|
Observação: esta página contém 9 figuras grandes.
Aguarde a carga se a conexão estiver lenta.
URGÊNCIA!
(*)
Você está andando na rua e alguém cai à sua frente subitamente. O que
fazer?
Ou, você está em casa e alguém cai ou é encontrado caído, imóvel, como
proceder?
“Chame o médico, oras!”, diria um, animadamente!
Todos nós estamos sujeitos a situações semelhantes a essa.
Não adianta chamar o “médico” a menos que este esteja pronto, disponível
e equipado a atender esse tipo de urgência, podendo largar tudo o que
estiver fazendo exatamente naquele momento! As autoridades de saúde e as
Associações Médicas no mundo e a do nosso país têm-se preocupado com a
questão.
Não é meu intuito falar de estatísticas ou de quantas pessoas são
atendidas nas unidades de emergências dos nossos hospitais com quadros
de mal súbito ou em parada cardíaca.
O importante é o que fazer nessas situações, e a quem recorrer.
Sempre lembrar de ter calma e manter o bom senso.
Na maioria dos casos não é você a razão do mal daquela pessoa,
imaginando-se a pessoa que cai na rua! (Agora, se você foi o responsável
pelo infarto agudo de alguém de casa... Bem, aí acho que você nem vai
querer ler este artigo!).
Fora isso, tente lembrar que o indivíduo que cai à sua frente na rua
pode ter em você uma última chance, mas a vida dele não pode ser dada
por você.
São coisas diferentes; portanto, manter o bom senso e a calma nesse
momento são primordiais.
Nada de pânico!
Nos Estados Unidos a divulgação do número de emergência 911 chegou até
nós através dos seriados de TV onde as Unidades de Resgate funcionam tão
bem que penso terem sido incentivo para muitos outros países a
implantarem semelhantes sistemas.
A França e Holanda têm tradição e sistemas também muito eficazes e
padronizados de atendimento de urgências e emergências, preparados para
intervenções críticas e de ressuscitação cardiopulmonar na própria
Unidade de Resgate.
No Brasil o nosso sistema está sendo aperfeiçoado cada vez mais e as
chamadas são atendidas pelas unidades de resgates dos nossos “Bombeiros”
através do número 193. Eles são treinados
e, disciplinados que são, dão atendimento rigorosamente dentro do padrão
estabelecido pelos protocolos internacionais. Chegam ao local do
acidente num espaço de tempo de 5 a 7 minutos!
“Corrente da Sobrevivência” e o ABC Primário
Bem, mas vamos voltar ao indivíduo que está caído ou que caiu no chão e
você está ansioso de ler o resto do artigo e curioso para saber o que
deve fazer.
O primeiro elo da cadeia da sobrevivência (desenvolvido pela Associação
Americana de Cardiologia) é chamar ou procurar por ajuda.
E a seqüência sistematizada para tal atendimento recebeu o nome das
primeiras letras do alfabeto ABCD
não por coincidência, mas por serem iniciais de:
Air, Breath, Circulation, and Defibrilation
ou "Ar ('vias aéreas'),
Respiração/Ventilação, Circulação e Desfibrilação".
Sendo que as letras também foram usadas com felicidade por darem a idéia
de seqüência natural e básica, que deve ser assim seguida, sempre nesta
ordem.
Fique calmo e tente entender o que está ocorrendo.
Vamos ao primeiro passo:
"A"
Você deve tocar e falar com a vítima (como se tentasse acordá-la,
perguntando-lhe se ‘há algum problema’) para se certificar se ela está
ou não consciente, olhar a pessoa e ao seu redor - o contexto da
situação, e chegar o rosto próximo da boca e do nariz dela para sentir
sua respiração, olhando concomitantemente para ver a movimentação do seu
peito.
É o que se chama... “Sentir, ouvir, ver”.
Essa é a maneira mais prática e rápida para se avaliar se alguém está
respirando.
Se não há movimento respiratório pressupõe-se parada cardíaca.
Se houver movimentos respiratórios, não há parada cardíaca.

