de-rosa e lustrosa, como a curva interna de uma grande
concha.
  Por fim, eu j no estava conseguindo me conter, e quando ia
desistindo da  sincronicidade, ela sucumbiu ao suspiro final. Gozei ao
mesmo tempo, e nos  movemosjuntos, ela fechou os olhos, que se injetaram
de sangue como se ela estivesse morrendo,  e agitou a cabea num
derradeiro frenesi antes do relaxamento.
  Rolei na cama e cobri o rosto com os braos, como se estivesse para
ser  esbofeteado.
  Ela riu, e realmente me bateu de repente, com toda a fora nos braos.
No foi  nada. Fingi que chorava de vergonha.
  - Olhe o que voc fez com meu lindo vestido, seu satirozinho
horroroso, seu  conquistador secreto! Seu menino vil e precoce!
  Senti seu peso sair da cama. Ouvi-a se vestindo. Ela cantava para si
mesma. -  O que seu Mestre vai pensar disso, Amadeo? - perguntou.
  Destapei o rosto e procurei localizar de onde vinha sua voz. Ela se
vestia  atrs de seu biombo pintado, um presente de Paris, se bem me
lembrava, oferecido  por  um de seus poetas franceses preferidos.
Apareceu rapidamente, vestida com o mesmo  esplendor anterior com um
vestido verde primavera claro, bordado com as flores  do campo. Ela
parecia um verdadeirojardim de delcias com essas minsculas
florezinhas bordadas com fios caros em seu corpete novo e suas longas
saias de  tafet.
  - Bem, o que o grande Mestre vai dizer quando descobrir que seu amante
 um verdadeiro deus dos bosques ,
  - Amante? - eu estava pasmo.
  Ela tinha modos muito delicados. Sentou-se e comeou a pentear o
cabelo  emaranhado. No usava pintura e seu rosto no ficara marcado por
nossas  brincadeiras, e  seu cabelo solto era um esplendoroso capuz de
ouro refulgente. A Sua testa era lisa e alta.
  - Botticelli criou-a-murmurei.
  Eu lhe dizia isso muitas vezes, porque ela era parecidssima com as
beldades do pintor. De fato, todo mundo achava isso e de vez em quando
lhe levava miniaturas dos quadros desse famoso pintor florentino. Pensei
nisso, pensei em Veneza e nesse mundo em que eu vivia, pensei  nela, uma
cortes, recebendo aque les quadros castos porm lasc ivos como se
fosse uma santa.
  Ecoaram em minha cabea palavras antigas que me foram ditas h muito
tempo,  quando estava ajoelhado diante de uma beleza antiga e polida, e
acheime no auge,  que eu precisava pegar o pincel e pintar apenas "o que
representava a palavra de  Deus".
  No havia tumulto em mim, s uma grande mistura de correntes, enquanto
eu a  observava refazer as tranas, entremeando as mechas com os fios de
prola e as fitas verde-gua, fitas essas bordadas com as mesmas lindas
florezinhas que  lhe ornavam o vestido. Seus seios estavam corados,
saltando-lhe do corpete justo. Eu queria rasg-lo de novo.
  - Minha linda Bianca, o que a faz dizer que sou amante dele?
  - Todo mundo sabe-murmurou ela. - Voc  o favorito dele. Acha que o
enfureceu?
  - Ah, se eu pudesse- disse eu. Sentei-me na cama. - Voc no conhece o
Mestre.  Nada o faz levantar a mo para mim. Nada o faz sequer levantar
a voz. Ele mandou  que eu sasse para aprender todas as coisas, para
aprender o que os homens podem  saber.
  Ela sorriu com um movimento de cabea afirmativo.
  - Ento voc veio se esconder embaixo da cama.
  - Eu estava triste.
  - Tenho certeza-respondeu.-Bem, agora durma, e se ainda estiver aqui
quando eu  voltar, aqueo-o. Mas preciso lhe dizer, meu bagunceiro, que
voc jamais deixar  escapar uma palavra descuidada sobre o que se
passou aqui? Voc  to criana para eu  precisar lhe dizer isso? - Ela
se abaixou para me beijar.
