Os Sentidos do Tempo na Contemporaneidade -

Aproximações e distanciamentos entre o pensamento

de Anthony Giddens e David Harvey.

 

Annamaria da Rocha Jatobá Palacios*

 

 

"Só podemos esquecer o tempo fazendo uso dele" - Baudelaire

 

Pretendemos, através deste texto, abordar as noções acerca do tempo na contemporaneidade, a partir das interpretações dos autores David Harvey e Anthony Giddens inseridas, respectivamente, nas obras: "A Condição Pós-Moderna" e "As Consequências da Modernidade". Estas obras representam uma sedimentada análise acerca dos fenômenos sócio-político-culturais da atualidade, abordando também suas relações com os conceitos e sentidos de tempo.

Objetivamos, ao selecionarmos as trajetórias traçadas por cada um destes autores, identificar quais os pontos de aproximação e de distanciamento entre as interpretações de um e de outro, em suas análises sobre a temporalidade. Os dois autores salientam e parecem concordar que as novas maneiras de lidarmos com o tempo e o espaço são relevantes, neste "limiar de uma nova era".

Compreender o tempo na contemporaneidade, para ambos, deixou de ser uma "tarefa" unicamente atribuída às ciências exatas, ou seja, mais exatamente destinada às ciências físicas. Tanto Harvey, quanto Giddens, ressaltam a importância de se compreender de que maneira experenciamos o tempo, enquanto categoria histórica e social.

Giddens enfatiza a responsabilidade da sociologia nesta missão de investigá-lo. Harvey fundamenta sua análise do tempo, a partir de considerações acerca de como nosso modo de pensar e de sentir atravessam mudanças abissais, nesta passagem da modernidade à pós-modernidade, na cultura contemporânea. Para este autor, estas mudanças podem ser constatadas, inclusive, através da análise de práticas e processos materiais que servem para a reprodução da vida social.

Giddens e Harvey não somente investigam o tempo, mas outros fenômenos que também poderiam evidenciar de que maneira estas transformações estão se processando na atualidade. Como exemplo, Giddens menciona o fator confiança como um elemento estruturador dos sistemas peritos e define estes sistemas como "meios de excelência técnica ou competência profissional, que organizam grandes áreas dos ambientes material e social em que vivemos hoje"; também analisa como a produção do conhecimento vem se transformando e como a ciência vem perdendo seu lugar como referencial seguro e certo para compreensão dos enigmas que cercam a existência humana. Harvey enfatiza a passagem do sistema de produção baseado no fordismo para o sistema de acumulação flexível; analisa como as barreiras espaciais do planeta foram rompidas e várias partes do extenso globo são postas em imediata conexão, através das novas tecnologias de comunicação; destaca também como os trabalhadores necessitam cada vez mais de qualificação e requalificação, uma vez que as profissões parecem requerer uma atualização constante, e investiga detalhadamente como a consciência humana vem sendo formada pelo incessante estímulo que as imagens exercem em nossas vidas cotidianas...

Dentre todas estas possibilidades de abordagem, optamos por examinar as concepções de tempo notoriamente presentes nos dois autores. Para ambos, a forma como vivenciamos o tempo é marcadamente evidenciadora de uma nova ordem social, que pode ser ou não denominada de pós-moderna.. Os autores compartilham de uma mesma certeza: a de que o tempo se tornou o ponto de organização e de reestruturação do mundo dos indivíduos, através de sua penetração em todos os setores da vida social.

Ambos admitem estarmos num limiar de uma nova era, embora Giddens, em nenhum momento, sinta-se à vontade para denominá-la de "pós-moderna". Harvey, por sua vez, não polemiza a nomenclatura e a utiliza de maneira constante e habitual.

Para tentar estabelecer os elos entre Giddens e Harvey não será possível passar completamente à margem da polêmica existente acerca da pós-modernidade, por entendermos que, para chegarmos à apreciação das dimensões temporais na contemporaneidade, será necessário levarmos em conta algumas análises elaboradas a partir de uma problematização teórica mais ampla acerca das transformações sociais. Em conformidade com Harvey, estas transformações sofreram uma crescente aceleração nestas últimas quatro décadas, representando também para alguns teóricos uma espécie de sinalização do surgimento de uma sociedade pós-capitalista, ou mesmo pós-industrial, inteiramente nova.

Segundo Giddens, não seria inventando novos termos, ou denominações, que teríamos a compreensão de qual época estamos vivenciando. Para o autor, também não é suficiente afirmar, como fazem alguns autores (Giddens se refere a Jean-François Lyotard ), que a pós-modernidade se refere a um deslocamento das tentativas de fundamentar a epistemologia e da fé no progresso planejado humanamente. Giddens afirma que, para Lyotard, a condição da pós-modernidade é caracterizada pela evaporação da grand-narrative, ou seja, do "enredo" dominante por meio do qual todos nós somos inseridos na história como seres tendo um passado definitivo e um futuro predizível. Para Lyotard, a ciência não tem um lugar privilegiado neste novo estado de coisas, caracterizado também por uma pluralidade de reivindicações heterogêneas de conhecimento.

É justamente a partir destas afirmações que Anthony Giddens faz questão de pontuar, cuidadosamente, seu entendimento acerca deste "limiar de uma nova era". Para ele, uma epistemologia coerente ainda é possível de ser realizada e compete à sociologia (enquanto disciplina mais integralmente envolvida com o estudo da vida social moderna) responder em que época nos encontramos, produzindo um conhecimento generalizável sobre a vida social. Segundo assegura o autor, padrões de desenvolvimento social podem ser alcançados, neste campo de conhecimento.

Giddens destaca que "a desorientação que se expressa na sensação de que não se pode obter um conhecimento sistemático sobre a organização social, resulta em primeiro lugar, da sensação de que muitos de nós temos sido apanhados num universo de eventos que não compreendemos plenamente e que parecem em grande parte estar fora de nosso controle". (1991:12). Novamente, o autor adverte que para compreendermos como isto veio a ocorrer, a criação de novos termos não vai nos responder

Prosseguindo com a preocupação de responsabilizar a Sociologia na tarefa de enfrentar a análise desta nova ordem social, o autor afirma que é necessário, antes de tudo, olhar para a própria natureza da Modernidade buscando perceber que poderemos estar experimentando um estado de radicalização e de universalização de suas potencialidades. Para ele, este estado de coisas parece nos dar a idéia de "encerramento", de algo que pode até estar adiante, ou seja, para "além" da modernidade, podendo sugerir que nos encontramos numa época de "pós-modernidade". Cautelosamente, Giddens adverte: "o fato de vivenciarmos uma época de pós-modernidade não significa que ela pode, consequentemente, ser denominada de pós- moderna" . (1991: 13)

O autor conclui que este novo debate acerca das consequências da modernidade deve enfrentar as deficiências das posições sociológicas estabelecidas. E propõe uma abordagem crítica de alguns pontos de vista dominantes da sociologia, ou seja, suas concepções têm origem no que assegura ser o "outro lugar de uma interpretação descontinuísta do desenvolvimento social moderno".(1991:13). Ele quer dizer que as instituições sociais modernas são, sob certos aspectos, únicas (o grifo é nosso).

Para realizar esta abordagem, Giddens afirma ser necessário "capturar a natureza das descontinuidades em questão, como preliminar necessária para a análise do que a modernidade realmente é, bem como para o diagnóstico de suas consequências, para nós, no presente"(1991:13). Portanto, considerando que, indiscutivelmente, existem descontinuidades em várias fases do desenvolvimento histórico, o autor não está preocupado com estas. Por exemplo, não se constituem como foco de seu interesse os pontos de transição entre sociedades tribais e a emergência de estados agrários. O que o autor quer sublinhar é "aquela descontinuidade específica, ou o conjunto de descontinuidades, associados ao período moderno". (1991:14).

Para David Harvey, o estado de coisas que prevalece neste fim de milênio se traduz no que denomina de "condição pós-moderna". Mais categórico e mais à vontade quanto às nomenclaturas relacionadas a este "estado de coisas", Harvey afirma que vem ocorrendo uma mudança abissal nas práticas culturais, bem como político-econômicas, desde mais ou menos 1972. O autor defende que esta mudança está vinculada à emergência de novas maneiras dominantes pelas quais experimentamos o tempo e o espaço. E explica :

"Embora a simultaneidade nas dimensões mutantes do tempo e do espaço não seja prova de conexão necessária ou causal, podem-se aduzir bases a priori em favor da proposição de que há algum tipo de relação necessária entre a ascensão de formas culturais pós-modernas, a emergência de modos mais flexíveis de acumulação do capital e um novo ciclo de ‘compressão do tempo-espaço’ na organização do capitalismo."(1992: 08)

Mais adiante, reacendendo a celeuma acerca de como devemos chamar e de como se configura este "novo estado de coisas", Harvey parece estar convencido da tarefa de analisar mais profundamente a essência do pós-modernismo (1992 : 09):

"(...) o clamor dos argumentos pós-modernos antes aumentou do que diminuiu com o tempo. Uma vez vinculado com o pós-estruturalismo, com o pós-industrialismo e com todo um arsenal de outras "novas idéias", o pós-modernismo dava a impressão crescente de uma poderosa configuração de novos sentimentos e pensamentos. Ele parecia a caminho de desempenhar um papel crucial na definição da trajetória do desenvolvimento social e político apenas em virtude da maneira como definia padrões de crítica social e de prática política. Em anos recentes, ele vem determinando os padrões do debate, definindo o modo do ‘discurso’ e estabelecendo os parâmetros para a crítica cultural, política e intelectual".

