RESUMO DAS
ESTRUTURAS FUNDAMENTAIS DA PREGAÇÃO DE PAULO
(Esse trabalho foi parte da disciplina “Teologia Paulina” do curso de
Pós Graduação em Bíblia, em Dezembro de 2001. Minha intenção é apenas
levar o leitor a se interessar pelas Cartas Paulinas).
SUMÁRIO
I .
Conceito/Definição:
"O que é básico, dominante, controlador na pregação do apóstolo; seu
ponto de partida, o que determina tudo o que ele escreveu e pregou".
Objetivo: "Entender o pensamento mais fundamental e básico de Paulo,
que influenciou toda sua obra".
II . Quais são as estruturas fundamentais da pregação de Paulo
estudadas até aqui? (Aula 5).
1 - Plenitude dos tempos
A- Conceito
B- Dia da salvação
C- Nova Criação
D- Conceito de História da salvação
2 - Escatologia/ Cristologia
A - O caráter Cristológico da Escatologia de Paulo
B- O caráter Escatológico da Cristologia de Paulo
C - Comparação da escatologia de Paulo com o judaísmo e os essênios
a - Os dois mundos
b - Antes/Agora
3 - O primogênito entre os mortos
4 - O último Adão
5 - Em Cristo, com Cristo
a - Por nós
b - Em Cristo, Nele - o velho/novo
c - Carne/Espírito
d - Cristo, filho de Deus.
6 - O primogênito de cada criatura
a - Cristo/(Kyrios)Exaltado que virá.
RESUMO DAS
ESTRUTURAS FUNDAMENTAIS DA PREGAÇÃO DE PAULO
1 -
Plenitude dos tempos
A- Conceito:
Partindo-se do conteúdo da pregação de Paulo, pode-se sintetizá-lo
como "a proclamação e explicação do tempo escatológico de salvação
inaugurado com o advento de Cristo, sua morte e ressurreição." Este
não significa o "amadurecimento do tempo ou seu ponto climático", mas
o "seu cumprimento ou término do tempo em seu sentido absoluto: o
tempo do mundo chegou ao fim como o advento de Cristo, ou seja: o
"conjunto de valores humanos da humanidade em rebelião contra Deus,
entrou em seu último estágio, na etapa final da história, que já
começou. O "alvorecer da última hora" para Paulo é entendido não
somente como o julgamento deste mundo, mas como o raiar do grande dia
da salvação, prometido pelos antigos profetas de Israel.
B - Dia da Salvação
O dia "longamente esperado", a hora decisiva para a salvação da
humanidade.
O dia “da salvação”
no seu sentido escatológico de consumação.
Se refere aos eventos
históricos da encarnação, morte, ressurreição, glorificação de Cristo
e a vinda do Espírito Santo: os últimos dias e decisivos eventos
dentro de uma série de intervenções salvíficas de Deus na história da
humanidade, que constitui a história da salvação.
C - Nova Criação
Se refere não só ao aspecto individual (Kaine Ktisis),
mas a recriação do mundo que Deus fez amanhecer em Cristo,
e do qual todos os que pertencem a Cristo estão incluídos.
Tanto "velho" como "novo"
devem ser entendidos escatologicamente: Paulo faz um contraste entre 2
mundos e não entre 2 estágios da vida do cristão individualmente:
- "velho" = mundo não redimido em seu pecado e aflição
- "novo" = tempo da
salvação que raiou na ressurreição de Cristo.
D - Conceito de história da salvação
Entendimento que Paulo tem da obra de Cristo como sendo o cumprimento
das promessas antigas feitas por Deus através dos profetas de Israel.
2 -
Escatologia/cristologia
A - O caráter cristológico da Escatologia de Paulo
Paulo prega o evangelho da "inauguração da hora da salvação", que ele
chama de "Evangelho de Cristo". Essa pregação é controlada por sua
compreensão de que Deus cumpriu na história as suas antigas promessas,
feitas através dos profetas de Israel, chegando assim a história, ao
seu final.
Esse "final" é caracterizado, ou iniciado, pela vida e obra de Jesus
Cristo: sua encarnação, morte, ressurreição, e exaltação (eventos
histórico-redentivos da intervenção de Deus no mundo)
B - Caráter Escatológico da Cristologia de Paulo
A sua cristologia gira em torno dos fatos escatológicos-redentivos
acontecidos com Cristo, que é a base da sua pregação (kerygma) que nos
permite ver como o seu pensamento e pregação se organizam na revelação
do AT: os fatos ocorridos como Jesus Cristo representasse o
cumprimento e o término da série grandiosa de eventos redentivos
ocorridos na história de Israel, registrados nas Escrituras do AT.
Formam o pressuposto da continuação e da consumação da história do
mundo.
