ANGÉLICA MARIA LIMA MANSANO GARCIA

Assuntos Médicos


DIARRÉIAS AGUDAS


DIARRÉIAS AGUDAS 

As diarréias agudas podem ser causadas tanto por vírus como por bactérias.  

Geralmente têm uma duração de 7 a 10 dias, sendo auto-limitadas, podendo levar á desidratação quando há perda intensa de líquidos, quer pelo vômito quer pelo aumento do trânsito intestinal.
Os cuidados de higiene e da boa alimentação desde o nascimento são fatores que colaboram na sua prevenção, como a amamentação ao seio materno e a não introdução precoce de outros leites e carboidratos na dieta do lactente, aguardando o tempo correto para que os alimentos sólidos, cereais e os farináceos sejam então introduzidos. 

Como a necessidade de trabalho entre mães aumentou consideravelmente nas últimas décadas, muitas crianças são deixadas em creches ou levadas às escolinhas ou parquinhos, onde aumenta o risco de contaminação pelo contato com outras crianças acometidas, além do desmame precoce. 

Como abordar a diarréia aguda é questão que desejo descrever nesse pequeno artigo, mais prático que teórico. 

CLÍNICA & MANUSEIO 

Sendo auto-resolutivas as diarréias vão passar, acalmem-se!

A invasão do trato gastrintestinal pelo agente agressor causará resposta do organismo para ‘varrê-lo’ do mesmo, e isto gera a diarréia e/ou o vômito, e às vezes febre. De modo que, entendendo-se desse ponto de vista, esses sinais são “benignos” e não se deve fazer medicação com o intuito de “cortá-los”. Amparamos a hidratação do paciente e cuidamos da sua dieta, e quando necessário damos medicação que se fizer indicada. 

DIARRÉIAS VIRAIS 

Embora a diarréia possa ser causada por qualquer vírus, um dos agentes mais conhecidos pelas mães por causa da sua alta prevalência entre nós é a diarréia viral causada pelos rothavírus.
Esta costuma ocorrer mais nos meses de outono e inverno, tendo uma repercussão clínica variável, desde quadros mais leves a quadros mais graves que necessitam de internação para reposição de águas e eletrólitos perdidos. 

As diarréias causadas pelos rothavírus geralmente começam com quadro de febre baixa a moderada [37 -38 – 38,5 graus] com a criança apresentando-se indisposta e geralmente queixando-se de dor leve na barriga. Após breve período em torno de um dia, segue-se o vômito e depois, a diarréia. O quadro todo se instala num período de umas 24 a 72 horas. Assim, estes primeiros sinais e sintomas duram em média de 1 a 3 dias, e irão desaparecendo na mesma ordem na qual apareceram, ou seja, primeiro a febre se vai, depois o vômito, e só mais tarde a diarréia, isso de uns 7 a 10 dias após o início do quadro. 

Crianças amamentadas ao seio terão menos dificuldades em enfrentar a doença e basta que a mãe ampare os sintomas, como a febre ou mesmo a ‘dorzinha’ na barriga, nos casos mais leves.
Geralmente crianças amamentadas com outros leites terão suas fórmulas alteradas pelo pediatra quando se fizer necessário, e orientadas com alimentos mais leves, quando já estiverem comendo. Os alimentos não devem demandar muito esforço do intestino lesado, por isso ser usado alimentos como o arroz, o chuchu, a batata, o peito de frango e as gelatinas, e as frutas, sendo as mais usadas as bananas, maças e pêras. Refrigerantes devem ser evitados.
 

O exame laboratorial poderá ser feito para se ter uma idéia do agente causador da doença. Não é obrigatório. Pois seja qual for o vírus causador da doença, não existem medicamentos específicos para que o (ou os) agente(s) seja(m) eliminado(s); além do que muitos casos costumam ser benignos e de curta duração. Os casos mais graves, com conseqüente desidratação, muitas vezes requerem hospitalização e reposição hidro-eletrolítica adequada, isto é, repor os sais e a água perdidos no curso da doença. É bom lembrar que nem todo laboratório está equipado ou preparado para diagnosticar vírus nas fezes, sendo que o método mais difundido entre nós é o do diagnóstico deste vírus em questão. 

A história clínica é mais importante que o exame de laboratório. Até porque, quando o exame ficar pronto, a criança poderá até ter sarado!

Sendo ou não, o rothavírus, o agente causal, a orientação terapêutica será a mesma: dieta e hidratação, sendo a alimentação leve, como falado, à base de canjas, gelatinas, e muito líquido -água, chá, água de arroz - ou com soros reidratantes caseiros ou comerciais, sendo esses dados apenas quando houver real necessidade.  

Somente em casos mais graves é que a criança será internada para reidratação endovenosa. No geral, felizmente, os quadros embora durem o tempo citado, podem ser leves, não comprometendo tanto o paciente, que recupera peso e atividades após o termino da doença. 

Energéticos hidratam?

Oportunamente, vale a pena mencionar o uso que se tornou costumeiro e popular entre as mães, que é o de se tentar hidratar crianças diarréicas com um certo produto comercial do tipo energético desenvolvido para atletas em competição.

Produtos como estes visam dar energia aos músculos dos referidos atletas, uma vez que são ricos em açucares, em geral glicose e sacarose, porém são pobres em eletrólitos (sódio e potássio, que se perdem muito nas diarréias e vômitos), mas, como os atletas não têm perdas elevadas desses eletrólitos no suor, tais energéticos não servem para repor tais perdas em quadros diarréicos. 