Diante da abrangência que caracteriza a interpretação de David Harvey acreditamos ser oportuno explicar qual o caminho que tomamos ao examinarmos sua obra. Primeiramente, poderíamos dizer que, diferentemente de Anthony Giddens que examina a relação do tempo e do espaço na modernidade a partir de uma análise que se centra, sobremaneira, nas mudanças intrínsecas das instituições sociais, David Harvey amplia seu campo de análise quando passa a examinar os "espaços e tempos individuais na vida social", partindo de autores como Bourdieu, Bachelard, de Certeau e Foucault e relacionando as interpretações mais importantes de cada um destes pensadores a categorias subjetivas de tempo e de espaço.

Após esta incursão ao que o próprio autor denomina de "geografia temporal", ele aborda "tempo e espaço como fontes de poder social" e, elastecendo ainda mais sua análise, faz uma ampla retrospectiva ao projeto do Iluminismo (muito embora, admitamos, Giddens também a faça só que, diferentemente de Harvey, esta retrospectiva permeia todo o seu texto) para explicar, fundamentalmente (o destaque é nosso), como as noções de tempo e espaço se comportavam face às invenções do cronômetro, como meio de mensuração do tempo, e a invenção da perspectiva, como uma alteração fundamental que repercute até nossos dias, em nossa visão do espaço físico e natural.

Embora reconhecendo a riqueza da abrangência da interpretação de David Harvey, objetivamos recortar sua análise e traçarmos os paralelos entre suas noções e as noções de Giddens, delimitando um terreno comum entre ambos, comprometido com a análise das noções conceituais acerca do tempo na contemporaneidade.

A interpretação de Giddens é bem mais contida, sóbria, didática e essencialmente sociológica, circunscrita a uma análise macrossocial a partir da delimitação das instituições sociais na modernidade. Já a obra de Harvey é essencialmente eclética, constantemente matizada pela presença de inúmeros pensadores modernos, desde teóricos a célebres poetas modernistas (como Baudelaire e T. S. Eliot) e a pronunciamentos de escultores, pintores, arquitetos e músicos. Enfim, um caminho que parece pretender uma interpretação das práticas culturais (principalmente artísticas) e suas relações, em particular, com as mutantes alterações das noções do tempo e espaço.

As divergências entre os autores localizam-se na intensidade do alcance destas transformações quanto às suas repercussões sociais: Giddens é categórico ao afirmar que, fundamentalmente, estas transformações estão no âmago das instituições sociais modernas, enquanto Harvey afirma que estão no sentir e no pensar definindo padrões de ação social e reafrima que esta fase do desenvolvimento econômico, político e cultural é realmente "desestabilizadora".

Embora de uma maneira abreviada, introduzimos, neste momento, o inevitável debate acerca da pós-modernidade, destacando suas descontinuidades como elemento diferenciador no pensamento de Anthony Giddens, que enfatiza a necessidade de um enfoque diferenciado na abordagem da teoria evolucionista através da desconstrução da linha da história, que ainda pode também significar a própria "quebra do evolucionismo". Para o autor, nunca uma época histórica, principalmente nestes últimos três ou quatro séculos (aliás, segundo ele, "tempo diminuto em se tratando de história"), provocou mudanças tão dramáticas e tão abrangentes, quanto a modernidade. Giddens acrescenta que "os modos de vida produzidos pela modernidade nos desvencilharam de todos os tipos tradicionais de ordem social, de uma maneira que não tem precedentes", mas que dispomos apenas de ajuda limitada de nosso conhecimento de períodos precedentes de transição na tentativa de interpretá-las. (1991: 14).

Conforme Giddens, a influência do evolucionismo social, através de uma formulação consensual de que a história, mesmo passando por fases de turbulências sociais e intempéries as mais diversas, parece estabelecer um "fio condutor", ou seja, uma espécie de "direção global". O evolucionismo social, no entendimento do autor, é um dos obstáculos para que o caráter descontinuísta da modernidade seja devidamente apreciado. Para ele, algumas teorias evolucionárias, até mesmo o marxismo, admitem que após as turbulências, a história retoma seu curso. Para o autor, parece mesmo existir um certo "enredo", ou consenso social, de que "a história começa com culturas pequenas, isoladas, de caçadores, de coletores, se movimenta através do desenvolvimento de comunidades agrícolas e pastoris e aí para a formação dos estados agrários, culminando na emergência de sociedades modernas no Ocidente".

A partir desta orientação recomendada por Giddens, como "desconstruir" o evolucionismo social? Na opinião do autor, este processo se concretizaria a partir da aceitação de que a história não pode ser vista como uma unidade, ou como refletindo certos princípios unificadores de organização e transformação. Entretanto, o autor não acredita que devamos ir ao extremo aposto e pregar o caos, admitindo que um número infinito de "histórias" pode ser registrado.

Pensando-se assim, como deveríamos identificar as descontinuidades que separam as instituições sociais modernas das ordens sociais tradicionais ? Segundo Giddens, diversas características estão envolvidas neste processo: a primeira delas é o ritmo de mudança que a era da modernidade põe em movimento. Esta rapidez da mudança em condição de modernidade é extrema, parecendo mais notória na esfera tecnológica, mas permeando também outros campos sociais.

A segunda característica é o escopo da mudança: uma outra dimensão do mundo é vivenciada, quando diferentes áreas do globo são postas em conexão. Uma terceira característica diz respeito à natureza intrínseca das instituições modernas. Giddens afirma que algumas formas sociais que se apresentam na modernidade, inexistiram em períodos históricos precedentes, tais como: o sistema político do estado-nação, a dependência por atacado da produção de fontes de energia inanimadas, ou a completa transformação em mercadoria de produtos e trabalho assalariado. (1991:16).

Segundo Giddens, qualquer ser humano que vive no século atual goza de uma existência mais segura e gratificante que em qualquer sistema pré-moderno. Mesmo assim, o autor destaca que a modernidade tem seu lado bastante sombrio, convivendo com o lado das oportunidades. Embora traga à luz do debate os célebres fundadores da sociologia clássica (como Karl Marx, Durkheim,e Max Weber), o autor salienta que estas personalidades enfatizaram mais fortemente o caráter benéfico da modernidade acreditando que as possibilidades positivas superariam suas características negativas. Reconhecendo a existência desta duplicidade do caráter social da modernidade, Giddens utiliza uma metáfora interessante: a de que a modernidade é um "fenômeno de dois gumes".

Com um olhar mais contemporâneo que o dos três patriarcas, Giddens descobre e reivindica duas preocupações que se encontram ausentes na obra dos três fundadores da sociologia clássica: "faltaram as preocupações ecológicas e uma apreciação mais justa quanto ao uso consolidado do poder político". (1991:17).

Mesmo com o pessimismo de Weber (que via o mundo moderno como um mundo paradoxal, onde o progresso material era obtido apenas à custa de uma expansão da burocracia que esmagava a criatividade e a autonomia individuais), o autor destaca que nem mesmo ele, conseguiu antecipar plenamente o quão extensivo viria a ser o lado sombrio da modernidade....

Giddens se queixa que, muito embora os três autores tenham visto que o trabalho industrial moderno traria consequências degradantes, submetendo os homens à disciplina de um labor maçante e repetitivo, nenhum dos três chegou a prever que o desenvolvimento das forças de produção teria um potencial destrutivo em larga escala em relação ao meio ambiente material.

Para descrever este lado sombrio da modernidade Giddens registra seu pensamento:

" O mundo em que vivemos hoje é um mundo carregado e perigoso. Isto tem servido para fazer mais do que simplesmente enfraquecer ou nos forçar a provar a suposição de que a emergência da modernidade levaria à formação de uma ordem social mais feliz e segura. A perda da crença no ‘progresso’, é claro, é um dos fatores que fundamentam a dissolução de ‘narrativas’ da história". (1991:19).

Quanto à modernidade e quanto ao curso da história, Harvey afirma que se a vida moderna está de fato tão permeada pelo sentido do fugidio, do efêmero, do fragmentário e do contingente, há algumas profundas consequências. Harvey continua enumerando estas consequências: "Para começar, a modernidade não pode respeitar sequer o seu próprio passado, para não falar do de qualquer ordem social pré-moderna. A transitoriedade das coisas dificulta a preservação de todo sentido de continuidade histórica. Se há algum sentido na história, há que descobri-lo e defini-lo a partir de dentro do turbilhão da mudança, um turbilhão que afeta tanto os termos da discussão como o que está sendo discutido. A modernidade, por conseguinte, não apenas envolve uma implacável ruptura com todas e quaisquer condições históricas precedentes, como é caracterizada por um interminável processo de rupturas e fragmentações internas inerentes." (1992: 22)

Assemelhando-se à metáfora utilizada por Giddens de que "a modernidade é um fenômeno de dois gumes", Harvey também enfoca seu lado sombrio quando destaca que o século XX com seus campos de concentração e esquadrões da morte, seu militarismo, duas guerras mundiais, sua ameaça de aniquilação nuclear e sua experiência de Hiroshima e Nagasaki, certamente deitou por terra o otimismo destacado por Habermas, quando cita Condorcet. E complementa : "pior ainda, há a suspeita de que o projeto do iluminismo estava fadado a voltar-se contra si mesmo e transformar a busca da emancipação humana num sistema de opressão universal em nome da libertação humana". Segundo ele, esta é a tese apresentada por Adorno e Horkheimer em "A Dialética do Esclarecimento", de 1972.(1992:23)

Partindo de uma análise que não se fixa, centralmente, nas transformações ocorridas nas dimensões intrínsecas das instituições sociais (como no caso de Giddens), Harvey procura observar, principalmente, como se comportam as práticas culturais, nas dimensões da cultura artística e como as dimensões temporais e espaciais estão representadas nestas práticas. Vejamos o que ele afirma : "o modernismo só podia falar do eterno ao congelar o tempo e todas as suas qualidades transitórias, para o arquiteto, encarregado de projetar e construir uma estrutura espacial relativamente permanente, tratava-se de uma proposição bem simples. A arquitetura, escreveu Mies van der Rohe nos anos 20, ‘é a vontade da época concebida em termos espaciais’. Mas, para outros, a ‘espacialização do tempo’ através da imagem do gosto dramático e do choque instantâneo, ou simplesmente, pela montagem/colagem era mais problemática. T. S. Eliot debruçou-se sobre o problema, em Four Quartets :

Ser consciente é não ser no tempo/

Mas só no tempo pode o instante no canteiro de rosas,/

O instante na pérgola onde a chuva cai,/

Ser lembrado; envolvido no passado e no futuro. /

Só pelo tempo é o tempo conquistado."

