ANGÉLICA MARIA LIMA MANSANO GARCIA

Assuntos Teológicos


RESUMO DAS ESTRUTURAS FUNDAMENTAIS DA PREGAÇÃO DE PAULO

 

RESUMO DAS ESTRUTURAS FUNDAMENTAIS DA PREGAÇÃO DE PAULO

(Esse trabalho foi parte da disciplina “Teologia Paulina” do curso de Pós Graduação em Bíblia, em Dezembro de 2001. Minha intenção é apenas levar o leitor a se interessar pelas Cartas Paulinas).

SUMÁRIO

I . Conceito/Definição:

"O que é básico, dominante, controlador na pregação do apóstolo; seu ponto de partida, o que determina tudo o que ele escreveu e pregou".

Objetivo: "Entender o pensamento mais fundamental e básico de Paulo, que influenciou toda sua obra".

II . Quais são as estruturas fundamentais da pregação de Paulo estudadas até aqui? (Aula 5).

1 - Plenitude dos tempos

A- Conceito
B- Dia da salvação
C- Nova Criação
D- Conceito de História da salvação

2 - Escatologia/ Cristologia

A - O caráter Cristológico da Escatologia de Paulo
B- O caráter Escatológico da Cristologia de Paulo
C - Comparação da escatologia de Paulo com o judaísmo e os essênios
     a - Os dois mundos
     b - Antes/Agora

3 - O primogênito entre os mortos

4 - O último Adão

5 - Em Cristo, com Cristo

    a - Por nós
    b - Em Cristo, Nele - o velho/novo
    c - Carne/Espírito
    d - Cristo, filho de Deus.

6 - O primogênito de cada criatura

    a - Cristo/(Kyrios)Exaltado que virá.


RESUMO DAS ESTRUTURAS FUNDAMENTAIS DA PREGAÇÃO DE PAULO

1 - Plenitude dos tempos

A- Conceito:

Partindo-se do conteúdo da pregação de Paulo, pode-se sintetizá-lo como "a proclamação e explicação do tempo escatológico de salvação inaugurado com o advento de Cristo, sua morte e ressurreição." Este não significa o "amadurecimento do tempo ou seu ponto climático", mas o "seu cumprimento ou término do tempo em seu sentido absoluto: o tempo do mundo chegou ao fim como o advento de Cristo, ou seja: o "conjunto de valores humanos da humanidade em rebelião contra Deus, entrou em seu último estágio, na etapa final da história, que já começou. O "alvorecer da última hora" para Paulo é entendido não somente como o julgamento deste mundo, mas como o raiar do grande dia da salvação, prometido pelos antigos profetas de Israel.

B - Dia da Salvação

O dia "longamente esperado", a hora decisiva para a salvação da humanidade.
O dia da salvação no seu sentido escatológico de consumação.
Se refere aos eventos históricos da encarnação, morte, ressurreição, glorificação de Cristo e a vinda do Espírito Santo: os últimos dias e decisivos eventos dentro de uma série de intervenções salvíficas de Deus na história da humanidade, que constitui a história da salvação.


C - Nova Criação

Se refere não só ao aspecto individual (Kaine Ktisis), mas a recriação do mundo que Deus fez amanhecer em Cristo, e do qual todos os que pertencem a Cristo estão incluídos.
Tanto "velho" como "novo" devem ser entendidos escatologicamente: Paulo faz um contraste entre 2 mundos e não entre 2 estágios da vida do cristão individualmente:

- "velho" = mundo não redimido em seu pecado e aflição
- "novo"  = tempo da salvação que raiou na ressurreição de Cristo.

D - Conceito de história da salvação

Entendimento que Paulo tem da obra de Cristo como sendo o cumprimento das promessas antigas feitas por Deus através dos profetas de Israel.


2 - Escatologia/cristologia

A - O caráter cristológico da Escatologia de Paulo

Paulo prega o evangelho da "inauguração da hora da salvação", que ele chama de "Evangelho de Cristo". Essa pregação é controlada por sua compreensão de que Deus cumpriu na história as suas antigas promessas, feitas através dos profetas de Israel, chegando assim a história, ao seu final.
Esse "final" é caracterizado, ou iniciado, pela vida e obra de Jesus Cristo: sua encarnação, morte, ressurreição, e exaltação (eventos histórico-redentivos da intervenção de Deus no mundo)

B - Caráter Escatológico da Cristologia de Paulo

A sua cristologia gira em torno dos fatos escatológicos-redentivos acontecidos com Cristo, que é a base da sua pregação (kerygma) que nos permite ver como o seu pensamento e pregação se organizam na revelação do AT: os fatos ocorridos como Jesus Cristo representasse o cumprimento e o término da série grandiosa de eventos redentivos ocorridos na história de Israel, registrados nas Escrituras do AT.
Formam o pressuposto da continuação e da consumação da história do mundo.