Muitas mães orientadas pelo consumismo (pois tais produtos passaram a abundar nas geladeiras de exposição de refrigerantes em qualquer padaria do bairro) e muitas vezes orientadas até por muitos profissionais de saúde, passam a dar esse tipo de produto, agradável às crianças pela aparência, por serem adocicados e coloridos como os refrescos, levam, porém, à piora do quadro por causa do alto teor de açúcares que lesa ainda mais a mucosa intestinal, piorando e prolongando o quadro diarréico e de desidratação, alem de não repor as perdas dos sais perdidos, repito. 

Portanto, não devem ser usados, nem como reidratantes nem como ‘refrescos’: lembrem-se de que são próprios para atletas em competição! 

Vacinas estão sendo desenvolvidas contra o rothavírus por causa de sua alta prevalência no meio pediátrico, pelo grande transtorno e despesas que causa, pois muitas crianças são de creches e muitas mães perdem dias de trabalho por causa da doença que pode acometer não só um, mas outros filhos, além de comprometer até instituições inteiras, como escolinhas e parquinhos, além dos transtornos de hospitalização. Porém, elas ainda não se encontram à disposição para comercialização. 

DIARRÉIAS BACTERIANAS 

Muitas bactérias podem causar diarréias, mas tais infecções são também de duração auto-limitada. 

O quadro é, geralmente, mais exuberante que nos casos das diarréias virais. A criança apresenta-se mais abatida, com mais dor abdominal, febre mais alta, evolução mais rápida para a desidratação, e em alguns casos pode até apresentar sangue e/ou pus nas fezes.

Geralmente as crianças são de mais baixo nível socioeconômico, com algum grau de desnutrição ou de distrofia farinácea – que é aquela condição de criança gordinha por tomar mamadeira engrossada com farináceos desde pequena. O desmame ao peito também é fator importante.
Assim como a diarréia viral, a bacteriana pode se instalar em crianças de creches e de instituições, e mais ainda nas hospitalizadas, pelo contágio e convívio com outras crianças doentes.

Pode causar também prejuízo financeiro, além de internações e complicações mais graves, mais visíveis ou esperadas quanto mais precoce for a idade da criança acometida. 

Salvo nos casos de apresentação sanguinolenta e de grave comprometimento do estado geral e de crianças de baixa idade é que se lançará mão de internação e de antibióticos, mas isto não é regra geral.  

A preservação clínica do estado geral através da dieta e da hidratação oral da criança continua valendo, sendo este o tratamento de eleição. É a chamada Terapia de Reidratação Oral, a TRO.

Muitos lançam mão dos lactobacilos como coadjuvantes no tratamento. Não há problemas quanto a isso. A verdade é que a diarréia cessará à medida que as bactérias forem sendo ‘expulsas’ do organismo. 

De um modo geral, os anti-bacterianos (antibióticos geralmente) são ainda usados com muito abuso nos quadros de diarréias, mesmo quando a clínica sugere ser de origem viral, e em casos benignos, o que tem grande repercussão não só sobre a flora bacteriana normal da criança acometida, como no meio no qual vivemos, pois induzimos assim, as práticas indesejáveis de falsa segurança (da mãe e familiares) no controle de uma doença que por si só se resolveria – pelo caráter auto-limitado da mesma como falado-, como pode induzir à resistência bacteriana de outros microrganismos que habitam em paz, digamos assim, no organismo do paciente, e serão lançados no meio ambiente, mais resistentes aos antimicrobianos usados. Outra razão é o fator econômico e educativo: gasto com medicação desnecessária. 

Isto – o uso indevido de antimicrobianos - tem levado à corrida da indústria farmacêutica à pesquisa e desenvolvimento de anti-microbianos cada vez mais poderosos, e, assim, cada vez mais caros. 

O mesmo ocorre, diga-se de passagem, com aqueles quadros virais respiratórios altos, onde todos ficam angustiados para “resolver” aquela “gripinha chata” que dura a passar. Os critérios para introdução de medicamentos devem ser mais sérios que a simples angústia de se ter ou querer resolver um quadro de ‘imediato’. 

Portanto, ter paciência é um fator coadjuvante de importância nos casos de diarréia, tanto de origem viral quanto na de origem bacteriana. 

O exame laboratorial no caso, segue as mesmas premissas da diarréia viral. Ou seja, mesmo identificando-se a bactéria, não há necessidade de uso de anti-bacterianos, não só pelo seu caráter auto-limitado, mas mais pelo fato da diarréia ser o meio que o organismo usa de se livrar do invasor, salvo as situações já mencionadas.

Do mesmo modo que nos casos virais, ao chegar o resultado do laboratório, a criança já poderá estar na fase de declínio e de cura.

Exceções existem e nos quadros de diarréia (virais ou bacterianas) em recém-nascidos e bebês de baixa idade ou crianças desnutridas, com doenças graves ou com outros problemas associados, poderão necessitar de internação, e muitos outros exames laboratoriais poderão ser importantes no direcionamento da terapêutica.

Dra. Angélica Maria Lima Mansano Garcia 

Dracena, SP.
7 de fevereiro de 2005.

[Atualizado em 01/06/05]

[HOME]

Hosted by www.Geocities.ws

1