ANGÉLICA MARIA LIMA MANSANO GARCIA

Assuntos Médicos


PREVENÇÃO DO CÂNCER GINECOLÓGICO
 


PREVENÇÃO DO CÂNCER GINECOLÓGICO

Palestra proferida em Adamantina, SP, pelo Dr. Wilson Maranho, Hospital do Câncer Amaral Carvalho de Jaú, SP para as Mulheres da AVAPAC – Associação das Voluntárias Para o Tratamento de Pacientes de Câncer.

A necessidade de realização do exame preventivo de câncer ginecológico anual pelas mulheres deve ser encarado por todas as pessoas, a fim de ser levado a sério por todas as mulheres, pois nos dias atuais, “só se morre de câncer ginecológico a mulher que quiser”.

Pois importa que a doença seja descoberta em sua fase inicial para que possamos erradicá-lo tão logo diagnosticado, e o meio oferecido para tal é a colheita do material através do exame preventivo, o “Papanicolao”.

Para que este seja bem sucedido há de se ter a cooperação da própria paciente, pois muitas pessoas já idosas, se constrangem à sua colheita, e não se pondo à vontade na mesa de exame, prejudicam sua colheita. Por sua vez, a pessoa que o está colhendo deve ser paciente e honesta o suficiente para que tenha consciência de ter realmente colhido material das regiões indicadas, e não só de parede vaginal, muitas vezes por falta de perfeita visualização do colo uterino.

No Brasil, 7% das mulheres realizam tal exame, em comparação com a Itália onde apenas 4% das mulheres se submetem ao preventivo. Apesar disso, ainda temos no nosso país um índice alto de mulheres que chegam pela primeira vez, com diagnóstico de câncer invasivo, mostrando a dificuldade ou descaso com a própria saúde. Essa é a realidade vivida nos nossos serviços, que mesmo tendo passados 20 anos onde esta era a realidade, ainda hoje encaramos tais desafios semanalmente.

Prevenção é o melhor tratamento, é o mais barato.
Porque não é feito de rotina? Quais as causas da sua não realização? O que fazer contra tal realidade?

Provavelmente conscientizar e educar a população.

As armas terapêuticas incluem, no pós diagnóstico, cirurgia, radioterapia, quimioterapia, hormonioterapia. Deve-se lembrar que quimioterapia não funciona para câncer de colo do útero.

Cânceres do aparelho ginecológico:

Câncer DO COLO DO ÚTERO
Câncer ENDOMÉTRIO
Câncer DE OVÁRIO
Câncer DE VAGINA
Câncer DE VULVA

O câncer do colo do útero é uma realidade visível aos olhos do examinador. Acostumado, o médico pode fazer diagnóstico pelo “cheiro” que exala da paciente até mesmo enquanto ela adentra a sala de consulta.

Para o Câncer de ovário não existe prevenção. É extremamente importante que se pense nele, pois é insidioso, fácil de ser esquecido pelo médico; descoberto apenas com Ultra-sonografia, daí sua importância anual.

FATORES DE RISCO DE CÂNCER GINECOLÓGICO EM GERAL

1.  Vida sexual precoce – na região NE brasileiro: alto índice de Câncer de colo, por maior prostituição e precocidade da vida sexual.
2.  Multiparidade
3.  Parceiros múltiplos
4.  Lesões de colo de repetição – facilidade de penetração do HPV.
5.  Uso de anticoncepcional
6.  Marido com várias parceiras – aumento de 4x o risco para a mulher:
7.  Pela maior exposição à infecção, principalmente HPV: alguns tipos de papiloma-vírus são mais agressivos, e outros ainda podem sofrer mutação.
8.  Prostitutas - risco de 4x mais, e se associados ao
9.  Tabagismo = risco aumentado de 4 a 7x de câncer de colo útero.
10. Coito anal
11. Esperma
12. HPV
13. Cancer de pênis
14. DST (Doença Sexualmente Transmissível)
15. Fatores ambientais
16. Stress
17. Idade: sem preferência: dos 20 aos 90 anos de idade. Em mulheres mais jovens existe associação com o HIV.
18. Raça – negras?
19. Região geográfica: Norte
20. Condições socioeconômicas: maior em classes sociais mais baixas.
21. Transmissibilidade: nenhuma, exceto quanto ao HPV.

SINAIS E SINTOMAS:

Primeiro sinal de alerta: Sangramento. Qualquer sangramento fora do menstrual deve ser investigado: pós-coito (mesmo que pequenos sangramentos após relação sexual), intermenstrual (corrimentos sanguinolentos), e qualquer sangramento vaginal mesmo que a mulher não tenha vida sexual ativa, mulheres idosas e viúvas.

Um outro sintoma importante: Corrimento, de cor avermelhado (“água de carne”), cheiro forte (“de peixe”). Além disso, a mulher pode apresentar ardor para urinar, prurido vaginal (coceira).

Pacientes com histerectomia subtotal (retirada cirúrgica do útero onde é preservado o colo) podem apresentar maior chance de câncer de colo talvez pela despreocupação com o exame de Papanicolao anual, até porque muitas não foram informadas que ainda lhes restam o colo do órgão que pensavam ter-lhes sido retirado. Daí a responsabilidade do médico em avisar sua paciente deste fato.

DIAGNÓSTICO:

Dado pelo exame clínico e pelo Papanicolao.

Estadiamento: Graus variam de I a IV.

Grau I – tratamento cirúrgico, sucesso em torno de 100% de cura.
Grau II e III– tratamento cirúrgico associado a Radioterapia. Altos índices de cura.
Grau IV – Mau prognóstico, evolução invariavelmente para óbito.

As formas iniciais são praticamente todas curáveis, os chamados “Ca in situ”.
As formas, porém, invasivas são de mau prognóstico, e demonstram a não realização do exame preventivo anual.