 

Finalmente, ao chegarmos ao tempo, destacamos uma afirmação de David Harvey que resgata a idéia da existência do "sujeito alienado" como uma finalidade do projeto do Iluminismo. Supomos a partir destas afirmações do autor ( não explicadas com um detalhamento que julgamos necessário), que a existência deste "sujeito alienado" era condição indispensável para se fazer cumprir as intenções deste projeto iluminista com suficientes tenacidade e coerência. O projeto do Iluminismo estando voltado para este "sujeito alienado" cumpriria sua missão emancipadora de tirá-lo do estado de barbárie e, em assim fazendo, apontava para uma possibilidade de um futuro melhor. Neste projeto, a dimensão temporal, significava o tempo que apontava para o futuro, na expectativa de dias melhores.

Na era da pós-modernidade, segundo Harvey, parece que perdemos este "sujeito alienado" e, consequentemente, perdemos a crença de construção de futuros sociais alternativos. A fim de explicar esta alienação do sujeito, Harvey parece concordar com Jameson quando o cita: "na estética pós-moderna, a alienação do sujeito é deslocada pela fragmentação do sujeito". Para justificar este atual estado de coisas, vejamos o que defende Harvey quando evoca Fredric Jameson (1992:57):

"A redução da experiência a ‘uma série de presentes puros e não relacionados no tempo’ implica também que a ‘experiência do presente se torna poderosa e arrasadoramente vívida e material: o mundo surge diante do esquizofrênico com uma intensidade aumentada, trazendo a carga misteriosa e opressiva do afeto, borbulhando de energia alucinatória’. A imagem, a aparência, o espetáculo podem ser experimentados com uma intensidade (júbilo ou terror) possibilitada apenas pela sua apreciação como presentes puros e não relacionados no tempo. Por isso, o que importa ‘se o mundo perde assim, momentaneamente, sua profundidade e ameaça tornar-se uma pele lisa, uma ilusão estereoscópica, uma sucessão de imagens fílmicas sem densidade’?" (1984,120)

Para Harvey, o caráter imediato dos eventos e o sensacionalismo do espetáculo, seja ele político, científico, militar ou até de entretenimento "se tornam a matéria de que a consciência é forjada". O autor admite que esta ruptura da ordem temporal das coisas também origina um peculiar tratamento do passado: "rejeitando a idéia de progresso, o pós-modernismo abandona todo o sentido de continuidade e memória histórica, enquanto desenvolve uma incrível capacidade de pilhar a história e absorver tudo o que nela classifica como aspecto do presente".(1992:58)

Esta busca pelo imediato, situado no tempo presente, no entender de Harvey, tem razão de ser porque perdemos mesmo a temporalidade, ou seja, pilhamos o passado e não temos mais uma crença substancial no futuro como um tempo que aponta, certamente, para dias melhores. O autor afirma que esta perda da temporalidade se conjuga com a busca pelo impacto instantâneo e causa a perda paralela da profundidade. Esta falta de profundidade, no entender de Harvey, fundamentado em Jameson, é característica de boa parte da produção cultural contemporânea, quanto à sua fixação nas aparências, nas superfícies e nos impactos imediatos que, na opinião do autor, com o tempo, não têm poder de sustentação.

Considerando-se que o sentido de temporalidade que norteia a toda a produção cultural na contemporaneidade se concentra no tempo do presente, para onde se deslocaram as expectativas do futuro? Em conformidade com Harvey, os horizontes temporais voltados para o presente demonstram a preocupação com a instantaneidade e surgiram em decorrência da ênfase contemporânea no campo da produção cultural em eventos, espetáculos, happenings e imagens de mídia. O autor argumenta : "Os produtores culturais aprenderam a explorar e usar novas tecnologias, a mídia e, em última análise, as possibilidades multimídia. O efeito, no entanto, é o de reenfatizar e até celebrar as qualidades transitórias da vida moderna. E em parte permitiu um rapprochement, apesar das intervenções de Barthes, entre a cultura popular e o que um dia permaneceu isolada como ‘alta cultura’. ( ...) Seja como for, boa parte do pós-modernismo é conscientemente anti-áurica e antivanguardista, buscando explorar mídias e arenas culturais abertas a todos." (1992: 62)

Ao nos voltarmos para Giddens buscando entender como o autor examina as mudanças sociais e de que forma estas alterações determinam novas formas de lidarmos com o tempo, na modernidade, torna-se imprescindível reenfatizar sua defesa de que se faz urgente e necessária uma revisão da sociologia clássica, através das obras dos três fundadores (Marx, Weber e Durkheim), no sentido de entendermos o "escopo" destas mudanças.

Além dos célebres fundadores da sociologia reivindicados por Giddens, o autor destaca mais uma iminente personalidade no âmbito da sociologia clássica: Talcott Parsons. Segundo o autor, uma das mais influentes interpretações de Parsons para a noção de sociologia, é a de que seu objetivo preeminente é resolver o "problema da ordem".

Entretanto, em que o "problema da ordem" se relaciona com as questões do tempo na modernidade ? Parafraseando Parsons, o autor destaca que o "problema da ordem" é central à interpretação da limitação dos sistemas sociais porque é definido como uma questão de integração, ou seja, de uma integração que mantém um sistema coeso em face das divisões de interesses que fatalmente disporiam "todos contra todos". (1991: 20)

Contudo, Giddens não se conforma em tratar os sistemas sociais nestes termos. E norteia sua interpretação a partir de uma reformulação do enunciado de Parsons: "deveríamos reformular a questão da ordem como um problema de como se dá nos sistemas sociais a ‘ligação’ tempo e espaço. O problema da ordem é visto aqui como um problema de distanciamento tempo-espaço – as condições nas quais o tempo e o espaço são organizados de forma a vincular presença e ausência."( 1991: 21).

Para olhar o tempo e o espaço, na atualidade, Giddens destaca que "em condições de modernidade, o distanciamento tempo-espaço é muito maior, mesmo nas mais desenvolvidas civilizações agrárias. Mas, há mais do que uma simples expansão na capacidade dos sistemas sociais de abarcar tempo e espaço. Devemos olhar com alguma profundidade como as instituições modernas tornaram-se ‘situadas’ no tempo e no espaço para identificar alguns dos traços distintivos da modernidade como um todo". (1991: 23).

O autor acredita que dar conta do extremo dinamismo e do escopo globalizante das instituições modernas e explicar a natureza de suas descontinuidades em relação às culturas tradicionais são tarefas imprescindíveis para compreender adequadamente a natureza da modernidade. Segundo ele, o dinamismo da modernidade deriva, principalmente (o destaque é nosso), de dois relevantes fatores para esta compreensão :

. Da separação do tempo e do espaço e de sua recombinação em formas que permitem o zoneamento tempo-espacial preciso da vida social;

. Do desencaixe dos sistemas sociais, significando um fenômeno intimamente vinculado aos fatores envolvidos na separação tempo-espaço.

Na tentativa de compreender as íntimas conexões entre a modernidade e a transformação do tempo e do espaço, Giddens acredita ser necessário realçar alguns contrastes com a relação tempo-espaço no mundo pré-moderno através de uma breve retrospectiva acerca das invenções do calendário e do relógio de bolso.

Examinando o tempo e o espaço em Harvey descobrimos que para este autor, estas duas dimensões se constituem em categorias básicas da existência humana. Em seu argumento, raramente discutimos o sentido do espaço e do tempo embora se constituam como categorias básicas de nossa existência. Harvey diz que "tendemos a tê-los por certos e lhes damos atribuições do senso comum ou auto-evidentes. Registramos a passagem do tempo em segundos, minutos, horas, dias, meses, anos, décadas, séculos e eras, como se tudo tivesse o seu lugar numa única escala temporal objetiva. Embora o tempo na física seja um conceito difícil e objeto de contendas, não costumamos deixar que isso interfira no nosso sentido comum do tempo, em torno do qual organizamos rotinas diárias. Reconhecemos, é verdade, que os nossos processos e percepções mentais podem nos pregar peças, fazer segundos parecerem anos-luz ou horas agradáveis passarem com tanta rapidez que mal nos damos conta. Também podemos apreciar o fato de diferentes sociedades (ou mesmo diferentes subgrupos) cultivarem sentidos de tempo bem distintos". (1992:187)

Conforme Harvey, muitos sentidos distintos de tempo se entrecruzam na sociedade moderna. O autor exemplifica que, através de nossos movimentos repetitivos, como por exemplo, tomar café da manhã e ir ao trabalho, e dos movimentos cíclicos (que podem se constituir em rituais que realizamos sazonalmente) como ir às festas populares, aniversários, viagens, férias, etc, experimentamos uma sensação de segurança e de controle, num mundo em que, para ele, o impulso geral do progresso parece ser sempre para a frente e para o alto e em direção ao firmamento do desconhecido.