C -Comparação da escatologia de Paulo, judaísmo e essênios

Paulo se baseia nas Escrituras do judaísmo (AT) que era a mesma dos essênios e da literatura apocalíptica, utilizando termos comuns e tradições do judaísmo (seu "background") sendo, entretanto, essencialmente distinta das expectativas escatológicas tanto deste quanto daqueles, num aspecto central: TENSÃO ENTRE O ASPECTO REALIZADO E O AINDA POR REALIZAR, DA OBRA REDENTORA DE DEUS EM CRISTO: a nova era, a nova criação, o mundo futuro já raiou com a vinda de Cristo, que é o MESSIAS; sendo que a igreja ainda vive no mundo presente e no tempo correspondente a ele, "os tempos do fim".

a - Os 2 mundos

O “tempo presente”, aquele onde o "mundo vindouro" já penetrou - "tempo presente" Rm 8.18, "tempo de hoje, quando Deus reúne seus eleitos" Rm 11.5, "este século" Rm 12.2, "presente século" de Ef !.21, "mundo perverso" de Gl 1.4;
"fins dos séculos" 1Cor 10.11, "últimos tempos" - da apostasia derivada da influência demoníaca - 1Tm 4.1, "últimos dias" - depravação humana mais evidente- 2Tm 3.1;

b - Antes/agora

(termos existentes nas cartas de Paulo, ausentes da literatura apocalíptica e da dos essênios)
- "ANTES" - vida não redimida antes do raiar do tempo da redenção, Ef 2.2,12;
- "AGORA" - tempo da redenção, da nova criação e de cumprimento, 2Cor 6.2. Ef 2.13.

3 - Primogênito entre os mortos

Partindo do "envio de Deus de seu filho, nascido sob a lei, nascido de mulher (Gl 4.4, 1Tm 3.16) e do centro da sua pregação na morte e na ressurreição de Cristo", Paulo parte retrospectivamente de sua pré-existência à encarnação, e prospectivamente para sua exaltação e sua vinda, para lançar luz e esclarecer a história antes e depois de Cristo, por causa da sua plena compreensão dos atos redentivos de Deus na história.

A morte de Cristo é interpretada à luz de sua ressurreição e sua ressurreição à luz de sua morte: 2 eventos que formam uma unidade inseparável e se interpretam mutuamente e fazem a centralidade do pensamento de Paulo, sendo esta centralidade de grande importância.

4 - O Último Adão

Paulo compara (ou aplica) conceito de "último Adão" a Cristo ressuscitado, comparando-o com Cristo, ou um contraste entre estes. Rm 5.17.
Cristo é o "ultimo Adão" e o "segundo homem": como Cristo inaugurando a nova humanidade, pela ressurreição e o "último homem" (de 1Cor 15.21-22)

- PRIMOGÊNITO - posição de honra e dignidade entre seus irmãos, indo adiante deles, abrindo-lhes o caminho, unindo seu futuro ao deles; Rm 8.29; Cl 1.18

- PRINCÍPIO - pioneiro, Cristo é o inaugurador que desbravou o caminho, em quem a grande ressurreição já teve início, e tornou-se realidade. Ele traz à luz, vida e imortalidade; 2Tm 1.10

- PRIMÍCIAS - Cristo é o primeiro da ressurreição, representante de toda a ressurreição; 1Cor 15.20

5 - Em Cristo, com Cristo

   a - Por nós: conceitos do AT, como sacrifício, resgate e expiação, em referência à obra de Cristo "no nosso lugar", "por nós";

   b - Em Cristo, nele: pretende demonstrar que Cristo está em tão íntima união com aquele por quem ele se manifestou, que os mesmos estão nele;
- "Velho-novo": caráter escatológico - o "velho" foi condenado e colocado à morte no Gólgota, o velho modo da existência, o corpo de pecado, a "carne"; que perdem o seu domínio e controle sobre todos os que estão em Cristo. - O "novo", novo modo de existência dos que estão em Cristo. Romanos 6.10,11. A nova criatura, de 2 Coríntios 5.17.

  c - Carne/Espírito: "carne", a "velha era"; "espírito", a nova criação que provem do Espírito. Há um paralelo nesta situação, entre Adão ("alma vivente") e o último Adão ("espírito vivificante").

  d - Cristo, o Filho de Deus: Paulo fundamenta sua pregação em sua confissão de que Jesus Cristo é o Filho de Deus, conceito esse fundamentado no conceito da "pré-existência" de Cristo. Gálatas 4.4,5; Colossenses 1.17.

