A Srta. Potter
Dois anos a menos. Na verdade, já é o bastante para formar uma grande rivalidade entre irmãos. Porém, não é exatamente isso que acontece com Tiago e sua irmã caçula. Heather Potter é uma garota carinhosa e tímida, mas que desperta muita curiosidade nos poderosos do mundo mágico por causa de um pequenino detalhe que corre em seu sangue, e que mudará todo o curso de sua vida e de sua família.
- Srta.
Potter! Srta. Potter!
Mesmo sendo a quinta vez que a
professora tentava chamar a atenção, a garota insistia em ter o olhar perdido
e os ouvidos tampados. Sem mais paciência, a mestra aproximou-se da aluna
sentada no fundo da sala de aula e bateu sua varinha sobre a mesa.
Imediatamente, a garota levantou os olhos castanhos na direção dos da
professora e endireitou-se na bancada.
- Imagino que a senhorita não tenha
feito o discurso escrito que pedira no começo da aula. Estou certa? –
instigou a mestra num tom severo.
Quando a jovem foi abrir a boca para
responder, o horário do colégio anunciava que a aula acabara. A professora
virou-se para a sala dizendo que estavam todos dispensados.
A menina começou a juntar seu
material e sua varinha dentro de sua mala quando a mestra tornou-se novamente a
ela e pigarreou.
- Srta. Potter – chamou num tom
mais austero ainda. – Já é a terceira aula seguida que a senhorita não faz
as tarefas que mando, não entrega as que eram para ser feitas na Torre e não
escuta uma palavra do que falo...
- Me desculpe, professora...
- Não há mais desculpas, Srta.
Potter! – a mestra cortou-a bravamente. – Eu já deixei isso tudo ir longe
demais.
Os olhos da garota arregalaram-se
com medo. O castanho, quase mel de suas vistas estava cheio de pavor.
- O quê a senhora fará? –
perguntou a garota temerosa.
- Eu terei de comunicar o seu irmão.
- Não! Não, por favor! Não fale
nada ao Tiago! – implorou a garota, juntando as mãos nervosamente.
A professora retirou os óculos que
cobriam seus olhos igualmente castanhos. Sua pele começava a enrugar mais
fortemente enquanto os olhos continuavam cheios de vida. Mas, naquele momento, a
sua expressão era de total desaprovação.
- Já faz seis meses, Heather –
disse a mestra num tom mais passivo, quase carinhoso. – Seis meses que ele se
foi.
A aluna abaixou os olhos, procurando
desviar as lágrimas que ameaçavam brotar deles. A dor ainda era muito grande.
- Ele não gostaria de ver que a sua
vida parou por causa disso. – continuou a professora sabiamente.
- Ele está morto! – interrompeu
Heather brusca. – Ele nos deixou aqui! Ele me deixou aqui!
- Eu sei, querida. Mas ainda assim,
você tem que continuar com a sua vida, com seus estudos, com seus amigos. Tenho
certeza que ele ficará muito magoado em ver que a sua única filha sequer liga
para os estudos.
- Ele tem o Tiago. – retrucou num
tom quase ríspido.
- A senhorita está no quarto ano. O
Sr. Potter está no sexto ano, Heather. É monitor da Casa e um ótimo
estudante, apesar do péssimo comportamento. Mas, como você acha que ele chegou
onde está e deu tanto orgulho para o seu pai? Não fazendo as tarefas e
ignorando a professora?
Heather engoliu em seco, chateada.
Seu pai, Anthony Potter, o ministro da magia, havia morrido há pouco mais de
seis meses. Ele estava adoecido há mais de dois anos, mas nunca quis contar aos
filhos ou a mulher, Catherine Potter. E, infelizmente, a doença havia
vencido-o.
- Eu prometo que melhorarei,
professora – disse Heather num tom culpado. – Mas, por favor, não conte
nada ao Tiago. Ele vai ficar maluco!
- Ele se preocupa com a irmã mais
nova, nada mais que isso – respondeu a mestra cansada e recolocando os óculos.
