ANGÉLICA MARIA LIMA MANSANO GARCIA

Assuntos Missionários


OS PRIMEIROS MOVIMENTOS MISSIONÁRIOS NO MUNDO

O PIETISMO E OS MORAVIANOS
 



Apesar da Alemanha ter sido o berço da Reforma Protestante, as influências medievais impediam que a prática do Evangelho no cotidiano das pessoas se deslanchasse.
Porém, havia ainda no ar uma certa influência do verdadeiro reavivamento oriundo daqueles tempos da Reforma Protestante do século XVI.

As missões mundiais não eram prioridade da maioria dos reformadores, como já vimos no II Boletim.
Não havia ainda acontecido um movimento paralelo ou equivalente dentre os protestantes, que se equiparasse ao Movimento Católico de Contra-Reforma do século XVI.
Também já sabemos que só o fato dos crentes terem-se mantido firmes frente às oposições e perseguições dos primeiros tempos pós-reforma, em si só pode ser considerado como fato vitorioso.
Também já vimos que as oportunidades para viagens além-mar eram dadas aos católicos, religião dominante da época e pela aceitação e influência que esta exercia entre os governos e monarquias.

Os países berços da Reforma, Alemanha e Suíça, considerados como fortalezas do protestantismo, não eram países banhados por mar, de modo que não tinham frotas marítimas como outros países europeus que se aventuravam ao descobrimento; também não tinham organizações monásticas como os católico-romanos.
Mas, vimos também que o próprio Calvino havia não só encaminhado homens de fé e de confiança para evangelizar não apenas seu país, a França, como havia enviado missionários a evangelizar os índios no Brasil, o que acabou naquele trágico acontecimento, fato que deu origem a Confissão de Fé da Guanabara, em 1557, como já vimos.

Assim, a Alemanha vivia um protestantismo rígido e teórico até meados do século XVII (a partir de 1685) quando foi influenciada por um jovem chamado Felipe Jacó Spener, que tentava remediar os problemas religiosos por ele detectados quando era ainda mais jovem.
Nesta época, a Alemanha vivencia um movimento vigoroso e cheio de nova vida cristã, liderado por Spener.
Spener estava imbuído da vontade de que seu povo vivenciasse um Cristianismo ardente, sincero, e que a vida do povo fosse purificada em todos os aspectos. Caracteristicamente, seus sermões eram de caráter prático, fervorosos e sinceros, diferentes dos estilos rígidos comuns da época.
Ele começa a pregar a verdadeira regeneração que traz mudanças no coração e nas atitudes do homem de fé, insistindo no fato de que ser nascido de Deus e levar uma vida de santidade e serviço era infinitamente mais importante que ter pontos de vistas ortodoxos sobre Teologia.

Ou seja, ele pregava que mais que ter uma correta Teologia (Ortodoxia), era necessário colocar essa Teologia em prática (Ortopraxia).
Essa idéia não era muito bem entendida até aqueles dias, apesar da Reforma, mas considerada nova e estranha!
Spener reavivou nos seus dias, os conceitos básicos da Reforma - como o sacerdócio universal dos crentes - atribuindo ações práticas aos leigos, como ajudar nos serviços religiosos, no ensino do evangelho e na ajuda interpessoal.
Spener realizava reuniões na sua própria casa, tanto para estudos bíblicos devocionais, quanto para grupos de oração e de mútua instrução, onde os leigos tomavam parte ativa. Realizou grande serviço pastoral, além de ter se dedicado ao ensino religioso das crianças.
Assim, vai construindo um alicerce sólido no meio social com repercussões importantes para o povo, que resultou em grande despertamento para Frankfurt. Esse despertamento reavivou a piedade cristã, real e dinâmica, em contraste com a religiosidade teórica.

Dessa forma nasceu o Pietismo, na época em que a Faculdade Teológica de Wittenberg fazia oposição a Spener, enxergando no seu recém-publicado livro 264 erros teológicos... Mas, em vão! Por meio século desde 1685 o Pietismo exerceu influência dominante no protestantismo alemão, tendo-o revigorado espiritualmente e enchendo de nova vida a vida religiosa cristã.

