Capítulo Três
Volte para a Cama
 
“You can be mad in the morning
Or the afternoon instead
But don't leave me
98 and 6 degrees of seperation from you, baby
Come back to bed
Come back to bed
Come back to bed”
John Mayer – Come Back to Bed
 
 
O dormitório de recuperação estava escuro, as janelas altas estavam encostadas, algumas batiam com a força da ventania. Hermione enrolou-se no jaleco, procurando esquentar-se, enquanto pisava na ponta dos pés, desejando não tomar a atenção dos ali restantes. Havia cinco camas no quarto, apenas três ocupadas, uma delas por Harry. Teve de lutar contra a ventania em seu cabelo para aproximar-se da primeira janela, e fechou-a com dificuldade. O trinco não travava e a medi-bruxa começou a bufar.
 
Não podia acreditar que tinha saído de Londres para nada fazer ali. Harry estava sendo muito bem cuidado, assim como Draco, ainda que a situação de ambos fosse bastante séria – menos do que em outras ocasiões, mas ainda séria. Veneza possuía um dos melhores medi-bruxos já formados, por conta de uma famosa instituição bruxa. Hermione recebera o convite desta entidade, mas resolvera recusar, quando soube do mesmo curso proporcionado por St. Mungus. E, de fato, havia se tornado uma ótima medi-bruxa, especialmente com suas notas e seu empenho. Porém, a perfeição era impossível, e chama-la da Ilha da Grã-Bretanha até a Itália, somente porque era Harry Potter... Isso era ridículo.
 
Sem mencionar que aquela cidade trazia tantas lembranças... Estar em Veneza era recordar-se do primeiro beijo entre Harry e ela, era recordar da primeira noite em que passaram juntos, era ver tantas coisas acontecerem diante de seus olhos, as recordações povoando seus pensamentos. Difícil demais era lutar contra eles. A necessidade de tentar entender o porquê de Harry ter escondido tal segredo dela, o quanto Hermione precisava estar junto dele, fosse como companheira ou como amante. Mas, depois da revelação da profecia, parecia que mesmo a amizade tinha sido atingida.
 
Ainda na tentativa de fechar o trinco da janela, a chuva aumentando do lado de fora, Hermione começou a ficar extremamente aborrecida. Não tinha parado para pensar como aquilo tudo estava sendo estressante. Logo completaria uma semana de sua separação de Harry, e teoricamente isso não seria nada, mas para ela estava sendo a morte. O único que restara de toda sua vida bruxa, o último resquício de esperança e a razão de estar vivendo. Seus pais olhavam ambos com tanta admiração e consciência de dever cumprido, por ter entregado a filha a uma pessoa tão maravilhosa quanto Harry. No entanto, Hermione agora sabia que, desde o início, tudo existia sobre uma mentira.
 
Com as mãos estendidas sobre a janela e os dedos cravados no trinco, tentando fechar a qualquer custo a janela, Hermione apoiou a cabeça nos braços e chorou. Derramaria quantas lágrimas fosse possível, nunca imaginou como seria sua vida sem ele. Soluçando, as costas pulando e o rosto amassado contra os braços, Hermione foi flexionando as pernas até apoiar-se contra a parede e a janela por completo, numa atitude quase derrotista. Estava exausta de lutar contra as adversidades, desejava mais do que nunca apenas paz, e nada mais. Todos os outros problemas poderiam ser resolvidos se ela possuísse paz consigo e com aquele que ama. Mas então, o destino pregou-lhe outra peça fantasiosa, outra jogada digna de um campeão. Fazê-la perder a confiança na única pessoa que confiava cegamente... Era sujo, era desleal.
 
CLICK.
 
O corpo vencido contra a janela, apenas moveu levemente os dedos e o trinco fechou-se com uma incrível facilidade. Hermione diminuiu a intensidade dos soluços e ergueu a cabeça dos braços, olhando incrédula para o trinco. A chuva estava revolta do lado de fora, e ela com a mais simples ação, conseguiu fechar o trinco.
 
Não pôde deixar de rir. Rir de si mesma. Hermione era o tipo de mulher que nunca perdia o controle, nunca perderia a compostura, nunca se deixava atingir ou abater. Procurava sempre estar acima dos outros, aparentar uma superioridade inatingível. E estar desfalecendo diante de um trinco de janela poucos minutos antes pareceu ridículo e patético demais para ela. O choro, rápido como veio embora da mesma forma, foi. Substituído por um riso quase nervoso, o choro foi embora e a mulher ficou com uma sensação estranha.
 
Tornou-se para trás, vendo que outras janelas também estavam batendo, exatamente como aquela, e seu olhar caiu exatamente no leito onde dormia Harry. Era como se os outros dois pacientes ali presentes, Malfoy e uma moça, não existissem, e ela fosse guiada a ele.
 
O corpo de Harry parecia rígido, os braços e pernas colados contra a cama, os dedos estáticos, contorcidos como se agarrassem alguma coisa e não deixassem escapar. Sua respiração estava inconstante, por vezes grandes suspiros, por outras não respirava por segundos intermináveis. Hermione, ainda na ponta dos pés, andou até ele, reparando em sua linguagem corporal e sua face. O rosto estava suado, ela podia ver as gotículas de suor, os olhos pressionados, a testa franzida e a boca entreaberta, o lábio inferior quase trêmulo.
 