– E mesmo se não fosse eu, o diretor contaria.
- O diretor? – assustou-se a
garota.
- Ele sabe de tudo que acontece em
Hogwarts, Srta. Potter. Tudo. – respondeu a professora ao final,
suspirando em seguida.
A mestra acabou liberando a aluna
para o almoço e tomou o caminho para a sala dos professores. Sentando em uma
das cadeiras pesadamente, ouviu uma voz as suas costas.
- Minerva, você está bem?
- Claro. Estou sim. É só uma
tontura, Alvo. - respondeu ao diretor da escola.
O diretor, Alvo Dumbledore, estava
em pé ao seu lado. Por um segundo, McGonagall pensou se contava ou não o novo
incidente com a irmã de Tiago Potter. Mas, ao ver a expressão esgotada do
diretor, desistiu.
- Alguma coisa aconteceu, Alvo? –
indagou preocupada.
- Se você adivinhar, ganha uma
semana de folga. – respondeu o diretor num tom muito mal humorado.
Minerva McGonagall não deixou de
soltar uma risadinha ao ouvir o mestre. Havia só uma pessoa além de Voldemort
que andava tirando a paciência de Dumbledore. Era Hariel.
***
-
Não dê mais um passo, Potter! Eu estou avisando!
Heather ouvira o grito inconfundível de Hariel Dumbledore ecoando pelo
corredor perto da Torre da Grifinória. Parecia que ela estava brigando com
Tiago.
Postando-se atrás de um pilar, viu
Hariel e Tiago dobrando o corredor e dirigindo-se ao quadro da Velha Gorda. A
garota loira estava brigando furiosamente com Tiago, que apenas ria. E de fato,
era muito engraçado ver Hariel nervosa. Suas bochechas ficavam vermelhas e
pouco mais, o rosto inteiro.
- Tome mais cuidado da próxima vez!
Isto é um treino de quadribol, não uma desgnomização! – berrava a bonita
jovem entrando na Torre.
-
AH! Hariel! Você reclama demais! – ria Tiago, acompanhando a amiga.
– Você escolheu ser artilheira!
- E VOCÊ, PELO QUE ME CONSTA, É UM
APANHADOR, NÃO UM BATEDOR! – vociferou nervosamente, jogando a vassoura no chão.
Tiago soltou uma série de
gargalhadas sufocantes. Heather, a poucos metros dali, estava rolando de rir
igualmente. Hariel poderia ser muito engraçada. Muito mesmo.
Esquecendo o ocorrido da manhã,
Heather adentrou na Torre pouco depois do irmão e acomodou-se num dos sofás,
abrindo um livro qualquer de Aritmancia. Nem dois minutos depois, Tiago estava
sentando ao lado da irmã e abraçando-a.
- UH! Você está nojento, Tiago!
– resmungou Heather, sendo abraçada pelo irmão suado.
- Nojento?! – reclamou o monitor
gostosamente. – Eu pensei que você gostasse de mim, irmãzinha!
- Eu gosto, mas não quando você
está todo suado assim! – respondeu a garota, rindo junto com o irmão.
Aquela sensação de estar abraçada
– mesmo que seu irmão cheirasse muito mal – e de proteção era
maravilhosa. Com a mãe ainda de licença – Hogwarts havia liberado-a a dois
meses atrás para descanso, ela era professora de Astronomia – havia apenas o
irmão para dar-lhe carinho. Tirando, claro, Remo Lupin, um dos melhores amigos
de Tiago, mas ele não gostava dela. Na verdade, ela desconfiava que Remo
gostasse de Arabella. Mas também não parecia tão possível assim, já que a
monitora da Grifinória namorava o David Adams, do último ano da Corvinal, e
apanhador do time de quadribol da Casa.
- Solte a garota, Tiago! Você está
deplorável!
Muitos que estavam na sala comunal
caíram na risada. Heather sabia bem quem era. Sirius Black. O mais charmoso
garoto da Grifinória. Porém, namorava Hariel há quase um ano. E todos sabiam
que os dois se amavam mais que tudo.