O Pietismo é considerado a continuidade do reavivamento religioso nascido com a Reforma, reavivamento esse que estivera apagado e quase esquecido.
Como genuíno movimento reavivador, o Pietismo inspirou os crentes a realizar obras cristãs.
Em 1694, aparece um segundo líder do movimento, August Hermann Francke, pastor e professor da Universidade de Halle.
Nessa época, nasce uma grande instituição para crianças desamparadas e a Missão Danish-Halle (Missão Dinamarquesa-Halle) que seria famosa posteriormente.
O rei Fernando IV da Dinamarca, também Pietista, querendo evangelizar os povos das suas colônias no sul da Índia, consegue e envia sessenta missionários pietistas alemãs, para Tanquebar, na costa sudoeste da Índia, em 1705, oriundos da Universidade de Halle.
Essa foi a primeira oportunidade de missões protestantes, no entender de Ruth Tucker. Assim concorda Robert H. Nichols, em que “o Pietismo tem a honra de ter produzido a obra das primeiras missões estrangeiras protestantes”.
Do resultado do movimento Pietista nasce a irmandade da Morávia, que imbuído neste espírito prático do cristianismo, teve grande importância para a igreja missionária do mundo.
John Wesley é um dos resultados desse movimento, e todos sabemos que grande líder cristão ele foi. (Longe dali, um ministro americano foi inflamado nessa chama pela influência de um ministro alemão em New Jersey, desencadeando uma das grandes causas do Grande Reavivamento Espiritual na América do Norte).

Em 1714, nasce outra Universidade missionária, agora em Copenhagem, com o intuito de treinar recrutas para a função missionária.

O Movimento Moraviano começa junto com a história de uma propriedade adquirida por um nobre austríaco, o Conde Nicolaus Ludwig von Zinzendorf (1700-1760), homem profundamente influenciado pelo Pietismo, que por sua vez influenciou grandemente não só o cristianismo dos seus dias, com seus hinos compostos, com a Igreja Moravia, como também com o movimento missionário que se seguiria, abrindo caminho para William Carey.
Zinzendorf tinha o desejo de reunir uma comunidade de pessoas verdadeiramente crentes que se tornassem uma fonte de vida espiritual para as igrejas e comunidades religiosas vizinhas.
Nascido entre a riqueza e a nobreza, foi criado pela avó e tia após a morte de seu pai, e por ter sua mãe contraído um segundo casamento.
Sua avó e tia eram piedosas e o instruíram acerca das realidades espirituais, confirmadas pela educação que lhes deram.
Aos 10 anos foi enviado a Universidade Halle, onde foi instruído por ninguém menos que o grande Pietista Luterano August Hermann Francke.
Ali, criou com outros jovens dedicados, a “Ordem do Grão de Mostarda”.
Mas seu sonho era uma comunidade que fizesse diferença no meio em que viva. Fosse “sal e luz”!

Finalizados os estudos em Halle, Zinzendorf vai para Wittenberg, onde deveria concluir seus estudos em Direito, única profissão aceitável para um nobre.
Lutando no seu íntimo por se dedicar a obra de Cristo, e assim, quebrar a tradição familiar e abandonar tudo, finalmente em 1719, ao visitar uma Galeria de Arte na Europa, ao ver um quadro que mostrava Cristo crucificado onde estava escrito “Fiz isto por ti, e tu o que fazes por mim?” decidiu naquele momento resolver o seu conflito.
Buscaria uma vida de serviço para o Salvador que tanto sofrera para resgata-lo.
Assim, dois anos mais tarde, apenas 21 anos de idade, adquiriu uma propriedade na Saxônia, chamada Berthelsdorf, com essa intenção, cuja habitação foi providenciada por Deus: em 1722, irmãos fugitivos da região da Morávia, frutos da obra de John Huss, conseguem permissão de Zinzendorf para se estabelecerem nas suas terras.

Cem Anos de Oração ininterrupta

Esse novo povoado recebe o nome de “Abrigo do Senhor” - em alemão, “Herrnhut”.
Como a sua população fosse na maioria moraviana, pois, muitos outros refugiados religiosos ouvindo falar da generosidade do conde dirigiram-se para lá, se tornou conhecida como “Irmandade dos Moravianos” ou “Unitas Fratum”.
Abdicando de suas regalias, Zinzendorf se muda para lá com sua família, e dedica-se à essa comunidade durante a sua vida toda, em obras e muitas orações.
Ele conduz a comunidade em verdadeira união e inflamada devoção e sinceridade a Jesus Cristo, a tal ponto que em 1727, num dia 13 de agosto, acontece um culto onde tal reavivamento é marcado pela “chegada do Espírito Santo” e a partir daí, uma verdadeira febre por missões.