Harvey prossegue na demonstração da existência de uma "escala" múltipla de sentidos que o tempo parece assumir em nossa dimensão social e afirma que, quando o sentido de progresso é ameaçado pelas guerras, depressões, recessões, ou até pelo caos social, podemos nos refugiar, pelo menos em parte, na idéia de um "tempo cíclico", como uma espécie de fenômeno natural ao qual devemos forçosamente nos adaptar.

Em outro nível, Harvey menciona o "tempo da família", como sendo uma idéia desenvolvida por T. Hareven (1982) significando o tempo necessário e implícito em criar os filhos e transferir conhecimento e bens entre gerações através das redes de parentesco. Segundo o autor, este tempo pode ser mobilizado para atender às exigências do "tempo industrial", como sendo aquele tempo que aloca e realoca trabalho para tarefas segundo vigorosos ritmos de mudança tecnológica e locacional forjados pela busca incessante de acumulação do capital.

Para concluir a escala da multiplicidade de sentidos do tempo social, Harvey finaliza questionando sobre quem de nós em momento de desespero ou de exaltação, não visita uma cartomante, um vidente, ou algo assim ? Para o autor, esta conduta expressa uma evocação ao "tempo do destino", ou ao tempo do mito, ou dos deuses. Para ele, nem os corredores da Casa Branca se viram livres da presença dos astrólogos, à época em que Ronald Reagan governava os USA!

Esta idéia de que existem múltiplos sentidos de tempo é bem clara no pensamento do autor, e pode ser atestada quando ele afirma: "Considero importante contestar (o grifo é nosso) a idéia de um sentido único e objetivo de tempo e de espaço com base no qual possamos medir a diversidade de concepções e percepções humanas". E, logo em seguida, faz a seguinte advertência : "Não defendo a dissolução total da distinção objetivo-subjetivo, mas insisto em que reconheçamos a multiplicidade das qualidades objetivas que o espaço e o tempo podem exprimir e o papel das práticas humanas em sua construção" ( 1992: 189)

Destacando que concorda com outros pensadores mais antigos (como Dilthey e Durkheim), quanto à idéia de que tempo espaço não devem ser entendidos desvinculadamente dos processos materiais, vejamos o que afirma David Harvey quando assinala que sua conclusão não é nova : "A conclusão a que deveríamos chegar é simplesmente a de que nem o tempo nem o espaço podem ter atribuídos significados objetivos sem se levar em conta os processos materiais e que somente pela investigação destes podemos fundamentar de maneira adequada os nossos conceitos daqueles." (1992: 189).

Embora reconheça que a conclusão acima se trate de uma perspectiva materialista, Harvey defende que as concepções do tempo e do espaço são criadas necessariamente através de práticas e processos materiais que servem para a reprodução da vida social. O autor traz como exemplo os índios das planícies norte-americanas ou os nueres africanos que, segundo afirma, utilizam qualidades objetivas de tempo e de espaço tão distintas entre si, quanto distantes das arraigadas num modo capitalista de produção. E complementa : "A objetividade do tempo e do espaço advém, em ambos os casos, de práticas materiais de reprodução social; na medida em que estas podem variar geográfica e historicamente, verifica-se que o tempo social e o espaço são construídos diferencialmente. Em suma, cada modo distinto de produção ou formação social incorpora um agregado particular de práticas e conceitos do tempo e do espaço". (1992:189)

Para Anthony Giddens a separação entre tempo e espaço é a condição principal, em primeiro lugar, do processo de desencaixe dos sistemas sociais. Para o autor, a separação entre tempo e espaço e sua formação em dimensões padronizadas penetram nas conexões entre a atividade social e seus "encaixes", nas particularidades dos contextos de presença. As instituições sociais "desencaixadas" dilatam amplamente o escopo do distanciamento tempo-espaço e, para ter este efeito, dependem da coordenação através do tempo e do espaço. Segundo Giddens, este fenômeno serve para abrir múltiplas possibilidades de mudança, liberando os indivíduos das restrições dos hábitos e das práticas locais.

Em segundo lugar, o autor afirma que as organizações modernas são capazes de conectar o local e o global de formas que seriam impensáveis em sociedades mais tradicionais, e que em assim fazendo, afetam rotineiramente a vida de milhões de pessoas.

Em terceiro lugar, Giddens destaca que o sistema de datação padronizado, agora universalmente reconhecido, possibilita uma apropriação de um passado unitário, mas muito de tal "história" pode estar sujeito a interpretações contrastantes.

Em acréscimo, o autor afirma que, dado o mapeamento geral do globo que é hoje tomado como uniforme e aceitável universalmente, o passado unitário é um passado mundial. E assim, tempo e espaço são recombinados para formar uma estrutura histórico-mundial genuína de ação e experiência.

Discorrendo sobre as extensões indefinidas de tempo-espaço (ou sobre o "desencaixe" dos sistemas sociais) Giddens observa que, por desencaixe (fenômeno que o notabilizou e que, mesmo de maneira superficial, é recorrentemente citado em debates intelectuais como uma espécie de "marca registrada" de seu pensamento acerca da relação tempo-espaço na modernidade) podemos entender como sendo o "deslocamento das relações sociais de contextos locais de interação e sua reestruturação através de extensões indefinidas de tempo-espaço" (1991:29).

O autor argumenta que a imagem que o fenômeno do desencaixe evoca é muito apta para capturar os alinhamentos em mudança de tempo e espaço, considerados como de fundamental importância para a mudança social, em geral, e para a natureza da modernidade, em particular. Dentre inúmeros mecanismos de desencaixe dos sistemas sociais, Giddens estabelece preferência por dois deles como intrinsecamente envolvidos no desenvolvimento das instituições sociais modernas: Fichas Simbólicas e Sistemas Peritos.

Fichas simbólicas são definidas como meios de intercâmbio que podem ser "circulados" sem ter em vista as características específicas dos indivíduos ou grupos que lidam com eles em qualquer conjuntura particular. O texto menciona que "vários tipos de fichas simbólicas ( tais como os meios de legitimação política) podem ser distinguidos", muito embora o autor se concentre no destaque ao dinheiro como um tipo específico, sem justificativa convincente para sua supremacia perante os outros tipos que poderiam ser invocados, entretanto não se dá ao trabalho de sequer mencionar...

Para falar sobre o dinheiro, o autor menciona inicialmente Karl Marx, trazendo a afirmação que se destaca nos escritos iniciais de Marx: a imagem do dinheiro como "a prostituta universal", ou seja, como um meio de troca que nega o conteúdo dos bens e serviços substituindo-os por um padrão impessoal. O dinheiro permite a troca de qualquer coisa por qualquer coisa, a despeito dos bens envolvidos partilharem, ou não, quaisquer qualidades substantivas em comum.

Segundo Giddens, estes comentários críticos iniciais de Marx sobre o dinheiro prenunciam sua distinção subsequente entre valor de uso e valor de troca. (1991:30). Para o autor, é necessário observar que a preocupação com o caráter social do dinheiro faz parte das obras de Talcott Parsons e Niklas Luhmann em períodos bem mais recentes. Em Parsons o dinheiro é um dos diversos tipos de "meio de comunicação circulante" nas sociedades modernas. Segundo Giddens, Talcott Parsons e Niklas Luhmann têm afinidades em suas abordagens, muito embora ele (Giddens) não aceite a estrutura principal de suas análises.

Examinado a relação do dinheiro com o tempo-espaço, Giddens afirma que somente Keynes relaciona intimamente, o dinheiro ao tempo. "O dinheiro pode-se dizer, é um meio de retardar o tempo e assim separar as transações de um local particular de troca. O dinheiro é um meio de distanciamento tempo-espaço". E acrescenta: "o dinheiro possibilita a realização de transações entre agentes amplamente separados no tempo e no espaço". (1991:33)

O autor aponta para a condição de desencaixe desproporcionada criada pelas economias modernas como imensamente maior do que em qualquer das civilizações pré-modernas, quando já existia o dinheiro. De acordo com Giddens, mesmo nos mais desenvolvidos dos sistemas monetários da era pré-moderna, como por exemplo, o Império Romano, nenhum avanço foi feito para além do que, nos termos de John Mynard Keynes, seria o dinheiro mercadoria, na forma de cunhagem material. E Giddens acrescenta: " hoje, o dinheiro propriamente dito é independente dos meios pelos quais ele é representado, assumindo a forma de pura informação armazenada como números num disquete de computador". (1991:33)

E para concluir acerca da importância do dinheiro como mecanismo de desencaixe associado à modernidade, Giddens prossegue: "(...) é errada a metáfora de ver o dinheiro, como faz Parsons, em termos de meio de comunicação circulante. Como moedas ou notas, o dinheiro circula; mas numa ordem econômica moderna o grosso das transações monetárias não assume esta forma.(...) Ele é fundamental para o desencaixe da atividade econômica moderna". (1991:34)

