Nascer do Sol em Godric's Hollow


A vida deve ser perfeita. Se ela não é por si só, devemos torná-la especial. Ou o mais próximo possível disso. E é exatamente esse o objetivo de Tiago ao convidar Lílian para assistir àquele nascer do sol na colina de Godric's Hollow após a maravilhosa noite que tiveram.


 - Sirius, pare! – exclamou uma voz em quase um sussurro. – Não... – e uma risadinha foi ouvida.

         Tiago suspirou profundamente, encostado na porta da cozinha. Estavam passando as férias novamente na casa de Sirius, em Godric’s Hollow. Aquele belo casarão no alto da colina proporcionava dias quentes e noites amenas. E aquela era mais uma noite estrelada de verão, onde Hariel e Sirius estavam deitados no gramado, debaixo de uma das altas árvores, conversando ou namorando.

         Fazia uma semana que estavam lá. Pedro, Arabella e Remo não puderam chegar junto com Tiago e iriam para Godric’s Hollow apenas dali uma quinzena. Portanto, apenas os dois casais estavam aproveitando o acolhedor vilarejo bruxo.

         Lílian havia saído do banho há poucos minutos e estava trocando-se. Como o jantar já tinha sido servido e comido, a namorada de Tiago aproveitara para banhar-se. Agora, Tiago estava observando Sirius e Hariel admirando um ao outro, completamente entorpecidos pela atmosfera gostosa da noite quente.

         - Eu queria tanto essa casa só pra mim. – murmurou o jovem de dezessete anos próximo da namorada.

         - Para quê, Sirius? Você não sabe fazer nada sem Prisma... – zombou Hariel divertida.

         - Para ficarmos sozinhos. – sussurrou no ouvido da jovem.

         Sirius notou que Hariel corou furiosamente no mesmo segundo. A jovem sempre fizera questão de fugir desses assuntos constrangedores, mas naquela atmosfera, acabou deixando-se levar e sorriu marotamente. Sirius riu da mesma forma e encurvou-se sobre o corpo da namorada, beijando-a delicadamente.

         Tiago suspirou novamente. Fechando os olhos por alguns segundos, recordou alguns momentos que tivera com Lílian. Já estavam há dois anos juntos e o amor era o mesmo, porém o relacionamento não avançara muito. Não da maneira que Tiago esperava.

         - Que você está fazendo? – ouviu Lílian perguntar levemente a ele.

         O Monitor-Chefe da Grifinória tornou-se para a namorada e sorriu. Ela tinha os longos fios avermelhados úmidos e o rosto numa expressão calma. Abraçando-a fortemente, Lílian observou a mesma imagem que Tiago olhava a mais de cinco minutos. Sirius e Hariel estavam ainda se beijando.

         Quando Lílian ameaçou responder alguma coisa, ouviram um barulho vindo da sala. Tiago pigarreou num volume razoável e Sirius riu, dando um murro leve na relva e levantando Hariel do gramado.

         - Sirius! Que bom que está aqui! – gritou Stephan de dentro da casa, vendo que o filho estava junto dos três amigos. – Precisava mesmo falar com vocês.

         O filho de Stephan aproximou-se da sala, junto com Lílian, Tiago e Hariel. O bonito pai de Sirius estava com uma mala ao lado da porta de entrada do casarão e, acompanhava-o sua mulher, Holly Black, a mãe de Sirius.

         - Onde vocês estão indo? – indagou o jovem para os pais.

         - Seu pai terá de ir a um Congresso de Emergência proposto pelo Ministro da Magia em Londres – explicou Holly docemente. – Resolvi ir com ele para fazer-lhe companhia e tentar ajudar em alguma coisa...

         - Sem contar que sua mãe já pretende fazer uma reportagem para o Profeta, claro. – completou Stephan divertido, dando um selinho na esposa.

         - Mas vocês vão agora? – estranhou Sirius, franzindo as sobrancelhas.

         Stephan suspirou.

         - Era exatamente por isso que queria conversar com vocês – disse o pai. – Há algum problema em Holly e eu termos de nos ausentar por alguns dias?

         O coração de Tiago disparou fortemente, pulando do estômago para a boca. Assim como o de Hariel, já que Sirius vinha agitado demais. Ambos coraram igualmente.

         - Acho que serão uns quatro dias ou até menos. – completou Holly.

         Sirius e Tiago entreolharam-se. Acenaram positivamente com a cabeça.

         - Não tem nenhum problema, pai – respondeu Sirius, escondendo um certo sorriso que insistia em pular de seu rosto. – Podem ir sossegados.

         - Ótimo! – exclamou Stephan. – Agora, meninas, você poderiam ajudar a Holly com algumas coisas, por favor? – pediu o pai de Sirius para Hariel e Lílian, que concordaram prontamente.

