ANGÉLICA MARIA LIMA MANSANO GARCIA

Assuntos Teológicos


Uma reflexão sobre o enforcamento de Sadam Husseim

01/01/2007
 


Uma reflexão sobre o enforcamento de Sadam Husseim


A imagem mostrada das provocações na hora de colocarem a corda no pescoço de Sadam Husseim me levou a pensar que aqueles momentos poderiam ter sido mais bem usados. Tanto para benção de Sadam, para uma introspecção de última hora, tanto para seus carrascos, para exercerem misericórdia para com o réu. Afinal, eram seus últimos momentos de vida.

Mas não foi o que parece ter acontecido.

Não entendemos árabe, mas a legenda mostrava o que dizia ser o conteúdo oral de afrontas entre eles. O ex-ditador orava em voz alta ao seu Deus Allah, afirmando ser Ele o único Deus, e Mohamed o seu profeta. Os carrascos, sentindo-se ofendidos, gritavam o nome de seu líder espiritual xiita, como represália ou vingança. Provocaram-no ainda mais mandando-o para o inferno.

Assim, nesse clima de disputas, há uma intervenção solidária do representante do governo a favor do réu. Logo após a sua fala, o alçapão se abre, e cai o homem pendurado pela corda. Chocante!

Refleti, então, lembrando que quando Jesus estava sendo crucificado foi agredido verbalmente pelo seu povo judeu, e pelos soldados romanos. Porém, não reagiu às insinuações, não revidou, nem murmurou, nem teve ódio contra seus algozes. Portanto, não pecou. Ali, Sadam na sua visão religiosa, morre testificando o seu Deus, 'brigando' por ele contra os adversários igualmente religiosos, mas revidando obstinada e amargamente. Seu semblante estava carregado, não mostrava paz.

Também Estevão, o primeiro mártir dos seguidores de Jesus do primeiro século, não reagiu assim. Ele foi apedrejado também por gente do seu próprio povo, por afirmar que Jesus era o Messias prometido e que os próprios judeus o haviam crucificado. Ele testificava sua fé no Deus vivo, redentor, misericordioso. Deus que convida à reconciliação e à paz com Ele em perdão e amor. Sem ódio nem vingança. Mas, eles rilharam os dentes contra o testemunho de Estevão, tal qual a reação dos carrascos de Sadam! Mas, ao contrário de Sadam, a atitude de Estevão foi de mansidão e de perdão. Ele usou os seus últimos momentos de vida intercedendo a Deus a favor de seus algozes, como seu mestre na cruz. Enxergando o céu aberto Estevão viu o Cristo ressurreto, em pé, à direita do Pai, enquanto pedia para que Deus perdoasse os seus apedrejadores. Com essa atitude ele mostrou entendimento de que esses seres humanos eram nada mais nada menos que ignorantes das boas novas da salvação. E então, "adormeceu", em serenidade de espírito [cf. Atos dos Apóstolos, cap. 7. 54-60].

Longe de estar comparando os personagens citados faço apenas um paralelo. Menciono o fato para o qual o réu e seus carrascos estavam envolvidos para levantar a seguinte questão: já que a disputa em reivindicar o Deus verdadeiro estava aberta entre os do enforcamento, qual dos dois estava certo, os xiitas que aclamavam seu líder, feito ídolo, ou Sadam, com Allah, tendo em Mohamed o seu profeta?

Ora, se pensam conquistar o céu, o paraíso eterno, esse só pode ser o céu de Deus. E se é de Deus, então, tem de ser o do Deus Criador do céu e da terra, único e verdadeiro. Sim, o Deus de Abraão, de Isaque e Jacó (Israel).

Alguém já disse que o relativismo leva ao sincretismo religioso. Tudo se aceita como verdade relativa, para justificar as diversas maneiras de se pensar e de se ver das pessoas, evitando atritos. Com seus diferentes prismas, nos quais existem "várias verdades" agi-se de forma "politicamente correta"!

