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Apesar da Alemanha ter sido o berço da Reforma Protestante, as
influências medievais impediam que a prática do Evangelho no cotidiano
das pessoas se deslanchasse.
Porém, havia ainda no ar uma certa influência do verdadeiro reavivamento
oriundo daqueles tempos da Reforma Protestante do século XVI.
As missões mundiais não eram prioridade da maioria dos reformadores,
como já vimos no II Boletim.
Não havia ainda acontecido um movimento paralelo ou equivalente dentre
os protestantes, que se equiparasse ao Movimento Católico de
Contra-Reforma do século XVI.
Também já sabemos que só o fato dos crentes terem-se mantido firmes
frente às oposições e perseguições dos primeiros tempos pós-reforma, em
si só pode ser considerado como fato vitorioso.
Também já vimos que as oportunidades para viagens além-mar eram dadas
aos católicos, religião dominante da época e pela aceitação e influência
que esta exercia entre os governos e monarquias.
Os países berços da Reforma, Alemanha e Suíça, considerados como
fortalezas do protestantismo, não eram países banhados por mar, de modo
que não tinham frotas marítimas como outros países europeus que se
aventuravam ao descobrimento; também não tinham organizações monásticas
como os católico-romanos.
Mas, vimos também que o próprio Calvino havia não só encaminhado homens
de fé e de confiança para evangelizar não apenas seu país, a França,
como havia enviado missionários a evangelizar os índios no Brasil, o que
acabou naquele trágico acontecimento, fato que deu origem a Confissão de
Fé da Guanabara, em 1557, como já vimos.
Assim, a Alemanha vivia um protestantismo rígido e teórico até meados do
século XVII (a partir de 1685) quando foi influenciada por um jovem
chamado Felipe Jacó Spener, que tentava remediar os problemas religiosos
por ele detectados quando era ainda mais jovem.
Nesta época, a Alemanha vivencia um movimento vigoroso e cheio de nova
vida cristã, liderado por Spener.
Spener estava imbuído da vontade de que seu povo vivenciasse um
Cristianismo ardente, sincero, e que a vida do povo fosse purificada em
todos os aspectos. Caracteristicamente, seus sermões eram de caráter
prático, fervorosos e sinceros, diferentes dos estilos rígidos comuns da
época.
Ele começa a pregar a verdadeira regeneração que traz mudanças no
coração e nas atitudes do homem de fé, insistindo no fato de que ser
nascido de Deus e levar uma vida de santidade e serviço era
infinitamente mais importante que ter pontos de vistas ortodoxos sobre
Teologia.
Ou seja, ele pregava que mais que ter uma correta Teologia (Ortodoxia),
era necessário colocar essa Teologia em prática (Ortopraxia).
Essa idéia não era muito bem entendida até aqueles dias, apesar da
Reforma, mas considerada nova e estranha!
Spener reavivou nos seus dias, os conceitos básicos da Reforma - como o
sacerdócio universal dos crentes - atribuindo ações práticas aos leigos,
como ajudar nos serviços religiosos, no ensino do evangelho e na ajuda
interpessoal.
Spener realizava reuniões na sua própria casa, tanto para estudos
bíblicos devocionais, quanto para grupos de oração e de mútua instrução,
onde os leigos tomavam parte ativa. Realizou grande serviço pastoral,
além de ter se dedicado ao ensino religioso das crianças.
Assim, vai construindo um alicerce sólido no meio social com
repercussões importantes para o povo, que resultou em grande
despertamento para Frankfurt. Esse despertamento reavivou a piedade
cristã, real e dinâmica, em contraste com a religiosidade teórica.
Dessa forma nasceu o Pietismo, na época em que a Faculdade Teológica de
Wittenberg fazia oposição a Spener, enxergando no seu recém-publicado
livro 264 erros teológicos... Mas, em vão! Por meio século desde 1685 o
Pietismo exerceu influência dominante no protestantismo alemão, tendo-o
revigorado espiritualmente e enchendo de nova vida a vida religiosa
cristã.
O Pietismo é considerado a continuidade do reavivamento religioso
nascido com a Reforma, reavivamento esse que estivera apagado e quase
esquecido.
Como genuíno movimento reavivador, o Pietismo inspirou os crentes a
realizar obras cristãs.
Em 1694, aparece um segundo líder do movimento, August Hermann Francke,
pastor e professor da Universidade de Halle.