  - No, minha prola, minha beleza, voc no precisa me dizer. Eujamais
 contarei a ele.
  Ela levantou e recolheu as prolas soltas e as fitas amassadas, os
vestgios  do estupro. Esticou a cama. Parecia encantadora como um cisne
humano, preo para  os cisnes dourados de sua cama semelhante a um
barco.
  - Seu Mestre saber - disse ela. - Ele  um grande mgico.
  - Voc tem medo dele? Medo em geral, Bianca, no por causa de mim?
  - No - respondeu ela. - Ele passou a ser o mundo para voc como s um
ente  dessa grandeza pode ser. E agora voc est de fora, louco para
voltar para l. Um homem como aquele  passa a ser tudo para voc, e sua
voz sbia torna-se o parmetro de tudo. Nada do que est alm tem valor,
porque ele no v e no declara que seja valioso.  Portanto voc no tem
outra escolha seno deixar os restos que esto fora da luz  dele e
voltar para ela. Voc precisa ir para casa.
  Ela saiu, fechando as portas. Dormi, recusando-me a ir para casa.
  Na manh seguinte, tomei o desjejum com ela e passei o dia inteiro com
ela.  Nossa intimidade me dera uma idia radiosa dela. Por mais que ela
falasse do  Mestre, agora eu s tinha olhos para ela, nesses seus
aposentos que tinham seu perfume e  todas suas coisas ntimas e
especiais.
  Eu nunca esquecerei Bianca. Nunca.
  Contei-lhe, como se pode contar a uma cortes, tudo sobre os bordis
que eu j  freqentara. Talvez eu me lembre deles com tantos detalhes
pelo fato de ter  contado a ela. Contei-lhe com palavras delicadas,
claro. Mas contei-lhe. Conteilhe como  o Mestre queria que eu aprendesse
tudo e me levara pessoalmente a essas  academias esplndidas.
  - Pois bem, est timo, mas voc no pode ficar aqui, Amadeo. Ele o
levou a  lugares onde voc tem o prazer de muita companhia. Talvez no o
queira  permanentemente na companhia de uma pessoa s.
  Eu no queria ir. Mas anoiteceu, e a casa se encheu daqueles seus
poetas  ingleses e franceses, e a msica e as danas comearam, eu no
queria  compartilh-la com o mundo de admiradores.
  Observei-a durante algum tempo, confusamente consciente de que eu a
tivera em  seu quarto secreto como nenhum daqueles seus admiradoresj a
havia tido ou  poderia vir a t-la, mas isso no me aliviou. Eu queria
algo do Mestre, alguma coisa final e conclusiva e obliterante, e
enlouquecido por este desejo, de sbito plenamente consciente dele,
embriaguei- me numa taberna, embebedando-me o suficiente para ficar
desagradvel, e fui s cegas  para casa. Sentia-me corajoso e desafiador
e muito independente por ter ficado tanto tempo  longe do Mestre e de
todos seus mistrios.
  Ele pintava furiosamente quando voltei. Estava no alto do andaime, e
imaginei  que estivesse pintando os rostos dos filsofos gregos,
trabalhando a alquimia  graas  qual expresses vivas saam de seu
pincel, como se antes reveladas do que  aplicadas.
  Ele estava com uma tnica manchada, comprida at os ps. No se voltou
quando  entrei. Cada braseiro da casa parecia ter sido levado para a
sala a fim de lhe  dar a claridade que ele desejava.
  Os rapazes estavam assustados com a velocidade com que ele cobria a
tela. Logo  vi, ao entrar no estdio, que ele no estava trabalhando no
quadro da Academia  grega. Estava fazendo um retrato meu. No quadro, eu
estava de joelhos, um rapaz de  nosso tempo, com meus cabelos compridos
e umas roupas discretas, como se eu  tivesse deixado o mundo de cores
fortes, e, numa atitude aparentemente inocente, tinha as mos  postas,
em posio de orao. Estava cercado de anjos de fisionomia meiga e
esplendorosos como sempre pareciam, s que agraciados com asas negras.
