Articulações entre noções da Análise de Discurso e pressupostos teóricos da Publicidade, numa breve análise de anúncio de cosmético

 

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Introdução

 Este texto pretende, primeiramente, apresentar, ainda que de forma breve, alguns pressupostos acerca do universo teórico, produtivo e simbólico da publicidade e propaganda afim de melhor compreender suas delimitações e influências sociais na conformação da cultura contemporânea. Em um segundo momento, seleciona e apresenta noções da Análise de Discurso(AD), comprometidas com conceitos de gênero, prática e formação discursivas, a partir da obra de autores identificados como “analistas de discurso”. Concomitantemente a estas duas etapas, apresenta uma  breve análise de anúncio publicitário impresso, através da qual procura, de maneira articulada, aplicar estas noções.

Teóricos das ciências da comunicação e da informação (dentre eles, Jean Baudrillard, Daniel Bougnoux e Gilles Lipovetsky ) são taxativos em afirmar que a publicidade se constitui numa espécie de palco que impulsiona novas formas de sociabilidade, que se constitui também num lugar de evidência cultural e que se faz urgente analisá-la se se deseja compreender o que está em vias de mudar nas sociedades ocidentais contemporâneas.

Por entendermos que as dimensões sociais alcançadas pela mensagem publicitária, na atualidade, evidenciam sua importância enquanto prática sociodiscursiva, pretendemos associar pressupostos teóricos da AD analisados e redimensionados por autores como Dominique Maingueneau, Jean-Claude Soulages, Helena Nagamine Brandão e Maria Lília  Dias de Castro ao universo teórico/prático da publicidade e propaganda na sociedade contemporânea. A aproximação entre estes dois campos objetiva fundamentar a análise do anúncio publicitário impresso do cosmético Chronos Gel C+ ( produzido pelo laboratório Natura), publicado em revista feminina brasileira.

   

“Conversas” preliminares

 A fim de realizarmos este diálogo entre as dimensões teóricas da AD trazidas pelos autores anteriormente mencionados e as análises dos universos teórico/prático da publicidade e da propaganda, estabeleceremos como ponto de partida o que afirma o lingüista francês Dominique Maingueneau acerca de alguns termos-chaves da AD (em sua vertente francesa e da qual é signatário) relacionados à produção de discursos e aos vínculos que estabelece com o contexto social, incluindo as próprias condições materiais de produção.

Para Maingueneau, não se faz adequado, a título de dar credibilidade a qualquer análise que se pretenda caracterizar como “análise do discurso”, aplicar “minimamente” um determinado instrumental lingüístico a um corpus que se objetiva interpretar. Em sua opinião, melhor seria utilizar uma explicação a partir de um referencial do qual se tem domínio. Esta afirmação do autor muito nos impressiona porque se traduz  no reconhecimento de outras leituras, realizadas à luz de outros instrumentais teóricos, no procedimento de interpretação de corpus comprometido com a linguagem textual.

Outra recomendação importante para um investigador que pretende elaborar um modelo teórico/prático de análise, dentre o vastíssimo campo da AD, é a de que o investigador, (principalmente aquele que advém de outras áreas, que não a lingüística), deve prestar bem a atenção ao porquê de suas escolhas teórico-metodológicas. Ou seja, mais importante na visão de Maingueneau, seria saber eleger e, ao mesmo tempo, saber porque deixar de lado determinadas possibilidades de abordagens.

Acreditamos ser importante trazer sua recomendação de que se faz  preferível, portanto, explicitar da melhor maneira possível as escolhas que, de qualquer forma, somos obrigados a fazer. Para ele, na ausência desta reflexão prévia, corre-se o risco de atingir um resultado insignificante, ou seja, aplica-se cegamente um método a um corpus e obtém-se algo que representa apenas o resultado deste método aplicado a este corpus. No entendimento do autor, neste caso, a lingüística, convocada apenas a título de garantia, permite a produção de um efeito de cientificidade. Adverte que a agir assim, seria melhor fazer uma explicação tradicional de textos, fundada sobre a grande familiaridade com o corpus. Para ele, não é a  presença de hipóteses muito específicas e de pressupostos que é prejudicial, mas a intenção de não utilizá-los ou de fazê-lo minimamente. E conclui que é o fato de levar em conta a singularidade do objeto, a complexidade dos fatos discursivos e a incidência dos métodos de análise que permite produzir os estudos mais interessantes (Maingueneau:1997A;19).  