Sentou-se numa cadeira ao seu lado, a mesma que sentara no início da tarde, e tirara o tempo para observá-lo. Deveria ser um daqueles terríveis pesadelos que tinha. Havia noites em que Hermione acordava tão exaltada pelos seus gritos, gritos de socorro e de ajuda, pelos pais e por ela. Era aterrorizante e criara um estado de emergência em seu sono – estaria preparada para despertar a qualquer momento da noite, na intenção de confortá-lo. Mas, havia noites em que ele sequer despertava Harry optava por não dormir, a insônia vindo com força. Hermione sentia por toda a noite o toque de suas mãos em seu cabelo, e sabia que sua cicatriz estava ardendo, que a imagem de seus pais e de Ron vinham com força total, que Voldemort mandava sinais de sua ira. Nunca conseguiu administrar essa parte da relação de ambos, sempre achou que era o elo forte, mas tinham noites em que tudo isso era idiotice, e apenas agarravam-se um ao outro, na esperança de que tudo acabasse.
 
Sua expressão mudou rapidamente, o rosto todo se contorcendo como numa careta, Harry apertando os olhos e mordendo o lábio inferior com tamanha força que Hermione imaginou arrebentá-lo. E então ele gritou novamente:
 
- Hermione!
 
A mulher apenas foi capaz de estender a mão esquerda e apertar a mesma dele, na esperança de mostrar que tudo estava bem e não o deixaria. Imediatamente, a mão de Harry envolveu a de Hermione, apertando-a de volta com força, na necessidade de ter a certeza de que ela estava ali com ele. Hermione assistiu o homem sacudir a cabeça ligeiramente, como se estivesse procurando-a em seu sonho e soltou um suspiro.
 
- Onde você está? – indagou Harry, a voz muito fraca. – Hermione...
 
Com delicadeza, levou sua mão direita ao rosto dele, tentando suavizar sua expressão de apreensão e dor. A face dele tentou fugir por um momento, não aceitando o toque tão próximo, até que Hermione firmou a palma da mão em sua bochecha esquerda, e então ele suavizou finalmente, o lábio sangrando.
 
Foi estranho. Hermione ficou paralisada por um instante, notando como parecia que Harry havia reconhecido seu toque, reconhecido sua pele e não resistido, como sua respiração pareceu acalmar-se e como todo o semblante tomou uma expressão de alívio. Poderia ela ter salvado-o do sonho? Poderia ela ter significado um abrigo e uma força de ajuda? Um último grito no escuro e logo o resgate?o direita ao rosto dele, tentando suavizar sua express, como se estivesse procurando-a em seu sonho e soltou um suspiro.
 
Segurando o choro, que parecia voltar com certa facilidade, ouvindo a respiração pesada dele, seus pensamentos correndo pela mente, Hermione apenas conseguia se desconcentrar por vezes pela força da tempestade. Recordou o dia da batalha final contra Voldemort em Hogwarts – aquela que deveria ser a batalha final. Harry, ela e os integrantes da Ordem da Fênix duelando e lutando contra os Comensais. A aparição de Voldemort e Harry caído em seus braços, debaixo de uma chuva torrencial, sem respiração, sem pulso, sem vida. Naquele dia, Hermione pensou que ficaria sozinha no mundo, que não poderia viver sem Harry e sem Ron. Não imaginava a vida sem eles... Como poderia viver dessa maneira?
 
Deixando que as lágrimas caíssem mais uma vez, Hermione permaneceu tocando sua mão e seu rosto, mas passou a soltar seus medos, ou melhor, a conversar com o perturbado Harry, ainda que estivesse claramente sob o efeito de fortes calmantes. Aproximando seu rosto do dele, cochichou, um sorriso pequenino nos lábios:
 
- Nunca pensei que viria a amar alguém desse jeito, sabia? Mas acho que te falei isso inúmeras vezes antes... – iniciou, um risinho acompanhando sua fala. – Algumas vezes acho que sempre te amei, que você era o meu ideal e que nascera para mim, e eu sei que isso parece muito idiota e clichê, mas acho que quando estamos apaixonados, caímos nessa mesmo – e ela respirou fundo, acariciando a mão rígida de Harry com os dedos. – Algumas vezes acho que me apaixonei somente naquele dia da fonte, que você disse o quanto me amava e como desejava que eu fosse sua namorada.
 
As imagens de Harry, em pé ao lado daquela fonte, olhando para ela como se fosse a única coisa no mundo, as folhas daquele outono, espalhadas pelo chão, o céu tão estrelado. A primeira vez que suas mãos tocaram-se, a primeira vez em que se abraçaram querendo muito mais, o beijo inesquecível, em que Hermione nunca pensou sentir tantas coisas ao mesmo tempo. Harry era o tipo de cara que sabia falar tudo certo na hora exata, nem antes nem depois. As palavras eram fortes demais para ele, e ela seria eternamente grata, já que todas as palavras que lembrava terem sido ditas por ele, sabia que eram especiais e sinceras. Como esquecer o clima quente mesmo no outono de Veneza, o som das gôndolas contra a água escura, o passeio de ambos por um dessas, sem palavras, apenas olhares. Hermione não achava que se podia descobrir tantas coisas somente por um olhar. E que olhos eles possuía!
 