  Asas negras. Grandes asas emplumadas. Quanto mais eu olhava para a
tela, mais  hediondas pareciam. O rapaz de cabelos fulvos parecia real
olhando mansamente  para o cu, e os anjos pareciam vidos embora
tristes.
  Mas nada no quadro era to monstruoso quanto o espetculo do Mestre
pintando  isso, de sua mo e seu pincel aoitando a tela, fazendo cus,
nuvens, frontes  quebrados, asas de anjo, claridade.
  Os rapazes agarravam-se uns aos outros, convencidos da loucura ou da
feitiaria dele. O que seria? Por que ele se revelava com tanta
displicncia  para aqueles  cujas mentes estavam em paz antes?
  Por que traa nosso segredo, mostrando no ser mais homem do que
aquelas  criaturas aladas que pintava! Por que o Senhor havia perdido a
pacincia daquele  jeito?
  De repente, enfurecido, ele atirou um pote de tinta no canto do
aposento. Uma  mancha verde-escura desfigurou a parede. Ele praguejou e
gritou numa lngua que  nenhum de ns conhecia.
  Atirou os potes no cho, e a tinta derramou toda do andaime de madeira
 formando grandes borres lustrosos. Arremessou os pincis como se
fossem  flechas.
  - Saiam da, vo para suas camas. No quero v-los, inocentes. Vo
embora.
  Os aprendizes fugiram dele. Riccardo foi reunir os meninos menores.
Todos  saram correndo porta fora.
  Ele sentou-se no andaime, as pernas balanando, e simplesmente ficou
olhando  para mim l embaixo, como se no soubesse quem eu era.
  - Desa, Mestre - falei.
  Seu cabelo estava desgrenhado e salpicado de tinta. Ele no demonstrou
estar  surpreso com minha presena, no se sobressaltou ao ouvir a minha
voz. Sabia que  eu estava l. Sabia de tudo. Ouvia o que se falava em
outras salas. Conhecia os  pensamentos das pessoas que o cercavam. Ele
estava impregnado de magia, e,  quando eu bebia dessa magia, ficava
tonto.
  - Deixe-me pente-lo - disse eu.
  Fui insolente, eu sabia.
  Sua tnica estava manchada e suja. Ele limpou o pincel nela vrias
vezes. Uma  de suas sandlias caiu ruidosamente no cho de mrmore.
Peguei-a.
  - Mestre, desa. Se eu disse alguma coisa para preocup-lo, no vou
tornar a dizer.
  Ele no me respondia.
  De repente minha raiva toda veio  tona, minha solido porter sido
separado  dele durante dias a fio, obedecendo s suas ordens, e agora
voltar para casa e  encontr-lo com aquele olhar selvagem e desconfiado
para mim. Eu no toleraria aquele olhar  perdido, ignorando-me como se
eu no estivesse ali. Ele precisava admitir que eu era a causa de sua
raiva. Precisava falar.
  Senti vondade de chorar.
  Seu rosto ficou angustiado. Eu no conseguia olhar para isso; no
conseguia  pensar que ele sentia dor como eu, como os outros rapazes. Eu
estava  revoltadssimo. - Voc assusta todo mundo egoistamente, Senhor e
Mestre! - declarei.
  Sem olhar para mim, ele desapareceu ventando, e ouvi seus passos
correndo  pelas salas vazias.
  Eu sabia que ele andava numa velocidade que os homens no conseguiam
dominar.  Corri atrs dele, s para ouvir as portas do quarto serem
fechadas na minha  cara,  para ouvir a tranca se fechar antes que eu
conseguisse alcanar o ferrolho.
  - Mestre, deixe-me entrar-gritei.-S fui porque voc mandou.-Dei
voltas e  voltas. Era quase impossvel arrombar essas prtas.