C -Comparação da escatologia de Paulo, judaísmo e essênios
Paulo se baseia nas Escrituras do judaísmo (AT) que era a mesma dos
essênios e da literatura apocalíptica, utilizando termos comuns e
tradições do judaísmo (seu "background") sendo, entretanto,
essencialmente distinta das expectativas escatológicas tanto deste
quanto daqueles, num aspecto central: TENSÃO ENTRE O ASPECTO REALIZADO
E O AINDA POR REALIZAR, DA OBRA REDENTORA DE DEUS EM CRISTO: a nova
era, a nova criação, o mundo futuro já raiou com a vinda de Cristo,
que é o MESSIAS; sendo que a igreja ainda vive no mundo presente e no
tempo correspondente a ele, "os tempos do fim".
a - Os 2 mundos
O
“tempo presente”, aquele onde o
"mundo vindouro" já penetrou - "tempo presente" Rm 8.18, "tempo de
hoje, quando Deus reúne seus eleitos" Rm 11.5, "este século" Rm 12.2,
"presente século" de Ef !.21, "mundo perverso" de Gl 1.4;
"fins dos séculos" 1Cor 10.11, "últimos tempos" - da apostasia
derivada da influência demoníaca - 1Tm 4.1, "últimos dias" -
depravação humana mais evidente- 2Tm 3.1;
b - Antes/agora
(termos existentes nas cartas de Paulo, ausentes da literatura
apocalíptica e da dos essênios)
- "ANTES" - vida não redimida antes do raiar do tempo da redenção, Ef
2.2,12;
- "AGORA" - tempo da redenção, da nova criação e de cumprimento, 2Cor
6.2. Ef 2.13.
3 - Primogênito entre os mortos
Partindo do "envio de Deus de seu filho, nascido sob a lei, nascido de
mulher (Gl 4.4, 1Tm 3.16) e do centro da sua pregação na morte e na
ressurreição de Cristo", Paulo parte retrospectivamente de sua
pré-existência à encarnação, e prospectivamente para sua exaltação e
sua vinda, para lançar luz e esclarecer a história antes e depois de
Cristo, por causa da sua plena compreensão dos atos redentivos de Deus
na história.
A morte de Cristo é interpretada à luz de sua ressurreição e sua
ressurreição à luz de sua morte: 2 eventos que formam uma unidade
inseparável e se interpretam mutuamente e fazem a centralidade do
pensamento de Paulo, sendo esta centralidade de grande importância.
4 - O Último Adão
Paulo compara (ou aplica) conceito de "último Adão" a Cristo
ressuscitado, comparando-o com Cristo, ou um contraste entre estes. Rm
5.17.
Cristo é o "ultimo Adão" e o "segundo homem": como Cristo inaugurando
a nova humanidade, pela ressurreição e o "último homem" (de 1Cor
15.21-22)
- PRIMOGÊNITO - posição de honra e dignidade entre seus irmãos, indo
adiante deles, abrindo-lhes o caminho, unindo seu futuro ao deles; Rm
8.29; Cl 1.18
- PRINCÍPIO - pioneiro, Cristo é o inaugurador que desbravou o
caminho, em quem a grande ressurreição já teve início, e tornou-se
realidade. Ele traz à luz, vida e imortalidade; 2Tm 1.10
- PRIMÍCIAS - Cristo é o primeiro da ressurreição, representante de
toda a ressurreição; 1Cor 15.20
5 - Em Cristo, com Cristo
a - Por nós: conceitos do AT, como sacrifício, resgate e expiação,
em referência à obra de Cristo "no nosso lugar", "por nós";
b - Em Cristo, nele: pretende demonstrar que Cristo está em tão
íntima união com aquele por quem ele se manifestou, que os mesmos
estão nele;
- "Velho-novo": caráter escatológico - o "velho" foi condenado e
colocado à morte no Gólgota, o velho modo da existência, o corpo de
pecado, a "carne"; que perdem o seu domínio e controle sobre todos os
que estão em Cristo. - O "novo", novo modo de existência dos que estão
em Cristo. Romanos 6.10,11. A nova criatura, de 2 Coríntios 5.17.
c - Carne/Espírito: "carne", a "velha era"; "espírito", a nova
criação que provem do Espírito. Há um paralelo nesta situação, entre
Adão ("alma vivente") e o último Adão ("espírito vivificante").
d - Cristo, o Filho de Deus: Paulo fundamenta sua pregação em sua
confissão de que Jesus Cristo é o Filho de Deus, conceito esse
fundamentado no conceito da "pré-existência" de Cristo. Gálatas 4.4,5;
Colossenses 1.17.
6- Primogênito de cada criatura
Posição escatológica em relação a criação em geral - de senhorio
absoluto sobre o mundo criado, visível, e invisível. Colossenses 1.15.