         As garotas foram guiadas para fora do casarão enquanto Stephan chamou os jovens para mais perto. Tiago cutucou Sirius levemente. Já tinham uma leve idéia do que os esperava.

         - Escutem, os dois! – ordenou Stephan engrossando a voz. – Não quero nenhuma confusão com os criados, muito menos com Prisma...

         - Sem problemas, pai. – concordou Sirius.

         - E com as meninas! Elas são muito boas para vocês – zombou Stephan. – Espero confiar que nenhum de vocês fará alguma besteira, certo?

         - Claro, Sr. Black. – respondeu Tiago num tom inocente.

         Stephan checou com seus olhos azuis os garotos inúmeras vezes, procurando algum vestígio de mentiras, mas nada encontrou. Abraçou Sirius e Tiago, seguindo para fora do casarão como a esposa. Sirius ainda teve tempo de assistir Holly e Stephan mandarem acenos para eles de dentro do carro mágico e seguirem viagem.

         Sirius bufou longamente após o carro sumir de suas vistas. Após fazê-lo, voltou a olhar Tiago com uma expressão esperta.

         - Então... – enrolou, como se estivesse se espreguiçando. – O quê faremos agora, garotas?

***

Mal humorados, Sirius e Tiago acordaram tardiamente no dia seguinte. Lílian e Hariel já estavam arranjando afazeres enquanto os garotos ainda pensavam no café da manhã. O motivo de tanta folga e indisposição? Exatamente suas namoradas.

         A notícia de que Stephan e Holly Black estariam fora por cerca de quatro dias animou os jovens, mas não as garotas, que decidiram subir para dormir mais cedo. Toda a empolgação dos jovens de dezessete anos desapareceu num piscar de olhos.

         Porém, Hariel e Lílian sabiam que aquilo não duraria o dia todo. E de fato, não durara mesmo. No começo da tarde, Lílian já estava sentada num dos sofás da sala com Tiago e aproveitando que Sirius e Hariel estavam brigando, como de costume, do lado de fora do casarão.

         Na verdade, eles não estavam apenas namorando. Os primeiros botões da blusa de Lílian já estavam abertos e Tiago estava sem camisa por causa do calor – também. Quando os dedos longos do apanhador seguiram pela linha da blusa da namorada, Lílian deu um pulinho discreto e quase imperceptível para trás, botando uma das mãos sobre o peito de Tiago.

         - É melhor nós pararmos, Tiago. – pediu ofegante.

         Tiago bufou impaciente e resolveu abrir o jogo.

         - Por quê, Lílian?! Por que nós nunca podemos avançar nesse namoro? Nem que seja para poder abrir mais um botão da sua blusa!

         Lílian já vinha querendo ter aquela conversa há muito tempo e decidiu que seria melhor contar tudo o quê deveria ao namorado.

         - Certo, Tiago. Nós devemos conversar sobre isso...

***

- Que tal fazermos alguma coisa nessa noite? – propôs Hariel. – Estou muito entediada.

         Tiago riu ao ver a feição de Sirius. O jovem estava com os olhos azuis semicerrados e amarrou a cara quando ouviu a namorada dizer que estava entediada.

         - Eu concordo – completou Tiago. – Que tal algum jogo?

         - Não me venha querer jogar Snap Explosivo, Tiago! – ralhou Lílian.

         Sirius e o melhor amigo entreolharam-se, pensando que aquela não era uma idéia tão má assim. Porém, as garotas não pareciam nem um pouco animadas para uma partida de Snap.

         - Você tem uma idéia melhor, senhorita Evans? – perguntou Sirius num tom irônico.

         Lílian torceu a boca, como se estivesse pensando. Enquanto isso, Prisma passou na sala de jantar avisando que iria deitar-se, assim como os outros empregados. Hariel suspirou impaciente, batendo as unhas contra a mesa. Sirius repentinamente bateu sua mão contra a da namorada, fazendo-a parar com o barulho irritante.

         - Na verdade, nós tínhamos até o quê fazer, não é? – disse a Tiago, lançando um olhar na direção de Hariel e Sirius.

         Hariel ameaçou retrucar, mas Tiago e Lílian já estavam correndo para fora, em direção do jardim. A realidade era que Hariel estava temerosa. Sabia que Sirius já vinha tentando animar o relacionamento deles há meses, mas ainda não estava segura o bastante.

         A jovem empurrou o prato de comida para frente e cruzou os dedos sobre a mesa. Lançou um olhar a Sirius.

         - Será que poderíamos conversar, Sirius?

         O grifinório engoliu em seco ao notar que Hariel pareceu estar falando muito sério. Apenas não imaginava que a conversa seria tão séria assim. Hariel pediu que fossem ao seu quarto. Sirius chegou a tremer. Sentaram numa das camas do dormitório e Hariel expirou pelo nariz. Sirius notou que ela estava nervosa.