- A semana que se seguiu àquele encontro, você e eu, experimentando um sentimento tão novo, um amor que nasceu de uma amizade eterna. Será que o amor era eterno também? – questionou Hermione, as lágrimas caindo, a chuva crescendo. – A semana que você e eu nos amamos da forma mais inocente e infantil, descobrindo o que ambos já sabiam. Descobrindo como gostávamos de ser tocados, passando de estágio em estágio, do beijo ao encaixe perfeito de nossos corpos no final daquela semana. Nunca fiz amor tão maravilhoso com nenhum outro homem, não como o nosso, tão íntimo, tão sensual, e ao mesmo tempo tão inexperiente um com o outro. Uma delícia aqueles dias foram, em que encontramos no outro o melhor modo de se amar fisicamente. Até hoje não fomos capazes de superar aquela semana aqui em Veneza, não é?
 
Cada um perdera a virgindade com cada namorado, aqueles dois anos afastados fizeram grande ajuda a isso, Hermione e Harry ganhando o quê Hogwarts não ensinara. Mas, descobriram o quê realmente era paixão e desejo e amor intenso bem depois. A semana que seguiu o primeiro beijo naquela fonte, ambos passaram trocando experiências e toques, tentando encontrar o caminho para, posteriormente, a melhor relação sexual que já tiveram. E uma semana seguinte seguiu, trancados na bela Veneza, esquecidos do mundo, experimentando a melhor troca de amor já feita por ambos. Era como se o desejo superasse a razão, era a necessidade de demonstrar fisicamente o quanto se amavam e recuperar o tempo em que estiveram ocupados demais com Voldemort para pensar um no outro.
 
- Você sabia que podia confiar em mim, Harry... Sabia com sua vida, sabia que eu arriscaria tudo por você e saberia entender essa profecia maldita! – exclamou a mulher, soltando soluços mais altos e apoiando a cabeça no braço estendido do corpo adormecido dele. – Nós esperaríamos esse dia juntos, nós ficaríamos atentos, e você poderia dividir este fardo comigo, com a mulher que você quis para si! Por que não me contou? Por que preferiu esconder isso e mentir para mim? Por que preferiu sustentar essa mentira? Foram treze anos, Harry! TREZE ANOS!
 
Ela estava cansada, exausta de lutar contra essa ira dentro de seu coração. Estava esgotada de assisti-lo mais uma vez numa cama de hospital, ferido e parecendo à beira da morte. Gostaria de lutar com ele, lutar contra as adversidades, contra a merda de vida que se apresentou a eles, mas que se tornou a melhor das existências após o início do relacionamento. Por que continuar com aquilo?
 
- E eu não falo de você ter escondido isso de mim, Hermione, a mulher que você ama e que queria ter seus filhos! Falo de você ter escondido isso de Hermione, a sua melhor amiga, a pessoa que te conhece há mais de quinze anos, que sempre te apoiou, que sempre estava para tudo, disposta a perder a vida pelo homem que ela acreditava ser a salvação dessa onda de terror que dura desde sempre! Falo de TREZE ANOS, Harry! Isso é uma vida! E você tem suportado isso sem dividir com ninguém, com ninguém! Eu te amo tanto e você simplesmente escondeu! Você não confia em mim? Por que não confia em mim...?
 
E caiu no choro, sem controle desta vez, sem pudor e sem vergonha. Os soluços vinham altos, como se pudessem ter vida própria e gritassem para sair de seus pulmões, cansados de ficarem presos ali. Porém, ao abaixar a cabeça mais uma vez no braço de Harry, os olhos do homem abriram com calma, cheios de água, duros e arrependidos. As lágrimas escorreram de seus olhos, assim como escorriam dos dela, mas Harry preferiu chorar silenciosamente. Não demorou a que ela caísse no sono, e ele pudesse somente admirar a mulher que amava tão cegamente.
 

 
Demorou duas semanas para que Harry estivesse completamente recuperado do ataque do mutilador. Nesse meio tempo, Draco recuperou-se antes e guiou uma equipe, muito bem-sucedida, que capturou o Comensal. Soube também naquela manhã que Hermione fora convocada para uma missão com os integrantes da equipe de medi-bruxos da cidade há quatro dias, e ainda não retornara.
 
Quando fora avisado de que a missão seria em Veneza, nada poderia ser pior no atual estágio dos acontecimentos. Harry recusou a princípio, mas então Malfoy exigiu sua presença, além de toda a equipe, afinal, ele era o Capitão. Mesmo que tenham sido vítimas do ataque surpresa, que tenham ficado feridos seriamente, Harry achou que ir até Veneza não parecia um absurdo tão grande. A cidade trazia lembranças que pensara ter esquecido, detalhes tão pequenos e tão significativos, como tudo que norteava o relacionamento com Hermione. Recordar como se apaixonara, como a beijara, como a amara. Harry não podia deixar que seu erro destruísse uma relação tão maravilhosa, a única coisa que o fazia continuar resistindo.
 