Obviamente, esta opinião do autor não nos exime, enquanto investigadores advindos de outras áreas em direção à AD, do esforço em procurar conhecer a Lingüística, mesmo levando-se em conta a amplitude de seu corpus, configurada pelas inúmeras correntes em suas mais diversas classificações. Segundo Maingueneau, houve um tempo em que a lingüística foi elevada à categoria de “ciência piloto” e pensava-se que apenas importando alguns conceitos e métodos lingüísticos em geral simplificados, seria o bastante para satisfazer os usuários. Para o autor, a situação atual é bastante diferente porque não se faz mais possível contentar-se com empréstimos aproximativos e se faz necessário “aprofundar o conhecimento dos funcionamentos da linguagem; em segundo lugar, porque o discurso possui sua própria ordem e é deste ponto de vista que é preciso avaliar o interesse dos aparelhos lingüísticos que utiliza” (Maingueneau:1997A;18).

O autor ainda menciona, a título de exemplificação, que poderemos escolher, com o intuito de realizar nossa “leitura” algumas estruturas sintáticas, destacar as metáforas, os adjetivos avaliativos, etc, entretanto, estas escolhas decorrem unicamente em virtude de hipóteses que estão ancoradas a um só tempo nas seguintes dimensões : 1. “sobre um certo conhecimento de seu corpus;  2 . sobre um conhecimento das possibilidades oferecidas ao analista pelo estudo de semelhantes fatos de linguagem” (Maingueneau:1997A;19)   

Como já informamos anteriormente, este texto propõe apresentar alguns aspectos do conjunto de pressupostos teóricos da AD desenvolvidos, preferencialmente, pelo lingüista francês Dominique Maingueneau. Aliados às noções de Maingueneau, incluiremos outros autores que, também circunscritos ao campo da AD, dedicaram suas análises à publicidade: o também francês Jean-Claude Soulages, e Helena Nagamine Brandão e Maria Lília Dias de Castro.

Nossa escolha por Maingueneau e Jean-Claude Soulages pode ser explicada, primeiramente por se tratar de autores que têm suas obras inseridas no campo da AD desenvolvida na França; em segundo lugar, por se tratar de autores que, mesmo em graus diferenciados, investigam os fenômenos da linguagem, a partir de uma posição que  reconhece como funções da AD (enquanto campo de saber que fornece instrumental investigativo) o questionamento, a fundamentação e a análise das formações discursivas, como dimensões do contexto social.

A fim de melhor compreendermos a publicidade, enquanto prática social e lugar de evidência cultural na atualidade, traremos interpretações de autores que se inserem no campo das ciências sociais, quais sejam: Jean Baudrillard, Daniel Bougnoux, Gilles Lipovetski, todos eles comprometidos com o estatuto de analistas da comunicação e da cultura contemporâneas.

Para alcançar este propósito de “aproximação” e de associação de campos de saber tão diferenciados, como a publicidade e a AD, optamos por realizar uma breve análise do anúncio publicitário impresso do cosmético facial Chronos Gel C + (fabricado pelo laboratório Natura),  publicado pela revista feminina Cláudia. 

 

A publicidade na cultura contemporânea

 

Além de exercer  papel regulador  nas economias de mercado e ser compreendida como parte integrante do próprio circuito de produção/realização de mercadorias, a publicidade é reconhecida na atualidade, como um processo de produção plena de formas culturais e se afirma no espaço social como um dos suportes mais visíveis das representações de identidades. Para Jean-Claude Soulages, a onipresença da publicidade, de forma progressiva, tem contribuído até para provocar uma espécie de desdobramento da figura do homo economicus. Ou seja, aquele consumidor sempre hipotético de mercadorias, porém consumidor efetivo de suas múltiplas mensagens (Soulages:1996;142).

Para o discurso publicitário afluem, assim, algumas figuras pregnantes dos imaginários socioculturais e ele nos confronta com o curioso paradoxo que preconiza que o consumidor deva ser fabricado ao mesmo tempo, e talvez antes mesmo da existência do próprio produto. 