Mas, se o seu pressuposto é de que a Bíblia é a Palavra de Deus, biblicamente então, há de convir que só há uma Verdade. Não há duas! É exatamente dessa verdade que as Sagradas Escrituras testificam. Elas dão testemunho de que Jesus é o Profeta de Deus. Que Ele é a Verdade, a Vida, o Caminho. O único caminho para Deus. Essa Verdade é absoluta, real e plausível, e não algo relativo. Ela veio em pessoa no tempo, fez-se em carne e osso. O apóstolo João diz que "o verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória de Deus". Então Jesus é o Deus encarnado, o Messias prometido, o Emanuel anunciado, o "Deus conosco".

Mas porque, então, temos fatiadas as nossas visões, com tantos prismas enxergando tantas "verdades" relativistas?

Sem ser simplista ou reducionista, a resposta é sim, pura e simplesmente, pela entrada do pecado no mundo! Sim, pois antes da queda no pecado, só existia uma maneira de se ver Deus: a maneira dada por Ele mesmo. Com o pecado a habitar em nós, perdemos o favor do relacionamento direto com Ele. Passamos a vê-lo e imaginá-lo de acordo com as nossas faculdades, agora caídas, nivelando-o à nossa imaginação e necessidades. Somos, agora, sábios aos nossos próprios olhos!

Mas, é também porque o inimigo de Deus desde esse início introduziu a mentira no nosso meio [João 8.44]. Ao fazer pecar a humanidade, nos enganou, como disseram Adão e Eva. Ele, o inimigo de Deus e também nosso, não se importa que sejamos "religiosos", nem cheguemos ao extremo do fanatismo, a ponto até de se matar em "nome de Deus". O inimigo jamais nos abrirá os olhos, mas o bom amigo dá a vida por nós!

O inimigo não se importa mesmo, como no caso dos que estavam ali no tablado do enforcamento, com religiosidades. Ardiloso, até torce e fornece munição para a discussão! Contanto que continuem cegos, espiritualmente falando. Desde que pensem em qualquer um ou qualquer pessoa ou coisa, ou com o que se tome no lugar de Deus fazendo-se como um 'deus’, ou qualquer que se tome como intercessor. Desde que se negue Jesus como verdadeiro Deus, como único que pode entrar na presença do Pai, o inimigo cantará vitórias sobre os sábios desse mundo. Esse alvo ele tem desde que perdeu seu lugar na corte de Deus, por querer ser Deus, e elevar seu trono acima do trono de Deus. Ele objetiva confirmar seus seguidores a qualquer custo, evitando que entrem em contato com a Verdade.

Assim, se a Bíblia é a Palavra de Deus, e a Palavra não pode falhar, ela afirma que Jesus é o verdadeiro e único Messias, o verdadeiro e único Senhor, o Cristo, Filho de Deus. O único a quem a Palavra de Deus confirma como intercessor entre "Deus e os homens" [cf. 1 Timóteo 2.5].

Bem disse Jesus aos saduceus da sua época que disputavam com ele sobre questões religiosas: "Não provém o vosso erro de não conhecerdes as Escrituras nem o poder de Deus? Laborais em grande erro" [Mc 12. 24,27]. Não se pode crer em Deus sem crer em Jesus. Os que crêem em Jesus, Deus lhes deu o poder de serem feitos filhos de Deus (João 1.12). Sabem que Ele é único Senhor e suficiente Salvador. Espalham a sua verdade para o bem, por amor e para salvação de tantos quantos crerem.

As brigas e as cegas tentativas de se achar a verdade como se tateasse no escuro, só fazem perder tempo e andar em círculos. O convencimento da Verdade é obra do Espírito de Deus. Enquanto isso não ocorrer, permanece-se na escuridão da cegueira espiritual. Pode-se até morrer por defender uma verdade, mas em muitos casos, terá sido em vão.


Dra. ANGÉLICA MARIA LIMA MANSANO GARCIA ([email protected]) é pediatra, formada em 1980 pela Faculdade de Medicina de Itajubá (MG).
Especializou-se em Pediatria pela Santa Casa de São Paulo (1981-1983).
Possui  Título de Especialista em Pediatria (TEP) pela SBP e AMB (1983).
Possui Pós-Graduação em Bíblia pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper da Universidade Presbiteriana Mackenzie. É Mestranda em Teologia & História na mesma instituição.
É casada com Luis Carlos e mãe de dois filhos - Adolfo e Hugo.
Seus artigos refletem o pensamento protestante [evangélico] de formação reformada calvinista.
 

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