Seu dormitório no centro de recuperação estava impecável, um vaso de lírios ao lado de sua cama – a flor favorita de sua mãe. Deixando o casaco sobre a cama, o tempo levemente sombrio naquela manhã, Harry aproximou-se da janela e da varanda ali existente. Aquele era o último dia do outono, as datas festivas chegando, Veneza sendo enfeitada com as mais belas flores, luzes e detalhes de Natal. De sua janela, esperava que o sol saísse no horizonte, já eram nove horas, mas a cortina acinzentada não permitia que ele brilhasse. Parecia muito com Londres e o QG dos Aurores. Harry suspirou. Veneza passara por dias de torrenciais chuvas, desde aquela noite em que Hermione adentrou em seu dormitório de recuperação e disse todas aquelas coisas.
 
Vendo todos os preparativos para o Natal e o Ano-Novo, Harry imaginou como poderia passar os últimos dias do ano com Hermione. Em Londres, estariam forrando todo o QG para esquenta-lo da melhor maneira, já que o aquecimento trouxa andava quebrado e ninguém parecia capaz de consertar – Hermione recusara a fazer isso, já que dizia um absurdo colocar os elfos domésticos para realizar tal tarefa. Ou então estariam passeando pelo Beco Diagonal e Hogsmeade, na esperança de tomar uma bela cerveja amanteigada e assistir as crianças dando o passeio de final de ano. Ou fugindo da neve, sentados debaixo de uma árvore, enrolados em um cobertor e com chocolate quente correndo pelas veias. Tudo estaria perfeito, como deveria ser desde o início.
 
A questão é que ele não poderia deixar que uma época como essa passasse em branco, que Hermione nunca mais o perdoasse, que ela continuasse deduzindo que ele não confiara nela – o maior absurdo de todos. E eles conversariam e se acertariam. E Veneza estaria presente, pois Veneza nunca poderia ser esquecida. O único lugar que foram felizes plenamente, sem qualquer distração. Somente Harry e Hermione.
 
- Hey Potter – Harry virou-se para trás e, por entre as cortinas brancas, encontrou Malfoy. – Parece que a Granger chegou – o moreno logo saiu de trás das cortinas e pegou o casaco sobre a cama. – Só que ela parece bastante estranha...
 
Harry paralisou, o casaco na mão, sem entender.
 
- Estranha como? – perguntou, aflito, esperando o pior.
 
Draco deu de ombros e um sorrisinho astuto apareceu no canto dos lábios. Tinham ocasiões em que Harry simplesmente gostaria de enfiar um soco bem dado no parceiro de trabalho. Sendo ele Tenente ou não.
 
- É, ela e a minha noiva ficam de cochichos... Sequer chegou e logo foi chamando Gina, desesperada, e as duas foram fofocar em algum lugar por aí...
 
O Capitão suspirou, aliviando-se levemente, saindo do dormitório com Malfoy em seu encalço.

O saguão do centro de recuperação estava lotado de gente. Harry e Draco pararam após quase esbarrar na multidão de pessoas que estava ali. E todos eram idosos. Os dois trocaram olhares, sem entender absolutamente nada, esperando alguma explicação. Harry saiu andando, até encontrar um grupo de já conhecidos supervisores medi-bruxos, todos sorrindo, e questionou:
 
- O quê está acontecendo aqui?
 
Uma das jovens tornou-se para ele, as bochechas rosadas e os olhos brilhantes.
 
- Todo final de ano, os bruxos mais antigos de Veneza reúnem-se aqui para um encontro anual, em comemoração ao final de ano, sabe. Afinal, perspectiva de vida eles não possuem muita, então gostam de se reunir aqui e fazer uma festinha...
 
Harry nada entendeu, e permaneceu junto do grupo, sendo acompanhado mais tarde pelo mesmo Malfoy, observando os bruxos se acomodando no saguão, este todo decorado com o melhor do espírito natalino italiano que já viram. Cruzando os braços, viu dezenas de casais de velhinhos, todos abraçados e beijando um ao outro com carinho e simplicidade, um grande sorriso no rosto, os chapéus cônicos despontando no ar. Lembro-se de Dumbledore e de como o professor poderia ser astuto, esperto e o melhor homem possível, com toda sua sabedoria e vivência.
 
Uma sensação de quentura encheu o peito do auror, apenas de observá-los. Imaginou-se acompanhado de Hermione, ambos bem velhinhos, aproveitando o que restava de suas vidas, curtindo dia após dia, com seus netos e bisnetos. Gostaria de ter uma família feliz, com filhos bem-sucedidos e completos, ótimos profissionais, inteligentes como a mãe e hábeis como o pai. Um sorriso foi aparecendo em seu rosto, e pôde observar que Malfoy fazia suas costumeiras caretas ao lado. Harry sabia que tudo era fachada, nunca vira alguém tão maravilhado com a notícia de que seria pai. Gina estava grávida daquilo, e Harry nunca entenderia provavelmente. Mas, o ponto é que a maternidade muda a mulher, mas a paternidade pode mudar ainda mais. A prova viva estava ao seu lado.
 