Fig.1 -
"Sentir, ouvir, ver"
Então, chame o Resgate pelo telefone mais
perto:
- chame 193, e passe as informações de
forma clara:
- identifique-se,
- diga que “uma mulher ou homem, que aparenta tal idade, caiu ou foi
encontrada(o) caída(o), na rua ou dentro de casa,
- sem ou com resposta à sua abordagem (está inconsciente ou consciente),
- com ou sem respiração e
- diga o endereço!
Nada de emocionalismos!
O Resgate saberá avaliar a situação só por
essas informações prestadas, e uma vez sabendo que a vítima não
respondeu à sua pergunta e ao estímulo externo provocado quando você o
tocou, sem respiração, entenderá que o coração está parado e já
virá com o desfibrilador cardíaco a bordo.

Fig. 2 -
Corrente de sobrevivência
Volte para a vítima.
Posicione-a em decúbito dorsal (deite-a de costas).
Nada de dar socos no peito dela – você pode quebrar as costelas dela, e
estas, por sua vez, perfurarem o pulmão da vítima, principalmente se for
uma vítima idosa! - nem chacoalhá-la em desesperada atitude de
‘ressuscita-la’ – você pode lesar a medula caso a vítima esteja com
lesão cervical (fratura de alguma vértebra da coluna do pescoço)!
Bem, estar inconsciente significa que a vítima não responde à perguntas
ou à voz alta. Alguém que não respire morrerá dentro de pouco tempo.
Portanto é essencial que a vítima esteja respirando adequadamente até
que o Resgate chegue com o material de
oxigenação também, ou que você ‘faça’ isso por ele.
Para verificar se a vítima respira efetivamente, caso você esteja em
dúvida quanto ao ver a movimentação do tórax, coloque a mão espalmada
sobre o peito da pessoa, um pouco acima do estômago, com os dedos
abertos voltados para a cabeça da pessoa, e assim poderá sentir ou não a
movimentação do tórax.
Tendo chamado o Resgate, então, posicione a
cabeça da vítima: com uma de suas mãos sobre a fronte da vítima
pressione a cabeça para trás (para hiper-estender a coluna cervical), e
com o indicador e o dedo médio da outra mão sob o mento (queixo) da
mesma, force-o elevando-o para cima (não para trás, no sentido da
fronte).
Essa manobra, ‘esticar a cabeça’, serve para a elevação da base da
língua e conseqüente desobstrução da via aérea, pois, caso o paciente se
encontrar inconsciente, tal obstrução costuma ocorrer por fechamento da
glote e queda da base da língua.
Abra a boca da vítima e retire qualquer corpo estranho que possa estar
presente, e puxe a língua.
Em caso de suspeita de trauma cervical, mantenha a cabeça em posição
neutra, eleve a mandíbula da vítima:
- ou introduzindo o polegar na boca da vítima segurando a língua e
mandíbula em pinça com o indicador (por fora da boca), elevando o mento
para cima, sem tracionar ou mexer com a coluna cervical.
- ou, com as duas mãos envolvendo a face da pessoa, e as pontas dos
dedos ao longo da face até os ângulos posteriores da mandíbula (próximo
às orelhas), estenda os polegares unidos e posicionados em direção ao
mento da vítima, de modo que a cabeça fique fixa e segura entre suas
mãos.
Eleve então a mandíbula num movimento suave mas preciso, movendo a
cabeça no sentido para cima e para trás (veja as figuras abaixo), sem
necessidade de mexer com o pescoço.
Repito: a hiperextensão da coluna cervical não deve ser feita em vítima
suspeita de trauma de coluna cervical.