            No entender de Maria Lília  Dias de Castro, por volta dos anos 80, a publicidade tornou-se mais competitiva, explorou sua capacidade lingüístico-persuasiva e ganhou espaço nos meios. Para a autora, num certo sentido, pode-se dizer que, de forma indireta, quase toda a cultura atual de massa está impregnada de valores publicitários (Castro: 2000;12).

A publicidade age, incessantemente, visando instaurar identidades. Ao se dirigir ao consumidor (no caso específico deste trabalho, o produtor e o anunciante se dirigem às mulheres, enquanto consumidoras do cosmético Chronos Gel C+ produzido pelo laboratório brasileiro “Natura”) tratando-o  pelo pronome pessoal você, faz  parecer que esta relação entre eles (o fabricante, o produtor do anúncio e o potencial consumidor) seja permeada pela sensação de intimidade, de proximidade.

Caracterizando a instância do alocutário, mais comumente interpretado pela publicidade como aquele a quem se destina a mensagem, ou seja, o destinatário, neste anúncio que ora examinamos, a consumidora ao ser tratada por você passa a ser representada como uma entidade autonôma que, distinta do eu, ganha uma ilusória identidade no processo de alocução. Acerca da utilização desta forma de tratamento, a autora Helena Nagamine afirma o seguinte:

“Ilusória identidade porque sob a máscara de um tratamento personalizante, o você da propaganda visa a um interlocutor anônimo, qualquer um que ler o texto. Exerce, entretanto, um papel importante no processo enunciativo, pois sua função é a de interpelar ideologicamente o indivíduo. Em outras palavras, a forma de tratamento você permite uma interpelação mais direta que vai afetar o alocutário. Por meio dessa interpelação, dá-se o processo de assujeitament, como diz Althusser (1970, p. 93), em que o indivíduo  - entendido como diferença, singularidade – passa a sujeito assujeitado(...)” (Nagamine:1998;52).

Ao anunciar um produto, no caso em questão um cosmético facial, o publicitário quer fazer entender que ele vem preencher uma necessidade, ou até um desejo, da consumidora... Como produtor da mensagem ele quer fazer entender que pensa, ou se “preocupa”, em por em oferta uma mercadoria para cada uma destas consumidoras, em particular. Paradoxalmente, o anunciante (aquele que fabrica o produto, encomenda e arca com os custos do anúncio) e o publicitário (aquele que concebe e veicula o anúncio) realizam uma complicada operação que parece pretender diferenciar a consumidora através de seu “bom gosto” e sua ‘‘preferência”(tratando-a com exclusividade por você) ao mesmo tempo em que uniformiza este seu “bom-gosto”, ou seja, em que a enquadra num grupo configurado por todas aquelas consumidoras que utilizam o mesmo produto.

            Vamos apresentar agora um recorte do texto que anuncia o cosmético “Cronos Gel C+” quando a consumidora é interpelada pela forma de tratamento você e situado na página dupla do anúncio, na parte inferior (em anexo):

 

“Logo na primeira aplicação, você nota sua pele imediatamente revitalizada, mais macia, mais firme, mais viçosa. A partir de quinze dias de uso, você vê sua pele mais luminosa e  com tonalidade visivelmente mais uniforme (....)”.   Revista Cláudia – Editora Abril – março de 2000. O grifo é nosso.   

 

Agora, apresentamos o texto que “abre” o anúncio por estar situado em sua página inicial. Curiosamente, a alusão é feita a todas as mulheres que usaram “Cronos Gel C +”  e que pela aparência bem cuidada da pele, recomendam o seu uso. O que se traduz como norma no discurso publicitário, em geral, e não especificamente no anúncio deste cosmético, é que o custo do produto parece não ter muita importância.Queremos dizer com isto que, para usá-lo e obter os mesmos resultados, obviamente, a consumidora terá que adquiri-lo, ou melhor dizendo, comprá-lo. Neste texto de abertura do anúncio as modelos, já “experientes” consumidoras, são tratadas como público-referencial, na terceira pessoa do plural, através do pronome elas:

 

    ‘‘Elas notaram resultado

já na primeira aplicação.

    Imagine na centésima.”

                                              Revista Cláudia – Editora Abril – março de 2000.   