Suspirando profundamente, fechou os olhos por um momento e desejou que tudo que acontecera há quase um mês não passasse de um sonho, um sonho muito ruim. Como poderia imaginar um futuro sem ela ao seu lado? Sem a única que poderia dar-lhe os melhores filhos do mundo? Sem a rainha da sua existência?
 
Tomando ar, Harry tornou-se para trás e chocou-se com a cabeleira morena que tanto amava. Abaixou os olhos e encontrou Hermione encarando-o. Primeiramente, os pés, depois as pernas e o tronco, até chegar em seu rosto e paralisar ao encontrar seus olhos verdes. Harry engoliu em seco, perdendo completamente a noção do que dizer. Parecia que Hermione estava diferente, talvez fosse o tempo afastado. Suas bochechas estavam mais pálidas, seus olhos mais fundos e sua pele mais cansada. Uma parte dele desejou que tudo fosse por sua causa, mas a última coisa que queria era vê-la mal por qualquer motivo, mesmo que fosse por ele.
 
Por um momento, Harry não soube o que dizer. Sua boca ficou entreaberta, de um jeito bem infantil, como um garotinho que deseja convidar a garota que gosta para dar um passeio. E ficaria assim, até que Hermione, que parecia tão temerosa quanto ele, não dissesse:
 
- Precisamos conversar. – e sua voz estava calma, surpreendendo ela mesma.
 
Harry apenas concordou, e então ela deu as costas, afastando-se dele. O auror passou a segui-la, desejando que tudo desse certo. Ele não a perderia por nada.
 

 
Assim que chegaram no dormitório de Hermione, Harry foi obrigada a parar na porta. A morena adentrou, mas ele ficou ali, assistindo o estado do quarto. Havia duas malas no chão, ao lado da cama, esperando para serem carregadas. Todo o âmbito parecia pronto para um novo hóspede. Um medo maior do que ele pôde compreender o tomou por um momento, e suas pernas pareceram morrer naquela posição, fincadas no piso.
 
A figura de Hermione tornou-se para ele, chocado e pálido na porta, o olhar direto nas malas. A medi-bruxa engoliu longamente, e depois pegou ar com calma. Largando a varinha sobre a penteadeira, ela cruzou os braços e encostou o corpo na mobília. Impressionante como uma pequena pista de que ela estava o deixando causara tal efeito. Hermione passou a língua nos lábios, eles estavam ressecados, nervosos. Harry estava bem outra vez, completamente curado, tudo no lugar e tudo consertado. O rosto pálido, assim como o dela, continuava belo, ao mesmo passo que seus olhos, verdes como esmeraldas. Era agora ou nunca.
 
- Você não vai entrar? – ela questionou, quase divertida, mas Harry sabia que nada de engraçado existia ali.
 
Sem dizer uma palavra, o auror entrou no dormitório, fechando a porta em suas costas. Ouviu o som da porta sendo trancada e olhou para Hermione, a bruxa com a varinha apontada para a porta, seriamente.
 
- Não quero que sejamos interrompidos...
 
Por alguns segundos, Harry apenas circundou o quarto, olhando com detalhe a mobília intocada, a cama arrumada, tudo exatamente em seu lugar para uma troca de hóspedes. Novamente, reparando nisso. Será que aquele seria o fim?
 
Hermione indicou a cama para que ele sentasse, e ela acomodou-se na cadeira da penteadeira, cerca de dois metros de distância um do outro. Harry sentiu uma terrível tensão instalada entre eles, mas preferiu ignorar, apoiando os cotovelos nos joelhos, esperando que ela dissesse alguma coisa... Qualquer coisa.
 
- Harry... – Hermione iniciou, suspirando e parecendo nervosa, agitando os dedos da mão e mordendo o lábio inferior, como quando não sabia algo de uma tarefa. – Harry... É o seguinte: você tem somente agora... E eu realmente digo agora... Para me dar uma explicação para tudo isso... E reze para que seja boa, pois estou seriamente pensando em desistir, e imagino que você não deseje isso...
 
Ainda que desejasse menos responsabilidade em seus ombros como ela tivera feito, Harry sabia. Hermione era a mulher de uma única palavra, era orgulhosa e não costumava voltar atrás em suas decisões. Aquela era sua última chance a ele. Harry não estragaria por nada nesse mundo.
 
Ele soltou a respiração pelo nariz, pesada e presente, e passou as mãos no cabelo e na testa. Apesar do frio, ele suava. De quase pavor. Não poderia perdê-la.
 
- Certo... Tudo começou no quinto ano, depois que fomos parar no Ministério e o Sirius morreu – Harry disse, medindo as palavras com cuidado. – Fui até Dumbledore para questionar algumas coisas, ele também desejou que eu estivesse presente, e depois de jogar toda a profunda raiva que sentia, ele decidiu que eu deveria saber...
 
- A profecia. – completou Hermione, nunca tirando os olhos dele.
 