Voltando ao desenvolvimento das instituições sociais modernas e aos mecanismos de desencaixe e recuperando a idéia de que existem dois tipos de mecanismos de desencaixe intrinsecamente envolvidos no desenvolvimento das instituições sociais modernas, Giddens afirma que todos estes mecanismos - tanto as fichas simbólicas, quanto os sistemas peritos - dependem sobremaneira do fator confiança. Segundo Giddens, os vínculos entre dinheiro e confiança são especificamente observados e analisados por Simmel. E complementa: "qualquer um que use fichas monetárias o faz na presunção de que outros, os quais ele ou ela nunca conhece, honrem seu valor". (1991:34)

Os sistemas peritos, segundo tipo de mecanismos de desencaixe, são definidos como sistemas de excelência técnica ou competência profissional que organizam grandes áreas dos ambientes material e social em que vivemos hoje. E defende: "A maioria das pessoas leigas consulta ‘profissionais’- advogados, arquitetos, médicos, etc. - apenas de modo periódico ou irregular. Mas os sistemas nos quais está integrado o conhecimento dos peritos influenciam muitos aspectos do que fazemos de uma maneira contínua." (1991:35)

Considerando este fato, podemos concluir que os mais diversos âmbitos de nossa vida cotidiana estão permeados pelo que Giddens denomina de "conhecimento dos peritos". Vejamos o exemplo que ele destaca: "ao estar simplesmente em casa, estou envolvido num sistema perito, ou numa série de tais sistemas, nos quais deposito minha confiança. Não tenho nenhum medo específico de subir as escadas da moradia, mesmo considerando que sei que em princípio a estrutura pode desabar". E prossegue mencionado situações nas quais nos expomos cotidianamente, a exemplo de quando saímos de casa e entramos num carro. Para ele, ao agirmos assim, penetramos num cenário que está completamente permeado por conhecimento perito, envolvendo, inclusive, o projeto e construção de automóveis, estradas, cruzamentos, semáforos e muitos outros.

Para o autor, há um componente pragmático na "fé" que parece estar fundamentado na experiência de que tais sistemas geralmente funcionam como se espera que eles o façam.Giddens associa as relações entre tempo-espaço e os sistemas peritos, definidos como mecanismos de desencaixe:

"Os sistemas peritos são mecanismos de desencaixe porque, em comum com as fichas simbólicas, eles removem as relações sociais das imediações do contexto. Ambos os tipos de mecanismo de desencaixe pressupõem, embora também promovam, a separação entre o tempo e espaço como condição do distanciamento tempo-espaço que eles realizam. Um sistema perito desencaixa da mesma forma que uma ficha simbólica, fornecendo garantias de expectativas através de tempo-espaço distanciados." (1991: 36)

Ao analisarmos o pensamento de David Harvey acerca da temporalidade no mundo contemporâneo, podemos afirmar que sua análise está fortemente comprometida pelo fenômeno caracterizado como "compressão do tempo-espaço" e seus impactos sobre as práticas político-econômicas, sobre o equilíbrio do poder de classe, bem como sobre a vida social e cultural.

O autor faz uma retrospectiva acerca da transformação dos processos econômicos baseados no fordismo para o processo de acumulação flexível. Mais adiante, o própiro autor se pergunta se os usos e significados do espaço e do tempo mudaram com esta transição. Harvey sugere que temos vivido, nestas duas últimas décadas, uma intensa fase de "compressão do tempo-espaço" que tem tido um impacto disruptivo e desorientado sobre as práticas político-econômicas, sobre o poder de classe e sobre a vida social e cultural.

Segundo o autor, esta transição para a acumulação flexível foi realizada, em parte, por meio à rápida implantação de novas formas organizacionais e de novas tecnologias produtivas. Harvey observa que as novas tecnologias parecem ter-se originado da busca da superioridade militar, e que sua aplicação parece ter tido uma forte relação com a superação da rigidez do fordismo e com a aceleração do tempo de giro como solução para os graves problemas do fordismo-keynesianismo, e que estes problemas se tornaram uma crise aberta em 1973. (1992:257)

Em sua análise acerca deste processo de transição do fordismo para a acumulação flexível, Harvey levanta um ponto importante para o exame destas alterações que englobam os sistemas de produção e de acumulação do capital: o de que estas mudanças organizacionais geraram alterações significativas para os trabalhadores, intensificando também os processos de trabalho e acelerando a desqualificação e requalificação necessárias ao atendimento de novas necessidades de produção.

E complementa :

"A aceleração do tempo de giro da produção envolve acelerações paralelas na troca e no consumo. Sistemas aperfeiçoados de comunicação e de fluxo de informações, associados com racionalizações nas técnicas de distribuição (empacotamento, controle de estoques, conteinerização, retorno do mercado, etc), possibilitaram a circulação de mercadorias no mercado a uma velocidade maior. Os bancos eletrônicos e o dinheiro de plástico foram algumas das inovações que aumentaram a rapidez do fluxo de dinheiro inverso. Serviços e mercados financeiros (auxiliados pelo comércio computadorizado) também foram acelerados, de modo a fazer, como diz o ditado, ‘vinte e quatro horas ser um tempo bem longo’ nos mercados globais de ações". ( 1992:258)

Retomando à idéia de que a aceleração do tempo de giro da produção passa a envolver também uma aceleração paralela nas esferas do consumo e da troca, Harvey elege a "arena do consumo" como palco de dois importantes desenvolvimentos que esta dimensão passou a sofrer com o advento da pós-modernidade. Para o autor, dois destes desenvolvimentos têm especial importância : o primeiro deles, que denomina de "mobilização da moda em mercados de massa", assume uma dimensão oposta ao que entendemos como sendo um mercado de elite, e fornece um meio de acelerar o ritmo do consumo não somente em termos de roupas, ornamentos e decoração, mas também atingindo uma dimensão ampla de estilos de vida e atividades de recreação, como hábitos de lazer e de esporte, e até as preferências dos consumidores por música pop, videocassetes e jogos infantis.

O segundo destes dois desenvolvimentos que atingiram a "arena de consumo" diz respeito a uma "tendência da passagem do ato de consumo de bens culturais para o consumo de serviços". Harvey destaca que não apenas os serviços pessoais, comerciais, educacionais e de saúde, mas também os de diversão, de espetáculos, de eventos e de entretenimentos passaram a ser consumidos em massa. O "tempo de vida" destes serviços, segundo Harvey, como ir a uma museu, a um concerto de rock, ir ao cinema ou assistir a palestras ou frequentar clubes, é um tempo difícil de estimar, entretanto, é bem menor do que o tempo de vida de um automóvel, ou o tempo de vida de uma máquina de lavar.

Harvey justifica a existência destas alterações na "arena do consumo" como uma descoberta lucrativa por parte dos capitalistas: "como há limites para a acumulação e para o giro de bens físicos, faz sentido que os capitalistas se voltem para o fornecimento de serviços bastante efêmeros em termos de consumo. Esta busca pode estar na raiz da rápida penetração capitalista, notada por Mandel e Jameson, em muitos setores da produção cultural a partir da metade dos anos 60". (1992 :258)

De que maneira estas alterações produzidas pela aceleração generalizada dos tempos de giro do capital interferem na vida social? O autor responde que chegam a interferir nas maneiras de pensar, sentir e de agir que caracterizam a pós-modernidade. Para Harvey a primeira consequência importante foi a acentuação do processo de volatilidade ( qualidade de volátil: inconstante, pouco firme, volúvel) e de efemeridade de modas, produtos, técnicas de produção, processos de trabalho, idéias e ideologias, de valores e de práticas estabelecidas. Para o autor, esta acentuação produz um efeito sem paralelos nos mercados e habilidades de trabalho. Entretanto, Harvey argumenta que se interessa nesta parte de seu trabalho pelos efeitos que esta acentuação do processo de volatilidade e de efemeridade produz sobre a sociedade como um todo.

Harvey acrescenta que esta dinâmica da sociedade do descarte teve início nos anos 60 e patenteia a descoberta deste termo a Alvin Toffler (1970: 40). O autor afirma que ela (a dinâmica) não significa apenas que jogamos fora estes bens de consumo, mas também estilos de vida, valores sociais, relacionamentos estáveis, apego a coisas, edifícios, lugares, pessoas e modos adquiridos de agir e de ser.

Ainda circunscrito ao campo da produção de mercadorias, Harvey faz uma observação importante quanto ao bombardeio de estímulos ao qual somos expostos, gerando um sobrecarga sensorial, como não tendo precedentes em nossa história. Para Harvey desenvolvemos respostas psicológicas que podem ser materializadas em atitudes, como por exemplo, o "bloqueio dos estímulos sensoriais, a negação e o cultivo da atitude blasée (saciado; insensibilizado), à especialização míope, à reversão a imagens de um passado perdido (daí decorrendo a importância de memoriais, museus, ruínas) e a excessiva simplificação (na apresentação de si mesmo e na interpretação dos eventos)".(1992:259)

Esta volatilidade, segundo Harvey, nos acrescenta a dificuldade de planejarmos a longo prazo, de traçarmos metas em direção ao futuro. Aprender a trabalhar com o fenômeno da volatilidade tem se caracterizado como uma necessidade em muitos campos da vida social. Na esfera da produção de bens de consumo e de serviços, bem como no mercado financeiro, o autor admite a hipótese de que atualmente é tão importante aprender a trabalhar com a volatilidade quanto acelerar o tempo de giro. Isso significaria ou uma alta adaptação e capacidade de se movimentar com rapidez em resposta a mudanças de mercado, ou o planejamento da volatilidade. Segundo Harvey, a primeira estratégia aponta em especial para o planejamento de curto prazo, bem como para o cultivo da arte de obter ganhos imediatos sempre que possível.