Assim, em 1731, iniciam-se os movimentos missionários dessa comunidade que deixaria registrado sua ação para toda vida.
As pequenas questões doutrinárias deixaram de ser pretexto para discussões.
Em vez disso, havia um forte espírito de unidade e uma maior dependência de Deus.
Uma vigília de orações foi iniciada tendo continuado noite e dia, sete dias por semana, de tal forma que se manteve ininterrupta, por mais de cem anos!
Como primeiros passos missionários enviaram dois dos seus membros para evangelizar, um na Índia e outro na Groenlândia.
Após esses dois, uma verdadeira torrente de missionários foi enviada para o mundo: Europa, Ásia, África, América do Norte, América do Sul.
Em poucos anos (duas décadas) a comunidade Abrigo do Senhor dos Moravianos enviou mais missionários para o mundo do que todo o protestantismo europeu enviara nos seus 200 anos!
Eles foram a toda parte e a lugares menos promissores, e em toda parte se mostravam revestidos de alegria cristã, fé inabalável, lealdade a toda prova a Cristo.
Revelavam a mesma coragem, consagração e amor a todos os homens.

Um dos aspectos singulares dessa irmandade missionária é que cada missionário sustentava-se a si mesmo com o próprio ofício e trabalho.
Poupavam dinheiro ainda para prover o sustento dos mais pobres, como quando estavam entre os esquimós, no Alasca.
Eram donos de alfaiatarias, padarias, navios e postos de comércios, pois não só se interessavam na evangelização, mas na aplicação deste na vida cotidiana, e influenciavam assim a comunidade onde estavam, e sempre surgiam igrejas florescentes nestas comunidades.
“A contribuição mais importante dos Morávios foi a sua ênfase sobre a idéia de que todo cristão é um missionário e deve testemunhar através da sua vida diária”, escreve Ruth Tucker.
“Se o exemplo dos Morávios tivesse sido estudado mais cuidadosamente pelos outros cristãos é possível que o homem de negócios tivesse retido seu lugar de honra na missão cristã em desenvolvimento, além do pregador, médico e professor”, disse William Danker, citado por Ruth Tucker.

Zinzendorf passou 33 anos de sua vida liderando uma rede mundial de missionários, pois dele esperavam. Seus métodos eram simples e práticos, e suportaram as provas do tempo. Os seus missionários eram leigos, e não teólogos, deveriam se identificar e testemunhar junto aos prováveis convertidos, pela fé e por palavras, testemunho de vida, identificando-se como iguais e não como superiores.

Infelizmente, os irmãos Morávios por desprezarem doutrinas na ânsia de evangelizar com simplicidade, foram tornando-se místicos (carismáticos) e muito mórbidos em relação a morte de Cristo, referindo-se a si mesmos com um desprezo relativista em consideração à obra vicária de Cristo (consideravam-se menos que nada, “como um verme quero me esconder nas chagas de Cristo”), com uma auto-estima bastante baixa.
Isso fez com que almejassem um plano superior de espiritualidade com o passar dos tempos, e negligenciando o lado prático da fé, o projeto missionário foi prejudicado.

Felizmente, porém, o conde voltou ao bom senso antes que fosse tarde demais, superando esse momento breve, mas perigoso demais para sua comunidade e, reconhecendo sua responsabilidade na quase degeneração da igreja, conseguiu que seus seguidores voltassem ao caminho certo.
Essa atitude de Zinzendorf é ainda tão honrada quanto sua própria vida.

“A única motivação deles era o amor sacrificial de Cristo pelo mundo, e foi essa mensagem que levaram até os confins do mundo”, diz Tucker.


Para nos situarmos melhor no tempo note que a presença do primeiro missionário protestante no Brasil a fundar uma Igreja, o médico Dr. Robert Kalley, então no ano de 1885, ocorreu exatamente 200 anos após a influência de Speney na vida cristã alemã (1685).


Referências Bibliográficas:
- Robert H. Nichols, História da Igreja Cristã, Editora Cultura Cristã, 2000. SP;
- Ruth A. Tucker,”…até os confines da terra.”, Uma História Biográfica das Missões Cristãs. Edições Vida Nova, 1996, SP.


Dracena, SP; 25/12/2004.

Angélica Maria Lima Mansano Garcia 

 

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