- Ela é a minha irmã e eu a abraço
se quiser! – resmungou divertido o monitor.
Sirius aproximou-se da dupla e
retirou os braços de Tiago que estavam envolta de Heather. Em seguida, com
muito esforço, levantou o jovem de dezesseis anos do sofá e o caminhou até a
escadaria para o dormitório masculino.
- Quando a Hariel volta desses
treinos que ela tem com você, nós nem nos falamos. A primeira atitude é ir
tomar um banho. E você deveria fazer o mesmo! Sua irmã é muito bonitinha pra
ficar cheirando mal, Pontas!
Heather riu e corou do seu lugar no sofá ao ouvir o melhor amigo do irmão.
Era verdade. Heather era muito bonitinha mesmo. Baixinha, com cabelos castanhos
lisos na altura do pescoço, olhos enormes e bem magrinha. A realidade é que
Tiago tinha muita noção disso e já sabia que dali um ou dois anos no máximo,
sua irmã estaria bonita demais para os podres de Hogwarts – na verdade,
qualquer um que se aproximasse dela estava na mira de Tiago.
***
O monitor
da Grifinória recebeu um chamado do diretor para comparecer na sua sala após o
jantar. Quando terminou de fazer suas tarefas e namorar um pouco com Lílian,
tomou seu rumo até a estátua de gárgula que guardava a sala do diretor.
Ao chegar no âmbito, encontrou os
cabelos castanhos que tanto adorava. Sua mãe, Catherine, estava conversando
calmamente e quase animadamente, com o diretor. Alvo estava rindo. E então
indicou com a cabeça o monitor.
- Filho! – exclamou a mulher,
abrindo os braços e envolvendo o filho neles carinhosamente.
- O que você está fazendo aqui,
mamãe? – questionou Tiago estranhando.
- Nós precisamos ajeitar algumas
coisas. Só estou esperando a sua irmã e conversaremos, certo?
Catherine parecia muito bem para
Tiago. Ótimo. Mas mesmo assim, havia algo de muito estranho na mãe. Deixando
suas desconfianças de lado, acomodou-se numa das cadeiras e começou a entrar
na conversa do diretor com a mãe. Poucos minutos depois, a porta abriu-se
novamente e Heather surgiu.
A visão da mãe fez centenas de lágrimas
de formarem em seus olhos. A garota estava emocionada e muito contente em rever
a mãe após longos dois meses. Após um abraço apertado, Heather sentou
igualmente numa das cadeiras. Dumbledore acertou os óculos no rosto e começou:
- Bem, eu convoquei essa reunião
hoje por um motivo muito importante – dizia seguro e calmo. – A professora
McGonagall tem contado alguns episódios para mim há algumas semanas que
gostaria de resolver – olhou fixamente para Heather. – A Srta. Potter tem
estado muito dispersa nas aulas, não tem feito as tarefas e sequer ouve a
chamada.
Catherine e Tiago tornaram-se para
Heather. A garota chegou até a encolher-se ligeiramente na cadeira, temerosa.
- Que está havendo com você,
Heather? – perguntou a mãe visivelmente estupefata.
A menina tentou articular alguma
frase, mas Dumbledore tomou a frente.
- A Srta. Potter não tem culpa de
estar agindo dessa forma. Na verdade, a perda de um pai pode ser muito, muito
preocupante mesmo. E eu falo isso pela minha filha, que perdeu a mãe há tão
pouco tempo...
- Hariel não agiu dessa forma,
Alvo! – retrucou Catherine nervosamente.
- Não, você tem razão, Catherine
– concordou Alvo. – Ela estuporava os alunos pelos corredores.
Tiago chegou a segurar uma risada.
Catherine preferiu ficar quieta enquanto Heather quase sorria agradecida ao
diretor.
- A questão é que estou aqui para
passar um recado que seu marido havia confinado a mim, anos atrás, Catherine.
– retomou o diretor.