Atualmente, para dominar ou interferir neste processo de produção cuja lei parece ser a da volatilidade, Harvey destaca que se faz imediatamente necessário manipular o gosto e a opinião do mercado consumidor, "seja tornando-se um líder da moda ou saturando o mercado com imagens que adaptem a volatilidade a fins particulares". Também afirma que para que isto aconteça é necessário construir novos sistemas de signos e imagens. Este processo de construção de novos signos e imagens, para o autor, se traduz em si mesmo como um aspecto importante da condição pós-moderna.

Segundo Harvey, toda esta indústria da produção de imagens "se especializa na aceleração do tempo de giro por meio da produção e venda de imagens. Trata-se de uma indústria em que reputações são feitas e perdidas da noite para o dia, onde o grande capital fala sem rodeios e onde há um fermento de criatividade intensa, muitas vezes individualizada, derramado no vasto recipiente da cultura de massa serializada e repetitiva. É ela que organiza as manias e modas, e assim fazendo, produz a própria efemeridade que sempre foi fundamental para a experiência da modernidade. Ela se torna um meio social de produção do sentido de horizontes temporais em colapso de que ela mesma, por sua vez, se alimenta tão avidamente" (1992: 263).

Recuperando o espaço e o significado da presença desta indústria de produção de imagens na pós-modernidade, o autor admite que nossa relação com o tempo social também sofre alterações, e para justificar esta afirmação, destaca, como exemplo, a gigantesca popularidade da obra de Alvin Toffler ("O choque do futuro"), que analisa, precisamente, a velocidade como o futuro veio a ser descontado no presente.

Harvey resume de forma muito objetiva e lúcida como vivenciamos psicológica e socialmente este ritmos de aceleração que parecem permear todas as dimensões da estrutura social. Vejamos o que destaca o autor, quando menciona en passant algumas classificações de Fredric Jameson : "Podemos vincular a dimensão esquizofrênica da pós-modernidade que Jameson destaca com acelerações dos tempos de giro na produção, na troca e no consumo, que produzem, por assim dizer, a perda de um sentido do futuro, exceto na medida em que o futuro possa der descontado do presente. A volatilidade e a efemeridade também tornam difícil manter qualquer sentido firme de continuidade. A experiência passada a ser comprimida em algum presente avassalador". (1992: 263)

Complementando a argumentação acima, Harvey cita o escritor italiano Ítalo Calvino que relata o efeito destas temporalidades em sua própria arte de romancista. Entendemos que seria interessante também destacá-lo:

"(...) os romances longos escritos hoje são talvez uma contradição: a dimensão do tempo foi abalada, não podemos viver nem pensar exceto em fragmentos de tempo, cada um dos quais segue sua própria trajetória e desaparece de imediato. Só podemos redescobrir a continuidade do tempo nos romances do período em que o tempo já não parecia parado e ainda não parecia ter explodido, um período que não durou mais de cem anos."( 1992: 263)

Sobre este "mergulho no turbilhão da efemeridade" como uma experiência crucial da pós-modernidade, vejamos o que afirma Harvey, resgatando Jean Baudrillad :

"Baudrillard (1986) sempre sem medo de exagerar, considera os Estados Unidos uma sociedade tão entregue à velocidade, ao movimento, às imagens cinematográficas e aos reparos tecnológicos que gerou uma crise de lógica explicativa". O autor argumenta que para Baudrillard este estado de coisas representa "o triunfo do efeito sobre a causa, da instantaneidade sobre a profundidade do tempo, o triunfo da superfície e da pura objetificação sobre a profundidade do desejo". Para Harvey, este é, com efeito, o tipo de ambiente em que o desconstrucionismo pode florescer. (1992:263)

Mais a diante, exemplifica algumas técnicas desenvolvidas em grande parte das esferas sociais para evitar os choques do futuro. Segundo o autor, começam a se tornar cada vez mais disponíveis todas as espécies de seguro contra a futura volatilidade, tanto na esfera das empresas, nos mercados de investimentos, quanto nos domínios das crenças e comportamentos dos indivíduos. Resumindo, quanto maior a efemeridade, tanto maior a necessidade de descobrir ou produzir algum tipo de verdade eterna que nela possa residir.

Vejamos o que o autor argumenta :

"(....) As empresas subcontratam ou recorrem a práticas flexívies de admissão para compensar os custos potenciais de desemprego provocado por futuras mudanças nos mercados de futuros em tudo, do milho e do bacon a moedas e dívidas governamentais, associados com a ‘secularização’ de todo tipo de dívida temporária e flutuante, ilustram esta técnica de descontar o futuro do presente. (....) o revivalismo religioso dos anos 60 e a busca de autenticidade de autoridade na política são casos pertinentes. (...) o retorno do interesse por instituições básicas (como a família e a comunidade) e a busca de raízes históricas são indícios da procura de hábitos mais seguros e valores mais duradouros num mundo cambiante". (1992: 264)

Em resumo, conforme Harvey, este mergulho no turbilhão da efemeridade provoca uma explosão de sentimentos e tendências absolutamente opostas, como as que o autor exemplificou acima, parecendo-nos concordar com a existência do fenômeno conhecido popularmente de que "a toda ação corresponde a uma reação" ...

Voltando-nos novamente para Anthony Giddens, destacamos o que afirma o autor quando diz que é inerente à idéia de modernidade a existência de um contraste entre o tradicional e o moderno. Segundo ele, alguns autores (não menciona quais) argumentam que ambos estão tão cerradamente entrelaçados que qualquer comparação generalizada não será válida. Contudo, Giddens não se furta em discordar que "não é este o caso, como podemos ver ao examinar a relação entre modernidade e reflexividade". A reflexividade para ele, é uma atividade definidora de toda ação humana: "Todos os seres humanos rotineiramente se mantêm em contato com as bases do que fazem como parte integrante do fazer. Denominei isto em outro lugar de ‘monitoração reflexiva da ação’, usando a expressão no sentido de chamar a atenção para o caráter crônico dos processos envolvidos". (1991: 43)

A fim de explicar como a herança cultural se transmite de geração a geração, de uma época histórica a outra, Giddens retrocede às sociedades tradicionais orais para, nesta breve retrospectiva, tentar explicar como se comporta a relação entre o moderno e o tradicional e como a tradição avança através do tempo.

Vejamos o que ele afirma acerca das culturas tradicionais, ou pré-modernas: "o passado é honrado e os símbolos valorizados porque contêm e perpetuam a experiência de gerações. A tradição é um modo de integrar a monitoração da ação com a organização tempo-espacial da comunidade. Ela é uma maneira de lidar com o tempo e o espaço, que insere qualquer atividade ou experiência particular dentro da continuidade do passado, presente e futuro, sendo estes por sua vez estruturados por práticas sociais recorrentes. A tradição não é inteiramente estática (o destaque é nosso) porque ela tem que ser reinventada a cada nova geração conforme esta assume sua herança cultural dos precedentes" (1991: 44). A tradição não só resiste à mudança como pertence a um contexto, que conforme afirma Giddens, possui poucos marcadores temporais e espaciais; o que pode gerar maior significado às mudanças que aí ocorram.

Nas culturas da oralidade, de antes da escrita, a tradição nem se coloca porque não há uma apropriação reflexiva do conhecimento, o que parece colocar os indivíduos numa espécie de tempo contínuo.( O grifo é nosso).

Com a invenção da escrita, expande-se o nível do distanciamento tempo-espaço e cria-se uma perspectiva de passado, presente e futuro, no qual a apropriação reflexiva do conhecimento pode ser destacada da tradição. Entretanto, nestas civilizações pré-modernas, conforme afirma Giddens, a reflexividade está ainda em grande parte, limitada à reinterpretação e esclarecimento da tradição. Este fato, pode gerar uma desigualdade de peso entre o passado e futuro na balança do tempo. Nas culturas pré-modernas o "passado está muito mais abaixo, pelo peso, do que o futuro". (1991:44)

Chegando à modernidade, a situação é bastante diferenciada e a reflexividade assume um caráter diferente. Vejamos o que alega o autor: "a reflexividade é introduzida na própria base da reprodução do sistema, de forma que o pensamento e a ação estão constantemente refratados entre si". Para Giddens "a rotinização da vida cotidiana não tem nenhuma conexão intrínseca com o passado, exceto na medida em que o que ‘foi feito antes’ por acaso coincide com o que pode ser defendido de uma maneira proba à luz do conhecimento renovado.(...)Mesmo na mais modernizada das sociedades, a tradição continua a desempenhar um papel porque se combina com a inércia do hábito". (1991:45). O problema é que, para Giddens, este papel da tradição no mundo contemporâneo é muito menos significativo do que para alguns outros autores que enfocam esta mesma relação.