- Exatamente. Disse que aquela profecia falava sobre o nascido no final do sétimo mês, que ficaria marcado pelo poder de seu inimigo, e que ele não poderia sobreviver sem que seu inimigo estivesse vivo – resumiu de forma quase displicente, mas as palavras começaram a sair. – Foi quando descobri sobre o meu destino com Voldemort. A questão é que ele não sabia se o escolhido era eu ou Neville, que também nasceu no final do mês de julho, entende? Então, ele me escolheu, matou meus pais, e eu ganhei essa cicatriz. O poder dele reverteu, mas não o eliminou por completo... – Hermione sabia que falar sobre a morte dos pais era difícil ainda para ele. – Agora, chegará um dia em que nos encontraremos e lutaremos até que eu ou ele mate o outro... É isto que a profecia diz, Voldemort só poderá ser destruído por mim, e eu só poderei viver em paz quando o matar, já que sem isso, ele não esquecerá de mim...
 
Hermione persistiu olhando para Harry, séria e compenetrada.
 
- Mas disso tudo eu já sei, Harry... – ela respondeu, ajeitando o corpo na cadeira, a sua postura superior. – O que eu desejo explicações é: por que você escondeu isso de mim?
 
- Hermione, escute, sei que isto parece uma coisa, mas não é...
 
- Você acha que parece, Harry? Parece?! Vou te dizer uma coisa: é o que tudo indica! Você perdeu a coragem de me contar isso?! Você ficou com preguiça?! Você achou que não importante?! Você achou que poderia ficar treze anos escondendo isso de mim?! – Harry respirou fundo, enquanto Hermione aumentava o tom de voz. – Posso dizer centenas de hipóteses aqui para dizer com o que pareceu esse segredo teu, Harry! Mas, eu estou te dando uma chance, então não desperdice e diga-me logo!
 
Tentando reunir o máximo de explicações possíveis, Harry ouviu novamente.
 
- Por que você escondeu de mim? – e a voz veio repleta de mágoa.
 
Nesse momento, Harry começou a sentir-se mal por tudo aquilo. Nunca imaginou que fosse tão difícil, que Hermione reclamaria tanto, que achasse tanta coisa. Mas, parando para pensar, caso ela escondesse ele uma quase sentença de morte, como já pensara antes, também ficaria enfurecido.
 
- Quando soube da profecia, Hermione... Eu fiquei perdido, te juro. Não sabia para onde correr, para quem contar, com quem contar. Pensei em inúmeras coisas, em inúmeras chances e pessoas... – a voz estava pausada, mas o tom alterado. – Somente Dumbledore sabia dela, quem mais eu poderia contar? E é óbvio que você e Ron foram os primeiros... Mas, depois de Sirius, eu tinha tomado uma decisão, Hermione, uma decisão que me impediu de tomar atitudes mais cedo...
 
- Não me diga que... – ela tentou deduzir, mas Harry ergueu a mão e não permitiu que ela continuasse.
 
- Nasci em uma família cheia de amor e carinho, Hermione – ela podia ver que ficava difícil para ele prosseguir em certos momentos. – E esse filho da puta tirou a vida deles e arrancou tudo que eu poderia ser ao lado dos meus pais! As pessoas em quem nós costumamos nos inspirar, aqueles que nos ensinam o certo e o errado, que nos ensinam o que é amar, eles os tirou de mim! Então, eu fui mandado para aquele... Aquele lugar horrível, que fui empregado por anos e anos, sempre indesejado e marginalizado. Uma aberração, era o que chamavam o Potter idiota – a garganta parece fechar por um instante. – Mas até mesmo a aberração encontrou seu lugar, encontrou Hagrid e Hogwarts, descobriu todo um mundo em que era famoso, era tratado como herói e que mudou toda sua história... Encontrei duas pessoas maravilhosas que nortearam todas as minhas decisões, Ron e você... E mais uma nova família, os Weasley. E todos pareciam acreditar que eu poderia ser alguém, independentemente de carregar o nome que tenho...
 
- Harry, seus tios foram maus com você, foram abusivos, e deveriam ganhar um grande castigo, nunca acredite que você é ou foi uma aberração, você sempre foi alguém, uma pessoa de enorme coração e compaixão...
 
- Mas eu demorei a acreditar nisso, e você sabe disso melhor do que ninguém – retrucou ele, seriamente. – E então, Sirius apareceu na minha vida, e foi uma das melhores coisas que já me acontecera. Finalmente, um toque familiar, um resquício de que as coisas poderiam se acertar... E o quinto ano veio, nós fomos atrás de uma farsa, e ele foi tomado de mim... Aquele ser asqueroso o levou de mim e é isso que acho! – Hermione sabia que seus olhos deveriam estar embarcados em lágrimas. – Como eu poderia colocar você e Ron nisso?! Eu já tinha perdido a pessoa que era a ligação entre eu e meus pais, como poderia arriscar você?! Como poderia colocar Ron nessa batalha?! Nenhum de vocês dois escolheram isso, ao se tornarem meus amigos, eu tentei avisar, mas vocês lutavam contra isso, achavam que nada importaria, juraram suas vidas pela minha! Como eu poderia deixar que soubessem de algo que ninguém poderia saber, e arriscá-los?! Vocês eram o que me restara de tudo!
 