TRATAMENTO:

As CIRURGIAs podem ser de PEQUENO, MÉDIO e GRANDE portes.

A RADIOTERAPIA pode ser COMPLEMENTAR ou EXCLUSIVA.

As cirurgias podem ser de pequeno e médio porte, e realizadas ambulatorialmente; e ainda de grande porte, realizadas dentro do hospital.
As radioterapias têm o inconveniente de ter sérias complicações e conseqüências, e por isto, enfatiza-se a necessidade do diagnóstico precoce para que uma paciente não chegue a necessitar deste arsenal.

A Radioterapia pode ser complementar à cirurgia, ou exclusiva, quando não há mais possibilidade de cirurgia.
Como tanto conseqüências e recidivas às lesões trazem inúmeros aborrecimentos e implicam em grandes custos, uma vez mais deve-se frisar a importância da prevenção.

CÂNCER DO CORPO DO ÚTERO:

Geralmente mais comum em mulheres acima dos 50 anos, obesas, diabéticas, hipertensas, com menarca (primeira menstruação da vida) precoce (antes dos 12 anos) e menopausa tardia (isto provavelmente pelo maior teor de estrógeno na circulação dessas pacientes, demonstradas pela menarca precoce e menopausa tardia).

(O uso de estrógenos deve ser feito exclusivamente por indicação médica, e a mulher nunca deve comprá-los na farmácia por indicação de vizinhos ou familiares, nem mesmo pelo profissional da farmácia. Há quem pode tomar e as que não devem tomá-los.)

(Sangramento pós-menopausa: até prova em contrário é câncer de colo, portanto, deve ser investigado).

(Mioma – é uma lesão benigna, mas que deve ser seguida por Ultrassonografia, pois 4% dessas lesões podem se transformar em Sarcomas. São nutridos pelos estrógenos, assim, regridem com a menopausa).

RELAÇÃO MÉDICO-PACIENTE PORTADOR DE CÂNCER E O PAPEL DAS VOLUNTÁRIAS COM AS PACIENTES:

Apoio
Diagnóstico
Encaminhamento
Conduta

É importante lembrar que a paciente com câncer tem apenas uma chance: a primeira! Nesta, se houver erro diagnóstico por parte do médico ou atraso no diagnóstico da doença, atrasando conseqüentemente o encaminhamento e tomada de conduta, pode-se perder a oportunidade de ouro do diagnóstico precoce.

Nos três primeiros itens a voluntária tem importante papel, até que a paciente chegue ao Hospital de referência. A conduta cabe ao médico, mas após tal conduta, o voluntariado volta a ter seu lugar, pois tem sido fundamental junto as pacientes sofredoras de tal patologia.

O paciente costuma evitar saber e conhecer a sua doença, por receio ou medo. Mas, tem o direito de saber o estado da sua doença. Costuma duvidar do diagnóstico, e freqüentemente, perguntas como “Como foi feito o exame (que confirmou o diagnóstico)? Está correto? Não houve troca? O Serviço é confiável?” são realizadas no serviço de Jaú.

A notícia do câncer pode ser seguida de sentimentos como “revolta”, “barganha”, “depressão”, “rejeição”. Para todas essas situações a voluntária deve estar atenta. Normalmente a paciente pede “garantias de vida” ao médico ou até simplesmente tem preocupação com o aspecto externo da cirurgia (“como ficará a cicatriz?”).

Mas, é nas recidivas da doença, por metástases, é que o apoio se faz ainda mais importante, pois a pergunta que mais se ouve das pacientes é “quanto tempo tenho de vida?”

CÂNCER DE VULVA:

Importante dar importância ao aparecimento de prurido vulvar, pois normalmente a paciente a negligencia, pois costuma ser recorrente. É mais comum na faixa de 55 a 70 anos de idade. Pode dar sangramento na calcinha.

CÂNCER DE OVÁRIO:

Sério, por não dar aviso prévio, e levar a óbito todas as pacientes que acomete. Importância de ultrassonografia anual. Quando chegar a dar um aumento abdominal muito grande, ou mesmo ascite (presença de líquido na cavidade) já está em fase avançada.

Costuma dar flatulência, gases, desconforto pós-prandial (após as refeições), e erroneamente ser interpretado como sintomas gastrintestinais, e a paciente ser conduzida ao Gastroenterologista, que chega até a fazer investigação endoscópica (Endoscopia Digestiva Alta ou mesmo Colonoscopia), sem sucesso, medicada com medicação sintomática, e encerrando-se o caso.

UMA PALAVRA SOBRE “ENDOMETRIOSE”:

Doença caracterizada pela presença de focos de endométrio fora da sua localização habitual, ou seja, dentro da cavidade uterina (endométrio é a membrana que reveste esse cavidade, e é a que descama na menstruação).

Apresenta-se como dor às menstruações, menstruações violentamente dolorosas, com muito volume de sangue, emagrecimento, dor em peso nas regiões baixas do abdome, e reto-anais, com dor às evacuações nos períodos menstruais. De acordo com a localização desses focos ectópicos do endométrio, se dará a localização da dor a ser apresentada pela paciente.

Na literatura médica a sua importância se dá também pelo fato de poder levar a 4% de malignização. Na experiência dos colegas de Jaú a incidência é “bem” maior (mas não aferida até o momento), e também pelo achado de Tumor Ovariano dentro da lesão endometriótica em pacientes jovens. No referido serviço achou-se endometriomas em amídalas (paciente com clínica de “amigdalites de repetição” concomitantemente aos períodos menstruais), e em traquéia e cordas vocais (tosse seguida de expectoração sanguinolenta às menstruações).

Adamantina, SP, 07 de junho de 2003.

 

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