Nessa época, nasce uma grande instituição para crianças desamparadas e a
Missão Danish-Halle (Missão Dinamarquesa-Halle) que seria famosa
posteriormente.
O rei Fernando IV da Dinamarca, também Pietista, querendo evangelizar os
povos das suas colônias no sul da Índia, consegue e envia sessenta
missionários pietistas alemãs, para Tanquebar, na costa sudoeste da
Índia, em 1705, oriundos da Universidade de Halle.
Essa foi a primeira oportunidade de missões protestantes, no entender de
Ruth Tucker. Assim concorda Robert H. Nichols, em que “o Pietismo tem a
honra de ter produzido a obra das primeiras missões estrangeiras
protestantes”.
Do resultado do movimento Pietista nasce a irmandade da Morávia, que
imbuído neste espírito prático do cristianismo, teve grande importância
para a igreja missionária do mundo.
John Wesley é um dos resultados desse movimento, e todos sabemos que
grande líder cristão ele foi. (Longe dali, um ministro americano foi
inflamado nessa chama pela influência de um ministro alemão em New
Jersey, desencadeando uma das grandes causas do Grande Reavivamento
Espiritual na América do Norte).
Em 1714, nasce outra Universidade missionária, agora em Copenhagem, com
o intuito de treinar recrutas para a função missionária.
O Movimento Moraviano começa junto com a história de uma propriedade
adquirida por um nobre austríaco, o Conde Nicolaus Ludwig von Zinzendorf
(1700-1760), homem profundamente influenciado pelo Pietismo, que por sua
vez influenciou grandemente não só o cristianismo dos seus dias, com
seus hinos compostos, com a Igreja Moravia, como também com o movimento
missionário que se seguiria, abrindo caminho para William Carey.
Zinzendorf tinha o desejo de reunir uma comunidade de pessoas
verdadeiramente crentes que se tornassem uma fonte de vida espiritual
para as igrejas e comunidades religiosas vizinhas.
Nascido entre a
riqueza e a nobreza, foi criado pela avó e tia após a morte de seu pai,
e por ter sua mãe contraído um segundo casamento.
Sua avó e tia eram
piedosas e o instruíram acerca das realidades espirituais, confirmadas
pela educação que lhes deram.
Aos 10 anos foi enviado a Universidade Halle, onde foi instruído por ninguém menos que o grande Pietista
Luterano August Hermann Francke.
Ali, criou com outros jovens dedicados,
a “Ordem do Grão de Mostarda”.
Mas seu sonho era uma comunidade que
fizesse diferença no meio em que viva. Fosse “sal e luz”!
Finalizados os estudos em Halle, Zinzendorf vai para Wittenberg, onde
deveria concluir seus estudos em Direito, única profissão aceitável para
um nobre.
Lutando no seu íntimo por se dedicar a obra de Cristo, e
assim, quebrar a tradição familiar e abandonar tudo, finalmente em 1719,
ao visitar uma Galeria de Arte na Europa, ao ver um quadro que mostrava
Cristo crucificado onde estava escrito “Fiz isto por ti, e tu o que
fazes por mim?” decidiu naquele momento resolver o seu conflito.
Buscaria uma vida de serviço para o Salvador que tanto sofrera para
resgata-lo.
Assim, dois anos mais tarde, apenas 21 anos de idade,
adquiriu uma propriedade na Saxônia, chamada Berthelsdorf, com essa
intenção, cuja habitação foi providenciada por Deus: em 1722, irmãos
fugitivos da região da Morávia, frutos da obra de John Huss, conseguem
permissão de Zinzendorf para se estabelecerem nas suas terras.
Cem Anos de Oração ininterrupta
Esse novo povoado recebe o nome de “Abrigo do Senhor” - em alemão, “Herrnhut”.
Como a sua população fosse na maioria moraviana, pois, muitos outros
refugiados religiosos ouvindo falar da generosidade do conde
dirigiram-se para lá, se tornou conhecida como “Irmandade dos Moravianos”
ou “Unitas Fratum”.
Abdicando de suas regalias, Zinzendorf se muda para
lá com sua família, e dedica-se à essa comunidade durante a sua vida
toda, em obras e muitas orações.
Ele conduz a comunidade em verdadeira
união e inflamada devoção e sinceridade a Jesus Cristo, a tal ponto que
em 1727, num dia 13 de agosto, acontece um culto onde tal reavivamento é
marcado pela “chegada do Espírito Santo” e a partir daí, uma verdadeira
febre por missões.