Hermione ergueu-se da cadeira, frustrada de certa forma.
 
- Mas você não podia ter escondido isso Harry! Nós estamos falando de seu possível atestado de óbito, e você não pode negar isso! – ela ficou repentinamente brava demais para agüentar aquilo. – Nós poderíamos ter ajudado você a enfrentar isso! Poderíamos ter apoiado todas as suas decisões, poderíamos ter te entendido melhor e estar do seu lado com mais força ainda...!
 
Foi a vez de Harry levantar da cama e abrir os braços, a voz falha, mas repleta de frustração, da mesma maneira que a de Hermione.
 
- RON MORREU POR MINHA CAUSA E ELE NEM SABIA DA PROFECIA, HERMIONE! JÁ IMAGINOU SE ELE SOUBESSE?! – gritou em resposta, quase que enlouquecido.
 
A bruxa deu um passo até Harry e apontou um dedo em seu rosto.
 
- Você SABE que Ron NÃO MORREU POR TUA CAUSA, HARRY! – confrontou, aborrecida ao extremo, sem acreditar naquilo. – Como você pode ser tão egoísta a ponto de achar que tudo gira em torno do seu UMBIGO FAMOSO?!
 
Aquilo foi como se Harry tivesse sido empurrado para trás, e ele realmente deu um passo retraído, abismado de ouvir o que Hermione dizia. Seu rosto ficou impassível.
 
- Eu não acredito que tenha entendido isso, Hermione... – falou, a voz incrédula demais.
 
E então ele reparou no rosto dela, os olhos arregalados e as mãos sobre a boca, como se pudesse apagar de alguma maneira a acusação absurda feita.
 
- Harry... Harry... Eu não quis… Juro que não quis dizer isso… É só que... Deus! – e nesse momento, ele pôde notar que havia lágrimas no rosto dela. – Você me escondeu isso por TREZE ANOS! Isso é muito tempo Harry! Como você pôde esconder, como pôde viver sabendo que a qualquer momento, poderia morrer nas mãos de Voldemort?
 
O auror respirou fundo, engolindo longamente e fechando os olhos.
 
- É exatamente disso que eu falo, Hermione... – e ele bateu as mãos ao lado do quadril, cansado. – Se você soubesse da profecia, se soubesse que, a qualquer momento, eu poderia não estar mais aqui, você arriscaria tudo novamente?
 
Hermione franziu a testa, sem entender.
 
- Arriscaria o quê?
 
- Arriscaria apaixonar-se por mim novamente? – e os olhos dela arregalaram-se novamente. – Arriscaria passar por tudo que vivemos aqui em Veneza há cinco anos? Arriscaria aceitar um relacionamento sem futuro garantido, sem a certeza do amanhã, sem ter idéia se no dia seguinte, eu estaria deitado ao seu lado, esperando-a acordar e tomá-la em meus braços, e ficaríamos desse jeito a manhã toda? – Hermione abria e fechava a boca, perplexa. – Arriscaria não sua vida, mas seu coração e sua sanidade para estar comigo? Sabendo que nada posso garantir?
 
Naquele momento, foi como se uma onda tivesse passado e levado tudo embora. Hermione não sabia se era dia ou noite, se estava chovendo ou não, se estava magoada ou não. A única coisa que passava na sua cabeça era as palavras de Harry. Então, ele realmente desconfiou que ela não estaria com ele mesmo sabendo da profecia? Harry achava que não o amava o suficiente para suportar um obstáculo como esse? De certa forma, aquilo poderia aborrecê-la, mas Hermione via mais na questão de Harry. Sabia que ali estava implícita a rejeição sempre tão constante na vida dele. A rejeição que veio com a morte dos pais, com a morte de Sirius, de Hagrid, de Dumbledore... Com os tios que tivera... Com o melhor amigo morrendo por ele, arriscando a vida em nome de sua segurança, mesmo que a opção tenha sido tomada totalmente por Ron.
 
A mulher não soube explicar, mas realmente sentiu como se tudo não passasse como uma corrente boba de ar por ela. A profecia, o mês sem Harry, as noites sem dormir ao seu lado, a briga de poucos segundos... Na sua frente, apenas estava um homem pedindo não para ser salvo, mas sim para ser amado. Incondicionalmente. E talvez Harry não tivesse ainda essa consciência, mas ninguém o amaria como ela o amava. Absolutamente ninguém. E Hermione arriscaria a vida para provar isso.
 
Hermione diminuiu a distância entre eles e fez algo inesperado para ela. Estendeu as mãos e puxou as de Harry para as suas. Com demorada dificuldade, entrelaçou seus dedos com os dele, percebendo como suas palmas estavam tão suadas quanto as dele, um toque tão sutil e ao mesmo tempo tão denso. Harry não mudou a expressão dolorosa, a intensidade de sua decepção no olhar, deixando o coração de Hermione mais apertado. Entendeu que Harry apenas desejava preservar sua vida. Entendeu que Harry somente não queria perdê-la. Não era possível descobrir como a história deles iria acontecer se Hermione soubesse da profecia, mas certamente estariam juntos. Hermione nunca tivera tanta certeza antes, apenas olhando para ele. Harry era o homem de sua vida, era sua alma gêmea, sua cara-metade, nasceu somente para ser dela e de mais ninguém.
 