 

Voltando-nos para a instância do discurso, parece ser consenso entre os autores que apresentamos nesta análise, que a publicidade “infantiliza” o consumidor. Vejamos o que  Jean Baudrillard afirma acerca do poder de condicionamento da publicidade e da lógica particular de sua eficácia, que o autor curiosamente define como sendo a “lógica do Papai Noel”:

 (...) Não mais se trata de uma lógica do enunciado e da prova, mas sim de uma lógica da fábula e da adesão. (...) É a estória do Papai Noel: as crianças não mais se perguntam sobre sua existência  e não relacionam esta existência com os presentes que recebem como se se tratasse de um jogo de causa e efeito. A crença no Papai Noel é uma fabulação racionalizante que permite preservar na segunda infância a relação miraculosa de gratificação pelos pais (e mais precisamente pela mãe), que caracteriza as relações da primeira infância” (Baudrillard:1990; 274).     

 

O autor vai mais longe quando defende que a criança pouco se importa com a existência do Papai Noel. Segundo ele, esta situação demonstra um “jogo” no qual os pais assumem ser cúmplices da fábula e que os presentes apenas sancionam tal compromisso. A partir destas associações, o autor afirma que a operação publicitária se sucede da mesma forma, ou seja, que nem o discurso retórico, nem mesmo o discurso informativo acerca das virtudes do produto têm efeito decisivo sobre o comprador.

Para Baudrillard, o indivíduo é sensível à temática latente de proteção e de gratificação, ao cuidado que “se” tem de solicitá-lo e persuadi-lo, é sensível também ao signo. Signo este, ilegível à consciência, de em alguma parte existir uma instância (no caso, social, que remete diretamente à imagem materna) que aceita informá-lo sobre seus próprios desejos, adverti-los e racionalizá-los a seus próprios olhos. O autor reafirma que o indivíduo não “acredita” na publicidade mais do que a criança no Papai Noel. O que não o impede de aderir da mesma maneira a uma situação infantil interiorizada e de se comportar de acordo com ela. Segundo o autor, vem daí a eficácia bem real da publicidade, segundo uma lógica que, embora sem ser a do condicionamento-reflexo, não é menos rigorosa: lógica da crença e da regressão (Baudrillard: 1990; 275).              

Importante sociólogo francês da atualidade, Daniel Bougnoux  afirma que se faz imprescindível compreender a publicidade para que se possa entender o que acontece no mundo contemporâneo. Para ele, a publicidade encontra-se situada na intersecção da problemática marxista (o fetichismo da mercadoria) e freudiana (a máquina do desejo), da sociologia (os ‘modos de vida’) e dos estudos da semiologia e de retórica (poética do texto e da imagem, arte de persuadir e manipulação do imaginário em geral). Defende que a publicidade é um fenômeno de tal complexidade que estaríamos enganados em subestimá-la, uma vez que se encontra onipresente no meio ambiente físico e na cultura. Mais adiante o autor indaga se “não é verdade que ela modificou, em alguns anos, nossos regimes de crença e verdade?” (Bougnoux:1994;167).      

Acerca do discurso publicitário, Bougnoux defende que ele funciona não mais à base da análise crítica, da demonstração das qualidades verossímeis do produto, mas “(...) à base do amor(em que o objeto e o princípio de realidade são o que importa menos); à base da comunhão ou do pôr em comum, não à base da informação; em poucas palavras, à base do princípio do prazer. Seu espelho nos faz passar por um teste projetivo; através da mercadoria, ganhamos uma identidade” (Bougnoux: 1994; 171).

Gilles Lipovetsky localiza e circunscreve o discurso publicitário como “um reduto da comunicação criativa”, inserido no universo amplo da comunicação midiática, no qual  a estética permanece como eixo primordial do trabalho publicitário. Segundo o autor, a valorização plástica do produto, as fotos caprichadas, o interior de luxo, o refinamento dos cenários e a beleza dos corpos e dos rostos são recursos dos quais a publicidade se utiliza para  poetizar o produto e a marca e idealizar o trivial da mercadoria. Lipovetsky alega que qualquer que seja a importância tomada pelo humor, erotismo ou extravagancia, a arma clássica da sedução, a beleza, não deixa de ser amplamente explorada (1989;189).