         Aproximou-se da namorada. Hariel encarou-o e aquele olhar parecia aflito. O jovem envolveu as mãos sobre as dela. Seus dedos estavam gelados.

         - Eu conversei com a Bella. Há duas semanas atrás. – disse a garota trêmula.

         - Sobre o quê? – indagou Sirius, franzindo a testa.

         - Ela disse que anda tendo um sonho. Um sonho sobre nós dois – completou Hariel. – E eu estou preocupada.

         Sirius suspirou num tom quase insensível.

         - O quê a Bella andou sonhando dessa vez? – perguntou num tom quase que de deboche.

         Hariel fechou a cara.

         - Ela contou que assistiu a minha morte.

         A possível brincadeira de Sirius acabou. Sabia que Arabella tinha essas visões de um futuro próximo. Porém, por mais incríveis que parecessem, eram tão preocupantes que Sirius passara a dar um imenso crédito a elas.

         - Voldemort virá atrás de mim – continuou a dizer, calmamente. – Ele cumprirá a ameaça. E me matará na sua frente.

         Sirius ficou mudo e pálido. Só a hipótese de saber da morte de Hariel já o deixava nervoso, quanto mais assisti-la futuramente. Hariel abaixou os olhos e redirecionou-se para suas mãos envolvidas pelas de Sirius. Retirou-as lentamente do alcance do namorado. Sirius encurvou-se para trás.

         - Que você está querendo me dizer?

         Hariel abriu a boca e fechou-a em seguida inúmeras vezes. Com coragem, voltou o olhar na direção de Sirius. Concentrou-se em seus olhos azuis.

         - Você realmente gosta de mim, Sirius? – indagou.

         O jovem franziu as sobrancelhas.

         - Claro que gosto, Hariel! Nós estamos juntos a quase dois anos! Se eu não gostasse de você, não estaríamos juntos até hoje...

         - Você me ama? – interrompeu Hariel seriamente.

         Um silêncio formou-se. Sirius já havia dito a ela centenas, milhares de vezes que a amava. Entretanto, Hariel desejava saber se ele a amava verdadeiramente.

         - Sim – respondeu num tom grave. – Eu te amo. Com todas as minhas forças, Hariel.

         A garota deixou escapar um leve soluço.

         - Então, se você realmente me ama, não suportará me perder...

         - Eu não vou te perder! – retrucou Sirius, colocando suas mãos nas laterais do rosto da namorada. – Nem para Voldemort nem para ninguém! Eu não vou deixar você escapar! E se a intenção dessa conversa foi terminar nosso namoro por causa de uma visão da Arabella, pode desistir! Não vou te deixar e nem você vai me largar, entendeu?! Nada vai nos destruir! Nada!

         Hariel deixou-se chorar. Sirius lançou-se sobre a namorada, abraçando-a fortemente. Somente naquele segundo, Sirius sentiu-se tonto. Sem fôlego algum, sem dor, sem alegria. Sabia que não viveria sem Hariel. Sabia que provocaria uma desgraça se Voldemort viesse atrás dela. E que não descansaria enquanto não aniquilasse aquele que, um dia, os separaria.

***

Subindo a escadaria, segurando-se no corrimão de mármore, Lílian seguiu até seu dormitório acompanhada de Tiago. Haviam conversado sobre o namoro. O relacionamento que, brevemente, daria um grande passo. Estavam abraçados quando entraram juntos no quarto das garotas. E encontraram seus melhores amigos, Hariel e Sirius, adormecidos. Sirius envolvia a namorada e estavam apertados na mesma cama de solteiro.

         - Deixe-os aí. – disse Lílian, encostando a porta do dormitório escuro e lançando um olhar a Tiago.

         O jovem arregalou os olhos ligeiramente. Seu coração disparou novamente. Que estava acontecendo?

         Lílian guiou o namorado até o dormitório dos garotos e acendeu a luz. A cama de Sirius estava levemente desarrumada. Tiago disse qualquer coisa sobre a preguiça do amigo. Lílian riu. Finalmente, um silêncio constrangedor caiu sobre ambos.

         - Acho que é melhor eu dormir na cama do Sirius. A Hariel achará estranho se você acordar com o cheiro do namorado dela...

         Tiago começou a rir da própria piada e notou que Lílian estava séria. Sua expressão não mexia um músculo. E, rapidamente, entendeu o quê estava acontecendo com a namorada. Ela estava dizendo sim. Dizendo sim a eles. Dizendo sim ao próximo passo.

         A garota foi até seu dormitório e guiou-se na escuridão, sem fazer barulho, até encontrar o pijama. Tiago aproveitou e juntou as camas, de modo que ficassem do tamanho de um leito de casal. Apenas após colocar o próprio pijama que notou o quanto estava trêmulo. Seria o nervosismo?

