ANGÉLICA MARIA LIMA MANSANO GARCIA

Assuntos Médicos


URGÊNCIA! (*)


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URGÊNCIA!  (*)

Você está andando na rua e alguém cai à sua frente subitamente. O que fazer?
Ou, você está em casa e alguém cai ou é encontrado caído, imóvel, como proceder?

“Chame o médico, oras!”, diria um, animadamente!

Todos nós estamos sujeitos a situações semelhantes a essa.
Não adianta chamar o “médico” a menos que este esteja pronto, disponível e equipado a atender esse tipo de urgência, podendo largar tudo o que estiver fazendo exatamente naquele momento! As autoridades de saúde e as Associações Médicas no mundo e a do nosso país têm-se preocupado com a questão.
Não é meu intuito falar de estatísticas ou de quantas pessoas são atendidas nas unidades de emergências dos nossos hospitais com quadros de mal súbito ou em parada cardíaca.
O importante é o que fazer nessas situações, e a quem recorrer.

Sempre lembrar de ter calma e manter o bom senso.
Na maioria dos casos não é você a razão do mal daquela pessoa, imaginando-se a pessoa que cai na rua! (Agora, se você foi o responsável pelo infarto agudo de alguém de casa... Bem, aí acho que você nem vai querer ler este artigo!).
Fora isso, tente lembrar que o indivíduo que cai à sua frente na rua pode ter em você uma última chance, mas a vida dele não pode ser dada por você.
São coisas diferentes; portanto, manter o bom senso e a calma nesse momento são primordiais.
Nada de pânico!

Nos Estados Unidos a divulgação do número de emergência 911 chegou até nós através dos seriados de TV onde as Unidades de Resgate funcionam tão bem que penso terem sido incentivo para muitos outros países a implantarem semelhantes sistemas.
A França e Holanda têm tradição e sistemas também muito eficazes e padronizados de atendimento de urgências e emergências, preparados para intervenções críticas e de ressuscitação cardiopulmonar na própria Unidade de Resgate.

No Brasil o nosso sistema está sendo aperfeiçoado cada vez mais e as chamadas são atendidas pelas unidades de resgates dos nossos “Bombeiros” através do número 193. Eles são treinados e, disciplinados que são, dão atendimento rigorosamente dentro do padrão estabelecido pelos protocolos internacionais. Chegam ao local do acidente num espaço de tempo de 5 a 7 minutos!

“Corrente da Sobrevivência” e o ABC Primário

Bem, mas vamos voltar ao indivíduo que está caído ou que caiu no chão e você está ansioso de ler o resto do artigo e curioso para saber o que deve fazer.
O primeiro elo da cadeia da sobrevivência (desenvolvido pela Associação Americana de Cardiologia) é chamar ou procurar por ajuda.
E a seqüência sistematizada para tal atendimento recebeu o nome das primeiras letras do alfabeto ABCD não por coincidência, mas por serem iniciais de: Air, Breath, Circulation, and Defibrilation ou "Ar ('vias aéreas'), Respiração/Ventilação, Circulação e Desfibrilação".

Sendo que as letras também foram usadas com felicidade por darem a idéia de seqüência natural e básica, que deve ser assim seguida, sempre nesta ordem.

Fique calmo e tente entender o que está ocorrendo.
Vamos ao primeiro passo:

"A"

Você deve tocar e falar com a vítima (como se tentasse acordá-la, perguntando-lhe se ‘há algum problema’) para se certificar se ela está ou não consciente, olhar a pessoa e ao seu redor - o contexto da situação, e chegar o rosto próximo da boca e do nariz dela para sentir sua respiração, olhando concomitantemente para ver a movimentação do seu peito.
É o que se chama... “Sentir, ouvir, ver”.

Essa é a maneira mais prática e rápida para se avaliar se alguém está respirando.
Se não há movimento respiratório pressupõe-se parada cardíaca.
Se houver movimentos respiratórios, não há parada cardíaca.