O autor prossegue na tentativa de definir o discurso da publicidade como um discurso da superficialidade, “maquiado”, que exalta as características do produto a uma dimensão que parece estar situada muito além da realidade, do cotidiano do consumidor, direcionada ao mundo do feérico. Vejamos o que afirma:

“Os produtos cosméticos, as marcas de perfume, em particular, recorrem sistematicamente a publicidades refinadas, sofisticadas, colocando em cena criaturas sublimes, perfis e maquiagens de sonho. Mas muitas outras publicidades, roupas íntimas femininas, vestuário moda, álcool, cigarros, cafés, estão igualmente á procura do efeito chique. A tecnologia de alta precisão começa: Sharp e Minolta lançaram campanhas de cartazes com imagens depuradas da estetização da pessoa, a publicidade funciona como cosmético da comunicação” (Lipovetsky:1989;189). 

 

Mais adiante, Lipovetsky chega a afirmar que a mensagem publicitária se constitui numa “força tranquila” de acomodação social, enquadrando os indivíduos à ordem social, sem que seja necessária a utilização da força. Justifica que por ser uma “comunicação moda”, a publicidade não deixa de ser uma forma típica do processo de dominação burocrática moderna. O autor observa que, enquanto mensagem de persuasão elaborada por criadores especializados, a publicidade liga-se à lógica do poder burocrático próprio das sociedades modernas. Para ele, a publicidade, embora empregando métodos suaves, trata sempre, como nas instituições disciplinares, de guiar de fora os comportamentos, de penetrar a sociedade até seus últimos recônditos (Lipovetsky:1989;192).

     

 

A publicidade e a análise de discurso

Uma das primeiras “lições” que, após algumas incursões ao vastíssimo universo que compreende a AD, nós assimilamos (e aconselhados por Maingueneau, não nos arriscamos a ignorá-la) é a da recomendação de que não se pode deixar de refletir sobre o gênero discursivo quando se aborda um corpus, uma vez que, segundo adverte o autor, é ilusório pensar que exista algum enunciado “livre” de qualquer coerção.

Destacamos uma afirmação de Maingueneau, publicada numa edição portuguesa e amparada pela teoria bakhtiniana, acerca da necessidade de se compreender a noção de gênero do discurso para que se possa proceder à interpretação de enunciados:

 “O gênero de discurso tem uma incidência decisiva para a interpretação dos enunciados. Não se pode interpretar um enunciado se não se souber a que género o ligar. Ouvindo outrem, nós sabemos, logo pelas primeiras palavras, prever o género, adivinhar o volume (o tamanho aproximado de um todo discursivo), a estrutura composicional, prever o fim, por outras palavras, desde o princípio, somos sensíveis ao todo discursivo”  (Maingueneau :1997A;55).

 

Mais adiante, o autor admite que a noção de gênero não é de “fácil manejo”, quando alega que os gêneros encaixam-se, frequentemente, uns nos outros. Para Maingueneau, um mesmo texto encontra-se geralmente na intersecção de múltiplos gêneros. Entretanto, para o autor, se há gênero a partir do momento que vários textos se submetem a um conjunto de coerções comuns e que os gêneros variam segundo os lugares e as épocas, compreender-se-á facilmente que a lista dos gêneros seja, por definição, indeterminada. Finalmente, o autor reconhece que cabe ao analista definir, em função de seus objetivos, os recortes genéricos que lhe pareçam pertinentes (Maingueneau: 1997A;34).

Como suas análises da AD passam pelas “vias abertas da pragmática”, Maingueneau observa que muito mais importante que listar os gêneros do discurso seria  tentar conhecer suas próprias coerções genéricas. A partir disto, vamos tentar entender como o discurso publicitário organiza suas regras de como dizer, de como se institucionaliza enquanto prática social. Para ele, analisar um gênero de discurso implica considerar diferentes ordens, como por exemplo: Trata-se de transmissão oral ou escrita? Através de quais circuitos foi difundido? Quais os momentos e lugares de enunciação específicos? Que estatuto o enunciador genérico deve assumir e qual estatuto deve conferir a seu co-enunciador (para o autor este termo é correlato de destinatário) para tornar-se sujeito de seu discurso?

E, ainda segundo ele, quando falamos em eficácia do discurso, falamos, principalmente, da esfera discursiva da publicidade, na qual o co-enunciador interpelado não é apenas um indivíduo para quem se propõem “idéias” que corresponderiam aproximadamente a seus interesses; é também alguém que tem acesso ao “dito” através de uma “maneira de dizer” que está enraizada em uma “maneira de ser”, o imaginário de um vivido.