6- Primogênito de cada criatura

Posição escatológica em relação a criação em geral - de senhorio absoluto sobre o mundo criado, visível, e invisível. Colossenses 1.15. Dimensão "cósmica" dada por Paulo, cujo entendimento é explicado da seguinte forma:

   a - pela SABEDORIA, retirada do conhecimento dos atributos de Deus, "personificada" nos livros de Provérbios (1. 20-31; 8.22; 3.19), Eclesiastes (1 e 4), e do apócrifo Sabedoria (7.21, 25 ss), como tendo existido antes da criação do mundo e como tendo sido instrumento ou agente da criação de Deus. É a hipótese mais provável.

   b - Filo e Escritos Herméticos - argumento de alguns estudiosos que crêem que Paulo possa ter sido influenciado por essas obras, devido à semelhança entre os conceitos lá desenvolvidos, como logos, protogonos (primogênito), princípio e nome de Deus, o cosmo como imagem de Deus, o homem divino primitivo como imagem de Deus, etc. Entretanto, os mesmos datam posteriormente a apóstolo.

c - Hino pré-gnóstico - dá como Paulo houvesse tomado e adaptado a cristologia cósmica em Colossences dessa literatura. Entretanto, o mesmo Paulo adverte contra especulações gnósticas, a essa mesma igreja em Colossos.

Dimensão "cósmica" - obviamente uma alusão a Adão, uma posição de autoridade sobre toda a criação e sobre a Igreja, como "último Adão" -ou "segundo homem" = conceito escatológico, histórico-redentivo.

  a - Kyrius (Cristo) exaltado que virá:

Exaltação - Ascensão de Cristo - o assentar-se à direita de Deus- até sua próxima vinda (parousia)
É no Espírito que a comunhão com o Cristo exaltado acontece e que no Espírito o Kyrius exaltado abençoa e ministra sua Igreja.

Espírito Santo é o dom escatológico dos últimos tempos.
A passagem de 2Cor 3.17 - "ora, o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade" resume seu argumento no capítulo (2 Carta de Paulo aos Corintios), que gira em torno do contraste histórico-redentivo entre Ministério da letra e da morte, e o da vida e do Espírito, da nova Aliança.


Angélica Maria Lima Mansano Garcia
Pós Graduação em Bíblia do Centro Presbiteriano de Pós Graduação Andrew Jumper da Universidade Mackenzie. 2001.



Dicionário Houaiss

Escatologia
Substantivo feminino
1. Doutrina das coisas que devem acontecer no fim dos tempos, no fim do mundo
1.1 Rubrica: teologia. Doutrina que trata do destino final do homem e do mundo; pode apresentar-se em discurso profético ou em contexto apocalíptico.


Dicionário de Teologia (Stanley J. Grenz; David Guretzki; Cherith Fee Nordling)

Gnosticismo
Antigo movimento religioso grego de amplas proporções, particularmente influente na igreja d século II.
A palavra gnosticsmo deriva do grego gnosis, que significa “conhecimento”.
Os gnósticos acreditavam que seus devotos adquiriam um tipo especial de iluminação espiritual, alcançando por ela um nível secreto ou mais elevado de conhecimento não acessível aos não iniciados; tinham a tendência de realçar a esfera espiritual em detrimento da material, muitas vezes afirmando que esta é má e por isso deve ser evitada.

Igreja
Palavra geralmente utilizada como tradução do termo grego genérico ekklesia, que significa “reunião”, “assembléia”, ou “congregação”.
O Novo Testamento tende a usar o termo referindo-se a todos quantos pela fé na pessoa e na obra de Cristo como a mais plena revelação de Deus, entraram num novo relacionamento com Deus e uns para com os outros (1 Coríntios 1.9,10), sendo habitação do Espírito Santo na terra (1 Co 3.16), tendo recebido a tarefa de proclamar o reinado atual e futuro de Deus no mundo, tanto pela declaração verbal da palavra de Deus (Atos 20.25-27) quanto pela administração das ordenanças ou sacramentos (Mt 28.19; 1 Coríntios 10.16,17).
A igreja fundamenta-se na obra passada de Cristo, em sua morte, ressurreição e ascensão, aponta para o retorno dele e busca viver em amor pelo poder do Espírito Santo no presente.

Cristologia
É o estudo teológico que procura responder a duas perguntas principais: “Quem é Jesus?” (identidade) e “Qual é a natureza e o significado do que Jesus realizou na (sua) encarnação” (sua obra). A palavra grega (Kyrius) traduzida por “Cristo” equivale ao termo hebraico “Messias”, e significa ‘ungido’. O uso que o Novo Testamento faz do termo ‘Cristo’ tende a apontar para a divindade de Jesus.

Kerigma (‘querigma’)
Literalmente “proclamação”. Refere-se à mensagem fundamental do Novo Testamento, o evangelho de Jesus Cristo (conteúdo da Palavra pregada), ou à proclamação dessa mensagem, principalmente por meio da pregação (ato de anunciar publicamente a Palavra).

Parusia, transliteração do grego Parousia
Literalmente significa “presença”, sendo utilizada em referência a segunda vinda de Cristo, no final dos tempos. A vinda ou retorno de Cristo, momento em que sua presença estará plenamente presente no mundo, ou sua presença será plenamente manifesta.

 

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