ANGÉLICA MARIA LIMA MANSANO GARCIA

Assuntos Teológicos

“O MITO DA CAVERNA”,
DE PLATÃO: 
Uma Abordagem Teológica


“O MITO DA CAVERNA”,
DE PLATÃO: 
Uma Abordagem Teológica

Publicado em 20/10;05

 Angélica M. L. Mansano Garcia   (*) 

Resumo: A autora traça um paralelo do ponto de vista teológico à exposição do filósofo Platão no seu conhecido ‘Mito da Caverna’ relacionando os conceitos ali usados com a realidade espiritual do ser humano do ponto de vista bíblico. Quer mostrar que à luz da Bíblia, os binômios usados no ‘Mito’ como sabedoria e conhecimento, luz e trevas, escravidão e liberdade, são largamente usados nas Sagradas Escrituras; sendo que essa aponta, porém, para a verdadeira instrução, que consiste no conhecimento do Deus verdadeiro.

 

PALAVRAS-CHAVE: ‘Mito’, escravidão, trevas, conhecimento, luz, sabedoria, liberdade.

 

 Introdução 

 

 

O “Mito da Caverna” é uma alegoria descrita no capítulo IV do Livro “A República”, de Platão (427 a.C. - 347 a.C) na forma de um diálogo. O autor conversa com Gláucon, provavelmente um aluno. Expõe filosoficamente uma situação ‘relativa à educação ou a sua falta’ usando uma caverna como ilustração. Objetiva com ela mostrar a cegueira proveniente da escravidão (entendida aqui como o ‘mundo das trevas’), ou da falta do conhecimento. A dor causada para se levar o indivíduo à força para fora da caverna (onde estava habituado) e daí para a luz (ou ao conhecimento) esforçando-se por um ‘caminho rude e íngreme’, outrora desconhecido, embora estivesse ali bem próximo. A adaptação necessária aos olhos dos indivíduos ao sair das sombras para esta nova realidade, e dos olhos daqueles que uma vez conhecendo a luz, voltasse às sombras, ‘por ter os olhos cheios de trevas’.

 

        O autor desenvolvendo seu pensamento procura fazer uma ‘aplicação’ entre a ‘caverna da prisão’ ao ‘mundo visível através dos olhos’. A ‘luz da fogueira’ lá existente com a ‘força do Sol’. A saída da caverna para o mundo da luz como uma ‘ascensão da alma ao mundo inteligível’. Está à busca do que ele chama de idéia de Bem, ensinando-a de uma forma que nos leva a crer que seria algo de grande importância para Platão, com implicação ativa na vida prática dos seus contemporâneos: ‘no mundo inteligível é ela a senhora da verdade e da inteligência, e que é preciso vê-la para ser sensato na vida particular’.

 

O diálogo é concluído após um período de discussão e reflexões que culminam na busca do bem através da educação, que ‘seria a arte desse desejo’.

 

No ‘Mito’, a luz para Platão estava para a educação, assim como a alma estava para o mundo superior, num plano mais elevado, buscada através das idéias, como ‘idéia de Bem’. Tem no ‘Sol, a origem de todas as coisas existentes no mundo visível’, vislumbrando no horizonte coisas das quais ele reconhecia ter limites na definição: ‘pois, segundo entende, diz ele, ‘no limite do cognoscível é que se avista, a custo, a idéia do Bem...’.

 

É dessa necessidade da luz buscada através de idéias filosóficas e místicas, pela reflexão e contemplação, demonstrada na necessidade antiga do ser humano pelo Ser Superior, que me inclinei a traçar essa abordagem teológica. Meu interesse é fazer correlações desse ponto de vista com a idéia da escravidão ligada à idéia de trevas e de vida ligada à idéia de luz; de mostrar que o “Mito da Caverna” continua atual e contemporâneo do ponto de vista bíblico, sendo uma realidade espiritual na nossa vida. Tais idéias são aproveitadas largamente nas Sagradas Escrituras, até mesmo antes de Platão. As idéias ali ilustradas como ‘ver obscuramente’, ‘por meio de sombras’, ‘por meio de espelhos’, até ‘poder contemplar a luz verdadeira’ são igualmente usadas na Bíblia numa linguagem comum tanto ao Senhor Jesus quando ensina seus discípulos por parábolas (João 16.25, 29) quanto a Paulo (1 Coríntios 13.12; 2 Coríntios 3.17) e ao autor de Hebreus (Hb 10.1 a; 12.18). Cito tais referências apenas como algumas das passagens entre tantas outras.

 

 Deste interesse resultará notório como Deus, o verdadeiro Deus, ‘que o mundo não conheceu’ (João 1.10), aproveita os conhecimentos e aquisições e conceitos filosóficos, e os aplica à medida que ensina sobre Si. Além disso, que ele estabelece que sabedoria em si mesma, fora dele, ‘nada é’. O conceito bíblico de sabedoria e conhecimento é diferente do puramente entendido pelo filósofo, e por analogia, pelo mundo. Aplicando tais conceitos ‘na plenitude dos tempos’ segundo Seu eterno propósito, Deus faz como que uma acomodação do Seu linguajar à compreensão humana da época dessa ‘plenitude’ (ou seja, a vinda do Messias) (cf Gálatas 4.4-5).