         Um vento fresco agitava as cortinas da janela do quarto quando Lílian voltou ao dormitório de Tiago. O namorado estava sentado numa das camas, fazendo gestos como se estivesse falando sozinho. Lílian riu e encostou a porta vagarosamente até fechá-la por completo. Tiago voltou a si no momento em que Lílian girou a chave na maçaneta, trancando a passagem para o corredor. Descobriu estar suando frio. Será que aquilo não teria fim?

         Não demorou muito para estarem deitados e abraçando, conversando sobre o futuro e o sétimo ano escolar que estava prestes a começar. Mas, pouco depois, Lílian estava levantando da cama e apagando a luz. Felizmente, Tiago conseguiu acalmar-se e em poucos minutos, já estava aproveitando cada segundo de tanta proximidade com a namorada.

         O novo passo foi consagrado lenta e belissimamente. Ao final, nada substituiria aquela emoção de ter quem se ama tão focado e feliz junto de você. Tiago caiu exausto ao lado de Lílian e a jovem apoiou a cabeça no peito acelerado do namorado. Acariciando os fios avermelhados do cabelo de Lílian, Tiago beijou-a mais uma vez e juraram amor eterno. E aquele amor, como fora desejado por Tiago na noite da chuva de estrelas cadentes, superaria até a morte.

***

Momentos antes do amanhecer, Tiago convidou Lílian para assistir o nascer do dia nos jardins posteriores do casarão de Godric’s Hollow. O céu estava no tom turquesa, pronto para receber os primeiros raios de sol. A relva ainda estava levemente molhada pelo orvalho quando se sentaram no gramado. Tiago envolveu Lílian num abraço e beijou carinhosamente sua bochecha esquerda. Amava-a mais que tudo. Nunca imaginou que haveria algum sentimento como aquele. Não naquela intensidade. Desejava estar com ela para o resto de sua vida. Eternamente.

         Suspirou quase que nervosamente. Lílian preparou-se para o nascer quando Tiago tornou-se para ela.

         - Lílian – chamou num tom de voz amoroso. – Eu queria que você respondesse somente uma pergunta a mim.

         Lílian sorriu alegremente e concordou com a cabeça. Tiago pediu que ela fechasse seus olhos verdes e abrisse a palma de uma de suas mãos. Lílian o fez e, cerca de meio minuto depois, estava sentindo uma caixa sobre ela.

         - Pode abrir. - ordenou o jovem num gaguejo.

         A jovem encontrou uma caixa negra em sua palma. Seriamente, encontrou algo maravilhoso e interessante ao abri-la. Era um cordão prateado, uma corrente delicada. Havia também um pingente em forma de lua crescente do mesmo tom prateado, porém pouco mais fosco e, na ponta dele, um buraco pequeno.

         - Que é isso? – perguntou Lílian estonteada.

         Tiago engoliu demoradamente e encarou a namorada. Lílian ficou observando-o, esperando uma resposta. E então, ele questionou:

         - Você se casaria comigo?

         Lílian deixou a caixinha cair sobre a grama e o cordão preso entre seus dedos. Estava estarrecida, estupefata. Ele havia acabado de pedi-la em casamento?! Casamento?!

         O sol ainda não havia nascido quando Tiago propusera o matrimônio. Porém, Lílian já havia decidido muito antes. Lílian havia escolhido amar àquele homem e somente ele. Não haveria ninguém além dele.

         - Claro que eu aceito, Tiago. – respondeu sorrindo e deixando emocionar-se.

         O Monitor-Chefe da Grifinória abriu um longo sorriso e retirou uma fina agulha de dentro de sua roupa. Lílian permaneceu assistindo. Tiago pediu que ela estendesse o dedo indicador direito. Picou-a delicadamente. A garota notou que Tiago fizera o mesmo e agora, apertava para que somente uma gota de seu sangue caísse sobre o buraco do pingente do cordão prateado. Lílian imitou-o.

         Após as duas gotas de sangue, formou-se o desenho de uma estrela de cinco pontas. Lílian ficara fascinada. Era lindo. Tiago, então, explicou que aquela estrela somente sumiria quando o amor de ambos acabasse ou quando um amor maior que o deles pudesse substituir o desenho por um novo. O jovem estendeu seus dedos pelo cordão e colocou-o envolta do pescoço de Lílian. Em seguida, beijou sua mãe esquerda e chamou-a de sua noiva.

         O sol nasceu em Godric’s Hollow. Tiago e Lílian sentiram a quentura gostosa dos raios de sol e abraçaram-se mais fortemente. Os futuros Sr. e Sra. Potter estavam unidos e apaixonados. Apaixonados pela vida.


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