Fig.1 - "Sentir, ouvir, ver"


Então, chame o Resgate pelo telefone mais perto:
- chame 193, e passe as informações de forma clara:
- identifique-se,
- diga que “uma mulher ou homem, que aparenta tal idade, caiu ou foi encontrada(o) caída(o), na rua ou dentro de casa,
- sem ou com resposta à sua abordagem (está inconsciente ou consciente),
- com ou sem respiração e
- diga o endereço!

Nada de emocionalismos!
O Resgate saberá avaliar a situação só por essas informações prestadas, e uma vez sabendo que a vítima não respondeu à sua pergunta e ao estímulo externo provocado quando você o tocou, sem respiração, entenderá que o coração está parado e já virá com o desfibrilador cardíaco a bordo.

Fig. 2 - Corrente de sobrevivência

Volte para a vítima.
Posicione-a em decúbito dorsal (deite-a de costas).
Nada de dar socos no peito dela – você pode quebrar as costelas dela, e estas, por sua vez, perfurarem o pulmão da vítima, principalmente se for uma vítima idosa! - nem chacoalhá-la em desesperada atitude de ‘ressuscita-la’ – você pode lesar a medula caso a vítima esteja com lesão cervical (fratura de alguma vértebra da coluna do pescoço)!

Bem, estar inconsciente significa que a vítima não responde à perguntas ou à voz alta. Alguém que não respire morrerá dentro de pouco tempo.
Portanto é essencial que a vítima esteja respirando adequadamente até que o Resgate chegue com o material de oxigenação também, ou que você ‘faça’ isso por ele.
Para verificar se a vítima respira efetivamente, caso você esteja em dúvida quanto ao ver a movimentação do tórax, coloque a mão espalmada sobre o peito da pessoa, um pouco acima do estômago, com os dedos abertos voltados para a cabeça da pessoa, e assim poderá sentir ou não a movimentação do tórax.

Tendo chamado o Resgate, então, posicione a cabeça da vítima: com uma de suas mãos sobre a fronte da vítima pressione a cabeça para trás (para hiper-estender a coluna cervical), e com o indicador e o dedo médio da outra mão sob o mento (queixo) da mesma, force-o elevando-o para cima (não para trás, no sentido da fronte).
Essa manobra, ‘esticar a cabeça’, serve para a elevação da base da língua e conseqüente desobstrução da via aérea, pois, caso o paciente se encontrar inconsciente, tal obstrução costuma ocorrer por fechamento da glote e queda da base da língua.
Abra a boca da vítima e retire qualquer corpo estranho que possa estar presente, e puxe a língua.

Em caso de suspeita de trauma cervical, mantenha a cabeça em posição neutra, eleve a mandíbula da vítima:
- ou introduzindo o polegar na boca da vítima segurando a língua e mandíbula em pinça com o indicador (por fora da boca), elevando o mento para cima, sem tracionar ou mexer com a coluna cervical.
- ou, com as duas mãos envolvendo a face da pessoa, e as pontas dos dedos ao longo da face até os ângulos posteriores da mandíbula (próximo às orelhas), estenda os polegares unidos e posicionados em direção ao mento da vítima, de modo que a cabeça fique fixa e segura entre suas mãos.
Eleve então a mandíbula num movimento suave mas preciso, movendo a cabeça no sentido para cima e para trás (veja as figuras abaixo), sem necessidade de mexer com o pescoço.
Repito: a hiperextensão da coluna cervical não deve ser feita em vítima suspeita de trauma de coluna cervical.

                 

Fig 3 - Abertura das vias aéreas                           Fig. 4 - Elevação da mandíbula
                                                                                    com a coluna cervical protegida


Agora vamos para o passo:

"B"

Já proporcionamos a abertura das vias aéreas, vamos “sentir, ouvir, e ver” conforme já foi explicado.
Se houver movimentos respiratórios não há parada cardíaca.
Fora do hospital, na rua, a vítima deverá ser mantida em “posição de resgate” caso haja movimentos respiratórios, observando-se a respiração até que chegue o Resgate.
Caso esteja inconsciente e (ainda) respirando, solte qualquer peça de roupa que possa estar obstruindo a respiração por apertar seu pescoço (colarinhos, gravatas, lenços etc).