 

 

O MITO DA CAVERNA

 

 

 “O Mito”, então, ilustra uma situação na qual uma caverna é uma ‘habitação subterrânea’ e escura. Os habitantes dessa caverna são pessoas que vivem lá desde sua infância, dando a entender que sempre moraram lá. Acorrentados, tendo ‘algemadas pernas e pescoços’ só lhes sendo permitido ‘permanecer no mesmo lugar, olhando em frente’, para o fundo da caverna, com suas cabeças obrigadas ‘pelos grilhões’ a se manterem assim por todo o tempo. São, assim, ‘incapazes de voltar a cabeça’. Na caverna existe uma saída para a luz que se estende por todo o cumprimento da gruta, mas que os seus habitantes são incapazes de enxergar, por causa das correntes e das algemas que os obrigam sempre se manterem naquela posição.

 

Esses moradores natos são, assim, obrigados a olharem para o fundo da caverna, onde reina a escuridão. Faz parte da mesma um íngreme caminho, em aclive, que surge às suas  costas, o qual eles não conhecem, por que não podem se virar, por trás do qual existe uma fonte de luz, algo como uma tocha. No alto desse caminho, construiu-se um ‘muro de tapumes’ semelhante a um palco para apresentação de fantoches -em ‘que os homens dos ‘robertos’-os fantoches - colocam diante do público para mostrarem suas habilidades... ’-. Esse ‘muro’ está situado entre a tocha e os habitantes lá em baixo.

 

        Então, homens por trás do muro, e à frente da tocha, transportam toda espécie de objetos: ‘estatuetas de homens e de animais, de pedra e de madeira, de toda a espécie de lavor’. ‘Uns homens falam e outros seguem calados’ nesse vai e vem. De maneira que ao passarem entre a tocha e o ‘palco’ suas imagens e as dos objetos que transportam têm sua imagem refletida no fundo da caverna, para onde os habitantes estão olhando. Estes assistem a esse movimentado mundo de sombras, e por força das circunstancias se acostumam a ele e o têm por ‘real’.

 

Nessa altura, Gláucon se surpreende e questiona sobre ‘esse estranho quadro’ e ‘de que prisioneiros são esses’ de quem o autor fala. O autor responde que são “semelhantes a nós”. Compara tais indivíduos nas trevas àqueles objetos transportados. Que se tais homens pudessem conversar entre si, teriam convicção de que estariam vendo coisas reais. Acrescenta que se houvesse eco na caverna e se alguns daqueles homens ao falar suas vozes ecoassem no fundo da caverna, seus habitantes julgariam ser aquelas vozes as das sombras projetadas.

 

      Prosseguindo no seu raciocínio, o autor considera o que aconteceria se fossem eles ‘soltos das cadeias e curados da sua ignorância’. Se trazidos ao estado natural se as coisas não se passariam ‘deste modo’. Se acontecesse de um deles ser solto e ‘forçado a endireitar-se’ de repente, ‘a voltar o pescoço, a andar e a olhar para a luz’, se não sentiria dor. E se o deslumbramento não o impediria ‘de fixar os objetos cujas sombras via outrora’.

 

      Questiona o que julgaria Gláucon o que aconteceria a eles, se alguém afirmasse àquele que foi solto que tendo visto apenas sombras, até então ‘só vira coisas vãs?’ ‘Que agora estava mais perto da realidade e via de verdade, voltado para objetos mais reais?’ O que este diria se lhe forçassem descrever o objeto que via? Não estaria este em dificuldade e suporia que as sombras dos objetos de outrora lhe pareciam mais reais que os objetos reais? Acrescenta que o solto forçado a olhar a luz buscaria refúgio nos objetos nos quais poderia olhar, porque a luz lhes faria doer os olhos, achando os antigos objetos mais nítidos que os reais.

 

      E então, ele passa a considerar o que aconteceria se os homens da caverna fossem obrigados a subirem à força o ‘caminho rude e íngreme’, e impossibilitados de fugirem antes de serem arrastados até à luz do sol. Se não sentiriam dores pelo corpo e se não se agastastariam ‘por serem assim arrastados’ para fora. E chegando à luz, o que sucederia se esta lhes ofuscasse a vista de modo a não conseguirem ver nem os verdadeiros objetos? Esclarece então, que seria necessária uma adaptação ou, que aqueles homens se habituassem: primeiro olhariam com mais facilidade para as sombras, depois para as imagens dos homens e de outros objetos refletidas na água, e por último, para os próprios objetos.

 

      Somente a partir dessa acomodação é que seriam capazes de contemplar os céus e o que há neles, durante a noite, olhando as luzes das estrelas e a da Lua, mais facilmente do que olhar para o Sol no seu brilho do dia.E assim, finalmente, tais pessoas poderiam não só ‘olhar para o Sol, mas contempla-lo’. Não mais ‘sua imagem refletida na água ou em qualquer sítio’, mas ao próprio sol, ‘no seu lugar’!

 

      Assim, continua no seu argumento, que uma vez já tendo conhecido o Sol, compreenderia que ‘é ele que causa as estações e os anos e que tudo dirige no mundo visível’, sendo o ‘responsável por tudo aquilo de que eles viam um arremedo’.

