Escola Secundária Homem Cristo
Ano lectivo de 1999/2000
Português B 10º ano
Compare a Cantiga de Amigo “Ai flores, ai flores do verde pino” de D.
Dinis (presente no manual) com a de M. Lúcia Garcia .
Em que se aproximam?
Em que se afastam?
Não sei caminhar silenciosamente e breve
não sei adornar-me sem que os outros me vejam.
Já nem sei vestir-me
sem ser para ti.
-E se tu não vens?
...murchará sem dono
a flor que compus
nas cores e no jeito
que teus olhos tinham.
Horizonte cultural:
Nas bem conhecidas Cantigas de Amigo da autoria de D. Dinis e
de outros trovadores, as enamoradas dialogam acerca dos seus amores com
as “ flores do verde pino”, “um papagaio louro” ou dirigem-se às
“ondas do mar de Vigo”.
Nas cantigas entoadas pela camada popular da nossa época,
ouvem-se recomendações dirigiadas ao “Papagaio louro”, à
“pombinha branca” e às “flores”, pedindo-lhes intervenção
em desejadas comunicações amorosas. As flores até
são escolhidas como discretas confidentes de magoados estados de
alma e com elas se desabafam inquietações:
Contarei às flores
Todo o meu sofrer,
Porque sei que as flores
Não o vão dizer.
Bom trabalho
Aveiro, 14 de Outubro de 1999
As cantigas de Amigo
A expressão Cantigas de Amigo
designa um dos três géneros da tradição lírica
medieval galego-portuguesa, conservada nos Cancioneiros da Ajuda, da Biblioteca
Nacional e da Biblioteca vaticana.
A Cantiga de Amigo é tematicamente
afim à Cantiga de Amor-tanto numa como noutra o argumento essencial
é, de facto, o amor não correspondido, fonte de todo o sofrimento
e causa de desconforto e lamento-, mas distingue-se dela pela perspectiva,
atmosfera, entoação e esquemas formais em que se manifesta
a situação amorosa.A diferença mais imediatamente
perceptível entre os dois géneros é, sem dúvida,
a indicada pela fragmentária Arte de Trovar do Cancioneiro da Biblioteca
Municipal, em cuja formulação a cantiga é de amor
quando o poeta fala de si mesmo, e é de amigo quando ele finge que
é a mulher a expor as suas próprias penas.
Os trovadores galaico-portugueses começaram
por escrever Cantigas de Amor. Cedo, porém, notaram a beleza espontânea,
natural, das cantigas entoadas pelo povo. Não obstante a moda do
provençal, eles não puderam ficar indiferentes às
cantigas que enchiam os ares, de manhã à noite e em toda
a parte, saindo das bocas das donzelas, na praia, no campo, no baile, na
romaria, no lavadouro, na fonte. Cantigas de Amigo são, pois, as
poesias que, decalcadas no lirismo popular, comunicam as intimidades femininas.
Características das cantigas de amigo
Apesar de nem todas as Cantigas de Amigo possuirem as características que vão ser apresentadas, estas são as maisfrequentes. De notar também que essaas características não lhes pertencem exclusivamente.
* Paralelismo
· paralelismo é uma das características mais típicas
da poesia trovadoresca
As cantigas de amigo
As Cantigas de Amigo são poemas trovadorescos cujo
sujeito poético é uma rapariga que exprime o seu amor, a
sua angústia ou a sua saudade pelo seu amado, que designa habitualmente
por amigo. Estes poemas inserem-se na poesia trovadoresca, a mais antiga
manifestação literária da nossa história. Escritas
entre os séculos doze a quatorze, as Cantigas de Amigo remontam,
no entanto, a um período muito anterior. Existiam já na tradição
oral, cantou-as o povo de geração em geração,
antes que o trovador (ou o jogral ) as registasse por escrito.
Os trovadores galaico-portugueses começaram por
escrever Cantigas de Amor, poemas trovadorescos cujo sujeito poético
é masculino. Estas cantigas exprimem um amor sofrido por uma mulher
distante, impossível de alcançar. Por serem de origem externa
(provençal ) e nobre, apresentam uma linguagem e uma estrutura normalmente
mais carregadas e menos espontâneas que as Cantigas de Amigo que
têm origem folclórica e peninsular. Logo, porém, os
trovadores e os jograis notaram a beleza espontânea , natural, das
cantigas entoadas pelo povo. Não obstante a moda do provençal,
eles não puderam ficar indiferentes às cantigas que enchiam
os ares, de manhã à noite, e em toda a parte, saindo
da boca das donzelas, na praia, no campo, no baile, na romaria, no lavadouro,
na fonte. As Cantigas de Amiga são, pois, as poesias que, decalcadas
no lirismo popular, comunicam as intimidades femininas, como veremos nas
cantigas analisadas e/ou lidas.