 Para Maingueneau, é perceptível que esta concepção da eficácia discursiva seja constantemente integrada pelos textos publicitários, que mostram de forma paroxística aquilo que provavelmente constitui a tentativa de toda formação discursiva: convencer consiste em atestar o que é dito na própria enunciação, permitindo a identificação com uma certa determinação do corpo (Mainguenau:1997A;49).  

Trazendo estas idéias para o anúncio (objeto de análise deste texto), entendemos que a publicidade de cosméticos, neste exemplo, também dialoga com outros gêneros discursivos quando incorpora no texto alusões a uma outra formação discursiva, que podemos classificar como pertencente ao “gênero do discurso científico”. Explicando melhor, tanto no texto (“...Cem aplicações de pura tecnologia...”; “...Chronos Gel C+ oferece altas doses de ingredientes ativos à camada superficial da pele, como a vitamina C pura e o OPC , um potente antioxidante natural.”), quanto na própria ambientação do anúncio (as modelos estão em visita ao laboratório Natura e observam a demonstração feita pela “pesquisadora-Natura” do gel facial Chronos Gel C +) evidencia-se um nível discursivo explicitamente comprometido com a idéia de cientificidade.

O propósito da centificidade, encontra-se marcadamente presente na ambientação do anúncio, ou seja, a cena apresentada na parte interna do anúncio, se passa num laboratório.  No ambiente laboratorial do anúncio, a “pesquisadora- Natura”(Luciana Villa Nova- 27 anos)  se destaca das consumidoras presentes ao laboratório, por trajar roupa branca e ser identificada enquanto profissional “pesquisadora –Natura”, ou seja, como alguém preparada para realizar a tarefa de apresentar o laboratório e demonstrar a aplicação do produto(ver anúncio em anexo).

Podemos afirmar que este apelo ao discurso científico reside na tentativa de atestar a eficácia do produto, que pesquisado, fabricado com as melhores matérias-primas e tecnicamente bem produzido, indubitavelmente, trará bons resultados. Podemos afirmar também que esta estratégia semiodiscursiva não aparece unicamente na publicidade de cosméticos, uma vez que, na tv, o sabão em pó “Omo” vem sendo apresentado, há décadas, como um produto laboratorialmente testado, e posteriormente “aprovado” pelas donas-de-casa do país inteiro. A alusão ao ambiente laboratorial sugere a idéia de pesquisa, de investigação, de legitimidade, de controle, de experimentação, de eficiência, de tecnicidade, de tecnologia apropriada; todos estes aspectos caracterizam e identificam o laboratório Natura (como todo e qualquer laboratório) enquanto ambiente apropriado para a realização de procedimentos científicos.

No entender de Dominique Maingueneau, o campo científico é lugar de uma concorrência violenta, no qual o discurso produzido por um pesquisador não é resultante apenas do desejo de saber, mas viria em troca da notoriedade existente no meio científico visado, onde o que está em jogo é o “monopólio da autoridade científica”. O autor destaca que o cientista, de qualquer que seja o campo do saber, “fala” para seus pares, através de um tipo de discurso, cuja tendência “ é fazer coincidir o público de seus produtores com o de seus consumidores: escreve-se apenas para seus pares que pertencem a comunidades restritas e de funcionamento rigoroso” (Maingueneau:1997A; 57).

Entendemos que a publicidade não divulga, propriamente, estes mesmos “produtos científicos” aos quais o autor se refere. Entretanto, valendo-se da legitimidade da Ciência, (que enfatizamos como sinônimo de “conhecimento”, por reconhecermos que não se faz necessário, neste texto, defini-la em suas bases epistemológicas, por não se constituir em nosso propósito) faz suscitar a compreensão do senso comum de que através da pesquisa, do aprofundamento e da investigação, validam-se os resultados alcançados através do procedimento científico. A publicidade difunde as noções consensuais do que vem a ser uma investigação científica, retirando-a do enclausuramento, ou seja, retirando-a das quatro paredes do ambiente fechado do laboratório, destituindo, assim,  a “aura” de hermetismo dos enunciados científicos. Utiliza-se de uma estratégia semiodiscursiva que procura, ao anunciar, desvelar, simplificar e demonstrar os resultados sempre positivos resultantes da utilização do produto. Tudo isto, com o emprego de um nível de linguagem coloquial, afim de poder alcançar e convencer o público leigo, seu público alvo.        