 

      Aprofundando-se pouco a pouco, Platão vislumbra e mostra para o discípulo que o atual estado (estar na luz) era muito melhor do que o anterior (estar nas trevas), apesar das dores que tais homens sofreram visto que para alcançar este estado tiveram que subir a íngreme e rude ladeira do conhecimento, sofrer as dores do corpo e a acomodação da visão. Colocando assim, mostra que mesmo que tivessem tido todas as ‘honras e elogios’ como antigos moradores da caverna e desfrutado destas entre si, ou mesmo se tivessem sido ganhadores de ‘prêmios’ para os que ‘com mais agudeza’ identificassem melhor as imagens refletidas no fundo da caverna, merecedores de especial atenção os que tivessem uma memória tal que conseguissem lembrar a seqüência dos objetos que passavam, ou ainda algum prêmio caso existisse entre eles aqueles que tivessem habilidade para prever a seqüência a ser passada, sendo por isso louvados; se, não deixariam todas essas coisas preferindo sofrer tudo a voltar para a caverna.

 

Inclui nessa colocação se haveria entre eles aqueles que teriam inveja ou saudade daquele último estado, ou ‘que experimentaria os mesmos sentimentos que em Homero’, sendo seu intenso desejo ‘servir junto de um homem pobre, como servo da gleba’ -referindo-se a versos do lamento proferido pela sombra de Aquiles, quando Ulisses o felicita por continuar a ser rei no Hades. (Odisséia XI. 489-490). (Referência citada no rodapé da própria página do livro).

 

         Gláucon responde que supunha que sim. Que aqueles homens prefeririam sofrer tudo a voltar a viver daquela maneira anterior. E ‘se ele nessas condições descesse novamente para o seu antigo posto, não teria seus olhos cheios de trevas, ao regressar subitamente da luz do sol?’, argumenta seu mestre. E nesse caso esse tal disputando com os habitantes da caverna não causaria o riso desses, pois dele se diria que teve sua visão estragada por ter subido ao mundo superior?

 

‘E a quem tentasse saltá-los e conduzi-los até cima, se pudessem agarrá-lo e mata-lo não o matariam?’, pergunta. Gláucon responde que com certeza matariam. Ou seja, zombariam, agarrariam e matariam aquele libertador do mundo das trevas para o mundo da luz!

 

        Nesse ponto o autor parecendo concluir o diálogo faz uma aplicação com uma implicação moral prática: compara o mundo visível através dos olhos à caverna da prisão, e a luz da fogueira lá existente à força do Sol. Diz que a subida da caverna ao mundo superior e visão que lá existe, deveria ser tomada como a ascensão da alma ao mundo inteligível. Argumenta que “o Deus sabe se ela é verdadeira”. Pois, ele reconhece seu limite dado pelas coisas que lhe são até então conhecidas e vislumbradas, tendo compreensão de que uma vez avistada com dificuldade a idéia do Bem, sendo esta justamente a ‘causa de quanto há de justo e belo’, pois, no mundo visível, ‘foi ela que criou a luz, da qual é senhora, e no mundo inteligível, senhora da verdade e da inteligência’. Adiciona que ‘no mundo inteligível é ela a senhora da verdade e da inteligência, e que é preciso vê-la para ser sensato na vida particular’.

 

         Uma vez elevados ao mundo superior o autor vai concluindo que os tais, os que chegaram àquele ponto, não é de se admirar não mais quererem tratar de assuntos ‘dos homens’. ‘Antes se esforçam sempre por manter a sua alma nas alturas’, pois entendem que estavam numa caverna de prisão. Assim, admira-se se aquele que uma vez tendo ido à luz volte às sombras sem ter readaptada adequadamente a visão. E assim, ao fazer gestos disparatados, parecesse ridículo aos olhos dos que estão nas trevas, forçado a contender acerca das sombras do justo ou das imagens das sombras, ou sobre o que supõe ser a própria justiça. Como disputaria sobre o que não viu?

 

         Era necessário que se admitisse que haveria de se levar em conta as perturbações visuais causadas pela passagem das sombras para a luz, e desta para aquelas. Era necessário também compreender que o mesmo ‘se passa com a alma, quando visse alguma perturbada e incapaz de ver’... Pois estaria ‘ofuscada por falta de hábito, por vir de uma vida mais luminosa’ e a que viesse ‘de uma maior ignorância a uma luz mais brilhante, não estaria deslumbrada por reflexos demasiadamente refulgentes’. Parabeniza a primeira pelas suas condições e seu gênero de vida; da segunda teria compaixão, e ‘se quisesse troçar dela, seria menos risível essa zombaria do que’ se fosse aplicada ‘àquela que descia do mundo luminoso’.

Novamente faz uma pausa para refletir se o que disseram até esse ponto era verdadeiro, e concluir que: ‘A educação não é o que alguns apregoam que ela é’. A educação seria a arte de contemplação do Ser e da parte mais brilhante do Ser -o que ele chama Bem. Seria ‘a arte desse desejo’ diz. Seria uma faculdade do corpo, dada através da ciência pré-existente na alma, desviada das coisas que se alteram até ser capaz de suportar a contemplação do Ser. E as outras qualidades da alma que bem poderiam aproximar do corpo, se não fossem pré-existentes nele poderiam ser criadas pela prática e pelo hábito. Apenas a faculdade de pensar teria, ‘ao que lhe parece’, um ato mais divino: nunca perde a força. Dependendo do uso que lhe derem poderia ser tanto vantajosa e útil, como inútil e prejudicial.
‘Ou ainda não te apercebeste como a deplorável alma dos perversos, mas que na verdade são espertos, tem um olhar penetrante e distingue claramente os objetos para os quais se volta, uma vez que não tem uma vista fraca, mas é forçado a estar a serviço do mal, de maneira que, quanto mais aguda for sua visão, maior é o mal que pratica?’ Gláucon responde: ‘Absolutamente’. E o diálogo termina neste ponto.