Características das Cantigas de Amigo
Paralelismo - O paralelismo é uma das características
mais típicas da poesia trovadoresca e denuncia o carácter
popular destas poesias.
O paralelismo é a repetição da ideia
expressa numa estrofe na estrofe consequente, substituindo-se apenas nos
versos paralelos as palavras finais por outras que sejam sinónimas.
Feminismo - Os sentimentos que se exprimem nas
Cantigas de Amigo são sempre de mulher, isto é, quem exterioriza
as intimidades é uma donzela.
Refrão - Este é a repetição
do mesmo ou mesmos versos geralmente no fim de cada estrofe.
Simplicidade e ruralismo - As Cantigas de Amigo
possuem uma estrutura muito simples. Por outro lado, tanto as personagens
como os ambientes surgem impregnados de odor a campo, montanha ou mar.
As personagens, defacto, nada têm de aristocrático; a sua
vida é muito simples. Os ambientes de trabalho e de diversão
referidos nas cantigas evidenciam também o seu ruralismo: o campo,
a fonte, o baile, a romaria, etc.
Ligação com o canto e a dança
- O trovador era frequentemente acompanhado por um jogral que tocava o
que ele recitava. Para além do jogral acompanhava também
o trovador a jogralesa que dança.
Quais são, então, os temas versados nas Cantigas de Amigo?
Pela variedade das cenas que nelas se descrevem, as nossas
Cantigas de Amigo podem comparar-se a uma fita cinematográfica,
na qual perpassa toda a vida dos namorados.
J. J. Nunes
Os sentimentos que predominam nas Cantigas de Amigo são sobretudo
os seguintes:
* O sofrimento de amor
* Cuidados e ansiedade - o amigo está ausente,
na hoste. Demora-se e isso preocupa a amada. São frequentes as perguntas
da donzela : será vivo? será morto?
* Tristeza e saudade - a donzela sente-se triste pelo
facto de o amigo estar ausente, o que lhe provoca muita saudade.
* Alegria na volta do amigo - Terminada a guerra, o amigo
da donzela está de volta. Voltou o amigo e voltou também
uma enorme alegria.
Variedades de Cantigas de Amigo
Dentro deste género de poesia, devemos distinguir várias espécies de cantigas:
Alvas ou serenas - São cantigas onde o amor se relaciona com a manhã ou com a noite. É frequente um amigo avisar um namorado para se retirar de junto da donzela, pois estava a chegar o dia.
Bailadas - São cantigas muito simples para bailar.
Barcarolas ou marinhas - São cantigas onde predominam motivos marítimos: navios, praias, mar, ondas, etc.
Cantigas de romaria - São poesias onde se mencionam romagens a santuários. As donzelas iam a essas romarias ou para ver o seu amigo ou para pedir pelo amigo ausente no fossado.
Pastorelas - São cantigas postas na boca de pastoras.
Esta modalidade é de origem provençal.
Quanto à forma
Paralelísticas imperferfeitas - são as cantigas que possuem, como o nome indica, um paralelismo imperfeito. O paralelismo diz-se imperfeito se está isolado em cada par de estrofes, sem qualquer ligação aos outros pares.
Paralelísticas puras - São cantigas de molde tradicional e com paralelismo perfeito.
Os ambientes nas Cantigas de Amigo
As Cantigas de Amigo exprimem pequenos dramas da vida amorosa das donzelas cujo ambiente é frequentemente a romaria a uma capela. A donzela vai ali, acompanhada da mãe e das amigas. Mas nem todos os dias há romarias e a moça procura outros locais para namorar : a fonte, a ribeira ou a praia.
A fonte e o rio: são bastantes as Cantigas de Amigo
que se relacionam com a fonte, com o lavadouro, com o rio.A fonte era,
muitas vezes, pretexto para a donzela se encontrar com o namorado. Como
era de prever, a donzela enamorada demorava-se junto do amigo e, quando
chegava a casa, desculpava-se com os servos do monte.
A praia e o campo: muitas canções situam a donzela a
gemer na praia os seus sofrimentos de amor. Umas vão aguardar com
impaciência e certo receio a volta do amado; outras ali derramam
lágrimas, vendo alongar-se e perder-se na imensidão o barco
do namorado.
Também o campo é cenário de amor.
A rapariga corajosa não tem receio de se afastar das casas e ir,
pelos campos, à procura do amigo.
A casa: os diálogos líricos da donzela com a mãe,
a irmã e as amigas têm sempre lugar em casa. Desde já
nos apercebemos de que, para além dos monólogos líricos,
a donzela entretem-se a dialogar acerca dos seus sentimentos. Aquelas são,pois,
as suas confidentes. Também a natureza pode surgir como confidente
da donzela.