Assim, em 1731, iniciam-se os movimentos missionários dessa comunidade
que deixaria registrado sua ação para toda vida.
As pequenas questões
doutrinárias deixaram de ser pretexto para discussões.
Em vez disso,
havia um forte espírito de unidade e uma maior dependência de Deus.
Uma
vigília de orações foi iniciada tendo continuado noite e dia, sete dias
por semana, de tal forma que se manteve ininterrupta, por mais de cem
anos!
Como primeiros passos missionários enviaram dois dos seus membros para
evangelizar, um na Índia e outro na Groenlândia.
Após esses dois, uma
verdadeira torrente de missionários foi enviada para o mundo: Europa,
Ásia, África, América do Norte, América do Sul.
Em poucos anos (duas
décadas) a comunidade Abrigo do Senhor dos Moravianos enviou mais
missionários para o mundo do que todo o protestantismo europeu enviara
nos seus 200 anos!
Eles foram a toda parte e a lugares menos
promissores, e em toda parte se mostravam revestidos de alegria cristã,
fé inabalável, lealdade a toda prova a Cristo.
Revelavam a mesma
coragem, consagração e amor a todos os homens.
Um dos aspectos singulares dessa irmandade missionária é que cada
missionário sustentava-se a si mesmo com o próprio ofício e trabalho.
Poupavam dinheiro ainda para prover o sustento dos mais pobres, como
quando estavam entre os esquimós, no Alasca.
Eram donos de alfaiatarias,
padarias, navios e postos de comércios, pois não só se interessavam na
evangelização, mas na aplicação deste na vida cotidiana, e influenciavam
assim a comunidade onde estavam, e sempre surgiam igrejas florescentes
nestas comunidades.
“A contribuição mais importante dos Morávios foi a
sua ênfase sobre a idéia de que todo cristão é um missionário e deve
testemunhar através da sua vida diária”, escreve Ruth Tucker.
“Se o
exemplo dos Morávios tivesse sido estudado mais cuidadosamente pelos
outros cristãos é possível que o homem de negócios tivesse retido seu
lugar de honra na missão cristã em desenvolvimento, além do pregador,
médico e professor”, disse William Danker, citado por Ruth Tucker.
Zinzendorf passou 33 anos de sua vida liderando uma rede mundial de
missionários, pois dele esperavam. Seus métodos eram simples e práticos,
e suportaram as provas do tempo. Os seus missionários eram leigos, e não
teólogos, deveriam se identificar e testemunhar junto aos prováveis
convertidos, pela fé e por palavras, testemunho de vida,
identificando-se como iguais e não como superiores.
Infelizmente, os irmãos Morávios por desprezarem doutrinas na ânsia de
evangelizar com simplicidade, foram tornando-se místicos (carismáticos)
e muito mórbidos em relação a morte de Cristo, referindo-se a si mesmos
com um desprezo relativista em consideração à obra vicária de Cristo
(consideravam-se menos que nada, “como um verme quero me esconder nas
chagas de Cristo”), com uma auto-estima bastante baixa.
Isso fez com que
almejassem um plano superior de espiritualidade com o passar dos tempos,
e negligenciando o lado prático da fé, o projeto missionário foi
prejudicado.
Felizmente, porém, o conde voltou ao bom senso antes que fosse tarde
demais, superando esse momento breve, mas perigoso demais para sua
comunidade e, reconhecendo sua responsabilidade na quase degeneração da
igreja, conseguiu que seus seguidores voltassem ao caminho certo.
Essa
atitude de Zinzendorf é ainda tão honrada quanto sua própria vida.
“A única motivação deles era o amor sacrificial de Cristo pelo mundo, e
foi essa mensagem que levaram até os confins do mundo”, diz Tucker.
Para nos situarmos melhor no tempo note que a presença do primeiro
missionário protestante no Brasil a fundar uma Igreja, o médico Dr.
Robert Kalley, então no ano de 1885, ocorreu exatamente 200 anos após a
influência de Speney na vida cristã alemã (1685).
Referências Bibliográficas:
-
Robert H. Nichols, História da Igreja Cristã, Editora Cultura Cristã,
2000. SP;
-
Ruth A. Tucker,”…até os confines da terra.”, Uma História Biográfica das
Missões Cristãs. Edições Vida Nova, 1996, SP.
Dracena, SP; 25/12/2004.
Angélica Maria Lima Mansano Garcia
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