 

 

Abordagem Teológica

 

1- A busca do conhecimento

        Farei uma abordagem paralela ao ‘Mito’ correlacionando a escravidão da caverna à escravidão espiritual, de fundo bíblico, iniciando pela visão geral do conhecimento que é o pano de fundo do diálogo.   O conhecimento sempre foi, até por força da necessidade, algo muito buscado e ansiado desde os primórdios dos tempos. Não só pelo seu caráter social e intelectual, mas como fonte de uma melhor qualidade de vida e para sobrevivência. Aprender faz parte do nosso desenvolvimento. Ensinar é dever de todo aquele que aprende.

         Percebe-se que através do ‘Mito’ Platão se preocupasse com essas questões. Para ele as trevas e o ambiente de cárcere da caverna representam simbolicamente o não saber, a ignorância a respeito da ‘luz’ do conhecimento, e a impossibilidade dos seus habitantes de alcança-la por eles mesmos. Platão buscava libertar aqueles habitantes da caverna imaginária através do saber, alcançando a ‘idéia de Bem’, pois compreendia que ‘ela era para todos a causa de tudo que é justo e belo’, entendendo que ela criara a luz, da qual era senhora, e senhora da verdade e da inteligência, sendo necessário vê-la para ser sensato na vida particular.

         Vê-se que Platão visualizava levar esse conhecimento adiante e para a prática, buscando melhores condições de vida ao seu redor. Mas esse conhecimento parece muito aquém daquele outro tipo do conhecimento ao qual desejo abordar. Aquele mais elevado: o conhecimento do Deus verdadeiro e da Sua verdade, em quem a verdadeira justiça e o que é realmente belo residem. O criador de todas as coisas, e que diz: ‘Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas’ (Isaías 45.7). Que cria desde o homem que ‘cria’ idéias, que sendo ele próprio a justiça, exerce Seu padrão do que é justo. Conhecimento não apenas de uma idéia e de um deus vago e desconhecido, de quem Platão parece buscar confirmar sua tese: ‘O Deus sabe se ela é verdadeira’, disse ao aluno, em relação à sua idéia de bem.

        Abordo a respeito da luz que liberta espiritualmente. Pois, se é fato que ele entendia que aquele conhecimento era a causa das coisas justas e belas, devendo ser aplicadas na vida particular, é também verdade que, com razão, já se havia dito, sete séculos antes de Cristo que “um povo sem entendimento corre para sua perdição” e que “o meu povo está sendo destruído porque lhe falta o conhecimento” (Oséias 4.6a, 14c. em 750-722 a C). É igualmente verdadeiro que devemos ‘conhecer’, pois “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João 8.32). Precisamos sim sair da caverna das trevas, ter nossos membros e pescoços desatados. Mas, é antes mais necessário, termos nossa alma desatada, sermos verdadeiramente livres.

        No esforço, então, de se instruir um povo para seu livramento, muitos séculos antes do ‘Mito’ ter sido escrito, o Livro de Provérbios das Sagradas Escrituras (970-700 a.C) foi escrito com essa intenção. Admoesta já na sua introdução para ‘se conhecer a sabedoria e a instrução, para se entenderem as palavras da prudência, para se receber a instrução do entendimento, a justiça, o juízo e a equidade; para dar aos simples prudência, e aos jovens conhecimento e bom siso; para o sábio ouvir e crescer em sabedoria, e o instruído adquirir sábios conselhos’ (Pv. 1.1-5). A ‘inclinar o ouvido’ e ouvir as palavras ‘dos sábios’ e a ‘aplicar o coração’ ao seu conhecimento (Pv. 22.17), e a ‘aplicar o coração ao ensino e os ouvidos às palavras do conhecimento’. Para se ensinar a criança no caminho em que deve andar, pois, ainda quando for velha não se afastará dele (Pv. 22.6).

         Pois, assim, se ‘andará pelo caminho dos homens de bem, e se guardará a vereda dos justos’, porque os ‘retos habitarão a terra e os íntegros permanecerão nela’ (Pv 2.20,21). Então, como conseqüência da apreensão desse saber, é ‘feliz o homem que acha sabedoria e o homem que adquire conhecimento’: melhor seu lucro que o da prata; sua renda é melhor do que a do ouro; mais preciosa do que pérolas e nada do que se possa desejar pode ser comparada a sabedoria; ela alonga a vida e dá riquezas e honra a quem a possui; seus caminhos são deliciosos e suas veredas de paz; ela é como árvore da vida para quem a possui: felizes aqueles que a retêm (cf. Pv 3.13-19; 8.10,11).

         Esses são, apenas, alguns exemplos de passagens bíblicas relacionadas ao conhecimento da sabedoria. Mas de qual sabedoria estamos falando? A sabedoria representada na caverna por Platão liberta, de fato, o ser humano? Falamos da sabedoria como conhecimento de Deus. A que tem como princípio ‘o temor do Senhor’ (Pv.1.7), a do obedecer a Deus, ‘confiar no Senhor de todo o coração’ sem se ‘estribar’ nos ‘próprios entendimentos’ (Pv. 3.5). Daquela que se auto-proclama como ‘verdadeira sabedoria’: ‘Meu é o conselho e a verdadeira sabedoria; eu sou o entendimento; minha é a fortaleza. Por mim reinam os reis e os príncipes decretam justiça. Por mim governam príncipes e nobres; sim, todos os juízes da terra’. Que diz de si mesma: ‘Desde a eternidade fui estabelecida, desde o princípio, desde o começo da terra’; e que ‘antes de haver abismos, eu nasci, e antes ainda de haver fontes carregadas de águas’. (Pv 8.23-25).