Outro posicionamento importante tomado por Maingueneau diz respeito à utilização do termo discurso, quanto à sua terminologia. De acordo com ele

(...) em numerosos contextos a polissemia de ‘discurso’, termo utilizado com acepções distintas pelas teorias da enunciação e da AD, pode mostrar-se muito perturbadora. Assim, para referir sem equívoco o objeto da AD, preferiremos, sempre que parecer útil, recorrer ao conceito de formação discursiva. Emprestado, como vimos, da ‘Arqueologia do Saber’, de Foucault, este termo define ‘o que pode e deve ser dito (articulado sob a forma de uma alocução, um sermão, um panfleto, uma exposição, um programa, etc) a partir de uma posição dada em uma conjuntura determinada” (Maingueneau: 1997A; 58).

 Concordando com o autor e compreendendo que a noção de discurso não seja estável, preferimos tratar a publicidade, enquanto formação discursiva, uma vez que, independentemente do produto a ser anunciado, a mensagem publicitária está comprometida com seus atributos positivos. Ou seja, está convencionalmente instituído que esta estratégia faz parte do “como dizer”. Podemos afirmar que este “como dizer” está  comprometido na prática do “enaltecimento” das características positivas do produto, mesmo que este não se traduza numa mercadoria com qualidade devidamente comprovada. Agindo assim poderíamos deduzir que os publicitários sejam difusores de inverdades e que, insistentemente, tentam ludibriar o público. Entretanto, aceitamos silenciosamente que “lux de luxo é o sabonete das estrelas”. Por que? Porque, ao que tudo indica, compactuamos com estas regras já implícitas deste “como dizer”. Destacando o conceito de formação discursiva trazido por Maingueneau, a partir de Foucault, atestamos que “o que pode e deve ser dito” no campo enunciativo da publicidade é sempre comprometido com as (nem sempre) positivas características do produto.

Tentaremos agora de forma breve apresentar contribuições de outros autores que trazem como característica comum a aplicação de noções da AD  ao universo teórico, prático e simbólico da publicidade e da propaganda contemporâneas. Iniciaremos com considerações de Jean-Claude Soulages :  

A AD se propõe a explicar o fenômeno publicitário enquanto um tipo de discurso social transformado em rito, através de seu funcionamento. A AD se apóia sobre um corpus de textos cuja organização semiodiscursiva ela se empenha em revelar, a partir de um processo empírico-indutivo. Os resultados dessas análises permitem revelar, através da recensão de uma série de efeitos pretendidos, a consolidação de um certo número de imaginários sociodiscursivos. A AD leva a evidenciar, com muita clareza, um verdadeiro falar publicitário e a revelar, através da abundância  das configurações semiodiscursivas, uma série de normas ora dominantes, ora divergentes, ou periféricas”( Soulages: 1996;144).

 

No caso específico do laboratório Natura, que comercializa, prioritariamente, produtos cosméticos para mulheres, as estratégicas discursivas apontam para o rompimento de certas normas semiodiscursivas que orientam os discursos de produtos cosméticos e que parecem se configurar como sendo uma tendência geral reinante, quando da construção deste universo discursivo. Queremos dizer com isto que os produtos cosméticos em revistas femininas brasileiras são anunciados por rostos de mulheres jovens, levando-nos a questionar acerca da eficácia dos produtos e de seus  resultados, uma vez que são publicitariamente associados a imagens de peles jovens, que ainda mantêm o frescor da juventude em todo o seu esplendor: firmeza, hidratação, brilho, luminosidade, etc,.

Rompendo com esta estratégia discursiva, que como afirmamos anteriormente, parece se constituir numa tendência reinante, e que em geral, influencia a organização formal dos anúncios de cosméticos, os publicitários responsáveis pelos laboratórios Natura procuram apresentar os produtos utilizando como referenciais imagens de mulheres muito mais maduras, algumas deixando aflorar na própria superfície dos anúncios, traços e rugas que ressaltam as marcas do tempo e da idade na pele.