Esmurrei-as e chutei-as. -  Mestre,  voc me mandou para os bordis.
Mandou-me fazer coisas execrveis.
  Depois de muito tempo, sentei-me no cho, encostado na porta, e fquei
chorando  e gemendo. Fiz um grande escarcu. Ele esperou at eu parar.
  - V dormir, Amadeo - disse. - Minhas frias no tm nada a ver com
voc.
  Impossvel. Mentira! Eu estava furioso e insultado, e magoado e com
frio! Essa  casa toda estava fria que era uma desgraa.
  - Ento deixe que sua paz e tranqilidade tenham a ver comigo, Mestre!
disse  eu. - Abra essa porta desgraada.
  - V para a cama com os outros - disse ele com calma. - O seu lugar 
com os  outros, Amadeo. Eles so os seus queridos. So de sua espcie.
No procure a  companhia de monstros.
  - Ah,  isso o que voc ? - perguntei com desprezo e irritao. -
Voc que  pode pintar como Bellini ou Mantegna, que sabe ler todas as
palavras e falar  todas  as lnguas, que tem um amor infinito e uma
pacincia na mesma medida, um monstro?   isso? Um monstro nos abriga
embaixo de um teto e nos d de comer todos os dias  com alimentos da
cozinha dos deuses! Ah,  mesmo, um monstro.
  Ele no respondeu.
  Fiquei com mais raiva. Desci para o trreo. Peguei um grande machado
de  batalha da parede. Era uma de muitas armas em exibio naquela casa,
e at ento  eu mal  a notara. Bem,j estava na hora de notar, pensei.
Estou farto desse frio. No  agento. No agento.
  Subi e ergui o machado diante da porta. Naturalmente ele rompeu a
madeira  frgil, estraalhando o painel pintado, quebrando toda aquela
laca antiga e as  lindas  rosas amarelas e vermelhas. Puxei-o e tornei a
golpear a porta. Desta vez a fechadura foi arrombada. Dei um pontap na
estrutura avariada e ela  caiu.
  Espantadssimo, ele estava sentado em sua enorme cadeira de carvalho
olhando  para mim, segurando os dois braos de cabea de leo. Atrs
dele, assomava a imensa cama com seu rico baldaquim vermelho debruado de
ouro.
  - Que ousadia! - ele exclamou.
  Num instante, ele estava diante de mim. Pegou o machado e arremessou-o
com  facilidade contra a parede de pedra em frente. Ento pegou-me e
atirou-me na  cama. A  cama toda estremeceu, o baldaquim e os
cortinados. Nenhum homem poderia ter-me feito  voar to longe. Mas ele
conseguira. Batendo os braos e as pernas, aterrissei  nos travesseiros.
  - Monstro desprezvel! - gritei.
  Virei-me, equilibrei-me e ergui-me apoiado no lado esquerdo,
fuzilando-o com o  olhar, um joelho torcido. Ele estava de costas para
mim. Ia fechar as portas internas do apartamento, que  estavam abertas e
por isso no foram quebradas. Mas parou. Virou-se. Seu rosto  assumiu
uma expresso brincalhona.
  - Ah, que temperamento horrvel ns temos com essa cara de anjo
comentou,  suave.
  - Se sou anjo - repliquei, recuando da beira da cama -, pinte-me com
asas  pretas.
  - Voc ousa derrubar minha porta - cruzou os braos. - Precisarei lhe
dizer  por que no tolerarei uma coisa dessas de voc, nem de ningum?
  Ficou me olhando com as sobrancelhas erguidas.
  - Voc me tortura - respondi.
  - Ah, de fato, como e desde quando?
  Eu queria gritar. Queria dizer "s amo voc". Em vez disso, falei:
  - Detesto voc.
  Ele no conseguiu fazer outra coisa seno rir. Abaixou a cabea, a mo
fechada  sob o pescoo, enquanto olhava para mim.
  Ento estendeu a mo e estalou os dedos.