         Antes de mencionar a quem se refere a sabedoria, é necessário estabelecer que a Bíblia não ilude o ser humano com coisas fictícias, ou etéreas, visto que ela é escrita com o propósito de liberdade: ela testifica que esse conhecimento de Deus é achado quando se aceita as suas palavras como verdadeiras, mantendo-as ‘escondidas no coração’, e fazendo-se atento o ouvido à sabedoria, clamando por inteligência e por entendimento, buscando a sabedoria como se busca prata e a tesouros escondidos. ‘Então, entenderás o temor do Senhor e acharás o conhecimento de Deus’, conclui (cf. Pv. 2.1-5).

         No entanto, nem esses sábios nem outros de todos os tempos têm motivos para se gloriarem, como está escrito: “Assim diz o Senhor: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem o forte na sua força, nem o rico na sua riqueza; mas o que se gloria, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o Senhor e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque dessas coisas me agrado” (Isaías 64.4). Para o apóstolo Paulo, ‘aquele que se gloria, glorie-se no Senhor’ (1 Co 1.31) porque ‘aquele se tornou de Cristo’, ‘o qual se nos tornou da parte de Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção’ (1 Co 1.30).

         Então, dessa perspectiva, bíblica, sem o conhecimento dessa verdade de Deus é que um povo corre para sua perdição e destruição. Não importa que não seja mais escravo como eram os habitantes da caverna do ‘Mito’, que sejam ‘livres’ da ignorância e sábios para com o mundo. Ou nem importa que tais homens falem ‘as línguas dos homens e dos anjos’ ou que conheçam ‘todos os mistérios e toda a ciência’... Esse povo continua na escravidão e nas trevas. Se não conhecerem essa verdade ‘nada disso se aproveitará’, ‘nada serão’, usando uma linguagem paulina (cf 1 Co 13.1-3). É necessário que se ‘tenha toda a riqueza da forte convicção do entendimento, para compreenderem plenamente o mistério de Deus, Cristo, em quem todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão escondidos’! (Colossenses 2.2,3).

        Ora, não é verdade que o pensamento humano passa? Que não se sustenta por si mesmo? Que os sofismas se desvanecem, do mesmo modo, os sofistas? ‘Pois toda carne é como a erva, e toda a sua glória, como a flor da erva; seca-se a erva, e cai sua flor; a palavra do Senhor, porém, permanece eternamente’ (1 Pedro 2.24,5). São como estar na caverna a vida inteira vendo por imagens coisas que nem reais são, e que com o tempo, se desfazem. Triste sina: passar a vida toda preso numa caverna escravizado, e morrer como escravo, sem liberdade da alma, porque lhe faltou ‘o entendimento’. Não importa o conhecimento do mundo ou a riqueza acumulada. Esses são valores passageiros e terrestres. O apóstolo Paulo entendeu que esse era o saber que importava e lutava ‘para destruir fortalezas, anulando sofismas e toda altivez que se levantasse contra o conhecimento de Deus’, levando cativo todo o pensamento à obediência de Cristo’. (2 Cor 10. 4,5). Considerava as aquisições de antes de ter o verdadeiro conhecimento ‘tudo como perda’. Ele que tinha importante posição social e intelectual, e que gozava de status político e se destacava como um dos principais ‘religiosos’ na sua nação; era poliglota, e privilegiado com três nacionalidades. ‘Sim’, diz ele, ‘considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para conseguir a Cristo’, testifica. (Filipenses, 3.8).

         Apelava para que aqueles que conheceram essa sabedoria e o conhecimento de Deus, pela fé em Cristo, tivessem ‘cuidado para que ninguém’ os viesse ‘a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo; porquanto, nele, habita corporalmente, toda a plenitude da divindade’, afirmou na sua carta aos Colossenses (Cl 2.8,9).

         Discursando Paulo no areópago em Atenas (cerca de 50 dC) para uma platéia de filósofos epicureus e estóicos que se encontravam entre os atenienses e os estrangeiros residentes que, como está escrito, estes ‘de outra coisa não cuidavam senão de dizer ou ouvir as últimas novidades’. Eles não conseguiram entender a sabedoria que ele ali ensinava. Uns zombaram e outros disseram: ‘a respeito disso te ouviremos noutra ocasião’ (cf Atos dos Apóstolos, 17. 18-33).

         Finalmente, os esforços para a sabedoria fora de Cristo são, como se diz biblicamente, um ‘correr atrás do vento’. O conhecimento puro e simples fora dessa perspectiva leva a ‘enfado’ e ‘canseira’; ‘e quem aumenta ciência aumenta tristeza’ (cf Ecl 1.14,18). O sábio autor de Provérbios (Pv) e Eclesiastes (Ecl), o rei Salomão (Século X a C) demonstra o conhecimento científico nessas condições citadas acima, ser ‘sem proveito nenhum’ (Ecl. 1.3). Diz ele: ‘Eu, o pregador, fui rei sobre Israel em Jerusalém. E apliquei o meu coração a esquadrinhar, e a informar-me com sabedoria de tudo quanto sucede debaixo do céu; esta enfadonha ocupação deu Deus aos filhos dos homens, para nela os exercitar. Atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol, e eis que tudo era vaidade e aflição de espírito (ou ‘correr atrás do vento’). Tendo ele adquirido tudo o que queria relata: ‘Falei eu com o meu coração, dizendo: Eis que eu me engrandeci, e sobrepujei em sabedoria a todos os que houve antes de mim em Jerusalém; e o meu coração contemplou abundantemente a sabedoria e o conhecimento. E apliquei o meu coração a conhecer a sabedoria e a conhecer os desvarios e as loucuras, e vim a saber que também isto era aflição de espírito. Porque na muita sabedoria há muito enfado; e o que aumenta em conhecimento, aumenta em dor.  (Ecl 1.12-18).