Catherine Potter franziu as
sobrancelhas estranhando. Do que Dumbledore estava falando? Que segredo?
- Como vocês dois sabem – dizia o
diretor para Tiago e Heather. – Seu pai é o herdeiro legítimo de Godrico
Gryffindor – ambos confirmaram com as cabeças. – E o quê vocês não sabem
é o dom que seu pai possuía.
Tiago e Heather se entreolharam
curiosos e ao mesmo tempo perdidos. Dumbledore continuou:
- Cada Grande de Hogwarts tinha dois
dons, não um como é conhecido. Gryffindor tinha o dom da cura e da
imortalidade.
- Imortalidade? – chocou-se
Catherine, grudando na cadeira.
- Sim. E Anthony tinha o dom da
cura, e não o da imortalidade. Por isso, ele está morto nesse momento. –
definiu obviamente Dumbledore.
- Mas o que isso importa para todos
nós exatamente, diretor? – perguntou Tiago confuso.
Alvo suspirou cansado.
- O objetivo dessa reunião é
revelar qual dom vocês dois possuem. – disse Dumbledore encarando ambos.
Heather e Tiago engoliram em seco no mesmo segundo. Catherine perguntou
se Dumbledore tinha certeza e o diretor dizia que fora Anthony quem o contara os
dons que seus filhos possuíam.
- Ao contrário do que esperava,
Tiago terá um fardo muito mais leve do que o de Heather – a garota franziu a
testa chocada e apavorada. – Na verdade, Heather pode até ficar feliz porque
não morrerá tão cedo.
Catherine fechou os olhos
dolorosamente. Dumbledore suspirou novamente enquanto Tiago e Heather tentavam
entender os adultos.
- Que isso significa? – perguntou
Heather.
- Significa que o dom da
imortalidade foi passado para você, e não para o seu irmão, Heather. –
explicou Catherine.
Heather encarou Dumbledore e Catherine. Sabia que havia algo a mais. Não
poderia ser somente aquilo.
- Quer dizer que eu nunca vou
morrer?
- Na verdade, não – respondeu
Dumbledore. – Ainda não sabemos quando, mas você será designada a uma missão
que durará um século. Um século onde você se tornará uma guerreira poderosa
e imortal, mas terá de se ausentar. Sumir. Não ter mais qualquer ligação com
família ou amigos.
Heather arregalou os olhos, cheios de água novamente.
- E por que eu deveria aceitar
isso?!
- Porque você pode salvar o mundo,
Heather. Apenas aceitando essa missão, essa chance. Porém, como você sabe,
tudo tem seu preço.
- O meu preço é esquecer, deixar
para trás minha própria família?! Eu não posso fazer isso!
Dumbledore levantou, assim como
Heather. Tiago e Catherine estavam em silêncio. Chocados.
- Ninguém a obrigará a fazer isso,
Heather. É uma opção sua.
- E quando eu terei de tomar essa
decisão? – perguntou perdida e ligeiramente tonta.
- Não sei. Provavelmente daqui dois
anos ou mais.
- E eu verei minha família inteira
morrer? – indagou a garota num tom noturno.
***
Voltando a
Torre da Grifinória, Heather andava rapidamente. Não queria ficar perto de
ninguém. Porém, não conseguiria fugir por muito tempo. E seu irmão era bem
mais esperto do que parecia.
Quando chegou a uma sala qualquer,
escura e úmida, entrou e trancou a porta as suas costas. A única coisa é que
ela não esperava que Tiago houvesse sido mais rápido. Naquele momento, ele já
estava atrás dela.
- Você não vai fugir de mim,
Heather.
A garota tornou-se para o irmão, já
cansada, e aproximou-se de Tiago. Sem pensar duas vezes, Tiago enlaçou a irmã
e abraçou-a fortemente. Era como se sua força interior pudesse passar para
ela. Fazendo com que a irmã pudesse resistir e enfrentar o seu futuro. De cabeça
erguida.
- Eu não quero ver mais ninguém
morrer, Tiago! Não quero! Não posso!
«« Voltar a Extras »»