A pessoa é colocada de lado, com uma das mãos sob a cabeça e uma das pernas flexionada sobre a outra, estabilizando o decúbito.
Essa posição protege a vítima de re-obstrução da via aérea e do risco de aspiração por regurgitação do conteúdo gástrico.
Não havendo movimentos respiratórios deve-se fazer “respiração boca-a-boca” ou “boca-máscara” (caso você ou alguém tenha uma máscara própria - ou até um plástico para proteção pessoal - para realizar essa manobra.
Lembre-se que a prevenção e sua segurança contra possíveis riscos de contaminação com doenças transmissíveis deve ser levada em conta.

Veja as figuras mais abaixo.

A vítima é colocada de lado da seguinte maneira:
Ajoelhe-se ao lado da vítima, segure o braço mais próximo da mesma pelo seu cotovelo e pelo pulso, e estique o braço deixando-o paralelo ao corpo da vítima – o antebraço fica perpendicular ao corpo da pessoa caída; a seguir, segure o outro braço da vítima da mesma maneira e passe o antebraço por cima do seu outro braço, colocando a mão deste membro sob a cabeça.
Posicione a cabeça da vítima a fim de facilitar a respiração.
As pernas estarão fletidas conforme a figura abaixo.

Respiração Boca-a-Boca

Mantendo a via aérea aberta, tampe as narinas da vítima com os dedos indicador e polegar da sua mão que segura a fronte da pessoa.
Oclua totalmente a boca da vítima com a sua boca (ou com a máscara) de modo a não escapar ar pelos lados, e faça um sopro de 1,5 a 2 segundos.
Este não deverá ser muito forte nem muito rápido, para não ir o ar para o esôfago, ocasionando distensão gástrica e risco de regurgitação.
Serão feitas na freqüência de 1 incursão respiratória a cada 5 segundos, em caso de parada respiratória, como veremos a seguir.

          

Fig.5 - Decúbito de resgate                 Fig.6 - Respiração boca a boca


Vamos agora para o passo:

"C"

Após ter resolvido os problemas das vias aéreas e a manutenção da ventilação com a respiração boca-a-boca, palpe a carótida como já comentamos.
Não havendo pulso, define-se a “parada cardíaca”.
Por causa da ansiedade do socorrista, seu pulso pode estar muito acelerado, e como a vítima está com pulso fino ou sem pulso, recomenda-se que o tempo para essa verificação, i.e,
o tempo de permanecer com os seus dedos no pulso carotídeo da vítima é de 5 a 10 segundos.
Havendo pulso, não há parada cardíaca; assim a vítima está em parada respiratória e deve continuar sendo socorrida com 12 incursões respiratórias por minuto
(**) (1 a cada 5 segundos), como falado, até que o resgate chegue.
Porém não havendo pulso o socorrista prontamente deve iniciar a massagem cardíaca.

Comece a fazer massagem cardíaca sobre o peito da vítima, na metade inferior do osso esterno, mas não sobre o apêndice xifóide (para evitar fratura deste com possível e conseqüente lesão interna à medida que as compressões torácicas forem se repetindo). As suas mãos estarão abertas e sobrepostas, sendo sua mão dominante colocada em contato com o peito do paciente, com os seus braços estendidos, fazendo força não sobre os seus braços, mas sobre o seu tronco e o movimento articulado no seu quadril; de outra forma você se cansaria por dor nos braços.
Suas mãos não devem estar espalmadas, nem os dedos estendidos para evitar desperdício da energia da compressão que se quer fazer chegar ao coração.

Fig. 7 - Verificação do pulso carotídeo

Fig. 8 - Posição da compressão torácica


(**) O novo protocolo do ABCD primário a ser publicado ainda esse ano de 2005 no Brasil trará a nova relação de 30 massagens cardíacas para 2 insuflações respiratórias por minuto, no lugar de 15:2, como falado acima, pois verificou-se que a próprias manobras de compressões do tórax fazem com que haja entrada e saída de ar dos pulmões.
Cada compressão deverá gerar uma energia suficiente para aprofundar o esterno de 3 a 5 cm, 50% para comprimir e 50% para relaxar. Continue comprimindo até que haja pulso ou até que o Resgate chegue.