        Como um desiludido ele vai expondo que quanto mais fazia ou adquiria, tanto materialmente quanto em sabedoria, mais se ‘aborrecia’, pois tudo era ‘vaidade, vaidade das vaidades’ inclusive a sabedoria assim concebida:

‘Disse eu no meu coração: Ora vem, eu te provarei com alegria; portanto goza o prazer; mas eis que também isso era vaidade. Ao riso disse: Está doido; e da alegria: De que serve esta? Busquei no meu coração como estimular com vinho a minha carne (regendo, porém, o meu coração com sabedoria), e entregar-me à loucura, até ver o que seria melhor que os filhos dos homens fizessem debaixo do céu durante o número dos dias de sua vida’. Então, ele se engrandece sobremaneira e não priva seus olhos nem o coração de nada. Tendo feito grandes obras de engenharia, comprado e adquirido bens, plantações, vinhas, jardins, escravos, escravas, ‘mulheres e mulheres’, considera tudo como de ‘nenhum proveito debaixo do sol’ (cf 2.4-11). Parte, então, para outra consideração: a sabedoria, a loucura, e a estultícia. E se questiona o que se faria com o homem que o seguisse. ‘o mesmo que outros já fizeram’.

        E agora, o sábio usa seis séculos antes o conceito que vemos Platão usar no ‘Mito’: luz e trevas, e define a primeira como superior à segunda. Mas a que levam tais conhecimentos se estes estiverem ‘fora de Cristo’ a quem definiu como a verdadeira sabedoria? Ou se estes não nos levam a Ele? ‘Pois, separado deste quem pode comer ou alegrar-se?’, perscruta o rei. ‘Então vi eu que a sabedoria é mais excelente do que a estultícia, quanto a luz é mais excelente do que as trevas. Os olhos do homem sábio estão na sua cabeça, mas o louco anda em trevas; então também entendi eu que o mesmo lhes sucede a ambos. Assim eu disse no meu coração: Como acontece ao tolo, assim me sucederá a mim; por que então busquei eu mais a sabedoria? Então disse no meu coração que também isto era vaidade. Porque nunca haverá mais lembrança do sábio do que do tolo; porquanto de tudo, nos dias futuros, total esquecimento haverá. E como morre o sábio, assim morre o tolo’. (Ecl 2.13-16; 2.25). Como se afirma ‘eis que diante de Deus sou como tu és; também eu sou formado do barro’ (Jó, 33.6). ‘Nem estima ao rico mais do que ao pobre, porque ‘não faz acepção das pessoas de príncipes, porque são todos obras de suas mãos’ (Jó, 34.19). Sim, nem por sermos velhos e termos aprendido de toda a ciência, fora dessa sabedoria, nada seremos. ‘Dizia eu: falem os dias e a multidão dos anos ensine a sabedoria. Na verdade, há um espírito no homem, e o sopro do Todo-Poderoso o faz sábio. Os de mais idade não é que são os sábios, nem os velhos, os que entendem o que é reto.’ (Jó 32.7-9).

         De modo que, necessariamente, temos que a liberdade das trevas para a luz, esperada pelo conhecimento e pela aquisição da sabedoria, passa por Cristo, e só será plena e abundante, nele. Pois Ele é quem disse ser ‘o caminho, a verdade, e a vida’ (João 14.6). Ele testifica de si ser a própria sabedoria. É preciso evitar que se ocorra conosco a realidade da escuridão dos mundos das trevas, para que não digamos: ‘não aprendi a sabedoria, nem tenho o conhecimento do Santo’ (Pv. 30.3).

         Assim, Paulo apóstolo, num hino de intensa expressão de júbilo, declara: ‘ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos. Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente.’ (Romanos 11.33-36). 

2 – A caverna da escravidão espiritual 

        Voltemos às colocações usadas por Platão.  Ele fala ‘numa habitação subterrânea’, no ‘mundo das trevas’, de pessoas ‘acorrentadas desde sua infância’ ‘algemadas de pernas e pescoços’, ‘incapazes de voltar suas cabeças’. Olham para frente, mas só encontram escuridão. São incapazes por si mesmas de enxergar a abertura que corre ao longo da caverna que leva para fora da gruta, à luz.

        Minha intenção agora é mostrar como o ensino bíblico trata com clareza essa realidade aplicada à nossa realidade espiritual. A escravidão causada pelo pecado. As trevas como sinônimo de falta do conhecimento de Deus, como já vimos, e, conseqüentemente, escravidão. A luz, mas, a da visão da glória de Deus em Cristo, ‘a luz do mundo’ que para ‘quem a segue não andará em trevas, pelo contrário, terá a luz da vida’ (João 8.12).