Procurando reafirmar o que atestamos como sendo um “rompimento”, ou pelo menos poderíamos considerar como sendo uma “divergência” das estratégicas semiodiscursivas dominantes no universo dos anúncios de cosméticos, os anúncios dos produtos fabricados pelos laboratórios Natura registram a idade real de cada uma das modelos que emprestam seus rostos para o teste de utilização do produto. Além desta evidência, os anúncios trazem ainda o nome de cada uma destas mulheres que, apesar de deixar explícito que pertencem ao amplo universo da “classe média” brasileira, são mulheres anônimas, desconhecidas, que não fazem parte do mundo “olimpiano” das manequins renomadas das revistas, dos jornais ou da tv. Os anúncios ainda trazem uma rubrica que esclarece a atividade profissional de cada uma delas, também inserindo a ocupação de “dona de casa” dentre as outras atividades identificadas como profissões.   

A quem falar e como dizer são indagações pertinentes, quando analisamos a publicidade como prática sociodiscursiva. De acordo com Soulages, esta é uma questão que traz uma dificuldade máxima enfrentada pelas práticas de comunicação de massa, em geral, e não especificamente pela publicidade, por se constituirem no que o autor classifica como “práticas discursivas monolocutivas”. Segundo ele, este problema pode ser resolvido com o estabelecimento da figura de um parceiro, admitido, convencionalmente, como sendo um destinatário, “ou melhor ainda, de diferentes tipos de destinatários susceptíveis de serem colocados em cena no interior do ato de linguagem. Mas a relação instituída com eles pode variar em função das limitações situacionais” ( Soulages:1996;148).

Como estes receptores estão afastados e são anônimos (no caso do Chronos Gel C+ supõe-se sejam mulheres pertencentes à ampla classe média brasileira e leitoras da revista Cláudia), os sujeitos comunicantes (neste caso o fabricante + o produtor publicitário que é autorizado para “falar” em seu nome ) devem fazer um esforço para forjar um “elo simbólico”, como defende Soulages. Segundo ele, um elo “sempre hipotético com os sujeitos interpretantes, recorrendo a saberes, normas, valores e universos de referência supostamente partilhados” ( Soulages:1996;150).

As consumidoras Natura são mulheres desconhecidas do grande público. Tanto a pecuarista Vera Burgetti (39 anos), quanto a psicóloga Sylvia Gonçalves (48 anos) ocupam o espaço do anúncio “de igual para igual”, podemos dizer assim. Ou seja, no anúncio, a forma de apresentar as modelos nos sugere um tratamento democrático: elas têm profissões/atividades distintas (terapeuta corporal, psicopedagoga, dona-de-casa, cantora, etc), têm idades distintas (33, 27, 39, 48, 50,41 e 44 anos) e são, semelhantemente, “ilustres” desconhecidas...Neste anúncio, o que elas fazem e a idade que cada uma tem parecem não importar. Entendemos que a “temática de proteção”, identificada por Baudrillard (1990;275.) parece estar presente também neste anúncio, passando-nos a idéia de que o laboratório Natura, está “cuidando”, ou seja, dando especial atenção, ao lançar Chornos Gel C+, às mulheres que, “naturalmente”, vivem suas vidas e estão satisfeitas pelo que são.

Para finalizar, destacamos uma afirmação de Soulages na qual o autor admite que a maior parte das mensagens publicitárias bloqueiam, de preferência, o acesso à realidade. Acrescenta que ir ao encontro, ou construir, os imaginários de um público-alvo é uma árdua tarefa, uma operação incessante de negociação entre o fabricante e o publicitário, porém antes de mais nada, se constitui numa operação de co-construção de sentido, entre o publicitário e o consumidor. Para ele, devido a este processo, a mensagem só pode ser conservadora...uma vez que deve se apoiar então sobre o “dizer” circulante e quase sempre sobre o “ponto-a-ser-pensado” (Soulages:1996;154).

Concluindo, o autor acredita que a dimensão do campo dos mídias, e em especial a prática sociodiscursiva da publicidade e da propaganda, provocam formas de semantização do mundo e que, semelhantemente a todo ato de linguagem, tornam-se máscaras atrás das quais transparecem formas fixas que constróem os imaginários de cada coletividade humana.   

 


 

 Bibliografia

 

BAUDRILLARD, Jean. O Sistema dos Objetos. São Paulo: Perspectiva, 1968.

 

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Periódico

 

Revista Cláudia - número 03, ano 39 . São Paulo: Editora Abril, março de 2000

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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