Fig 3 -
Abertura das vias aéreas
Fig. 4 - Elevação da mandíbula
com a coluna cervical protegida
Agora vamos para o passo:
"B"
Já proporcionamos a abertura das vias aéreas, vamos “sentir, ouvir, e
ver” conforme já foi explicado.
Se houver movimentos respiratórios não há parada cardíaca.
Fora do hospital, na rua, a vítima deverá ser mantida em “posição
de resgate” caso haja movimentos respiratórios, observando-se a
respiração até que chegue o Resgate.
Caso esteja inconsciente e (ainda) respirando, solte qualquer peça de
roupa que possa estar obstruindo a respiração por apertar seu pescoço
(colarinhos, gravatas, lenços etc).
A pessoa é colocada de lado, com uma das mãos sob a cabeça e uma das
pernas flexionada sobre a outra, estabilizando o decúbito.
Essa posição protege a vítima de re-obstrução da via aérea e do risco de
aspiração por regurgitação do conteúdo gástrico.
Não havendo movimentos respiratórios deve-se fazer “respiração
boca-a-boca” ou “boca-máscara” (caso você ou alguém tenha uma máscara
própria - ou até um plástico para proteção pessoal - para realizar essa
manobra.
Lembre-se que a prevenção e sua segurança contra possíveis riscos de
contaminação com doenças transmissíveis deve ser levada em conta.
Veja as figuras mais abaixo.
A vítima é colocada de lado da seguinte maneira:
Ajoelhe-se ao lado da vítima, segure o braço mais próximo da mesma pelo
seu cotovelo e pelo pulso, e estique o braço deixando-o paralelo ao
corpo da vítima – o antebraço fica perpendicular ao corpo da pessoa
caída; a seguir, segure o outro braço da vítima da mesma maneira e passe
o antebraço por cima do seu outro braço, colocando a mão deste membro
sob a cabeça.
Posicione a cabeça da vítima a fim de facilitar a respiração.
As pernas estarão fletidas conforme a figura abaixo.
Respiração Boca-a-Boca
Mantendo a via aérea aberta, tampe as narinas da vítima com os dedos
indicador e polegar da sua mão que segura a fronte da pessoa.
Oclua totalmente a boca da vítima com a sua boca (ou com a máscara) de
modo a não escapar ar pelos lados, e faça um sopro
de 1,5 a 2 segundos.
Este não deverá ser muito forte nem muito rápido, para não ir o ar para
o esôfago, ocasionando distensão gástrica e risco de regurgitação.
Serão feitas na freqüência de 1 incursão
respiratória a cada 5 segundos, em caso de parada respiratória,
como veremos a seguir.

Fig.5 -
Decúbito de resgate
Fig.6 - Respiração boca a boca
Vamos agora para o passo:
"C"
Após ter resolvido os problemas das vias aéreas e a manutenção da
ventilação com a respiração boca-a-boca, palpe a carótida como já
comentamos.
Não havendo pulso, define-se a “parada cardíaca”.
Por causa da ansiedade do socorrista, seu pulso pode estar muito
acelerado, e como a vítima está com pulso fino ou sem pulso,
recomenda-se que o tempo para essa verificação, i.e,
o tempo de
permanecer com os seus dedos no pulso carotídeo da vítima é de
5 a 10 segundos.
Havendo pulso, não há parada cardíaca; assim a vítima está em parada
respiratória e deve continuar sendo socorrida com 12 incursões
respiratórias por minuto
(**)
(1 a cada 5 segundos), como falado, até que o resgate chegue.
Porém não havendo pulso o socorrista prontamente deve iniciar a
massagem cardíaca.
Comece a fazer massagem cardíaca sobre o peito da vítima, na metade
inferior do osso esterno, mas não sobre o apêndice xifóide (para evitar
fratura deste com possível e conseqüente lesão interna à medida que as
compressões torácicas forem se repetindo). As suas mãos estarão abertas
e sobrepostas, sendo sua mão dominante colocada em contato com o peito
do paciente, com os seus braços estendidos, fazendo força não sobre os
seus braços, mas sobre o seu tronco e o movimento articulado no seu
quadril; de outra forma você se cansaria por dor nos braços.
Suas mãos não devem estar espalmadas, nem os dedos estendidos para
evitar desperdício da energia da compressão que se quer fazer chegar ao
coração.