  Ouvi um farfalhar nas salas l fora. Sentei-me na cama, petrificado de
 espanto. Vi a longa vara do professor deslizando pelo cho como se
empurrada para c por  um p-de-vento, ento ela se torceu, envergou e
ficou em p e caiu na mo dele  que aguardava. Atrs dele, as portas
internas se fecharam e o ferrolho deslizou para a tranca  com um barulho
metlico.
  Recuei na cama.
  - Ser um prazer lhe dar uma surra - disse ele, sorrindo com doura, o
olhar  quase inocente. - Voc pode registrar isso como outra experincia
humana, mais  ou  menos como brincar com seu lorde ingls.
  - D logo. Odeio voc - retruquei. - Eu sou homem e voc nega isso.
Ele tinha  um ar superior e gentil, mas no divertido.
  Veio em minha direo e agarrou minha cabea, e atirou-me de cara na
cama.
  - Demnio! - exclamei.
  - Mestre - retrucou ele calmamente.
  Senti seu joelho encostar na base de minhas costas, e a vara desceu-me
nas  coxas. Naturalmente eu no estava usando nada alm das meias finas
que a moda  ditava, logo era o mesmo que estar nu.
  Gritei de dor e ento fechei a boca. Quando senti as prximas
vergastadas nas  pernas, engoli o som, furioso de me ouvir deixar
escapar por descuido um gemido  impossvel. Ele descia o pau sem parar
em minhas coxas e em minhas panturrilhas tambm.  Furioso, esforcei-me
para ficar em p, apoiando-me em vo nas cobertas com o  dorso da mo.
Eu no conseguia me mexer. Estava imobilizado pelo joelho dele, e ele me
batia sem que nada o detivesse.
  De repente, mais rebelde do que nunca, resolvi brincar com isso. Que
eu me  danasse se fosse ficar ali chorando, e as lgrimas comeavam a
aflorar em meus  olhos.
  Fechei-os, cerrei os dentes e decidi que cada golpe era a divina cor
vermelha  que eu adorava, e que a dor lancinante que eu sentia era
vermelha, e que o ardor  que se avolumava em minha perna depois era
dourado e doce.
  - Ah, que gostoso! - provoquei.
  - Voc faz um trato de idiota, menino! - disse ele.
  Bateu-me mais rpido e com mais fora. Eu no conseguia conservar
minhas belas  vises. Doa, doa como a peste.
  - No sou um menino! - gritei. Senti uma sensao de molhado na perna.
Sabia que estava sangrando. - Mestre,  est pretendendo me desfigurar?
  - No h nada pior para um santo decado do que ser um diabo horrendo!
  Mais golpes. Eu sabia que estava sangrando em mais de um ponto. Eu
ficaria  todo machucdo. No conseguiria andar.
  - No sei do que est falando! Pare!
  Para meu espanto, ele parou. Cobri o rosto com o brao e solucei.
Fiquei  soluando um bom tempo, e minhas pernas ardiam como se a vara
ainda estivesse  batendo  nelas. Parecia que eu continuava recebendo
vergastadas, mas no estava. Fiquei  torcendo, tomara que essa dor se
transforme de novo em algo quente, algo  gostoso, que fique formigando
como nas primeiras vezes. Assim estaria bem, mas essa dor est
terrvel. Odeio-a!
  De repente, senti-o cobrir-me. Senti seu cabelo fazendo ccegas em
minhas  pernas. Senti seus dedos quando ele pegou aquelas meias
esfarrapadas e rasgou- as, arrancando-as muito rpido de minhas duas
pernas, que ficaram nuas. Ele ps a mo embaixo de  minha tnica e
soltou o resqucio do calo. A dor latejava. Piorou, depois melhorou um
pouco. O ar estava frio em minhas  equimoses. Quando ele tocou nelas,
senti um prazer to terrvel que s consegui  gemer.
  - Vai tornar a derrubar minha porta?
  - Nunca - murmurei.
  - Vai me desafiar de alguma forma especfica?
  - Nunca de forma nenhuma.