        No ‘Mito’, havia a impossibilidade de algum escravo ir espontaneamente à luz, ou de si mesmo enxergar essa luz, a despeito de existir uma saída para ela. O mesmo ocorre na nossa vida espiritual, e a Bíblia testifica essa realidade nas palavras de Jesus: ‘não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros’; ‘ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer’ (João 15.16, 6.44). Como naquela caverna há dores causadas tanto pelo esforço do conhecer, como pelo entendimento da situação da escravidão e da realidade de ser ter passado a vida toda enxergando através de sombras, quando se colocado diante de um padrão totalmente diferente do que se cria ser verdade, mas que não passava de sombras.

         Mas, ‘Porque, pois, veio a ser presa? Acaso, tudo isto não te sucedeu por haveres deixado o Senhor, teu Deus, quando te guiava pelo caminho? A tua malícia te castigará, e as tuas infidelidades te repreenderão; sabe, pois, e vê que mau e quão amargo é deixares o Senhor, teu Deus, e não teres temor de mim, diz o Senhor, o Senhor dos Exércitos’ (Jeremias 2.14,17,19). ‘Cingi-vos, pois, de cilício, lamentai e uivai; porque a ira ardente do Senhor não se desviou de nós. ‘Ah, meu coração! Meu coração! Eu me contorço em dores. Oh! As paredes do meu coração! Meu coração se agita! Não posso calar-me, porque ouves, ó minha alma, o som da trombeta, o alarido de guerra’ (Jeremias 4.8,19).

        Por outro lado, a mesma Bíblia mostra a alegria diante da nova realidade, causada pela consciência e o despertar da escravidão, a passagem para a liberdade: estar na luz é, então, ter vida, e vida eterna, dada por aquele que ‘convence o mundo da realidade do pecado, da justiça e do juízo’ (João 16.8). Esta é a luz que veio para libertar (Gálatas 5.1), de modo que se ‘ela’ nos libertar, realmente seremos livres (João 8.36).

        Mas, porque escravidão do pecado? Porque a ‘caverna’, espiritualmente não é um ‘mito’? Ora, por que embora Deus nos tenha criado para termos um relacionamento eterno com Ele, nos criou para a Sua glória. Deu-nos liberdade, permitindo que escolhêssemos pensar, agir, dominar e tomar conta das coisas por Ele criadas. Mas, deu ao primeiro casal, instruções para fazer as coisas ‘boas’, ou seja, de acordo com o padrão dele, Deus, para que vivessem bem, e prosperassem naquele lugar chamado Paraíso. Visava, assim, não só o bem deste casal criado, mas de sua descendência, e, por conseguinte, de toda a humanidade. Ali Deus se comunicava pessoalmente com eles. Porém, o homem usando dessa liberdade desobedeceu as primeiras ordens, glorificando a si e a quem o instigara a transgredi-las. Assim transgredindo, pecou. Foi a sua ‘Queda’. Usou da sua vontade de escolher, e preferiu fazer o que não era bom, o contrário da vontade de Deus.‘Oh! Que geração!...Porventura (...) tenho sido eu uma terra da mais espessa escuridão? Por que, pois, diz o meu povo: Somos livres! Jamais tornaremos a ti?’ (cf Jeremias 2.31). Noutras palavras, esquecendo-se que tinha vindo do pó da terra, encheu-se de certa auto-suficiência e decidiu por si. Agindo assim o casal se deu o direito de ouvir ‘outro’ conselheiro, não só a ‘serpente’, mas a si próprio. Nessa desobediência o primeiro casal preferiu sua própria glória à glória de Deus; e assim temos feito todos nós.

        Com este casal, cai a humanidade; caímos todos. Nós todos pecamos. Herdamos a herança do pecado, e assim, como algo enraizado em nós, continuamos a pecar. Dessa maneira veio a separação da criatura do Seu Criador, e da humanidade, por extensão.  O pecado significa separação, e com ele, entrou a morte na terra. Um abismo passa a separar-nos dele. Se antes da queda, Deus descia para visitar o casal inicial, após a queda houve a separação. A santidade de Deus impõe Seu afastamento para que o Homem não fosse excluído da sua presença, pois este deixara de ser santo, reservado, exclusivo, dependente do Criador. A Justiça de Deus executaria o que sua ordem lhes dissera como condição inicial –que se comessem do fruto do conhecimento do bem e do mal, ‘certamente morreriam’ (Cf Gn 2.17), retribuindo a eles conforme a obra que fizeram.

        Todavia, na sua misericórdia, Deus os expulsa do Paraíso. Os expulsa para que não tomassem da árvore da vida, e vivessem eternamente em pecado (cf Gn 2.24). Dessa maneira não haveria salvação. Então, providencia um ‘plano de salvação’ para essa humanidade ali representada: o Messias, aquele que será como uma ponte, um canal, aquele que ‘feriria a cabeça da serpente, e que teria ferido o próprio calcanhar’ (cf Gn 3. 15). Ele religará, nele, os seus, consigo (João 1.11-12; 3.14-15,16-18), tirando a humanidade da realidade das trevas e da escravidão.