O que mais chama a atenção do autor nesta relação da tradição x modernidade é o fato de que para ele "a modernidade é marcada por um apetite pelo novo, ou antes, pela reflexão sobre a natureza da própria reflexão". (1991: 46)

Em todas as culturas, as práticas sociais são rotineiramente alteradas à luz de descobertas sucessivas que passam a informá-las. Mas, somente na modernidade a revisão da convenção é radicalizada para se aplicar (em princípio) a todos os aspectos da vida humana, inclusive à intervenção tecnológica no mundo material. Para Giddens, "(... ) o que é característico da modernidade não é uma adoção do novo por si só, mas a suposição da reflexividade indiscriminada - que é claro, inclui a reflexão sobre a natureza da própria reflexão".(1991: 46)

Giddens resgata Hasn Blumenberg quando recomenda que devemos ser cuidadosos com o modo de entender a historicidade. Segundo ele, a historicidade pode ser definida como o uso do passado para ajudar a moldar o presente, mas não depende de um respeito pelo passado: "pelo contrário, historicidade significa o conhecimento sobre o passado como um meio de romper com ele – ou, ao menos, manter apenas o que pode ser justificado de uma maneira proba. O futuro é visto como essencialmente aberto, embora como contrafatualmente condicional sobre linhas de ação assumidas com possibilidades futuras em mente." (1991:56)

Para Giddens, este é um aspecto fundamental do "alongamento" tempo-espaço que as condições de modernidade tornam possível e necessário. "A futurologia – o mapeamento de futuros possíveis/desejáveis/disponíveis – se torna mais importante que mapear o passado". Esta futurologia, para Giddens, passa a fazer parte de uma orientação futura que pressupõe cada um dos tipos de mecanismo de desencaixe por ele mencionados.

Em suas palavras finais acerca do fenômeno de "compressão tempo-espaço" e a fim de descrever o caráter ímpar desta experiência na atualidade, David Harvey recorre a Jameson (1988:351) fazendo algumas ponderações acerca do acentuado caráter inovador destas práticas sociais e seus efeitos sobre as noções de tempo e espaço, na contemporaneidade. Harvey tem uma preocupação de contextualizar a ação social e, num procedimento semelhante a Giddens, afirma que em termos qualitativos, esta nova experiência é semelhante à experiência que levou durante a Renascença às várias conceitualizações do espaço e do tempo. Vejamos alguns trechos da interpretação de Fredric Jameson acerca das peculiaridades espaciais do pós-modernismo como um dilema novo e historicamente original, sobre a qual Harvey, de forma ponderada, tenta pontuar suas impressões:

"(...) dilema que envolve a nossa inserção como sujeitos individuais num conjunto multidimensional de realidades radicalmente descontínuas, cujas estruturas vão dos espaços ainda sobreviventes da vida privada burguesa ao descentramento inimaginável do próprio capitalismo global, incluindo tudo que há entre eles. Nem mesmo a relatividade einsteiniana nem os múltiplos mundos subjetivos dos modernistas mais antigos conseguem dar qualquer configuração adequada e esse processo, que, na experiência vivida, se faz sentir pela chamada adequada morte do sujeito ou, mais exatamente, pelo descentramento e dispersão esquizofrênicos e fragmentados deste último...". (...) E, embora vocês possam não ter percebido, estou falando de política prática: desde a crise do internacionalismo socialista, e as enormes dificuldades táticas e estratégicas de coordenação de ações políticas locais, rurais ou vicinais com ações políticas nacionais ou internacionais, esses dilemas políticos urgentes são, todos eles, funções imediatas do espaço internacional novo, extremamente complexo que tenho em mente. (1991: 58)

Feitas as ressalvas, Harvey passa a concordar que os dilemas descritos por Jameson sejam exatos e captem a oscilação da sensibilidade pós-moderna no tocante ao significado do espaço na vida cultural e política, bem como econômica, contemporânea. Argumenta também que a ‘compressão do tempo-espaço" sempre cobra o seu preço da nossa capacidade de lidar com as realidades que se revelam à nossa volta.

David Harvey prossegue: "a intensidade da compressão do tempo-espaço no capitalismo ocidental a partir dos anos 60, com todos os seus elementos congruentes de efemeridade e fragamentação excessivas no domínio político e privado, bem como social, parece de fato indicar um contexto experencial que confere à condição da pós-modernidade o caráter de algo um tanto especial. (!991:257)

A fim de contextualizar sua análise, o autor conclui:

"Contudo, situando essa condição em seu contexto histórico, como parte de uma história de ondas sucessivas de compressão do tempo-espaço geradas pelas pressões da acumulação do capital - com seus perpétuos esforços de aniquilação do espaço por meio do tempo e de redução do tempo de giro – podemos ao menos levá-la para o âmbito de condição acessível à análise e interpretação materialista histórica.(1991:257) Esta análise materialista histórica, o autor a apresenta em outra parte de seu texto. Optamos por não dissertá-la, sob pena de nos estendermos demasiadamente nesta busca pela compreensão do tempo....

Cumprindo com os objetivos deste texto, traduzidos na compreensão dos pontos de aproximação e os pontos de distanciamento entre o pensamento de David Harvey e o de Anthony Giddens acerca do tempo enquanto categoria social, em suas análises da cultura contemporânea, elaboramos agora, uma abreviada síntese destes pontos.

Primeiramente, destacamos a importância que ambos atribuem à necessidade de se analisar o tempo, enquanto categoria social, na cultura contemporânea. Com algumas diferenças de abordagens, os autores se colocam entre os teóricos contemporâneos que se debruçam sobre uma análise da estrutura macrossical, destacando os sistemas sociais do Ocidente e suas relações com práticas políticas econômicas e culturais.

Ambos admitem que para compreendermos com mais propriedade as transformações sociais que se apresentam nestes últimos quatro séculos, faz-se necessário uma análise da natureza intrínseca das instituições sociais modernas, conforme demarca Giddens. Quase utilizando as mesmas palavras, Harvey também destaca estar convencido da tarefa de analisar, mais profundamente a natureza, ou seja, a essência do pós-modernismo.

Um ponto de discordância, já evidenciado na introdução deste texto, diz respeito a como devemos chamar este "estado de coisas", que pode se caracterizar numa "nova ordem social". Bem mais cauteloso, Giddens questiona as nomenclaturas adotadas por vários autores contemporâneos, esclarecendo que não se faz suficiente, em se tratando de uma compreensão sociológica mais ampla, apenas empregarmos novos termos. Segundo ele, faz-se necessário reivindicar da sociologia a tarefa de questionar os métodos contemporâneos de construção de conhecimento. Assim procedendo, obteríamos uma nova ordem epistemológica e recolocaríamos a ciência em seu lugar de privilégio, como referencial para compreensão do mundo.

Em resumo, Giddens, embora concorde que estamos vivenciando relevantes transformações em nossas vidas do lado ocidental do planeta, em momento algum admite denominá-la por outro adjetivo que não o da Modernidade. Como afirmamos anteriormente, para o autor, estamos vivenciando uma radicalização de suas potencialidades.

Para David Harvey, em discordância com Giddens, estas transformações sociais configuram um estado de coisas que ele não se abstém de chamar de "Pós-Moderno". Segundo afirma, o clamor dos argumentos pós-modernos, antes aumentou do que diminuiu com o tempo. Para o autor, este "arsenal de novas idéias", se traduz numa poderosa configuração de novos sentimentos e pensamentos, desempenhando um papel crucial na definição da trajetória do desenvolvimento social e político, em virtude da maneira como define os padrões de crítica social e de prática política.

Ambos concordam que a Modernidade, possui um lado sombrio e evocam os conflitos políticos, étnicos e raciais, caindo por terra todas as expectativas otimistas de instauração de uma ordem social mais feliz e segura, como supunham os fundadores da sociologia clássica. Harvey menciona o lado sombrio, da Modernidade enfocando as guerras, o holocauto e o desastre nuclear de Hiroshima e Nagasaki.

Os autores analisam o sentido de continuidade, através de concepções bastante semelhantes quanto ao curso da história. Para Giddens, faz-se urgente libertarmo-nos das noções do evolucionismo social. Harvey enfatiza que a vida moderna está realmente permeada pelo sentido do fugidio, do efêmero e do fragmentário, e que esta transitoriedade das coisas dificulta a preservação de todo sentido de continuidade histórica. Para ele, temos que investigar se há algum sentido na história, descobrí-lo e definí-lo do lado de dentro do turbilhão da mudança, uma vez que este turbilhão afeta os termos da discussão e o que está sendo discutido.

Mesmo que não aponte para a desconstrução do evolucionaismo social como o faz Giddens, Harvey também parece concordar com a necessidade de se estabelecer outros parâmetros de análise dos fenômenos sociais na contemporaneidade, mas não aprofunda o assunto, nem tampouco responsabiliza a sociologia para esta tarefa. Portanto, o que, numa leitura apressada, parecia ser um ponto de discordância entre ambos, dissipa-se, e torna-se mais um terreno consensual.

Sobre as concepções do tempo, em suas análises da cultura contemporânea, as interpretações dos dois autores tomam caminhos diferenciados. Embora concordando que a forma como lidamos com o tempo, na atualidade, adquire uma multiplicidade de sentidos e de conotações nunca vistas em qualquer época histórica precedente, os autores partem para abordagens diferenciadas quanto às dimensões sociais escolhidas como corpus, ou lugar de destaque, destas transformações.