Dimensão "cósmica" dada por Paulo, cujo entendimento é explicado da
seguinte forma:
a - pela SABEDORIA, retirada do conhecimento dos atributos de Deus,
"personificada" nos livros de Provérbios (1. 20-31; 8.22; 3.19),
Eclesiastes (1 e 4), e do apócrifo Sabedoria (7.21, 25 ss), como tendo
existido antes da criação do mundo e como tendo sido instrumento ou
agente da criação de Deus. É a hipótese mais provável.
b - Filo e Escritos Herméticos - argumento de alguns estudiosos que
crêem que Paulo possa ter sido influenciado por essas obras, devido à
semelhança entre os conceitos lá desenvolvidos, como logos, protogonos
(primogênito), princípio e nome de Deus, o cosmo como imagem de Deus,
o homem divino primitivo como imagem de Deus, etc. Entretanto, os
mesmos datam posteriormente a apóstolo.
c - Hino pré-gnóstico - dá como Paulo houvesse tomado e adaptado a
cristologia cósmica em Colossences dessa literatura. Entretanto, o
mesmo Paulo adverte contra especulações gnósticas, a essa mesma igreja
em Colossos.
Dimensão "cósmica" - obviamente uma alusão a Adão, uma posição de
autoridade sobre toda a criação e sobre a Igreja, como "último Adão"
-ou "segundo homem" = conceito escatológico, histórico-redentivo.
a - Kyrius (Cristo) exaltado que virá:
Exaltação - Ascensão de Cristo - o assentar-se à direita de Deus- até
sua próxima vinda (parousia)
É no Espírito que a comunhão com o Cristo exaltado acontece e que no
Espírito o Kyrius exaltado abençoa e ministra sua Igreja.
Espírito Santo é o dom escatológico dos últimos tempos.
A passagem de 2Cor 3.17 - "ora, o Senhor é Espírito; e onde está o
Espírito do Senhor, aí há liberdade" resume seu argumento no capítulo
(2 Carta de Paulo aos Corintios), que gira em torno do contraste
histórico-redentivo entre Ministério da letra e da morte, e o da vida
e do Espírito, da nova Aliança.
Angélica Maria Lima Mansano Garcia
Pós Graduação em Bíblia do Centro Presbiteriano de Pós Graduação
Andrew Jumper da Universidade Mackenzie. 2001.
Dicionário Houaiss
Escatologia
Substantivo feminino
1. Doutrina das coisas que devem acontecer no fim dos tempos, no fim
do mundo
1.1 Rubrica: teologia. Doutrina que trata do destino final do homem e
do mundo; pode apresentar-se em discurso profético ou em contexto
apocalíptico.
Dicionário de Teologia (Stanley J. Grenz; David Guretzki;
Cherith Fee Nordling)
Gnosticismo
Antigo movimento religioso grego de amplas proporções, particularmente
influente na igreja d século II.
A palavra gnosticsmo deriva do grego gnosis, que significa
“conhecimento”.
Os gnósticos acreditavam que seus devotos adquiriam um tipo especial
de iluminação espiritual, alcançando por ela um nível secreto ou mais
elevado de conhecimento não acessível aos não iniciados; tinham a
tendência de realçar a esfera espiritual em detrimento da material,
muitas vezes afirmando que esta é má e por isso deve ser evitada.
Igreja
Palavra geralmente utilizada como tradução do termo grego genérico
ekklesia, que significa “reunião”, “assembléia”, ou “congregação”.
O Novo Testamento tende a usar o termo referindo-se a todos quantos
pela fé na pessoa e na obra de Cristo como a mais plena revelação de
Deus, entraram num novo relacionamento com Deus e uns para com os
outros (1 Coríntios 1.9,10), sendo habitação do Espírito Santo na
terra (1 Co 3.16), tendo recebido a tarefa de proclamar o reinado
atual e futuro de Deus no mundo, tanto pela declaração verbal da
palavra de Deus (Atos 20.25-27) quanto pela administração das
ordenanças ou sacramentos (Mt 28.19; 1 Coríntios 10.16,17).
A igreja fundamenta-se na obra passada de Cristo, em sua morte,
ressurreição e ascensão, aponta para o retorno dele e busca viver em
amor pelo poder do Espírito Santo no presente.
Cristologia
É o estudo teológico que procura responder a duas perguntas
principais: “Quem é Jesus?” (identidade) e “Qual é a natureza e o
significado do que Jesus realizou na (sua) encarnação” (sua obra). A
palavra grega (Kyrius) traduzida por “Cristo” equivale ao termo
hebraico “Messias”, e significa ‘ungido’. O uso que o Novo Testamento
faz do termo ‘Cristo’ tende a apontar para a divindade de Jesus.
Kerigma (‘querigma’)
Literalmente “proclamação”. Refere-se à mensagem fundamental do Novo
Testamento, o evangelho de Jesus Cristo (conteúdo da Palavra pregada),
ou à proclamação dessa mensagem, principalmente por meio da pregação
(ato de anunciar publicamente a Palavra).
Parusia, transliteração do grego Parousia
Literalmente significa “presença”, sendo utilizada em referência a
segunda vinda de Cristo, no final dos tempos. A vinda ou retorno de
Cristo, momento em que sua presença estará plenamente presente no
mundo, ou sua presença será plenamente manifesta.