        O Homem não enxergou as conseqüências de que se tornaria escravo de quem, usando o seu próprio desejo, o estimulara a desobedecer. Suas algemas e correntes são invisíveis, mas mantém igualmente sua cabeça e seus olhos nas trevas, assim como todo o corpo sob prisão, como os habitantes da caverna do ‘Mito’. Mais do que isso: todas as suas faculdades agora estão caídas. Seu pensamento não é mais puro, seus sentimentos se extraviaram: seu coração é ‘enganoso’ (Gn 6.5, Jr 17.9); suas obras de justiça ‘como trapo de imundície’ (Is 64.6), sua vida é espiritualmente morta (Ez 37. 9, Ef 2.1; Cl 1.13).  Seu corpo, sua mente, e espírito não são mais perfeitos. O Homem precisa, agora, daquele que seria perfeito para atender as exigências de Deus, obediente, sem vacilo, até a morte. Afastado de Deus, o Homem tornou-se submisso a um outro ‘senhor’: tornou-se escravo do eterno inimigo de Deus: ‘Pois aquele que é vencido fica escravo do vencedor’ por ter ‘se apartado do santo mandamento que lhe fora dado’. Este inimigo, prometendo-lhes liberdade, ele mesmo é escravo da corrupção. (cf 2ª Pedro 2.19,21).

         Ora, se afastados de Deus por um abismo ou por um ‘muro de separação’, como somos ‘reconciliados’ com o Criador? Como saímos das trevas para a luz? O que adianta estar fora da caverna sem esse entendimento e sem essa luz? Como meu pecado é reparado? Assim foi que na sua misericórdia, Deus providencia a luz no fim do túnel. ‘A verdadeira luz, que, vinda ao mundo, ilumina a todo homem’ (João 1.9). ‘Porque as trevas se vão dissipando, e a verdadeira luz já brilha’ (1 ª João 2.8). Essa luz é aquele a quem temos até aqui denominado de ‘a verdadeira sabedoria’, que é ‘a brilhante estrela da manhã’ (Ap 22.16) . Sim, Jesus, o Filho de Deus. Visto que ‘está escrito: não há justo, nem um sequer’ pois ‘todos pecaram e carecem da glória de Deus’, uma vez que ‘todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer’ (Romanos 3.10-12, 23) ‘somos justificados gratuitamente, por sua graça’ (isto é, favor) mediante a redenção que há em Cristo Jesus’. Assim, pois, é que ‘ele é nossa paz’: ‘agora, em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, fostes aproximados pelo sangue de Cristo, tendo derribado a parede da separação que estava no meio, a inimizade’. (Efésios 2.13-14). ‘Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo; por intermédio de quem obtivemos igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes; e gloriamo-nos na esperança da glória de Deus’ (Romanos 5.1).

        Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram. Porque até à lei estava o pecado no mundo, mas o pecado não é imputado, não havendo lei. No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir. Mas não é assim o dom gratuito como a ofensa. Porque, se pela ofensa de um morreram muitos, muito mais a graça de Deus, e o dom pela graça, que é de um só homem, Jesus Cristo, abundou sobre muitos. E não foi assim o dom como a ofensa, por um só que pecou. Porque o juízo veio de uma só ofensa, na verdade, para condenação, mas o dom gratuito veio de muitas ofensas para justificação. Porque, se pela ofensa de um só, a morte reinou por esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo. Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida. Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um, muitos serão feitos justos. Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse; mas, onde o pecado abundou, superabundou a graça; Para que, assim como o pecado reinou na morte, também a graça reinasse pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo nosso Senhor.(Romanos 5.12-21).

        Enquanto na caverna não temos noção nem idéia de que aquela vida era uma vida de ‘sombras’. Que era necessário nos levarem a subir o íngreme caminho para se chegar à luz, e enxergar a realidade. Biblicamente esse ‘íngreme caminho’ chama-se ‘humilhação’: confessar, admitir erros, é bastante doloroso, fere nosso orgulho, é humilhante. Como já mencionei, é o Espírito de Deus -o Espírito Santo- quem nos convence da nossa pecaminosidade (João 16.8-9), da escravidão da nossa alma, e nos prostra diante do Senhor! É ele quem nos dá discernimento da necessidade urgente de termos as algemas e cadeias partidas e corrermos para a verdadeira luz. Como apenas em Jesus Cristo temos acesso a Deus (Hb 4.14-16), confessamos o tempo da escuridão, pois ‘se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar de todos os nossos pecados’ e ainda ‘nos purificar de toda a injustiça’ cometida (1ª João 1.9). ‘E esta é a nossa confiança que temos para com ele: que, se pedirmos alguma coisa segundo a sua vontade, ele nos ouve. E estamos certos de que obtemos os pedidos que lhe temos feito’ (1ª João 5.14,15).

Assim, saímos da caverna, das trevas, das algemas e das correntes que nos atrelavam ao pecado e nos mantinha encarcerados, afastados de Deus, vendo-o como sombra, como por imagens através do véu, que Jesus rasgou na cruz. (cf Marcos 15.38; 2 Coríntios 3.15-16). De modo que, agora em Cristo, somos novas criaturas (2 Coríntios 5.17), livres das trevas e das algemas, e adquirimos a sabedoria que importa para a vida eterna, pois, ‘que aproveita ao homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?’ (Marcos 8.36).

Referências Bibliográficas
 

Platão, “A República”. Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.

 

Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999. 2ª Ed. Tradução de João Ferreira de Almeida, Revista e Atualizada no Brasil.

 

Bíblia World Net: http://www1.uol.com.br/bibliaworld/biblia/index.htm
 


(*) Dra. Angélica Maria Lima Mansano Garcia

Médica Especializada em Pediatria, Pós Graduada em Bíblia e Mestranda em Teologia & História pelo Centro de Pós Graduação Andrew Jumper, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, SP. Aluna do 1º termo de Psicologia das Faculdades Unidas de Dracena, UNIFADRA. 
 

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