Agora o passo:

"D"


CHEGADA DO RESGATE: Ufa!

Desfibrilação

Agora o Resgate assume o comando –a  não ser que você seja o médico transeunte e felizardo da situação!
‘O comando da operação ABCD está com quem opera o desfibrilador’.
Ele usará o Desfibrilador em caso de parada cardíaca, e verá se a vítima se encontra sobre uma placa metálica ou sobre poça d’água, e a removerá ou afastará desses locais. As muitas pessoas e os curiosos ao redor serão afastados, e o socorrista iniciará a operar o aparelho.
O desfibrilador é um aparelho portátil, microprocessado, que interage com o socorrista, dando-lhe instruções assim que o botão liga/desliga é acionado.
O mais adequado e usado no nosso meio é o Desfibrilador Externo Semi-Automático (AEDS) (figura abaixo), e que pode ser usado por leigos treinados em ressuscitação cardio-pulmonar.
É o tipo de aparelho que deve sempre estar em locais de grande aglomeração, como estádios, parques, ginásios, teatros etc.
Ele informa ao socorrista para conectar as pás do aparelho na vítima.
As pás são feitas de material auto-colantes, adesivas, de uns 20x10 cm de tamanho que funcionam como eletrodos para análise do ritmo cardíaco da vítima, e para a aplicação dos choques de desfibrilação.
Uma pá será aplicada abaixo da clavícula direita e a outra, abaixo da axila esquerda, abaixo da linha mamilar.
Nesses aparelhos não será necessário o uso de gel condutor, como no caso do aparelho hospitalar.
As pás devem estar bem aderidas ao corpo do paciente, portanto, deverá estar com o tórax desnudo.
Uma vez que o aparelho tenha identificado a colocação das pás ele solicita que se aperte o botão para análise do ritmo cardíaco, e uma vez feita a análise, ele pede que se aperte o botão que carrega a bateria para o choque.
Assim que isto é feito, o aparelho avisa para que as pessoas se afastem e que ninguém toque no paciente.
Ele solicita, então, que se aperte o botão de aplicar o choque.
Atualmente, o novo consenso indicará apenas o uso de 1 choque de 360 Joules (até recentemente usava-se uma série de 3 choques, de 200 > 300 > 360 J) e sempre após o choque o aparelho avaliará o ritmo.

Fig. 9 - Desfibrilador externo semi-automático


O aparelho também poderá não recomendar o uso de choque, de acordo com a sua análise, e solicitará que o socorrista verifique o pulso carotídeo, e que se reinicie a ressuscitação cardiopulmonar na ausência do pulso.
Cronometrado 1 minuto de reanimação e solicitado o botão de análise, reinicia-se novo choque ou solicitação de análise do pulso e ressuscitação, e assim sucessivamente.

Se o paciente for portador de marca-passo cardíaco a pá da direita deverá ser posicionada para baixo do marca-passo, ou mais mediana ou mais externamente a ele.

Bem, então o pulso voltou, significa que há um ritmo cardíaco eficaz.
Segue-se, agora, a seqüência na ordem inversa da cadeia de sobrevivência: verifica-se a respiração (B), na sua ausência mantemos 12 ventilações por minuto, e na sua presença (paciente respirando) mantemos as vias aéreas abertas (A) e a vítima na posição de resgate, sendo transferida ao hospital ou unidade hospitalar adequada.

(Ufa! Espero que este paciente, depois de tanto trabalho, tenha tido um final feliz!)


(*) Esse artigo foi baseado na Apostila do Curso de Emergência e Urgências Médicas da Associação Paulista de Medicina, e na Apostila do Curso de Capacitação Para Médico Perito Examinador Para Fins de CNH, da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego.

(*) E não tem nenhuma pretensão de tornar o leitor ‘ perito’ em Socorrismo, apenas dar-lhe noção de como proceder em caso como este.


Dra Angélica Maria Lima Mansano Garcia.

Dracena, 3 de Junho de 2005.

 

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