Harvey destaca com veemência o caráter heterogêneo da experiência humana no tratamento dado ao tempo e muito enfaticamente contesta todo e qualquer entendimento que parta do pressuposto da existência de um sentido único e objetivo de tempo. Afirma que não defende a dissolução total da distinção objetivo-subjetivo, mas insiste em que se reconheça a multiplicidade das qualidades objetivas que o espaço e o tempo podem exprimir e o papel das práticas humanas em sua construção. ( 1991:189)

Diferentemente de Harvey, Giddens não insere em sua análise o papel das práticas humanas como agentes determinantes de diferentes concepções de temporalidade. Para este autor, são as instituições modernas que estruturam a dimensão social na qual se processam as alterações do tempo-espaço, na modernidade. Segundo ele, em condições de modernidade o distanciamento tempo-espaço é muito maior, existindo mais que uma simples expansão na capacidade dos sistemas sociais de abarcar tempo e espaço.O autor conclui: "devemos olhar com alguma profundidade como as instituições modernas tornaram-se situadas no tempo e no espaço para identificar alguns traços distintivos da modernidade como um todo." ( 1992:23)

Um aspecto muito importante da análise de David Harvey que estabelece uma notável distinção entre sua interpretação e o pensamento de Giddens diz respeito à abordagem que o autor implementa acerca dos espaços e tempos individuais na vida social iniciadas com uma simples descrição das práticas cotidianas, formulada na geografia temporal de T. Hägerstand (1995). Segundo Harvey, o esquema de Hägerstand se traduz numa descrição útil de como a vida diária das pessoas se desenrola no espaço e no tempo. Harvey justifica esta abordagem através do argumento de que "as práticas materiais de que os nossos conceitos de espaço e de tempo advêm são tão variadas quanto a gama de experiências individuais e coletivas". (195)

Para marcar ainda mais a abrangência e o ecletismo como traço distintivo de sua interpretação, principalmente se comparada à obra de Anthony Giddens, mencionamos a afirmação do autor, a título de fundamentar sua escolha por uma análise que abraça as dimensões individuais e suas implicações com novas experiências de tempo-espaço: "As biografias individuais podem ser tomadas como ‘trilhas de vida no tempo-espaço’, começando com rotinas cotidianas de movimento( de casa para a fábrica, as lojas, a escola, e a volta para casa) e estendendo-se a movimentos migratórios que alcançam a duração de uma vida (por exemplo, juventude no campo, treinamento profissional na cidade grande, casamento e mudança para os subúrbios, e aposentadoria passada no campo). (1991:195)

Para fundamentar sua escolha pelas biografias tempo-espaciais, Harvey as insere no contexto das abordagens sociopsicológicas e fenomenológicas do tempo e do espaço formuladas por escritores como de Certeau, Bachelard, Bourdieu e Foucault. Em linhas gerais, vejamos o que afirma acerca da contribuição de Foucault para esta dimensão da geografia tempo-espacial : "Este último trata o espaço do corpo como o elemento irredutível do nosso esquema de coisas social, visto ser sobre esse espaço que se exercem as forças da repressão, da socialização, da disciplina e da punição.(1991:196). Mais adiante, Harvey destaca o pensamento de Certeau afirmando que este autor trata os espaços sociais como instâncias mais abertas à criatividade e ação do homem. "(....) A ressurgência de práticas populares na modernidade científica e industrial não pode ser confinada ao passado, ao campo nem aos povos primitivos, mas está presente no cerne da economia contemporânea", complementa Harvey acerca do pensamento deste autor. ( 1991:196).

Afirmando que as ordenações simbólicas do espaço e do tempo fornecem uma estrutura para a experiência mediante a qual aprendemos quem ou o que somos na sociedade, Harvey traz à luz do debate as contribuições de Bourdieu (1977:163), através do seguinte trecho: "A razão pela qual a submissão aos ritmos coletivos é exigida com tanto rigor, é o fato de as formas temporais ou estruturas espaciais estruturarem não somente a representação do mundo do grupo, mas o próprio grupo, que organiza a si mesmo de acordo com essa representação". ( 1991:198).

Chegando à contribuição de Bacherlad (1964), Harvey destaca que este autor dirige nossa atenção para o espaço da imaginação, que ele trata como "espaço poético". E seleciona algumas afirmações de Bachelard: "Pensamos que nos conhecemos no tempo, quando tudo o que conhecemos é uma sequência de fixações nos espaços da estabilidade do ser. (...) As lembranças são imóveis e quanto mais seguramente fixadas no espaço, tanto mais sólidas são". Nesta passagem, Harvey afirma visualizar, neste autor, "ecos da interpretação filosófica de Heidegger" e destaca alguns trechos nos quais diz constatar esta evidência: "O espaço contem tempo comprimido. É para isto que serve o espaço". Desviando nossa atenção do pensamento de Bachelard para a obra de Heidegger, Harvey destaca que o espaço fundamental para memória é a casa, e traz novamente o filósofo alemão: "uma das maiores forças de integração do pensamento, lembranças e sonhos da humanidade". E Harvey conclui, a partir desta afirmação: "é dentro deste espaço que aprendemos a sonhar e a imaginar." (1991:200)

Justificando seu olhar sobre as práticas espaciais e temporais nas sociedades contemporâneas destacando suas sutilezas e complexidades, vejamos o que, oportunamente, tão bem afirma David Harvey: "Como elas estão estreitamente implicadas em processos de reprodução e de transformação das relações sociais, é preciso encontrar alguma maneira de descrevê-las e de fazer uma generalização sobre seu uso. A história da mudança social é em parte apreendida pela história das concepções de espaço e de tempo., bem como dos usos ideológicos que podem ser dados a essas concepções. Além disso, todo projeto de transformação da sociedade dever apreender a complexa estrutura da transformação das concepções e práticas espaciais e temporais. " (1991:201).

Ao analisarmos a afirmação acima podemos constatar que, muito embora dirija sua análise a dimensões que extrapolam o âmbito das instituições sociais, David Harvey parece estar convicto de que as alterações das concepções de tempo e espaço também estão no âmago dos processos de mudança social. Neste sentido, seu pensamento se encontra com o de Giddens, quando insere estas práticas num contexto mais amplo, representado pelas dimensões sociais.

Giddens delimita sua interpretação à natureza implícita das instituições sociais modernas. Reafirma que em tempo de modernidade a separação entre tempo-espaço é muito maior. Segundo ele, o rompimento entre tempo e espaço fornece uma base para sua recombinação em relação à atividade social. E destaca que a separação entre tempo-espaço é mesmo crucial para o extremo dinamismo da modernidade. E mais uma vez, a título de introduzir um diferencial entre os campos de abrangência dos dois autores, destacamos esta afirmação de Giddens: "A separação entre tempo e espaço e sua formação em dimensões padronizadas, ‘vazias’, penetram as conexões entre a atividade social e seus ‘encaixes’ nas particularidades dos contextos de presença. As instituições desencaixadas dilatam amplamente o escopo do distanciamento tempo-espaço e, para ter este efeito, dependem da coordenação através do tempo e do espaço. Este fenômeno serve para abrir múltiplas possibilidades de mudança liberando das restrições dos hábitos e das práticas locais. ( 1992:28)

A partir desta afirmação Giddens desenvolve a noção de desencaixe que tem notabilizado sua interpretação acerca do tempo-espaço nas sociedades modernas.

Apesar do aparente distanciamento, as noções de desencaixe dos sistemas sociais defendida por Giddens não representam um desencontro se comparadas com algumas interpretações de Harvey no tocante ao encolhimento das barreiras espaciais no mundo moderno, propiciadas, sobremaneira, pelo avanço tecnológico. Por outro lado, a noção de compressão espaço-temporal, defendida por Harvey, está mais circunscrita ao âmbito dos fenômenos de mercado e de acumulação do capital que nos direcionam para um ritmo de vida e de produção material, no qual a transitoriedade, a volatilidade e a efemeridade são os elementos dominantes.

A alegação em Harvey de que vivenciamos uma preponderância pelo tempo presente, em detrimento do passado e do futuro, parece ser mais um ponto de divergência entre os dois autores. Giddens assinala enfaticamente que tentamos visualizar e planejar o futuro de acordo com nossos desejos, possibilidades e disponibilidades.

A fim de esclarecer o que afirma Giddens acerca da relação entre passado, presente e futuro e para melhor entendermos seu posicionamento, destacamos uma afirmação do próprio autor, quando adverte que devemos ser cuidadosos ao procurarmos compreender a historicidade. Desta forma, define que o passado somente deve ser evocado quando tiver a função de moldar o presente. Afirma também que a historicidade deve nos orientar primeiramente para o futuro. O futuro, para ele, é essencialmente aberto e muito mais importante de ser mapeado do que o passado. Em resumo, para Giddens: "A ‘futurologia’- o mapeamento de futuros possíveis/desejáveis/disponíveis – se torna mais importante que mapear o passado". Segundo o autor, cada um dos tipos de mecanismo de desencaixe mencionados em sua análise pressupõe uma orientação futura deste tipo.

Voltando-nos para David Harvey acerca de sua posição de que o tempo presente importa mais que o passado e o futuro, destacamos a seguinte observação: "Podemos vincular a dimensão esquizofrênica da pós-modernidade que Jameson destaca com acelerações dos tempos de giro na produção, na troca e no consumo, que produzem, por assim dizer, a perda de um sentido do futuro, exceto e na medida em que o futuro possa ser descontado do presente. A volatilidade e a efemeridade também tornam difícil manter qualquer sentido firme de continuidade. A experiência passada é comprimida em algum presente avassalador". ( 1992: 263)

Ao concluirmos, de fato, e após evidenciarmos o desencontro das abordagens mencionado anteriormente, gostaríamos de destacar um outro aspecto, que por sua vez se traduz numa concordância fundamental entre os dois autores: o de que ambos incluem a categoria do tempo históricio social como temática relevante em suas análises da cultura contemporânea. Diante deste procedimento, aos nossos olhos, parecem já possuir afinidades, unicamente pelo fato de realizarem "leituras" tão importantes e esclarecedoras acerca do tempo.

 

 

 

* Professora do quadro permanente e doutoranda do Programa da Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Faculdade de Comunicação, Universidade Federal da Bahia.

 

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