Fig. 7 -
Verificação do pulso carotídeo

Fig. 8 -
Posição da compressão torácica
(**)
O novo protocolo do ABCD primário a ser publicado
ainda esse ano de 2005 no Brasil trará a nova relação de
30 massagens cardíacas para 2 insuflações
respiratórias por minuto, no lugar de
15:2, como falado acima, pois verificou-se que a próprias manobras
de compressões do tórax fazem com que haja entrada e saída de ar dos
pulmões.
Cada compressão deverá gerar uma energia suficiente para aprofundar o
esterno de 3 a 5 cm, 50% para comprimir e 50% para relaxar. Continue
comprimindo até que haja pulso ou até que o Resgate chegue.
Agora o passo:
"D"
CHEGADA DO RESGATE: Ufa!
Desfibrilação
Agora o Resgate assume o comando –a não ser que você seja o médico
transeunte e felizardo da situação!
‘O comando da operação ABCD está com quem opera o desfibrilador’.
Ele usará o Desfibrilador em caso de parada cardíaca, e verá se a vítima
se encontra sobre uma placa metálica ou sobre poça d’água, e a removerá
ou afastará desses locais. As muitas pessoas e os curiosos ao redor
serão afastados, e o socorrista iniciará a operar o aparelho.
O desfibrilador é um aparelho portátil, microprocessado, que interage
com o socorrista, dando-lhe instruções assim que o botão liga/desliga é
acionado.
O mais adequado e usado no nosso meio é o Desfibrilador Externo
Semi-Automático (AEDS) (figura abaixo), e que pode ser usado por leigos
treinados em ressuscitação cardio-pulmonar.
É o tipo de aparelho que deve sempre estar em locais de grande
aglomeração, como estádios, parques, ginásios, teatros etc.
Ele informa ao socorrista para conectar as pás do aparelho na vítima.
As pás são feitas de material auto-colantes, adesivas, de uns 20x10 cm
de tamanho que funcionam como eletrodos para análise do ritmo cardíaco
da vítima, e para a aplicação dos choques de desfibrilação.
Uma pá será aplicada abaixo da clavícula direita e a outra, abaixo da
axila esquerda, abaixo da linha mamilar.
Nesses aparelhos não será necessário o uso de gel condutor, como no caso
do aparelho hospitalar.
As pás devem estar bem aderidas ao corpo do paciente, portanto, deverá
estar com o tórax desnudo.
Uma vez que o aparelho tenha identificado a colocação das pás ele
solicita que se aperte o botão para análise do ritmo cardíaco, e uma vez
feita a análise, ele pede que se aperte o botão que carrega a bateria
para o choque.
Assim que isto é feito, o aparelho avisa para que as pessoas se afastem
e que ninguém toque no paciente.
Ele solicita, então, que se aperte o botão de aplicar o choque.
Atualmente, o novo consenso indicará apenas o uso
de 1 choque de 360 Joules (até recentemente usava-se uma série de
3 choques, de 200 > 300 > 360 J) e sempre após o choque o aparelho
avaliará o ritmo.

Fig. 9 -
Desfibrilador externo semi-automático
O aparelho também poderá não recomendar o uso de choque, de acordo com a
sua análise, e solicitará que o socorrista verifique o pulso carotídeo,
e que se reinicie a ressuscitação cardiopulmonar na ausência do pulso.
Cronometrado 1 minuto de reanimação e solicitado o botão de análise,
reinicia-se novo choque ou solicitação de análise do pulso e
ressuscitação, e assim sucessivamente.
Se o paciente for portador de marca-passo cardíaco a pá da direita
deverá ser posicionada para baixo do marca-passo, ou mais mediana ou
mais externamente a ele.
Bem, então o pulso voltou, significa que há um ritmo cardíaco eficaz.
Segue-se, agora, a seqüência na ordem inversa da cadeia de
sobrevivência: verifica-se a respiração (B),
na sua ausência mantemos 12 ventilações por minuto, e na sua presença
(paciente respirando) mantemos as vias aéreas abertas
(A) e a vítima na posição de resgate, sendo
transferida ao hospital ou unidade hospitalar adequada.
(Ufa! Espero que este paciente, depois de tanto trabalho, tenha tido um
final feliz!)
(*) Esse artigo foi baseado na Apostila do Curso de
Emergência e Urgências Médicas da Associação Paulista de Medicina, e na
Apostila do Curso de Capacitação Para Médico Perito Examinador Para Fins
de CNH, da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego.
(*) E não tem nenhuma pretensão de tornar o leitor ‘ perito’ em Socorrismo,
apenas dar-lhe noção de como proceder em caso como este.
Dra Angélica Maria Lima Mansano Garcia.
Dracena, 3 de Junho de 2005.
|