Apertando os nós dos dedos contra os dele, deu mais um passo e colou seu corpo no dele, com calma e carinho. Concentrando o olhar no dele, disse:
 
- Harry, eu nunca tomaria outro caminho se não esse – e então, guiou a mão direita dele, amarrada na dela, até seu peito. Harry sentiu como o coração dela estava disparado. – Nunca seria capaz de desistir de nós dois, porque sei com todo o meu ser que fui feita para você, e você foi feito para mim... Com profecia ou sem profecia, sabendo que um dia posso despertar sem você, sabendo que um dia posso despertar com você e sem Voldemort para nos assombrar, eu não perderia por nada nesse mundo todos os momentos que passamos juntos até agora... Não trocaria um segundo sequer, não deixaria de te desejar, não poderia viver sem você. Comigo, ao meu lado. Eu sempre irei te amar, com tudo que eu possuo, até depois que eu morrer, Harry... Irei te ajudar a cumprir essa profecia a seu favor, irei me casar com você, ter nossos filhos, e poderemos morrer juntinhos, bem velhinhos como todos aqueles casais que vimos hoje – um riso veio da garganta de Harry, junto com as lágrimas cristalinas que caíram de seus olhos. – Não preciso ter razões para te amar porque tenho feito isso desde que te conheci, a única coisa que desejo é ter você para mim o tempo que for necessário, o tempo que Merlin deu a nós. Nunca duvide, meu amor por você nunca vai acabar... Porque você é meu, Harry... Nós nascemos destinados a encontrar o outro, em algum estágio de nossas existências... E aqui estamos... Prontos... E somente isso importa, nada mais...
 
Um grande sorriso apareceu nos lábios de Harry e ele apenas abaixou a cabeça, indo de encontro com a boca da mulher, cheio de delicadeza e carinho. Aquele beijo foi provavelmente o mais inocente e doce que já trocaram. Os lábios de Harry encostaram com calma nos de Hermione, colando e descolando, os relevos das bocas se encontrando, combinando e encaixando-se sem pressa. As mãos estavam ainda unidas, uma delas estendida ao lado dos corpos, a outra ainda pressionada contra o peito de Hermione. Os batimentos dela estavam disparados, enquanto trocavam a carícia. Pouco a pouco, os lábios foram abrindo, um unido ao outro, desejando um contato maior, mas ainda repleto de doçura e calmaria. A língua dele fez contato com a dela sem alarde, tocando gentilmente, passeando pelos cantos inexplorados até o momento, depois voltando a dançar uma valsa, elegante e delicada. As cabeças moviam de um lado ou outro, pacientemente, como se houvesse um ritmo controlando os anseios. Uma balada romântica.
 
E então, lentamente, as línguas afastaram-se, e os lábios voltaram a acariciar o outro. Um som longo e quase estridente saía da troca formosa, enquanto Harry colocava a mão que antes postada sobre o coração de Hermione, agora estava no dele. Seu coração parecia tão disparado quanto o dela. Vagarosamente, distanciaram-se um do outro e olharam-se nos olhos uma vez mais. Harry estava sério, e Hermione tinha um ligeiro sorriso.
 
- Você me perdoa, Hermione? – perguntou Harry, ainda com a mão deles pressionadas contra seu peito.
 
Um riso quase bobo saiu dos lábios da mulher e ela voltou-se para ele com os olhos brilhantes de paixão.
 
- Claro que te perdôo... Só nunca mais minta para mim, Harry... Não haverá segunda chance, como desta vez, por mais que isso possa me destroçar... – respondeu, capturando os lábios do homem uma segunda vez, o coração descompassado.
 
Harry soltou suas mãos e envolveu os braços pelas costas de Hermione, enquanto ela esticava os pés e os braços, na intenção de puxá-lo para ela, apaixonadamente. Nunca imaginou sentir tanto desejo por ele como naquele instante, as mãos desesperadas no cabelo desgrenhado e escuro dele. Suspirando entre os beijos, soltando gemidos ao sentir o corpo contraído contra o dele, Hermione sorriu e deixou-se levar. Quando estava pronta para tomar o próximo passo, Harry interrompeu, empurrando-a levemente.
 
- Tenho uma proposta...
 
- Indecente? – brincou ela, passando a língua novamente pelos lábios.
 
O auror arrebatou-a com um beijo rápido, mas faminto, e depois completou:
 
- Mais ou menos – disse ele, sorrindo e puxando a contra o corpo, tentando demonstrar a ela como a queria. – Que tal irmos até aquele hotel de uma certa fonte e relembrar como aquelas duas semanas aconteceram? – propôs, piscando o olho direito, um sorriso safado nos lábios. – Vamos relembrar Veneza?
 
- E como eu poderia esquecer? – respondeu Hermione, caindo na cama com o corpo pesado de Harry sobre o dela, pronta para esquecer o terror daquele último mês e pronta para iniciar sua vida novamente, para a felicidade plena.
 
FIM
 

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